"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

terça-feira, dezembro 01, 2009

não devia ter festejado

"Não devia ter festejado"
Thierry Henry acusa federação de o ter abandonado e pensou em deixar a selecção da França.
Exclusivo Expresso/L'Équipe* (www.expresso.pt)
http://aeiou.expresso.pt/nao-devia-ter-festejado=f550433
1 de Dez de 2009 Última actualização há 39 minutos


[FRASE]“Como perdi uma final da Taça em circunstâncias semelhantes sabia bem o que os irlandeses estavam a sentir”, diz Henry
Thierry Henry pesou durante muito tempo os prós e os contras antes de se decidir. Devia ou não falar? Devia deixar o tempo curar as feridas?

Desde a qualificação da selecção da França para o Campeonato do Mundo, depois do seu toque com a mão na bola no jogo do play-off contra a República da Irlanda (1-1), e da sua passagem pela sala de imprensa, as suas únicas palavras tinham vindo num comunicado redigido em inglês, transmitido pelo seu agente e pelo seu advogado, ambos em inglês. E retomado pelas estações de televisão de além-Mancha, BBC e Sky.

Porquê um comunicado em inglês? Confortavelmente instalado no salão da sua casa de Barcelona, o melhor goleador da história da selecção francesa (51 golos), com 32 anos, explicou-se. Sem cólera mas com determinação.

Também contou como chegou a pensar em deixar os Azuis, mas que mudou de ideias. O jogador do Barça não esqueceu as declarações infelizes de alguns nem o apoio tardio da sua Federação. O tempo curará as feridas, sem dúvida. Mas Henry diz que não se esquecerá.

Com um pouco mais de distanciamento, como analisa a polémica de que tem sido alvo?
Tem sido muito duro. Tudo partiu de um facto do jogo para ir parar muito mais longe. Demasiado longe. Ouvi certas pessoas darem lições de moral sobre o assunto, apesar de eu ter pedido desculpa, no campo e fora dele.

Foi o que disse a Richard Dunne no fim do desafio?
Claro. Joguei muitas vezes contra ele. Depois de termos jogado durante mais de seis anos um contra o outro em Inglaterra, achei normal ir pedir-lhe desculpa.

Não fez isso para a fotografia?
Pff... Estou-me nas tintas para a fotografia... Como perdi uma final da Taça em circunstâncias semelhantes (contra o Liverpool, 1-2, em 2001), sabia bem o que os irlandeses estavam a sentir. Assim, o mínimo que podia fazer era pedir-lhe desculpa. E ele aceitou-as.

O que se passou nessa final?
Nesse dia, uma mão de um jogador do Liverpool, o Stéphane Henchoz, sobre a linha não foi assinalada. Foi um facto do jogo. Muitos de nós ficaram decepcionados por o árbitro não ter visto. Mas ninguém ficou zangado com o jogador em questão.

Censuram-no também por ter festejado tão entusiasticamente a qualificação da França...
Podem eventualmente censurar a minha explosão depois do golo. Não devia ter festejado. Mas, francamente, foi incontrolável. Depois de tudo o que tínhamos sofrido... Isso sim, lamento. Foi por isso que logo a seguir fui cumprimentar os irlandeses um a um. E depois não festejámos. Nem mesmo no balneário. As pessoas não deviam andar a dizer disparates.

Sentiu-se apoiado nesta história?
Fora os que me são próximos e as pessoas que me contactaram, não senti qualquer apoio. No dia seguinte ao desafio, e mesmo dois dias depois, senti-me só, verdadeiramente só. Foi apenas depois de ter enviado o meu comunicado para a imprensa que a Federação francesa se manifestou.

Justamente, porque elaborou o comunicado em inglês e não em francês?
O meu advogado e o meu agente são ingleses. E havia urgência, por razões pessoais, que só a mim dizem respeito. Não posso dizer mais nada...

O seu comunicado saiu depois da FIFA ter recusado a repetição do jogo. Porquê?
Trabalhámos neste comunicado com o meu advogado sem saber que a Federação internacional responderia no mesmo dia sobre o assunto. Parti para o treino enquanto o meu advogado dava uma última revisão ao texto. Não estava ao corrente.

Qual foi a reacção que mais o chocou?
Não sei. Em contrapartida, tenho de agradecer a todos os desportistas que me apoiaram. Isso tocou-me profundamente.

Grandes jogadores como Maradona ou Messi marcaram golos com a mão e festejaram-nos. Sente que a reacção ao que se passou consigo foi exagerada?
Num dado momento, acreditei que tinha feito algo de muito grave. Depois do jogo fui a uma conferência de imprensa para dizer que tinha feito mão. Podia muito bem ter evitado e não dizer nada. Mas eu não fujo às minhas responsabilidades.

Alguns desejariam que tivesse falado ao árbitro durante o jogo...
Estava numa situação de onde nunca poderia sair a ganhar.

Chegou a pensar que esta questão pudesse arruinar o fim da sua carreira?
Não. Francamente, não acredito que tudo o que realizei até ao presente fique marcado por um incidente num jogo.

É verdade que pensou em abandonar a equipa de França?
Sim, sem dúvida. Na sexta-feira, quando tudo foi demasiado longe, senti-me muito perturbado. E não foi a primeira vez. Depois do Campeonato do Mundo de 2006, também pensei nisso mas era demasiado cedo. Depois do Euro-2008, igualmente, mas não era o momento. Havia uma geração que precisava de mim. Não foi possível. Apesar de tudo o que acabo de passar, do facto de me sentir abandonado, não deixarei o meu país ficar mal.

O que o fez mudar de opinião?
Reflecti. Havia verdadeiramente matéria para reflectir. Pus em risco o meu futuro no Barça para ir jogar lesionado na selecção. A este respeito, nunca agradecerei suficientemente ao meu treinador (Josep Guardiola) e ao público do Barça pelo seu apoio. Eu não podia dobrar o joelho. Mas era impossível parar quando se ia disputar a qualificação. Sempre vim bater-me pela França. Como um cão. Nunca me furtei à selecção. Tentei sempre responder presente. Sim, foi uma questão que coloquei a mim próprio. Sem o apoio dos meus próximos, talvez não tivesse chegado à mesma conclusão. Mas tomei a minha decisão, vou bater-me até ao fim. Mas o que acabo de passar vai ficar gravado na memória. Pode-se sempre perdoar, mas nem sempre se pode esquecer.

Isso quer dizer que tem algumas contas a ajustar?
Ligarei às pessoas com quem tenho de falar. Julga-se muitas vezes sem ter todos os dados na mão.

Está a pensar em quem?
Não vou citar nomes. Elas sabem de quem estou a falar.

No sábado, sentiu apreensão ao entrar no campo do Bilbao com o seu clube (1-1)?
Não. O público assobiou a minha entrada em jogo mas isso é uma coisa normal. Em contrapartida, todos os treinadores espanhóis me defenderam. Mesmo os jogadores do Barça ficaram chocados com o que se estava a passar em França.

Quer dizer que uma polémica como esta não teria surgido se jogasse noutra selecção?
Não. Não faço ideia e nem quero pensar nisso. Sou francês e orgulhoso de o ser.

*Tradução de Aida Macedo