"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Estudo publicado na PNAS
Intolerância ao leite de vaca acompanha-nos desde o Neolítico
http://www.publico.clix.pt/shownews.asp?id=1286805
27.02.2007 - 14h01 PUBLICO.PT

Se é intolerante à lactose, ou pelo menos não se sente bem após beber um copo de leite, e pensa que a sua condição é anormal, não podia estar mais enganado.
O normal é não nos darmos bem com o leite de vaca. E essa característica já nos acompanha há uns milhares de anos, pelo menos desde o período Neolítico, diz um grupo de investigadores na última edição da revista científica "Proceedings of the National Academy of Sciences" (PNAS).O estudo de vestígios de humanos do período Neolítico na Europa levaram os cientistas do University College de Londres e da Universidade de Mainz, na Alemanha, a concluir que, àquela época — que acabou há seis mil anos — era generalizada a intolerância ao leite de vaca e que o gene responsável por desmanchar as moléculas da lactose mais duras para o nosso estômago é um bom exemplo da evolução genética em acção. "É talvez o aspecto da evolução genética que mais vantagem teve para os humanos nos últimos 30 mil anos", defende Mark Thomas, coordenador da equipa.A equipa constatou que no ADN de esqueletos de humanos do Neolítico não se verificava a presença do gene necessário para a digestão do leite na perfeição. Esse gene activa a produção de uma enzima, a lactase, que parte, ou simplifica, as cadeias da lactose (um açucar do leite, uma das principais moléculas constantes na sua composição).Sem a presença da lactose, beber um simples copo de leite pode ser uma experiência muito desconfortável, que se traduz normalmente em vómitos, contracções do estômago muito dolorosas e até diarreia.Para a equipa, o dado mais interessante do estudo tem a ver com o facto de ficar aqui definido que a tolerância à lactose é algo conquistado pelo homem há menos tempo do que se pensava, talvez quando os humanos se estabeleceram e começaram a criar gado, numa estrutura parecida com as actuais quintas. Nessa altura o consumo do leite de animais saudáveis seria mais vantajoso uma vez que era um elemento menos exposto à contaminação do que a água. Terá sido então que os humanos tolerantes à lactose começaram a ser predominantes, por uma questão de selecção natural.Actualmente aqueles que evoluíram geneticamente e conseguem experimentar os benefícios da lactose, ou seja, beber um bom copo de leite sem sofrer, representam 90 por cento das pessoas, diz o estudo.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Projecto europeu
Robôs podem aprender a interagir emocionalmente com as pessoas
http://www.publico.clix.pt/shownews.asp?id=1286511
23.02.2007 - 15h57 PUBLICO.PT

25 especialistas em robótica, de seis países estão a tentar provar algo que até aqui era da esfera da ficção. Será possível os robôs interagirem com as pessoas de carne e osso. Na criatividade de filmes como I Robot, e muito antes dele na cabeça de génios da ficção científica como Isaac Asimov, sim, seria possível. Mas agora uma equipa liderada por investigadores da Universidade de Hertfordshire querem trazer para a esfera da realidade essa hipótese.
O projecto, que durará três anos, e que está orçamentado em 2,3 milhões de euros, consiste em construir uma série de robôs que conseguem interiorizar pequenas acções praticadas regularmente por pessoas com que convivem e adaptar o comportamento a esses hábitos, como fazem os bebés quando aprendem certos traços de comportamento dos pais ou educadores.“O mundo humano das emoções é muito complexo, mas há certos aspectos mais simples desse mundo a que nem sequer prestamos atenção, como por exemplo o modo como andamos, que são muito importantes”, disse à BBC News Lola Canamero, uma das coordenadoras da equipa.“Estamos interessados em fabricar robôs simples, em termos de "hardware", mas que consigam interagir social e emocionalmente connsco através de pequenos pormenores que caracterizam cada um de nós”, acrescenta Canamero.Através de câmaras de vídeo simples, captação de sons, sensores de movimento e de distância, a equipa diz que os robôs serão capazes de aprender certas rotinas e interagir através dessa aprendizagem. O primeiro robô que a equipa está a desenvolver copiará uma resposta emocional muito típica dos bebés: o reconhecimento da mãe nos primeiros minutos de vida.O projecto conta ainda com a colaboração de investigadores do Centro Nacional de Investigação Científica francês, o Instituto de Sistemas de Comunicação e Computação da Grécia e com a empresa Entertainment Robots, da Dinamarca.

