"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

quarta-feira, julho 29, 2009

manuscrito encontrado num armário

Literatura
Encontrado manuscrito de Bernard Shaw
por Lusa27 Julho 2009

Uma nota manuscrita do dramaturgo George Bernard Shaw (1856-1950) foi descoberta num velho armário, onde permaneceu esquecida 79 anos, noticiou a BBC.

O texto, escrito no verso de uma fotografia de Shaw, Prémio Nobel de Literatura em 1925, foi encontrado pelo investigador Peter Walker quando revia arquivos para comemorar o nonagésimo aniversário do Partido Trabalhista de Wimbledon (sul de Londres).

"Foi muito emocionante", disse, "Shaw é um dos nossos maiores dramaturgos".

O autor de "Pigmalião" enviou a nota em 1930 para a inauguração de uma sala na Casa de William Morris, em Wimbledon.

O comentário refere-se ao escritor, arquitecto e activista socialista William Morris (1834-1896) e alude também à participação em campanhas políticas do século XIX.

Escreveu Shaw: "William Morris e eu rezamos juntos o evangelho do trabalhismo em muitas ocasiões. Muitas pessoas responsáveis pensaram que merecíamos ser enforcados".

Ainda na nota, Shaw, que nasceu em Dublim e emigrou para Londres, declara-se "orgulhoso" pela abertura de uma sala "dedicada a ele [Morris]".

O escritor irlandês foi a primeira pessoa, e até agora a única, a vencer um Prémio Nobel e um Óscar da Academia de Hollywood, este último com o guião por ele escrito para o filme "Pigmalyon" (1938), baseado na sua homónima peça de teatro.

as costas e os braços nus

Hanna Montana
As fotografias que deram um pequeno escândalo
http://dn.sapo.pt/inicio/artes/interior.aspx?content_id=1319905&seccao=Cinema

A breve controvérsia em redor da sessão de fotos feita por Annie Leibovitz com Miley Cyrus para a 'Vanity Fair' de Junho de 2008

Quando viram as fotos "ousadas" que a consagrada Annie Leibovitz tirou a Miley Cyrus, e que foram publicadas no número de Junho de 2008 da revista Vanity Fair, muitas mães de fãs da vedeta adolescente, então com 15 anos, ameaçaram deitar fora, ou mesmo queimar, os produtos marca Hannah Montana.

Cyrus aparecia envolvida num lençol de cetim, revelando as costas e os braços nus, e ao coro das mães indignadas veio juntar-se o dos media, que decretaram que a sessão de fotos feita por Leibowitz significava "o fim da inocência" de Miley Cyrus - e por tabela, do seu alter ego artístico, Hannah Montana.

Citada pela Vanity Fair no artigo que as acompanhava, Cyrus endossou as fotos de Leibovitz: "Acho que são muito artísticas (...) e muito cool". No entanto, poucos dias depois, num comunicado, a cantora e actriz mudou de opinião, dizendo: "Participei numa sessão fotográfica supostamente 'artística' , mas agora, vendo as fotografias e lendo a história, sinto-me muito envergonhada. Nunca quis que isto acontecesse, e peço desculpa aos meus fãs, pelos quais tenho tanto afecto". E o Canal Disney, numa declaração oficial, afirmou que tinha sido criada uma "situação" para "manipular deliberadamente uma jovem de 15 anos, visando vender revistas".

Annie Leibovitz, por seu lado, lamentou que a imagem que deu de Miley tivesse sido "mal interpretada", e a Vanity Fair defendeu a fotógrafa e o seu trabalho, acrescentando que "os pais de Miley e/ou os seus representantes estiveram no set o dia todo, e viram as fotos no momento, porque foram tiradas com uma máquina digital".

A controvérsia esmoreceu, os discos, DVD, livros, jogos de vídeo e merchandising de Hannah Montana continuaram a vender-se, e o seu álbum Best of Both Worlds até trepou vários lugares na tabela de vendas. Quanto à Vanity Fair de Junho de 2008, esgotou-se nas bancas.

Tags: Artes, Cinema

Achado
Primeiro vertebrado nas árvores
http://dn.sapo.pt/inicio/ciencia/interior.aspx?content_id=1320087
por S.S.


