O mar
Thomas Bernhard gostava do mar e dos restaurantes de Portugal
http://dn.sapo.pt/2007/11/19/artes/thomas_bernhard_gostava_mar_e_restau.html
ANA MARQUES GASTÃO
Thomas Bernhard (TB) é, não só criador de um estilo, mas um dos escritores mais originais do século XX, tanto no domínio da ficção como do teatro. A poesia tem menos relevância no conjunto da sua obra. Em torno do legado deste autor prolífico, denso, musical - que foi, em simultâneo, uma figura truculenta, polémica, arrogante, elitista, corajosa e lúcida -, realiza-se, a partir de hoje e até 1 de Dezembro, um ciclo nos espaços do Centro Cultural de Belém (CCB).A semana dedicada ao escritor inicia-se com a inauguração, às 18.00, da exposição Thomas Bernhard e as pessoas de sua vida. Estarão presentes António Mega Ferreira, presidente do CCB, José António Palma Caetano, comissário do ciclo, e Peter Fabjan, meio- irmão de Thomas Bernhard. Neste encontro abordar-se-á a relação do autor de O Sobrinho de Wittgenstein com o teatro e a música, ele que criou uma obra com uma construção de tipo musical, baseada em temas e variações. Na exposição, organizada pela fundação com o seu nome, dar-se-ão a conhecer aspectos biográficos, literários, e ficarão expostos originais do autor de Extinção.O escritor de Derrubar Árvores - obra agora lançada pela Assírio com tradução de José António Palma Caetano - gostava de Portugal, opondo-o à sua Áustria natal, sobretudo nas coisas simples. Diz o tradutor: "TB veio várias vezes a Lisboa, a primeira das quais, em 1974, e refere-se--lhe num postal como "cidade magnífica." O autor colocava, no mesmo plano de preferências, o nosso país e a Polónia, tendo deixado fragmentos de uma peça escritos num hotel de Sintra. Não era um conhecedor da literatura portuguesa, mas anotações suas revelam indecisão sobre onde colocar a acção de um livro a publicar: "Açores ou Sicília?" Mais à frente, hesita entre Pirandello e Camões, perdidos entre projectos.Há inclusive referências a Portugal num livro de entrevistas. O que mais lhe agradava era o mar, a comida, os restaurantes e a limpeza que neles encontrava ao contrário do que sucedia na Áustria: "Sinto-me orgulhoso do interesse e da simpatia que TB tinha por Portugal", salienta Palma Caetano.Reflectir-se-á esta semana sobre a sua obra, "uma trincheira contra a mediocridade", segundo Mega Ferreira. TB deixa uma escrita visitada pela morte, o absurdo, a questão da identidade e a Áustria, metáfora do pai ausente, amado e odiado, que lhe negou a paternidade, mais tarde provada judicialmente. Dizia: "Eu sou o meu próprio escritor, não preciso dos outros." Hoje, Viena admira-o, apesar de ele ter proibido, por testamento, a publicação, representação e reprodução da sua obra na Áustria até que ela caísse no domínio público.

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