"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

sábado, março 27, 2010

Será que alguém ouve as orações dos eunucos do Paquistão?
O Supremo Tribunal do Paquistão ordenou que fosse colocada nos bilhetes de identidade uma coluna para um terceiro sexo. Mas os hijras duvidam que isso vá retirá-los da marginalidade.

http://jornal.publico.pt/noticia/27-03-2010/sera-que-alguem-ouve-as-oracoes-dos-eunucos-do-paquistao-18740833.htm
Por Emmanuel Duparcq/AFP


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Na cidade paquistanesa de Rawalpindi, Mohammed Zafar Iqbal costumava tirar bom proveito das suas belas feições e movimentos graciosos, dançando enfeitado com véus e vestidos azuis para clientes que procuravam aquilo que consideravam ser a proximidade dele com Deus.



Mas, tal como a maioria dos membros da comunidade transexual e de eunucos do Paquistão - ridicularizados e ostracizados pela sociedade -, a sua vida tem sido essencialmente marcada pela dureza e pelo sofrimento, atingindo o auge há sete anos, quando foi brutalmente atacado.



Um admirador ciumento, furioso por ter sido rejeitado por um hijra, nome pelo qual os eunucos são conhecidos no Paquistão, atirou-lhe ácido para a cara. Esse homem, Shabir, era o seu melhor amigo. "Eu amava-o como a um irmão. Mas um dia ele disse-me que estava apaixonado por mim. Queria-me só para ele", conta Zafar.



"Ninguém nos respeita. Para eles, só servimos para o sexo. Os homens assediam-nos mais do que às raparigas", diz-nos no seu tom de voz andrógino e esganiçado.



Zafar, de 22 anos, afirma que a única coisa que mitiga a angústia do seu passado é a dança. Envolto numa túnica castanho-clara, faz piruetas e bamboleia-se ao som de música indiana no dormitório da Fundação das Vítimas do Ácido, na capital paquistanesa, Islamabad.



O bonito cabelo, comprido e liso, e um par de óculos de sol escondem os olhos cegos, e a sua pele está esticada ao longo da face desfigurada.



Uma foto de Zafar aos 15 anos comprova as suas antigas feições, mostrando a imagem de uma mulher bela, usando maquilhagem, um vestido bordado e um véu azul-escuro. Nos seus braços está um menino, filho de um polícia da cidade. Zafar tinha sido convidado para dançar na festa de aniversário do rapaz.



Ao longo da história, os hijras eram castrados à nascença e ostentavam um estatuto de favoritos no império mogol do subcontinente indiano. Agora a comunidade inclui hermafroditas, transexuais, travestis e homossexuais.



Mobilização e protestos



Tradicionalmente, os eunucos eram pagos para ajudarem a celebrar o nascimento de um filho, ou para dançarem em casamentos. Devido ao que se acredita ser o infortúnio de terem nascido entre dois sexos, a tradicional crença no Paquistão é que Deus estará mais inclinado a ouvir as orações deles.



Mas isto deixa os hijras com poucas opções para além de pedir esmola nas ruas, e muitos acabam como prostitutos.



No Paquistão de religião muçulmana, onde as relações sexuais fora do casamento são tabu e a homossexualidade é ilegal, são também tratados como objectos sexuais e muitas vezes tornam-se vítimas de ataques violentos.



"Todos os eunucos estão na prostituição", diz Reshma, de 22 anos, que vende sexo por 200 rupias (dois euros). "Isto é duro, mas ganho mais a fazer isto do que se tivesse um emprego normal", acrescenta, enquanto, à uma da manhã, procura clientes na Avenida Benazir Bhutto em Rawalpindi, vestido com uma túnica cor-de-laranja berrante.



Numa decisão com vista a garantir direitos à comunidade, o juiz do Supremo Tribunal do Paquistão ordenou que o Governo reconheça os hijras como um género próprio - apesar de ainda estar para se ver como é que isso vai ser posto em prática.



Na vizinha Índia, os eunucos e os transexuais venceram em 2009 uma longa batalha para serem classificados como "outros" - diferentes de homens e mulheres - nas listas de recenseamento eleitoral e nos cartões de eleitor.



"Isso é bom para os eunucos, porque aqui ninguém os respeita", afirma Almas Bobby, um porta-voz da comunidade paquistanesa dos eunucos. "Muitos tipos ruins violam-nos só por gozo, para se divertirem, queimam-nos com cigarros."



Bobby, de 45 anos, famoso na cidade de Rawalpindi pela graça feminina da sua dança, tem nos últimos anos ajudado a mobilizar os seus companheiros eunucos para lutarem pelos seus direitos.



Manifestações contra as violações e a extorsão por parte da polícia tiveram muito destaque na imprensa paquistanesa.



O advogado Mohammad Aslam Khafi entregou no Supremo Tribunal uma petição a favor dos direitos dos eunucos, e no mês passado esse mesmo órgão judicial ordenou que fosse colocada nos bilhetes de identidade uma coluna para um terceiro sexo.



O juiz também exigiu mais apoio para os eunucos conseguirem as suas partilhas segundo as leis de herança, bem como mais protecção face ao assédio policial.



Guia e proxeneta



Rejeitados pelas suas desgostosas famílias quando entram na adolescência, os eunucos acabam a viver juntos em comunidades lideradas por um guru que age como guia e conselheiro - mas na maior parte das vezes como proxeneta.



"Na nossa sociedade, o acesso a raparigas fora do casamento é muito limitado, não há privacidade. Isso alimenta a prostituição", diz Mohammad Aslam Khafi. "Todos eles estão, de uma ou outra forma, ligados ao negócio da prostituição."



Mas, apesar de todas as campanhas, os hijras têm pouca esperança de que a sua vida vá mudar rapidamente - e a nova lei do Supremo Tribunal ainda tem que ser posta em prática. "A situação vai manter-se igual", diz Reshma. "Não creio que uma medida burocrática vá melhorar as nossas vidas."

Será que alguém ouve as orações dos eunucos do Paquistão?
O Supremo Tribunal do Paquistão ordenou que fosse colocada nos bilhetes de identidade uma coluna para um terceiro sexo. Mas os hijras duvidam que isso vá retirá-los da marginalidade.

http://jornal.publico.pt/noticia/27-03-2010/sera-que-alguem-ouve-as-oracoes-dos-eunucos-do-paquistao-18740833.htm
Por Emmanuel Duparcq/AFP


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Na cidade paquistanesa de Rawalpindi, Mohammed Zafar Iqbal costumava tirar bom proveito das suas belas feições e movimentos graciosos, dançando enfeitado com véus e vestidos azuis para clientes que procuravam aquilo que consideravam ser a proximidade dele com Deus.



Mas, tal como a maioria dos membros da comunidade transexual e de eunucos do Paquistão - ridicularizados e ostracizados pela sociedade -, a sua vida tem sido essencialmente marcada pela dureza e pelo sofrimento, atingindo o auge há sete anos, quando foi brutalmente atacado.



Um admirador ciumento, furioso por ter sido rejeitado por um hijra, nome pelo qual os eunucos são conhecidos no Paquistão, atirou-lhe ácido para a cara. Esse homem, Shabir, era o seu melhor amigo. "Eu amava-o como a um irmão. Mas um dia ele disse-me que estava apaixonado por mim. Queria-me só para ele", conta Zafar.



"Ninguém nos respeita. Para eles, só servimos para o sexo. Os homens assediam-nos mais do que às raparigas", diz-nos no seu tom de voz andrógino e esganiçado.



Zafar, de 22 anos, afirma que a única coisa que mitiga a angústia do seu passado é a dança. Envolto numa túnica castanho-clara, faz piruetas e bamboleia-se ao som de música indiana no dormitório da Fundação das Vítimas do Ácido, na capital paquistanesa, Islamabad.



O bonito cabelo, comprido e liso, e um par de óculos de sol escondem os olhos cegos, e a sua pele está esticada ao longo da face desfigurada.



Uma foto de Zafar aos 15 anos comprova as suas antigas feições, mostrando a imagem de uma mulher bela, usando maquilhagem, um vestido bordado e um véu azul-escuro. Nos seus braços está um menino, filho de um polícia da cidade. Zafar tinha sido convidado para dançar na festa de aniversário do rapaz.



Ao longo da história, os hijras eram castrados à nascença e ostentavam um estatuto de favoritos no império mogol do subcontinente indiano. Agora a comunidade inclui hermafroditas, transexuais, travestis e homossexuais.



Mobilização e protestos



Tradicionalmente, os eunucos eram pagos para ajudarem a celebrar o nascimento de um filho, ou para dançarem em casamentos. Devido ao que se acredita ser o infortúnio de terem nascido entre dois sexos, a tradicional crença no Paquistão é que Deus estará mais inclinado a ouvir as orações deles.



Mas isto deixa os hijras com poucas opções para além de pedir esmola nas ruas, e muitos acabam como prostitutos.



No Paquistão de religião muçulmana, onde as relações sexuais fora do casamento são tabu e a homossexualidade é ilegal, são também tratados como objectos sexuais e muitas vezes tornam-se vítimas de ataques violentos.



"Todos os eunucos estão na prostituição", diz Reshma, de 22 anos, que vende sexo por 200 rupias (dois euros). "Isto é duro, mas ganho mais a fazer isto do que se tivesse um emprego normal", acrescenta, enquanto, à uma da manhã, procura clientes na Avenida Benazir Bhutto em Rawalpindi, vestido com uma túnica cor-de-laranja berrante.



Numa decisão com vista a garantir direitos à comunidade, o juiz do Supremo Tribunal do Paquistão ordenou que o Governo reconheça os hijras como um género próprio - apesar de ainda estar para se ver como é que isso vai ser posto em prática.



Na vizinha Índia, os eunucos e os transexuais venceram em 2009 uma longa batalha para serem classificados como "outros" - diferentes de homens e mulheres - nas listas de recenseamento eleitoral e nos cartões de eleitor.



"Isso é bom para os eunucos, porque aqui ninguém os respeita", afirma Almas Bobby, um porta-voz da comunidade paquistanesa dos eunucos. "Muitos tipos ruins violam-nos só por gozo, para se divertirem, queimam-nos com cigarros."



Bobby, de 45 anos, famoso na cidade de Rawalpindi pela graça feminina da sua dança, tem nos últimos anos ajudado a mobilizar os seus companheiros eunucos para lutarem pelos seus direitos.



Manifestações contra as violações e a extorsão por parte da polícia tiveram muito destaque na imprensa paquistanesa.



O advogado Mohammad Aslam Khafi entregou no Supremo Tribunal uma petição a favor dos direitos dos eunucos, e no mês passado esse mesmo órgão judicial ordenou que fosse colocada nos bilhetes de identidade uma coluna para um terceiro sexo.



O juiz também exigiu mais apoio para os eunucos conseguirem as suas partilhas segundo as leis de herança, bem como mais protecção face ao assédio policial.



Guia e proxeneta



Rejeitados pelas suas desgostosas famílias quando entram na adolescência, os eunucos acabam a viver juntos em comunidades lideradas por um guru que age como guia e conselheiro - mas na maior parte das vezes como proxeneta.



"Na nossa sociedade, o acesso a raparigas fora do casamento é muito limitado, não há privacidade. Isso alimenta a prostituição", diz Mohammad Aslam Khafi. "Todos eles estão, de uma ou outra forma, ligados ao negócio da prostituição."



Mas, apesar de todas as campanhas, os hijras têm pouca esperança de que a sua vida vá mudar rapidamente - e a nova lei do Supremo Tribunal ainda tem que ser posta em prática. "A situação vai manter-se igual", diz Reshma. "Não creio que uma medida burocrática vá melhorar as nossas vidas."

terça-feira, março 23, 2010

Estudo
Comida da Última Ceia tem crescido no último milénio
http://dn.sapo.pt/inicio/ciencia/interior.aspx?content_id=1526230&seccao=Sabia que



O tamanho da comida nos quadros da Última Ceia tem crescido entre 23 e 69 por cento no último milénio, segundo um estudo da Universidade de Cornell (Estados Unidos) publicado hoje.


