"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

terça-feira, fevereiro 23, 2010

Os bastardos da guerra descobrem as suas raízes
http://jornal.publico.clix.pt/noticia/22-02-2010/os-bastardos--da-guerra--descobrem--as-suas-raizes-18847998.htm
Por Edward Cody

Viveram anos e anos sem saber quem eram os seus verdadeiros pais. Ou a esconder essa verdade. Agora começaram a falar entre si


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Jean-Jacques Delorme tinha 23 anos quando soube a verdade. Depois de anos de mistério, durante os quais a sua mãe manteve um persistente silêncio, a avó de Delorme abriu um enorme armário e retirou um envelope amarelecido cheio de fotos de um soldado alemão. Ele tinha sido o amor da sua mãe durante a ocupação da França, na II Guerra Mundial. "Foi quando compreendi tudo", recorda Delorme, incapaz de falar devido à forte emoção que lhe provoca a memória da angustiante tarde de 1967. "Finalmente, eu tinha um pai."

Os historiadores estimam que mais de 800 mil crianças filhas de soldados alemães nasceram durante os cerca de quatro anos de ocupação nazi da Europa, 200 mil das quais em França. Como Delorme, a maior parte foi criada por trás de um véu de segredo e vergonha, ridicularizados na escola e incapazes de perceber o que tinham feito de mal. Muitas das suas mães foram exibidas nuas nas ruas com o cabelo rapado, depois da retirada alemã. Outras, como a de Delorme, estiveram presas por traição.

Mais de seis décadas depois, com essas crianças nos seus 60 anos, há no ar um princípio de mudança. Alguns dos bebés da guerra começaram a falar entre si, lamentando a vergonha que fizeram sentir. Um número crescente decidiu procurar os pais e as famílias alemãs.

A revelação da avó de Delorme foi apenas o início de uma busca de décadas, de procura persistente em arquivos alemães, de pedidos de ajuda a historiadores, de falsas pistas. A mãe, afectada pela prisão como colaboradora a seguir à guerra, não o ajudou. Delorme, contudo, insistiu e há três anos completou, por fim, a sua árvore genealógica.

O pai, descobriu, era Hans Hoffmann, um padeiro de Mainz. Durante a guerra, Hoffmann tocou violoncelo numa orquestra da Wehrmacht enviada para a Paris ocupada, onde arranjou a amante francesa. Depois, quando o Terceiro Reich se desmoronava, a 25 de Abril de 1945, foi morto numa aldeia da Baviera, resistindo a um violento ataque de tanques norte-americanos.

"Não encontrei paz [com a descoberta]. Paz é uma palavra muito forte. Mas alcancei um certo nível de serenidade", diz Delorme, agora com 65 anos, reformado dos Correios em Menton, na Riviera francesa. "De repente, passei a ter pai, tias, primas. Uma família inteira."

Para ajudar pessoas como ele, que procuram as suas origens, Delorme fundou a Coeurs Sans Frontières. A organização, criada há três anos, com 300 membros, todos filhos de soldados alemães, fornece números de telefone para os quais as crianças da guerra podem ligar para falar sobre o que é crescer por trás de um véu. O grupo realizou uma convenção no final do ano passado em Caen para troca de experiências e para ouvir historiadores falar do lugar a que pertencem.


"As nossas vozes"

"O que vivemos e as privações que sentimos durante todas as nossas vidas levaram-nos a fazer ouvir as nossas vozes", explica Gerlina Swillen, uma belga professora do ensino secundário e investigadora da Universidade de Vrije, em Bruxelas. "Não queremos que nenhuma criança passe por isso."

Swillen diz que as pessoas começaram a falar agora, em parte, porque só se atreveram a isso apenas depois da morte das mães. Além disso, acrescenta, as atitudes mudaram, atenuando o estigma, e os arquivos alemães tornaram-se mais acessíveis do que até há poucos anos.

Gerlina Swillen conta que suspeitou durante muito tempo de que havia algo estranho no seu passado. Só soube que o pai era um soldado alemão - um dos cerca de 20 mil na Bélgica - quando a mãe lho disse, em 2007. A mãe continuou a corresponder-se com o antigo amante depois da guerra, mas destruiu as cartas quando casou com um homem belga.

Georg Lilienthal, director do Hadamar Memorial, dedicado às vítimas da "eutanásia" nazi na Alemanha, acha que poucos alemães estão dispostos a falar sobre o assunto, independentemente da emoção que o assunto provoque nos países que ocuparam. Muitos soldados tinham mulheres e filhos. Em muitos casos, estão agora mortos, mas, assinalou, alguns dos bebés da guerra foram bem recebidos pelos seus meios-irmãos e meias-irmãs, enquanto outros foram rejeitados. "É preciso passar mais tempo", acrescenta.

O ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Bernard Kouchner, pediu recentemente ao Governo alemão para dar a cidadania a bebés franceses da guerra que a peçam, depois de traçar a sua filiação. Uma meia-dúzia já obteve passaportes alemães e mais de duas dezenas de outros pediram-na, incluindo Delorme.

"Reconhecer a cidadania alemã a essas pessoas é uma importante decisão, um acto simbólico muito importante do Governo alemão", disse. "Os problemas e dificuldades que essas crianças tiveram durante as suas vidas continuam a traumatizá-las hoje em dia."

Delorme ficou curioso pelo seu parentesco quando descobriu, num documento de identificação, aos 12 anos, que tinha sido "perfilhado" pelo marido da mãe. Perguntou o que era isso, mas ninguém lhe explicou. "A partir de então qualquer coisa me incomodava." Perguntou repetidamente à avó, que o criou, e à mãe, quais eram as suas origens. Da avó recebeu evasivas, da mãe enfado e silêncio.

Filhos de monstros

Na escola, numa pequena cidade da Normandia, era chamado "filho de alemão". À medida que crescia, a verdade começava a tomar forma; o pior foi confirmado com a tardia decisão da avó de lhe mostrar as fotos.

"Éramos os filhos de monstros", diz, recordando o ódio aos nazis quando cresceu na França do pós-guerra. "Eu era um bastardo da minha mãe e, mais que isso, um bastardo de um kraut. Sempre que eu falava das minhas origens, as pessoas afastavam-se. Ganhei o hábito de não falar disso."

A mãe de Delorme morreu em 1994, numa altura em que as suas pesquisas estavam em curso. Depois de anos perdidos a seguir a pista de um "primo" do pai com o qual acabou por descobrir que não tinha relação, soube finalmente da orquestra militar e contactou um arquivista em Berlim, que lhe enviou uma lista dos seus membros. E em 2007 viajou até Mainz, para encontrar o meio-irmão e a meia-irmã.

Até então, os irmãos não faziam ideia que o pai tinha tido uma relação na França ocupada. Mas, após alguns momentos de embaraço, acolheram-no como membro da família. Passaram a trocar presentes no Natal. E recentemente decidiram visitar-se uma vez por ano, alternadamente na Alemanha e na França.

Delorme afirma, contudo, que vai manter o nome, que é da avó e do avô - e da mãe. Vai manter os documentos franceses e, eventualmente, obter passaporte alemão. A sorrir, diz: "Vou usar o passaporte alemão em França e o passaporte francês na Alemanha".

Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post

Os bastardos da guerra descobrem as suas raízes
http://jornal.publico.clix.pt/noticia/22-02-2010/os-bastardos--da-guerra--descobrem--as-suas-raizes-18847998.htm
Por Edward Cody

Viveram anos e anos sem saber quem eram os seus verdadeiros pais. Ou a esconder essa verdade. Agora começaram a falar entre si


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Jean-Jacques Delorme tinha 23 anos quando soube a verdade. Depois de anos de mistério, durante os quais a sua mãe manteve um persistente silêncio, a avó de Delorme abriu um enorme armário e retirou um envelope amarelecido cheio de fotos de um soldado alemão. Ele tinha sido o amor da sua mãe durante a ocupação da França, na II Guerra Mundial. "Foi quando compreendi tudo", recorda Delorme, incapaz de falar devido à forte emoção que lhe provoca a memória da angustiante tarde de 1967. "Finalmente, eu tinha um pai."

Os historiadores estimam que mais de 800 mil crianças filhas de soldados alemães nasceram durante os cerca de quatro anos de ocupação nazi da Europa, 200 mil das quais em França. Como Delorme, a maior parte foi criada por trás de um véu de segredo e vergonha, ridicularizados na escola e incapazes de perceber o que tinham feito de mal. Muitas das suas mães foram exibidas nuas nas ruas com o cabelo rapado, depois da retirada alemã. Outras, como a de Delorme, estiveram presas por traição.

Mais de seis décadas depois, com essas crianças nos seus 60 anos, há no ar um princípio de mudança. Alguns dos bebés da guerra começaram a falar entre si, lamentando a vergonha que fizeram sentir. Um número crescente decidiu procurar os pais e as famílias alemãs.

A revelação da avó de Delorme foi apenas o início de uma busca de décadas, de procura persistente em arquivos alemães, de pedidos de ajuda a historiadores, de falsas pistas. A mãe, afectada pela prisão como colaboradora a seguir à guerra, não o ajudou. Delorme, contudo, insistiu e há três anos completou, por fim, a sua árvore genealógica.

