Omar Khadr
A última criança-soldado de Guantánamo faz hoje 23 anos
http://jornal.publico.clix.pt/noticia/19-09-2009/a-ultima-criancasoldado-de-guantanamo-faz-hoje-23-anos-17842616.htm
Viveu a infância e o início da adolescência entre o Paquistão, o Canadá e temporadas em campos afegãos onde conheceu Bin Laden e brincou com os filhos dele e do seu "número dois", Ayman al-Zahawiri. Quando o pai lhe disse que era uma honra morrer mártir, respondeu que o seu paraíso seria uma piscina de gelatina. Está preso desde os 15 anos. Por Sofia Lorena
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Quando nasceu, a mãe pensou que era um milagre. Um parto santo, rápido e indolor, um bebé saudável, tranquilo. E ela não esperava por nada assim, fácil, naquela manhã em que devia ter levado o filho de 19 meses para uma cirurgia ao coração num hospital de Toronto e acabou na cama de outro hospital a dar à luz. Aquele não era mais um, tornou-se logo ali o seu favorito. O seu nome seria Omar mas ela ia tratá-lo por Yasser, qualquer coisa como "conforto" ou "alívio".
Ibrahim, o irmão que sobrevivera à operação a 19 de Setembro de 1986, só viveu mais dois anos. Omar foi durante 15 anos o "conforto" da mãe, Maha Elsamnah, dos irmãos mais velhos, Zaynab, Abdurahman e Abdullah, e de Abdul Kareem e Maryam, os mais novos dos filhos Khadr. E foi a alegria dos avós maternos e do pai, Ahmed Said Khadr. "Omar é a nossa mãe e o nosso pai, a nossa irmã e o nosso irmão. Cozinha as nossas refeições e trata da nossa roupa. Às vezes pergunto à vossa mãe, 'Tens a certeza de que ele é nosso? Ele é demasiado bom para ser nosso'", diria um dia Ahmed Said sobre o filho adolescente.
Omar nasceu há exactamente 23 anos e esta é a sétima vez que faz anos em Guantánamo. O aniversário anterior passou-o em Bagram, a prisão dos arredores de Cabul. Entretanto, ganhou centímetros, alguns quilos e barba, mas disso só sabemos pelos desenhos das comissões militares de Guantánamo e pelas descrições de advogados que o representaram e de jornalistas que assistiram a essas audiências. A fotografia mais recente do seu rosto continua a ser aquela que a família distribuiu pelos media, um rapaz de 12 ou 13 anos, cabelo curto e olhos bem abertos, sobrancelhas grossas, buço adolescente.
Os que o conheceram ao longo destes últimos anos, quase um terço da sua vida, viram-no ganhar altura, bigode e barba, mas não sabem dizer se Omar ainda é bom e terno, disponível, o ouvinte perfeito que por saber guardar segredos se tornou no melhor amigo da irmã mais velha, o anjo da guarda da família que cozinhava o prato preferido de quem estivesse triste ou preocupado. Os diferentes advogados que a custo conseguiram autorizações de visita para depois perceberem que quase tão difícil seria aproximarem-se dele, ganhar a sua confiança, temem pelo seu presente e pelo seu futuro.
Dennis Edney, um dos seus advogados canadianos, conheceu-o em 2007, quatro anos depois de ter começado a tentar lutar por ele no Canadá. No fim desse primeiro encontro, disse-lhe: "Tens de ter esperança, Omar. Sem esperança, todos morremos." Omar respondeu que não ia desistir de Edney e acrescentou: "Mas tu vais desistir de mim. Toda a gente desiste."
"Penso que ele está perdido. Não sei se o consigo trazer de volta", lamentou dias mais tarde o advogado em conversa com a jornalista Michelle Shephard, autora do livro Guantanamo's Child.