Há 260 milhões de anos, o 'Suminia get-manovi' começou a alimentar-se de folhas de árvores, aproveitando ainda para fugir aos predadores

Antes de os dinossauros dominarem a Terra, um pequeno precursor dos mamíferos deixou o solo e passou a alimentar-se das folhas das árvores, aproveitando também para se esconder dos predadores. Dedos alongados, um polegar opositor e uma longa cauda fazem do Suminia getmanovi o mais antigo vertebrado a subir às árvores.

Pelo menos uma dúzia destes pequenos animais, que mediam 50 centímetros de comprimento, foram encontrados na região de Kirov, no centro da Rússia. "É relativamente raro encontrar vários animais presos num único bloco", disse Jörg Fröbisch, paleontólogo do Field Museum, em Chicago, responsável pela descoberta. "Temos exemplos de praticamente todos os ossos do seu corpo."

O Suminia getmanovi viveu no Paleozóico (há 260 milhões de anos), muito antes do momento em que se pensava que tivesse ocorrido a subida às árvores. "Foi uma surpresa, mas faz todo o sentido", indicou Fröbisch. "Era um novo nicho para os vertebrados. Havia comida disponível e evitavam os predadores no chão", concluiu, segundo o comunicado do Field Museum.

Este animal foi também o primeiro a mastigar as folhas antes de as engolir. Outros herbívoros limitavam-se a arrancá-las, aproveitando mal os seus nutrientes.

Evolução
Vida animal nasceu nos lagos e não nos mares
http://dn.sapo.pt/inicio/ciencia/interior.aspx?content_id=1320104

por SUSANA SALVADOR


Ao analisar os componentes químicos dos sedimentos em que foram encontradas as mais antigas formas de vida complexa, uma equipa da Universidade da Califórnia descobriu elementos que apontam para uma evolução nos lagos. Materiais analisados do maior cemitério fóssil, que data de há 600 milhões de anos, abalam a teoria de que a vida evoluiu nos mares

Os primeiros organismos unicelulares desenvolveram-se na água, mas uma equipa de cientistas norte-americana veio agora dizer que a vida animal pode não ter surgido nos mares, como se pensava, mas nos lagos. Essa é a hipótese que os investigadores da Universidade da Califórnia colocam agora, depois de analisarem os componentes químicos dos sedimentos em que estão conservados os restos dos primeiros animais.

A equipa recolheu material da Formação de Doushantuo, no Sul da China, considerado o maior cemitério fóssil das primeiras formas de vida complexas, datadas de há 600 milhões de anos. "Todas as análises mostram que os minerais nas rochas e os químicos não são compatíveis com depósitos em água do mar", disse Tom Bristow, um dos principais autores do estudo publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences.

"A nossa primeira descoberta fora do comum nesta região foi a abundância de um mineral argiloso chamado esmectite", indicou Bristow, citado no comunicado oficial da Universidade da Califórnia. "Nas rochas com esta idade, a esmectite está normalmente transformada noutros tipos de barro. Esta não sofreu qualquer transformação e tem uma química especial. Para a esmectite se formar, são necessárias condições específicas na água - condições normalmente encontradas em lagos salgados e alcalinos", acrescentou.

Os investigadores ficaram surpreendidos ao verificar que a vida complexa se possa ter desenvolvido num lago, uma vez que este é um ambiente mais instável que os mares. "Sabemos que a vida nos oceanos é muito diferente da vida nos lagos e, pelo menos no mundo moderno, os oceanos costumam ser ambientes mais estáveis e consistentes face aos lagos, que tendem a ser elementos de curta duração quando comparados, por exemplo, com o período da evolução", explicou Martin Kennedy, outro autor do estudo.

Apesar destas descobertas, os investigadores não põe de lado a hipótese de virem a ser descobertos organismos mais antigos que se desenvolveram nos mares. Ou ainda, uma vez que os lagos são isolados e não têm ligação uns com os outros, de terem existido "evoluções paralelas".

terça-feira, julho 28, 2009

Um gigante moderno deixa-nos
http://jornal.publico.clix.pt
28.07.2009, Vanessa Rato


Baryshnikov diria que ele revolucionou a dança e depois esperou por um público que entendesse o seu legado. Aos 90 anos, era um gigante do século XX