Matemática muito 'à frente' explica mosaicos islâmicos
http://dn.sapo.pt/2007/02/26/sociedade/matematica_muito_a_frente_explica_mo.html
26 de Fevereiro de 2007

a simetria foi uma das provas da visão perfeita
quinhentos anos atrás
num mosaico no templo

o padrão repete-se no século vinte
com a ajuda da ciência ocidental, uma coincidência extraordinária
que também explica os mosaicos

a matemática em grande escala cria distorções em templos e monumentos
e em países, por exemplo

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Acusação de plágio agita mundo da música clássica
http://dn.sapo.pt/2007/02/21/artes/acusacao_plagio_agita_mundo_musica_c.html
21 de Fevereiro de 2007
POR José Mário Silva

Até ao início deste ano, o nome de Joyce Hatto era uma espécie de segredo que certos melómanos partilhavam com o fervor e a entrega típica dos fenómenos de culto. Pianista discreta, Hatto abandonara os palcos na década de 70, devido a um cancro, dedicando desde essa altura toda a sua energia à gravação em estúdio de um repertório vastíssimo, que ia de Scarlatti a Messiaen, passando pelos grandes ciclos de sonatas (Haydn, Mozart, Beethoven, Schubert, Prokofiev) e por interpretações "miraculosas" dos compositores considerados mais difíceis (como Liszt ou Rachmaninov).Após uma primeira onda de euforia, em que os discos de Hatto, publicados pela minúscula etiqueta Concert Artist (pertencente a William Barrington-Coupe, seu marido), foram postos nos píncaros pela crítica das revistas especializadas, chegou o balde de água fria. Já depois da sua morte em Junho de 2006, aos 77 anos, começaram a surgir rumores na internet que punham em causa as suas interpretações. Como é que uma mulher doente conseguiu gravar num período tão curto (cerca de dez anos) um número superior a cem discos de alta qualidade, com obras dos compositores mais diversos?No auge da especulação, um crítico da Gramophone, Jeremy Nicholas, escreveu um artigo em que pedia, a quem as tivesse, provas materiais de alguma ilicitude relacionada com Hatto e os seus discos. Mas ninguém se chegou à frente.Foi preciso esperar por um golpe do acaso para que o escândalo rebentasse. Na semana passada, Jed Distler, outro crítico da Gramophone, ao colocar o disco com os 12 Estudos Transcendentais de Liszt, por Hatto, no seu computador, viu o software iTunes identificar correctamente a obra, mas não a intérprete. Segundo a máquina, o ficheiro de som pertenceria antes a um disco de Lászlo Simon - informação que Distler confirmou, ao ouvir a gravação original do pianista húngaro.Para tirar tudo a limpo, a Gramophone pediu a Andrew Rose, um engenheiro de som, que comparasse as ondas sonoras dos discos "suspeitos" de Hatto com as dos registos supostamente plagiados ou manipulados. O veredicto foi arrasador: para além de Simon, Hatto terá clonado interpretações de Carlo Grante, Bronfman ou Ashkenazy, diz Rose. E a investigação ainda agora começou. Perplexo com a polémica, Barrington-Coupe nega todas as acusações, prometendo apresentar em breve as provas da sua inocência.

terça-feira, fevereiro 20, 2007

Soldados do Iraque em análise
Cientistas desenvolvem ciberterapia para tratar traumas de guerra
http://www.publico.clix.pt/shownews.asp?id=1286133
19 de Fevereiro de 2007