"Temo que a tua mente esteja a ficar em papa", dissera Muneer Ahmad a Omar meses antes. Ahmad foi um dos advogados americanos de Omar, os primeiros que puderam vê-lo em Guantánamo e que durante dois anos o visitaram todas as vezes que puderam e acabaram sempre essas visitas com um abraço. Esse encontro no Outono de 2006 foi o último - Omar despediu os americanos e agarrou-se à exigência de ter advogados canadianos. Ele é o único ocidental em Guantánamo e o Canadá o único país ocidental que nunca tentou a repatriação de um cidadão seu na base da baía de Cuba. Mas para Omar, Canadá continua a ser sinónimo de salvação.
Era para o Canadá que a mãe voava de cada vez que ia ter um filho, sempre que alguém estava doente ou gravemente ferido, como o pai ficou em 1992 depois de pisar uma mina ou ser atingido por uma bomba num campo de refugiados, não se sabe ao certo. E era no Canadá que Omar tinha o conforto que nunca existiu nas suas casas de Peshawar, Jalalabad, Khost, Logar ou Cabul. Os desenhos animados na televisão. A gelatina Jell-O de que tanto gostava: quando o pai, cada vez mais devoto e radicalizado, ensinou aos filhos que se morressem mártires teriam à sua espera um paraíso feito à medida dos seus gostos, Omar decidiu que o seu seria uma piscina de Jell-O.
De Otava à jihad
Quando Maha Elsamnah conheceu Ahmed Said, num campo de Verão para jovens muçulmanos no lago Erie em 1977, provavelmente contava passar o resto da sua vida no Canadá. Aquele que depressa se tornaria no seu noivo estava a formar-se em Engenharia na Universidade de Otava e foi na capital que o casal iniciou a sua vida. Os dois tinham nascido no Egipto, os dois tinham cidadania canadiana.
Mas a história da família, que acabaria conhecida como "a primeira família terrorista do Canadá" ou "família Al-Qaeda", estava apenas a começar. Nos anos seguintes, o pai seria assaltado por dúvidas crescentes sobre a sua opção profissional e sobre a escolha de viver no Ocidente. O último ano da década de 1970 foi traumático para os muçulmanos um pouco por todo o mundo, com a invasão soviética do Afeganistão a suceder-se à Revolução Islâmica no Irão. E Ahmed Said Khadr convenceu-se de que era a sua missão ajudar os mujahedin que combatiam os comunistas e aligeirar o sofrimento das viúvas e dos órfãos afegãos.
De engenheiro, Khadr passou num ápice a angariador de fundos para as vítimas afegãs, trabalhando em diferentes organizações humanitárias, viajando entre o Paquistão e o Canadá, onde dava entrevistas a alertar para a tragédia afegã e reunia fundos. Em 1985, já a família estava instalada num apartamento de Peshawar por cima da Sociedade do Crescente Vermelho Kuwaitiano. Com água corrente, mas sem electricidade, partilhando a casa de banho com os restantes inquilinos e passando, como eles, por um pátio repleto de moscas e pó para lá chegar. Não era a vida que Maha Elsamnah tinha imaginado, mas tão fervoroso era o marido face à causa que abraçara que ela, aos poucos, foi fazendo sua a causa dele e começou a ajudar em orfanatos, mesmo quando tinha de levar consigo os filhos que ainda amamentava.
Quando Omar nasceu, o novo rumo da família estava traçado. Como os outros, ele nasceu num hospital canadiano, mas o Canadá foi sempre a casa da qual tinha saudades quando estava longe. Mesmo se a ela voltava com frequência, para visitar os avós, permanecendo durante as férias ou até cerca de um ano, quando o pai foi ferido.
Se o futuro dos Khadr não estava ainda definido completamente, depressa ficou. No mesmo ano em que Omar nasceu, o pai conheceu Ayman al-Zawahiri, o "número dois" da Al-Qaeda. A amizade com o egípcio alimentou no patriarca dos Khadr o sonho de um governo islâmico e aproximou-o dos radicais que, em vez de deixarem o Paquistão e o Afeganistão depois da retirada soviética, se reinventaram reclamando para si o direito de atacar países ocidentais e de tentar derrubar os seus aliados "hereges" no Médio Oriente.
