"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

quinta-feira, janeiro 28, 2010

Descoberta
Dinossauros tinham penas cor de laranja e castanhas
http://dn.sapo.pt/inicio/ciencia/interior.aspx?content_id=1480922

Estudo de terópode que viveu há cem milhões de anos revelou que aqueles répteis tinham uma plumagem colorida.

Cor de laranja, castanho e branco. Eram estas as cores das penas dos dinossauros que existiam há cem milhões de anos. A descoberta é anunciada hoje na revista Nature por um grupo de investigadores que, além de ter "visto" pela primeira vez o colorido da plumagem daqueles répteis gigantes, confirmou que essas estruturas foram as precursoras das penas dos pássaros e que a sua primeira função não teve a ver com o voo.

De acordo com os autores, a investigação abre portas a uma série de questões sobre a história evolutiva das penas e da sua base genética.

Estas primeiras penas não se assemelhavam às dos pássaros modernos, eram mais como pêlos rijos, ou cerdas. Segundo o estudo, que foi realizado por uma equipa de investigadores britânicos, chineses e irlandeses sobre um dinossauro terópode chamado Sinosauropteryx, apenas algumas partes do corpo do animal estavam cobertas por aquela plumagem. Nomeadamente a cauda e o topo do dorso.

"A nossa investigação fornece novas pistas sobre as origens das penas", explicou Mike Benton, paleontólogo da Universidade de Bristol e um dos cientistas da equipa, citado pelo serviço de notícias de ciência Eurekalert.

Segundo Mike Benton, os dados obtidos "contribuem para solucionar um antigo debate sobre a função original das penas, que se pensava poderem ser a do voo, a protecção térmica ou a exibição" para acasalamento.

"Sabemos agora que as penas surgiram antes das asas e portanto não nasceram como estruturas para o voo", sublinhou a propósito o paleontólogo.

A equipa sugere ainda que as proto-penas do Sinosauropteryx surgiram primeiro "como agentes coloridos para exibição e só posteriormente, na sua história evolutiva, estas estruturas se tornaram úteis para o voo e a protecção térmica", adiantou Mike Benton.

Para chegar a esta conclusão, os investigadores estudaram o desenho molecular destas estruturas em fósseis daquela espécie de dinossauro que tinham sido encontrados no Nordeste da China, nas jazidas de Jehol.

Nas penas fossilizadas, os cientistas identificaram melanossomas, as estruturas no interior das penas e do pêlo e cabelo dos mamíferos que produzem o pigmento do cinzento, preto e castanho ou laranja.

No caso deste terópode da China, os melanossomas identificados eram especificamente os que produziam os pigmentos castanho e laranja. O estudo permitiu ainda concluir que a penugem não cobria todo o corpo do animal, mas apenas parte. "Sabemos que se estendia ao longo do dorso, como uma crista e em volta da cauda, e que por isso só poderia ter um papel limitado em termos de termorregulação", concluiu Mike Benton.

Ortodoxos russos hospitalizados por beberem água benta
Mais de cem ortodoxos russos precisaram de atendimento médico após terem bebido a água do poço de uma igreja siberiana.

http://aeiou.expresso.pt/ortodoxos-russos-hospitalizados-por-beberem-agua-benta=f560461
Carlos Afonso Monteiro (www.expresso.pt)

Ortodoxos russos tomam banho em águas geladas numa 'piscina' feita em forma de cruz
AP/Dmitry Lovetsky
Mais de uma centena de ortodoxos russos tiveram de ser hospitalizadas após terem bebido benta em Iskutsk, na Sibéria. Os afectados, entre ios quais 48 crianças, estão a receber tratamento hospitalar para dores intestinais agudas, que surgiram após terem bebido água de poços nas imediações de uma igreja local.

Os crentes estavam a celebrar a epifania (que em grego quer dizer 'aparição' ou 'revelação'), normalmente comemorada pelos ortodoxos russos a 19 de Janeiro. Muitos russos acreditam que toda a água obtida durante a epifania é sagrada, sendo tipicamente engarrafada e consumida mais tarde. A água corrente da maior parte da Rússia não é potável.

O porta-voz Vladimir Salovarov disse que um total de 204 pessoas necessitou de algum atendimento médico, mas que é muito cedo para dizer exactamente o que causou a doença.

A Igreja Ortodoxa Russa é uma das maiores igrejas ortodoxas orientais, sendo apenas ultrapassada pela Igreja Católica Romana entre as igrejas cristãs. Estimativas apontam 135 milhões como o número de seguidores da Igreja Ortodoxa russa em todo o mundo.

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A maneira perfeita de cortar uma piza
Durante anos, dois amigos tentaram criar fórmulas matemáticas que possibilitassem a partilha simétrica de uma piza. O "Courrier Internacional" que sai amanhã para as bancas publica um artigo sobre as conclusões a que chegaram.
http://aeiou.expresso.pt/a-maneira-perfeita-de-cortar-uma-piza=f560531
Margarida Mota
12:08 Quinta-feira, 28 de Jan de 2010 Última actualização há 51 minutos

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Se o leitor gosta de comer piza, certamente que o tamanho da fatia que lhe cai em sorte não lhe é indiferente. E se calha de estar com um grupo de amigos à volta de uma piza familiar, por certo que a vontade de se atirar à maior parte lhe assalta a mente umas quantas vezes.

Durante anos, Rick Mabry e Paul Deiermann, dois estudantes da Universidade do Louisiana, aproveitaram pelo menos um almoço por semana para se embrenharem numa discussão matemática sobre como a forma de cortar uma piza determinava quem comia mais e quem comia menos. O ponto de partida dos cálculos começava numa situação imaginária, ainda que quotidiana: o preciso momento em que um empregado de restaurante cortava apressadamente uma piza em dois. O corte passava ou não pelo centro da piza?

Munidos de um bloco de notas, os dois amigos perdiam-se a fazer desenhos e gráficos enquanto a comida esfriava. À medida que chegavam a conclusões, subiam a parada... Quem fica com mais crosta? Quem come mais queijo? E se a piza for quadrada? E, pior, se for uma calzone?

Recentemente, a revista científica "New Scientist" publicou um artigo sobre os cálculos de Mabry e Deiermann. A edição de Fevereiro do "Courrier Internacional" republica esse artigo. Especialmente aconselhado a apaixonados por matemática.

quarta-feira, janeiro 27, 2010

Vem aí uma geração de rapazes frustrados
Em quase todos os países ocidentais, os rapazes abandonam cada vez mais o ensino no final da escolaridade obrigatória. Têm capacidades para ir mais longe, mas as escolas poderão estar a avaliá-los mal, privilegiando as raparigas. Podemos estar a criar (ou já criámos?) uma geração de excluídos e uma nova classe baixa - a dos homens.

http://jornal.publico.clix.pt/noticia/27-01-2010/vem-ai--uma-geracao-de-rapazes-frustrados-18656888.htm
Por Clara Viana


Um calafrio: investigadores portugueses, ingleses e norte-americanos, entre outros, têm vindo a constatar que as mudanças introduzidas nas últimas duas décadas no sistema de ensino e de avaliação dos alunos estão a contribuir activamente para afastar da escola um número cada vez maior de rapazes.

Produziu-se uma inversão. O fenómeno, que é comum à maioria dos países ocidentais, Portugal incluído, está a alargar o fosso entre rapazes e raparigas no sistema educativo. As raparigas têm hoje melhores notas e vão mais longe; os rapazes desistem, muitos deles logo no fim da escolaridade obrigatória. Nos 27 países da União Europeia, só a Alemanha mantém, no ensino superior, valores equilibrados de participação dos dois sexos.

Para o director do instituto britânico de políticas para o ensino superior (HEPI, na sigla em inglês), Bahram Bekhradnia, estamos já numa corrida contra-relógio. "Penso que corremos o perigo de estar a criar uma nova classe baixa", constituída só por rapazes, diz, depois de um estudo recente daquele organismo ter confirmado a dimensão crescente do fosso entre raparigas e rapazes, e lançado algumas pistas inquietantes sobre os motivos que explicam o fenómeno.

O problema não são os bons resultados alcançados pelas raparigas, mas as fracas classificações obtidas pelos rapazes e aquilo que isso implica: a responsabilidade da escola nesta situação, o que isto está a provocar neles e nelas, e as consequências sociais do insucesso escolar masculino. "Vamos ter uma geração de rapazes frustrados e excluídos dos sistemas escolares e profissionais por incapacidade de rivalizar com o género oposto", prevê a socióloga da educação Alice Mendonça nas respostas que enviou, por e-mail, às questões do P2.

Em países como o Reino Unido e os EUA, mas não só, a questão já entrou na agenda política. Em Portugal não. Existe investigação sobre o tema, há estatísticas à espera de serem interpretadas e... muito silêncio. Alice Mendonça sublinha, porém, que "os pais têm de ser alertados para as consequências" do que se está a passar.