Palavras transparentes, as dele: "É preciso amar a dança para continuar a dançar. Não nos devolve nada a não ser aquele momento fugaz em que nos sentimos vivos. Não é para almas instáveis".
É uma questão de entrega e Merce Cunningham persistiu nessa entrega, primeiro como um dos maiores bailarinos norte-americanos e, depois, como um dos mais importantes coreógrafos do mundo - um dos mais determinantes artistas do século XX. Morreu no domingo em Nova Iorque, onde vivia desde que, em 1939, entrou num comboio em Centralia, no estado de Washington, e foi juntar-se à companhia Martha Graham. Graham era a grande pioneira da dança moderna. Merce tinha 20 anos: "Desci [do comboio], olhei para a silhueta da cidade e pensei: 'Estou em casa.'", recordou há dez anos numa cerimónia pública.
A companhia que fundou em 1953 e esteve em Portugal por várias vezes - 1966, 1994, 2001... - fez ontem o anúncio da morte sem divulgar a causa, mas Cunningham tinha feito 90 anos em Abril e relatos recentes explicam que, com os problemas de artrite que tinha há décadas, a sua energia física era cada vez menor. Naturalmente longe da figura alta e esguia de longo pescoço cuja invulgar graciosidade seria comparada à de Nijinsky - o mesmo tipo de leveza e improvável capacidade de parecer imobilizar-se no ar, como se este fosse o seu verdadeiro elemento. E, contudo, em vez de um solista de renome como Nijinsky ou Baryshnikov, Cunningham assumiu a ideia do colectivo, com uma influência que expandiu muito para lá da dança, mas que nem sempre foi bem compreendida pelo grande público.
Baryshnikov diria que ele reinventou a dança e depois esperou pelo público que pudesse entender o seu legado. Esse público existe, mas nunca até hoje na forma do verdadeiro culto popular dedicado, por exemplo, a Pina Bausch, a grande Papisa da dança europeia, morta também há menos de um mês, aos 68 anos. Talvez a sua linguagem fosse demasiado técnica e despojada para esse tipo de adesão, sem o convite explícito à fruição mais lúdica, sem o piscar de olho ao entretenimento.
Nenhuma da teatralidade ou pesquisa psicológica que servem de âncora ao olhar menos experimentado, nenhuma das estratégias de composição em binómios causa, efeito ou clímax, anticlímax: Cunningham, o principal responsável da modernidade na dança depois de Graham e dos Ballets Russes, estava aquém e além disso - com ele, o movimento valia por si, na sua relação com o tempo e o espaço.
Cunningham estudaria com Balanchine, o último grande coreógrafo dos Ballets Russes antes da dissolução da companhia em 1929. Foi ao tipo de pesquisa aberta na primeira grande companhia de bailado independente do mundo que deu continuidade: a ideia de que a dança pode basear-
-se na expressão corporal e procurar novas formas; a noção de que deve estar ligada à contemporaneidade, qualquer que ela seja; a dissonância por vezes extrema entre música, figurinos e movimento; a reinterpretação total do que o corpo pode ser e fazer em palco, não só como presença individual, em que cada bailarino é ao mesmo tempo solista e elo do conjunto composto por todos os corpos e restantes elementos da obra; o afirmar de que artistas de todas as áreas podem trabalhar em conjunto, para o mesmo fim, sem que uns ilustrem o trabalho dos outros...
Os Ballets Russes tiveram Picasso, Stravinsky, Satie; Cunningham teve Andy Warhol, Robert Rauschenberg e Jasper Johns, teve, sobretudo, John Cage, o compositor dos polémicos quatro minutos e trinta e três segundos de silêncio tocados ao piano que revolucionaram a música contemporânea, companheiro e colaborador desde os anos 1940 até à morte, em 1992.
A dança de Cunningham tinha muito a ver com esses "4'33" com que Cage quis dar a ouvir a musicalidade do mundo - o som da chuva, lá fora, das páginas da partitura a serem viradas, do próprio público, a tossir, a mexer-se na cadeira, incómodo. Cage e Cunningham estudaram filosofia zen. Foi a ela - bem como às experiências dada - que Cunningham foi buscar os métodos do acaso segundo os quais sequenciava as frases rigorosamente construídas em estúdio com lançamentos de dados, tiragens de I Ching e, depois, recorrendo a um sistema computacional que ajudou a desenvolver - o Dance Forms. Diria: "Algumas pessoas acham que é inumano e mecânico lançar moedas em vez de roer as unhas e bater com a cabeça na parede, mas o sentimento que tenho quando componho assim é que estou em contacto com um recurso natural muito maior do que a minha inventividade, muito mais universalmente humano do que os hábitos particulares da minha prática".
Seria também à filosofia zen que Cunningham iria buscar a inspiração para trabalhar a ideia de um corpo com vários centros, em que a cabeça, o torso, os braços e as pernas tinham expressividade autónoma. Foi para estudar essa técnica que, em 1986, o coreógrafo Francisco Camacho se mudou para Nova Iorque. "Poder explorar o movimento pelo movimento, sem dar cargas emocionais, foi a minha primeira grande evolução", diz.
Na altura, e apesar de ter dançado até aos 73 anos, Cunningham já dava poucas aulas, deixando-as aos seus bailarinos e investigadores. Mas vinha frequentemente fazer os exercícios, a um canto, ao fundo do estúdio. "Com muita naturalidade, sem os cultos de personalidade que se ouve de outros coreógrafos", diz Camacho.
Na sua mais recente colaboração com a conhecida coreógrafa norte-
-americana Meg Stuart - Blessed, prémio da crítica francesa para Melhor Espectáculo Estrangeiro em 2008 -, Stuart pediu-lhe que fosse buscar alguma dessa técnica. Quando atende o telefone e lhe damos a notícia, Stuart não consegue impedir um longo e triste "não", quase um grito. "Hoje, mais do que nunca, percebo como Cunningham era radical. Ele sempre ouviu um ritmo inerente ao mundo, a nós mesmos. A forma como visualizava a música, como mostrava como certas coisas se dissolvem, desaparecem, reaparecem... Inspirou-me profundamente. É inevitável, mas triste: pensei que ele era imortal."