O pai, descobriu, era Hans Hoffmann, um padeiro de Mainz. Durante a guerra, Hoffmann tocou violoncelo numa orquestra da Wehrmacht enviada para a Paris ocupada, onde arranjou a amante francesa. Depois, quando o Terceiro Reich se desmoronava, a 25 de Abril de 1945, foi morto numa aldeia da Baviera, resistindo a um violento ataque de tanques norte-americanos.

"Não encontrei paz [com a descoberta]. Paz é uma palavra muito forte. Mas alcancei um certo nível de serenidade", diz Delorme, agora com 65 anos, reformado dos Correios em Menton, na Riviera francesa. "De repente, passei a ter pai, tias, primas. Uma família inteira."

Para ajudar pessoas como ele, que procuram as suas origens, Delorme fundou a Coeurs Sans Frontières. A organização, criada há três anos, com 300 membros, todos filhos de soldados alemães, fornece números de telefone para os quais as crianças da guerra podem ligar para falar sobre o que é crescer por trás de um véu. O grupo realizou uma convenção no final do ano passado em Caen para troca de experiências e para ouvir historiadores falar do lugar a que pertencem.


"As nossas vozes"

"O que vivemos e as privações que sentimos durante todas as nossas vidas levaram-nos a fazer ouvir as nossas vozes", explica Gerlina Swillen, uma belga professora do ensino secundário e investigadora da Universidade de Vrije, em Bruxelas. "Não queremos que nenhuma criança passe por isso."

Swillen diz que as pessoas começaram a falar agora, em parte, porque só se atreveram a isso apenas depois da morte das mães. Além disso, acrescenta, as atitudes mudaram, atenuando o estigma, e os arquivos alemães tornaram-se mais acessíveis do que até há poucos anos.

Gerlina Swillen conta que suspeitou durante muito tempo de que havia algo estranho no seu passado. Só soube que o pai era um soldado alemão - um dos cerca de 20 mil na Bélgica - quando a mãe lho disse, em 2007. A mãe continuou a corresponder-se com o antigo amante depois da guerra, mas destruiu as cartas quando casou com um homem belga.

Georg Lilienthal, director do Hadamar Memorial, dedicado às vítimas da "eutanásia" nazi na Alemanha, acha que poucos alemães estão dispostos a falar sobre o assunto, independentemente da emoção que o assunto provoque nos países que ocuparam. Muitos soldados tinham mulheres e filhos. Em muitos casos, estão agora mortos, mas, assinalou, alguns dos bebés da guerra foram bem recebidos pelos seus meios-irmãos e meias-irmãs, enquanto outros foram rejeitados. "É preciso passar mais tempo", acrescenta.

O ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Bernard Kouchner, pediu recentemente ao Governo alemão para dar a cidadania a bebés franceses da guerra que a peçam, depois de traçar a sua filiação. Uma meia-dúzia já obteve passaportes alemães e mais de duas dezenas de outros pediram-na, incluindo Delorme.

"Reconhecer a cidadania alemã a essas pessoas é uma importante decisão, um acto simbólico muito importante do Governo alemão", disse. "Os problemas e dificuldades que essas crianças tiveram durante as suas vidas continuam a traumatizá-las hoje em dia."

Delorme ficou curioso pelo seu parentesco quando descobriu, num documento de identificação, aos 12 anos, que tinha sido "perfilhado" pelo marido da mãe. Perguntou o que era isso, mas ninguém lhe explicou. "A partir de então qualquer coisa me incomodava." Perguntou repetidamente à avó, que o criou, e à mãe, quais eram as suas origens. Da avó recebeu evasivas, da mãe enfado e silêncio.

Filhos de monstros

Na escola, numa pequena cidade da Normandia, era chamado "filho de alemão". À medida que crescia, a verdade começava a tomar forma; o pior foi confirmado com a tardia decisão da avó de lhe mostrar as fotos.

"Éramos os filhos de monstros", diz, recordando o ódio aos nazis quando cresceu na França do pós-guerra. "Eu era um bastardo da minha mãe e, mais que isso, um bastardo de um kraut. Sempre que eu falava das minhas origens, as pessoas afastavam-se. Ganhei o hábito de não falar disso."

A mãe de Delorme morreu em 1994, numa altura em que as suas pesquisas estavam em curso. Depois de anos perdidos a seguir a pista de um "primo" do pai com o qual acabou por descobrir que não tinha relação, soube finalmente da orquestra militar e contactou um arquivista em Berlim, que lhe enviou uma lista dos seus membros. E em 2007 viajou até Mainz, para encontrar o meio-irmão e a meia-irmã.

Até então, os irmãos não faziam ideia que o pai tinha tido uma relação na França ocupada. Mas, após alguns momentos de embaraço, acolheram-no como membro da família. Passaram a trocar presentes no Natal. E recentemente decidiram visitar-se uma vez por ano, alternadamente na Alemanha e na França.

Delorme afirma, contudo, que vai manter o nome, que é da avó e do avô - e da mãe. Vai manter os documentos franceses e, eventualmente, obter passaporte alemão. A sorrir, diz: "Vou usar o passaporte alemão em França e o passaporte francês na Alemanha".

Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post

milhões de bactérias novas

Passámos 15 dias a comer milhões de bactérias boas
Os superalimentos que dizem promover a saúde estão nos supermercados. O Activia da Danone é um deles, um concentrado de bactérias com funções intestinais, 20 anos de história e artigos científicos que credibilizam a publicidade. O P2 testou-o durante 15 dias.
http://jornal.publico.clix.pt/noticia/23-02-2010/passamos-15-dias--a-comer-milhoes--de-bacterias-boas-18805397.htm
Por Nicolau Ferreira

O que são probióticos?
Legislação até 2011

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Há um borrão verde-escuro no corredor dos iogurtes de qualquer supermercado que exige concentração extra para se compreender. Da esquerda para a direita são os sabores que variam: kiwi, morango, ameixa, manga, ananás, frutos silvestres, pêssego, cereais ou muesli. De cima para baixo as prateleiras apresentam texturas diferentes: aroma, pedaços e líquidos. Qualquer que seja o tipo, os produtores não se esqueceram que há sempre alguém decidido a poupar calorias, por isso existem linhas zero de tudo.

Finalmente, destacado de lado, está o último grito desta marca de iogurtes da Danone, os combinados, que ocupam várias prateleiras. Têm um ar sofisticado, apropriado para quem quer ter a última palavra na confecção do seu iogurte e gosta de decidir o momento certo em que os cereais e fruta se juntam ao colóide branco.

O P2 contou num hipermercado 28 tipos diferentes do iogurte mais consumido em todo o mundo. Esperar pelo momento da compra para escolher o Activia que melhor se adequa ao nosso gosto, possibilidades económicas e modo de vida - parece que os portugueses são especialmente aficionados pelas versões líquidas - pode levar o tempo suficiente para se apanhar uma constipação, dada a temperatura que está na zona dos produtos lácteos.

Para casa, levámos aromas com diferentes sabores para duas semanas. Simples, barato e clássico, mas um passo gigante à frente, se compararmos com os primeiros iogurtes produzidos em 1919 por Isaac Carasso, criador da Danone, quando fundou a empresa em Barcelona. Carasso era originário da Grécia e decidiu transportar uma receita antiga dos Balcãs para a Europa ocidental: fermentar leite com a bactéria mais tarde conhecida por Lactobacillus delbrueckii bulgaricus. Na altura já se acreditava que estes iogurtes primitivos, mas com séculos de história naquela região, tinham efeitos benéficos na saúde. Reduziam as inflamações no tracto intestinal e tornavam as pessoas mais resistentes a infecções, argumentos que vieram a ser comprovados em estudos científicos posteriores. Como a farmácia era o local óbvio para a venda de um produto alimentar com funções medicinais, os frascos de cerâmica com a nova substância branca começaram por ser vendidos aí. Quase cem anos depois, o rótulo "saúde" passou a ser indissociável dos iogurtes, mas estes são agora olhados como um alimento. A Danone, no entanto, está a fazer tudo para trazer o espírito original de volta, o Activia nasceu em 1987 e foi o primeiro produto com uma nova carga medicinal. Um iogurte com milhões de bactérias especiais que o P2 resolveu testar.

Caldo de bactérias

"A Danone é um produtor de alimentos, mas quer dar saúde", disse Jean Michel Antoine, director de nutrição da Danone, que fez uma apresentação para jornalistas portugueses sobre os objectivos da marca no Centro Daniel Carasso, um dos maiores locais de investigação e fábrica da empresa, que fica em Palaiseau, a poucas dezenas de quilómetros de Paris. Foi o médico que deu a prescrição certa ao P2, referindo que estava comprovado que os resultados do Activia eram sentidos após a primeira semana, mas que só ao fim de 15 dias de consumo diário de um iogurte por dia é que as bactérias funcionavam a valer (ver caixa).

A receita dada por Jean Michel Antoine foi no final de uma conversa acompanhada por um powerpoint, em que o médico enumerou todos os pontos que mostram como o objectivo da empresa é tornar-se numa "referência mundial de alimentação saudável". A política é transversal e vai desde opções de mercado como o abandono da venda de cervejas e bolachas, por não serem alimentos que à partida promovam a saúde. Passa pela diminuição da quantidade de açúcar em iogurtes como o Danoninho. E atinge a aposta em novas gamas de produtos como águas minerais ou leites para bebés.

