O nosso cão vai transformar-se no nosso gato
http://jornal.publico.clix.pt/
15.01.2009, Ana Gerschenfeld
Ao tradicional desafio
anual do site edge.org -
o "salão" intelectual online -, responderam filósofos, cientistas, escritores, jornalistas, etc. Reflexões que vão do optimismo exagerado ao mais
sombrio pessimismo
Se lhe perguntassem "o que é que vai mudar tudo", o que responderia? As alterações climáticas, a Internet, a cura das maiores doenças humanas, a descoberta de inteligências extraterrestres, os robôs, a expansão da inteligência humana, a colonização do espaço, as fontes de energia inesgotáveis? Esta foi precisamente a pergunta que o site edge.org, publicação e think tank online, cujo objectivo é "promover a reflexão e a discussão de questões intelectuais, filosóficas, artísticas e literárias, e agir em prol da realização social e intelectual da sociedade", colocou, com prazo marcado até à meia-noite de 31 de Dezembro, à sua longa agenda de "sócios" - craques mundiais da ciência, da tecnologia e do pensamento, da arte, do entertainment.
A edição 2009 da tradicional pergunta do ano do edge.org é apresentada nas páginas do site pelo editor e agente literário nova-iorquino John Brockman, nos seguintes termos: "Através da ciência criamos tecnologia e, ao usar as nossas novas ferramentas, recriamo-nos a nós próprios. (...) Estamos cada vez mais perto de redefinir a vida, à beira de criar a própria vida. (...) Craig Venter, pioneiro da genómica, está à beira de criar a primeira forma de vida artificial e já anunciou que tinha conseguido transplantar a informação contida num genoma para dentro de outro. Por outras palavras, o nosso cão transforma-se no nosso gato. (...) Se isto acontecer, vai mudar tudo." Logo a seguir, lança o desafio: "O que é que vai mudar tudo? Que ideias e desenvolvimentos científicos susceptíveis de mudar as regras do jogo espera viver para ver?"
A pergunta teve este ano direito a 151 respostas. Umas mais brilhantes do que outras, umas mais concretas do que outras, umas muito optimistas, outras muito, muito assustadoras - o que não admira, visto o carácter aberto da interrogação. Escolhemos algumas das mais contundentes e descabeladas, das quais apresentamos alguns excertos avulso. Quem quiser ler mais, ou mesmo tudo, vá ao edge.org.
Vencer a morte
Marcelo Gleiser
Filósofo, Dartmouth College
Não existe questão mais fundamental do que a nossa mortalidade. Posso imaginar duas maneiras de vencer a mortalidade. Uma ao nível celular e outra através de uma integração do corpo, da genética, das ciências cognitivas e da cibernética. Pode especular-se que, lá para 2040, uma combinação destes dois mecanismos poderá ter permitido aos cientistas desvendarem os segredos do envelhecimento celular. Não é o elixir da vida com que os alquimistas sonharam, mas a longevidade média poderia passar para 125 anos ou mais. Há uma segunda possibilidade, mais arrojada e provavelmente muito mais difícil de concretizar nos meus próximos 50 anos de vida: combinar a clonagem humana com um mecanismo que permita armazenar todas as nossas memórias numa gigantesca base de dados. Injecta-se ao clone todas essas memórias e voilà! Embora de natureza optimista, duvido muito que isto aconteça.
Mudar a natureza humana
Nicholas Humphrey
Psicólogo, London School of Economics
Imagine que esta pergunta tinha sido colocada aos cidadãos de Roma há dois mil anos. Teriam eles conseguido prever o advento da Internet, dos perfis de ADN, do controlo pela mente, das viagens espaciais? Claro que não. Mas, no fundo, não há nada que tenha mudado tudo até agora. E as vidas desses romanos, apesar das suas privações tecnológicas, eram notavelmente parecidas com as nossas. Se os trouxéssemos para o século XXI, ficariam obviamente espantados pelas realizações científicas. Mas depressa descobririam que sob o embrulho moderno as coisas continuam na mesma. Política, crime, amor, religião, heroísmo.
A coisa que poderia mesmo mudar tudo seria uma alteração radical, geneticamente programada, da natureza humana. Não aconteceu nos tempos históricos e aposto que não vai acontecer em breve. As inovações culturais e técnicas podem certamente alterar a trajectória das vidas individuais. Mas enquanto os seres humanos continuarem a reproduzir-se através do sexo e cada geração voltar à estaca zero, os bebés continuarão a iniciar a vida munidos de um conjunto de disposições hereditárias e de instintos que remontam à idade das trevas tecnológicas. Podemos sonhar com revoluções, mas devemos estar preparados para mais do mesmo.
