Bragança viu anel de luz perfeito http://dn.sapo.pt/2005/10/04/sociedade/braganca_anel_luz_perfeito.htmlPor Filomena Naves em Bragança 4 de Outubro de 2005DN-Rodrigo Cabrita futuro. Para depois recordar, o filme do primeiro eclipsedo século foi feito com ajuda da ciência
A emoção é tão viva que quase pode tocar-se. É um misto de ansiedade e entusiasmo que está no ar, nas vozes desencontradas, nos comentários, como num coro desordenado. Faltam escassos minutos para que a sombra negra da Lua se encaixe no disco solar, centro com centro." Está quase", é agora a exclamação mais repetida. São 09.50. O eclipse anular do Sol, que trouxe um número inusitado de visitantes a Bragança, vai acontecer a qualquer momento. Sobre a silhueta escura do castelo, o que resta do Sol é uma finíssima língua amarelada, em forma de crescente. A luz radiosa de há uma hora foi-se transformando no halo baço, meio acinzentado, que dá um aspecto pálido a tudo à volta aos rostos, às árvores, aos edifícios. É uma luz estranha, que lembra a da alvorada, mas sem as cores quentes e rosadas do amanhecer. Ficou muito frio quase de repente. O vento corta, mas o terraço do Teatro Municipal, que domina a cidade, está agora cheio de gente que não pára de falar. Todos se aprontam, armados de óculos de cartão, com filtros prateados. Há telescópios de vários tamanhos montados por ali, que estão rodeados de curiosos, a querer espiar o Sol e a pedir aos astrónomos que expliquem aquilo. Há quem se queixe do frio. Há quem aponte o telemóvel ao céu, para tirar uma fotografia, e depois se desiluda. "Não dá", desabafa alguém.Depois, matemática, perfeita, a Lua acerta, enfim, o passo com o Sol. "Já está. É o anel, lá está ele. É lindo." Com aquela aparência ET que os óculos protectores dão aos rostos, todos se voltam na mesma direcção. Há vozearia de entusiasmo, risos. Rompe um aplauso tímido, a saudar o espectáculo solar. São 09.53. O Sol tornou-se um finíssimo anel de luz. É o eclipse anular, pelo qual todos esperavam. De volta da máquina fotográfica, que estava ali a postos quase desde o nascer do dia, John Tipping atarefa-se a fazer uma série de fotografias. O anel perfeito não dura mais do que um ou dois minutos e não há tempo a perder. Tipping, que é astrónomo amador e uma espécie de caçador de eclipses, veio de propósito de Manchester, onde vive, até Bragança, para este eclipse anular. "Já vi vários parciais, já vi um total, faltava-me um anular", conta, feliz.Ali ao lado, Duarte Nuno e Maria Elisa estão radiantes também. São dali mesmo, da cidade que ontem esteve bem no centro do acontecimento. Estão reformados, mas levantaram-se cedo na mesma. "Até com mais vontade, para ver isto, que é uma coisa divina", diz ele, entusiasmado.Bragança desdobrou-se em observações do Sol, organizadas pelo Ciência Viva para os estudantes, nas três escolas secundárias da cidade, com telescópios, e astrónomos a orientar as sessões, e para o público no terraço do Teatro Municipal. A raridade do fenómeno fez a oportunidade e Ana Noronha, coordenadora da acção, estava feliz no final. "As pessoas vieram, os miúdos participaram, foi um sucesso."Na Escola Miguel Torga, a observação foi orientada pelo astrónomo Máximo Ferreira. Ali, à hora certa, o entusiasmo foi tal que os jovens romperam em palmas. Mas também houve ciência. A cada 15 minutos mediu-se a temperatura (caiu três graus Celcius em meia hora e chegou aos 9 graus ). E a turma do 7.º, que ia dar esta matéria na próxima semana, já teve a aula prática. E levou trabalhos para casa.