Pequim
http://jornal.publico.clix.pt/
14.04.2008, Helena Geraldes
Há fábricas a abrandar a produção, obras de construção paradas e automóveis retirados das estradas. Pequim sustém a respiração para dar ar limpo aos Jogos Olímpicos. E à China um pretexto para a sustentabilidade
Já se sabe que não vai chover no dia da cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos, no estádio de 91 mil lugares, sem cobertura. Não porque se consiga prever, mas porque os chineses assim o querem. Segundo o Instituto de Pequim para a Alteração do Clima, existem 50 por cento de probabilidades de chover a 8 de Agosto, dia do arranque das provas olímpicas, em plena estação das chuvas no Norte da Ásia. Já que não podem evitar que os Jogos Olímpicos se realizem nesta época (de 8 a 24 de Agosto), as autoridades chinesas incumbiram uma vasta equipa de cientistas de aperfeiçoar as técnicas para dispersar as nuvens ou antecipar a chuva. Por exemplo, para fazer com que chova apenas de noite. Mas estas fórmulas apenas conseguem produzir efeito numa área reduzida e com aguaceiros. Se cair água a potes, admitem, não há mesmo nada a fazer.
A tentativa de controlar a natureza não pára aqui e alastra-se às flores. Uma equipa de cientistas dedicou-se meses ao cruzamento de determinadas variedades de crisântemos para os fazer florir durante os Jogos.
Mas longe de ser uma extravagância ou capricho, o desafio olímpico em Pequim, uma das cidades mais poluídas do mundo, com 17,4 milhões de habitantes, é uma necessidade. Para o bem-estar dos atletas que vão competir pelas 302 medalhas de ouro e para os próprios chineses, que atravessam um boom industrial sentados em cima de uma bomba-relógio poluente. No país que se tornou a "fábrica do mundo" - para onde são relocalizadas indústrias manufactureiras ocidentais devido aos baixos custos de produção -, a poluição do ar nas cidades causa, anualmente, cerca de 400 mil mortes prematuras e a má qualidade da água mais de 60 mil, segundo um relatório do Banco Mundial de 2007.
As vozes críticas dizem que as medidas aplicadas vão mascarar durante as duas semanas dos Jogos Olímpicos a poluição de Pequim. O comité que apresentou a candidatura chinesa argumenta que os Jogos deixarão "o maior legado ambiental de sempre".
Nick Nuttall, porta-voz do Programa das Nações Unidas para o Ambiente (PNUA), não vai tão longe mas acredita que a organização dos Jogos Olímpicos "está a provar ser um catalisador para acelerar as melhorias ambientais na capital, numa altura em que Pequim se esforça para equilibrar o rápido crescimento económico e a protecção da saúde e do ambiente".
"Parece que os mais de 12 mil milhões de dólares [7700 milhões de euros] investidos pelo município e Governo estão a ser bem gastos", comentou ao P2.
Indústrias suspensas
A estratégia de Pequim - a segunda maior cidade chinesa, depois de Xangai - tem dez anos e foram escritas 200 grandes medidas para tornar a cidade um local onde o ar é puro, a água limpa e há muito mais verde.
Mas a tarefa não é simples. Pequim, cidade onde entram diariamente 1200 novos automóveis, vê-se a braços com as emissões das suas fábricas - de metais, produtos químicos, pasta de papel e produção de energia -, com os gases poluentes vindos das fábricas das províncias vizinhas e com as tempestades de areia, causadas pelo pó da erosão dos desertos na zona Norte da China. O Comité Olímpico Internacional já admitiu que a poluição do ar pode adiar competições mais longas, como a maratona.
O teste à estratégia para combater a poluição do ar chama-se "Céu Azul", um conceito inventado em 1998 por Pequim para monitorizar a concentração de determinados poluentes na atmosfera com o objectivo de ter 245 dias "limpos" por ano, ou seja, obter níveis de poluição que não ponham em risco a saúde humana. No entanto, esta avaliação deixa de fora o ozono ao nível do solo, um dos principais poluentes.
Para conseguir ar puro durante os Jogos Olímpicos, Pequim decidiu restringir a circulação automóvel e promover os transportes públicos, suspender os trabalhos de construção (de 25 de Julho a 17 de Setembro), abrandar a produção em algumas fábricas e encerrar as mais poluidoras.
