"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

quarta-feira, junho 25, 2008

Tentar tudo para que os pandas esqueçam o terramoto

Pandas traumatizados
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25.06.2008


Os pandas da reserva de Wolong já não mostram sinais de pânico, mas o seu futuro preocupa a China. Os tratadores têm intensificado a terapia "do coração amoroso". Tocar, mimar e tentar tudo para que os pandas esqueçam o terramoto. Por Jill Drew


Com um dedo, o homem afaga a pata da panda enquanto ela bebe um preparado de leite de uma tigela de metal. Quando ela termina, abana-lhe a cabeça e tenta limpar-lhe o focinho, mas ela afasta a mão e enrosca-se e rebola para a frente, escondendo a cara. Depois é altura de a panda se voltar e tentar agarrar as botas dele, em mais uma sessão do seu jogo favorito: o de puxar e empurrar. Enquanto vemos Qing Qing a brincar com o seu tratador, Li Guo, é fácil esquecermo-nos do imenso terramoto que teve o seu epicentro a alguns quilómetros desde centro de pesquisa sobre pandas, numa área remota da província de Sichuan. Há apenas um mês, a cria de 16 meses atirou-se em pânico para o colo de Li após um outro tratador a ter tirado do tecto do seu cercado, que abanava de modo instável após ter sido atingido por blocos de pedra do tamanho de camiões.
Mas basta um olhar para as encostas das montanhas para nos recordarmos. Pequenas derrocadas de pedras continuam a atingir os cercados dos pandas ensanduichados num estreito vale, enquanto réplicas do tremor e chuvas intensas desgastam camada após camada de terra crua, expostas em grandes cortes na montanha pelo primeiro terramoto, de uma magnitude de 7,9. Enquanto os geólogos percorrem o vale à procura de um local mais seguro para reconstruir o mais conhecido de todos os centros de turismo e investigação de pandas, os tratadores concentram-se em proteger os animais e em aliviar os seus traumas. Os tratadores utilizam uma espécie de terapia do toque para reconfortar os ursos, que são considerados na China como tesouros nacionais, e no resto do mundo como símbolos da boa vontade chinesa.
E estes esforços estão a dar resultados. Os 47 pandas gigantes que actualmente aqui vivem estão a recuperar o apetite e a voltar aos jogos e às brincadeiras. O som do motor de um carro ou o abanão de uma réplica já não os levam a fugir aterrorizados. Agora, Qing Qing, tal como muitos outros, agarra um punhado de bambu e deita-se de costas para mascar calmamente, com a barriga exposta ao sol. "Ela ficou muito nervosa após o terramoto", afirma Li Guo. "Não gostava que lhe tocassem. Ainda não está tão activa como antes do terramoto, mas cada dia parece melhor."
Zhang Hemin, director da Reserva Natural de Wolong, dedicou os seus últimos 25 anos à protecção dos pandas. Actualmente, tem a seu cargo tanto o centro de investigação sobre pandas como as 4500 pessoas que vivem na zona de Wolong e que agora necessitam de ser reinstaladas dentro dos limites da reserva. Esta comunidade teve sorte: apesar de muitas infra-estruturas terem sido gravemente danificadas, a perda de vidas foi reduzida. Zhang tem esperança de que Wolong, à medida que se vai reconstruindo, se torne um modelo de protecção ambiental e desenvolvimento sustentável de que a China se possa orgulhar. "Nos anos 80, a China era pobre", declara Zhang numa entrevista dada numa tenda de campanha montada na Baixa de Wolong, onde vive com a sua equipa. "Quando dizíamos: 'É preciso proteger os pandas, proteger o ambiente', as pessoas não entendiam. Mas hoje a protecção ambiental está bem entranhada nas cabeças das pessoas."