Mesmo entre os trabalhadores fomenta-se a saúde. Quem vai todos os dias para o Centro Daniel Carasso, um edifício enorme com uma arquitectura moderna, envolto num cenário bucólico com um lago ao fundo, pode ler no hall de entrada a frase May health be your first medicine, ou seja, "Que a saúde seja a sua primeira medicina". No dia-a-dia dos trabalhadores promove-se o consumo dos produtos da Danone, como o Actimel, e as águas. Até nas casas de banho existem diagramas que mostram a paleta de cores que a urina pode ter, indicando qual é a saudável e qual aquela que exige uma visita ao médico. A investigação que envolve produtos como o Activia, o Actimel, Corpos Danone e outros probióticos é mais uma face desta onda positivista que acredita que vamos todos viver até aos cem anos e que se tornou numa fórmula de sucesso para a marca que vê as suas receitas crescerem. É impossível para quem sai do centro não querer agarrar o primeiro alimento probiótico que lhe vier parar à mão e engoli-lo como o elixir perfeito do século XXI.

Durante 15 dias foi isso que fizemos. Não houve nenhuma mudança na alimentação quotidiana: todo o consumo de batatas fritas, conservas de atum, sopa de vegetais, pão, fiambre e manteiga, leite de soja, chocolate, café e álcool, que fazia parte da semana alimentar, manteve-se, com a adição de um aroma Activia por dia, à hora que calhasse. Um estudo muito pouco científico, sem grupo de controlo nem medição do diâmetro da barriga - o ventre menos inchado é um dos benefícios que a Danone diz que este iogurte traz -, com um objectivo de uma avaliação empírica, individual e não representativa de nada.

A bactéria do iogurte Activia, Bifidobacterium animalis DN-173010, é apenas uma das 4500 estirpes que estão guardadas nos laboratórios do Centro Daniel Carasso, em azoto líquido. Existem 80 espécies diferentes de bactérias que "aumentam as oportunidades para se encontrar a estirpe certa para um certo efeito", explicou Jean Michel Faurie, investigador do centro. "Os benefícios de que estamos à procura nas bactérias estão normalmente associados a um ou dois genes. Às vezes é necessário ter uma reacção complexa para se ter o resultado e são necessárias condições especiais para que a reacção se dê e todos os genes sejam expressos", explica o cientista, enquanto mostra os laboratórios onde se investigam as bactérias.

As bactérias que estão a ser estudadas têm que dar as mesmas garantias que o Bifidobacterium animalis DN-173010 deu há mais de 20 anos. São postas a interagir com células intestinais para se compreender se existem processos benéficos para as células, mas ao mesmo tempo têm que ter capacidade de resistência para atravessar o processo industrial sem morrerem e sem alterarem o seu metabolismo, e, finalmente, têm que sobreviver à travessia pelo tubo digestivo. No caso do Activia, cada iogurte tem 10 milhões de bactérias e 30 por cento destas têm que ser recolhidas vivas nas amostras de fezes para provar a eficácia.

E "batatinhas com arroz"?

Ao longo dos anos a mensagem das várias publicidades repete-se, direccionada sempre para as mulheres: "Activia por dentro e isso vê-se por fora." Manuela Pintado e Ana Gomes traduziram ao P2 o que se sabe a nível científico sobre este iogurte: "Os estudos sustentam que o consumo regular do Activia pode desencadear benefícios na regulação do trânsito gastrointestinal e redução de sintomas relacionados com o síndrome irritável do intestino [uma doença que afecta entre 10 e 20 por cento da população ocidental, caracterizada por alterações no trânsito intestinal de que ainda se sabe muito pouco]." As investigadoras da Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica pesquisam na área dos probióticos e estão a par dos estudos que saem anualmente sobre o iogurte.

Cátia Gomes tem 17 anos e come Activia há dois ou três meses. Tem um ar jovem, cabelo castanho, pele clara e olhar decidido. Vê no iogurte apenas um alimento. "Consumo, porque é bom", diz ao P2, explicando que toma sempre o Activia líquido, de morango, e nunca associou os efeitos benéficos que promovem o produto. "Se tenho mau trânsito intestinal, é batatinhas e arroz."

A opinião de Ana Castanho é mais centrada na marca. A promotora de turismo de 46 anos consumiu o iogurte durante um ou dois anos. "Gostava da textura e de fazerem bem... não era apenas pelo trânsito intestinal", explica ao P2, apontando o facto de serem cremosos e terem vários sabores. Quanto ao seu efeito no trânsito, a sua experiência pessoal não é suficiente para formar uma opinião, "mas tenho uma amiga que diz que funcionam bastante, têm é que ser tomados regularmente." Ana Castanho defende que, mais do que nos estudos científicos, confia na marca. "Não acredito plenamente que faça efeito, mas acredito que pode ajudar. Se eu tivesse colesterol alto, não deixaria de tomar o medicamento substituindo-o pelo Danacol [outro dos produtos da Danone feito para pessoas com o colesterol alto], mas talvez experimentasse, seria uma ajuda."

A Associação Portuguesa de Dietistas (APD) é mais cautelosa na defesa dos alimentos probióticos. "Os estudos actuais mostram alguma falta de consenso no que diz respeito ao efeito. O tipo de bactéria em estudo, a quantidade em que esta é administrada e a duração dessa administração fazem com que os estudos não demonstrem claramente resultados benéficos", explicou Catarina Guerreiro, da direcção da APD. A médica e dietista acrescenta que existem situações clínicas pontuais em que se mostrou a eficácia, mas alerta para as particularidades dos probióticos, como o tipo de alimento que as bactérias necessitam para trabalharem melhor no nosso intestino: "O substrato ideal para os probióticos é um grupo de fibras, onde se incluem os frutooligossacaridos da chicória, da cebola, do alho ou das alcachofras." Um pormenor que passou ao lado da experiência realizada pelo P2, assim como outras recomendações que o próprio site da Activia tem, como manter uma alimentação saudável, tomar as refeições a horas regulares, fazer exercício físico ou comer mais fibras.

Falta de legislação

Um dos problemas com que a Danone se debate actualmente é a competitividade com os produtos de outras marcas que utilizam bactérias semelhantes e que levam os consumidores a associar novos iogurtes às características de um Activia. As duas investigadoras da Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica alertam que "o efeito probiótico é específico da estirpe, o que significa que potenciais efeitos benéficos atribuídos a uma dada estirpe não podem ser atribuíveis a outra". Por isso, até 2011, todas as marcas serão obrigadas a provar à Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos os benefícios para a saúde que alegam que os seus produtos têm (ver caixa).

"É necessária mais legislação e controlo na rotulagem alimentar nos produtos de marca branca e não só", garante Catarina Guerreiro, acrescentando que "existem muitas campanhas de marketing baseadas apenas na evidência financeira e muito pouco em evidência científica".

No caso da Activia, as vendas vão de vento em popa - está nas prateleiras dos supermercados de 71 países, e, em 2008, obteve receitas no valor de 2,3 mil milhões de euros, 24 por cento acima do resultado do ano anterior. "São consumidos 300 produtos de Activia por segundo. E é o mesmo iogurte em todas as partes do mundo", diz Jean Michel Antoine.

No nosso caso, a prateleira do frigorífico foi ficando cada vez mais leve de pacotinhos de plástico verde-escuro enquanto eram consumidos alternadamente os sabores de morango, manga e pêssego. Houve um estado de alerta para os resultados na casa de banho, mas as sessões mantiveram-se tão frequentes ou infrequentes como sempre, sem nenhuma tendência especial. Assim, se alguém nos perguntar se o Activia resulta, responderemos com um encolher dos ombros pouco científico: "Durante estes 15 dias não, mas também não tivemos uma dieta especialmente butirogénica [rica nas tais fibras que são o alimento das bactérias]." O iogurte, no entanto, come-se bem.


O jornalista viajou a convite da Danone

sábado, fevereiro 13, 2010

E se as pessoas chorassem num despedimento colectivo

E se todos chorassem durante um despedimento colectivo?
Não despedir às sextas-feiras. As pessoas vão para casa revoltadas, a família vai influenciá-las. Fazer uma "preparação exaustiva" das reuniões com os trabalhadores. Tudo com "dignidade e respeito". Como actua quem despede? Será mesmo como no filme Nas Nuvens? As emoções acabam por perturbar quem parece protegido do outro lado da mesa. "Às vezes, pergunto-me: o que será feito daquelas pessoas?"

http://jornal.publico.clix.pt/noticia/13-02-2010/e-se-todos-chorassem-durante-um-despedimento-colectivo-18780777.htm
Por João Ramos de Almeida

Não é habitual um representante de uma empresa chorar na negociação com alguém que está a ser despedido. Foi há mais de dez anos, mas isso só tem importância porque nessa altura não havia crise económica e nem se falava tanto de despedimentos.

O proprietário de uma empresa de alguma dimensão queria acabar com a produção local e manter apenas a parte comercial. Um corte legal de mais de metade dos trabalhadores. Mas todos sentiram muito mais do que a simples legitimidade da lei. As reuniões com os trabalhadores, a maioria com muitos anos "de casa", prolongaram-se. Os trabalhadores queriam falar de si, das suas vidas, do que tinham ali feito, do que sentiam. Precisavam de falar. E foi aí que uma dessas reuniões foi interrompida porque o representante da empresa se emocionou de tal forma que não conseguiu continuar.