A cidade já multou mais de 7400 estaleiros pela falta de controlo do pó e emitiu mais de quatro mil multas pela realização de churrascos ilegais ao ar livre e queima de lixo não autorizada.
Em Fevereiro, as autoridades ordenaram a redução da poluição industrial por dois meses, a partir do final de Julho, na capital e em cinco províncias vizinhas, altamente industrializadas: Tianjin, Hebei, Shanxi, Shandong e Mongólia Interior.
O plano ambiental de Pequim inclui ainda a deslocação de 200 unidades fabris do centro da cidade - como a central de Shougang, o quarto maior fabricante de aço do país, que será transferida para a ilha de Caofeidian, na província de Hebei -, o encerramento e recuperação ambiental de 80 minas até ao final do ano, a construção de quatro centrais de tratamento de resíduos até 2010, a criação de uma cintura verde que inclui o Parque Florestal Olímpico com 580 hectares e a instalação de 33 turbinas eólicas para fornecer electricidade a Pequim.
Na Aldeia Olímpica, que cobre uma área total de 27,5 hectares, a climatização das habitações é feita a partir de energias renováveis. Nas ruas, os candeeiros são alimentados a energia solar e os blocos do pavimento são permeáveis para permitir recolher e reutilizar a água da chuva. Os estádios onde decorrerão as provas, doze dos quais construídos de raiz, foram dotados de tecnologias que permitem reutilizar águas e aproveitar a luz natural.
Greenpeace China
As Nações Unidas consideram que estas são "excelentes medidas" e acreditam que as tecnologias "limpas" vão continuar para além dos Jogos Olímpicos.
A Greenpeace na China, estrutura criada em 1997 e que conta hoje com 18 mil membros, tem uma posição mais céptica. Lo Szeping, director de campanhas da organização na China, saúda a aposta nas energias renováveis, mas diz que Pequim podia ter feito mais. "Muitas das suas orientações para a construção [das infra-estruturas olímpicas], ainda que bem-intencionadas, são de aplicação apenas voluntária. O que significa que alguns materiais usados, como as madeiras, podem não cumprir os padrões ambientais desejados."
Na opinião de Nick Nuttall, do PNUA, Pequim podia ter conseguido mais melhorias na área dos transportes públicos: "O Metropolitano de Pequim tem capacidade para transportar 19 milhões de passageiros por dia. Mas é pouco utilizado, registando uma média de 8,9 milhões de pessoas por dia."
Andres Liebenthal, conselheiro para o Ambiente do Banco Mundial para a China, admite que nem todas as medidas aplicadas se vão manter. "Algumas das estruturas de saneamento básico que estão a ser construídas permanecerão a longo prazo. Mas algumas das medidas de controlo da poluição do ar, como as restrições à utilização dos automóveis e das emissões industriais, são só temporárias", contou ao P2, lembrando que os maiores desafios ambientais da China são a poluição do ar e da água e as alterações climáticas.
Apesar disso, Liebenthal acredita que os Jogos podem significar o início de uma nova era para o desenvolvimento sustentável daquele país.
"É importante que os Jogos Olímpicos sejam o mais verdes possível. Mas é ainda mais importante que os impactos ambientais positivos não se limitem a este evento" e se espalhem "pela China para além de 2008", disse o activista Lo Szeping.
Wu Weijia, professor no Instituto de Estudos Urbanos da Universidade de Tsinghua, sublinhou ao New York Times que Pequim se comprometeu com medidas ambientais mas não abrandou o crescimento. Pelo contrário, incentivou um boom de urbanização que pode tornar ilusórios os sucessos ambientais. O investigador prevê que o ritmo de construção em Pequim vai durar mais 20 ou 30 anos.
Andres Liebenthal considera que "está a aumentar a consciencialização para os problemas do ambiente e, por consequência, o seu peso no processo de tomada de decisão".
Lo Szeping concorda: "O público chinês está cada vez mais preocupado com a situação ambiental. O que não surpreende porque as pessoas preocupam-se com o ar que respiram, a água que bebem e os alimentos que comem." Mas, recorda: "O povo chinês ainda não tem os canais necessários para se fazer ouvir. Isto é algo que o Governo devia melhorar. Devia aceitar as pessoas como parte da solução para os problemas ambientais."