Nos dias que correm, são necessários muito trabalho duro e coragem para proteger os pandas [Ontem, os media da zona, citados pelo South China Morning Post, informavam que todos os pandas iam ser evacuados temporariamente]. A simples recolha de bambu, que constitui mais de 90 por cento da alimentação dos animais, já é um grande desafio. O centro de reprodução costumava trazer de camião a comida para os pandas em cativeiro, deixando o bambu que cresce naturalmente nos 200 mil hectares da reserva para os 150 pandas selvagens que percorrem as suas encostas. Antes, demorava duas ou três horas a transportar o bambu até Wolong, mas o terramoto destruiu a estrada. Agora, um carregamento de 3,5 toneladas de bambu tem que fazer um difícil trajecto, dentro de um contentor refrigerado puxado por um tractor, através de uma estrada traiçoeira que atravessa dois desfiladeiros e é frequentada por cabras e iaques. O transporte do bambu demora nove horas num bom dia, quando a chuva não é forte.
Coração amoroso
Os desmoronamentos de terras e pedras são também um perigo. A 17 de Maio, cinco dias após o terramoto, um deslizamento esmagou a vedação de um cercado e a sua ocupante, Xi Xi, fugiu. Zhou Minghua, que é tratador de pandas há 26 anos, percebeu na manhã seguinte que ela tinha escapado. "Foi tão doloroso, nem consigo descrever o que senti", diz ele. "A única coisa que podia fazer era procurá-la." Na noite de 25 de Maio, uma equipa avistou um panda numa zona rochosa a menos de dois quilómetros do centro de reprodução. Ao amanhecer do dia seguinte, dois grupos de salvamento saíram em busca de Xi Xi e, através do rasto das suas fezes e urina, conseguiram encontrá-la duas horas depois. Estava desconfiada, pelo que tiveram que a anestesiar com um dardo tranquilizante. Fugiu em pânico mas foi abrandando à medida que o sedativo começava a fazer efeito. Cambaleou e caiu numa fenda com cerca de seis metros. A equipa de salvamento usou cordas para a retirar do buraco, e depois chamou uma brigada da polícia para ajudar a carregar a ursa de 130 quilos pela íngreme encosta, de volta ao centro.
Pelas contas de Zhou, ao todo estiveram envolvidas 100 pessoas no salvamento de Xi Xi. Enquanto o calmante ia desaparecendo, Zhou embalou-a, gentilmente chamou-a pelo nome e disse-lhe para não ter medo. Deu-lhe pedaços de bambu e pão, que ela gradualmente começou a comer. E a comer. E a comer. "Parece que tudo estava a voltar ao normal", lembra Zhou. A técnica que o tratador utilizou é o que o director Zhang chama "técnica do coração amoroso", uma espécie de terapia que começou a utilizar nos pandas em 2005. "Disse à minha equipa para lhes tocarem, para os mimarem, para lhes falarem suavemente", conta Zhang. "Então eles terão confiança em nós e acalmar-se-ão."
Zhang introduziu esta terapia como uma forma de reduzir as doses de calmantes necessários quando a sua equipa retira sangue para análises ou realiza testes nos pandas de cativeiro. Agora, as jaulas estão equipadas com descansos para os braços, e os pandas são treinados para estenderem os braços para receberem carícias enquanto são alimentados. Estas carícias, quando aplicadas durante os procedimentos médicos, já reduziram as doses de sedativos utilizados para um décimo, segundo afirma o director. Actualmente, os tratadores aplicam a "técnica do coração amoroso" para ajudarem a acalmar os pandas traumatizados pelo terramoto. Até terem cerca de dois anos de idade, pode-se abraçar e brincar com as crias de panda, embora as suas travessuras possam ocasionalmente causar algumas feridas. Já o tamanho e a força de um panda gigante adulto impedem contactos sem protecção, e os tratadores fazem a maior parte dos afagos e conversas com os animais adultos através das barras das jaulas ou atrás de um vidro de protecção.
Cada um dos 38 tratadores do centro de reprodução tem a seu cargo um ou dois pandas, que tratam como se fossem irmãos mais novos. De facto, um dia na creche para pandas ao ar livre - equipada com baloiços, escorregas, um balancé e um cavalo de plástico amarelo para trepar - parece-se muito com uma saída de crianças e pais ao parque da cidade. "Brincamos muito com eles, tentamos que eles se sintam descontraídos", diz o tratador Wei Ming.
