Reportagem
Os gregos sonham com um novo país
15.03.2010 - 10:33
http://www.publico.pt/Mundo/os-gregos-sonham-com-um-novo-pais_1427158
Por Luís Villalobos (texto) e Nuno Ferreira Santos (fotografia), em Atenas
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Em 2004, a Grécia parecia viver uma época dourada com os Jogos Olímpicos, a vitória no Europeu e a economia a crescer com a moeda única. Seis anos depois, a ilusão deu lugar a um terramoto invisível que abalou todo o país. Os gregos perceberam que estavam à beira do colapso financeiro, e agora chegaram os custos da reconstrução.
Os gregos tentam levantar a cabeça ()
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A História ensina-nos a não desesperar", diz Dimitrios Pandermalis, no interior do novo museu da Acrópole, um edifício moderno situado no centro de Atenas, a cerca de 500 metros do monte a partir do qual o Parténon ainda vigia a cidade.
História é algo que não falta à Grécia, e este é, sem dúvida, um momento em que o país sente estar à beira do colapso, procurando uma solução para os seus graves problemas financeiros.
As sociedades, tal como as vidas humanas, são feitas de momentos de glórias e de derrotas, de alegrias e de desilusões, de criação e de caos. E, como diz o presidente do museu, enquanto circula nos seus corredores, rodeado de obras de arte com mais de dois mil anos, "durante as fases de prosperidade ninguém pensa que esses momentos vão acabar".
Há apenas seis anos, em 2004, a Grécia parecia estar a viver uma nova época dourada. Os Jogos Olímpicos foram realizados com sucesso, permitindo obras como a do metropolitano que atravessa a cidade até ao aeroporto, o país galvanizou-se com a vitória da sua selecção no europeu de futebol e a economia crescia a bom ritmo, impulsionada pela entrada no clube do Euro. Para a Grécia, um país pobre que aderira à Comunidade Europeia em 1981, apenas sete anos após o fim da ditadura dos coronéis, a adesão à moeda única foi um dos seus momentos de glória.
O fim do dracma significou um passo em frente na modernização, passando a ter uma moeda estável e sólida, permitindo que o país pudesse pedir dinheiro emprestado sem grandes preocupações. Só que, olhando para trás, verifica-se agora que não houve de facto uma evolução e que as estruturas gregas estavam assentes em areias movediças. A realização dos Jogos Olímpicos resultou num enorme prejuízo e o resultado de 1-0 contra a selecção portuguesa não valeu mais do que uma taça.
Depois, após a crise financeira de 2008 estalar e ter chegado a altura de pagar o dinheiro que tinha pedido emprestado descobriu-se com estrondo que o país tinha andado a viver acima das suas possibilidades ao longo da última década. Quando, no final de Outubro do ano passado, o recém-eleito chefe do Governo grego, George Papandreou, líder do Pasok e filho do antigo primeiro-ministro, revelou ao mundo que afinal o défice das contas gregas era de 12,7 por cento do Produto Interno Bruto (PIB), cerca de quatro vezes mais do que o valor esperado, um terramoto invisível abalou o país.
A Grécia é conhecida por ter formatado no passado os números à sua conveniência, contando com alguma cumplicidade ou ineficácia das instituições europeias, mas a revelação da gravidade das contas públicas surgiu no pior dos momentos, com o mundo a tentar sair de uma das maiores recessões de sempre e numa altura em que ainda se verifica uma escassez de crédito e os mercados financeiros parecem ávidos de presas fáceis. Desde o anúncio de Papandreu que a Grécia não tem tido descanso, com os investidores a exigir elevadas taxas de retorno sobre a compra de dívida pública grega (o que reflecte o nível de risco) e os especuladores a apostarem no fracasso financeiro do país. Esse problema, agora menos agudo, tem complicado ainda mais a recuperação da Grécia, depois de ter ameaçado arrastar consigo países do Sul da Europa como Portugal e Espanha, partindo ao meio a zona euro.