"Havia um envolvimento pessoal e directo entre quem representava a entidade empregadora e os trabalhadores que se iam sentando à nossa frente. Foi necessário dar tempo, bastante tempo, a cada um dos trabalhadores", conta Maria da Glória Leitão, advogada, responsável pelo departamento laboral do escritório Cuatrecasas Gonçalves Pereira & Associados. "As pessoas falavam, falavam..." A voz da advogada torna-se mais fraca. Depois retoma o tom habitual. "Estava-se ali numa atitude de ouvir, não era ligar o taxímetro."

O que intriga é por que razão não se chora mais nos despedimentos. Não é todos os dias que se está diante de pessoas a quem se quebrou um dos elos essenciais da sua vida, de integração na sociedade, a sua fonte de rendimento, de sobrevivência, de expectativas.

O P2 desafiou três advogados e um responsável do departamento de recursos humanos (RH) de uma firma multinacional que, na sua actividade, intervieram em despedimentos. Ouviu Maria da Glória Leitão, Pedro Furtado Martins, da firma Sérvulo & Associados, e Susana Afonso Costa, do escritório Rebelo de Sousa. E perguntou-lhes como se organiza um despedimento, como lidam com a emoção.

O pretexto é o filme, ainda nos cinemas, Nas Nuvens, de Jason Reitman. O personagem principal vive "no ar", voando de cidade em cidade, aterrando onde se pretenda despedir trabalhadores. Ryan Bingham (George Clooney) não é um advogado, é um "técnico" que está ali diante da pessoa que vai ser confrontada, de chofre, com a notícia que irá desmoronar o seu mundo. A sua missão é transformar quem vai ser despedido numa pessoa satisfeita com a "nova oportunidade" de realizar o seu sonho, graças à disponibilidade que vai passar a ter para fazê-lo. Mas principalmente - e essa parte não é dita - fazer com que o despedimento seja rápido e não dê lugar a recurso aos tribunais.

Na verdade, a profissão de Bingham nem é muito real. Habitualmente, as empresas ou se encarregam elas próprias desses processos ou contratam advogados. Em Portugal, conhecem-se poucos casos. Em 1993, a TAP recorreu a uma empresa do Instituto de Participações do Estado que já actuara na Quimigal, na vidreira Irmãos Stephen, na Covina ou na Marconi. Na TAP, a missão era despedir 1500 trabalhadores. Recebia 200 contos "por escalpe" - como diziam os sindicatos - e o que conseguisse nas negociações.Um a um, os trabalhadores iam entrando num dos edifícios do aeroporto de Lisboa. Ofereciam-lhes quantias irrisórias. Uma pressão psicológica terrível. Muitos aceitaram, outros processaram a TAP. Houve baixas psicológicas e um suicídio.

Sem recurso a este tipo de empresas, o número de despedimentos tem crescido desde 2006. "2009 foi um ano orientado para a reestruturação", explica a advogada Susana Afonso Costa. A crise acelerou as reduções, houve fusões e absorções, e ainda, segundo a advogada, a "iberização", com empresas espanholas ou multinacionais a desnatarem as portuguesas, reduzindo-as aos departamentos comerciais. Despediu-se muita gente.

Regras para despedir

Os grandes processos de despedimento começam por uma decisão de emagrecimento. Um acto que, garante o responsável pelos RH, que pediu para não ser identificado, "nunca tem a ver com motivos financeiros".

Em Portugal, não há muitos obstáculos. "No limite", explica Maria da Glória Leitão, "a empresa pode ser rentável e aquele empresário quer que seja mais rentável", por isso despede. Mas um despedimento também pode resultar simplesmente de "uma péssima decisão de gestão", como a eliminação de um departamento. Tanto um motivo, como outro não são "sindicáveis pelo juiz".

O processo inicia-se com a definição do número de pessoas a despedir. O departamento de RH trabalha então nos critérios de selecção das pessoas e é fixada uma lista. Nesta fase, podem ser contratados advogados. A sua missão é tornar o despedimento "à prova de bala", inquestionável nos tribunais. "Metade do trabalho está na preparação", afirma Maria da Glória Leitão. "É extremamente importante que, quando se vai fazer as conversas com as pessoas, haja uma preparação exaustiva e que não se deixe pontas soltas."

"Nós damos a melodia, os advogados marcam o ritmo", ilustra o responsável de RH.

Os critérios são vários. Desde os mais objectivos - antiguidade, retribuição - até avaliações de competências, absentismo, o que for condizente com reestruturação de funções. "São longas reuniões, de dias", conta Susana Afonso Costa.

Às vezes, os advogados dão conselhos sobre a condução do processo. O primeiro desses conselhos é consensual - a empresa deve "dar a cara". Por uma questão de respeito e de dignidade. Para que "quem está a ser despedido não sinta que está diante de uma máquina sem rosto" (Maria da Glória Leitão); porque "a necessidade de despedir faz parte do risco do negócio" e porque "um dos problemas que estes despedimentos criam não é o de quem sai, mas o de quem fica" (Pedro Furtado Martins).

"Tem de haver uma mensagem uníssona da empresa, um único interlocutor. Um processo objectivo. E sempre com o maior respeito. O que está a acontecer àquele trabalhador pode acontecer a quem transmite a notícia" (Susana Afonso Costa). "E pode-se aconselhar: "Não seja emocional"" (Maria da Glória Leitão).

Há regras para a comunicação. Nunca despedir num café cheio de gente só para evitar protestos (Pedro Furtado Martins). Evitar comunicações antes do Natal ou junto ao aniversário da pessoa (responsável de RH). Nunca despedir a uma sexta-feira. As pessoas vão para casa revoltadas e a família, os amigos vão questioná-las, pressioná-las, influenciá-las. E a empresa deve estar próxima nesses momentos (Susana Afonso Costa e responsável de RH).

A primeira reunião com o trabalhador deve realizar-se fora da empresa (num hotel ou bar), sugere o responsável de RH. "É desagradável ver os colegas irem um a um para a reunião." Lá, explicam-se as razões, como se desenrola o processo e o que o trabalhador ganhará com o despedimento. Não há negociação ainda.

"Porquê eu?"

É nesta primeira reunião que surgem as perguntas "clássicas" sobre os critérios de selecção, da compensação e dos fundamentos: "Porquê eu?"; "Estão a desempregar-me, mas a empresa dá lucros"; "Eu não sou o mais velho"; "Faço o que o aquele faz e ele não vai ser despedido"; "Isto é por que eu tive bebés nos últimos três anos"; "O chefe tomou-me de ponta"; "Eu que vesti a camisola e esta é a paga?"; "Até tive boas avaliações".

Mas é um equívoco. A decisão está tomada. E "não há organizações agradecidas", sintetiza Pedro Furtado Martins.

Do lado da empresa, a chave é insistir nas razões. "Muitos vezes o trabalhador está sensibilizado porque vive na empresa e entende que não é nada de pessoal. Os trabalhadores quando são bem tratados são pessoas muito compreensíveis", defende Susana Afonso Costa. "É preciso dar espaço" até à segunda reunião, afirma o responsável de RH. "É importante haver tempo. Para falar com as pessoas. Porque é uma questão de respeito. São momentos muito duros. Já vi pessoas a chorar à minha frente, fazerem ameaças", explica Maria da Glória Leitão.

Podem ser violentas, partir coisas, riscar automóveis, adianta o responsável de RH. E há reacções imprevisíveis. "Não é por estar perto da reforma que as pessoas reagem bem, nem por terem poucas alternativas no mercado que reagem mal. Tem mais a ver com a sua própria personalidade", continua o responsável de RH. "O mais difícil é dar a notícia de saída a um profissional com um historial de sucessos. Da minha experiência, estas são as pessoas que reagem pior, porque não percebem as razões da saída."

Se o trabalhador traz um advogado, a empresa responde com o seu. A negociação é diferente num despedimento individual ou colectivo. No individual, a margem negocial vai de um factor de 1,5 salários por cada ano (limite isento de IRS) até dois ou três salários. Mais os benefícios: um a dois salários adicionais, o bónus de um ano, seguros de saúde até ao final do ano, seis a 12 meses numa firma de colocação. Nos despedimentos colectivos, a negociação é mais apertada. O factor não se altera ou "estar-se-ia a torpedear o processo". Mas concede-se mais um salário, bónus ou uma pós-graduação, mestrado, o que se adequar ao trabalhador.

Num programa de rescisões por acordo, é natural dizer-se: estas condições são oferecidas nesta fase, mas se um ou dois não aceitarem, recorre-se ao despedimento colectivo e aí ganhará menos. Fechadas as negociações, avança-se para o despedimento.

Maria da Glória teve "várias situações em que não houve qualquer drama", em que os trabalhadores agradeceram: "Foi um processo muito bem feito, muito limpo, honesto." Susana Afonso Costa lembra-se de uma assembleia de trabalhadores despedidos que, no final, aplaudiram o empresário.

Mas há todos os outros métodos ilegais. "Os horrores que se passam - e passam, é terrível - não chegam aqui [ao escritório]." "Atropelos. Empresas que escondem os seus bens, que fecham e abrem ao lado. As pessoas são postas na rua, não recebem nada", diz Maria da Glória Leitão. Pedro Furtado Martins concorda. "Nunca me procuraram para propor: "Eu quero despedir e não quero pagar as indemnizações. Arranje maneira de fazer isso." Mas há gente dessa? Claro que há."

