"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

segunda-feira, agosto 18, 2008

As revistas pornográficas de Franz Kafka saíram do armário onde ele as fechava
http://jornal.publico.clix.pt/default.asp?url=%2Fmain%2Easp%3Fdt%3D20080817%26page%3D10%26c%3DC
17.08.2008, Inês Nadais


Excavating Kafka, a nova biografia, é o elefante na loja de porcelanas dos estudos kafkianos


Imaginávamos Kafka fechado em casa, sim (como Gregor Samsa, o rapaz-insecto de A Metamorfose), mas não imaginávamos que, se pudéssemos espreitar pela fechadura, íamos apanhá-lo de calças na mão, a devorar as revistas pornográficas que assinava a meias com o amigo Max Brod (há uma carta em que lhe pergunta: "A Amethyst nunca mais chega? Já tenho o dinheiro") e que guardava num cofre secreto da estante de casa dos pais. James Hawes, um romancista britânico que passou anos a estudar os diários de Franz Kafka, espreitou pelo buraco da fechadura e agora conta o que viu em Excavating Kafka, uma nova biografia do autor checo que está a pôr a intelligentsia dos estudos kafkianos à beira de um ataque de nervos.
Excavating Kafka chegou às livrarias na quinta-feira com esta missão: demonstrar que todo o edifício dos estudos kafkianos (uma espécie de polvo: tirando Shakespeare, sublinha James Hawes, "não há nenhum escritor que tenha dado tantas teses de doutoramento, tantas biografias, tantos álbuns de capa dura") foi construído em cima das premissas erradas. O homem que encontramos em Excavating Kafka não é o zombie urbano-depressivo neurótico e acossado do costume: é um rapaz do tempo dele, com um belo salário de funcionário público, um pai normal e, cereja em cima do bolo, uma colecção de revistas pornográficas que os académicos, acusa James Hawes, passaram este tempo todo a fingir que não existia.
"Toda a indústria que se alimenta de Kafka prefere que não se saibam coisas deste género sobre o seu ídolo. Talvez os biógrafos não gostem da ideia de Kafka ter recorrido a este tipo de materiais no início da carreira. Todos os postais que ele mandou, todas as páginas de diário que ele escreveu, todos os relatórios que ele preencheu são vistos como uma espécie de Arca de Noé. Mas nunca ninguém quis saber da pornografia. Há uma conspiração para censurar este assunto", diz o autor de Excavating Kafka que (o diabo está nos detalhes) também é professor de escrita criativa e autor de romances humorísticos. Também ninguém quer saber da pornografia agora: o meio académico (e sobretudo o meio académico alemão, tradicionalmente mais empenhado na descodificação da obra de Kafka) olha para a nova biografia, olha para o autor da nova biografia e responde, encolhendo os ombros: escrita criativa.
Embora os achados de Hawes não estejam a ser levados a sério - nas "revistas pornográficas" que Kafka coleccionava, a Amethyst e a Opale, havia desenhos de uma mulher com corpo de ouriço-cacheiro a fazer sexo oral e de um golem [uma figura do folclore judaico] a apalpar o peito de uma rapariga, mas também havia poemas de Paul Verlaine e trabalhos do artista belga Félicien Rops, coisas suficientemente iconoclastas mas talvez não ao ponto de poderem ser consideradas hard-core - o debate está instalado nos jornais alemães.
"Hawes deixou-nos espreitar pelo buraco da fechadura e viu Kafka com as calças na mão. Mas chamar pornografia hard-core às revistas ilustradas que ele assinava é como comparar um poema de Heinrich Heine a um slogan publicitário da McDonald's", escreveu a investigadora americana em estudos kafkianos Anjana Shrivastana no Der Spiegel. "James Hawes é um idiota que não sabe nada acerca de Kafka mas escreve sobre ele como se soubesse", comentou Klaus Wagenbach, o biógrafo "oficial" de Kafka (foi um livro dele, publicado em 1958, o primeiro a divulgar a carta em que Kafka perguntava a Max Brod pelas revistas), ao Frankfurter Allgemeine.
O teor das imagens que Hawes encontrou na British Library, em Londres, e na Bodleian, em Oxford, é o tema mais fracturante do debate (Rainer Stach, outro biógrafo de Kafka, já veio frisar que as tais "imagens pornográficas" são "caricaturas, desenhos humorísticos" e que o barulho à volta do lançamento de Excavating Kafka é "uma inacreditável campanha de marketing"), mas há outros capítulos em que a nova biografia não coincide com o retrato oficial do artista quando jovem. Hawes contradiz as teses de que Kafka era oprimido pelo pai ("Deixou-o estudar o que queria, entrar e sair da casa quando queria e viver sem pagar aluguer durante anos, quando para todos os efeitos Kafka ganhava bem") e de que vivia obcecado pela sua condição judaica ("Kafka estava perfeitamente integrado na cultura alemã"). Não, ele não passava a vida fechado em casa: frequentava os bordéis e os clubes nocturnos, como qualquer rapaz com dinheiro da idade dele. Ignorar isto, argumenta Hawes, é ignorar Kafka: "É preciso deixar de olhar para o mito e olhar para o que Kafka realmente escreveu".
Quando a poeira assentar em cima da nova biografia de Kafka, talvez possamos olhar para o que Kafka realmente escreveu e encontrar coisas que até aqui não estavam lá. "Existe o mito de que Kafka era uma espécie de santo. É saudável reunir provas de que ele era um ser humano", disse ao The Times Ritchie Robertson, autor de Kafka: A Very Short Introduction. Vale a pena abrir o armário e tirar de lá a pornografia? Pode ter a sua utilidade, acrescenta: "Kafka tinha uma imaginação visual fortíssima e a importância que as artes visuais tinham para ele ainda não foi suficientemente explorada".