Isto está a acontecer não por os rapazes se terem tornado, de repente, mais estúpidos, mas em grande medida, avisam os investigadores, por eles estarem a ser ensinados e avaliados num sistema que valoriza as características próprias das raparigas e penaliza as dos rapazes.

Zero em comportamento

Nos últimos anos, Alice Mendonça, também docente na Universidade da Madeira, centrou a sua investigação, precisamente, no insucesso escolar na perspectiva do género. Percorreu todos os ciclos escolares. Sustenta que, para os professores, na sua esmagadora maioria mulheres, o modo como as raparigas se comportam e trabalham é "mais conforme com as suas representações do bom aluno ou aluno ideal" - o que poderá conduzir a uma "sobreavaliação" das alunas e a uma "discriminação" dos alunos.

Para a sua tese de doutoramento, a socióloga e investigadora do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, em Lisboa, Teresa Seabra analisou, por seu turno, os resultados escolares de estudantes do 2.º ciclo do ensino básico (11-12 anos). Comprovou que "os resultados dos rapazes e das raparigas se igualavam quando excluía da amostra os alunos com problemas disciplinares", o que a leva a concluir, disse ao P2, que, "como o comportamento afecta de modo significativo o aproveitamento, a pouca conformidade às regras escolares estará na base dos piores resultados dos rapazes". A "atitude", o comportamento dos rapazes, estará a comprometer irreversivelmente os resultados da sua avaliação.

Especialista em assuntos de Educação, o sociólogo francês Christian Baudelot defende que, antes de mais, aquilo que é pedido pela escola é a interiorização das suas regras, mas que estereótipos sociais ainda dominantes valorizam nos rapazes o desafio, a violência e o uso da força - um verdadeiro "arsenal antiescolar". As raparigas, pelo contrário, são socializadas na família em moldes que facilitam a adaptação às exigências escolares: mais responsabilidade, mais autonomia, mais trabalho. "Trata-se de um conjunto de competências que as torna menos permeáveis à indisciplina", observa Teresa Seabra. No ano passado, em Espanha, 80 por cento dos alunos com problemas disciplinares eram do sexo masculino.

Alice Mendonça confirma que as raparigas, "mais conformes às regras escolares", ganham uma "vantagem decisiva" sobre os rapazes quando chega o momento da avaliação. Em Portugal, como também noutros países, o comportamento passou a contar para a contabilização da nota final atribuída aos alunos.

Teresa Seabra defende que se tornou indispensável lançar um debate sobre a actual forma de avaliar. "No momento actual, a escola é chamada a avaliar também o "saber ser", mas nem sempre foi assim e não tem que assim ser", argumenta.

Vida futura afectada

"É perverso que se avaliem instâncias cognitivas com base em comportamentos. Se um aluno indisciplinado aprende, a sua aprendizagem tem de ser reconhecida", sustenta Nuno Leitão, antropólogo, mestre em Ciências da Educação e director da cooperativa A Torre, um colégio de Lisboa que tem a sua matriz inicial no Movimento Escola Moderna, que propõe uma pedagogia alternativa àquela que é comum aos sistemas oficiais de ensino.

No Reino Unido, o estudo divulgado pelo HEPI, que esteve na base do alerta lançado por Bekhradnia, dá conta de que os alunos do sexo masculino poderão estar a ser vítimas da reforma do sistema de avaliação adoptada em 1982. Antes, para a conclusão da escolaridade obrigatória, eram determinantes as classificações obtidas nos exames finais. Depois de 1982, passou a vigorar um sistema misto, com os exames a contribuir apenas com uma parcela, sendo as outras derivadas do trabalho ao longo do ano na sala de aula e fora dela.

Após comparar os resultados antes e depois, o HEPI constatou que os rapazes começaram a ficar sistematicamente atrás das raparigas depois desta reforma. "É preciso reconhecer que o problema existe", alerta. E chama a atenção para o seguinte: "Se o fosso entre os sexos no final da escolaridade obrigatória (e as consequentes diferenças na participação no ensino superior) se deve em grande parte à mudança do tipo de exames e de avaliação - e existem provas de que esta mudança é, pelo menos, parte da razão -, então, nos últimos 20 anos, os rapazes têm alcançado menos do que eram capazes, e isso afectou a sua vida futura."

O dobro dos chumbos

Em Portugal, como em vários países, a entrada maciça do sexo feminino nas escolas e universidades é um fenómeno relativamente recente, tornado possível pela igualização das oportunidades de acesso. Hoje as raparigas são mais numerosas, valorizam mais os estudos, têm mais êxito. "A diferença de resultados entre rapazes e raparigas tem vindo a acentuar-se, aumentando exponencialmente à medida que acrescem os ciclos de escolaridade, e atinge o seu auge no ensino universitário", refere Alice Mendonça.

Logo aos 7 anos, no 2.º ano do ensino básico, há mais rapazes a ficar para trás. À entrada do segundo ciclo, no 5.º ano, as taxas de retenção masculinas têm quase duplicado as femininas. No 7.º, ano de estreia do 3.º ciclo do ensino básico, as percentagens de chumbos entre eles permanecem acima dos 20 por cento. Entre as raparigas, este é também o ano mais complicado, mas nos últimos tempos a taxa de insucesso não foi além dos 17 por cento.

No 9.º ano, o último da escolaridade obrigatória, as taxas de retenção das raparigas têm oscilado entre os 11 e os 16 por cento; as dos rapazes nunca estão abaixo dos 16 por cento e têm ultrapassado os 20 por cento.

Antes de entrar na Torre, em 1996, Nuno Leitão deu aulas no ensino oficial. Começou pelo 12.º ano, acabou no 2.º ciclo. Lembra-se de os ter à frente, alunos com 15 anos a marcar passo no 7.º ano. De como estavam magoados, encurralados: "Já não são repetentes, são resistentes à escola."

Mão-de-obra barata

Continuam a nascer mais rapazes do que raparigas (em cada 100 nascimentos, 105 são do sexo masculino). Por causa disso o seu número é superior nos primeiros anos de escolaridade. Mas, devido a taxas de retenção muito superiores às do género oposto, e também porque são largamente maioritários entre os jovens que abandonam precocemente a escola, em grande parte por causa da experiência de insucesso quando lá estão, em Portugal os rapazes começam logo a estar em minoria no 9.º ano.

Para além de ser uma resposta ao fracasso experimentado na escola, este abandono precoce, maioritário nos rapazes, é também fomentado, em Portugal, por um "mercado de trabalho que procura mão-de-obra barata (desqualificada), especialmente masculina", observa Teresa Seabra.

Pelo contrário, as raparigas vêem nos estudos "um modo de assegurar a sua independência enquanto adultas". É uma forma de emancipação. No conjunto do ensino superior, já representam mais de 50 por cento dos inscritos e ultrapassam os 70 por cento em cursos como os de Direito ou os que estão ligados à saúde. Entre os que conseguem chegar ao fim de um curso e obter uma licenciatura, 60 por cento são mulheres.

Estudos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) confirmam que uma pessoa licenciada tem muito mais hipóteses de vir a auferir um rendimento superior ao de uma que o não seja. Em Portugal, no caso dos homens, aquela organização situou a diferença nos oito por cento.

Num artigo publicado no jornal britânico Observer, Bahram Bekhradnia lembra outras vantagens de ter um diploma: sabe-se que "a educação superior acarreta benefícios sociais e académicos", que "uma pessoa que esteve na universidade tende a apresentar uma melhor saúde física e mental", que esta formação e experiência têm "um enorme efeito socializante".

No passado, estes benefícios foram negados à maioria das mulheres. Agora, são os homens que, "ao não irem para a universidade em tão larga escala", estão a ser privados disto tudo. "Penso que é uma verdadeira desgraça", diz Bekhradnia.

No Reino Unido, para igualar a taxa de participação feminina, teria sido preciso que, s?? no ano passado, entrassem, nas universidades britânicas, mais 130 mil estudantes do sexo masculino.

Diferentes apetências

"Se os professores não aprendem a lidar com as diferenças, os alunos acabam por chumbar. E isto verifica-se sobretudo com os rapazes", avisou, numa entrevista à Visão, o filósofo norte-americano Michael Gurian.

Para além das diferenças entre os géneros que são culturalmente induzidas, vários estudos neurológicos têm demonstrado que as raparigas têm mais apetência para a comunicação verbal e para movimentos finos, "tarefas" a cargo do hemisfério esquerdo do cérebro, que se desenvolve nelas bem mais cedo do que nos rapazes. E os rapazes têm mais apetência para tarefas visuo-espaciais, uma vez que o hemisfério direito, "construtor e geómetra", é mais activo no sexo masculino. "Têm vias e tácticas diferentes para aprender o mesmo", disse ao diário espanhol El País o neurologista Hugo Liano.