Advogados que sentem

A personagem de Nas Nuvens, Ryan Bingham, é uma metáfora do ser que vive feliz por ser só, descomprometido, sem emoções nem entregas. No filme, acaba por cair na "armadilha" da emoção. Mas no livro de Walter Kirn (Up in the air, 2001) é antes um homem arrastado pela tecnologia que - como dizia o autor numa entrevista - "cria seres deslocados e fragmentados", amantes não de uma pessoa, mas do mundo, de um lugar, o símbolo da "desaparição gradual nas nossas vidas das ligações aos lugares, às comunidades e à casa no sentido tradicional destes termos". Ao contrário do que se passa no filme, Bingham tem dúvidas sobre o seu talento para cortar pescoços. "Está atordoado e confuso (...) e vai dando sinais de que, para sobreviver, esconde o medo mais do que um propósito."

E Maria da Glória Leitão, Pedro Furtado Martins e Susana Afonso Costa? O que sentem quando têm de despedir?

Sentem mais se participam nas conversas individuais. Dizem que nem sempre os grandes despedimentos são os piores. Os mais pequenos até podem ser muito mais emotivos. "Este ano a cadência tem sido maior. E eu talvez acabe por voltar a ser mais emocional", estima Maria da Glória Leitão. "[Em crise], é mais duro, porque as pessoas enfrentam uma dúvida sobre o seu futuro muito mais real. Estava a comentar o filme com pessoas da minha equipa, porque acho que qualquer pessoa que profissionalmente lide com situações traumáticas hoje tem sempre de ter uma certa distância." Mas, por outro lado, porque se está a ter impacto, "às vezes devastador, é importante que não se perca emoção".

Maria da Gloria Leitão faz os seus estagiários confrontarem-se, logo de início, com um despedimento. "Para eles perceberem. No fundo, somos "advogados de alcatifa" e, muitas vezes, não há uma cara nos processos." Alguns dizem-lhe depois: ""Ai Glória, meu Deus, que horror..." Ficaram chocados. Depararam-se com situações de sofrimento humano."

Talvez por serem marcantes, os advogados foram unânimes a sublinhar que "um advogado não despede". A decisão é de gestão, do empresário. E um advogado apenas enquadra a decisão. Mas quando falam, comparam - várias vezes - os despedimentos a um casamento, a um divórcio, à vida e à morte.

Criam-se defesas. "Acho que inconscientemente já criei algumas. Emocionais", admite Susana Afonso Costa. "Num processo destes, tenho de saber dar ao trabalhador mais do que pensar em mim. Sinto também que tenho ali uma missão humana que é transmitir-lhe..." A boa nova? "Não, isso é de mais. Uma segurança de que, por experiência vivida, há uma continuidade, não é a morte."

Ioga depois de despedir

"É como num hospital", exemplifica Maria da Glória Leitão. Um doente trava a luta da sua vida para vencer a morte, mas o médico tem mais doentes e "é bom que não perca a objectividade e que não se iluda". A advogada não lida com casos de pessoas próximas, tal como muitos médicos não gostariam de operar os seus filhos. "Porque a emoção pode influenciar o resultado. Impede de se tomar decisões."

A emoção prejudica, concorda Pedro Furtado Martins. E, em última instância, pode prejudicar o cliente. Maria da Glória complementa: tratar de forma diferente um dado caso pode abrir 40 novas situações que "passam a ser um problema". Por isso, prefere os casos sem comissões ad hoc de despedidos, mas com sindicalistas. "Há um maior sentido da realidade. Sabem o que podem pedir. E é melhor para ambas as partes."

Mas nada disso os salvaguarda do que vivem. "É verdade que já me aconteceu ir para casa a pensar. Com pena das pessoas", diz Pedro Furtado Martins. Conta que, uma vez, teve um caso de uma loja com nove pessoas que era propriedade de herdeiros que queriam, pura e simplesmente, fechar. O advogado contou à família que lhe "doía a alma". Se calhar alguém pegaria na empresa. "E lembro-me de ver a cara da minha filha a olhar para mim. "Mas tu ajudaste a fazer isso?" Perguntei-lhe se estava incomodada com a história. "Estou, porque o pai disse que as pessoas tinham sido despedidas sem razão." E eu disse: "Não foram despedidas sem razão, o sistema está montado para, se tu quiseres, fechas a loja. Não se pode ser empresário à força. E a empresa pagou as indemnizações que tinha de pagar." "Está bem, mas as pessoas perderam o emprego sem necessidade." Ainda hoje, quando penso nesse caso, me incomoda. É inteiramente legítimo, mas no limite, é como a minha filha diz: ajudei a fazer."

Problemas de consciência? "Não, porque não fiz nada de errado", responde peremptória Maria da Glória Leitão. Mas é mais "um peso" - "Se calhar fui um instrumento do que correu mal na vida daquela pessoa. Mas tento não pensar. Se eu pensasse em todos os casos..." E de imediato: "É o que se passa com todos nós. Não podemos viver amargurados com a desgraça que existe." E graceja: "No limite, ia para as irmãs de Calcutá."

"Já me aconteceu perguntar: "O que será feito de fulano?"", diz Pedro Furtado Martins. E a sua voz fica diferente. A Maria da Glória também lhe acontece isso. Gostava de saber, sobretudo, daquelas pessoas "que, pela idade, pelas habilitações, não vão reentrar no mercado de trabalho". "Gostava de saber..."

Susana Afonso Costa chega a casa, nesses dias, "esgotada". Esgotada emocionalmente, mas sem problemas de consciência.

Mas quando se pergunta se aceitariam ser apenas "exterminadores" de empregos, a resposta é um "não" redondo. Porque gostam da polivalência, porque seria demasiado redutor como carreira, mas também - como responde Susana Afonso Costa - "por uma questão de defesa emocional". "Tenho noção de que, emocionalmente, não me poderia dedicar exclusivamente a estes processos."

"A minha vida não é fazer só isso", afirma Maria da Glória como que suspirando de alívio. Mesmo o responsável pelos RH não aceitaria essas funções. Gosta mais do seu papel positivo na vida da empresa. E quando organiza um despedimento tem de sair depois, dedicar-se ao ioga, espairecer.

E se as defesas quebrassem e todos chorassem? O mundo seria melhor? Pedro Furtado Martins ri-se da pergunta. "Não sei." E volta a sorrir. "Se todos começarem a chorar, acho que a empresa não está bem gerida."

Família e filiação

Egipto prepara-se para revelar segredos sobre Tutankhamon
13.02.2010 - 10:29 Por AFP

http://www.publico.pt/Cultura/egipto-preparase-para-revelar-segredos-sobre-tutankhamon_1422619

O Egipto anunciou que, na próxima semana, vai fazer revelações importantes sobre a família e filiação de Tutankhamon, um dos grandes mistérios da antiguidade faraónica, com a ajuda de análises ao DNA.
A resolução do enigma esteve nas mãos de investigadores egípcios (Aladin Abdel Naby/Reuters (arquivo))

O anúncio deverá ser feito no Museu de Arqueologia do Cairo, onde está exposto o tesouro descoberto em 1922 no túmulo do jovem faraó da XVIII dinastia, que morreu há mais de três mil anos.

O director do museu, Zahi Hawass, disse estar em condições de revelar “os segredos sobre a família e filiação de Tutankhamon, com base nos resultados das análises científicas à sua múmia”.

Hawass, que se opôs a que os testes ao DNA fossem realizados no estrangeiro, anunciou em Junho do ano passado que investigadores egípcios estavam a tentar solucionar o enigma da filiação do faraó.

A múmia do jovem príncipe proclamado rei com uma idade estimada de nove anos foi descoberta num sarcófago em ouro maciço pelo arqueólogo britânico Howard Carter, no Vale dos Reis, perto de Luxor.

O túmulo continha um tesouro excepcional, nomeadamente a máscara da múmia em ouro maciço que muito contribuiu para fazer de Tutankhamon um dos faraós mais conhecidos, mesmo que o seu reinado de uma dezena de anos tenha sido modesto.

A possibilidade de uma filiação com Nefertiti e a morte quando ainda era adolescente, fazem com que “a parte romântica desta história seja incontestada”, considera o egiptólogo francês Marc Gabolde, que se especializou na história do jovem rei.

Mas apesar das investigações intensas, a sua ascendência exacta ainda não foi precisada com exactidão, bem como as circunstâncias exactas da sua morte – doença, acidente ou assassinato – continuam a ser um enigma.

segunda-feira, fevereiro 08, 2010

Descoberta
China revela trilho com 3000 pegadas de dinossauro
http://dn.sapo.pt/inicio/ciencia/interior.aspx?content_id=1489208
por PEDRO SOUSA TAVARES

Diferentes espécies seguiam todas na mesma direcção

Cientistas chineses anunciaram a descoberta de um trilho de dinossauros, com mais de 3000 pegadas de pelo menos seis espécies diferentes, numa cidade no Leste do País.

Além da rara dimensão da descoberta, as pegadas chamam a atenção por se deslocarem todas no mesmo sentido. O que - segundo peritos locais - indica que os animais estavam em migração, ou a fugir em pânico de alguma ameaça súbita.

Wang Haijun, especialista do Instituto de Paleontologia e Paleoantropologia da Academia de Ciências Chinesa, calcula que as pegadas, distribuídas por três camadas distintas, têm mais de 100 milhões de anos. O que as situa em meados do período Cretácico.