Falhanços da política
Não é preciso recuar muito no tempo para perceber o que aconteceu à Grécia. Basta fazer um flashback de 30 anos, desde o início dos anos 80 até ao momento em que o país olhou para dentro de si mesmo e percebeu que estava falido. O regresso ao passado faz-se no interior do gabinete de Persephone Zeri, professora na Faculdade de Ciências Políticas e Sociais da Universidade de Atenas.
Esta politóloga de 54 anos recorda que, quando Pasok subiu ao poder, substituindo o partido de centro direita Nova Democracia, que dominara o país desde o regresso da democracia, o Estado escancarou as portas à sociedade, tornando-se num empregador privilegiado. Era a primeira vez que a esquerda dominava politicamente desde a II Guerra Mundial, e a estratégia serviu para tentar abranger os que até então tinham estado excluídos do sistema de clientelismo selectivo que existia entre políticos e o Estado.
"Chegou-se ao ponto de um director ter cinco secretárias", exemplifica Zeri. "O problema só não era mais grave porque Papandreou [pai do actual primeiro-ministro] foi sabendo revolver também os problemas económicos", sublinha. Depois, sob a liderança de Costas Simitris, o país conseguiu alguns avanços, preparando-se para a moeda única. O pior, diz Zeri, a par de outros especialistas, foram os últimos anos da Nova Democracia liderada por Karamalis, que conduziram o destino do país desde 2004 até 2009. "Foi um Governo que não governou", sustenta esta politóloga, acrescentando que, apesar de a função pública e de as empresas estatais já estarem cheias, eles "abriram ainda mais as portas".
O resultado aparece nas contas anuais do país, que tem de pagar a despesa de ter um sector público que representa 22,3 por cento do total da força de trabalho (valor que em Portugal, por exemplo, é da ordem dos 13 por cento, segundo um estudo do Banco Central Europeu e do banco central grego). O problema não é tanto o salário individual de cada um, mas sim a soma do todo e a ineficácia das instituições.
Rui Coimbra, director-geral do Millennium Bank, instituição que o BCP detém na Grécia, faz um diagnóstico complementar. "A Grécia, tal como Portugal, tem dificuldades em aumentar a sua produtividade sem ser através de impulsos externos", diz este gestor de 39 anos, ex-secretário de Estado do Orçamento de António Guterres. Da janela do seu oitavo andar vê-se uma Atenas cinzenta, não obstante alguns raios de sol, como se a cor da cidade fosse reflexo do sentimento que paira sobre o país.
A viver em Atenas há quatro anos, o gestor português diz que a Grécia beneficiou de fenómenos como os fundos comunitários, a emigração que forneceu mão-de-obra barata e muito crédito, com os salários reais a subirem acima da riqueza que era de facto criada. Os negócios da marinha mercante e do turismo, os dois grandes pilares da economia, beneficiaram com o crescimento mundial.
Só que, como explica Rui Coimbra, os gregos não pouparam, não se prepararam para o futuro. "A despesa fica sempre, as receitas, essas, vão e vêm", sublinha. E aponta um outro problema: "É fundamental incluir no sistema a enorme economia paralela que existe." "Todo o país é uma fuga ao fisco", reforça.
Além do despesismo, nenhum Governo conseguiu ou quis revolver os problemas da evasão fiscal, que se estima ser da ordem dos 20 por cento do PIB (ou seja, cerca de 36 mil milhões de euros) ou superior. Talvez por isso, Persephone Zeri tem uma frase lapidar quando diz que "a bancarrota da Grécia representa o falhanço de toda a classe política".
Dinheiro clandestino
Tanto o gabinete de Persephone Zeri como o escritório de Rui Coimbra ficam situados na zona da Avenida Syngrou, uma das principais artérias da cidade que se prolonga até ao porto do Pireu e onde circulam dezenas dos milhares de táxis que existem em Atenas. Muitos deles estão ocupados por vários passageiros, mas a partilha do mesmo veículo não quer dizer que estas pessoas se conheçam umas às outras. É prática comum, apesar de o táxi estar já ocupado, o carro parar para deixar entrar outro cliente.