Através do computador, os investigadores compararam 52 pinturas que retratam a última ceia de Jesus Cristo com os seus discípulos e concluíram que o conteúdo do prato principal cresceu 69 por cento, o tamanho do prato 66 por cento e o pão tornou-se maior numa proporção de 23 por cento entre os anos 1000 e 2000, adianta o estudo publicado no "Internaciontal Journal of Obesity" (Revista Internacional da Obesidade).

As grandes porções de comida têm sido consideradas um fenómeno moderno, mas para o especialista em comportamento alimentar Brian Wansik, da Universidade de Cornell, o que acontece actualmente "pode ser uma parte mais notória de um longo caminho".

A Bíblia refere que a Última Ceia ocorreu na véspera da Páscoa, mas os detalhes ficam limitados ao vinho e ao pão.

"Nada mais é mencionado, não se fala na taça de fruta ou no bolo de cenoura", enumerou o estudioso, lembrando que outros produtos como peixe, enguia, cordeiro e até porco aparecem nas pinturas.

O psicólogo especialista em comportamento alimentar comentou à agência AP que este estudo "não tem grande significado científico", já que na vida real há exemplos do aumento das porções de comida.

"Tudo o que tem de se fazer é olhar para o que é vendido nos restaurantes de comida rápida", notou o especialista, referindo ainda que um teste mais moderno é a análise da publicidade durante o campeonato de futebol norte-americano (Super Bowl).


Tags: Ciência, Sabia que

sábado, março 20, 2010

primeiro o texas

O Repent Amarillo diz que a luta entre o bem e o mal não termina nunca

Reportagem: O Exército de Deus quer salvar o Texas e depois a América
20.03.2010 - 11:04

http://www.publico.pt/Mundo/reportagem-o-exercito-de-deus-quer-salvar-o-texas-e-depois-a-america_1428539

"Que tipo de música é que vocês tocam?", pergunta David Grisham ao rapaz todo vestido de preto que está a descarregar instrumentos musicais de uma carrinha à porta do bar War Legion Underground. "Rock", responde este, indiferente. "Ah... rock", reconhece Grisham, a Bíblia na mão e um sorriso vago no rosto. "Sei muito bem. Eu costumava ser grande fã. Ouvi muito disso no passado", lembra.
O Repent Amarillo actua em locais onde acha que há grupos de pecadores para salvar (DR)

O passado foi o tempo em que Grisham era um "fornicador e adúltero" e vivia uma "vida escatológica", segundo a sua própria descrição. E acabou há oito anos, quando David "entregou a vida a Cristo". Agora, "arrependido e purificado", este habitante de Amarillo, no Texas, lidera um grupo de vigilantes cristãos cuja actividade tem vindo a tornar-se incómoda, por causa do extremismo da sua actividade. "Como nós, também Jesus Cristo era um radical", defende o pastor.

O seu autodesignado Exército de Deus não tem um lugar de culto, antes "alvos" criteriosamente seleccionados para a prática de sessões de evangelização. O grupo segue um roteiro consagrado num chamado "mapa de guerrilha", onde estão assinalados os locais onde consideram ser preciso "fazer testemunho" de Cristo: bares frequentados por homossexuais, clubes de swingers, casas de strip-tease, lojas de produtos eróticos, grupos de conservação da natureza, organizações pacifistas, clínicas de planeamento familiar, clubes de astronomia ou gabinetes de astrólogas e cartomantes. "Os nossos alvos são todos os lugares associados ao sexo, bruxaria, paganismo, ocultismo e falsas religiões... Tudo o que é imoral e não é cristão", resume Grisham.

Nesta noite, reuniram-se à porta do War Legion Underground para uma "acção" encomendada pelo pai do músico de uma das bandas em cartaz. "Ele pratica uma música satânica", explica David Grisham ao PÚBLICO, "com letras demoníacas que falam de doenças, utilizam palavrões e promovem a promiscuidade e o consumo de álcool".

Com David está a sua mulher Tracy e o filho adolescente Shane. Seguram uma cruz de madeira de três metros de altura e distribuem literatura apelando ao arrependimento. Ao lado está Big John, um jovem imponente que já foi traficante de droga e membro de um gang, registando em vídeo as pessoas que entram e saem do bar (e também todas as perguntas da entrevista do PÚBLICO).

Há pouco mais de um ano, as férias, fins-de-semana e todos os momentos livres de Grisham e família são ocupados em acções semelhantes um pouco por toda a cidade - e ocasionalmente noutros lugares do país, como Nova Orleães, durante o Mardi Gras.

O "exército" comandado por David Grisham não só recorre à nomenclatura bélica como traja uniformes militares - calças de camuflado, botas... No entanto, a primeira coisa que o pastor faz questão de salientar é que o seu grupo não advoga nem pratica a violência. "Mas há uma guerra espiritual entre o bem e o mal, entre Deus e o diabo. E essa é uma guerra sem tréguas", diz.

"Chamam-nos os taliban americanos, mas nós não somos terroristas. Só tocamos nas pessoas para as abraçar", garante. Pelo contrário, continua, é o Repent Amarillo que frequentemente é alvo de ataques e intolerância religiosa. "As pessoas insultam-nos e já fomos agredidos fisicamente", refere.

Outro ponto em que Grisham insiste é que o seu movimento é estritamente religioso e não tem nada de político - apesar de, nota, "como cristãos, renegarmos toda a plataforma do Partido Democrata". O pastor tem péssima impressão do Presidente Barack Obama, que "é o mais liberal que a América já teve" e cuja eleição considera ser "um sintoma" da laicização do país.

"A nossa sociedade está a afastar-se de Deus e a seguir numa direcção errada. E a culpa nem é de Obama, é algo que tem vindo a acontecer há muitos anos. O diabo tem vindo a tomar conta da cultura", lamenta. "Nós gostávamos de mudar isso. É por isso que operamos como a igreja do primeiro século e pregamos na rua. Não porque queremos uma teocracia, mas antes uma "culturocracia": um regime em que as instituições funcionam de acordo com uma cultura que é liderada pelo Cristianismo", esclarece.

O clube de swingers fechou

No The Jungle, um dos sete clubes de strip-tease da cidade, as visitas frequentes dos membros do Repent Amarillo não provocam especial comoção. "Eles ficam ali fora com a cruz, e dizem aos clientes que entram e saem que eles vão para o inferno. Só que ninguém lhes liga nenhuma", contou ao PÚBLICO o gerente do estabelecimento, que garantiu que a presença do grupo religioso nunca afectou o movimento. "Eles são um pouco inconvenientes mas nunca nos prejudicaram e por isso ignoramo-los", acrescentou.

Mas nem toda a gente consegue ignorar as acções do "exército" de David Grisham. Por exemplo, Monica Mead, que disse ao PÚBLICO ter sido forçada a "uma vida de eremita" na sequência do ataque lançado pelo Repent Amarillo contra o seu clube Route 66.

Trata-se de um espaço de festas, onde Monica e o marido Mac se juntavam, aos sábados à noite, com os restantes membros do seu clube de swingers. No final de 2008, o Repent Amarillo descobriu os seus eventos, e começou a marcar presença no passeio, todos os fins-de-semana. "Há gente a pregar na rua em todo o lado, e isso não me incomoda. O problema deste grupo são as suas actividades extracurriculares", explicou ao PÚBLICO.

David Grisham apresentou várias queixas contra o estabelecimento, que foi obrigado pela autarquia a realizar uma série de obras para permanecer aberto. E denunciou publicamente as noites de swing, "uma actividade privada que só diz respeito aos envolvidos", diz Monica.

Na sequência da exposição, o clube, onde se faziam festas de empresas, perdeu todos os seus contratos. Está à venda, mas sem compradores. A vida tornou-se impossível para Monica, que nunca mais pôde conviver com os seus netos depois de um filho e uma cunhada terem descoberto o seu "estilo de vida".

Uma das participantes nas noites de swing foi despedida, depois de o seu patrão ter recebido um telefonema a informá-lo do seu envolvimento no clube. O dono de uma frota de táxis recebeu chamadas anónimas ameaçando a "denúncia pública" da sua empresa por transportar passageiros até ao Route 66.

"O que eles fazem é perseguição, intimidação e assédio, sob o subterfúgio da liberdade religiosa e de expressão. Filmam as pessoas, conhecem os seus carros, sabem as suas moradas... Os que vivem na sua mira obviamente temem pela sua segurança", assinala a advogada Cristal Robinson, que representa Monica Mead contra o Repent Amarillo.

O fim do "vive e deixa viver"

Confrontado com as descrições do seu comportamento, David Grisham diz simplesmente que a sua missão é "salvar pecadores" e repete que o seu grupo "não deixará de ser zeloso" para atingir o seu objectivo - que é fechar todos os lugares marcados no seu mapa. "Já conseguimos acabar com o clube de swingers", orgulha-se.

Mas o fundamentalismo do Repent Amarillo começa a tornar-se desconfortável, mesmo para a população daquela pequena cidade, uma aglomeração de pouco mais de cem mil habitantes em plena Bible Belt (a cintura religiosa dos EUA).

As pessoas daqui descrevem-se como conservadoras e não escondem o seu desagrado com a evolução recente da sociedade local: com a chegada de "imigrantes que roubam empregos americanos", com o aumento de casamentos interraciais e com a aceitação da homossexualidade. Mas, apesar da retórica ultraconservadora que a maior parte não tem pudor em utilizar, Roy Rhyne, um enfermeiro gay nascido e criado em Amarillo, garante que a postura da população sempre foi de "vive e deixa viver". "As pessoas podem ter uma linguagem odiosa, mas não actuam. Toda a gente olha para o outro lado. Não sei de ninguém que tenha sido sistematicamente perseguido. Até agora", contou ao PÚBLICO.

Mickey é proprietário do Furbies, um restaurante de hambúrgueres que ostensivamente serve uma clientela gay. Só por uma vez se cruzou com os protestos de David Grisham, que ignorou o restaurante mas incluiu a sua igreja episcopal no "mapa de guerrilha" por esta aceitar membros homossexuais. Mickey considera o Repent Amarillo "irrelevante", mas o seu parceiro Richard diz recear que o crescimento do movimento dê cobertura a acções violentas. Até porque Grisham trabalha na Pantex, uma unidade de montagem de armas nucleares nos arrabaldes da cidade. "Quem me garante que, num delírio, ele não resolve punir todos os pecadores de Amarillo usando material nuclear?"

sexta-feira, março 19, 2010

Como tratar a doença que se apanha a trabalhar?
Parece haver em Portugal um sistema que deixa o trabalho criar doentes profissionais, mas que vê com maus olhos que esses doentes trabalhem. Entre o receio do desemprego e as dores, os trabalhadores preferem cobri-las com medicamentos. Quando atingem o limite, a lei permite às empresas dispensar a mão-de-obra doente, pagando-lhe o dobro da indemnização por despedimento ilícito.

http://jornal.publico.pt/noticia/19-03-2010/como-tratar--a-doenca-que--se-apanha-a-trabalhar-19000840.htm
Por João Ramos de Almeida


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As mãos agarram peças que não se vêem. Os pulsos rodam simétricos, rápidos. Abrem um molde. Fazem pressão, empurram um espigão invisível, encaixam a peça, fecham o molde. Agarram nova peça. Gestos precisos, tensos, na cadência mecânica da linha de montagem fabril.



"Assim, assim, assim..." A voz ajuda os relatos misturados de três trabalhadoras de três fábricas da indústria eléctrica na península de Setúbal, reunidas à mesma mesa do sindicato. Às três foi-lhes diagnosticado uma doença profissional músculo-esquelética, uma delas com um grau de incapacidade de 15 por cento. Duas estão de baixa há meses. À outra arranjaram-lhe um outro trabalho na mesma empresa.



"Ao princípio não associei. Fiquei com o braço preso. Mas o meu problema não começou nos pulsos, mas nos ombros. Doía-me muitos os ombros. Os dois, mais o direito que o esquerdo", conta Antónia (nome fictício, como os das trabalhadoras citadas na reportagem). Cecília, operária de uma conhecida firma multinacional, estava mais consciente. "Sabia o que tinha, mas não participei. O meu problema é nos trapézios dos ombros, tem alturas em que não posso movimentar os braços. De vez em quando lá me adormecem os dedos. Contraí a doença na linha de montagem." "Eu pensei que fosse uma dorzita que passasse com uma pomada", diz Daniela, trabalhadora numa empresa fornecedora da indústria automóvel, com mais de cem empregados. "Cheguei mesmo a ir aos endireitas, mas não passou. É uma dor no ombro esquerdo, na omoplata. O que é engraçado é que nas minhas colegas é no direito que lhes dói."