Entre as espécies identificadas através das marcas no solo, com diâmetros que vão dos 10 aos 80 centímetros, estão diferentes carnívoros do grupo coelurosauria, incluindo o tiranossauro; e herbívoros como hadrossauro.

As pegadas foram encontradas numa ravina de 2600 metros quadrados, perto de Zhucheng, na província costeira de Shandong. Segundo os cientistas, as escavações vão continuar, prevendo-se que sejam expostas mais pegadas.

Conhecida como a "cidade dos dinossauros", Zhucheng tem mais de 30 sítios de interesse para o seu estudo. Em 2008, já tinha sido descoberto, perto desta mesma cidade, aquele que é considerado pelos chineses o maior jazigo de fósseis de dinossauros do mundo.

Desde então foram desenterrados mais de 7600 fósseis de várias espécies nesse local, num processo que também se deverá prolongar por vários anos.

Ainda que menos populares entre os curiosos do que os fósseis, as pegadas de dinossauro - descobertas também em várias zonas de Portugal (ver caixa) - são uma inestimável fonte de informação para os cientistas. Desde logo, permitem fazer um retrato das espécies que existiam no local em determinada época, e da forma como estas se relacionavam. Mas são também úteis para obter pistas sobre a forma de locomoção e a própria anatomia dos animais.

Em Abril de 2009, já tinha sido descoberto outro sítio de grande interesse com pegadas de dinossauro, em Plagne, França, onde algumas marcas têm 1,5 metros de diâmetro.

domingo, fevereiro 07, 2010

De África até a América
Vivem 16 vidas e têm medo de 'zombies'
http://dn.sapo.pt/inicio/globo/interior.aspx?content_id=1488886&seccao=EUA e Am%E9ricas
por HUGO COELHO


Religião. Das ruínas do terramoto no Haiti estão a renascer os rituais levados há séculos pelos escravos africanos. Os haitianos viram-se para o mundo dos espíritos à procura de respostas e protecção. E, sem se darem conta, vão mostrando ao mundo que a sua crença não se esgota numa boneca espetada com alfineteshistórias: Vudu

Aos haitianos só uma coisa mete mais medo do que a morte: os mortos. Os descendentes de escravos africanos acreditam que os homens têm 16 vidas para viver, mas também sabem que aqueles que morrem voltam à terra como zombies para se vingar dos que tratarem mal os seus cadáveres.

A profecia é repetida por todos os sacerdotes vudus e está a ser levada muito a sério pelo povo. Desde o sismo de 12 de Janeiro ninguém faz nada que desrespeite os espíritos dos seus antepassados - 200 mil almas amontoadas em valas comuns, a acreditar no último balanço.

O misticismo não é novo, mas a tragédia recente deu novo fôlego ao vudu no Haiti. Costuma dizer-se que no país mais pobre da América 60% dos habitantes são católicos, 40% são protestantes e 100% seguem o vudu. O padre Pierre André Laguerre de Sainte Bernardette explica o fenómeno: "Quando tudo está bem cada um vai à sua igreja. Quando algo mau acontece, vão todos ao sacerdote vudu pedir ajuda."

Ao contrário do preconceito, que o confunde com uma bruxaria que acaba sempre com alfinetes espetados numa boneca de palha, o vudu é uma religião que dá sentido à vida de milhões de pessoas em África e na América. A sua história perde-se no tempo. Pensa-se que teve origem na África Ocidental há uns dez mil anos atrás e que terá evoluído do animismo. Nas línguas tribais, "vudu" significa "espírito" e essa é a primeira pista para se compreender esta religião misteriosa.

Para os crentes, Deus criou o Homem e deixou-o num mundo material. Paralelo a este, mas invisível, existe o reino dos espíritos, os iwa. Todos - homens, animais, plantas, rochas - estão possuídos por iwa que dão sorte e protegem do mal. Os sacerdotes vudu fazem a ligação entre os dois mundos que têm de estar em equilíbrio. Quando assim não é, acontece uma tragédia.

Para os que acreditam no vudu, o terramoto do Haiti foi uma revolta do outro mundo. Erol Josue, sacerdote vudu, explica que o Haiti é "o espírito de uma mulher". "Quando sentiu dor, ela disse 'basta'. É simbólico. Fomos todos arrasados. Ricos e pobres. O palácio presidencial ruiu, o Parlamento ruiu, a Catedral ruiu. Estamos todos de joelhos."

O vudu chegou à América no século XVI com os escravos vindos do outro lado do Atlântico. Os negros foram convertidos à força ao cristianismo pelos franceses, mas mantiveram secretas as velhas crenças.

Naqueles tempos de exploração, o vudu era uma manifestação política para os escravos. Os historiadores admitem que terá sido uma cerimónia religiosa a precipitar a revolta de 1791, que aboliu a escravatura - o Haiti foi o primeiro no mundo a fazê-lo. Treze anos depois, os revoltosos - que segundo um evangelista americano "fizeram um pacto com o Diabo" - conquistaram a independência.

Mesmo depois de expulsarem os franceses, os haitianos continuaram a conciliar o cristianismo com o vudu. Desde então, as cerimónias religiosas começam sempre com preces cristãs e acabam com rituais para adorar as divindades do culto.

Monique Henry, mãe de três filhos, de crucifixo ao pescoço, é a prova viva dessa fusão improvável. "Todos acreditamos em Deus, mas sentimos que o vudu é poderoso" disse ao The Independent. "Acreditamos que as divindades podem-nos proteger de novos perigos."

Os mesmos escravos que importaram o vudu para o Haiti, levaram o culto para o sul da América do Norte - sob domínio francês. Nova Orleães é a capital do vudu nos EUA e para muitos a capital do vudu no mundo. E é fácil compreender porquê. Foi ali que vudu se misturou com o culto hudu, que se confundiu com a magia negra e depois partiu à conquista de Hollywood. Pode dizer-se que foi na cidade do jazz que o vudu se tornou num mito.

Abrigo
Quem quer sobreviver?
phttp://dn.sapo.pt/inicio/artes/interior.aspx?content_id=1488917&seccao=Arquitectura
or Cláudia Melo

Serve para situações de catástrofe. Pretende ser o mais autónomo possível do ponto de vista energético, recorrendo a células fotovoltaicas para a produção de electricidade, bem como o aproveitamento das águas pluviais

Shelter Box" (caixa abrigo), é um abrigo para situações de catástrofe, da autoria dos arquitectos portugueses João Sequeira, Ana Figueiredo, Marta Moreira e Pedro Ferreira, tendo vencido o Concurso Internacional de Arquitectura e Energias Renováveis - Ares Competition, lançado pela Technical Chamber of Greece (TCG), Work Programme on Architecture and Renewable Energy Sources (ARES) da União Internacional dos Arquitectos.

De acordo com os seus autores, o conceito do Shelter Box "assenta na versatilidade, pré-construção e rapidez de edificação, como também na ecologia, sustentabilidade e sobretudo no uso de recursos energéticos renováveis". De facto, a peça baseia-se na conjugação de duas ideias de execução muito simples - a tenda e o acordeão. Conforme explica o colectivo, "a tenda é o abrigo mais vulgar e mais usado em todo o tipo de situações de emergência, e tem-se transformado na memória, sempre renovada, dos vastos campos de refugiados que ocorrem pelo mundo desde o pós-guerra até à actualidade; o acordeão permitia--nos, por um lado, usá-lo formalmente, explorando a possibilidade de portabilidade e de transformação espacial, que ocorrem naturalmente na produção dos sons deste instrumento musical e por outro lado, usá-lo como nó poético, lembrando-nos a importância da música e da poesia na vida de cada um".

Sendo um instrumento de sobrevivência, a Shelter Box pretende ser o mais autónomo possível do ponto de vista energético, recorrendo a células fotovoltaicas para a produção de electricidade, bem como o aproveitamento das águas pluviais. Funcionalmente, é composto de uma unidade multi-funcional que contém a instalação sanitária e a cozinha, onde se encontram as baterias de acumulação de energia fotovoltaica e o depósito de águas pluviais, com possível ligação de água.A estratégia de sobrevivência também obriga a que seja facilmente implantado : esta tenda/acordeão é colocada no solo desdobrada em duas, adquirindo firmeza pela translação destes dois braços.

A sua flexibilidade e versatilidade permite conexões diversas, dando origem a expansões e espaços de abrigo para famílias numerosas, criação de estruturas urbanas diversas ou adaptação aglomerados já existentes. "As expansões da Shelter Box permitem também alterações às funções a que se destinam, como a criação de escolas provisórias, de centros de atendimentos dos refugiados, de centros médicos, entre outros", refere o colectivo.

Dada a sua versatilidade, pode inserir-se em qualquer zona geográfica, adaptando-se às características climáticas mediante o uso de cores específicas dos seus acabamentos (ex. zonas quentes/cores quentes - laranja e amarelos -, zonas frias/cores frias - azuis).

Para chegar facilmente aos destinos, o transporte do módulo, pode ser feito por via terrestre, marítima, ou aérea. Para transporte de longa e média distância (via camião, comboio ou barco) , seriam transportados oito unidades por contentor, sendo possível o transporte de vários contentores. A via aérea, (helicóptero) permite o transporte de apenas duas ou três unidades, mas com mais frequência.

