"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

quarta-feira, junho 25, 2008

O público e uma garrafa com barco dentro ocupam quarto plinto de Trafalgar Square
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25.06.2008, Maria José Oliveira


A partir do Outono, qualquer pessoa poderá subir à coluna e ali ficar durante uma hora



Antony Gormley, o artista britânico que em 1994 ganhou o prestigiado Prémio Turner, chegou ao coração de Londres, e vai instalar-e em Trafalgar Square. Gormley (Londres, 1950) foi um dos dois criadores (o outro é Yinka Shonibare, inglês de origem nigeriana) que viram as suas propostas serem escolhidas para ocupar uma das quatro colunas que flanqueiam a famosa praça londrina.

O anúncio dos escolhidos foi feito anteontem pelo presidente da câmara de Londres, o tory Boris Johnson. Gormley e Shonibare foram os eleitos de uma selecta lista de seis candidatos (Jeremy Deller, Tracey Emin, Anish Kapoor e Bob & Roberta Smith) ao Fourth Plinth Project (Projecto Quarto Plinto), uma iniciativa que a Royal Society of Arts lançou em 1999 com o objectivo de "ocupar" o plinto situado a Noroeste da Coluna de Nelson com obras de arte contemporânea. Construído em 1841, o pedestal deveria ter acolhido uma estátua equestre, mas durante largos anos ficou vazio. Até há quase dez anos, quando a câmara de Londres e uma comissão de especialistas uniu esforços para avançar com um programa de exposições rotativas num dos locais mais turísticos da cidade.
Antony Gormley e Yinka Shonibare serão, a partir do Outono, os sucessores de Thomas Schütte e do seu Model for a Hotel 2007. Uma réplica do HMS Victory, o navio que Horatio Nelson comandou na Batalha de Trafalgar, colocada dentro de uma grande garrafa de vidro, é a proposta de Shonibare. Que, numa homenagem ao multiculturalismo londrino, fez as velas da embarcação com batik, o colorido tecido indonésio que também é utilizado em países da África Ocidental.
A partilhar o pedestal com a garrafa de Shonibare poderá estar... qualquer transeunte. Isto porque o projecto de Gormley, intitulado One and Other, propõe que o plinto seja ocupado, ininterruptamente, por qualquer pessoa que se voluntarie para subir à coluna e ali ficar durante uma hora. Por um período de 100 dias, lê-se no site oficial do Fourth Plinth Project, 2400 pessoas poderão transformar-se em esculturas vivas e ter a sua hora de fama. Por isso, Gormley definiu a sua ideia como um "cruzamento entre a telerealidade e Speaker's Coner", o famoso lugar em Hyde Park. "Ao subir à coluna e ao abandonar o solo, o corpo transforma-se, simultaneamente, numa representação e num representante, estimulando o pensamento sobre a diversidade, a vulnerabilidade e o indivíduo na sociedade contemporânea", explicou o artista.
Estudante de arqueologia, Antropologia e Historia da Arte no Trinity College, em Cambridge, Gormley tem centrado o seu trabalho na reflexão sobre o corpo enquanto lugar de memória e transformação. Neste contexto, o criador defende que a sua ideia para a coluna de Trafalgar Square pretende atrair a maior diversidade de pessoas: "Aquele que procura asilo político, aquele que é sem-abrigo, pessoas que julgam que este tipo de coisas não lhes diz respeito. Precisamos do culturista, mas também do paraplégico, do naturista, do actor shakespeariano", afirmou, citado pelo jornal britânico The Times.
Gormley, 57 anos, considera que One and Other permitirá aos voluntários receber "uma imagem de si próprios". Mas há já quem veja no seu projecto uma ausência total de ideias. O The Times cita um crítico, não identificado, que acusa o artista de ocupar o plinto com "ideias ocas". Escreve o periódico que há muito que Gormley não é alheio a controvérsias - há dois anos, o artista fez uma escultura de neve no Ártico com fundos públicos.
A partir do Outono, a quarta coluna de Trafalgar Square será também a "coluna do povo", numa instalação viva colectiva que, frisa Gormley, será um "retrato do nosso tempo".