sexta-feira, julho 24, 2009

reparar os corações doentes dos animais

Células cardíacas conseguiram reparar corações doentes de animais
http://jornal.publico.clix.pt/
24.07.2009




Uma equipa de cientistas descobriu uma maneira de obrigar as células do músculo cardíaco de ratos e ratinhos vivos a proliferarem e a produzirem tecido cardíaco saudável após um enfarte, reparando os danos. Se se revelar aplicável aos seres humanos, o resultado, publicado hoje na revista Cell, poderá abrir o caminho a um tratamento regenerativo simples do coração.
Até há pouco tempo, pensava-se que as células do músculo cardíaco dos mamíferos eram incapazes de se regenerar para além da vida embrionária e neonatal. Mais recentemente, descobriu-se que essa proliferação celular se mantém ao longo da vida adulta, embora a níveis baixos. Segundo diz em comunicado Bernhard Kühn, da Universidade de Harvard e co-autor do artigo hoje publicado, cerca de metade das células cardíacas renovam-se ao longo da vida.
Kühn e colegas analisaram diversas moléculas conhecidas pela sua capacidade de induzir a proliferação das células do músculo cardíaco durante o desenvolvimento pré-natal. Uma delas, a NRG1, revelou-se a mais eficaz. A seguir, fizeram variar a dose de NRG1 administrada a animais vivos e viram que conseguiam assim regular a proliferação das células cardíacas. E mais: nos animais que tinham sofrido um ataque cardíaco, a administração de NRG1 promovia a regeneração do músculo cardíaco, levando a uma melhoria da função cardíaca.
"Tanto quanto sei", diz Kühn, "esta é a primeira terapia regenerativa que pode ser aplicada de forma sistémica. Com base no que sabemos, [a NRG1] é um candidato promissor." Talvez um dia, vislumbra, os doentes cardíacos possam ir ao hospital receber uma infusão de NRG1, ao longo de várias semanas, para recuperar. Ana Gerschenfeld
Metade das células cardíacas renovam-se ao longo da vida
e os cientistas estão à procura de uma terapia regenerativa

quarta-feira, julho 15, 2009

Viagem à primeira globalização
http://dn.sapo.pt/inicio/artes/interior.aspx?content_id=1308296
por MARINA MARQUESHoje

A forma como as viagens portuguesas nos séculos XVI e XVII influenciaram as trocas comerciais e culturais em todo o mundo em foco na exposição amanhã inaugurada no Museu Nacional de Arte Antiga.