As épocas de mudança, climática e consequentemente social, obrigam à criação de soluções versáteis e novas tipologias, mas também a repensar o papel da arquitectura e do arquitecto enquanto agente desinteressado e transformador da comunidade.

Alemã salva turista da morte graças a webcam
Homem que arriscava morrer nas águas gélidas do Mar do Norte foi salvo graças a uma mulher alemã que o viu a centenas de quilómetros de distância, através da Internet.
http://aeiou.expresso.pt/alema-salva-turista-da-morte-gracas-a-iwebcami=f562128
Carlos Afonso Monteiro (www.expresso.pt)

A praia de St. Peter Ording foi o cenário deste incidente
AP/Axel Haimken Uma mulher alemã que visitava um site com imagens de uma webcam turística da praia St. Peter Ording, perto da fronteira da Alemanha com a Dinamarca, salvou a vida de um homem que estava à deriva no Mar do Norte, arriscando-se a cair e morrer nas águas geladas.

O homem tratava-se de um turista que decidiu subir a uma placa de gelo a fim de tentar fotografar o pôr-do-sol. As baixas temperaturas causaram-lhe vertigens e antes de poder regressar a costa estava à deriva, arriscando-se a cair nas águas geladas ou mesmo sucumbir ao frio.

SOS recebido no Sul da Alemanha
Numa tentativa de obter ajuda, o homem, que não estava visível da praia, usou o flash da sua máquina fotográfica para pedir ajuda. A luz do flash foi vista por uma mulher que apreciava o mesmo pôr-do-sol mas a 560 quilómetros de distância, através de imagens de uma webcam turística instalada na praia St. Peter Ording.

A mulher, que vive em Westerwald, no Sul da Alemanha, entrou de imediato em contacto com a polícia, que entrou em acção e acabou por resgatar o homem em causa.

Fonte policial disse que o homem teve "muita sorte" e adiantou tratar-se de um turista. "Ele não era local - um local não teria tentado isto. Ele foi incrivelmente ingénuo", disse a mesma fonte, que não revelou a identidade do homem nem da mulher responsável pelo alerta.

Vídeo desligado
O homem, que necessitou de passar pelo hospital para recuperar da situação de hipotermia em que se encontrava quando foi resgatado, planeia já visitar a mulher a quem deve a sua vida. As autoridades alemãs admitem ter sido esta a primeira vez que salvaram alguém em circunstâncias tão invulgares.

Pelo menos nos tempos mais próximos, a cena não se repetirá. De facto, o site que disponibilizava as imagens da praia de St. Peter Ording exibe agora, apenas, uma imagem fixa. Logo que a notícia do salvamento se tornou conhecida, o aumento de tráfego foi tão intenso que fez com que o site deixasse de disponibilizar imagens vídeo.

terça-feira, fevereiro 02, 2010

SECÇÃO INSÓLITOS


"Oscar", o gato que prevê a morte
Não é médico, não é bruxo, mas consegue adivinhar a morte dos doentes de um centro de reabilitação nos Estados Unidos. Chama-se "Oscar", tem quatro patas e é um simples gato, que já deu origem a um livro.
http://aeiou.expresso.pt/oscar-o-gato-que-preve-a-morte=f561421

Paula Cosme Pinto (www.expresso.pt)

Oscar passeia pelos quartos do centro de reabilitação e prevê quem está prestes a morrer
AP
Um anjo da morte ou um adivinho... de quatro patas? As opiniões dividem-se no que diz respeito a "Oscar", um gato que tem a capacidade de adivinhar quando os pacientes em estado terminal de um centro de reabilitação em Providence, nos Estados Unidos, vão morrer.

Criado no centro desde bebé, "Oscar" é acarinhado por todos e nem mesmo o seu estranho dom parece assustar os pacientes, que na sua maioria sofrem de Parkinson ou Alzheimer. Todos os dias, o comportamento do felino é semelhante: levanta-se da sua cestinha e vai passear pelo centro de saúde, onde visita todos os quartos e cheira as pessoas; quando é caso de morte iminente, "Oscar" enrosca-se no corpo do doente e por ali até que este acabe por fechar os olhos para sempre.

Dom ou reacção ao cheiro?
A história de "Oscar", que já previu mais de 50 mortes, deu azo a um artigo publicado no prestigiado "New England Journal of Medicine". David Sosa, geriatra autor do texto, acabou mesmo por escrever o livro "Fazer a Ronda com o Oscar: O Dom Extraordinário de um Gato Normal", com o intuito de ajudar familiares de doentes em fase terminal.

"Queria escrever algo que fosse mais além das capacidades do 'Oscar'", explica o médico. "Contar porque é que ele foi tão importante tanto para os médicos como para os pacientes quando estavam nas suas últimas horas".

Quanto a explicações para o estranho comportamento do gato, o médico deixa várias hipóteses no ar: há quem diga que ele reage a um odor libertado por quem está a morrer e que o olfacto humano não capta, mas há também quem sustente que "Oscar" apenas vai em busca do calor dos cobertores eléctricos que os enfermeiros põem nas camas dos doentes que estão em risco de morte.

Independentemente dos verdadeiros motivos que levam "Oscar" a acompanhar os moribundos, as enfermeiras e médicos do centro de reabilitação americano apreciam cada vez mais a prestação do felino, que lhes permite, assim, avisar os familiares dos doentes e dar-lhes a oportunidade de os acompanharem nas suas últimas horas de vida.

Espaço

O futuro já está a começar... ou continuará a ser adiado?
01.02.2010 - 09:32 Por Clara Barata

http://www.publico.clix.pt/Ciências/o-futuro-ja-esta-a-comecar-ou-continuara-a-ser-adiado_1420753

Há 40 anos que sonhamos com bases lunares, mas não é ainda garantido que seja mesmo desta vez que elas se concretizam. E regressar à Lua nos tempos mais próximos não é consensual. Há quem prefira ir a Marte primeiro.
Branca e árida, sem os azuis do mar e os farrapos das nuvens que cobrem o planeta a que chamamos casa. Redonda, cada vez maior, cheia de marcas e cicatrizes de impactos de meteoritos é como os quatro astronautas a bordo da cápsula Orion vimos a Lua a aproximar-se, cada vez mais perto, ao longo dos quatro dias de viagem desde que saímos de Cabo Canaveral. Agora chegou a altura de passar para o módulo de alunagem Altair, que nos fará pousar no pólo sul desta bola poeirenta que fez sonhar as gerações de humanos que ergueram os olhos para o céu e viram aquela bola brilhante e misteriosa.

“Uma magnífica desolação”, chamou-lhe Buzz Aldrin, o segundo homem que deixou as pegadas do seu pesado fato de astronauta impressas no solo arenoso da Lua. As palavras dele vêm-me à lembrança quando olho pela escotilha do Altair; bem mais que o “pequeno passo para um homem, um grande passo para a Humanidade” de Neil Armstrong, o primeiro a saltar na Lua, onde cada passo nos pode transformar em cangurus, porque só tem um sexto da gravidade na Terra.

Com Buzz na cabeça, olho para algo com que ele sonhou, mas que só quase 60 anos depois começa a tornar-se realidade: parecem latas de salsichas dispostas em formação por um campista desleixado, agora cobertas do rególito lunar, a terra e a areia mais fina que a fina areia da Terra que as cobrem. Não parece muito, mas é a primeira base humana permanente na Lua.

Foi construída pelos robôs que para lá foram enviados em missões anteriores — levavam materiais insufláveis, como tendas super high-tech para um acampamento mesmo do outro mundo, para construírem os compartimentos que vão ser a nossa casa durante a próxima semana. Por cima, colocaram uma camada de rególito que tem pelo menos 2,5 metros de espessura — para nos proteger dos raios cósmicos, que bombardeiam sem misericórdia a Lua, que não tem atmosfera para a proteger. A actividade dos robôs foi seguida 24/24 horas a partir das sondas em órbita da Lua (e transmitida em directo na Internet, o site da NASA até ficou várias vezes indisponível, nos primeiros dias, tal era a curiosidade).

Nós os quatro vamos lá ficar sete dias, mas podíamos lá ficar até 210 dias — é a capacidade máxima de alimentos e carga que a Orion e o Altair poderiam levar, a partir da Terra.

Vamos abrir a porta, é agora.

De volta ao presente

Flashback para o presente: isto poderia ser o diário de um dos quatro astronautas que formarão a primeira tripulação da tão sonhada base lunar — há planos para elas desde que o Presidente John F. Kennedy lançou o desafio de os Estados Unidos se tornarem no primeiro país a pôr astronautas no satélite natural da Terra.

Em 2004, outro Presidente dos EUA, George W. Bush, propôs que se regressasse à Lua em 2020, depois de um abandono de 48 anos (a última missão Apolo foi em 1972). Contando com os atrasos naturais — e os problemas de que parece estar a sofrer o desenvolvimento dos novos foguetões com que os EUA querem mandar humanos para o espaço (Ares I e Ares V), contemos com um regresso já mais para perto de 2030. Isto se os planos do programa Constelação vingarem, e não sofrerem alterações significativas depois da apreciação a que estão a ser submetidos por uma comissão independente, liderada pelo especialista no sector aeroespacial Norman Augustine.