Guerra das estrelas
A família Khadr seria uma das que nunca partiram. Como todos na família, Omar terá aprendido a disparar. Mas não há registo de que tenha recebido treino militar nos campos da Al-Qaeda no Afeganistão, ao contrário dos seus dois irmãos mais velhos. Miúdos, Abdurahman e Abdullah não ficaram conhecidos nestes campos por terem especiais apetências militares, mas antes pelo hábito de discutirem e andarem à pancada até apontarem armas um ao outro e alguém intervir para os separar.
Omar também terá visitado alguns dos campos por onde os irmãos foram passando, por insistência do pai. Khalden, Deronta, Khost e até Al-Farouk, o orgulho de Bin Laden. Os rapazes até inventaram alcunhas para os campos: a Najm al-Jihad, ou "estrela da guerra santa", o complexo de Jalalabad onde Osama se instalou quando regressou de vez ao Afeganistão, os Khadr preferiam chamar Guerra das Estrelas.
Talvez porque mesmo nas montanhas ou nos desertos do Afeganistão, os Khadr, todos eles, nunca deixaram de ser conhecidos como os Al-Kanadi, os canadianos que alguns próximos de Osama consideravam demasiado ocidentais para poderem ser confiáveis. E até Ahmed Said, o mesmo que falava aos filhos do orgulho do martírio, só tarde deixou de ler a Omar As Aventuras de Tintin onde o "bom filho", como lhe chamavam os outros irmãos, se inspirava para repetidas imitações do capitão Haddock.
Como "bom filho", Omar assumiu a responsabilidade de tomar conta das mulheres da família quando os acontecimentos no Afeganistão obrigaram os Khadr a separar-se e a fugir repetidas vezes. No 11 de Setembro estavam em Cabul e dali fugiram quando as bombas americanas estavam prestes a começar a cair, três semanas depois. Na confusão, os Khadr perderam Abdurahman, que foi preso e mais tarde viria a colaborar com os EUA. Depois disso, os Khadr continuam em movimento constante, com Omar sempre perto da mãe e das irmãs, por fim refugiadas no Waziristão do Sul, terra paquistanesa junto à fronteira, e as visitas do pai cada vez mais escassas.
Pulseiras e uma granada
"Omar passava quase todo o dia a desenhar ou a fazer pulseiras e colares de contas para a mãe e a irmã pequena [Maryam]. Um dia começou a coser contas às roupas e depressa quase toda a roupa da mãe e da irmã estava adornada com os seus trabalhos. Mas Omar estava cada vez mais agitado e queria viajar com os outros rapazes e homens", descreve Michelle Shephard no seu livro. E no início do Verão de 2002, aos 15 anos, começou a fazê-lo, segundo explicou o pai à mãe desgostosa, para ajudar os seus associados árabes como intérprete, já que ao contrário destes falava pashtun.
Foi curta a experiência do "filho bom" dos Khadr nas viagens dos homens próximos da Al-Qaeda que por aquela altura se aventuravam no Afeganistão.
Omar não vê nenhum dos seus familiares desde o dia 27 de Julho em que acabou com dois buracos no peito, único sobrevivente das bombas que helicópteros Apache, caça A-10 Warthog e dois F-18 largaram sobre o edifício em que um grupo de alegados membros e apoiantes da Al-Qaeda se barricara cercado por dezenas de militares norte-americanos. Com as bombas dos F-18 o edifício por fim cedeu. Mas dos escombros ainda foi lançada uma granada que matou o soldado Christopher Speer. Como único sobrevivente, Omar foi o único acusado.
