"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

sexta-feira, setembro 04, 2009

Não se preocupem, o interesse das crianças pela nudez é normal
http://jornal.publico.clix.pt/noticia/04-09-2009/nao-se-preocupem-o-interesse--das-criancas-pela-nudez-e-normal-17718619.htm
Por Margaret Shapiro

Novo estudo quer ajudar pediatras e pais a responder a algumas dúvidas. Quais são os comportamentos normais e os que devem causar preocupação


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Os pais não se devem preocupar quando os seus filhos mais novos se tocam, parecem interessar-se pela nudez ou se sentam demasiado perto de outras pessoas, desde que estes comportamentos não ocorram muitas vezes e que as crianças possam ser levadas a pensar em outras coisas, de acordo com um recente estudo da Academia Americana de Pediatria.

Por outro lado, as crianças que de forma evidente reproduzem actos sexuais íntimos, se envolvem em brincadeiras de cariz sexual com outras de idade muito superior ou muito inferior, ou exibem comportamentos muito sexuados, podem necessitar de mais avaliação ou intervenção, de acordo com o estudo publicado esta semana na revista norte-americana Pediatrics.

O relatório completo, que inclui uma tabela de comportamentos "normais, habituais", "menos normais", "pouco habituais" e "raramente normais", está disponível no site da revista (http://aappolicy.appublications.org). Carole Jenny, directora do comité da academia sobre abuso e negligência infantil, que elaborou o documento, afirma que se trata de uma tentativa de ajudar os médicos a responder a questões colocadas por pais e encarregados de educação.

"Existem comportamentos que são claramente normais e existem outros que causam alguma preocupação", diz Carole Jenny. "A questão está em distinguir e ajudar o pediatra a perceber quais os comportamentos que são normais e quais os que necessitam de acompanhamento. Os pediatras têm pedido indicações, e isto é uma tentativa de fornecer algumas indicações."

O relatório centra-se essencialmente em crianças com idades entre os dois e os seis anos.

"Alguns comportamentos que são referidos pelos pais como sendo problemáticos podem ser normais para a criança", avança-se no estudo, e o pediatra pode "tranquilizar" os pais e "acompanhá-los nas respostas apropriadas". Por outro lado, "se os comportamentos sexuais aumentarem, se se tornarem frequentes ou incomodativos, uma avaliação e um tratamento mais aprofundados podem ser necessários".

Por exemplo, o relatório avança que é perfeitamente normal que crianças pequenas se mostrem interessadas em ver irmãos, amigos, ou mesmo adultos despidos. É também normal que crianças destas idades queiram exibir e tocar os seus corpos nus.

De acordo com o estudo, "as crianças em idade pré-escolar são por natureza curiosas e passam por períodos de grande consciência dos ambientes em que se movimentam". "A percepção das diferenças entre os géneros ocorre durante este período e contribui para os olhares curiosos e para os toques nos órgãos genitais de outras crianças. Este comportamento de curiosidade e de procura tende a ocorrer dentro do contexto de outras explorações similares mas de carácter não sexual." Em resultado disto, os pais e encarregados de educação não se devem preocupar com este comportamento, e tanto podem distrair a criança como desencorajá-la.

Por outro lado, crianças que partilham comportamentos sexuais com crianças com uma diferença etária superior a quatro anos (mais velhas ou mais novas), ou que exibem vários comportamentos sexuais todos os dias e que ficam zangadas se forem desviadas desses comportamentos encaixam-se na categoria de "raramente normais" e devem ser examinadas para se perceber o que poderá estar acontecer nas suas casas ou nos outros ambientes das suas vivências.

"Os problemas de comportamento sexual em crianças estão significativamente relacionados com a vida em casas onde existem rupturas devidas a saúde medíocre, actividades criminais ou violência", nota o relatório. "Quanto maior o número de dificuldades na vida diária, maior o número e frequência de comportamentos sexuais observados em crianças."

Entres estes dois extremos, declara Carole Jenny, existe "um razoável leque de comportamentos" que não significam problemas sexuais ou abusos, e a forma como os pais ou encarregados de educação reagem tende a depender das suas atitudes face à vida em geral. "Algumas famílias são muito mais severas com estas coisas. Varia muito de família para família."

O estudo afirma também que "a variedade e frequência de comportamentos sexuais" aumenta nas crianças até aos cinco anos e depois começa a diminuir gradualmente.

No entanto, faz notar que pode acontecer que simplesmente os pais observam mais atentamente os seus filhos até aos cinco anos e que "as crianças mais novas estão menos conscientes das intromissões no espaço pessoal e de como o seu comportamento pode ser considerado como sexual ou impróprio".