O projecto PISA, lançado pela OCDE para medir a capacidade dos jovens, de 15 anos, na literacia em Leitura, Matemática e Ciências, demonstrou, com a série de três provas já realizadas nos 32 países-membros, que os melhores resultados a Matemática tendem a ser alcançados por alunos provenientes de famílias em que os níveis de educação e o status profissional são mais elevados. Mas, em média, foram os rapazes que apresentaram melhores resultados em Matemática e Ciências e as raparigas em Leitura.

Os exames nacionais do 9.º e 12.º ano têm, em Portugal, confirmado esta tendência. Mas no ano passado a média das raparigas nos exames de Matemática do secundário foi superior à dos rapazes. E esta inversão poderá não ser esporádica, avisa Alice Mendonça: "O aumento da discrepância na capacidade de leitura entre os sexos faz com que as raparigas comecem a ultrapassar os rapazes nestas matérias." Por enquanto, e apesar de maioritárias no ensino superior, elas continuam a ser franca minoria nos cursos de Informática, Arquitectura e nos de Engenharia Técnica.

Separá-los resulta?

Para conter a maioria feminina, em Portugal, há alguns anos, houve quem chegasse a propor a introdução de quotas para homens nas faculdades de Medicina. Em países onde o debate está lançado, há quem defenda o regresso às escolas separadas. Mas são mais os que propõem estratégias de ensino diferenciado que coabitem no mesmo espaço. Seja através de aulas separadas para as disciplinas onde as diferenças são maiores, seja através de reforços específicos de certos conteúdos pedagógicos.

Nos Estados Unidos, onde os rapazes estão a abandonar o equivalente ao ensino secundário a um ritmo superior ao das raparigas (em cerca de 30 por cento), as escolas oficiais foram autorizadas a abrir turmas diferenciadas.

No Reino Unido, as escolas do pré-escolar receberam instruções do Governo para, a partir deste mês, reforçarem os exercícios de escrita com "materiais engraçados", junto dos rapazes de 3/4 anos, de modo a reduzir as fortes diferenças entre os sexos na escrita e leitura, que se fazem sentir pouco depois, à entrada na primária.

Esta iniciativa está a ser contestada por especialistas de desenvolvimento infantil que chamam a atenção, entre outros factores, para o facto de muitas crianças, e especialmente as do sexo masculino, não terem ainda adquirido, nestas idades, as capacidades de motricidade fina necessárias ao desenvolvimento da escrita.

Alice Mendonça vê a adopção de estratégias diferenciadas nas escolas como "um novo desafio social" a que urge deitar a mão. Em Portugal, não fazem parte do programa do Governo. Resposta ministerial ao P2: "Não existe qualquer orientação expressa pelo Ministério da Educação sobre a abordagem diferenciada por género, como estratégia de aprendizagem."

O ministério lembra que a Lei de Bases do Sistema Educativo, aprovada em 1986, atribui ao Estado a responsabilidade de "assegurar a igualdade de oportunidade para ambos os sexos", e que, no ensino pré-escolar, "cada educador tem autonomia e responsabilidade para gerir o currículo", devendo "estimular o desenvolvimento da criança tendo em conta as suas características individuais".

Nuno Leitão concorda que, no geral, e não só no pré-escolar, os programas oficiais deixam um bom espaço de manobra: "É o professor quem decide, na sala de aula, a organização das aprendizagens. Pode fazê-lo optando pela que lhe dá mais jeito, mas também pode escolher, em vez disso, a que é melhor para os alunos."

Defende que os professores devem estar sensibilizados para as diferenças entre os dois géneros, mas não apoia a adopção de estratégias diferenciadas. Na sua escola, que funciona do pré-escolar ao 2.º ciclo, incentivam-se as perguntas dos alunos (uma "pedagogia preciosa"), o debate colectivo, as experiências feitas pelas próprias crianças (em vez de estarem a ver o professor a fazê-las), a curiosidade, a memorização. "Dá-se a oportunidade aos alunos de conseguirem, de forma autónoma, construir um sentido para as coisas, que é o que eles procuram antes de mais, criando assim uma motivação intrínseca que os leva a querer saber mais."

É quase uma ilha. E não só pelo facto de não se registar ali o hiato de resultados entre raparigas e rapazes que anda a sobressaltar meio mundo. Esse hiato, frisa Teresa Seabra, é também fomentado pelos modelos veiculados pelos media: "Ser bom aluno, sendo rapaz, funciona, em alguns grupos de pares, como um handicap."

Se os rapazes passarem a interiorizar, maioritariamente, a ideia de que desafiar a escola e ser mau aluno é "normal", estarão criadas as condições para que os homens sejam, amanhã, uma nova classe baixa das sociedades desenvolvidas ocidentais.

Auschwitz persegue os veteranos soviéticos
Há 65 anos Ivan Martinouchkin fez parte da unidade militar que libertou este campo de extermínio nazi na Polónia, mas as imagens desse dia continuam na sua cabeça. Ele tem a certeza que é lá que vão ficar até ao fim dos seus dias.

http://jornal.publico.clix.pt/noticia/27-01-2010/auschwitz-persegue--os-veteranos-sovieticos-18669497.htm
Por Alissa de Carbonnel/AFP


Quando a sua unidade furou a vedação de arame farpado de Auschwitz, Ivan Martinouchkin não tinha a menor ideia do que ia descobrir. Mas, 65 anos depois, continua a ser perseguido por essas imagens, cujo sentido apenas percebeu após os julgamentos de Nuremberga.

"Vou lembrar-me até ao fim dos meus dias", conta à agência AFP o antigo combatente, agora com 86 anos, e que era então comandante de uma unidade da 322.ª Divisão de Infantaria do Exército Vermelho que libertou Auschwitz.

Cerca de 1,1 milhões de pessoas morreram naquele campo de concentração entre 1940 e 1945, entre as quais um milhão de judeus provenientes de países europeus ocupados pelos nazis. Alguns sucumbiram de fome ou de esgotamento, mas na sua maioria foram mortos nas câmaras de gás.

Este veterano, um homem ainda dinâmico, com cabelos grisalhos, recebe-nos no seu apartamento em Moscovo, repleto de livros e de fotografias. Numa delas está a posar ao lado do actual primeiro-ministro russo e antigo Presidente, Vladimir Putin. Um casaco ornado de medalhas está pendurado na parede.

Assim que viu o arame farpado, e que o comandante ordenou às suas tropas que não o retirassem, Ivan "adivinhou que se tratava de uma zona militar muito particular, qualquer coisa especial".

Foi exactamente a ausência de tiros nesse dia, 27 de Janeiro de 1945, enquanto se desenrolavam outros combates muitos violentos, que mais surpreendeu muitos dos veteranos, explica à AFP Illia Altman, historiador e investigador do Holocausto.

Ivan Martinouchkin lembra-se de uma zona-fantasma, de um odor acre a fumo.

Já tinha visto outros campos de concentração, mas este era gigantesco e estendia-se ao longo "de quilómetros e quilómetros".

"Começámos a encontrar pessoas, em grupos. Vinham ter connosco, vestidas com roupas listadas de prisioneiros, algumas tinham mais qualquer coisa por baixo. Depois de terem sobrevivido ao inferno, constantemente ameaçadas de morte, estavam esgotadas, extenuadas. Mas os seus olhos reflectiam uma espécie de alegria por terem sido libertadas, por terem sobrevivido ao inferno."

Face à aproximação das tropas soviéticas, os nazis forçaram cerca de 60 mil prisioneiros a recuar para as zonas que ainda controlavam, naquilo que os sobreviventes recordam como tendo sido a pior das provações.

Mas alguns milhares de pessoas, demasiado fracas para andar, foram abandonadas em Auschwitz, e algumas escaparam à morte por milagre, no meio do caos de um êxodo precipitado.

Martinouchkin tinha apenas 21 anos quando libertou Auschwitz, mas já tinha passado três anos na linha da frente.

Tendo ficado insensível após todos os horrores da guerra a que tinha assistido, num primeiro momento não se deu conta do alcance da tragédia de Auschwitz.

Foi apenas após os processos de Nuremberga, contra os principais responsáveis do Terceiro Reich acusados de crimes de guerra, que percebeu aquilo que parecia ser inimaginável.

"Quando vimos os fornos, dissemos: "Ah, está bem, há crematórios. Quando as pessoas morrem, eles não as enterram"", conta Ivan. "Não sabíamos que esses fornos tinham sido especialmente construídos para matar pessoas, para queimar os que tinham morrido nas câmaras de gás. Ali havia toda uma máquina de morte."