Umas trabalham sentadas, outras de pé. Três turnos por dia de oito horas cada. "São oito horas na mesma posição. Não se vai a lado nenhum." Mas há empresas que funcionam no limite das 12 horas. No primeiro turno, pára-se 15 minutos para o pequeno-almoço e 30 para o almoço. Tudo a correr, para ir para as bichas da cantina, da casa de banho. Dantes, havia mais pausas intermédias, mas acabaram. Os coordenadores estão sempre a dizer para não se falar. "Não quero conversas, estão aqui para trabalhar", grita-se do fundo. Concentração máxima. "Às vezes, nem se sabe o que se está a fazer." Um calor imenso. As chapas de zinco das naves da fábrica não ajudam. As máquinas de fabrico das bobines para as ignições de automóveis da Mercedes, Audi, Opel ou Volkswagen funcionam a 400 graus. Sua-se em pleno Inverno. Um ar carregado com vapores de plástico. As fábricas que têm ar condicionado fazem a inveja das cerca de 700 trabalhadoras da Delphi Seixal, cuja administração não quis comentar ao P2 os relatos feitos.



Nenhuma delas quis deixar-se fotografar ou dar um nome. "O patrão vai ver e posso ter problemas", diz uma delas. Falam, mas não querem sequer que o relato possa identificá-las.



António Rodrigues, 46 anos, não se importa de se dar a conhecer. Era engenheiro na indústria naval. Passava horas nos navios a coordenar os trabalhos de reparação, às vezes 11 horas por dia. Tinha queixas continuadas de vómitos, cansaço prolongado, tremuras. Andava nervoso, irritadiço, um mau ambiente em casa. Não foi na empresa que tudo se descobriu. Feitas análises mais pormenorizadas pedidas pela médica de família, foi-lhe detectada uma quantidade excessiva de metais pesados no sangue, no fígado, no cabelo. Aguarda há anos a fixação de um grau de incapacidade.



As queixas relatadas são hoje bem reconhecíveis, mas estranhamente até há bem pouco tempo passavam por maleitas próprias do esforço braçal mal dirigido. Por exemplo, as trabalhadoras fabris atenuavam as dores pedindo à médica da empresa uma ligadura, para atar o "pulso aberto". "Era tudo pulsos abertos", conta Antónia.



Presentemente, a lei já as enquadra como sendo "doenças profissionais". O legislador criou desde 1996 o Centro Nacional de Protecção Riscos Profissionais, como sucessor da Caixa Nacional de Seguros e Doenças Profissionais, e que é "o organismo de âmbito nacional responsável na área da prevenção, recuperação e reparação das doenças profissionais dos trabalhadores que delas sejam vítimas". Foi estipulado a obrigatoriedade de comunicação ao CNPRP de qualquer doença profissional detectada por um médico, sendo a sua omissão sujeita a sanção. E o centro pode, caso se acumulem dados sobre certo tipo de doenças, desencadear operações coordenadas, nomeadamente com a Autoridade para as Condições de Trabalho e com o Ministério da Saúde para prevenir o futuro.



Os números existentes espelham a progressiva familiarização com esse tipo de doença. Em 1992, foram certificados 2224 casos anuais de doença profissional no sector privado, mas passados 16 anos o número de casos duplicou. No final de 2009, havia 22.511 pensionistas por doença profissional.



Os últimos dados compilados pela Segurança Social - para 2008 - contabilizaram 4410 casos certificados do sector privado e 431 casos na administração pública. Dois terços do total dos processos foram relativos a doenças músculo-esqueléticas, seguidos de casos de surdez (13 por cento). As mulheres foram as mais atingidas (60 por cento). E geograficamente o maior grupo situou-se no Porto, seguido de Aveiro, Lisboa e Setúbal. A maioria dos casos não registou incapacidade.



Mas os números não retratam as reais dificuldades sentidas "no terreno" pelos trabalhadores doentes. Primeiro, não há uma verdadeira sensibilização nas empresas ou mesmo na classe médica. Nalguns casos, os trabalhadores sentem haver uma decisão "administrativa" da empresa para evitar a comunicação. Depois, a própria definição de "doença profissional" - que, como refere a lei que regula a sua reparação, é "consequência necessária e directa da actividade exercida" e não fruto de "normal desgaste do organismo" - quase as transforma num risco necessário da actividade produtiva, um mal de fracos, um efeito colateral de quem queira um ordenado.



Em terceiro, aos olhos dos trabalhadores parece haver um sistema fáctico que aceita que o trabalho crie doentes, mas que vê com maus olhos que os doentes trabalhem. Quando surgem os primeiros sintomas, os trabalhadores receiam queixar-se, porque temem acabar no desemprego e, se ganham coragem porque prezam mais a saúde do que temem o desemprego, as empresas conseguem com o tempo - e legalmente - descartá-los para a Segurança Social, que passa a arcar com os custos da reparação.



Comunicação difícil



Regresse-se à linha de montagem. Quando há cerca de dez anos Antónia sentiu o braço preso, ainda não se falava de doenças profissionais. Dirigiu-se ao posto médico da empresa para lhe darem qualquer coisa, "um sprayzito ou uma pomadinha ou um comprimido para as dores para poder trabalhar". "O enfermeiro que lá estava na altura disse-me: "Desculpa, mas eu não te vou dar nada. Eu vou escrever aqui para ires ao ortopedista, porque deves ter uma tendinite." E não me quis dar nada. Fui trabalhar com o braço preso. Esse dia foi infernal."



Nessa altura, faziam 12 horas por turno. Quando veio o médico, mandou-a logo de baixa. Mas ela recusou, porque "economicamente não estava muito bem". "Faça como quiser, mas vai fazer fisioterapia, se bem que a fisioterapia, com você a trabalhar, não vai resultar", respondeu o médico. E passou-lhe os medicamentos anti-inflamatórios. Apesar da fisioterapia, estava cada vez pior. O ortopedista comunicou o caso ao centro e deu-lhe um conselho: "Deixe imediatamente essa fábrica. Tem os seus braços numa miséria." Mas ela nem entendia o que o médico lhe dizia. "Já tinha líquido no cotovelo com uma espessura de uns milímetros."



O caso de Daniela é mais recente. Quando a dor começou a ser excessiva, queixou-se. "Falei com a nossa chefe e montes de vezes lhe disse para me tirar daquela máquina ou para me reduzir o tempo de trabalho. Até lhe dei uma carta da minha fisiatra. A tal senhora, mesmo sem a ler, respondeu-me que eu não gostava era de trabalhar." Durante um dia ou dois, "fizeram uma atenção". "[Mas depois voltaram] a meter-me na máquina."



A empresa não reagiu nada bem. "Ainda há pouco houve um prémio e eu trabalhei para ele. Há dois anos que não há aumentos salariais e tiveram lucros estrondosos em 2008." Pois, no final de 2009, disseram que o prémio ia ser de 30 por cento do ordenado, mas as pessoas com "doenças profissionais e que estavam de licença de maternidade não receberam nada".



Não obstante as queixas, foi a médica de família quem lhe fez um conjunto de exames. A ecografia às partes moles detectou a sua doença - uma tendinite. A médica de família não quis porém declarar. "Só vou até onde posso", foi o que lhe disse. "Quando já não percebo, mando para os meus colegas."



Este não é, porém, um caso único. A dirigente da Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP), Maria do Carmo Tavares, conta diversos casos semelhantes. E frisa que, apesar de haver sanções por não comunicarem os casos, os serviços de Saúde não dão instruções claras para o evitar. O delegado de Saúde de Lisboa, Carlos Nunes Pereira, confirma a ausência de instruções, mas que "há sempre chamadas de atenção" em reuniões. Uma médica de família, que preferiu não ser identificada, explicou ao P2 que, em geral, os médicos de clínica geral preferem responsabilizar os médicos de medicina no trabalho. Todavia, em muitos casos o problema nasce precisamente de - segundo a lei - esses médicos serem ou funcionários das empresas ou contratados por elas, o que pode sempre condicionar a sua função. Cecília, por exemplo, teve de ir a um médico particular para poder ser tratada. "Andava aflita e a doutora da empresa dizia-me: "Mais uma semana e estás quase de férias. Tens de levar uma injecção." E eu: "Injecções?!" Eu já estava nos limites. Optei por ir a um particular. O médico mandou-me fazer exames e realmente acusou. Deixei então participar às doenças profissionais." O que aconteceu depois? "Estive de baixa cinco meses e voltei ao trabalho." Colocaram-na num posto que não melhorava muito a sua situação. Queixou-se, quis ser mudada. Não ligaram. Voltou a ficar de baixa. Quando regressou, já a colocaram noutro posto de trabalho. "Tenho dores na mesma, são coisas pesadas e tenho de estar sempre a pegar-lhes, mas dá para ir descansando. Uns dias são melhores, outros piores."



A médica da empresa é "uma maravilha", ironiza Antónia. "Para ela está tudo bem." Está sempre a desvalorizar as novas queixas de doenças profissionais das suas colegas de trabalho. ""Ponham um emplastro, tomem um comprimido porque não é doença", é o que ela diz."



Quando lhe foi diagnosticada a doença, Daniela entregou uma cópia da declaração à empresa. "Passou-se um mês e nada. Falei com a minha chefe e tive de andar em cima dela. Um dia, finalmente, disse-me que ia marcar uma consulta com a médica de medicina no trabalho." Foi essa médica que fez a declaração obrigatória para o Centro Nacional de Protecção de Riscos Profissionais (CNPRP).



Mas a comunicação obrigatória ao CNPRP não é o fim dos pesadelos. Daniela queixa-se de que os médicos a colocam de baixa, sem que nada se altere. Mesmo de baixa há meses chega ao fim do dia aflita com dores. "Você precisa de continuar de baixa", respondeu o médico. António Rodrigues tem um contencioso com o CNPRP, porque ultrapassou todos os prazos para fixação do grau de incapacidade. Mas mandaram-no trabalhar. O recurso está na ministra. Já Antónia, que chegou ao centro com um relatório a dizer que, numa escala até 4, tinha um 3 avançado, o médico fixou-lhe logo o grau de incapacidade de 15 por cento.



E há ainda o problema dos reembolsos. Daniela fez já seis grupos de sessões de fisioterapia, cada uma com 15 dias. Por cada série de 15 sessões pagou 70 euros. Entre fisioterapia, exames e consultas foram mais de 500 euros, ou seja, pouco menos do que recebe como ordenado. E os reembolsos não vêm. Dizem-lhe que o centro está com um atraso de seis meses a um ano.



Mas, mais grave, o centro não assume as suas funções de prevenção. Parece resumir-se, passivamente, a apreciar os casos enviados. Não analisa, não reúne dados de forma a evitar a expansão do fenómeno. Na empresa de Cecília há dezenas de mulheres com as mesmas doenças músculo-esqueléticas, nascidas nas linhas de montagem. Na empresa de Antónia, outras tantas. E nunca foram lá, rever os processos de produção? Nunca, respondem.



Na Delphi Seixal, onde se retiraram as pausas intermédias de duas em duas horas e onde se suspeita haver dezenas de casos de doença profissional não declarados, o delegado de Saúde da região de Lisboa e Vale do Tejo, Carlos Nunes Pereira, disse ao P2 que até tem "uma muito boa impressão da empresa"; que desde há um ano se registou uma mudança nas condições de trabalho em que se autonomizaram certas funções e deixaram de ser notificadas doenças profissionais. Em 2009, na região de Lisboa, os serviços nem receberam qualquer notificação de doença profissional. E a Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT)? O inspector-geral do Trabalho revela que, nas actividades como a da Delphi Seixal, "tem havido acompanhamento há vários anos".