A despesa não é repartida, antes se incrementa o ganho do condutor, que, obviamente não passa dois recibos. Aliás, às vezes até é difícil receber uma factura mesmo quando não há passageiros imprevistos. Todos conhecem o esquema, todos parecem participar nele sem reclamações. O único pudor, conforme constatou a Pública, passa por ocupar o assento da frente, ao lado do taxista, em vez de roubar espaço ao primeiro cliente. E este fenómeno é apenas parte de todo o dinheiro que passa à margem da colecta do Estado, cujas raízes remontam aos tempos da ocupação otomana (que terminou em 1829), servindo a evasão fiscal como forma de resistência passiva.
A poucos quilómetros da Avenida Syngrou, na zona de Kolonaki, um bairro para a classe média-alta e alta situado no centro de Atenas, moram muitos dos que se especializaram na fuga aos impostos, como médicos e advogados. Não são só eles os protagonistas da evasão fiscal, mas é a classes profissionais como estas duas que se apontam os dedos. Por parte do Governo, este sabe que só conseguirá manter o apoio da população face às medidas restritivas que tem anunciado - como o corte de parte dos salários da função pública e dos subsídios de férias e de Natal, o aumento médio da idade da reforma e a subida dos impostos -, se combater a evasão fiscal.
Sentado num café localizado na Kolonaki, George Pagoulatos, membro do think tank grego Eliamep e professor de Estudos Económicos Europeus e Internacionais da Universidade de Economia de Atenas, defende que as primeiras medidas apresentadas pelo Governo para colmatar a crise foram arrojadas. "Tinham sido conduzidas algumas mudanças no passado, mas nunca com esta profundidade", sustenta. Destaca as medidas de contenção das despesas, ao mesmo tempo que se organizam os gastos - "o Tesouro não sabe quanto é que o Estado despende", diz -, e o novo sistema de tributação, que protege os mais desfavorecidos ao mesmo tempo que agrava quem ganha mais de 30 mil euros por ano.
Para combater a evasão ao fisco, o Governo quer efectivar a obrigatoriedade da emissão de facturas, ao mesmo tempo que dá benefícios fiscais aos contribuintes que peçam recibos e os apresentem nas declarações de impostos. "Julgo que é um bom incentivo", diz Pagoulatos. Uma opinião partilhada por um pequeno empresário, Kostas, que defende que os consumidores "vão começar a pedir facturas. Não todos, claro, mas pelo menos mais pessoas".
É necessário, também, atacar um outro problema: o da corrupção. Isto porque, como diz Persephone Zeri, o fenómeno do dinheiro "debaixo da mesa" alastrou a toda a sociedade e é preciso "pagar aos funcionários para estes fazerem o seu trabalho", incluindo os trabalhadores do Estado, onde se inclui o fisco. É como se fosse uma teia, em que todos participam.
Um estudo da Transparency International, organismo anticorrupção, divulgado no início deste mês pela imprensa alemã, sustenta que, só através dos consumidores gregos, foram pagos em 2009 cerca de 780 milhões de euros em pequenos subornos, de modo a conseguir-se algo tão simples como consultas médicas, cartas de condução ou licenças de construção.
Um país em choque
O próprio primeiro-ministro referiu-se a esta questão numa entrevista que deu à revista alemã Der Spiegel: "Infelizmente, a corrupção está instalada nos departamentos governamentais e nas empresas públicas. O nosso sistema político promove o nepotismo e o desperdício de dinheiro. Isso minou o sistema legal e a confiança no funcionamento do Estado. Uma das consequências disso é que muitos cidadãos não pagam os seus impostos."
A corrupção nos hospitais é um dos exemplos dados por Papandreou. Estes deram um prejuízo de sete mil milhões de euros no ano passado. Valor que o Governo pensa poder reduzir em 33 por cento, simplesmente com a instalação de sistemas computorizados que permitam controlar a aquisição de medicamentos e equipamentos. "O desperdício é tão grande que nos irá permitir poupar bastante", defende, quando questionado sobre a forma como irá reduzir o buraco orçamental do país.