Auschwitz começou a funcionar em 1940, um ano depois de os alemães terem invadido a Polónia. Entre as suas vítimas contam-se 85 mil polacos não judeus, 20 mil ciganos, 12 mil refugiados não judeus originários de outros países europeus, e cerca de 15 mil prisioneiros de guerra soviéticos.

Ivan Martinouchkin está agora na Polónia - faz parte de um pequeno grupo de soldados soviéticos que hoje participa nas cerimónias que marcam o 65.º aniversário da libertação de Auschwitz.

quarta-feira, janeiro 13, 2010

Miep GiesA guardiã do Diário de Anne Frank
http://jornal.publico.clix.pt/noticia/13-01-2010/miep-giesa-guardia-do-diario-de-anne-frank-18571236.htm

Por Susana Almeida Ribeiro

Miep Gies manteve os manuscritos a salvo dos nazis, na esperança de um dia poder devolvê-los à autora, que entretanto morreu num campo de concentração


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Tinha 100 anos e foi uma das pessoas que ajudaram Anne Frank e a família a esconderem-se dos nazis. Miep Gies, guardiã dos manuscritos que deram origem ao clássico universal O Diário de Anne Frank, morreu ontem, na Holanda, na sequência de uma queda que tinha dado por altura do Natal.

Nascida em Viena, a 15 de Fevereiro de 1909, Miep Gies mudou-se com a família para a Holanda em 1922. Conheceu a família Frank em 1933, quando se candidatou a uma vaga para secretária na empresa de especiarias Opekta, dirigida pelo pai de Anne Frank, Otto Frank.

Foi em 1942, em plena II Guerra Mundial, que lhe foi confiado um segredo: "Otto Frank, o meu chefe, pediu-me que passasse pelo seu escritório. Quando entrei, disse-me: "Senta-te. Tenho uma coisa muito importante para te contar. Um segredo, na verdade. Pensámos em nos esconder, aqui, neste prédio. Estarias disponível para nos ajudar, para nos trazeres comida?" Eu respondi que sim, naturalmente", contou a própria Gies numa entrevista publicada no site da Casa de Anne Frank, transformada em casa-museu.

A última sobrevivente do grupo de pessoas que escondeu os Frank sempre recordou que os verdadeiros heróis em toda a história foram pessoas como o seu próprio marido, Jan, a par com outros funcionários da empresa de Otto, que, em conjunto, ajudaram os oito judeus escondidos no sótão do número 263 de Prinsengracht, em Amesterdão. "Eles estavam indefesos, não sabiam para onde se virar... Cumprimos as nossas obrigações enquanto seres humanos: ajudámos pessoas em dificuldade."

A função de Miep era levar à família vegetais e carne, ao passo que outras pessoas tinham a função de lhes entregar pão e livros.

Depois de os nazis terem descoberto o anexo secreto, após uma denúncia às autoridades, e terem detido a família Frank, Miep Gies voltou ao sótão e encontrou, no chão, os manuscritos de Anne. Na altura recorda-se de ter decidido que não iria lê-los, respeitando o direito da autora à privacidade. Nessa altura limitou-se a recolher e a pôr a salvo os documentos.

Património documental

Mas nunca conseguiria devolvê-los à autora. Anne Frank acabou por morrer de febre tifóide no campo de concentração de Bergen-Belsen, a 12 de Março de 1945, quando tinha apenas 15 anos - e por isso, nesse mesmo ano, Miep entregou os documentos a Otto, o único membro da família de Anne que conseguiu sobreviver aos campos de concentração alemães.

A obra foi finalmente publicada, em formato de diário, em 1947. O livro converteu-se num êxito universal - estima-se que esteja, hoje, entre os dez livros mais lidos do mundo -, com tradução em 60 línguas e mais de 25 milhões de exemplares vendidos, afirmando-se como um dos testemunhos mais vivos da implacável perseguição nazi aos judeus durante o Holocausto.

O Diário de Anne Frank integra, aliás, a lista de 35 bens do património documental mundial "de interesse universal" propostos em 2009 pela UNESCO ao programa Memória do Mundo.

Desde a publicação da obra, Miep Gies viajou por todo o mundo narrando as suas experiências durante o Holocausto e a trágica perseguição aos judeus, o que lhe valeu um enorme reconhecimento público.

Refutou, durante toda a vida, as alegações de que o diário da jovem autora teria sido forjado.

Em Agosto do ano passado foi anunciado um filme da Disney acerca da vida de Anne Frank. O argumento e a realização ficarão a cargo de David Mamet.

O que ainda podemos aprendercom as vitórias e derrotas dos romanos O que faz um líder Como se ganha uma guerra
Adrian Goldsworthy é um apaixonado pela história clássica. Conversámos com o historiador a propósito dos dois livros que editou em Portugal e de como nos faz falta conhecer melhor a experiência da República e do Império romanos.

http://jornal.publico.clix.pt/noticia/13-01-2010/o-que-ainda-podemos-aprendercom-as-vitorias-e-derrotas-dos-romanos-o-que-faz-um-lider-como-se-ganha-uma-guerra-18570626.htm

Por José Manuel Fernandes


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Júlio César? Vimo-lo, pelo menos, nos livros do Astérix. Porventura só aí. Não: com sorte talvez também saibamos citar uma das suas últimas frases, quando identifica entre os seus assassinos o filho adoptivo, Brutus: "Também tu, Brutus, meu filho?" Ou então que foi amante de Cleópatra, a belíssima rainha do Egipto.

Contudo poucas figuras como César influenciaram mais a história e a cultura ocidentais - e a poucas poderemos recorrer com facilidade à procura de paralelos que ajudem a resolver os nossos dilemas. Isso entristece enormemente Adrian Goldsworthy, o historiador militar que, depois de escrever Os Generais Romanos, lhe dedicou uma biografia monumental, César, a Vida de Um Colosso.

"Eu tive a sorte de aprender latim ainda no liceu, e ensinaram-me a dar importância à herança clássica", disse-nos o historiador. Porém, sabe que não é isso que acontece mesmo onde devia acontecer. Há umas décadas, nas academias militares ainda se liam os Comentários sobre a Guerra na Gália, o magnífico relato que o próprio Júlio César escreveu sobre os dez anos de campanhas de conquista, pacificação e ocupação, mas hoje a obra desapareceu dos currículos. O que é pena: "Era importante regressarmos à história clássica porque ela impregna toda a nossa cultura e instituições. As nossas grandes referências culturais, mesmo as mais recentes, ainda são figuras que conheciam a cultura clássica muito bem, mas isso está a acontecer cada vez menos. Em contrapartida, há muito para aprender, até porque há muitos paralelos com a vida política moderna", considera Goldsworthy.

Um deles, e que fascina o historiador, é perceber o tipo de qualidades que distinguem um líder, onde estão o talento que permite triunfar e as falhas que conduzem ao fracasso. Ora, como historiador militar, Goldsworthy nota que ao estudar a história das guerras e das grandes batalhas "é mais simples compreender porque é que um líder triunfa ou fracassa". Pelo menos é "mais fácil compreender as razões do sucesso e do insucesso do que quando estudamos o destino dos políticos".

Ora, na Roma antiga, a condição de figura pública implicava que se fosse ao mesmo tempo político e militar. Alguns, como o grande orador Cícero, poucas vezes se viram à frente das legiões, outros, como Pompeu, o Grande, passaram muito mais tempo em campanha do que no Senado romano, mas não era possível distinguir: "Os romanos não separavam a vida política da vida militar", precisa o historiador. O que nos permite tentar perceber mais facilmente "o que faz a diferença" dos que têm um talento natural para liderar.

Na verdade "há talentos que não são transmissíveis: mesmo os melhores comandantes, os que tiveram a melhor preparação, não podem julgar que têm talento só porque sabem estudar e copiar os grandes generais", considera Goldsworthy. Sendo que no tempo dos romanos não havia academias militares, pelo que nem a possibilidade de estudar existia. Os chefes militares aprendiam com a experiência.

Políticos e militares

César é, neste domínio, um caso exemplar. Ao contrário do que muitos poderão hoje imaginar, a figura mais determinante da história de Roma praticamente não pôs os pés num campo de batalha antes dos 40 anos. Originário de uma família da média aristocracia, sabia-se destinado a, um dia, integrar a elite de Roma, a pelo menos chegar ao Senado. Ambicioso, faz uma carreira como causídico, onde desenvolve os seus dotes de orador ao ponto de poder enfrentar, e bater, Cícero, e como político, não sem ter chegado a ser sacerdote de um dos muitos cultos da Roma antiga.

"A carreira de César rompe com todos os padrões", nota Adrian Goldsworthy. "Até à sua partida para a Gália, já com mais de 40 anos, tinha tido um percurso de certa forma normal. Militarmente, se o compararmos com Pompeu, o Grande, este é mais precoce e chega mesmo a chefe militar ainda antes de ser eleito para o Senado." Contudo, na guerra civil decisiva que permite a César tornar-se na figura dominante de Roma, depois da lendária travessia do Rubicão, as forças de Pompeu não resistiriam às de César.

