O medo acampou no rio Los Angeles
http://jornal.publico.clix.pt/noticia/02-12-2009/o-medo-acampou-no-rio-los-angeles-18291661.htm
Quarta-Feira 02/12/2009
Por Christopher Goffard
Depois das mortes, as pessoas que vivem junto ao rio passaram a dormir com as suas facas mais à mão. Acorrentaram cães no exterior das suas tendas e barracas de cartão. Ficam à escuta de passos de estranhos por entre o barulho do tráfego automóvel nas pontes em baixo das quais se abrigam. Acostumaram-se a ver agentes da polícia a calcorrear cuidadosamente as grandes rochas brancas das margens. Por baixo, no seu leito de cimento, corre o rio sujo.
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A violência é comum, e muitas vezes não comunicada às autoridades, ao longo dos 95 quilómetros do rio Los Angeles, na Califórnia, que durante o dia recebe joggers e observadores de aves e que em grandes extensões é uma terra-de-ninguém fora da lei povoada por viciados em drogas duras, doentes mentais e muitos outros, falidos, escondidos ou em fuga. Mas o que aconteceu em Novembro de 2008 tornou ainda mais ameaçador um local que já era perigoso.
Alguém matou a tiro três homens e duas mulheres num acampamento para sem-abrigo situado a alguns quilómetros da última curva do rio, em direcção ao porto de Long Beach. Escondido por árvores ao longo de uma saída da auto-estrada, é uma espécie de cave com apenas uma entrada - um estreito carreiro ao longo de uma vedação de arame - e é conhecido como um antro de venda e consumo de droga.
A polícia suspeita que o atirador terá vindo punir alguém que lhe devia dinheiro de um negócio de droga e disparou contra os outros presentes de forma a eliminar testemunhas. Dois factores levam os residentes do rio a tomar esta acção muito a peito: uma das vítimas, Katherine Verdun, de 24 anos, era uma cara que lhes era familiar. E muitos perceberam que poderiam facilmente ter sido eles os alvejados.
Ao longo de muitas semanas, polícias que geralmente evitam ir ao rio efectuaram buscas nas suas margens, esperando que surgisse alguém com informações e que pudesse assim reclamar os 20 mil dólares de recompensa. Um ano depois, a polícia continua à espera.
"Tenho cinco pessoas que foram mortas e ninguém se chegou à frente para dizer alguma coisa, o que é uma coisa muito rara", declara o detective Mark McGuire, da Polícia de Long Beach. "Esta comunidade continua aterrorizada. Ainda não encontrámos forma de nos relacionarmos com eles, mesmo tendo oferecido a recompensa."
McGuire coloca este caso entre os mais difíceis em que trabalhou em quase dez anos na secção de homicídios, devido à "condição das vítimas" e ao meio errante em que se movimentavam. No rio, diz McGuire, "nunca temos a mesma pessoa duas vezes seguidas". "Ninguém sabe quem é quem, quem está a chegar ou quem está a partir."
O rio, que antigamente fornecia água potável à então jovem cidade de Los Angeles, é agora um imenso canal de drenagem de água, esgotos e lixo, construído pelo Departamento de Engenharia do Exército depois das devastadoras cheias de 1938, e serpenteia por baixo de um sistema de pontes e auto-estradas através do coração da Grande Los Angeles.
Tal como outros rios, a sua personalidade muda, à medida que se dobra e enrosca, extravasando aqui, acalmando-se mais à frente. Em alguns locais, onde o lixo acumulado não é demasiado, o rio é quase pitoresco, semeado de sabugueiros, salgueiros, amieiros e plátanos. Os visitantes podem descortinar falcões, garças e cardumes de carpas, e passear em parques. Na topografia mental do Sul da Califórnia, continua essencialmente a ser um lugar desconhecido, uma "terra incógnita" que se vislumbra de cima de um viaduto e imediatamente se esquece. É fácil crescer e envelhecer por aqui sem nunca pôr um pé no rio.
Por baixo da ponte da Rua 7 em
Long Beach, onde mais de uma dúzia de pessoas vive nas sombras infestadas de lixo entre os pilares, há relações de conveniência e de sobrevivência, surgem traições e altercações súbitas e violentas - é uma telenovela movida a metanfetamina com uma galeria, sempre em mudança, de personagens com faces prematuramente desgastadas.