Inspirados num videojogo de guerra muito popular, o "Full Spectrum Warrior", psicólogos norte-americanos criaram um mundo virtual que transporta soldados para um cenário realista, de guerra no Iraque. Objectivo: ajudar os militares a ultrapassar traumas de guerra.
“Há um grande potencial de tratamento clínico escondido nestes cenários virtuais”, disse Skip Rizzo, psicólogo da Universidade da Califórnia do Sul, que, juntamente com outros investigadores desenvolveu esta inovadora abordagem terapêutica de ciberpsicologia.Através da realidade virtual os investigadores levam o sujeito a reviver o momento de origem do trauma e a revelar os problemas psicológicos que estão guardados no fundo da sua memória, disseram os investigadores que apresentaram os resultados deste trabalho na reunião anual da Associação Americana para o Avanço da Ciência, AAAS, que acaba hoje em São Francisco, na Califórnia.Regressar à realidade, embora de forma virtual, que provocou o trauma está provado que é a melhor maneira de ultrapassar esse mesmo trauma. Muitos antigos combatentes do Vietname tiveram de regressar ao país para conseguirem ultrapassar os traumas psicológicos que a guerra lhes tinha deixado.Instalados numa cabine, com óculos especiais e auscultadores, é agora a vez dos soldados que combateram no Iraque voltarem ao seu inferno pessoal e, embora de modo virtual, reviverem as realidades penosas que os feriram também psicologicamente.

95 por cento

África
Ruanda começa libertação progressiva de 8500 detidos implicados no genocídio
http://www.publico.clix.pt/shownews.asp?id=1286175&idCanal=19
19 de Fevereiro de 2007

as autoridades começaram hoje a libertar 8500 prisioneiros
cerca de 95 por cento dos prisioneiros libertados participaram no genocídio

o genocídio fez cerca de 800 mil mortos
os prisioneiros libertados são pessoas

doentes e velhas

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Biblioteca

Viagem marcada para Abril
Próximo turista espacial quer ter uma biblioteca no espaço
http://www.publico.clix.pt/shownews.asp?id=1286127
19 de Fevereior de 2007

o próximo turista já sonha com uma biblioteca
na bagagem goethe e um escritor de ficção (científica)
onde esteja um homem, em qualquer sítio, deve haver uma biblioteca
o melhor lugar para ler é o espaço, os livros são fáceis
este turista está em treino desde novembro passado

sábado, fevereiro 17, 2007

Eduard Estivill ao Expresso
“O sono é a fábrica dos nossos dias”
http://expresso.clix.pt/Actualidade/Interior.aspx?content_id=377495
POR Cristina Pombo

O pediatra catalão acredita que uma criança ensinada a dormir é “mais feliz, tem melhor aproveitamento escolar e mais saúde”.


Eduard Estivill estuda os problemas de insónia nas crianças e oferece soluções para os pais mais desesperados
17:32 quarta-feira, 14 FEV 07