Mas como é que conseguiu ser um comandante tão brilhante sem ter tido experiência anterior, pois antes só lidara com forças muito mais pequenas? Goldsworthy tem uma explicação: "O que é espantoso em Júlio César é a sua capacidade para lidar naturalmente com missões que a maior parte de nós teria antes de aprender a fazer e que ele intuitivamente desempenhava logo bem. Aprendia muito depressa com os erros, como sucedeu quando tentou um ataque de surpresa contra os helvéticos na campanha da Gália, e raramente cometia o mesmo erro duas vezes. Porventura o decisivo foi sempre a sua capacidade de, ao mesmo tempo que tomava decisões difíceis, ser capaz de criar uma enorme empatia com os seus homens: eles não tinham dúvidas de que César ficaria sempre a seu lado fosse o que fosse que acontecesse."

Personagem magnética, extremamente cuidadoso com a forma como se vestia e apresentava, era capaz de arrebatar com a mesma facilidade uma multidão em Roma e um corpo do exército, capaz também de fazer cair a seus pés as mulheres que lhe passavam por perto - e sem escrúpulos que o impedissem de trocar, com o intervalo de algumas semanas, o leito de Cleópatra pelo da rainha da Mauretania (área que corresponde ao Norte de Marrocos), se bem que preferisse seduzir as mulheres dos seus adversários políticos... - César era ainda, nas palavras deste seu biógrafo, "um maravilhoso oportunista". Como tribuno dirigia-se sempre ao povo de Roma tocando em pontos sensíveis que preocupavam as pessoas, por vezes num registo quase populista, mas mantendo-se fiel a causas que eram problemas reais, como a necessidade de uma distribuição das terras mais justa ou um melhor governo das províncias.

"Tinha a habilidade de criar a sensação de que estava sempre do lado do povo e dos seus homens, e fazia-o de forma consistente", sublinha Goldsworthy. "E o povo de Roma não via mais nenhum contemporâneo fazer o mesmo."

Mais: César sabia sempre onde estar no campo de batalha e, sobretudo, sabia transmitir confiança. O que, em última análise, é aquilo que faz um líder. Ou, como sintetiza este historiador, "há pessoas que fazem com que as coisas aconteçam". Como? Conseguindo fazer "com que os processos ocorram de forma natural, oleada e rápida, quase como se não estivessem lá: é aí que se consegue distinguir quem tem ou não capacidade de liderança, quem tem de impor as suas ordens ou orientações e quem é naturalmente seguido".

O talento de Sertório

Mas se César se destaca como a figura central, determinante, do final da República Romana, quando o sistema entra em colapso, se César, mesmo sem ter chegado a ser imperador - o primeiro imperador foi o seu filho adoptivo, Augusto - consegue que todos os imperadores passassem a chamar-se César, se deixou a sua marca em tudo o que depois seria o Império Romano, o seu exemplo está muito longe de ser o único exemplo de uma liderança forte. Ao estudar os grandes generais romanos, Adrian Goldsworthy encontrou personalidades muito distintas com histórias de sucessos e insucessos também muito variadas, pelo que vale a pena olhar para um outro exemplo de liderança: o de Sertório.

O general que comandou a revolta da província de Hispânia era "um grande comandante que conseguiu ganhar a maior parte das batalhas que travou", mas acabou por perder politicamente porque escolheu o lado errado numa das constantes guerras civis que sacudiam o Império. Isto apesar de ter conseguido trazer para o seu lado as tribos locais (incluindo os lusitanos) e organizar tropas que o viam como um "novo Aníbal", equiparando as suas proezas às do cartaginês que chegou a pôr em causa a hegemonia e o poder de Roma. Sertório morreria assassinado mas, antes, derrotou exércitos muito maiores, até os comandados por Pompeu, o Grande. Conseguiu resistir na Hispânia porque, além de militar, teve sempre a perspicácia política para ganhar as tribos para o seu lado. E teve-as, porque viam nele um homem justo.

"A diplomacia e a política marcham sempre a par com a força militar", conclui Goldsworthy. "Há que pensar no dia seguinte às batalhas." E, isso, tanto Sertório como Júlio César "sabiam fazer muito bem".

O historiador explica como este actuava: "Uma das coisas que César sempre percebeu foi que a vitória militar não era suficiente. Durante a campanha da Gália reunia todos os anos com os líderes tribais. O seu objectivo não variava: através das vitórias militares sempre quis criar uma situação em que os líderes locais se sentissem mais satisfeitos por estar dentro do mundo romano do que lutando contra ele."

Os romanos tinham perfeita consciência de que isso nunca aconteceria de geração espontânea, pelo que os territórios que ocupavam eram governados como províncias e os que lá viviam podiam aspirar a ser, também eles, romanos. De resto, Goldsworthy nota que o fim do Império romano não ocorreu - como sucedeu com os impérios europeus - porque tivesse havido movimentos de independência: "Ninguém queria ser outra vez lusitano ou gaulês, queriam ser romanos. Era melhor, viviam melhor, tão melhor que quando o Império se desmoronou devido aos ataques exteriores, o nível de vida baixou dramaticamente."

Guerras assimétricas

Falar destes temas está, contudo, muito longe do espírito dos tempos de hoje - "talvez seja por não estar na moda falar de impérios que haja alguma relutância em conhecer a história dos romanos" -, apesar de líderes políticos e militares como Júlio César ou os grandes da República e, depois, do Império nos poderem ensinar muito sobre um dos maiores dilemas dos conflitos contemporâneos: o de como ganhar uma "guerra assimétrica". É que muitas das guerras que os romanos travaram eram isso mesmo: "assimétricas", uma vez que o poder das suas legiões era muito superior ao das hordas que enfrentavam.

Ora, de acordo com Goldsworthy, em pelo menos dois domínios os romanos revelaram-se especialmente competentes - e ambos são mais políticos do que militares.

O primeiro foi terem a noção de que era necessário que o adversário acabasse por perceber que Roma iria sempre sair vencedora, mais tarde ou mais cedo, porque era imensamente mais poderosa. Para que essa percepção fosse clara não se permitia qualquer recuo, mesmo que pequeno, mesmo que justificado militarmente, pois este podia ser sempre visto pelo inimigo como uma vitória e dar-lhe mais força. O que é que isto nos ensina? Que "temos de perceber o que o adversário pensa, o que deseja, porque o mais provável é que pense de forma muito diferente da nossa. Se insistirmos em vê-lo como parecido connosco, a grande probabilidade é que falhemos os nossos objectivos. Depois, nunca podemos dar um sinal de fraqueza. Os romanos nunca davam, eram extraordinariamente persistentes, iam até ao fim, levavam o outro lado a desistir".

O que nos leva ao segundo domínio: como convencer as opiniões públicas de que as guerras que travamos são necessárias? "Os romanos eram muito bons a convencerem a opinião pública de que as guerras eram justas, pois tinham a preocupação de tornar claro o que era a guerra, o que ela implicava, o que ela custava", explica Goldsworthy. Que desabafa: "É pena que os nossos políticos saibam tão pouco de história e não compreendam sequer isto."

Não surpreende por isso que, ainda de acordo com este historiador militar, "hoje ninguém esteja disposto a lutar até ao fim. Na Europa, sem dúvida. Mas também começa a sentir-se isso nos Estados Unidos. E nas batalhas que hoje se travam, no Iraque ou no Afeganistão, se o adversário percebe que não se quer permanecer muito mais tempo, então o seu raciocínio é simples: basta-lhe esperar. É por isso que os Estados Unidos deviam provar que são capazes de lutar o tempo que for necessário, mas isso não está a acontecer".

Mas com isto não estaremos apenas a tentar copiar tempos irrepetíveis? Não, até porque muito mudou, e para melhor: basta lembrar que em Roma se apreciavam espectáculos que terminavam com a morte de seres humanos. Mas ao mesmo tempo sim, pois o ADN da nossa espécie não se alterou e o mesmo César que ia ao Coliseu escrevia cartas onde "encontramos a mesma humanidade que ilumina tantos escritos contemporâneos".

Escritos e experiências que, diz Adrian Goldsworthy, muitos começam a sentir que devem voltar a ser estudados. Ou que, de certa forma, já recomeçaram a suscitar curiosidade, pelo que o historiador tem sido frequentemente convidado para falar a líderes políticos e militares. Talvez tarde de mais."Há pessoas que fazem com que as coisas aconteçam." Como? Conseguindo fazer "com que os processos ocorram de forma natural, oleada e rápida, quase como se não estivessem lá: é aí que se consegue distinguir quem tem ou não capacidade de liderança".