As trabalhadoras sorriem. Antónia conta que a ACT foi chamada várias vezes por causa do ambiente de trabalho, do calor excessivo, dos vapores. "Quando lá chegaram, estavam as máquinas paradas e estava um frio de rachar. Gelada", conta. "De cada vez que são chamados, demoram imenso tempo e vão sempre quando não há produção." E é sempre o mesmo inspector. "Ah, é o que vai à minha", diz Daniela. "Então, não esperes nada", responde Antónia.



Despedido na prática



Depois do diagnóstico de doença profissional, da sua comunicação obrigatória e, na melhor das hipóteses, após fixado o grau de incapacidade, há um problema maior - o da reintegração na empresa. E esse é o maior sinal da ineficácia do sistema.



"[Desde que foi diagnosticada a doença], a minha vida tem sido um inferno", conta Antónia. "Fui para a baixa e estive assim dois anos. Da primeira vez, o centro mandou uma carta para a empresa a dizer para me colocarem num posto de trabalho adequado ao meu problema de saúde." Não resultou. "Mandaram-me para a linha de montagem, outra vez. E continuei na mesma. A fazer muitas horas, sábados, porque a minha coordenadora já nem sequer me perguntava, punha o meu nome na lista. E eu nem piava. Passados uns tempos estava outra vez numa miséria. Mais uma baixa. O médico disse. "Vais fazer fisioterapia, mas tens de parar de trabalhar." Fui para a baixa e comecei com problemas de estômago por causa dos medicamentos. Depois da baixa, regressei. De lá para cá, desde 2001, tem sido só trabalhar-baixa-trabalhar-baixa."



Apenas uma vez a colocaram num posto de trabalho pouco agressivo. Mas foi por pouco tempo e voltaram a pô-la na linha de montagem. Durou três meses e voltou à baixa. "Já tenho lá em casa uma carta do CNPRP para mais uma junta médica. Para me mandarem trabalhar."



E não parece haver alternativas. A primeira é aquela que os próprios médicos do centro adiantam aos trabalhadores doentes. Antónia conta que, de "todas as vezes" que foi à consulta, lhe disseram: "Você tem de arranjar outro trabalho. É muito agressivo para si. Se déssemos um pontapé numa pedra e aparecesse um emprego... Da última vez, vira-se para mim: "Já cá está outra vez? Eu não lhe tinha dito para sair daquela fábrica?"" Daniela conta que o médico lhe disse: "A vossa solução é irem-se embora da empresa." E ela respondeu-lhe: "Então agora que eu contraí a doença é que me venho embora?" "Dá ideia de que têm a cartilha toda estudada", comenta Antónia.



A segunda alternativa seria a de exigir à empresa um posto de trabalho adequado à doença. Mas a lei - em vigor desde Janeiro passado - é tortuosa.



Por um lado, obriga a empresa a dar um posto de trabalho adequado. Ao mesmo tempo, contudo, aceita que, caso a empresa não o possua e essa situação seja certificada pelo centro de emprego, então esse centro de emprego é chamado a encontrar "soluções alternativas com vista à sua reabilitação e reintegração profissional", ou seja, a reconversão e procura de emprego passa para a Segurança Social. À empresa cabe, quando muito, participar nos custos da reabilitação, repartidos com o CNPRP, "até ao valor igual ao dobro da indemnização que lhe competiria por despedimento ilícito". E o trabalhador fica numa "terra de ninguém", nem desempregado nem empregado, até que tudo se resolva. Mas a realidade nem é essa.



António Rodrigues está mesmo desempregado. Depois da primeira das duas vezes em que esteve 900 dias de baixa, quando voltou à empresa o médico de trabalho fez um relatório à administração a defender a necessidade de um outro posto. Mas como não lhe foi fixado grau de incapacidade, a empresa não se sentiu obrigada. Da segunda vez, já não foi a mesma médica que o atendeu, era o chefe dela. "Tive a sensação que deram a volta ao texto", diz António. E entre a saúde e o emprego, o engenheiro fez um acordo com a empresa e está no desemprego há dois meses.



Mas para evitar essa queda no desconhecido, por necessidade ou por desvalorização das questões da saúde, os trabalhadores doentes preferem trabalhar. E essa é sempre a resposta, quando a alternativa da empresa é robotizar, automatizar as linhas de montagem e acabar com os empregos existentes. Mesmo que sejam empregos doentios.



A sensação é a de desprotecção completa e a pressão acaba por ser dura. "Nós é que temos de pedir desculpa à entidade patronal por ter esta doença", diz Antónia. "Já me senti tão mal com certos comentários - desde médicos às colegas, ao patrão..." Quando volta de baixa, os colegas parecem crianças más. "Já vens outra vez doente?", dizem-lhe.



Em três dos quatro trabalhadores, o emprego de que gostavam transformou-se num círculo vicioso, sem outra cura do que o trabalho que os pôs doentes. Em que a cura cria outra doença.

Mais de 800 milhões vivem em bairros de lata e a tendência é para aumentar
http://jornal.publico.pt/noticia/19-03-2010/mais-de-800-milhoes-vivem-em-bairros--de-lata-e-a-tendencia-e-para-aumentar-19022982.htm
Por João Manuel Rocha

Em dez anos, o número de residentes em aglomerados precários subiu 60 milhões, apesar de esforços governamentais que melhoraram a situação de mais de 220 milhões

As grandes concentrações de barracas

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O mundo tem, cada vez mais, manchas gigantescas de barracas. Quase 830 milhões de pessoas vivem em bairros de lata, quando, há dez anos, não chegavam a 770 milhões. Sem medidas radicais, a tendência de crescimento vai continuar e em 2020 serão 889 milhões a residir em aglomerados precários, sem condições mínimas.



O diagnóstico é traçado no relatório O estado das cidades no mundo 2010-2011: reduzir a fractura urbana, ontem divulgado pela agência ONU-Habitat, a poucos dias do V Fórum Mundial Urbano, que se realiza na próxima semana, no Rio de Janeiro.



O crescimento da população que habita em concentrações urbanas sem condições básicas torna pouco relevante o esforço que a agência das Nações Unidas reconhece que os governos têm vindo a fazer: o trabalho desenvolvido permitiu que, na última década, 227 milhões de pessoas deixassem os bairros de lata, ou que os bairros de lata deixassem de o ser.



Explique-se: ainda que essas pessoas permaneçam nos mesmos lugares, estes deixaram de estar classificados na categoria "bairro de lata", porque os alojamentos em que vivem são agora de melhor qualidade e têm acesso a serviços básicos, como distribuição de água e saneamento.



A melhoria de condições de mais de 22 milhões de pessoas por ano ultrapassou em 2,2 vezes a meta fixada nos Objectivos do Milénio para o Desenvolvimento, mas a realidade revela que isso é muito pouco para diminuir as manchas de barracas: na última década, 55 milhões de pessoas afluíram a esses aglomerados, engrossando a população urbana do planeta, calculada em 3,49 mil milhões de pessoas - uma pessoa em cada duas.







"Mais inaceitável que nunca"



"Os esforços para reduzir o número de habitantes dos bairros de lata e reduzir a fractura urbana, que é mais inaceitável que nunca, não são satisfatórios nem suficientes", confirma o estudo. "O crescimento urbano é mais rápido do que a taxa de melhoria de condições dos bairros de lata", explicou Gora Mboupa, co-autor do relatório, citado pela agência AFP.



O aumento da população dos bairros de lata é explicado em 50 por cento pelo crescimento natural da população residente, em 25 por cento pelas migrações do campo para a cidade e noutros 25 por cento pela afluxo de quem antes morava em zonas periféricas das grandes cidades.



China e Índia, os dois países mais populosos do mundo, são elogiados pelos seus esforços. O caso chinês é apresentado como "o mais espectacular", por terem sido melhoradas as condições de habitação a 65,3 milhões residentes urbanos na última década, o que fez baixar a população dos bairros de lata de 37,3 por cento para 28,2. A Índia melhorou as condições de habitabilidade a 59,7 milhões de pessoas desde 2000 e baixou a proporção dos moradores em barracas de 41,5 por cento em 1990 para 28,1 este ano.



Indonésia, Vietname, Turquia, Marrocos, Egipto, Argentina, Colômbia, México e Brasil são outros países que têm feito progressos importantes. "Os dados mostram que há países que, quando crescem e se desenvolvem economicamente, reduzem a proporção da população que habita em bairros de lata. É uma mensagem muito importante para o mundo em desenvolvimento", disse Eduardo Moreno, da ONU-Habitat.



O estudo da ONU-Habitat lembra que "nenhum país conseguiu nunca um crescimento económico sustentado e um rápido desenvolvimento social sem urbanização" e observa que as "vantagens competitivas" das cidades são maiores nos países em desenvolvimento, devido à debilidade das infra-estruturas e comunicações no resto do território.



Em 2005, as 25 principais cidades do planeta representavam aproximadamente 15 por cento do produto interno bruto (PIB) mundial e as cem maiores eram responsáveis por um quarto da riqueza produzida.



O relatório revela exemplos em que uma só cidade contribui com grande parte da riqueza nacional: Seul cria quase metade do PIB da Coreia do Sul, Budapeste e Bruxelas são responsáveis por cerca de 45 por cento da produção da Hungria e Bélgica, respectivamente.

Pyongyang executa responsável da reforma monetária
Por Francisca Gorjão Henriques

Relatório do International Crisis Group alerta para instabilidade do país, que prepara a sucessão


http://jornal.publico.pt/noticia/19-03-2010/pyongyang-executa-responsavel-da-reforma-monetaria-19022360.htm


Uma reforma monetária que esteve na origem de várias manifestações na Coreia do Norte custou a vida ao responsável das Finanças que a liderou, noticiou ontem a imprensa sul-coreana. Vários analistas não têm dúvidas: Pak Nam-ki não passou de um "bode expiatório", num momento em que o regime prepara a sucessão.



Pak Nam-ki era director do Partido dos Trabalhadores para o Planeamento e Finanças e foi demitido no início de Fevereiro pelo próprio líder norte-coreano, Kim Jong-il. Na semana passada, Pak, de 77 anos, acabou por ser executado numa caserna em Pyongyang por um pelotão de fuzilamento, adianta a agência Yonhap.



O seu crime foi ser "filho de um burguês que conspirou para se infiltrar nas fileiras revolucionárias para destruir a economia nacional", continua a agência, citando fontes próximas do processo.



Em finais de Novembro do ano passado, as autoridades decidiram proceder a uma valorização do won (a moeda norte-coreana), provocando uma subida em flecha dos preços, uma corrida inesperada aos bens de consumo e protestos de desagrado em vários pontos do país. Uma nota de 100 won poderia ser trocada nos bancos por uma nova de 1. Mas com limites: cada pessoa só poderia trocar até 100 mil won, ou seja, 526 euros, com muitos norte-coreanos - que lutam já com várias adversidades económicas para sobreviver - a perderem praticamente todas as suas economias.



A primeira valorização em 17 anos visava controlar a inflação e as transacções no mercado negro, mas em vez disso a inflação subiu - os produtos nas prateleiras dos supermercados esgotaram-se rapidamente porque muita gente gastou em bens de consumo o que não conseguia trocar nos bancos - e acentuou a falta de bens alimentares. Houve também uma corrida à compra de yuan chineses e dólares americanos.



"Reforma desastrosa"



Num relatório publicado no dia 15, o International Crisis Group referia-se a esta medida como "uma reforma monetária desastrosa", que veio juntar-se a uma "deterioração do problema crónico de segurança alimentar". E alertava que a Coreia do Norte está a ser sacudida por "sanções internacionais [impostas depois de um ensaio nuclear], escolhas políticas extremamente débeis e vários desafios internos que têm o potencial de desencadear a instabilidade".



Muitos norte-coreanos desafiaram o regime de mão-de-ferro e foram para a rua em protesto. Alguns incidentes com as autoridades provocaram 12 mortos na cidade de Hamhung, a 5 e 6 de Dezembro, de acordo com o que noticiou então o diário sul-coreano Chosun Ilbo.



Nada disto é visto com ligeireza por parte do Governo, sobretudo tendo em conta as possíveis mudanças que deverão estar a ser preparadas. Desde que em Agosto de 2008 Kim Jong-il sofreu um acidente vascular cerebral que a sucessão ocupa o centro das preocupações - a Coreia do Norte é o único regime comunista em que o poder é passado de pai para filho.