"É As The World Turns [telenovela em exibição desde 1956 na cadeia CBS] no rio Los Angeles", diz Jolene Musgrove, ex-empregada de feira que é conhecida como "Mama Jo" e parece ter mais dez anos do que os 51 que na realidade tem. Tem vivido no rio e fora dele desde há cerca de 30 anos - recentemente, entre pilares de pontes, num dos quais está escrito "Carny power [poder dos malandros]". O seu namorado deu ao abrigo feito de pedaços de madeira um ar certo tropical, pendurando à frente esteiras de palha e conchas. "Tenho dois ex-maridos que também vivem no rio."
Jolene, que sobrevive com dádivas de alimentos e um cheque de um programa de rendimento mínimo garantido, conta que conhecia Katherine Verdun, uma das vítimas do homicídio, e que as mortes a assustaram e afastaram do rio. Ficou em casa do seu filho em Long Beach durante uma semana antes de regressar. "Não tinha para onde ir", explica. Décadas atrás, relembra, o rio era um sítio mais acolhedor.
"Eu conhecia quem era e onde estava toda a gente. Agora está muito mais duro. As pessoas são mais cruéis."
A ponte, situada a cerca de 11 quilómetros a sul do local onde ocorreram os assassínios, tem um elevado número de viciados - o seu olfacto deteriorado torna-os imunes ao fedor da água, dejectos humanos e lixo em decomposição.
Apesar de ter vivido em muitos lugares ao longo do rio, Jolene sente-se mais segura debaixo da ponte - um local onde grupos religiosos oferecem refeições duas vezes por semana, e onde "todos se preocupam uns com os outros, e tomam conta uns dos outros".
Entre as frágeis e mal construídas aldeias ao longo do rio, é um lema habitual: tomamos conta uns dos outros. Tão habitual quanto o comentário de que por aqui não se pode confiar em ninguém.
Chorar todos os dias
Toda essa conversa de "comunidade" é uma piada, considera Mike Ducret, que tem 40 e tal anos, é corpulento e cego de um olho, um solitário que vive nas rochas a alguns quilómetros a norte da ponte. Ele evita os acampamentos e os dramas que aí se desenrolam. "Não quero ter nada a ver com essa gente. São todos sempre tão sensíveis."
Ducret tem demasiada vergonha da sua aparência para procurar comida nos caixotes de lixo da cidade durante o dia. "Estou sujo e tenho mau aspecto. Agora sou mais uma espécie de vampiro." Tenta esconder-se dos adolescentes que lhe atiram pedras. Tem um sofá-cama imundo, romances baratos e um pequeno rádio que lhe trouxe as notícias do massacre de Novembro de 2008. Sabe que até mesmo estes seus poucos haveres lhe serão roubados, se os deixar sem vigilância.
Ali ao pé vive Sarah Lomeli, uma mulher de 40 e poucos anos proveniente do estado do Arkansas que afirma que tem sempre ao pé de si uma faca de mato ou um bastão de basebol e fica aterrorizada quando o seu marido, Omar, se afasta do acampamento na margem esquerda onde vivem. "Choro todos os dias. Detesto estar sempre com medo."
Sandra Lopez, que tem cerca de 55 anos e vive na margem oposta, conta que não toma os seus medicamentos para a depressão porque gosta de estar alerta. "Aqui é como o Wild Kingdom [programa de TV sobre vida selvagem]... Quando durmo, tenho sempre ao pé de mim gás-pimenta, facas, bastões. Estou pronta para o que der e vier. Por causa dos assassínios, não queremos estranhos por aqui."
Durante meses após as mortes, Merle Megee, um agente da polícia de Long Beach que faz a ronda dos sem-abrigo, frequentou a zona do rio e missões religiosas e sopas dos pobres nas redondezas, à procura de respostas, circulando por entre rumores. Uma das vítimas tinha o cartão-de-visita de Megee no bolso.
Não há um recenseamento fiável no que toca a habitantes do rio, que passa por mais de uma dúzia de cidades, mas Megee estima que a parte de Long Beach terá entre 150 e 200 pessoas.
"Elas não querem ser vistas, não querem ser encontradas. Se eu fosse até ao rio e vasculhasse os seus registos criminais e olhasse bem para os seus passados, provavelmente desmaiava", diz Megee. "Estas são as pessoas que escaparam pelos buracos da rede, que não têm nada a seu favor. Se tivessem dinheiro, não estariam lá."
O isolamento traz simultaneamente a atracção e o perigo. "Não há cabina telefónica. Ninguém nos ouve, se gritarmos", explica o agente.
Para os seus moradores, parte da reputação do rio provém do seu papel como local para onde se atira os restos de uma vasta metrópole. Quase todos os que já vivem por aqui há muito tempo afirmam já ter visto um ou outro cadáver na água.
