"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

sábado, novembro 24, 2007

"Ou ela ou nenhuma"
http://dn.sapo.pt/2007/11/24/dngente/ou_ou_nenhuma.html
FERNANDO MADAÍL

Ao ler aquela frase num romance de Hermann Hesse, em que o romancista afirmava "vou ser escritor ou não vou ser nada", o alemão Matthias Schmelz, que se radicou em Portugal em 1993 e aqui criou fortuna, decidiu logo na adolescência que queria ser autor de livros. Na época, faltava-lhe o dinheiro para viajar, conhecer mundo e poder escrever. Agora, dá-se ao luxo de lançar um livro a que nem sequer falta uma moeda de um euro inserida na capa e uma outra incrustada na lombada - ideia de difícil execução para as gráficas.Em The Millionaire Maker - obra limitada a mil exemplares e da qual ofereceu, em Lisboa, um a Alan Greenspan, um dos biografados neste guia -, o empresário que enriqueceu a vender um modelo de aspirador mais avançado resume tudo o que aprendeu para se obter sucesso, de citações de Einstein ("o juro acumulado é a força mais poderosa do mundo") a capas de livros como How to Win Friends and Influence People (Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas), de Dale Carnegie. O "filho de Augustin", como ainda hoje é conhecido na aldeia de Hofaschenbach, "que tinha mais vacas do que pessoas" quando ele nasceu em 1961 - e da janela de sua casa via a electrificada "cortina de ferro" que, na sua infância e adolescência, separava as duas Alemanhas -, junta no livro figuras como Bill Gates e George Soros, o xeque do Dubai e a apresentadora televisiva Oprah Winfrey.Tudo começou quando, apercebendo-se de que Portugal era o único país onde tinha hipótese de ser líder nas vendas de uma marca que estava a ter grande aceitação na Alemanha, telefonou ao americano que presidia à empresa fabricante. Conhece algum português? Sabe falar a língua? Já visitou o país? Apesar do "não" às três perguntas, o americano acreditou no jovem alemão, que só tinha um cartão- -de-visita de um taxista de Loures que falava alemão e a quem telefonou ao aterrar em Lisboa. Nessa noite, vendia um aparelho ao motorista, jantava bacalhau e vinho verde em sua casa e contratava a mulher dele para trabalhar. Cinco anos volvidos, vendia 4243 máquinas por mês - actualmente, apesar de a marca estar presente em 80 países, Portugal ainda é líder nas vendas directas. Esse ano de 1998 ficou também marcado pelo seu casamento com Fernanda Alves, que vira pela primeira vez dois anos antes. Entrara, sem convite mas com ar determinado, no Casino Estoril e, mal se sentou, viu-a desfilar no concurso de Miss Portugal. E, antes de viajar 23 horas de avião até ao Japão para a ver ganhar o concurso de Miss Internacional em 1996, numa variação da frase de Hesse, pensou logo: "Ou ela ou nenhuma."