Uma tapeçaria que representa a chegada dos portugueses à Índia dá as boas-vindas aos visitantes da exposição Encompassing the Globe. Portugal e o Mundo nos Séculos XVI e XVII, que pode ser visitada a partir de amanhã e até 11 de Outubro no Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), em Lisboa.

Dois anos depois da exposição original em Washington, na Smithsonian Institution, e com um orçamento de 2,8 milhões de euros, a mostra conta com 173 peças, em vez das cerca de 300 apresentadas nos Estados Unidos e a expectativa é que seja visitada por 120 mil pessoas. "Não se trata de uma réplica da exposição que esteve em Washington e em Bruxelas em 2007", salientou ontem Paulo Rodrigues, director do MNAA, na apresentação da mostra. "Esta exposição é enriquecida com tesouros nacionais - como os Painéis de São Vicente, a Custódia de Belém e os Biombos Nambam", adiantou.

Mas o conceito é o mesmo: "Uma viagem à volta do mundo através de objectos que mostra a influência das trocas comerciais e culturais desencadeadas pelas viagens portuguesas", sintetiza Jay Levenson, um dos comissários científicos da exposição.

Aliás, a ideia de fazer a primeira mostra, apresentada em 2007 no Smithsonian, foi sua. "Depois de ter organizado uma exposição em 1992 sobre Colombo para o National Gallery of Arts, na qual tínhamos uma secção sobre Portugal, apercebi-me do grande desconhecimento que existia sobre o papel dos portugueses", explicou o director do programa internacional do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque.

A exposição ocupa o espaço nobre do Museu, relegando a colecção de arte e escultura portuguesa para a sala de exposições temporárias durante os próximos três meses, e o modo como está organizada facilita a ideia de viagem que os comissários pretendem dar.

Organizada de forma geográfica, a viagem proposta pelos comissários científicos começa por mostrar os primeiros mapas conhecidos e Julian Raby, da Smithsonian Institution, fez questão de destacar a forma como a ideia da representação do mundo mudou em apenas 15 anos graças às viagens dos portugueses. África, com destaque para as ligações a Serra Leoa e aos reinos do Benim e do Congo, Índia, Japão, China e Brasil completam a exposição.

O orçamento de 2,8 milhões de euros é partilhado pelo Turismo de Portugal (um milhão de euros), pelo Ministério da Cultura (um milhão) e por verbas comunitárias (800 mil euros). Luís Patrão, presidente do Turismo de Portugal, explicou que o milhão de euros investido pela entidade que lidera foi dividido em 500 mil euros para o MNAA, para a realização da exposição, e os restantes 500 mil euros serviram para pagar à Smithsonian Institution, entidade que concebeu a exposição originalmente, e outra parte para a divulgação nacional e internacional, com destaque para Espanha.

primeiro

Gaza: "Disparem primeiro, preocupem-se depois"
http://jornal.publico.clix.pt/
15.07.2009




Alguns soldados que participaram na ofensiva israelita na Faixa de Gaza há quase sete meses vieram dizer que tiveram ordens de "disparar primeiro" e preocuparem-se depois com a possibilidade de atingir civis. O primeiro objectivo do Exército era ter um mínimo de baixas para que o apoio público à operação militar não diminuísse.
Esta é, pelo menos, a conclusão do grupo Breaking The Silence, que ouviu 30 soldados sobre o que se passou entre 27 de Dezembro de 2008 e 18 de Janeiro de 2009 numa ofensiva que organizações de defesa dos direitos humanos classificaram como tendo chegado a uma escala de destruição injustificada para os objectivos.
"É melhor atingir um inocente do que hesitar em atingir um inimigo" - era a ideia que sobressaía das ordens que recebeu, diz um soldado não identificado. "Se não tens a certeza, mata", disse outro. "Foi uma loucura. (...). Entrámos e os 'booms' eram uma loucura. Desde o minuto em que chegávamos, começávamos a disparar contra tudo o que era suspeito."
A operação foi ordenada para impedir o lançamento de rockets de Gaza contra cidades israelitas. Morreram três civis israelitas e dez soldados. Do lado palestiniano, morreram 1417 pessoas, das quais 926 eram civis, diz um grupo de defesa dos direitos dos palestinianos. Israel diz que morreram 1166 pessoas, mas só 295 civis (o Exército declarou todos os membros do Hamas combatentes, o que não é conforme o direito internacional). Reuters

segunda-feira, julho 13, 2009

Entrevista Dimas de Almeida
http://jornal.publico.clix.pt/default.asp?url=%2Fmain%2Easp%3Fdt%3D20090711%26page%3D4%26c%3DC
11.07.2009, António Marujo