Em Fevereiro de 2008, numa das audiências pré-julgamento de Omar, um documento citando o testemunho de um militar (identificado como OC-1) que participara nessa operação foi distribuído por engano aos jornalistas. "Ele ouviu gemidos vindos da parte de trás do complexo. O pó subia e começou a desaparecer e então ele viu um homem de frente para ele deitado... Tinha uma AK-47 no chão ao lado dele e estava a mover-se. OC-1 disparou atingindo-o na cabeça e o movimento cessou. O pó voltou trazido pelos novos disparos. E quando voltou a levantar, ele viu um segundo homem sentado de frente para ele, inclinado. Este homem, depois identificado como Khadr, estava a mover-se... OC-1 disparou dois e atingiu Khadr nas costas."
Ou seja, houve dois sobreviventes ao raide aéreo e não é certo que tenha sido Omar a lançar a granada que matou Speer. Certo é que Speer morreu e que a "guerra ao terrorismo" roubou a vida de Omar desde então.
O "bom filho" acabou por pagar o preço mais alto de todos os filhos Khadr. O pai foi entretanto morto por forças paquistanesas num raide que deixou paralisado o irmão mais novo de Omar, Kareem, em Outubro de 2003. Abdullah está preso. Abdurahman vive em liberdade no Canadá, onde também estão a mãe de Omar, o irmão Kareem, a irmã Zaynab e a filha desta.
Ajudem-me, matem-me
Omar está em Guantánamo, onde se sabe que foi sujeito a períodos longos de isolamento, agrilhoado em posições de stress até urinar e o seu corpo ser usado para limpar o chão ou ameaçado de violação. O ano passado, os seus advogados canadianos conseguiram que um juiz ordenasse a divulgação do vídeo de um interrogatório que membros dos serviços secretos do Canadá lhe fizeram em 2003. São as únicas imagens de um interrogatório em Guantánamo conhecidas e as únicas de Omar desde os seus 15 anos, com excepção dos desenhos das audiências. De uniforme cor-de-laranja, Omar chora e geme, mostra as feridas que tem no estômago e nas costas e pede "Ajudem-me", mas também "Matem-me".
Ao mesmo tempo que ordenou a divulgação do vídeo, a justiça canadiana fez o mesmo em relação a outros documentos na posse das autoridades de Otava. Há um relatório em que um dos interrogadores canadianos descreve Omar como um "jovem profundamente destruído" e afirma que "todas as pessoas que estiveram em posições de autoridade sobre ele abusaram da sua confiança" - "pais e avós, os associados no Afeganistão, outros detidos no Campo Delta [um dos vários em que esteve em Guantánamo] e os militares dos EUA".
Nos anos a seguir ao interrogatório dos canadianos, em 2003 e 2004, os dois advogados americanos de Omar administraram-lhe dois testes psicológicos, cujos resultados entregaram aos psicólogos que antes tinham tentado sem resultados levar até Guantánamo. Erin Trupin, que estuda os efeitos da prisão nos adolescentes, concluiu existirem "grandes probabilidades" de que Omar sofresse de "distúrbio mental significativo, incluindo depressão e perturbações de stress pós-traumático" mas possivelmente outros, e considerou que ele tinha sintomas habituais "nas vítimas de tortura e abuso". "O impacto num adolescente que esteve isolado durante dois anos e meio é potencialmente catastrófico para o seu desenvolvimento. Consequências de longo prazo do confinamento continuado são mais pronunciadas para os adolescentes e mais difíceis de remediar, mesmo quando esse confinamento termina."
Edney, o advogado canadiano, prometeu a Omar que quando ele finalmente for libertado o vai levar para o seu retiro junto a um lago no Ocidente do Canadá. E ainda não desistiu dele. Quinta-feira estará num restaurante em Kamloops, na Colúmbia Britânica, para angariar fundos para sua defesa. E a 17 de Novembro vai estar no Supremo Tribunal canadiano para tentar obrigar o Governo de Otava a pedir finalmente a extradição de Omar, que em Guantánamo é não só o último ocidental como o último dos que ali entraram ainda crianças.

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