"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

sexta-feira, junho 05, 2009

Tio-avô de Obama que ajudou a libertar o cam po de Buchenwald diz que visita do sobrinho é sobre tudo política
http://jornal.publico.clix.pt/
05.06.2009, Maria João Guimarães




A Na Alemanha, Obama vai visitar o campo de trabalho forçado de Ohrdruf, que o seu tio-avô ajudou a libertar. Mas Charles Payne, 84 anos, não o acompanha nesta parte da visita. Talvez seja por, como disse numa entrevista à revista Der Spiegel, a paragem de Obama neste local não ter nada a ver consigo. "Escolheu esta viagem não por minha causa, claro, será por razões políticas."
Ou porque Payne prefere não recordar os "horrores" que viu na Alemanha em Abril de 1945: pessoas só pele e osso a morrer de fome, os cadáveres em pilhas no campo.
Payne deverá é estar presente na nas comemorações do desembarque dos Aliados na Normandia, em 1945. "Não sei se queria passar por isso", disse citado pelo Los Angeles Times. "Este é o aniversário de um evento heróico, e acho que pode ser agradável. Não acho que visitar um campo de concentração possa alguma vez ser agradável."
Charles Payne é irmão da avó de Obama, Madelyn, que morreu dias antes de ver o neto ser eleito o primeiro Presidente negro dos EUA.
A primeira vez que o tio-avô de Obama foi catapultado para o espaço público foi quando, no Memorial Day de 2008, Obama disse que ele tinha ajudado a libertar Auschwitz. "Nunca tínhamos falado desse episódio da guerra", conta Payne.
"A minha irmã e o marido eram ambos grandes contadores de histórias e às vezes inventavam alguns detalhes. Eles falaram-lhe da minha deslocação com a divisão de Infantaria 89 e devem ter confundido alguns detalhes. Claro que se soube imediatamente que eles se tinham enganado, porque há suficientes pessoas na América que sabem que Auschwitz é no Leste e que o campo foi libertado pelo Exército Vermelho."
Só depois desta confusão é que Obama e o tio-avô falaram sobre a sua experiência na libertação de um campo. "Contei-lhe que era em Ohrdruf, que era um subcampo do campo de concentração de Buchenwald. Descrevi um pouco do que tinha visto", conta, ainda na entrevista à Spiegel. Em Buchenwald morreram 56 mil pessoas.
"Já foi há muito tempo e até Barack se enganar eu não tinha pensado em nada disto por muito, muito tempo", disse Payne, agora reformado. "Prefiro não pensar [no que lá se passou]", concluiu.
Payne lembra-se sim de andar pela Europa numa unidade de Infantaria (era daltónico, portanto não o aceitaram na Força Aérea nem na Marinha) e de não saber onde estava. "Nós, os soldados de escalões mais baixos, não podíamos ter mapas ou guias, nada, para que, se fôssemos capturados, não pudéssemos dar informação ao inimigo", recorda. "Detestava isso, porque gosto de andar orientado."