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Aprender a dormir desde o berço é um passo fundamental para uma vida saudável. A garantia é dada pelo pediatra catalão Eduard Estivill, especialista em perturbações do sono, que há 15 anos descobriu um método para ajudar milhares de famílias a curar a insónia dos seus filhos.
O livro “Método Estivill”, lançado recentemente em Portugal pela Dom Quixote, é um guia prático que ensina os pais a habituarem os seus filhos a dormir um sono prolongado. O hábito de dormir deve acompanhar a criança desde os primeiros meses de vida, por isso Estivill defende que aprender a dormir correctamente é tão importante como aprender a comer bem. Quando o ensino é executado de forma correcta, as crianças entre os 6 meses e os 5 anos aprendem este hábito fundamental para o seu desenvolvimento em apenas uma semana.
Com mais de um milhão e meio de livros vendidos só em Espanha, o pediatra catalão e responsável pela Unidade de Alterações do Sono no Instituto Dexeus, em Barcelona, assegura que o seu método assenta em estudos científicos concretos, apresentados em congressos e publicados em revistas médicas conceituadas.
Um método inovador
Aos 7 ou 8 meses, 70% das crianças têm o seu relógio biológico em pleno funcionamento, o que os leva a dormirem sonos contínuos ao longo da noite. Porém, os restantes 30% precisam de aprender rotinas ou hábitos do sono. É, sobretudo, aos pais destas crianças que o “Método Estivill” se destina.
Mais importante do que aplicar correctamente os passos explicados no seu último livro, traduzido em 18 idiomas – no qual também é oferecido um CD com a explicação do método em 20 minutos –, é a forma como “os pais transmitem esses ensinamentos aos seus filhos”, refere o autor.
“Uma criança a quem o método seja ensinado correctamente consegue dormir bem, é mais feliz, menos ansiosa, tem melhor aproveitamento escolar e mais saúde”, garante.
No livro ou no CD, os pais encontram pequenos truques para porem os seus filhos a dormirem sozinhos. O primeiro desafio consiste em dar-lhes elementos externos, uma chupeta ou um boneco, que os irão acompanhar durante o período de descanso. O que não pode acontecer é “darmos-lhes coisas para dormir que depois lhes retiramos, como a mão do pai ou da mãe”, explica o pediatra.
Assim, a criança deve ser deitada todos os dias à mesma hora, com a chupeta e o boneco, e os pais devem falar-lhe num tom muito suave, explicando-lhe que ficará sozinha mas que eles nunca a abandonarão. É essencial que se sinta segura. Após deixarem o quarto do filho, os pais devem aguardar um minuto e, se ele reclamar porque ainda não sabe dormir sozinho, devem voltar a entrar e fazê-lo sucessivamente, sempre em curtos intervalos, até que adormeça. “É vital que os pais não toquem na criança durante este processo e que não cedam às suas reclamações que visam apenas chamar a atenção dos adultos”, avisa o pediatra.
Segundo Eduard Estivill, uma vez aplicado correctamente, “o método é infalível” e a criança conseguirá “dormir ciclos de 10, 11, ou 12 horas seguidas”. O mesmo se aplica a crianças de 4 ou 5 anos, sem hábitos de sono construídos. “A única diferença é que os pais terão de ser melhores professores”.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Suicídios, humor negro ou publicidade ilegal? Sónia Morais Santos
http://dn.sapo.pt/2007/02/14/sociedade/suicidios_humor_negro_publicidade_il.html
14 de Fevereiro de 2007
POR Sónia Morais Santos

"A vida não é fácil, e nem sempre corre como queremos. A pergunta subsiste: vale a pena? " António estacou no meio da rua, com o prospecto na mão. Olhou para trás, em direcção a quem lho havia entregue, ergueu o sobrolho e não quis acreditar. Seria possível haver em Portugal uma empresa dedicada a suicídios por encomenda? O prospecto que começou a ser distribuído anteontem ao fim do dia em Lisboa e no Porto surpreendeu uns, inquietou outros, e deixou a curiosidade no ar. Em menos de 10 horas, o site que o folheto recomendava (www.suicidoencomendado.com) foi visitado por mais de mil pessoas. Ao aceder à página na internet, o suspense persiste. Há promoções de suicídio - "Traga um amigo e beneficie de um desconto de 50%" -, a definição da empresa não ajuda ao esclarecimento - "Somos uma empresa jovem, obstinada por prestar um novo serviço à sociedade condizente com o motivo pelo qual cada cliente deseja pôr termo à vida" - e apesar do humor presente em todo o site, não se chega a perceber do que se trata, afinal.Na origem de tudo isto não está uma empresa de morte a mando mas sim... um filme. "Suicídio Encomendado" é a primeira longa-metragem de Artur Serra Araújo e é o filme que vai dar início, no dia 23 deste mês, a mais uma edição do Fantasporto. Francisco Bravo Ferreira, da FBF Filmes, responsável pela produção do Suicídio Encomendado, explica que a campanha demorou mais de dois meses a ser pensada e que se distribuíram 30 mil folhetos. As visitas à página na internet foram tantas que o site chegou a ficar indisponível. "Esperamos que todas essas pessoas vão depois ver o filme", afirmou Francisco Bravo Ferreira.Para Margarida Moura, especialista em publicidade da Deco, a campanha pisa o risco: "Além do nítido mau gosto e de ser eticamente reprovável, ainda viola o princípio da identificabilidade. Toda a publicidade tem de estar identificada como tal. E ainda pode violar o princípio da licitude, porque o valor da vida está consagrado na Constituição. Apesar do conteúdo do site ser humorístico, não é possível saber se não haverá quem o leve a sério. Com todos os perigos inerentes." A polémica está criada. Como seria de prever.