Quem não ficou muito convencido com os planos iniciais de austeridade do Governo, que pretende reduzir o peso do défice em quatro pontos percentuais este ano (chegando aos 8,7 por centro do PIB), e chegar a menos de três por cento em 2013 (um trabalho digno de um Hércules moderno) foram os seus parceiros europeus, as agências de rating (que avaliam o nível de risco do país) e os investidores. Para conseguir pedir dinheiro emprestado aos mercados internacionais, numa altura em que a credibilidade das contas gregas ainda não foi recuperada, o Governo de Papandreou precisa do apoio dos restantes países europeus para baixar os custos do empréstimo. Apoio esse que já teve o seu preço.
A 3 de Março, a Grécia ficou em choque quando foi confrontada com novas medidas de austeridade, que implicaram cortes como a diminuição em 30 por cento do subsídio de férias (metade do qual é recebido na altura da Páscoa, uma data muito mais importante para os cristãos ortodoxos do que para os católicos) e do subsídio de Natal, novas descidas salariais na função pública e a subida do IVA, entre outros.
Logo após este anúncio o Estado grego apressou-se a colocar no mercado uma nova emissão de dívida pública, essencial para pagar as suas despesas, num primeiro teste aos mercados. O facto de ter sido bem sucedido, angariando cinco mil milhões de euros (embora a taxas de juro elevadas), ajudou o Governo e a Europa a respirar de alívio, nem que fosse por uns momentos. Até agora, o Pasok, que foi eleito com maioria absoluta, tem contado com o apoio da população.
Os cidadãos parecem perceber que o problema económico do país, como diz George Pagoulatos, foi criado pela Grécia e deriva das suas fraquezas e falhas. "O problema somos nós, a responsabilidade é nossa", acentua a politóloga Persephone Zeri, embora ambos defendam que os problemas foram aproveitados pelos especuladores, o que agravou a situação.
"Sinto que há uma mudança de mentalidades, com menos complacência no sistema político e na sociedade. Existe a percepção de que há uma crise, que é necessário um esforço colectivo, e isso é algo novo em relação às últimas décadas", defende Pagoulatos. Algo que, defende, não mudou mesmo após o reforço dos cortes anunciados na semana passada. "O Governo antecipou-se à União Europeia e aos mercados, ao avançar voluntariamente com medidas em vez de esperar que estas lhe fossem impostas. Foi um acto de coragem que conseguiu inverter alguns dos impactos negativos face à credibilidade do país", diz este investigador.
Apesar de sentir que há "um sentimento de choque e de grande preocupação" na sociedade, Pagoulatos mantém a ideia de que existe também a sensação de que é necessário fazer algo para garantir a sobrevivência financeira da Grécia. A mesma ideia é subscrita por Persephone Zeri, ao defender que "as pessoas vão acatar as medidas anunciadas". "Haverá certamente greves dinâmicas convocadas pelos sindicatos e partidos da oposição" como os comunistas do KKE, adianta, mas estas não irão contar "com a maioria da população."
Os dados parecem confirmar estas análises. Segundo uma sondagem publicada a 6 de Março no diário grego To Vima, poucos dias após as novas medidas do Governo, o número de entrevistados que se opõem ao plano de austeridade não chegou aos 48 por cento, valor quase idêntico ao dos apoiantes (47 por cento). Uma outra sondagem, feita para a Mega TV, mostrava que 52 por cento da população mantém uma opinião positiva em relação a George Papandreou.
Hoje a luta é das famílias
Isto não quer dizer que o Governo socialista tenha recebido um cheque em branco do eleitorado. O primeiro grande teste foi a greve geral e a manifestação convocada pelas duas grandes confederações sindicais, a GSEE (sector privado) e a Adedy (função pública) no dia 24 de Fevereiro. Embora o número de participantes tenha sido de dez mil a vinte mil, incluindo forças de oposição como o comunista KKE e grupos anarquistas, não houve uma adesão das massas. O ambiente perto do Museu de Arqueologia, local da concentração, era, em termos gerais, mais de resignação do que reivindicação.