A morte de Pak serviria, assim, para acalmar os ânimos em vésperas do anúncio de que o filho mais novo de Kim, Kim Jong-un, será o próximo líder. "O sentimento geral é que a liderança fez de Pak Nam-ki um bode expiatório", diz a fonte da Yonhap.

Ladrões da placa de Auschwitz condenados a penas de prisão

http://jornal.publico.pt/noticia/19-03-2010/ladroes-da-placa-de-auschwitz-condenados-a-penas-de-prisao-19022205.htm

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A justiça polaca condenou a penas entre os 18 meses e dois anos e meio de prisão três dos cinco homens presos por roubarem a inscrição Arbeit Macht Frei (O trabalho conduz à liberdade), colocada à entrada do antigo campo alemão nazi de Auschwitz.



Os três, dois dos quais são irmãos, tinham reconhecido o seu envolvimento no roubo de Dezembro, que dizem ter levado a cabo por dinheiro. Outros dois polacos permanecem presos à espera de julgamento.



A arcada em ferro forjado do campo, com cinco metros, foi encontrada três dias depois de ter desaparecido dividida em três pedaços.



Inicialmente, as autoridades afirmaram que nenhum dos envolvidos tinha ligações a qualquer grupo de neonazis, mas o suspeito mandante, com o qual dois dos já condenados são acusados de ter contactado, é um ex-líder neonazi sueco. Estocolmo anunciou a semana passada que vai extraditá-lo para a Polónia, para ali ser julgado.



O roubo da inscrição suscitou indignação na Polónia, mas também em Israel: em Auschwitz foram mortas pelos nazis mais de um milhão de pessoas durante a Segunda Guerra Mundial.

foram 25 mil

Foram 25 mil os mortos de Dresden

http://jornal.publico.pt/noticia/19-03-2010/foram-25-mil-os-mortos-de-dresden-19022195.htm

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Os números deverão continuar a suscitar debate, mas a partir de agora existe uma versão oficial: foram 25 mil as pessoas mortas pelos raides norte-americanos e britânicos que deixaram em chamas a histórica cidade de Dresden, perto do fim da Segunda Guerra. Alguns grupos de extrema-direita afirmam que as bombas dos Aliados mataram 500 mil pessoas; há historiadores que referem mais de 200 mil.



A Comissão de Historiadores de Dresden chegou a esta conclusão depois de cinco anos a estudar registos oficiais e a visitar cemitérios, informações que foram comparadas com notícias publicadas e testemunhos.



De acordo com o relatório, foram mortos na cidade alemã menos refugiados em fuga da Frente Oriental do que até aqui se acreditava. Por isso, há menos corpos por recuperar do que alguns argumentam.



"Lembrar os bombardeamentos Aliados de Dresden ainda é importante para a compreensão sociopolítica de como a História é vista, para o modo como as identidades são formadas", afirmam os historiadores da comissão. "Neste debate, o número de mortos em Dresden tem sido crucial para alguns pontos de vista."



Para os críticos, os raides de 13 a 15 de Fevereiro de 1945 são um crime de guerra: a Alemanha estava perto da derrota e os alvos foram civis. Outros defendem que a cidade era um importante centro logístico perto das linhas alemães. Uma hora depois de serem conhecidas as conclusões da Comissão, 150 pessoas protestaram diante da câmara de Dresden.

o oprimido mais elegante

Passa os dias a deambular pelas ruas de Ningbo. Há quem diga que é o “oprimido mais giro do século”

Um vagabundo chinês é a estrela do ciberespaço
http://www.publico.pt/Sociedade/um-vagabundo-chines-e-a-estrela-do-ciberespaco_1428422
Por Francisca Gorjão Henriques

12 de 16 notícias em Sociedade « anteriorseguinte »
Um site publicou uma fotografia dele e rapidamente se tornou numa das pessoas mais faladas no ciberespaço chinês. Dizem ser o homem mais “cool” da China. Não é actor, não é músico, não é apresentador de televisão. É um sem-abrigo.
O seu nome é Xi Li Ge, mas há quem lhe chame “Príncipe Pedinte”, “Vagabundo Bonitão”, mas sobretudo “Mano Chique”. E quando se lêem os comentários ligados a esta verdadeira aparição, lê-se com frequência que ele é “o oprimido mais giro do século”.
Xi Li Ge tem muitas alcunhas. “Mano Chique” é uma delas (DR)

Passa dias e noites a vaguear pelas ruas de Ningbo, na província de Zhejiang. Há um olhar vago no rosto envolto em fumo de cigarro e uma postura altiva neste homem, que terá uns 35 anos. Veste um “kispo” comprido, azul, sobre um casaco de pele azul, sobre uma camisola de lã azul, sobre uma blusa de algodão azul. Em vez de cinto, nas calças, azuis, tem um lenço encarnado e creme a desfazer-se. O cabelo negro, desgrenhado.

As suas fotografias começaram por aparecer no site Tianya.cn, com a advertência de que ele poderá ter “distúrbios psicológicos”, e os comentários que se lhe seguiram são elucidativos: “Aqueles olhos tristes, aquela expressão triste, o bigode triste, o cabelo miraculosamente divino, e desalinhado, tudo isto atraiu-me profundamente”, escreveu alguém.

O China Daily diz que o “look” de Xi Li Ge está a atrair particularmente a atenção de uma geração pós-90, que está já a imitar o seu estilo. “O ‘Mano Chique é muito mais giro do que muitos dos chamados ídolos para adolescentes que aparecem na televisão hoje em dia”, lê-se também no fórum Tianya.cn.

Para provar como este é um personagem que poderia estar em qualquer capa de revista, alguém se deu ao trabalho de colocar no mesmo site uma montagem dele com roupa Dolce & Gabbana. Mais um comentário: “Vejam como franze a sobrancelha, não é preciso dizer nada... sexy”.

A sua fama chegou ao Japão, Taiwan e Hong Kong. O “Independent” escrevia que a sua cara faz lembrar os famosos actores asiáticos Takeshi Kaneshiro e Ken Watanabe.

Todos os dias há quem tente ir ao seu encontro. O site Oriental Hotline de Ningbo colocou em linha um vídeo de 2 de Março com uma entrevista. Tem medo de ter tanta gente à sua volta, e não percebe porque estão sempre a “visitá-lo” e a tirar-lhe fotografias. Treme, assustado, em frente à câmara. A certa altura lança um grito e começa a chorar.

Segundo o China Daily, um funcionário do albergue para sem-abrigo de Ningbo diz que por várias vezes os seus colegas tentaram dar-lhe um tecto, e que ele sempre recusou. E criticou: “Os ‘homeless’ são pessoas vulneráveis. É incorrecto usá-las para entretenimento”.

Houve também quem pedisse às autoridades para não “porem este pássaro livre numa gaiola”. “Ouvi dizer que muitos pedintes são culpados por um crime grave, são fugidos da lei, e tornam-se pedintes para esconder a sua identidade”, refere outro participante do fórum. “Se infelizmente este tipo for um deles, com a sua fotografia posta na Internet, não estará ele em perigo?”

Para o internauta ken 119110, que o descobriu, as coisas não são tão complicadas. Mas deixa um apelo, que a cada dia que passa será mais difícil de cumprir. Parem de andar atrás dele. “Por favor, dêem-lhe alguma comida se o virem na rua e desapareçam”.

quinta-feira, março 18, 2010

Arqueologia
Descoberta casa dos tempos de Cristo
http://dn.sapo.pt/inicio/ciencia/interior.aspx?content_id=1453868&seccao=Sabia que
22 Dezembro 2009


Peritos estão convencidos que Jesus conhecia a casa em questão. Esta tem dois quartos, um pátio interno e uma cisterna para guardar a água


Não é a casa onde Jesus Cristo viveu, mas podia ser. Pela primeira vez, arqueólogos encontraram uma residência da época romana em Nazaré, a cidade onde, segundo os Evangelhos, vivia a Virgem Maria. Modesta e pequena, a casa tem dois quartos, um pátio interior e uma cisterna onde guardavam a água da chuva. No local das escavações, foram ainda encontrados pedaços de cerâmica que datam do séc. I.
?Encontrámos fragmentos de giz típicos das casas judaicas?, sublinhou a arqueóloga israelita Yardenna Alexandre. Bem junto à casa, a equipa envolvida nas buscas encontrou ainda um poço cuja entrada tinha sido dissimulada. Os arqueólogos estão convencidos que o poço foi aberto pelos judeus durante os preparativos para a Grande Revolta contra os Romanos, no ano de 67. Esta terminou com uma derrota e com a destruição do Templo de Jerusalém.
Segundo os especialistas, esta descoberta vem lançar alguma luz sobre a forma como as pessoas viviam há mais de dois mil anos. Um porta-voz da Autoridade das Antiguidades de Israel foi mesmo mais longe e afirmou à BBC ser provável que Jesus e os amigos conhecessem a casa agora encontrada.
No século I, Nazaré não passaria de uma pequena aldeia, apesar de hoje a "capital árabe de Israel" com 65 mil habitantes.
A casa foi descoberta quando os funcionários de uma empresa de construção civil estavam a escavar as fundações para um novo edifício. Este, um centro cristão, devia situar-se no local de um antigo convento. As escavações vão agora ser integradas num novo centro do grupo católico francês Chemin Neuf.


Tags: Ciência, cristo, Arqueologia, Sabia que
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Genética
Cães são originários do Médio Oriente
http://dn.sapo.pt/inicio/ciencia/interior.aspx?content_id=1521533&seccao=Biosfera



Nem da Ásia nem da Europa. De acordo com um novo estudo genético, que é também o mais exaustivo feito até agora nesta área, os cães são originários do Médio Oriente. O estudo da equipa internacional que o realizou é publicado hoje na Nature.

"Os cães parecem partilhar mais semelhanças genéticas com os lobos cinzentos do Médio Oriente do que com qualquer outra população desta espécie no resto do mundo", explicou Robert Wayne, biólogo da universidade da Califórnia, nos EUA, que liderou o estudo. A maioria dos ancestrais dos cães modernos descende dos lobos do Médio Oriente.

Foi também naquela região que primeiro surgiram os primeiros animais domésticos, incluindo os gatos, e foi ali também que se desenvolveu a agricultura.

terça-feira, março 16, 2010

Há um novo manual da doença mental
http://jornal.publico.clix.pt/noticia/16-03-2010/ha-um-novo-manual--da-doenca-mental-18970527.htm
Por Andrea Cunha Freitas

A síndrome das pernas inquietas pode ser considerada um distúrbio mental associado ao sono. É preciso considerar o stress pós-traumático especificamente nas crianças em idade pré-escolar. O lado do excesso no sexo chama-se hipersexualidade e merece uma categoria isolada. A obesidade não é doença mental mas a ingestão compulsiva de alimentos pode ser. Em vez de atraso mental use a expressão deficiência mental e esqueça o termo demência. A Associação Americana de Psiquiatria avançou com a proposta de revisão do Manual Estatístico de Doenças Mentais (DSM). É a quinta edição e está aberta a discussão.


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É (re)conhecido que o cérebro é o território mais misterioso para a ciência. É sobre isto que menos sabemos e, sobretudo, que menos percebemos. Mas ainda há quem tente organizar a pouca informação que temos nas mãos sobre as nossas cabeças, ainda que muito do que está por detrás dos limitados dados que conseguimos permaneça sem resposta. É essa tentativa de organização que a Associação Americana de Psiquiatria faz, mais uma vez, na proposta de revisão do DSM. E, por ser tudo tão complicado, vamos tentar simplificar, conscientes do risco que corremos.



Chama-se DSM-5 (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders) e, para já, ainda é um documento de trabalho, aberto à discussão. É aqui que podemos encontrar o que mudou na forma de olhar para os desvios no labirinto da mente desde a última revisão deste "guia", em 1994. A apresentação da proposta foi notícia recentemente e as medidas relacionadas com o jogo patológico e com a ingestão compulsiva de alimentos mereceram destaque. Mas o documento tem mais do que isso. Os novos rótulos para considerar um doente mental estão incluídos em várias categorias. Dentro de cada uma delas, há mudanças. Há novas classificações a inserir, há situações que antes eram remetidas para anexos e agora merecem espaço no corpo principal do manual, há distúrbios que são "desclassificados" e transtornos que são "promovidos". "Algumas situações que estavam em apêndices na anterior edição eram ainda objecto de discussão", explica Luísa Figueira, psiquiatra do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, e responsável pela tradução da quarta versão deste "mapa" que orienta os profissionais de saúde mental. A especialista adianta que algumas das questões que agora são propostas para classificação em categorias independentes precisavam de ser validadas com investigações que aprofundassem, entre outros critérios, a sua epidemiologia, a estabilidade do diagnóstico e a resposta ao tratamento. Foi isso que aconteceu, por exemplo, com a ingestão compulsiva de alimentos.



