o dia a dia até aos 100 anos
"Viver até aos 100 anos não é assim tão fácil; o dia-a-dia é muito penoso"
http://jornal.publico.clix.pt/noticia/29-08-2009/viver-ate-aos-100-anos-nao-e-assim-tao--facil-o-diaadia-e-muito-penoso-17676451.htm
Por Michel Temman
No país onde o voto de amanhã deverá trazer uma mudança de regime, há um tipo de empresas que floresce: as agências que procuram emprego para seniores, como a Mystar 60
Em números
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É a dois passos da estação de comboio de Yurakucho e do bairro de negócios renovado de Marunouchi, pulmão económico da capital. Foi aí que a Mystar 60, uma agência de emprego sénior, fundada em 1990 em Osaka, instalou os seus escritórios de Tóquio. As ruas em redor são colmeias de PME (Pequenas e Médias Empresas) especializadas em serviços, tecnologias, telecomunicações, os sectores que interessam à Mystar 60.
"O nosso Japão envelhece, a idade da reforma diminuiu para os 65 anos, mas muitos homens, qualificados ou não, que não conseguem viver com a reforma, querem trabalhar. Nós ajudamo-los a reencontrar um emprego a tempo inteiro ou parcial", explica Shigeo Hirano, de 65 anos, co-fundador da agência.
Um japonês em cinco já tem mais de 65 anos, cerca de 24 milhões de indivíduos. E, em breve, um japonês em quatro (em 127 milhões de habitantes) terá cabelos brancos. Ao ritmo dos nascimentos actuais, 40 por cento da população estará a festejar os 70 anos em 2055 (em 2010 serão 20 por cento). Um pesadelo sociodemográfico, e um declínio que ao mesmo tempo era de esperar, mas que nenhum dos governos do PDL (Partido Liberal Democrata) que se sucedem há quase cinco décadas conseguiu gerir.
"O trabalho é tudo"
O PDL governa há 50 anos, mas todas as sondagens lhe antecipam uma derrota nas eleições legislativas de amanhã, face ao Partido Democrata do Japão, a principal força da oposição.
No país dos 32 mil centenários, onde a esperança de vida - graças aos chás verde e negro disponíveis para todos e a uma alimentação saudável -, se alarga apesar de já ser a maior do mundo (78 anos entre os homens e 85 para as mulheres japonesas), os fundadores da Mystar 60 sabem que têm dias felizes à sua frente.
Num Japão sobre-endividado, as políticas públicas não são suficientes. Abissal, a dívida do Estado nipónico é a mais pesada dos países industrializados (160 por cento do PIB). Os sistemas públicos de reforma - e de saúde - são muito pesados, sem esperança de reforma a médio prazo.
Daí o surgimento dos "centros de emprego" destinados a uma terceira idade desejosa de acumular pensões de reforma e trabalho para arredondar os fins do mês e manter-se activa. "No nosso país, o trabalho é tudo. É uma virtude. Ir para a reforma é visto como um trauma por muitos. Ajudamos estes antigos assalariados a não desaparecer do campo social e a reencontrar uma utilidade", explica o director do recrutamento Mystar 60.
A cada 15 de Setembro - o dia dos idosos no país -, os que têm mais de 70 e 80 anos não relaxam com os netos. Vêm antes trabalhar num escritório ou atrás de uma fila de máquinas.
"Dez meses de recessão fragilizaram os mais idosos", reconhecem na Pasona, uma outra agência de recrutamento da capital japonesa. Ali, admitem, este país não é terno com a sua terceira idade. A situação é complicada, psicologicamente, para os seniores, que não ignoram que o facto de que, ao continuarem a trabalhar, estão a privar de emprego os mais jovens.
Cerca de dois milhões de pessoas entre os 18 e os 30 anos estão sem emprego estável a tempo inteiro, segundo dados oficiais. O país tem, por outro lado, cerca de 500 mil neet, jovens sem emprego nem formação.
Templo regenerador
Sugamo, um bairro popular do noroeste de Tóquio muito tomado pela terceira idade, é um lugar onde todos os dias há multidões de velhas e velhos que vão honrar Buda nas virtudes regeneradoras do templo Kogan-ji. A maior parte das lojas e bancas é de pessoas idosas forçadas a trabalhar e a vender frutas e legumes, chás, tratamentos capilares, complementos de energia...
Os risos e sorrisos escondem um dia a dia feito de desafios.
Ichiro Nagata, de 85 anos, está no Maruji, uma loja que vende roupa interior vermelha (sinal de boa sorte). Depois de ter acumulado mil pequenos trabalhos e um emprego estável durante 20 anos, a sua reforma é mínima. "Cem mil ienes por mês [740 euros]. Com isso pago o meu alojamento, as minhas contas, o metro, comida, para isso é suficiente. E depois, sabe, eu como pouco, uma taça de arroz, fruta, um pouco de chá, fazem uma refeição", explica.
O velho homem fundou um clube de amizade e um jornal com conselhos para os que querem viver até aos 100 anos. "Viver até aos 100 anos não é assim tão fácil", suspira. "É preciso poder mas também conseguir, porque o dia-a-dia no Japão, sem meios, é muito penoso. Quando não nos queremos suicidar, é um calvário. É preciso manter o moral!" Exclusivo PÚBLICO/Libération

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