"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

quarta-feira, dezembro 02, 2009

Alberto Korda
Um olhar comandado pelo coração
http://dn.sapo.pt/inicio/artes/interior.aspx?content_id=1436359
por MARINA MARQUES
Hoje


200 fotografias mostram que o trabalho de um dos maiores cronistas da Revolução Cubana vai muito para além da obra até agora conhecida

"Isto é importante", avisa Diana Díaz, chamando a atenção para um momento do documentário que complementa a exposição de fotografia do seu pai, Alberto Korda. "O que o meu papá vai dizer a seguir mostra a forma como ele estava na vida e encarava a fotografia", explica com urgência para partilhar o momento. "Só consegues ver com o coração. O que é essencial é invisível à vista", afirma Korda, numa entrevista gravada quatro meses antes da sua morte, em Maio de 2001. A máxima pertence ao escritor francês Antoine de Saint Exupery e é retirada de O Pequeno Príncipe "e normalmente era seguida ou antecedida de um outro conselho para os fotógrafos: 'Esquece as máquinas, esquece as lentes, esquece isso tudo. Com qualquer máquina barata consegues captar a melhor fotografia", adianta Diana.

A exposição abre hoje e às 15.00 Diana Díaz e Cristina Vives, comissária da mostra, guiam uma visita pelas 200 fotografias de Korda em exibição na Cordoaria Nacional, em Lisboa até 31 de Janeiro.

Uma tela com a imagem de Che é o cartão de visita da exposição Korda - Conhecido Desconhecido e Cristina Vives avisa que o título não é apenas uma brincadeira de palavras. "Aqui temos fotografias inéditas que mostram como Korda construía a imagem do líder cubano, o seu amor à beleza feminina e resulta de uma pesquisa minuciosa de entre mais de 50 mil fotogramas", explica.

Fotografias de moda - a sua grande paixão e à qual, ironicamente, teve de renunciar por causa da Revolução, que apoiava e sempre defendeu -, do povo, dos líderes políticos em momentos privados e fotografias subaquáticas, às quais se dedicou depois de 1968 - "o seu refúgio", explica Vives - compõem a exposição.

Cristina Vives realça que os negativos investigados correspondem apenas a "um arquivo, daqueles cinzentos de metal, com quatro gavetas, onde estava o seu trabalho de dez anos como fotógrafo oficial de Fidel". "Mais de 90% do seu trabalho desapareceu quando o estúdio foi confiscado, em 1968", adianta.

"Korda ficou magoado com a forma como o estúdio foi confiscado, através de uma intervenção policial. Isso deixou-o triste. E viu como um mal necessário da implantação em Cuba dos ideias socialistas o facto de terem confiscado o seu trabalho", revela José A. Figueiroa, amigo de Korda desde 1964.