O principal inimigo, esse, eram os mercados internacionais e não o Governo, até porque as duas confederações sindicais são próximas do Pasok. Por volta da hora do almoço, quando a manifestação estava entre as praças Omonia e Syntagma, próxima da zona do Parlamento onde seria o ponto de concentração final, começou a ouvir-se o ruído de pancadas secas. Foi o início de um confronto e o fim da manifestação. Montras de lojas como a Zara e a Bershka (ambas do grupo espanhol Inditex, talvez por serem da mesma nacionalidade que o ex-comissário europeu dos Assuntos Económicos e Monetários, Joaquim Almunia) foram escolhidas como alvo por um grupo de jovens, e só a grossura dos vidros impediu que estes se estilhaçassem no meio da rua.
A partir daqui instalou-se o caos, com pedras da calçada e alguns cocktail molotov a voar pelo ar, respondendo a polícia com gás e movimentos sincronizados de cassetete. Entretanto já houve novos incidentes, e diversos outros se deverão repetir, mas longe do que seria provocado por uma verdadeira revolta social. A avaliar pelo que sucedeu na primeira greve geral, os distúrbios são conduzidos por um pequeno grupo de algumas dezenas de pessoas, que chegam mesmo a vias de facto com outros manifestantes.
Para já, ninguém espera uma repetição do que sucedeu em Dezembro de 2008, quando Atenas esteve em estado de sítio após a polícia ter matado a tiro um estudante durante uma manifestação. Para Persephone Zeri, que revela ter ainda hoje dificuldades em recordar a noite em que a cidade esteve em estado de sítio, esse momento mostrou a incapacidade de reacção da Nova Democracia. "Não teria acontecido a mesma coisa com outro tipo de governo", defende. "Hoje, a luta é a das famílias, que tentam chegar ao fim do mês com o que têm", diz um responsável da confederação sindical dos funcionários públicos, a Adedy, dando assim a entender que os problemas específicos dos jovens foram esvaziados no panorama geral do país.
Questionado antes do último anúncio feito pelo Governo sobre se um agravamento das medidas restritivas iria agudizar a luta e fomentar uma instabilidade social, o líder da GSEE (a confederação dos sindicatos privados) foi evasivo na sua resposta. Yannis Panagopoulos, de 54 anos, que fala em grego numa voz pausada para dar tempo ao intérprete para traduzir, diz esperar que o ónus seja distribuído por todos de forma equitativa. Confessa que se sente numa "situação difícil", já que, se por um lado percebe "as pressões que estão ser impostas à Grécia e ao Governo", não deixa de recordar que existem também "as necessidades dos trabalhadores", que são, afinal, quem o elegeu e os quais representa. Também a Adedy, através do seu responsável para a vertente internacional, Vassilis Xenakis, optou por um discurso pautado pela cautela. Mas no final de semana passada o secretário-geral deste sindicato, Ilias Iliopoulos, afirmou que os trabalhadores irão estar nas ruas "com todas as suas forças". E avisou mesmo que temia uma "explosão social". Pode ser uma arma psicológica, mas ninguém garante que no futuro não haja manifestações mais radicais.
Mais empréstimos
Persephone Zeri ressalva que vão ser necessários novos empréstimos (com uma dívida da ordem dos 300 mil milhões de euros, o país necessita de arrecadar mais 23 mil milhões de euros através dos mercados até Maio) e isso poderá significar novas medidas de austeridade. Assim, é "demasiado cedo para tentar perceber o que é que vai acontecer e quais serão as consequências sociais". "As pessoas estão habituadas a consumir e a viver bem devido ao alastramento da corrupção", aponta. "Ninguém consegue verdadeiramente antever o que é que aí vem", diz George Pagoulatos, embora sublinhe que "o Governo começou a fazer o que era necessário".