O distúrbio de ingestão compulsiva de alimentos, conhecido como binge-eating, estava remetido para um apêndice no DSM-4 e surge agora como um diagnóstico independente no manual. Os critérios de diagnóstico desta perturbação incluem, entre outros, a ingestão de quantidades significativas de comida associadas a uma sensação de falta de controlo e sem que exista um comportamento de compensação (como o vómito). Os estudos multicêntricos realizados pelos especialistas norte-americanos terão demonstrado a necessidade de classificar esta perturbação. Porém, no capítulo dos distúrbios relacionados com a comida, a obesidade fica de fora e não é associada a um distúrbio mental. "A obesidade é multifactorial e, essencialmente, um problema sociocultural. Não é uma doença psiquiátrica individual", comenta a endocrinologista Isabel do Carmo, que reconhece, no entanto, que existirão algumas pessoas obesas que o são porque sofrem de binge-eating. "Mas há também muita gente que está gorda e não tem nenhuma perturbação mental", sublinha, acrescentando que muitas dessas pessoas podem apresentar problemas psíquicos que são consequência da obesidade.



Jogadores patológicos



Os especialistas norte-americanos com a difícil tarefa de rotular e catalogar as doenças mentais propõem mais mudanças. O jogador patológico, por exemplo, está numa nova categoria. Passou de uma das perturbações relacionadas com o controlo de impulsos para ser encarado ao abrigo das "dependências e perturbações relacionadas". "Há vários graus desta perturbação, só quando começa a ser algo disfuncional e a afectar de forma profunda a vida de alguém é que merecerá o diagnóstico. Até lá, trata-se de situações de adição ao jogo", nota Luísa Figueira, acrescentando que está de acordo com esta nova classificação. "O jogo estava numa categoria onde se encontrava, por exemplo, a cleptomania. Na actual proposta reconhece-se que é diferente e tem uma identidade separada."



A verdade é que, independentemente, de ser considerada numa categoria ou noutra, o jogador patológico é actualmente tratado nos serviços de psiquiatria do país. Rui Coelho, director do serviço de psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, também sublinha que estes casos merecem atenção clínica quando a relação anormal com o jogo tem consequências graves na vida daquelas pessoas e quando ocorreram várias tentativas falhadas de controlar, reduzir ou parar este comportamento, entre outros "sinais de alerta". Há muitas diferenças entre o carácter lúdico e patológico que o jogo pode assumir. Em algumas questões semelhante ao alcoolismo, o vício pelo jogo pode também pôr em risco o emprego e outras relações significativas mas não arrasta atrás de si os problemas físicos, somáticos ou cognitivos do excesso de álcool, alerta o psiquiatra. A Internet ficou fora dos vícios classificados na proposta do DSM-5 mas terá, inevitavelmente, que ser considerada quando se fala de jogo. Isto porque as "modas" de tentar a sorte on-line - como o popular jogo de póquer - têm cada vez mais adeptos. E aqui, alerta Rui Coelho, podemos até entrar num território mais delicado porque se trata de algo que pode acontecer longe de todos. Na solidão de uma casa e 24 horas por dia. "Se já há dificuldade em perceber o que se passa no campo mais tradicional do jogo, aqui o desconhecimento é maior. São dependências efectuadas de uma forma solitária, às escondidas", diz. "Já tivemos casos de pessoas viciadas em jogos on-line. Mas trata-se de uma população mais jovem que domina os meios informáticos com alguma destreza, é claramente uma população mais elitista", refere o psiquiatra, notando que, apesar de o perfil do jogador tradicional ser ainda do género masculino com 40/50 anos, "há cada vez mais mulheres a jogar". Como se trata um vício do jogo? "É um trabalho que implica necessariamente psicoterapia. É preciso perceber qual é o valor simbólico desse jogo. É preciso perceber a estrutura de personalidade, isso é que tem de ser tratado", refere Rui Coelho.



Na proposta para o novo manual, as várias faces do autismo ficam debaixo de um espectro. "Faz sentido. O espectro autista é alargadíssimo. Podemos estar perante dificuldades na área da linguagem e comunicação que vão de ligeiras a severas. E a verdade é que ainda sabemos muito pouco sobre as causas", afirma o psiquiatra. Porém, a decisão da Associação Americana de Psiquiatria que considera quatro diagnósticos possíveis de autismo (perturbação autística, Asperger, perturbação desintegrativa da infância e perturbação global do desenvolvimento) debaixo do mesmo "chapéu" promete ser polémica. Há já vozes contra a associação de perturbações mais ligeiras, como Asperger, a uma classificação comum de autismo com o estigma de doença mental que pode implicar.



Outra proposta que poderá ser recebida com reservas por alguns especialistas é a criação de uma categoria para "síndromas de risco", para abarcar doentes com primeiros indícios de perturbações mentais. Apontam-se as psicoses, onde se verifica que 25 a 30 por cento dos doentes apresentaram sinais antes do diagnóstico. Só que este pode ser um terreno perigoso, ressalvam os especialistas, que temem erros nos diagnósticos e questionam o tipo de resposta terapêutica precoce a dar a estas pessoas.



Perturbações na infância



No capítulo da infância, os especialistas propõem a criação de novas categorias, como a desregulação do humor com disforia, que pretende evitar possíveis diagnósticos errados de perturbação bipolar quando as crianças têm explosões de raiva e que podem ser temperamentais, ansiosas e irritáveis. É que, argumenta a Associação Americana de Psiquiatria, na idade adulta poucas revelam ser bipolares. Por outro lado, ainda no capítulo da infância e adolescência, os especialistas introduzem a questão do stress pós-traumático especialmente dedicado a crianças em idade pré-escolar. Sem dúvida, um sinal dos novos tempos. Encontram-se ainda na lista do DSM-5 as deficiências de aprendizagem e os ferimentos auto-infligidos sem intenção suicida.



De resto, o extenso documento tem outras questões que chamam a atenção. A síndrome das pernas inquietas - uma perturbação cuja existência chegou a ser questionada - aparece agora na categoria das perturbações do sono na proposta para a quinta edição do DSM.



E, pela primeira vez, trata-se aqui a perspectiva do excesso no sexo. "A anterior edição incluía o défice ao nível do funcionamento sexual, mas há patologias que são do excesso", afirma Luísa Figueira. O vício do sexo, ou o desejo sexual desregulado, chama-se hipersexualidade no DSM-5. Ainda no capítulo do sexo, propõe-se que a aversão sexual faça parte do capítulo das fobias.



E por falar em novas designações, a expressão atraso mental foi, definitivamente, substituída por deficiência mental. "Atraso mental é quase um insulto. Podemos estar perante um défice de desenvolvimento harmónico ou desarmónico. Falar em deficiência mental é menos redutor." O termo demência também foi retirado do manual, tendo sido acrescentadas as categorias de perturbação neurocognitiva severa e ligeira. "Demência é um termo muito genérico, tem uma conotação estigmatizante e pode ser associada a uma ideia de irreversibilidade", concorda Luísa Figueira.



No lugar dos apêndices, onde a ingestão compulsiva de alimentos se encontrava na quarta edição, estão novas questões a estudar e explorar. São algumas novas entradas como uma peculiar implicação - ou será obsessão? - com os cheiros, nomeadamente pelo odor corporal. Chamam-lhe Síndrome de Referência Olfactiva. Outra, diz respeito às pessoas que beliscam a própria pele com tanta violência e insistência que provocam lesões. Trata-se, alegam os especialistas, de uma perturbação semelhante à que se baseia em arrancar os próprios cabelos e que tem vindo a registar uma prevalência crescente.



Além do DSM, os profissionais da saúde mental usam o guia publicado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), designado como ICD (International Classification of Diseases). Actualmente, a OMS está a rever a décima edição e previa-se que ainda este ano fosse publicado um rascunho do ICD-11. Porém, segundo Geoffrey Reed, o coordenador da equipa que prepara a revisão do ICD-10 no que se refere aos distúrbios mentais e de comportamento, esta publicação foi adiada. Num e-mail de resposta ao P2, o responsável justifica o atraso com a "complexidade" do processo e aponta o novo prazo de 2011 para o lançamento da proposta da OMS. Apesar de considerar que não pode comentar o mérito científico ou a possível aplicação clínica das alterações propostas pela Associação Americana de Psiquiatria, Geoffrey Reed assegura que o documento de revisão que será incluído no ICD-11 terá em conta o DSM-5, bem como outras classificações regionais e nacionais ou eventuais modificações da actual versão do ICD que os 193 países membros da OMS tenham adoptado. Luís Figueira esclarece: "Nós usamos os dois critérios de diagnóstico, o DSM e o ICD. Há diferenças num ou outro ponto mas cada vez se aproximam mais. Imagino que a proposta dos especialistas da Organização Mundial de Saúde será o mais possível sobreponível à proposta final da Associação Americana de Psiquiatria."

Reportagem

Os gregos sonham com um novo país
15.03.2010 - 10:33
http://www.publico.pt/Mundo/os-gregos-sonham-com-um-novo-pais_1427158
Por Luís Villalobos (texto) e Nuno Ferreira Santos (fotografia), em Atenas

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Em 2004, a Grécia parecia viver uma época dourada com os Jogos Olímpicos, a vitória no Europeu e a economia a crescer com a moeda única. Seis anos depois, a ilusão deu lugar a um terramoto invisível que abalou todo o país. Os gregos perceberam que estavam à beira do colapso financeiro, e agora chegaram os custos da reconstrução.
Os gregos tentam levantar a cabeça ()
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A História ensina-nos a não desesperar", diz Dimitrios Pandermalis, no interior do novo museu da Acrópole, um edifício moderno situado no centro de Atenas, a cerca de 500 metros do monte a partir do qual o Parténon ainda vigia a cidade.

História é algo que não falta à Grécia, e este é, sem dúvida, um momento em que o país sente estar à beira do colapso, procurando uma solução para os seus graves problemas financeiros.

As sociedades, tal como as vidas humanas, são feitas de momentos de glórias e de derrotas, de alegrias e de desilusões, de criação e de caos. E, como diz o presidente do museu, enquanto circula nos seus corredores, rodeado de obras de arte com mais de dois mil anos, "durante as fases de prosperidade ninguém pensa que esses momentos vão acabar".

Há apenas seis anos, em 2004, a Grécia parecia estar a viver uma nova época dourada. Os Jogos Olímpicos foram realizados com sucesso, permitindo obras como a do metropolitano que atravessa a cidade até ao aeroporto, o país galvanizou-se com a vitória da sua selecção no europeu de futebol e a economia crescia a bom ritmo, impulsionada pela entrada no clube do Euro. Para a Grécia, um país pobre que aderira à Comunidade Europeia em 1981, apenas sete anos após o fim da ditadura dos coronéis, a adesão à moeda única foi um dos seus momentos de glória.

O fim do dracma significou um passo em frente na modernização, passando a ter uma moeda estável e sólida, permitindo que o país pudesse pedir dinheiro emprestado sem grandes preocupações. Só que, olhando para trás, verifica-se agora que não houve de facto uma evolução e que as estruturas gregas estavam assentes em areias movediças. A realização dos Jogos Olímpicos resultou num enorme prejuízo e o resultado de 1-0 contra a selecção portuguesa não valeu mais do que uma taça.

Depois, após a crise financeira de 2008 estalar e ter chegado a altura de pagar o dinheiro que tinha pedido emprestado descobriu-se com estrondo que o país tinha andado a viver acima das suas possibilidades ao longo da última década. Quando, no final de Outubro do ano passado, o recém-eleito chefe do Governo grego, George Papandreou, líder do Pasok e filho do antigo primeiro-ministro, revelou ao mundo que afinal o défice das contas gregas era de 12,7 por cento do Produto Interno Bruto (PIB), cerca de quatro vezes mais do que o valor esperado, um terramoto invisível abalou o país.