A doutrina de Calvino, nascido fez ontem 500 anos, acabou por influenciar a construção da democracia, esteve no desenvolvimento
do capitalismo e foi decisiva para que a Igreja Confessante na Alemanha se opusesse convictamente ao nazismo. Pela primeira vez
em Portugal, está publicado um texto de Calvino. Isso deve-se a Dimas de Almeida, que aqui explica a herança do reformador


Investigador no Centro de Estudos de Ciências das Religiões, da Universidade Lusófona, Dimas de Almeida, 72 anos, é pastor da Igreja Presbiteriana de Portugal, herdeira espiritual de Calvino. Nos últimos meses, Dimas de Almeida traduziu dois dos principais textos da Reforma protestante: a Breve Instrução Cristã, de Calvino, e as 95 Teses sobre as Indulgências, de Lutero. Dimas de Almeida diz que o ecumenismo tem que passar do diálogo ao reconhecimento do outro e que as fronteiras entre igrejas estão cada vez mais esbatidas.
Ao dinamizar comunidades cristãs com uma organização mais democrática, Calvino influenciou a democracia contemporânea?
Não há dúvida de que os descendentes espirituais de Calvino, nos Estados Unidos, com a sua forma de governo de Igreja, influenciaram.
Calvino nunca recebeu uma ordenação, foi sempre leigo. A estrutura eclesial em que os leigos têm uma função tão ou mais importante que a dos que não o são foi importante. Tal como a participação do laicado nos processos de decisão, e o sistema presbiteriano sinodal - o sínodo é o órgão supremo e tem que ter tantos leigos como pastores.
As igrejas de Lutero são diferentes?
Lutero não estruturou a Igreja. Para o luteranismo, há o pastor, que não é clérigo, mas também não é estrutura ministerial, como em Calvino.
Inspirando-se no Novo Testamento, Calvino estabelece o ministério do pastor, para a pregação e administração dos sacramentos; do doutor, que ensina; do ancião, que conduz a comunidade local - e que é leigo; e do diácono. Sem hierarquia. É esta organização eclesial que terá repercussão [política].
Calvino também defende a autonomia do casamento...
Ele chama a atenção para o facto de que o casamento é um acto civil. Em Calvino, o casamento não é sacramento. Para ele, tão casado era um casal sem a bênção da Igreja como o que tinha a bênção. O casamento não era um sacramento, pertencia ao domínio laico.
Só adopta o baptismo e a ceia como sacramentos...
Em linguagem de hoje, Calvino dessacraliza o casamento. Ao retirar o casamento das amarras de um poder religioso que o condiciona eticamente, Calvino escancara as portas a uma nova interpretação do casamento e da sexualidade, entendendo o casamento como espaço em que a sexualidade não se reduz à procriação.
Não é a sexualidade que se inscreve no casamento, mas o casamento que se inscreve na sexualidade.
Há 100 anos, Max Weber diz que a ética, sobretudo a de Calvino, está também na origem do capitalismo.
Weber estuda mais o agir ético dos puritanos calvinistas, que hipertrofiam a doutrina da dupla predestinação. A tese de Weber é a de que a ética calvinista (dos sécs. XVIII e XIX) dá um impulso, mas não é a única causa, ao aparecimento da nova racionalidade económica que é o capitalismo, que surge a partir do princípio da dupla predestinação.
Os puritanos calvinistas viviam uma angústia existencial, sem saber se estavam salvos se estavam perdidos - uma coisa hoje bizarra. "Será que Deus me predestinou para a salvação?" Como raciocinavam eles? "Se Deus me abençoar nos negócios, é sinal de que me salvou." E portanto, produziam, trabalhavam, investiam. Um princípio religioso leva a uma actividade económica.
Ou seja, Calvino vem depois de Lutero, mas a sua influência parece ultrapassar a de Lutero: na política em relação à democracia, na economia com o capitalismo e com a Igreja Confessante, na oposição a Hitler. Isto é verdade?
Se tivermos em conta as repercussões culturais da Reforma protestante do século XVI, no campo da política e da economia, elas inscreveram-se muito mais no trabalho realizado por Calvino.