No Inverno, os ventos vindos do oceano Pacífico, aqui mesmo ao lado, magoam. Numa manhã gelada não muito depois dos homicídios, Priscilla Gribble, de 29 anos, sai da tenda que partilha com o namorado Aaron "Droopy" Martinez (33 anos), montada debaixo do pilar norte da ponte da Rua 7. "Depois do que se passou", conta, "já não durmo sozinha."
Priscilla reconhece que a sua atitude passa de acolhedora a feroz "em 2,5 segundos", dependendo da natureza da ameaça. Descreve-se como antiga cozinheira da Red Lobster [cadeia de restaurantes de marisco] que tenta manter-se afastada da heroína e que tem dois filhos em idade escolar que vivem na cidade com o pai deles. Priscilla vive no rio há mais de um ano.
"Já fui ao ballet. Fui ver O Quebra-Nozes. Sei que há mais nesta vida do que o que há por aqui. Não quero morrer aqui."
O seu namorado define-se como um ex-membro de um gang de rua e estivador que toma metanfetamina - "mas não de forma descontrolada", e faz questão de distanciar-se dos viciados sem recuperação possível que, acredita, arruinaram o rio. Conta que a droga lhe dá energia para as suas tarefas, como procurar espias de reserva para a tenda e recolher cartão para a fogueira - tudo o que agradar a Priscilla, a sua "mulher voluntariosa e independente".
Após as mortes, foi um conforto ter um Doberman e um Chau-Chau no acampamento. "Ficámos muito mais atentos, agora temos cães", diz Martinez. Também penduraram um espelho no exterior da tenda, para poderem ver quem se aproximar pelas traseiras. Faz questão de dar "marijuana" e bebidas de elevado teor alcoólico a todos os estranhos que entrem no acampamento, pois acredita que assim eles revelam a sua verdadeira identidade e natureza. "Estou a tentar tornar esta ponte uma ponte familiar."
A metanfetamina encheu-o de grandes planos. Fala excitadamente de acrescentar outro nível de segurança. Quer enterrar garrafas de plástico no lixo, de forma a poder ouvir o rangido de passos a aproximarem-se. Pilhas de detritos indicam uma dúzia de projectos, iniciados num frenesim e depois abandonados.
Bandeira de pirata
No pilar seguinte, Patrick O"Keefe, de 41 anos, que diz ser um ex-punk rocker e porteiro, colocou uma bandeira de piratas no cimo da sua tenda. Detesta a ideia de estar sempre a trabalhar "para viver na porcaria de um apartamento de outra pessoa". Aqui, pode lavar toda a sua roupa por um dólar e meio na lavandaria automática e tomar um duche quente no centro social ali ao lado. Todos os "bunkies", como chama aos companheiros de acampamento, recebem vales para levantar alimentos, e na noite anterior tinham grelhado uns bifes. "Um tipo tinha vodka. Alguém trouxe erva. É de isto que eu gosto aqui - um sentido de comunidade."
Enquanto junta pranchas de madeira para reforçar a sua tenda, O"Keefe fala poeticamente acerca do romance da vida no rio. "Estou a construir a minha própria casa, como se estivesse no Oregon Trail", uma das principais rotas de emigração para o Oeste americano no século XIX.
Mesmo assim, diz O"Keefe, não se pode baixar a guarda e diminuir a vigilância quando se está rodeado de viciados em metanfetamina. "Que ninguém me olhe de lado, senão corto-lhe o pescoço e atiro-o para as rochas. As pessoas conhecem-me como sendo alguém sensível e inteligente. Um artista. Mas, ao mesmo tempo, posso ser alguém que corta uma cabeça num instante."
Steve Hrenak, funcionário da Saúde Mental da América, uma organização sem fins lucrativos que ajuda os sem-abrigo com problemas mentais, está a distribuir sacos com almoços. E fala sobre a explosão de O"Keefe: "Ele é o mais assustado de todos os que aqui estão. Não está habituado a viver desta forma."
A estadia de O"Keefe no acampamento seria de pouca duração. Cerca de uma semana depois, segundo diz Martinez, O"Keefe embebedou-se e atirou o lixo de Aaron para o rio e este, também embriagado, retaliou, arremessando as pranchas de madeira de O"Keefe para a água. Furioso, O"Keefe agrediu Martinez até este ficar inconsciente, enquanto gritava "Roubaste a minha casa!".
Pouco tempo depois, também Martinez se foi embora, e Priscilla apresenta nódoas negras no braço. "Continuo a gostar dele", explica, "mas não quero aparecer a flutuar no pontão." A ideia de que poderia apresentar queixa sobre o incidente fá-la rir. "Por que razão iria eu ter com os chuis?"
Exclusivo PÚBLICO/Los Angeles Times

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