O advento da telepatia
Freeman Dyson
Físico, Institute of Advanced Studies
Como tenho 85 anos, peço a autorização para mudar a pergunta para: "O que é que vai mudar tudo? Que ideias e desenvolvimentos científicos susceptíveis de mudar as regras do jogo poderão acontecer durante a vida dos seus netos?"
A genética e a biologia molecular vão continuar a dominar nos próximos 50 anos e a seguir será a vez da neurologia. A neurologia vai mudar as regras do jogo da vida humana de forma drástica, mal desenvolvamos ferramentas que nos permitam observar e comandar finalmente as actividades do cérebro humano a partir do exterior. Um único transmissor de microondas, implantado no cérebro, tem suficiente largura de banda para transmitir para o exterior a actividade de um milhão de neurónios. Um sistema de 100 mil transmissores exteriores e de 100 mil receptores internos poderia controlar a actividade dos 100 mil milhões de neurónios do cérebro.
Estas ferramentas tornariam possível a prática da "radiotelepatia", a comunicação directa de sentimentos e pensamentos entre dois cérebros. O antigo mito da telepatia, baseada no sobrenatural, seria substituído por uma forma prosaica de telepatia, baseada em ferramentas físicas.
É fácil perceber que a radiotelepatia seria um poderoso instrumento de mudança social, podendo ser utilizado quer para o bem, quer para o mal. Poderia ser a base de uma compreensão mútua e de uma cooperação pacífica entre os humanos do planeta. Ou a base de uma opressão tirânica e de um ódio reforçado entre comunidades. Uma sociedade ligada por radiotelepatia teria uma experiência de vida totalmente nova.
A primeira regra do jogo, que não deverá ser muito difícil de transpor para uma lei, seria que todos os indivíduos tivessem a garantia de poder desligar a comunicação rádio em qualquer altura, com ou sem razão. Quando a tecnologia da comunicação se torna mais e mais intrusiva, a privacidade deve ser preservada como direito humano fundamental.
Um outro conjunto de oportunidades e responsabilidade surgirá quando a radiotelepatia for possível entre humanos e outras espécies animais. Poderemos então sentir directamente a alegria de voar como uma ave ou de caçar em bando como os lobos, mas também a dor de um veado ferido por caçadores ou de um elefante a morrer de fome. Espero que a partilha dos nossos cérebros com outras criaturas nos torne mais cuidadosos com o nosso planeta.
Ameaça nuclear
Lawrence Krauss
Físico, Arizona State University
É a minha convicção que a ameaça das armas nucleares continua a ser um dos maiores perigos deste século. É notável terem passado mais de 60 anos sem as usarmos, mas o tempo está a esgotar-se. Receio que não consigamos viver impunemente um outro meio século sem pelo menos nos confrontarmos com a necessidade de elaborar um programa global de desarmamento que vá muito para além dos actuais tratados de não-proliferação e de controlo das armas estratégicas. O meu instinto diz-me que, se continuarmos a ignorar a possibilidade de se vir a concretizar neste século um pesadelo capaz de mudar as regras do jogo, estamos apenas a fazer aumentar as hipóteses de isso acontecer.
Terrorismo nuclear
Gerald Holton
Físico e historiador das ciências, Harvard University
A resposta cabe numa frase: o desenvolvimento intencional e hostil - quer por um Estado, um grupo terrorista ou outros indivíduos - de um engenho nuclear.
Guerra nuclear
Max Tegmark
Físico, MIT
Uma guerra nuclear acidental entre duas superpotências, a acontecer, vai obviamente mudar tudo. As alterações climáticas actualmente em debate parecem uma brincadeira ao lado do inverno nuclear e a crise económica não é nada comparada ao que aconteceria em termos do colapso global da agricultura e das infra-estruturas e da fome generalizada, com os sobreviventes a sucumbirem à pilhagem das suas casas por gangs armados esfomeados. Será que isto vai acontecer durante a minha vida? Dou-lhe 30 por cento de probabilidades, o que é mais ou menos equivalente ao meu risco de contrair cancro.
O declínio do texto
Marti Hearst
Informático, University of California
Com a rapidez crescente do registo e distribuição de vídeo e a sua enorme popularidade, acho que é apenas uma questão de tempo até o texto e a palavra escrita se tornarem uma curiosidade confinada aos especialistas (como os advogados) e aos amadores.