Há poucas dúvidas no que toca a quem é que vai sofrer mais com a presente crise na Grécia. Em primeiro lugar, a classe média, já que, conforme afirmou a ministra da Economia, Louka Katseli, estão a ser desenvolvidas "diversas medidas para proteger os que têm rendimentos mais baixos e a redistribuir o fardo".
Aqui, o destaque vai para a função pública, que é quem está a sofrer mais no imediato devido aos cortes salariais (estes abrangem a parte complementar dos ordenados, mas a descida é da ordem dos dez por cento do vencimento total). A indignação de muitos funcionários gregos ouvidos pela Pública assenta no facto de serem dos poucos que não fogem ao fisco (em grande parte porque não conseguem). "A maioria das pessoas não paga nada e não as apanham. Os outros não podem ficar mais ricos e nós mais pobres", reclama Eva, uma funcionária do Estado de 52 anos. Há, depois, os desempregados. A taxa actual de quem não tem trabalho mas procura emprego é da ordem dos dez por cento, indicador que tende a subir, e de forma rápida.
Além dos desempregados de longa duração, cuja reentrada no mercado vai ser dificultada, também os jovens à procura do primeiro trabalho serão afectados pela crise. A taxa de desemprego jovem é já da ordem dos 20 por cento, o que vem agora ser agravado pelo aumento da idade média da reforma (menos pessoas a vagar postos de trabalho), pelas medidas restritivas de empregos no função pública (o Governo diz que por cada cinco funcionários públicos que saiam só entrará um) e pelo abrandamento da economia.
"Quem está a sair das faculdades dificilmente entrará no mercado de trabalho, à excepção dos que são verdadeiramente muito bons. Ninguém, incluindo nós, está a abrir vagas", diz o gestor do Millennium na Grécia, Rui Coimbra. E o banco detido pelo BCP não é um pequeno empregador. No final do ano passado, era responsável por 1527 trabalhadores, distribuídos por 177 sucursais em todo o país.
Os próprios estudantes têm noção dessa realidade, embora sejam confortados pela falsa sensação de que esse desafio surgirá algures no futuro, olhando para dois ou três anos como se fosse um cenário longínquo. No vasto complexo preenchido pelas faculdades da Universidade de Atenas, na zona de Zografou, centenas de alunos circulam entre os edifícios de betão. No seu interior, seja a faculdade de Química, de Física ou de Filosofia, as paredes estão forradas com propaganda comunista e convocações para a greve geral do dia 24 de Fevereiro, mas isso não impede que alguns estudantes ignorem a convocatória. É o caso de Anna, de 18 anos e aluna do primeiro ano de Filosofia. Quer ser professora, o que lhe garantiria a entrada na função pública, mas sabe que "há muita concorrência" para o número de vagas. Se o plano não resultar, afirma, pode sempre dar explicações. A mesma resposta, com pequenas variações, foi dada por outros estudantes.
O fenómeno do recurso às explicações, saída de emergência apregoada pelos alunos, acabou por ser explicado por Terpsichore, de 21 anos e finalista do curso de História. "Como a qualidade do ensino não é muito boa, todos recorrem a aulas privadas, o que dá emprego a muitos explicadores", diz. E, obviamente, também aqui não são emitidas facturas.
Emigração qualificada
O elevado desemprego pode potenciar uma nova de emigração grega e a saída de pessoas qualificadas, mas também fazer crescer um sentimento de xenofobia.
O país tem recebido milhares de pessoas provenientes de países como o Bangladesh ou o Paquistão, bem como de diversos outros da África subsariana. E pouco foi feito até agora para os assimilar. A área degradada que envolve a Praça Omonia, é um local onde muitos deles vivem e se cruzam, juntamente com toxicodependentes, sob o olhar atento das patrulhas do corpo de intervenção que alertam os visitantes europeus para o risco de assaltos por parte de emigrantes ilegais.