O cheiro

"Os homens estão mais medrosos"
http://dn.sapo.pt/2007/02/14/sociedade/os_homens_estao_mais_medrosos.html
14 de Fevereiro de 2007
POR Lícinio Lima


o detective diz que alguns começam a preocupar-se com o passado
cada vez menos medrosos

entre os melhores clientes estão os que procuram conhecer a beleza
ou os passos do companheiro

depois de uma investigação pedem namoro
não se preocupam se é feia ou bonita ou é rica
mas evitam as más experiências
a sua sexualidade é diferente

não percebem as mulheres
ou até seriam felizes

uma cliente que já não suportava o cheiro do marido mais velho pediu para saber tudo sobre um jovem

Histórias arcaicas de amor e de morte
http://dn.sapo.pt/2007/02/14/artes/historias_arcaicas_amor_e_morte.html
14 de Fevereiro de 2007
Miguel-Pedro Quadrio

Dez anos depois de Contos do Ócio, o seu primeiro projecto, o encenador Francisco Salgado e o produtor Nuno Ricou Salgado regressam à Comuna, onde se estrearam, celebrando uma frutuosa parceria artística com este Cerejal para dois actores.Liubov, a proprietária arruinada que volta ao cerejal, e Ermolai Lopákhin, um enriquecido descendente de servos de Liubov, que lho compra, são os rostos deste par, neles se subsumindo as doze personagens nomeadas na última peça do dramaturgo russo (estreou-se em Janeiro de 1904, morrendo Tchékhov em Junho).Esta desestruturação da urdidura plural do texto sinaliza-se, primeiro, através do contraste cromático que transforma o palco num ilusório prisma de luz (paralelamente à plateia, pinta-se um feixe branco na parede e no chão que contrasta com o negro dominante). Por único adereço, escolhe-se um móvel tosco, também branco, com várias gavetas (remissão óbvia para o "querido armariozinho" que Liubov reencontra, comovida, no "quarto das crianças").A vincada recriação abstracta da queda da protagonista - e da concomitante ascensão da nova classe que Lopákhin corporiza - situa-nos, pois, num rarefeito horizonte simbolista. Ora a vaga, mas irrecusável, sombra de morte com que Tchékhov brincou - não se esqueça que O Cerejal é "uma comédia em quatro actos" - transfere-se, aqui, para o luto pesado envergado pelos actores, que os muda em espectros dum passado por resolver (a venda do cerejal e da mansão rural onde Liubov cresceu, viu morrer o seu filho e regressa quando de si mesma se perde, privá-la-á de memória e de sentido, ao mesmo tempo que Lopákhin, resgatando o seu passado de servidão, desbarata a hipótese de Liubov vir a corresponder ao seu amor).Os fragmentos textuais seleccionados são suficientes para clarificar esta arrebatada perspectiva passional, onde o tempo esmaga tudo. Os silêncios pesados, a vertiginosa lentidão de movimentos estilizados, a alternância com picos de histeria (sublinhados pelo som alucinatório e arcaico duma "orquestra judaica", como Tchékhov desejou), as imagens fortíssimas da orgia emocional provocada pela manipulação selvagem da terra arrancada às gavetas são algumas das estratégias inteligente e eficazmente transdisciplinares que esta dupla de criadores tão bem domina. Pena é que a imaturidade artística de Mia Farr e Wagner Borges comprometa irremediavelmente os objectivos interpeladores e arrojados da proposta.