O fim do optimismo
Brian Eno
Artista e compositor
O que poderia mudar tudo nem sequer é um pensamento; é um sentimento. Até aqui, o desenvolvimento humano tem sido movido e guiado pelo sentimento de que as coisas poderiam - e iriam provavelmente - melhorar. Mas e se esse sentimento viesse a mudar? E se começássemos a sentir que o longo prazo não existe - ou pelo menos que não há nada a esperar dele? E se, em vez de sentirmos que estamos à beira de um novo continente, selvagem e cheio de promessas e perigos, começássemos a sentir que estamos num barquinho superlotado, em águas hostis, lutando para permanecer a bordo, e dispostos a matar por comida e água? É um pensamento sombrio, mas temos de permanecer alerta. Os sentimentos são mais perigosos que as ideias, porque não se prestam à avaliação racional. Crescem lentamente, de forma subterrânea, e explodem de repente, por todo o lado. Podem espalhar-se depressa e ficar fora de controlo (FOGO!) e, por natureza, tendem a auto-alimentar-se. Se o nosso mundo se tornar a presa deste sentimento particular, tudo o que isso pressupõe poderá em breve tornar-se realidade.
Miniaturização humana
Dominique Gonzalez-Foerster
Artista, Paris
Na sequência da tendência para a nano e miniaturização, em curso em muitas áreas - das tapas às câmaras, passando pela cirurgia, os vegetais, os carros e os computadores... Imaginemos uma decisão global e colectiva para miniaturizar geneticamente as gerações futuras de forma a reduzir as necessidades humanas e aumentar o espaço disponível e os recursos do nosso planeta azul. Seguir-se-ia um estranho período de transição de tipo mundo de Gulliver, com gigantes ainda a viver ao pé das gerações mais pequenas, mas a longo prazo o planeta poderia ter um aspecto muito diferente e a mudança de escala em relação aos animais, às plantas e à paisagem poderia gerar ideias, percepções e representações completamente novas.
A felicidade
Betsy Devine
Jornalista e bloguista norte-americana
Nos próximos cinco anos, os políticos do mundo inteiro vão render-se às teorias económicas destinadas a criar felicidade. Longa vida à economia da felicidade!
Reescrever
o software da vida
J. Craig Venter, especialista do genoma, J. Craig Venter Institute
Numa série de experiências destinadas a perceber melhor o código genético, os meus colegas e eu desenvolvemos maneiras de sintetizar quimicamente o ADN no laboratório. Primeiro, sintetizámos o código genético de um vírus. Quando essa grande molécula artificial foi inserida numa bactéria, a maquinaria celular da bactéria foi não só capaz de ler o código genético sintético, como também de produzir as proteínas codificadas por esse ADN. As proteínas auto-organizaram-se e formaram uma partícula viral que foi a seguir capaz de infectar outras bactérias. Nos últimos anos, também criámos de raiz quimicamente, na íntegra, um cromossoma bacteriano com mais de 582 mil nucleótidos [moléculas de base] - o maior composto químico jamais fabricado pelo homem.
Actualmente, já conseguimos mostrar também que o ADN é sem margem para dúvida o material que contém a informação codificada da vida, ao transformarmos completamente uma espécie noutra, simplesmente mudando o ADN contido numa célula. Inserindo um novo cromossoma na célula e eliminando o cromossoma existente, todas as características da espécie original foram apagadas e substituídas pelo que estava codificado no novo cromossoma. Muito em breve seremos capazes de fazer o mesmo com o cromossoma sintético.
Vamos poder partir da informação genética digitalizada e de quatro frascos de substâncias químicas para escrever novos softwares da vida (...). Vamos mudar não apenas a nossa concepção da vida mas a própria vida.
O renascer de África
James J. O'Donnell
Estudos clássicos, Georgetown University
Numa palavra, a resposta é "África". Mas pede uma explicação.
O primeiro continente da espécie humana, o seu berço, tem sido votado, durante demasiado tempo, à doença, à pobreza e por vezes a governos insolitamente maus. Isso não pode durar. A derradeira questão com que a humanidade se defronta no seu desenvolvimento histórico é a de saber se podemos fazer com que toda a família humana, incluindo os mil milhões de África, atinja níveis sustentáveis de saúde e conforto.
O império
do telemóvel
Keith Devlin
Matemático, Stanford
A minha resposta? Temo-la à frente dos olhos. O telemóvel. Antes de morrer, espero ver um na mão de cada adulto e da maioria das crianças do mundo (nem a caneta nem a máquina de escrever beneficiaram, nem de longe, de um tal nível de adopção - nem mesmo o automóvel). Isso põe a conectividade global, um imenso poderio computacional e o acesso a todo o saber do mundo, acumulado ao longo de séculos, ao alcance de todos. Até aqui, o mundo nunca, mas nunca, esteve numa situação como esta. Isto vai mesmo mudar tudo.

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