"Nunca podemos dar um sinal de fraqueza. Os romanos nunca davam, eram extraordinariamente persistentes, iam até ao fim, levavam o outro lado a desistir. (...) É pena que os nossos políticos saibam tão pouco de história, não compreendam isto (...) e que hoje ninguém esteja disposto a lutar até ao fim. Na Europa, sem dúvida. Mas também começa a sentir-se o mesmo nos Estados Unidos."

terça-feira, janeiro 12, 2010

Google Earth alimenta lenda de cidade perdida
12.01.2010 - 10:47 Por PÚBLICO

http://www.publico.clix.pt/Ciências/google-earth-ajuda-a-encontrar-cidade-perdida_1417383

É uma das lendas que mais entusiasma autores e durante anos, exploradores procuraram por uma cidade perdida, a “El Dorado”. Agora, conjuntamente com trabalhos arqueológicos, o Google Earth pode tê-la encontrado.Antiquity


Imagem do Google Earth da zona
O jornal “Antiquity” publicou um relatório que revela mais de 200 vestígios na Amazónia, perto da fronteira do Brasil com a Bolívia. Olhando do céu parece que uma série de figuras geométricas foram esculpidas na terra, mas arqueólogos e historiadores, que publicaram este relatório, consideram que essas marcas são os vestígios de uma antiga civilização. Tudo indica que os vestígios se situam entre os séculos 2 a.C. e 13 d.C.

Esta descoberta não se baseia só nos trabalhos arqueológicos, mas também na disponibilidade, por parte do Google Earth, de imagens de regiões desflorestadas da Amazónia.

No entanto, estes novos dados não podem ser encarados de forma exagerada, tal como considera David Grann, autor de “The Lost City of Z”, como muitas vezes também é designada a cidade El Dorado. “Isto rompe com as noções anteriores de como a Amazónia se pareceria antes da chegada de Cristóvão Colombo”, refere no jornal "Times".

Desde o tempo das conquistas, a lenda de uma antiga e perdida civilização no interior da floresta amazónica entusiasmou vários exploradores que partiram à descoberta desta cidade, embora nenhum deles tivesse conseguido provar a existência do local.

Por isso Grann destaca a história de um bandeirante português, que em 1753, depois de sair do interior da floresta amazónica afirmou que tinha visto as ruínas de uma antiga civilização do topo de uma montanha. “As ruínas mostram bem o tamanho e a grandeza do que terá sido a cidade e quão populosa e opulenta deve ter sido a era em que ela floresceu”, escreveu o bandeirante, conforme se pode ler no "Times".

As obras que se centram nesta cidade perdida são muitas e têm-se multiplicado ao longo dos anos, sendo os seus autores até do meio científico, como é o caso de um ex-director da Royal Geographic Society, John Hemming. Para além disso, é de sublinhar o nome de um dos exploradores mais interessados neste tema, Percy Fawcett que, em 1925, se aventurou novamente na floresta amazónica, tendo sido dado como desaparecido pela Royal Geographic Society, em 1927. Este explorador não chegou a ser encontrado, mas os seus registos inspiraram muitos investigadores. Fawcett publicou inúmeros livros sobre a El Dorado, ou a Cidade Z.

Como todas as lendas, este mistério de uma civilização perdida também foi transportado para a literatura. A obra "O Mundo Perdido", de Arthur Conan Doyle, conta uma história sobre um cientista que afirma ter evidências de espécies extintas que sobrevivem na Amazónia.

Milhões de chineses sem noiva para levar ao altar
Por Dulce Furtado

Uns 24 milhões de homens chineses não vão ter mulher com quem casar pelo final desta década. Em piores lençóis ficam os mais pobres, oriundos das zonas rurais, onde é mais acentuado o aborto selectivo de meninas, conclui um estudo da Academia de Ciências Sociais


http://jornal.publico.clix.pt/noticia/12-01-2010/milhoes-de-chineses-sem--noiva-para-levar-ao-altar-18563965.htm

O desequilíbrio populacional entre sexos na China é já um dado sociológico consolidado, mas agora um novo estudo que recebeu o apoio do Governo de Pequim vem prever que mais de 24 milhões de homens chineses em idade de casar vão muito provavelmente ver-se em dificuldades para encontrar uma mulher com quem fazê-lo por 2020.

Esta investigação, conduzida pela Academia Chinesa de Ciências Sociais, sublinha os impactos nefastos do que é descrito como o "mais sério problema demográfico" da população chinesa de 1,3 mil milhões de pessoas, encontrando as causas de raiz na "extremamente comum" prática de abortos selectivos, sobretudo nas regiões rurais, e na tendência em crescendo de os jovens casais urbanos optarem por não ter filhos.

Os factores que conduziram à situação de baixa fertilidade e, em especial, à prática de abortar bebés do sexo feminino são, porém, "de natureza muito complexa", é ainda sublinhado no extenso estudo agora publicado em livro por aquele think tank patrocinado pelo Estado. Para este cenário contribuem como "factores principais" o deficiente planeamento familiar do país - restringindo o número de filhos que os chineses podem ter -, assim como o "imaturo" sistema de segurança social.

Neste enquadramento, as pessoas tendem a querer ter apenas filhos do sexo masculino (quando desejam tê-los), os quais oferecem um maior potencial de ganhos na idade adulta e assim aumentam as possibilidades de poderem assistir os pais na velhice.

Os responsáveis pelo estudo instam o Governo chinês a suavizar a chamada política de um só filho, implementada em 1979 (com excepções dadas aos agricultores, minorias étnicas e outros pequenos grupos populacionais) para conter a explosão demográfica então verificada - avaliam os sociólogos que esta política impediu pelo menos 400 milhões de nascimentos. E urgem igualmente as autoridades a estudarem a possibilidade de encorajar "casamentos com pessoas de outros países", para tentar evitar o impacto social e económico negativo do desequilíbrio entre sexos.

Menina não nasce

A prática abortiva de fetos femininos, sublinha o estudo, intitulado Estrutura Social Contemporânea da China, é particularmente incidente nas áreas rurais da China, onde persiste uma "preferência cultural" centenária por filhos do sexo masculino e onde, de resto, a introdução da ecografia pelos finais da década de 1980 veio aumentar ainda mais o número de gravidezes a serem interrompidas quando é detectado um bebé do sexo feminino.

As estatísticas oficiais mais recentes, de 2005, dão conta de que nascem apenas 100 raparigas por cada 119 rapazes no país - desequilíbrio que se acentua para um rácio de 100/130 em algumas das províncias chinesas -, levando os cientistas sociais a crerem que muitos homens, sobretudo nas zonas mais pobres, vão permanecer solteiros durante toda a vida. A Comissão Nacional para a População e Planeamento Familiar chinesa define como "normal" uma diferença de nascimentos nas 100 raparigas para 103 a 107 rapazes.

"A hipótese de um homem com mais de 40 anos numa região rural casar será raríssima. E o problema é particularmente grave nestas áreas, onde os agricultores idosos dependem quase exclusivamente dos filhos. O que vai acontecer é que estes homens tornar-se-ão mais dependentes da segurança social conforme envelhecerem e terão menos recursos familiares nos quais confiar", avaliava um dos responsáveis pelo estudo, Wang Guangzhou, ao jornal chinês sino-anglo-saxónico Global Times.

O investigador considerou também que, em consequência, é de contar que a diferença de idades entre membros do casal tenda a alargar, registando-se cada vez mais casamentos intergeracionais ou em que a mulher é bem mais velha do que o homem, algo actualmente incomum no país.

Outro sociólogo envolvido no estudo, e igualmente ouvido por aquele diário, avançou ainda que os homens oriundos das regiões mais pobres da China ver-se-ão forçados a resignar-se a permanecer solteiros: isto poderá levar à "quebra das linhas familiares", apontou Wang Yuesheng.Prostituição e tráfico

O Global Times, citando dados da Comissão Nacional para a População e Planeamento Familiar, apontava ainda uma outra brutal consequência do já existente desequilíbrio demográfico: os raptos e o tráfico de mulheres são "galopantes" nas regiões do país em que há excedente no número de homens.

Casamentos ilegais e prostituição forçada são outros dois fenómenos problemáticos nestas zonas da China, frequentemente atribuídos à diferença nos números de homens e mulheres na população. Em muitas regiões do país houve um esforço por parte das autoridades para reduzir o número de abortos selectivos, tendo sido banido o recurso às ecografias ou a divulgação do sexo do feto quando estas são realizadas.

