"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

domingo, outubro 08, 2006

Repetir letras do alfabeto é sinal de competência na leitura e na escrita
http://dn.sapo.pt/2006/10/08/sociedade/repetir_letras_alfabeto_e_sinal_comp.html
Elsa Costa e Silva
8 de Outubro de 2006

A, b, c, d... x, z. Quantas letras do alfabeto conseguem dizer as crianças num minuto? Cerca de 15 perto do final do 1.º ano, e à volta de 40 no final do 1.º ciclo. Mas parece claro que a produção automática das letras do alfabeto não fica consolidada apenas com quatro anos do ensino básico, ainda que o desempenho das crianças progrida ao longo dos anos. Mais: de acordo com um estudo do Centro de Psicologia da Universidade do Porto (UP), esta é uma tarefa útil na identificação de dificuldades de aprendizagem, já que as crianças sinalizadas têm um desempenho significativamente pior.Este Grupo de Investigação da Linguagem da UP - coordenado por São Luís Castro e em colaboração com seis técnicas do serviço de pediatria do Centro Hospitalar do Alto Minho - comparou um conjunto de 52 crianças, referenciadas e seguidas por dificuldades de aprendizagem, com perto de 200 alunos do 1.º ciclo.Para além da produção rápida de letras no período de um minuto, a investigação avaliou ainda a sequência correcta das letras, de forma a detectar perturbações na ordem. Um trabalho que, refere Rui Alves, do grupo de investigação, não estava até agora referenciado na literatura portuguesa.Contudo, esta é uma tarefa internacionalmente considerada adequada para avaliar questões como competência ortográfica e dificuldades de aprendizagem. "Tem muita relevância para o domínio da escrita", explica Rui Alves, acrescentando ainda fazer sentido que esta tarefa seja discriminativa, já que se trata da peça básica para a automatização da escrita e da leitura. Quem tem domínio sobre o alfabeto, "passa a ter espaço mental para outras competências, como planeamento do discurso, e pode produzir textos com outra qualidade", adianta ainda o investigador.Ou seja, o domínio sobre o alfabeto "é um bom preditor da competência ortográfica e da produção de textos". E o facto de uma criança com cinco ano - ou seja, antes de entrar para o primeiro ciclo - conhecer já algumas letras "é um sinal de que poderá ser bem sucedida na aprendizagem".No entanto, os investigadores notaram também que a progressão das crianças, no grupo dito normal do ensino básico, não foi linear. Ou seja, "existia a expectativa de encontrar neste conjunto um perfil de desempenho em escada, do primeiro ano para o quarto". Mas não foi isso que os investigadores verificaram: "Do primeiro para o segundo ano há um grande crescimento, mas depois pára", sendo que o desempenho é mesmo melhor no terceiro do que no quarto ano." Uma possível explicação poderá ser a de que os professores não insistem no alfabeto, depois de as crianças serem iniciadas em todas as letras.Mas na produção automática do alfabeto "há influências positivas da repetição, ainda que não seja preciso muito", explica também Rui Alves. O ideal, esclarece ainda, "é que as crianças tenham experiências variadas de escrita, desde letras, palavras isoladas, até textos".