A Grécia é conhecida por ter formatado no passado os números à sua conveniência, contando com alguma cumplicidade ou ineficácia das instituições europeias, mas a revelação da gravidade das contas públicas surgiu no pior dos momentos, com o mundo a tentar sair de uma das maiores recessões de sempre e numa altura em que ainda se verifica uma escassez de crédito e os mercados financeiros parecem ávidos de presas fáceis. Desde o anúncio de Papandreu que a Grécia não tem tido descanso, com os investidores a exigir elevadas taxas de retorno sobre a compra de dívida pública grega (o que reflecte o nível de risco) e os especuladores a apostarem no fracasso financeiro do país. Esse problema, agora menos agudo, tem complicado ainda mais a recuperação da Grécia, depois de ter ameaçado arrastar consigo países do Sul da Europa como Portugal e Espanha, partindo ao meio a zona euro.

Falhanços da política
Não é preciso recuar muito no tempo para perceber o que aconteceu à Grécia. Basta fazer um flashback de 30 anos, desde o início dos anos 80 até ao momento em que o país olhou para dentro de si mesmo e percebeu que estava falido. O regresso ao passado faz-se no interior do gabinete de Persephone Zeri, professora na Faculdade de Ciências Políticas e Sociais da Universidade de Atenas.

Esta politóloga de 54 anos recorda que, quando Pasok subiu ao poder, substituindo o partido de centro direita Nova Democracia, que dominara o país desde o regresso da democracia, o Estado escancarou as portas à sociedade, tornando-se num empregador privilegiado. Era a primeira vez que a esquerda dominava politicamente desde a II Guerra Mundial, e a estratégia serviu para tentar abranger os que até então tinham estado excluídos do sistema de clientelismo selectivo que existia entre políticos e o Estado.

"Chegou-se ao ponto de um director ter cinco secretárias", exemplifica Zeri. "O problema só não era mais grave porque Papandreou [pai do actual primeiro-ministro] foi sabendo revolver também os problemas económicos", sublinha. Depois, sob a liderança de Costas Simitris, o país conseguiu alguns avanços, preparando-se para a moeda única. O pior, diz Zeri, a par de outros especialistas, foram os últimos anos da Nova Democracia liderada por Karamalis, que conduziram o destino do país desde 2004 até 2009. "Foi um Governo que não governou", sustenta esta politóloga, acrescentando que, apesar de a função pública e de as empresas estatais já estarem cheias, eles "abriram ainda mais as portas".

O resultado aparece nas contas anuais do país, que tem de pagar a despesa de ter um sector público que representa 22,3 por cento do total da força de trabalho (valor que em Portugal, por exemplo, é da ordem dos 13 por cento, segundo um estudo do Banco Central Europeu e do banco central grego). O problema não é tanto o salário individual de cada um, mas sim a soma do todo e a ineficácia das instituições.

Rui Coimbra, director-geral do Millennium Bank, instituição que o BCP detém na Grécia, faz um diagnóstico complementar. "A Grécia, tal como Portugal, tem dificuldades em aumentar a sua produtividade sem ser através de impulsos externos", diz este gestor de 39 anos, ex-secretário de Estado do Orçamento de António Guterres. Da janela do seu oitavo andar vê-se uma Atenas cinzenta, não obstante alguns raios de sol, como se a cor da cidade fosse reflexo do sentimento que paira sobre o país.

A viver em Atenas há quatro anos, o gestor português diz que a Grécia beneficiou de fenómenos como os fundos comunitários, a emigração que forneceu mão-de-obra barata e muito crédito, com os salários reais a subirem acima da riqueza que era de facto criada. Os negócios da marinha mercante e do turismo, os dois grandes pilares da economia, beneficiaram com o crescimento mundial.

Só que, como explica Rui Coimbra, os gregos não pouparam, não se prepararam para o futuro. "A despesa fica sempre, as receitas, essas, vão e vêm", sublinha. E aponta um outro problema: "É fundamental incluir no sistema a enorme economia paralela que existe." "Todo o país é uma fuga ao fisco", reforça.

Além do despesismo, nenhum Governo conseguiu ou quis revolver os problemas da evasão fiscal, que se estima ser da ordem dos 20 por cento do PIB (ou seja, cerca de 36 mil milhões de euros) ou superior. Talvez por isso, Persephone Zeri tem uma frase lapidar quando diz que "a bancarrota da Grécia representa o falhanço de toda a classe política".

Dinheiro clandestino
Tanto o gabinete de Persephone Zeri como o escritório de Rui Coimbra ficam situados na zona da Avenida Syngrou, uma das principais artérias da cidade que se prolonga até ao porto do Pireu e onde circulam dezenas dos milhares de táxis que existem em Atenas. Muitos deles estão ocupados por vários passageiros, mas a partilha do mesmo veículo não quer dizer que estas pessoas se conheçam umas às outras. É prática comum, apesar de o táxi estar já ocupado, o carro parar para deixar entrar outro cliente.

A despesa não é repartida, antes se incrementa o ganho do condutor, que, obviamente não passa dois recibos. Aliás, às vezes até é difícil receber uma factura mesmo quando não há passageiros imprevistos. Todos conhecem o esquema, todos parecem participar nele sem reclamações. O único pudor, conforme constatou a Pública, passa por ocupar o assento da frente, ao lado do taxista, em vez de roubar espaço ao primeiro cliente. E este fenómeno é apenas parte de todo o dinheiro que passa à margem da colecta do Estado, cujas raízes remontam aos tempos da ocupação otomana (que terminou em 1829), servindo a evasão fiscal como forma de resistência passiva.

A poucos quilómetros da Avenida Syngrou, na zona de Kolonaki, um bairro para a classe média-alta e alta situado no centro de Atenas, moram muitos dos que se especializaram na fuga aos impostos, como médicos e advogados. Não são só eles os protagonistas da evasão fiscal, mas é a classes profissionais como estas duas que se apontam os dedos. Por parte do Governo, este sabe que só conseguirá manter o apoio da população face às medidas restritivas que tem anunciado - como o corte de parte dos salários da função pública e dos subsídios de férias e de Natal, o aumento médio da idade da reforma e a subida dos impostos -, se combater a evasão fiscal.

Sentado num café localizado na Kolonaki, George Pagoulatos, membro do think tank grego Eliamep e professor de Estudos Económicos Europeus e Internacionais da Universidade de Economia de Atenas, defende que as primeiras medidas apresentadas pelo Governo para colmatar a crise foram arrojadas. "Tinham sido conduzidas algumas mudanças no passado, mas nunca com esta profundidade", sustenta. Destaca as medidas de contenção das despesas, ao mesmo tempo que se organizam os gastos - "o Tesouro não sabe quanto é que o Estado despende", diz -, e o novo sistema de tributação, que protege os mais desfavorecidos ao mesmo tempo que agrava quem ganha mais de 30 mil euros por ano.

Para combater a evasão ao fisco, o Governo quer efectivar a obrigatoriedade da emissão de facturas, ao mesmo tempo que dá benefícios fiscais aos contribuintes que peçam recibos e os apresentem nas declarações de impostos. "Julgo que é um bom incentivo", diz Pagoulatos. Uma opinião partilhada por um pequeno empresário, Kostas, que defende que os consumidores "vão começar a pedir facturas. Não todos, claro, mas pelo menos mais pessoas".

É necessário, também, atacar um outro problema: o da corrupção. Isto porque, como diz Persephone Zeri, o fenómeno do dinheiro "debaixo da mesa" alastrou a toda a sociedade e é preciso "pagar aos funcionários para estes fazerem o seu trabalho", incluindo os trabalhadores do Estado, onde se inclui o fisco. É como se fosse uma teia, em que todos participam.

Um estudo da Transparency International, organismo anticorrupção, divulgado no início deste mês pela imprensa alemã, sustenta que, só através dos consumidores gregos, foram pagos em 2009 cerca de 780 milhões de euros em pequenos subornos, de modo a conseguir-se algo tão simples como consultas médicas, cartas de condução ou licenças de construção.

Um país em choque
O próprio primeiro-ministro referiu-se a esta questão numa entrevista que deu à revista alemã Der Spiegel: "Infelizmente, a corrupção está instalada nos departamentos governamentais e nas empresas públicas. O nosso sistema político promove o nepotismo e o desperdício de dinheiro. Isso minou o sistema legal e a confiança no funcionamento do Estado. Uma das consequências disso é que muitos cidadãos não pagam os seus impostos."

A corrupção nos hospitais é um dos exemplos dados por Papandreou. Estes deram um prejuízo de sete mil milhões de euros no ano passado. Valor que o Governo pensa poder reduzir em 33 por cento, simplesmente com a instalação de sistemas computorizados que permitam controlar a aquisição de medicamentos e equipamentos. "O desperdício é tão grande que nos irá permitir poupar bastante", defende, quando questionado sobre a forma como irá reduzir o buraco orçamental do país.

Quem não ficou muito convencido com os planos iniciais de austeridade do Governo, que pretende reduzir o peso do défice em quatro pontos percentuais este ano (chegando aos 8,7 por centro do PIB), e chegar a menos de três por cento em 2013 (um trabalho digno de um Hércules moderno) foram os seus parceiros europeus, as agências de rating (que avaliam o nível de risco do país) e os investidores. Para conseguir pedir dinheiro emprestado aos mercados internacionais, numa altura em que a credibilidade das contas gregas ainda não foi recuperada, o Governo de Papandreou precisa do apoio dos restantes países europeus para baixar os custos do empréstimo. Apoio esse que já teve o seu preço.

A 3 de Março, a Grécia ficou em choque quando foi confrontada com novas medidas de austeridade, que implicaram cortes como a diminuição em 30 por cento do subsídio de férias (metade do qual é recebido na altura da Páscoa, uma data muito mais importante para os cristãos ortodoxos do que para os católicos) e do subsídio de Natal, novas descidas salariais na função pública e a subida do IVA, entre outros.

Logo após este anúncio o Estado grego apressou-se a colocar no mercado uma nova emissão de dívida pública, essencial para pagar as suas despesas, num primeiro teste aos mercados. O facto de ter sido bem sucedido, angariando cinco mil milhões de euros (embora a taxas de juro elevadas), ajudou o Governo e a Europa a respirar de alívio, nem que fosse por uns momentos. Até agora, o Pasok, que foi eleito com maioria absoluta, tem contado com o apoio da população.

Os cidadãos parecem perceber que o problema económico do país, como diz George Pagoulatos, foi criado pela Grécia e deriva das suas fraquezas e falhas. "O problema somos nós, a responsabilidade é nossa", acentua a politóloga Persephone Zeri, embora ambos defendam que os problemas foram aproveitados pelos especuladores, o que agravou a situação.

"Sinto que há uma mudança de mentalidades, com menos complacência no sistema político e na sociedade. Existe a percepção de que há uma crise, que é necessário um esforço colectivo, e isso é algo novo em relação às últimas décadas", defende Pagoulatos. Algo que, defende, não mudou mesmo após o reforço dos cortes anunciados na semana passada. "O Governo antecipou-se à União Europeia e aos mercados, ao avançar voluntariamente com medidas em vez de esperar que estas lhe fossem impostas. Foi um acto de coragem que conseguiu inverter alguns dos impactos negativos face à credibilidade do país", diz este investigador.

Apesar de sentir que há "um sentimento de choque e de grande preocupação" na sociedade, Pagoulatos mantém a ideia de que existe também a sensação de que é necessário fazer algo para garantir a sobrevivência financeira da Grécia. A mesma ideia é subscrita por Persephone Zeri, ao defender que "as pessoas vão acatar as medidas anunciadas". "Haverá certamente greves dinâmicas convocadas pelos sindicatos e partidos da oposição" como os comunistas do KKE, adianta, mas estas não irão contar "com a maioria da população."