Espera-se ansiosamente o relatório Augustine para o fim de Agosto — o foguetão Ares I, que seria o veículo que levaria as tripulações para a órbita da Terra, depois de aposentado o vaivém ( já em 2010), está a ter problemas que alguns engenheiros da NASA consideram demasiado sérios. Tanto assim é que se formaram grupos dissidentes, que defendem a adaptação de outros foguetões já existentes (como os do tipo Júpiter) para transportar voos tripulados, e para terem a potência suficiente para chegar à Lua, em vez de desenvolver novos lançadores.

A nomeação desta comissão de avaliação “reflecte a realidade da existência de muitas críticas ao programa Constelação”, comenta John Logsdon, historiador da era aeroespacial do Museu Smithsonian do Ar e do Espaço (Washington) e professor de Ciência Política e Relações Internacionais na Universidade George Washington.

“Creio que a comissão Augustine vai fazer recomendações que incluirão alternativas à actual arquitectura. Mas serão apenas isso, recomendações. Cabe ao Presidente e ao Congresso decidir se devem ser aplicadas e como o devem ser”, considera Jeff Foust, editor do site SpaceReview.com, frequentado por cientistas e engenheiros da NASA, entusiastas do espaço e especialistas do sector, que contribuem com artigos de opinião.

Copiando a estação espacial

Mas, se os planos se mantiverem, o regresso dos norte-americanos à Lua será a próxima grande aventura.

“Uma primeira base na Lua seria muito espartana”, diz Haym Benaroya, director do Departamento de Engenharia Mecânica e Aeroespacial da Universidade de Rutgers (em New Jersey, nos EUA). “Poderia ser apenas uma ou duas estruturas cilíndricas — como latas de sopa — e teria capacidade para alojar três a seis pessoas durante cerca de seis meses”, explica, através de correio electrónico. Em 2008, Benaroya foi co-autor de um artigo na revista científi ca Acta Astronáutica, em que fazia uma revisão do muito trabalho de investigação das duas últimas décadas sobre como poderia ser uma casa humana na Lua.

“Terá uma estrutura modular muito semelhante à Estação Espacial Internacional: módulos de metal cilíndricos, importados da Terra, cobertos com rególito, para os proteger dos micrometeoróides e da radiação”, diz por sua vez Florian Ruess, da empresa HE2 — Habitats for Extreme Environments, uma empresa alemã formada por engenheiros aeroespaciais e especialistas em estruturas com ideias para desenvolver tecnologias novas para a exploração lunar.

Estes módulos terão de proteger os astronautas dos pequenos meteoritos que constantemente bombardeiam a Lua e dos raios cósmicos, pois o nosso satélite natural não está envolto numa atmosfera protectora, como a Terra. Além disso, terão de isolar os astronautas e os seus equipamentos do terrível pó lunar, extremamente abrasivo. Pode até nem se ver mas infiltra-se em tudo, nos fatos, nos pulmões, nos equipamentos dos astronautas das missões Apolo que até deixavam de funcionar. Pensase que 20 por cento destas poeiras lunares são ainda mais fi nas do que aquela em que fi caram preservadas as pegadas dos astronautas das missões Apolo, e 50 por cento é mais fi na que a areia mais fi na da Terra.

Estes módulos, insufláveis ou construídos a partir de uma espécie de basalto, criado com as rochas da Lua, terão de ser “a habitação, o laboratório e os armazéns” da primeira base. “Talvez sejam usadas estruturas insufl áveis para criar espaços grandes de forma barata [como pesam pouco, custariam menos a trazer da Terra], por exemplo para fazer estufas”, para cultivar plantas, escreve Ruess, numa mensagem de e-mail.

Há quem já tenha pensado muito nisto e feito contas precisas — por exemplo, quanto à área mínima de uma colónia. As missões Gemini, que levaram dois astronautas americanos ao espaço de cada vez, durante a década de 1960, demonstraram que uma pessoa consegue aguentar- se sentada numa cadeira numa missão que não supere as duas semanas: não tinham mais do que 0,57 metros cúbicos de espaço.

Mas, para missões maiores, as recomendações da NASA apontam para um mínimo de 20 metros cúbicos para cada pessoa; na Estação Espacial Internacional, incluindo áreas de ha- bitação e de trabalho, cada astronauta tem 120 metros cúbicos, e essa deveria ser a medida de uma base na Lua. E, curiosamente, uma boa parte desse espaço devia ser em altura, pois existindo apenas um sexto da gravidade terrestre no nosso satélite natural, os saltos dos astronautas serão bem altos e comuns...

E o que poderiam fazer de útil os astronautas na Lua? Para além de a explorarem, poderiam começar a procurar minerais e outros materiais nativos que seriam usados para expandir a base e, quem sabe, dar até origem a explorações industriais ou comerciais lucrativas.

“Os astronautas usariam o seu tempo para estudar as redondezas e começar a construir uma infra-estrutura, a expandir as instalações”, diz Benaroya. “Usariam um veículo lunar, para explorarem de carro a área em torno da base, que provavelmente será no pólo sul”, porque está mais tempo exposto à luz do Sol, e é também mais provável que lá exista água — um bem que parece escasso na Lua. “O principal argumento contra uma base na Lua é a falta de água”, diz Florian Ruess. “Será preciso transportar toneladas de água para lá, para manter a tripulação, sintetizar combustível, etc.”

Competição chinesa

Na NASA há uma disputa que ameaça eternizar- se entre as estratégias “Lua Primeiro” e “Marte Directo”. Depois de quatro décadas em que nos limitamos à órbita da Terra, há quem defenda a necessidade de retomar a capacidade de viajar até à Lua — coisa que nenhum país ou empresa está hoje habilitado a fazer —, para aí ensaiar missões mais longas, até Marte. Mas outros defendem que não deveríamos perder tempo com algo que já fi zemos e que o melhor seria avançar já para uma missão tripulada a Marte.

Nos últimos tempos, surgiu uma terceira opção: viagens até asteróides cuja rota em torno do Sol os aproxime da Terra. “Há muito interesse em ir a Marte, mas é pouco provável que alguém consiga ter a tecnologia e o fi nanciamento para suportar uma expedição até lá nas próximas duas décadas. Uma alternativa ao regresso à Lua seria organizar missões tripuladas até asteróides na proximidade da Terra. Essas missões durariam meses e exigiriam a mesma energia que ir a Marte”, diz Jeff Foust.

A verdade é que o cenário mais próximo para a NASA será um frustrante hiato de pelo menos cinco anos (2010-2015), entre a aposentação definitiva da frota de vaivéns e o início do funcionamento das cápsulas de passageiros Orion montadas em foguetões Ares. E, durante esse período, os EUA, que ficarão dependentes das cápsulas Soiuz russas para chegar à Estação Espacial Internacional, podem ver a China triunfar como a terceira potência espacial.

Pode ser uma afronta ao orgulho americano? Será que o próximo astronauta na Lua será chinês?

“A China está empenhada num programa de exploração espacial e voos tripulados, mas tudo isto é arriscado e difícil. Nos próximos cinco anos, não estou a ver os chineses a fazer algo de muito diferente do que fi zeram até agora”, comenta Henry Hertzfeld, especialista em assuntos económicos e legais das tecnologias espaciais da Universidade George Washington. O que fi zeram até agora foi colocar astronautas em órbita e, no ano passado, realizaram os primeiros passeios espaciais.

“No futuro próximo, a China está é empenhada em desenvolver pequenas estações espaciais”, diz Foust. “Alguns responsáveis chineses sugeriram que era possível haver uma expedição tripulada à Lua entre 2025 e 2030. Mesmo que fosse verdade, seria depois do calendário norte-americano — embora, claro, os planos possam mudar.”

Logsdon aposta noutro tipo de novidade: “Não acredito que a China tenha mesmo um programa activo de missões tripuladas à Lua. A próxima (e primeira) mulher na Lua será provavelmente dos Estados Unidos ou da Rússia.”

E as empresas privadas que estão a tentar ir ao espaço, o Prémio X fi nanciado pela Google (30 milhões de dólares a distribuir pelas primeiras três equipas que consigam fazer aterrar uma nave na Lua, movimentar-se com um robô na superfície do satélite fazendo pelo menos 500 metros, e transmitir imagens e outros dados para a Terra, tudo isto até 31 de Dezembro de 2012)?

“Há que distinguir duas categorias: por um lado, há muitas empresas apostadas em fazer voos suborbitais, com um potencial mercado para turistas ricos. Depois há outras que estão a tentar chegar mesmo ao espaço e fazer coisas úteis, como a SpaceX, que está a colaborar com a NASA”, diz Hertzfeld. “Mas é altamente improvável que consigam chegar à Lua. Podem é restar pequenos serviços, ser uma espécie de camiões espaciais para órbitas baixas.”

Porque a verdade, nua e crua, é que os custos da aventura espacial não diminuíram assim tanto nestes 40 anos. Cada quilo transportado para o espaço custa cerca de 22 mil dólares. “Não conseguimos tornar a exploração espacial barata — continua a ser quase tão cara, e não vejo no horizonte grandes modifi cações a esta situação”, comenta Hertzfeld.

Isso quer dizer que, na falta de uma Guerra Fria, que estimule politicamente a competição espacial, não haverá grandes saltos, como o da chegada do homem à Lua em menos de uma década, talvez cedo de mais para ter continuidade? “Nos anos 60, convergiram uma série de coisas; a Guerra Fria, a competição tecnológica, os Estados Unidos não tinham um grande défi - ce. Não vejo que aconteça nada de semelhante nos próximos tempos”, diz Hertzfeld.