Chimpanzés usavam "martelos" de pedra para partir casca de nozesA Idade da Pedra: de quem eram estas ferramentas, do homem ou do macaco? 13.02.2007 - 13h30
http://www.publico.clix.pt/shownews.asp?id=1285595
14 de Fevereiro de 2007
Ana Gerschenfeld

Há 4300 anos, na floresta tropical africana, os chimpanzés usavam "martelos" de pedra para partir a casca das suas nozes predilectas. Preferiam o granito a outros materiais e sabiam escolher as pedras mais adequadas à sua força e à forma e tamanho das suas mãos. Sem que tenha havido nenhum ser humano por perto para os ensinar. Os autores desta inédita descoberta falam de "Idade da Pedra dos chimpanzés".
O enredo é sempre o mesmo. Prometheus, um extraterrestre, desembarca na Terra pré-histórica com a intenção de ensinar a Bob, um homem das cavernas, uma série de tecnologias humanas muito avançadas - como a pesca, a pintura, o "bowling", o uso da sanita, etc. - e regista metodicamente os progressos de Bob com a sua câmara de vídeo. Só que Bob é mesmo limitado e nunca percebe o que deve fazer, esgotando todas as reservas de paciência de Prometheus. Para maior irritação do ET, anda por ali um macaco que é muito melhor aluno do que o burro do Bob...Ao contrário do que podem sugerir as curtas-metragens de animação da hilariante série televisiva "The Prometheus and Bob Tapes" do canal Nickelodeon, os macacos de outrora não eram certamente mais espertos do que os homens pré-históricos. Mas é sabido que os chimpanzés de hoje utilizam tecnologias, transmitidas de geração em geração, como a palhinha para fazer sair as térmitas do seu ninho ou as pedras para partir cascas. A tecnologia dos macacosAté aqui, porém, era possível afirmar que os macacos tinham aprendido estas técnicas através da observação e imitação de comportamentos humanos. Agora, pela primeira vez, uma equipa de cientistas encontrou provas de que, já na pré-história, os macacos terão possuído tecnologia própria.Julio Mercader é um dos raros arqueólogos no mundo que estuda a "cultura material" dos grandes símios. Há uns anos, este investigador da Universidade de Calgary (Canadá) descobriu, na floresta tropical Taï, na Costa do Marfim, um local onde os chimpanzés tinham em tempos partido nozes. E no ano passado encontrou, nessa mesma escavação, verdadeiros "martelos" de pedra, com padrões de desgaste que correspondem à sua utilização como ferramenta de percussão. Segundo foi agora determinado, essas ferramentas datam de há 4300 anos - ou seja, são de uma época em que não havia ainda qualquer presença humana naquela parte da floresta tropical africana.Pesadas para mão humanaJuntamente com uma equipa de investigadores da Alemanha, Reino Unido, Estados Unidos e Canadá, Mercader dedicou estes últimos meses, além de datar as pedras, a demonstrar cuidadosamente que as ferramentas primitivas em causa não podiam de maneira alguma ter sido de uso humano, mas que tinham sido escolhidas e usadas exclusivamente por macacos. Os resultados que estes cientistas obtiveram - e que foram publicados ontem na revista norte-americana "Proceedings of the National Academy of Sciences" (PNAS) - parecem confirmar esta hipótese.As pedras encontradas têm tamanhos e formas adequadas ao tamanho da mão e à força de um chimpanzé, mas são demasiado grandes e pesadas para a mão humana. Outra indicação que vai no mesmo sentido é que certos resíduos de amido encontrados incrustados nas pedras correspondem a nozes com que os chimpanzés, mas não os humanos, se alimentavam. Para mais, as pedras são de granito, enquanto os homens primitivos preferiam outro tipo de materiais, como o quartzo, para este tipo de utilização.Para Mercader, os achados provam que não foram os homens primitivos que inventaram esta tecnologia de "percussão" e que a transferiram para os macacos. "Como não havia agricultores a viver nessa região há 4300 anos", diz o cientista, citado por um comunicado da Universidade de Calgary, "é pouco provável que os chimpanzés a tenham apanhado imitando os habitantes das aldeias, que é o que alguns cientistas costumavam afirmar".Terão os chimpanzés desenvolvido a tecnologia ao mesmo tempo que os homens, mas em paralelo, independentemente deles? Mercader e os seus colegas também não acreditam muito nesta hipótese, favorecendo uma terceira: eles acham que tanto os chimpanzés como os homens primitivos herdaram o hábito de utilizar pedras como ferramentas de um antepassado comum, ainda mais antigo. "A cultura material dos chimpanzés tem uma longa pré-história, cujas raízes profundas começam apenas a ser desvendadas", escrevem os cientistas no PNAS.