Os dados parecem confirmar estas análises. Segundo uma sondagem publicada a 6 de Março no diário grego To Vima, poucos dias após as novas medidas do Governo, o número de entrevistados que se opõem ao plano de austeridade não chegou aos 48 por cento, valor quase idêntico ao dos apoiantes (47 por cento). Uma outra sondagem, feita para a Mega TV, mostrava que 52 por cento da população mantém uma opinião positiva em relação a George Papandreou.

Hoje a luta é das famílias
Isto não quer dizer que o Governo socialista tenha recebido um cheque em branco do eleitorado. O primeiro grande teste foi a greve geral e a manifestação convocada pelas duas grandes confederações sindicais, a GSEE (sector privado) e a Adedy (função pública) no dia 24 de Fevereiro. Embora o número de participantes tenha sido de dez mil a vinte mil, incluindo forças de oposição como o comunista KKE e grupos anarquistas, não houve uma adesão das massas. O ambiente perto do Museu de Arqueologia, local da concentração, era, em termos gerais, mais de resignação do que reivindicação.

O principal inimigo, esse, eram os mercados internacionais e não o Governo, até porque as duas confederações sindicais são próximas do Pasok. Por volta da hora do almoço, quando a manifestação estava entre as praças Omonia e Syntagma, próxima da zona do Parlamento onde seria o ponto de concentração final, começou a ouvir-se o ruído de pancadas secas. Foi o início de um confronto e o fim da manifestação. Montras de lojas como a Zara e a Bershka (ambas do grupo espanhol Inditex, talvez por serem da mesma nacionalidade que o ex-comissário europeu dos Assuntos Económicos e Monetários, Joaquim Almunia) foram escolhidas como alvo por um grupo de jovens, e só a grossura dos vidros impediu que estes se estilhaçassem no meio da rua.

A partir daqui instalou-se o caos, com pedras da calçada e alguns cocktail molotov a voar pelo ar, respondendo a polícia com gás e movimentos sincronizados de cassetete. Entretanto já houve novos incidentes, e diversos outros se deverão repetir, mas longe do que seria provocado por uma verdadeira revolta social. A avaliar pelo que sucedeu na primeira greve geral, os distúrbios são conduzidos por um pequeno grupo de algumas dezenas de pessoas, que chegam mesmo a vias de facto com outros manifestantes.

Para já, ninguém espera uma repetição do que sucedeu em Dezembro de 2008, quando Atenas esteve em estado de sítio após a polícia ter matado a tiro um estudante durante uma manifestação. Para Persephone Zeri, que revela ter ainda hoje dificuldades em recordar a noite em que a cidade esteve em estado de sítio, esse momento mostrou a incapacidade de reacção da Nova Democracia. "Não teria acontecido a mesma coisa com outro tipo de governo", defende. "Hoje, a luta é a das famílias, que tentam chegar ao fim do mês com o que têm", diz um responsável da confederação sindical dos funcionários públicos, a Adedy, dando assim a entender que os problemas específicos dos jovens foram esvaziados no panorama geral do país.

Questionado antes do último anúncio feito pelo Governo sobre se um agravamento das medidas restritivas iria agudizar a luta e fomentar uma instabilidade social, o líder da GSEE (a confederação dos sindicatos privados) foi evasivo na sua resposta. Yannis Panagopoulos, de 54 anos, que fala em grego numa voz pausada para dar tempo ao intérprete para traduzir, diz esperar que o ónus seja distribuído por todos de forma equitativa. Confessa que se sente numa "situação difícil", já que, se por um lado percebe "as pressões que estão ser impostas à Grécia e ao Governo", não deixa de recordar que existem também "as necessidades dos trabalhadores", que são, afinal, quem o elegeu e os quais representa. Também a Adedy, através do seu responsável para a vertente internacional, Vassilis Xenakis, optou por um discurso pautado pela cautela. Mas no final de semana passada o secretário-geral deste sindicato, Ilias Iliopoulos, afirmou que os trabalhadores irão estar nas ruas "com todas as suas forças". E avisou mesmo que temia uma "explosão social". Pode ser uma arma psicológica, mas ninguém garante que no futuro não haja manifestações mais radicais.

Mais empréstimos
Persephone Zeri ressalva que vão ser necessários novos empréstimos (com uma dívida da ordem dos 300 mil milhões de euros, o país necessita de arrecadar mais 23 mil milhões de euros através dos mercados até Maio) e isso poderá significar novas medidas de austeridade. Assim, é "demasiado cedo para tentar perceber o que é que vai acontecer e quais serão as consequências sociais". "As pessoas estão habituadas a consumir e a viver bem devido ao alastramento da corrupção", aponta. "Ninguém consegue verdadeiramente antever o que é que aí vem", diz George Pagoulatos, embora sublinhe que "o Governo começou a fazer o que era necessário".

Há poucas dúvidas no que toca a quem é que vai sofrer mais com a presente crise na Grécia. Em primeiro lugar, a classe média, já que, conforme afirmou a ministra da Economia, Louka Katseli, estão a ser desenvolvidas "diversas medidas para proteger os que têm rendimentos mais baixos e a redistribuir o fardo".

Aqui, o destaque vai para a função pública, que é quem está a sofrer mais no imediato devido aos cortes salariais (estes abrangem a parte complementar dos ordenados, mas a descida é da ordem dos dez por cento do vencimento total). A indignação de muitos funcionários gregos ouvidos pela Pública assenta no facto de serem dos poucos que não fogem ao fisco (em grande parte porque não conseguem). "A maioria das pessoas não paga nada e não as apanham. Os outros não podem ficar mais ricos e nós mais pobres", reclama Eva, uma funcionária do Estado de 52 anos. Há, depois, os desempregados. A taxa actual de quem não tem trabalho mas procura emprego é da ordem dos dez por cento, indicador que tende a subir, e de forma rápida.

Além dos desempregados de longa duração, cuja reentrada no mercado vai ser dificultada, também os jovens à procura do primeiro trabalho serão afectados pela crise. A taxa de desemprego jovem é já da ordem dos 20 por cento, o que vem agora ser agravado pelo aumento da idade média da reforma (menos pessoas a vagar postos de trabalho), pelas medidas restritivas de empregos no função pública (o Governo diz que por cada cinco funcionários públicos que saiam só entrará um) e pelo abrandamento da economia.

"Quem está a sair das faculdades dificilmente entrará no mercado de trabalho, à excepção dos que são verdadeiramente muito bons. Ninguém, incluindo nós, está a abrir vagas", diz o gestor do Millennium na Grécia, Rui Coimbra. E o banco detido pelo BCP não é um pequeno empregador. No final do ano passado, era responsável por 1527 trabalhadores, distribuídos por 177 sucursais em todo o país.

Os próprios estudantes têm noção dessa realidade, embora sejam confortados pela falsa sensação de que esse desafio surgirá algures no futuro, olhando para dois ou três anos como se fosse um cenário longínquo. No vasto complexo preenchido pelas faculdades da Universidade de Atenas, na zona de Zografou, centenas de alunos circulam entre os edifícios de betão. No seu interior, seja a faculdade de Química, de Física ou de Filosofia, as paredes estão forradas com propaganda comunista e convocações para a greve geral do dia 24 de Fevereiro, mas isso não impede que alguns estudantes ignorem a convocatória. É o caso de Anna, de 18 anos e aluna do primeiro ano de Filosofia. Quer ser professora, o que lhe garantiria a entrada na função pública, mas sabe que "há muita concorrência" para o número de vagas. Se o plano não resultar, afirma, pode sempre dar explicações. A mesma resposta, com pequenas variações, foi dada por outros estudantes.

O fenómeno do recurso às explicações, saída de emergência apregoada pelos alunos, acabou por ser explicado por Terpsichore, de 21 anos e finalista do curso de História. "Como a qualidade do ensino não é muito boa, todos recorrem a aulas privadas, o que dá emprego a muitos explicadores", diz. E, obviamente, também aqui não são emitidas facturas.

Emigração qualificada
O elevado desemprego pode potenciar uma nova de emigração grega e a saída de pessoas qualificadas, mas também fazer crescer um sentimento de xenofobia.

O país tem recebido milhares de pessoas provenientes de países como o Bangladesh ou o Paquistão, bem como de diversos outros da África subsariana. E pouco foi feito até agora para os assimilar. A área degradada que envolve a Praça Omonia, é um local onde muitos deles vivem e se cruzam, juntamente com toxicodependentes, sob o olhar atento das patrulhas do corpo de intervenção que alertam os visitantes europeus para o risco de assaltos por parte de emigrantes ilegais.

Ao percorrer-se outras artérias da cidade, percebe-se que a Grande Atenas, com quase quatro milhões de habitantes (cerca de um terço da população total do país), foi escolhida como porto de abrigo de muitas pessoas que quiseram procurar uma vida melhor fora do seu país de origem, sendo o comércio de rua o principal ganha-pão.

Com a crise, "há de facto o risco de a sociedade se tornar mais conservadora", diz Pagoulatos, abrindo caminho à xenofobia e confrontos. "Entraram mais emigrantes do que aqueles que conseguimos encaixar", constata.

Se a recessão grega não for muito grave (e houver uma recuperação da economia a nível global), com o país a erguer-se sem grandes traumatismos do buraco onde caiu, os piores receios irão revelar-se infundados. E então poderá nascer aquilo que Persephone Zeri chama "uma outra Grécia".

Isso poderá acontecer, estima, daqui a cerca de dez anos, porque há muitos factores culturais que demoram a ser substituídos. Aquilo que vier a ser construído terá necessariamente de ser diferente do que foi feito no passado, tendo o país perdido já demasiadas oportunidades ao gastar dinheiro sem mudar a forma de estar e de funcionar.

Crises são sinais de mudança No interior do museu da Acrópole, vive-se um ambiente protegido. Dimitrios Pandermalis continua a percorrer os corredores, sendo cumprimentado pelos funcionários e ignorado pelos visitantes. A determinada altura pára por cima do local onde se vêem os vestígios arqueológicos do que foi um ponto de encontro dos atenienses durante a sua época de ouro, entre 500 e 400 anos antes de Cristo.

O presidente deste novo museu, de 69 anos, pisa um chão feito de vidro, que permite um encontro original entre o passado e o presente. As ruínas da Grécia antiga, vistas de cima, são o resultado das escavações feitas para construir o edifício, situado a pouca distância da Acrópole.

À volta de Pandermalis, professor e arqueólogo, estão reunidas estátuas e outras obras de arte que, iluminadas por luz natural, simbolizam a época de homens como Péricles e Aristóteles, cujo pensamento marcou toda a sociedade ocidental até aos dias de hoje. A inauguração deste espaço, desenhado pelo arquitecto suíço Bernard Tschumi, foi "um momento histórico" para a Grécia, diz Pandermalis. "Finalmente, depois de tantos anos, há finalmente um sítio digno para apresentar estes tesouros", que, provenientes do monte a partir do qual o Parténon ainda vigia a cidade, estavam distribuídos por um pequeno museu e vários armazéns.

Sente-se algo especial na atmosfera deste espaço, que permite um contacto próximo com as peças expostas, permitindo observar as suas formas suaves de todos os ângulos. Numa das salas dos três pisos do edifício, as estátuas quase parecem ganhar vida no meio dos visitantes que as observam.

Pandermalis é um homem orgulhoso da sua obra, da qual ficou encarregue há dez anos. Principalmente se for tido em conta que a construção do museu foi discutida durante 30 anos, no meio de um processo moroso com avanços e recuos constantes, tendo-se chegado a pensar que nunca iria ver a luz do dia.

Por isso mesmo, este edifício representa uma vitória contra inimigos como a inércia, o fatalismo, a burocracia ou a mediocridade. Fora destas quatro paredes discute-se a gravidade das medidas que estão a ser tomadas para impedir que a Grécia entre de facto na bancarrota, com a angústia de quem não sabe muito bem como será o futuro.

Sabe-se apenas que há uma economia arruinada e que algo terá de ser construído por cima dela. Pandermalis olha de novo para a História para dizer que as crises são sempre "sinais de que algo tem de mudar", embora nunca ninguém saiba dizer "se é ou não para melhor".

Simbolicamente, o edifício que guarda aquilo que o país tem de mais precioso mostra o que a Grécia foi em tempos idos mas também o que é capaz de fazer. Para já, como diz Persephone Zeri, "chegou a altura de pagar a factura".