O Governo chinês lançou também, há dez anos, a campanha "cuidar das raparigas", oferecendo incentivos monetários às famílias rurais sem filhos do sexo masculino - mas viria em 2007 a reconhecer que o programa não fora bem sucedido.

terça-feira, janeiro 05, 2010

Sexo
Estudo britânico diz que Ponto G é apenas fruto da imaginação
http://dn.sapo.pt/inicio/ciencia/interior.aspx?content_id=1461836

Cientistas entendem que a razão para as mulheres imaginarem que têm esta zona erógena pode estar nas revistas e nos terapeutas


Podem adiar as buscas. Afinal a dificuldade em encontrar o mítico Ponto G pode ter uma razão: ele não estar lá. Esta foi a conclusão a que chegou um grupo de cientistas britânicos, do King's College London, depois de ter feito testes num grupo de mulheres, afirmando que esta zona erógena pode não passar de um mito provocado pela imaginação.

"É irresponsável admitir a existência de algo que nunca foi provado e, desta forma, colocar homens e mulheres sobre essa pressão", afirma Andrea Burri, que acha que esta pode ser uma boa notícia para as mulheres.

O estudo publicado no Journal of Sexual Medicine - o maior de sempre, envolvendo 1800 mulheres - diz que a razão para as mulheres imaginarem que têm um Ponto G pode estar nas revistas que lêem e nos terapeutas sexuais que consultam, que lhes incutem a ideia de que esta zona erógena existe.

As mulheres do estudo eram todas pares de gémeas, fossem idênticas ou não idênticas. Foi-lhes perguntado se tinham ou não um Ponto G. Se este existisse, seria normal que ambas as gémeas idênticas dissessem que tinham um, pois têm os mesmos genes. Mas este padrão não se revelou e as gémeas idênticas não tinham mais tendência para partilhar esta zona erógena do que as gémeas não idênticas, que partilham apenas metade dos genes da irmã.

Tim Spector, co-autor do estudo, diz que as mulheres "podem argumentar que têm um ponto G devido a dietas ou exercício mas, de facto, é virtualmente impossível descobrir marcas reais". "Este é o maior estudo do género feito e mostra que a ideia de ter um Ponto G é subjectiva", acrescenta.

A colega Andrea Burri mostra-se preocupada com as mulheres que, por acharem que não têm esta zona erógena, se possam sentir menos capazes. Algo desnecessário na opinião desta cientista.

Mas já há quem discorde desta descoberta. A sexóloga Beverly Whipple, que ajudou a popularizar a ideia do Ponto G, disse que este estudo é "defeituoso". Para a especialista, os investigadores não distinguiram as experiências de lésbicas ou mulheres bissexuais, além de não considerarem os efeitos de se ter diferentes parceiros sexuais com diferentes técnicas "de fazer o amor". Petra Boynton, uma psicóloga da University College London diz que "não há problema em procurar o Ponto G", da mesma forma que não há problema caso não o encontre. "Não deveria ser o centro das atenções. Todos somos diferentes", acrescenta.

O Ponto de Gräfenberg, também conhecido por Ponto G, recebeu o nome em honra do ginecologista alemão Ernst Gräfenberg que o descreveu há 50 anos. O médico localizou-o na parede frontal da vagina, entre dois a cinco centímetros de profundidade.

Recentemente, investigadores italianos afirmaram que conseguiam localizar esta zona erógena recorrendo a ultra-sons. Com um aparelho tentavam descobrir uma área com mais tecido, após as mulheres dizerem que tinham orgasmos. Mas avisam: podem haver outras razões para esta diferença.

Crise, depressão e suicídioUm triângulo perigoso?
Um socioepidemiologista britânico defende que um investimento de 130 euros por cidadão chegaria para amortecer eventuais efeitos negativos da crise económica na saúde mental. Em Portugal, como noutros países europeus, ainda não há dados que apontem para um aumento dos distúrbios mentais. Mas há um psiquiatra que fala num fenómeno novo: pessoas com ordenados em atraso que pedem baixa médica porque não têm dinheiro

http://jornal.publico.clix.pt/noticia/05-01-2010/crise-depressao-e-suicidioum-triangulo-perigoso-18521813.htm
Por Alexandra Campos


A crise económica tem um grande impacto na depressão e no suicídio? A simples lógica levaria a responder: obviamente, sim. Na Grande Depressão do século passado, a taxa de suicídio nos EUA acompanhou a par e passo a curva dos trágicos anos de grandes dificuldades económicas. Mas está mais do que provado que é possível fintar esta aparente inevitabilidade. Como? Investindo em programas de protecção laboral e social e em políticas de suporte familiar, não descurando o tratamento das pessoas com distúrbios mentais.

"É preciso dar um argumento económico aos políticos. É preciso explicar-lhes que investir na saúde mental em tempos de crise compensa", defende o socioepidemiologista David Stuckler, da Universidade de Oxford, no Reino Unido, que investigou a associação crise-depressão-suicídio, dissecando os dados de vários países ao longo dos últimos anos. As suas contas até já estão feitas. "Um investimento a partir de 130 euros por cidadão seria suficiente" para garantir um amortecimento dos previsivelmente efeitos perniciosos da crise na saúde mental da população, calcula Stuckler.

O impacto da recessão económica e financeira na saúde mental preocupa os responsáveis da Comissão Europeia (CE) e da Organização Mundial de Saúde (OMS) - e de tal forma que tem sido objecto de debate em vários encontros sobre saúde mental realizados este ano. Em Budapeste, em Dezembro, voltou a estar em foco numa conferência de alto nível sobre prevenção da depressão e do suicídio. Uma reunião em que participaram também psiquiatras, psicólogos, representantes de organizações não governamentais e investigadores. Muitos receiam que os tempos de dificuldades económicas potenciem os distúrbios mentais e, eventualmente, provoquem um aumento dos suicídios.

A preocupação justifica-se, porque a depressão atinge cada vez mais pessoas. As estimativas mais recentes indicam que afecta 13 por cento dos habitantes na União Europeia (UE) nalguma altura da sua vida; e, ainda que as taxas de suicídio estejam a diminuir, graças às estratégias de prevenção adoptadas por vários países, os dados do Eurostat indicam que em 2006 cerca de 57 mil pessoas puseram termo à vida no espaço da UE - o equivalente a um suicídio em cada nove minutos.

Mais vulneráveis

Apesar do crescimento acelerado do desemprego, da instabilidade laboral e das dívidas, e dos relatos esporádicos de um aumento da procura dos serviços de saúde, não existem por enquanto dados que apontem claramente no sentido de um aumento dos distúrbios mentais e dos suicídios. Ainda é demasiado cedo para sentir os efeitos da crise, justificam os especialistas.

Em Portugal, também ainda não há informação que permita traçar um retrato consistente da situação. O P2 tentou perceber se há mais pessoas a necessitar de apoio e a procurar os serviços de saúde. "Os dados que nos vão chegando das pessoas que procuram serviços de urgência e consultas não andam muito longe dos do ano passado. O que houve é um aumento significativo do consumo de ansiolíticos e antidepressivos que vem de alguns anos atrás e que se deve a muitos factores, não é possível dizer que seja resultado directo da crise económica", responde o coordenador nacional para a saúde mental, José Caldas de Almeida, que participou no encontro de Budapeste. E o número de suicídios tem-se mantido relativamente estável (1014 em 2007 e 1035 em 2008).

"As repercussões da crise actual só se sentirão lá para o fim deste ano", vaticina o presidente do colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos, João Marques Teixeira. Autor de um recente artigo de opinião sobre esta matéria (disponível no sítio da Sociedade Portuguesa de Suicidologia), o psiquiatra Nuno Gil, que trabalha no hospital de Viseu, acredita também que o impacto não será imediato. O que nota já é que na sua urgência hospitalar têm aparecido mais pessoas com problemas não propriamente clínicos mas sim sociais que acabam por ter repercussões sobre a saúde mental. E está a assistir a um fenómeno "inédito": "Há indivíduos com ordenados em atraso que nos pedem para passar baixas [pagas pela Segurança Social] porque não têm dinheiro".

Nuno Gil concede que em tempos de crise possam surgir suicídios em cluster, como os de magnatas que perdem tudo subitamente, mas recorda que o suicídio é muito mais complexo do que isso - é "um comportamento multifactorial que integra factores predisponentes e precipitantes".

"Não é correcto dizer que as pessoas se matam devido à crise", corrobora Ricardo Gusmão, coordenador nacional do programa Aliança Europeia Contra a Depressão e professor na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa. "As pessoas matam-se porque, num determinado momento, junta-se uma série muito variegada de factores", o mais importante dos quais "é a presença de um estado de doença mental". O problema é que, perante uma crise, uma pessoa com depressão "é muito mais vulnerável".

Anos de circunstâncias excepcionalmente negativas são, assim, anos perigosos: "Mais pessoas ficam com depressão e as que já tinham depressão e são atingidas pela pathos da economia vêem o seu quadro clínico agravado".