Ao percorrer-se outras artérias da cidade, percebe-se que a Grande Atenas, com quase quatro milhões de habitantes (cerca de um terço da população total do país), foi escolhida como porto de abrigo de muitas pessoas que quiseram procurar uma vida melhor fora do seu país de origem, sendo o comércio de rua o principal ganha-pão.
Com a crise, "há de facto o risco de a sociedade se tornar mais conservadora", diz Pagoulatos, abrindo caminho à xenofobia e confrontos. "Entraram mais emigrantes do que aqueles que conseguimos encaixar", constata.
Se a recessão grega não for muito grave (e houver uma recuperação da economia a nível global), com o país a erguer-se sem grandes traumatismos do buraco onde caiu, os piores receios irão revelar-se infundados. E então poderá nascer aquilo que Persephone Zeri chama "uma outra Grécia".
Isso poderá acontecer, estima, daqui a cerca de dez anos, porque há muitos factores culturais que demoram a ser substituídos. Aquilo que vier a ser construído terá necessariamente de ser diferente do que foi feito no passado, tendo o país perdido já demasiadas oportunidades ao gastar dinheiro sem mudar a forma de estar e de funcionar.
Crises são sinais de mudança No interior do museu da Acrópole, vive-se um ambiente protegido. Dimitrios Pandermalis continua a percorrer os corredores, sendo cumprimentado pelos funcionários e ignorado pelos visitantes. A determinada altura pára por cima do local onde se vêem os vestígios arqueológicos do que foi um ponto de encontro dos atenienses durante a sua época de ouro, entre 500 e 400 anos antes de Cristo.
O presidente deste novo museu, de 69 anos, pisa um chão feito de vidro, que permite um encontro original entre o passado e o presente. As ruínas da Grécia antiga, vistas de cima, são o resultado das escavações feitas para construir o edifício, situado a pouca distância da Acrópole.
À volta de Pandermalis, professor e arqueólogo, estão reunidas estátuas e outras obras de arte que, iluminadas por luz natural, simbolizam a época de homens como Péricles e Aristóteles, cujo pensamento marcou toda a sociedade ocidental até aos dias de hoje. A inauguração deste espaço, desenhado pelo arquitecto suíço Bernard Tschumi, foi "um momento histórico" para a Grécia, diz Pandermalis. "Finalmente, depois de tantos anos, há finalmente um sítio digno para apresentar estes tesouros", que, provenientes do monte a partir do qual o Parténon ainda vigia a cidade, estavam distribuídos por um pequeno museu e vários armazéns.
Sente-se algo especial na atmosfera deste espaço, que permite um contacto próximo com as peças expostas, permitindo observar as suas formas suaves de todos os ângulos. Numa das salas dos três pisos do edifício, as estátuas quase parecem ganhar vida no meio dos visitantes que as observam.
Pandermalis é um homem orgulhoso da sua obra, da qual ficou encarregue há dez anos. Principalmente se for tido em conta que a construção do museu foi discutida durante 30 anos, no meio de um processo moroso com avanços e recuos constantes, tendo-se chegado a pensar que nunca iria ver a luz do dia.
Por isso mesmo, este edifício representa uma vitória contra inimigos como a inércia, o fatalismo, a burocracia ou a mediocridade. Fora destas quatro paredes discute-se a gravidade das medidas que estão a ser tomadas para impedir que a Grécia entre de facto na bancarrota, com a angústia de quem não sabe muito bem como será o futuro.
Sabe-se apenas que há uma economia arruinada e que algo terá de ser construído por cima dela. Pandermalis olha de novo para a História para dizer que as crises são sempre "sinais de que algo tem de mudar", embora nunca ninguém saiba dizer "se é ou não para melhor".
Simbolicamente, o edifício que guarda aquilo que o país tem de mais precioso mostra o que a Grécia foi em tempos idos mas também o que é capaz de fazer. Para já, como diz Persephone Zeri, "chegou a altura de pagar a factura".