Esmagadas pelo medo
Nos dias que se seguiram ao terramoto, "eles estavam realmente muito sensíveis ao barulho e estavam muito nervosos". "Agora estão muito melhores", assegura Wei enquanto se debate com um panda que lhe tenta morder o joelho.
Depois de evacuarem as dúzias de turistas que se encontravam no centro na tarde do terramoto, os tratadores correram de volta para socorrer os pandas. Nenhuma das catorze crias estava ferida, mas os tratadores encontraram algumas a tremer em cima de árvores e outras deitadas, quietas e silenciosas, no estrado de um ginásio para alpinistas - sinal de que estavam esmagadas pelo medo. Carregaram cada uma das crias para fora do ginásio, colocaram-nas num autocarro e levaram-nas para a cidade de Wolong, onde os ursos e os seus tratadores passaram a noite. As crias foram devolvidas ao centro de reprodução no dia seguinte, quando foi decidido que a área da creche estava relativamente segura. Os pandas adultos cujos cercados haviam sido danificados foram colocados em jaulas e passaram a primeira noite no exterior do principal escritório do centro. Mais tarde, foram transferidos para cercados localizados mais longe dos deslizamentos de terras.
Uma panda do centro, Mao Mao, de nove anos, morreu durante o terramoto. O seu tratador, He Changgui, recorda: "Os olhos delas conseguiam falar. Ela dava-se muito bem com os seres humanos." O seu coração parou quando, semanas após a catástrofe, trabalhadores descobriram pêlos de panda enquanto escavavam por baixo das paredes desabadas do cercado de Mao Mao. "Tinha esperança de que não a conseguiríamos encontrar, o que seria um bom sinal, sinal de que ela teria fugido para o exterior, para viver no mundo selvagem", diz He Changgui. A panda havia acasalado antes do terramoto, e apesar de ser ainda muito cedo para saber se ela efectivamente chegou a ficar grávida, o tratador tinha esperanças de que isso pudesse ter acontecido. Mao Mao foi enterrada poucos dias depois.
Habitat muito afectado
Perder um panda pode parecer de pouca importância num terramoto que devastou cidades inteiras, rachou montanhas e causou mais de 85 mil mortos ou desaparecidos, mas o efeito do tremor de terra na precária população de pandas é ainda desconhecido. Com uma baixa taxa de natalidade e uma escassa população - estima-se que vivam menos de dois mil pandas em liberdade e cerca de 230 em cativeiro -, as hipóteses de sobrevivência da espécie são reduzidas. O terramoto ocorreu em plena época de acasalamento e passou mesmo pela principal zona do habitat do panda selvagem.
Zhang organizou uma expedição que em breve partirá para quantificar o impacto do terramoto nos 150 pandas selvagens que vivem na reserva. As primeiras estimativas dos serviços florestais da China indicam que mais de 80 por cento do habitat dos pandas foi afectado e 10 por cento terá mesmo ficado destruído. No entanto, o director da reserva dá graças pelo facto de a destruição no centro de pesquisa não ter sido maior. Das 40 pessoas que morreram durante o terramoto na área de Wolong, cinco eram elementos da sua equipa - nenhum deles se encontrava então no centro. Nenhum turista se feriu, e apenas morreu um dos 63 pandas que aí se encontravam. Um outro, Xiao Xiao, continua desaparecido.
O tratador de Qing Qing, Li Guo, fecha o cercado onde o animal que tem à sua guarda passa a noite, certificando-se de que ela tem bambu suficiente para uma ceia. "Para se ser um bom tratador, tem que se pensar do ponto de vista do animal", afirma Li. "Tem que se tratar o panda como um amigo." Como uma criança, exausta após lutar com o tratador ao longo de todo o trajecto até entrar na sua jaula, Qing Qing enrola-se na sua cama e em menos de um minuto está a dormir.

Exclusivo PÚBLICO/
The Washington Post