E Portugal é um dos 15 países da União Europeia que não têm um programa nacional de prevenção da depressão e do suicídio, como ficou patente no encontro de Budapeste. O que existe é apenas um programa regional "em implementação nos concelhos de Oeiras e de Cascais", recorda Ricardo Gusmão. O futuro programa nacional de prevenção do suicídio e de doenças afectivas deve ser criado este ano.

O psiquiatra Daniel Sampaio não está pessimista, até porque apenas prevê que a situação se possa agravar em Portugal se se assistir a um desinvestimento no tratamento da depressão. O impacto da crise no suicídio foi visível nos anos 30 do século passado, concede, mas é preciso ver que "nessa altura não existiam as actuais armas terapêuticas".

O exemplo sueco

A nível internacional, os políticos também não parecem estar, pelo menos por enquanto, muito preocupados com a monitorização da eventual associação entre crise-depressão e suicídio. Em Abril deste ano, na mesa-redonda Reduzir o impacto psicossocial da crise financeira e económica, em Bruxelas, foram vários os responsáveis dos estados-membros que disseram esperar um impacto da crise na saúde mental da população, mas nessa altura só a Letónia estava a quantificar o fenómeno, lamentou Jurgen Scheftlein, da Direcção-Geral para a Saúde e Consumidores da Comissão Europeia, na reunião de Budapeste.

Actuar por antecipação pode compensar, porém. Basta recuar a períodos recentes e igualmente complicados para se perceber que nos países com políticas de protecção social mais robustas a previsível associação entre crise-depressão e suicídio atenua-se ou não se vislumbra, sequer. No trabalho que dirigiu em conjunto com uma equipa de investigadores e foi publicado no The Lancet em Agosto, David Stuckler concluiu que subidas no desemprego semelhantes às que estamos a assistir causaram num passado recente aumentos no número de suicídios. E no de homicídios também.

Analisando dados relativos a 26 países da UE entre 1970 e 2007, a equipa constatou que cada incremento de um por cento nas taxas de desemprego foi acompanhado por um aumento de 0,8 por cento nas de suicídio nas pessoas com menos de 65 anos e de um acréscimo semelhante dos homicídios. Quanto às mortes devido ao abuso do álcool, essas cresciam substancialmente. Vai acontecer o mesmo agora? - inquietam-se os especialistas. Não necessariamente.

Os investigadores de Oxford sugeriam então várias receitas para driblar a crise: "Os governos poderão proteger as pessoas, nomeadamente através de medidas orçamentais que as mantenham empregadas, de ajudas para os desempregados lidarem com os efeitos negativos e de oportunidades para encontrarem rapidamente outro emprego".

Em Budapeste, Stuckler avançou com os exemplos de dois países europeus afectados por aumentos de desemprego acentuados no início dos anos 90 - a Suécia e a Espanha - para ilustrar a sua tese de que as políticas de protecção social e laboral podem mesmo "fazer a diferença". Enquanto em Espanha as taxas de suicídio masculino (os homens matam-se três vezes mais do que as mulheres, daí a escolha deste indicador) subiram a um ritmo sincronizado com o aumento do desemprego, na Suécia, apesar da perda de empregos ter disparado subitamente, o número de homens que puseram termo à vida no mesmo período até desceu. A diferença é que Espanha gastou então, em média, quatro vezes menos do que a Suécia em programas laborais e de protecção social, justificou.


A jornalista viajou a convite da Comissão Europeia

segunda-feira, janeiro 04, 2010

Arqueologia

Há cem mil anos a despensa dos humanos já teria cereais
04.01.2010 - 10:46
http://www.publico.clix.pt/Ciências/ha-cem-mil-anos-a-despensa-dos-humanos-ja-teria-cereais_1416187
Por Teresa Firmino

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Descoberta feita numa gruta em Moçambique relevou que a nossa espécie terá começado a ingerir cereais, e a aproveitar o seu amido energético, há bastante mais tempo do que se supunha. Alguns arqueólogos não estão, no entanto, totalmente convencidos.PÚBLICO (arquivo)


Esta é apresentada como a prova directa mais antiga do consumo dos cereais pelos humanos modernos
O advento da agricultura era então algo ainda longínquo e os humanos da nossa espécie, Homo sapiens sapiens, baseavam a sua alimentação na caça e na recolha dos frutos, nozes e raízes que encontravam. Os cereais, pelo menos tanto quanto as descobertas arqueológicas permitiam dizer, iriam ainda manter-se arredados milhares de anos da despensa dos seres humanos. Afinal, pode não ser bem assim: vestígios de sorgo encontrados numa gruta em Moçambique revelaram que há cem mil anos já comíamos cereais.

Em 2007, o arqueólogo Julio Mercader, da Universidade de Calgary (Canadá), esteve a escavar na gruta de Ngalue, no Noroeste do país, com colegas moçambicanos da Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo. Ao fim de um corredor com 20 metros de comprimento, a gruta desemboca numa câmara escura, com 50 metros quadrados e um tecto a oito metros de altura, que foi habitada de forma intermitente, ao longo de mais de 60 mil anos, por caçadores-recolectores.

Bem no interior da gruta, encontraram-se diversos tipos de ferramentas de pedra, ossos de animais e restos de plantas, depositados em camadas de sedimentos com 42 mil a 105 mil anos. Ora nas camadas com mais de cem mil anos o arqueólogo deparou-se com ferramentas que apresentavam vestígios de amido, oriundo principalmente de sorgo selvagem (quase 90 por cento dos restos de amido provinham deste cereal), segundo revela Mercader num artigo científico que publicou na revista Science. Outros vestígios de amido detectados provinham da palmeira-africana (que dá vinho), da batata-africana ou da bananeira-da-abissínia.

Início da agricultura

Qual a importância da descoberta relativa ao sorgo? É apresentada como a prova directa mais antiga do consumo dos cereais pelos humanos modernos, como se chama também à nossa espécie, surgida há cerca de 200 mil anos.

Até há pouco tempo, pensava-se que os humanos só começaram a comer grandes quantidades de cereais com a domesticação das plantas há dez mil anos - ou seja, com o aparecimento da agricultura. Esta ideia foi abalada em 2004, quando uma equipa de cientistas disse ter descoberto vestígios de trigo e cevada numa ferramenta de pedra com 23 mil anos, encontrada em Israel. O artigo de Mercader na Science veio portanto revelar que começámos a comer cereais cerca de 80 mil anos mais cedo do que se supunha até agora.

Pensava-se que os cereais teriam entrado tardiamente na alimentação humana por uma simples razão: como não é fácil torná-los saborosos, têm de ser transformados em farinha e cozidos em pão ou papas. Além do dispêndio de energia, isso é tecnologicamente difícil, pelo que se pensou que só bastante tarde os humanos começaram a tirar proveito do seu conteúdo em amido, como uma reserva energética. Hoje, o sorgo é o principal cereal consumido na África subsariana, onde a sua farinha até é fermentada em bebidas alcoólicas.

"Isto alarga a cronologia do uso de cereais pela nossa espécie e prova a existência de uma dieta sofisticada mais cedo do que pensávamos. Aconteceu numa altura em que, convencionalmente, se considerava a recolha de grãos selvagens como uma actividade irrelevante e não tão importante como a da apanha de raízes, frutas e nozes", sublinhou Mercader, citado numa nota da sua universidade.

Passo na evolução humana

"Tem-se colocado a hipótese de que o amido representa um passo crítico na evolução humana, ao melhorar a qualidade da dieta humana na savana africana e nas terras húmidas, onde evoluíram os humanos modernos. Isto pode ser considerado um dos exemplos mais precoces desta transformação na dieta", acrescenta o arqueólogo. "A inclusão de cereais na nossa dieta é um importante passo na evolução humana por causa da sua complexidade técnica e da manipulação culinária que exige para transformar os grãos em bens de consumo."

Nem toda a gente concorda com a interpretação de Mercader. Por exemplo, o arqueólogo Curtis Marean, da Universidade Estadual do Arizona, considera que os cereais podem ter sido utilizados em muitas coisas, como servir de cama, segundo declarações suas numa notícia tambémda Science: "O custo do processamento dos cereais selvagens é muito elevado. Além disso, a maioria dos ambientes africanos tem uma diversidade de alimentos mais produtivos para os caçadores-recolectores."

Na mesma linha crítica, Huw Barton, da Universidade de Leicester, no Reino Unido, diz que os resíduos de sorgo estão em ferramentas que não eram utilizadas no processamento de cereais. "Isto não tem qualquer sentido para mim", comenta.

A tudo isto, Mercader responde: "Por que é que alguém iria levar sorgo para uma gruta, a não ser que estivesse a fazer alguma coisa com ele? A explicação mais simples é a de que era um bem alimentar."

Seja qual for a interpretação mais próxima da realidade, o certo é que a descoberta na gruta de Ngalue lançou o debate sobre o que guardavam os primeiros Homo sapiens sapiens nas suas despensas.