A teologia calviniana privilegia a dimensão ética, decorrente da interpretação mais positiva da lei de Deus. O registo luterano permitiu que, nos tempos do nazismo, a Igreja Luterana na Alemanha silenciasse o que se estava a passar.
Calvino posiciona a fé e o comportamento cristão entre a lei de Deus e a obediência à lei de Deus, entre um poder religioso que não pode esgotar-se em si mesmo, mas que é chamado a ter uma palavra profética. Este pensamento proporcionou achegas importantes para que a Igreja Confessante fosse contra a Igreja oficial, que foi complacente com o nazismo.
O anti-semitismo de Lutero pode ter tido influência?
Repugnar-me-ia falar de anti-semitismo em Lutero. O que acontece em Lutero é um re-pensamento teológico do papel do judaísmo, que não conduz ao que chamaríamos anti-semitismo.
Há uma diferença entre Lutero e Calvino, no que diz respeito ao valor do Antigo Testamento. Calvino valoriza-o mais do que Lutero. Para Calvino, é a forma primeira da única revelação de Deus. A ideia de uma revelação progressiva não encontra nele um grande acolhimento.
O Antigo Testamento é muitas vezes mal interpretado, porque Deus aparece como violento, cruel. Há um Deus que se revela frequentemente sob traços humanos: do ciúme, da violência, da guerra... Mas este é o Deus de Jesus. Rejeitar o Deus do Antigo Testamento seria rejeitar o Deus de Jesus.
Calvino tem essa ideia?
Talvez de forma mais enfática que Lutero, Calvino chama a atenção para o Antigo Testamento e o agir aqui na Terra. Quando Bonhoeffer está preso, escreve nas cartas que o que mais lê na cadeia [nazi], em Berlim, é o Antigo Testamento, porque o leva para "a realidade do concreto", para um Deus que se mistura com a história.
Lutero e Calvino são muito influenciados por São Paulo. Hoje, a exegese diz que, quando Paulo falava de fé e obras, se referia às regras de conduta e alimentação no judaísmo. A oposição entre fé e obras foi uma das razões da ruptura de Lutero. Quer dizer que ela se deu por uma questão que não existia em São Paulo?
Nestes últimos 40 anos tem surgido uma nova exegese e uma reapreciação do que Paulo diz. Uma tão grande oposição entre fé e obras não é característica do judaísmo do tempo de São Paulo: não havia uma valorização das obras e uma desvalorização da graça de Deus.
Há elementos para um reexame e para repensar o diálogo ecuménico. Essa é uma tónica importante a não perder de vista: qual é a contemporaneidade da Reforma? Porque é que surge uma reforma? Não só a de Lutero, a de Calvino...
Tinha havido antes Francisco de Assis, Bernardo de Claraval, João Huss. Porque é que alguns desses não chegaram à ruptura?
A história de S. Francisco e do franciscanismo subsequente é de uma absorção dentro da Igreja. João Huss foi morto na fogueira...
Quando se trata a Reforma do século XVI, evoca-se o mau comportamento do clero, os maus hábitos, a corrupção. Tudo isso é verdade, mas há um elemento que vai mais à essência das coisas e está presente em todos os grandes reformadores: é uma tomada de consciência da distância entre a promessa do evangelho e a realidade trágica da história.
Entre o que se crê e o que se faz?
A dissonância entre o que o evangelho transporta consigo como promissor de algo novo e a realidade trágica da instituição religiosa e da história. Toda a reforma dá lugar a novos enquistamentos. A reforma, hoje, tem que passar por uma autocrítica da instituição religiosa.
Hoje trata-se de saber como dar pertinência ao cristianismo num mundo que não reconhece essa pertinência. Na Igreja Católica e nas Protestantes somos chamados a viver a fraternidade na vulnerabilidade.
Porque, sendo poucos, mais vale estarem unidos?
Não é por sermos poucos. É por causa do evangelho: encontrar uma palavra profética, que dê resposta ao sentimento, que as nossas sociedades vivem, de que o cristianismo não é pertinente. O problema hoje não é o do ateísmo, é o da indiferença.
E o grande desafio do ecumenismo é o reconhecimento do outro. A pluralidade das igrejas é o lugar para o ecumenismo. Não para considerar a pluralidade como pecado, mas como espaço privilegiado para as igrejas viverem hoje a reforma.
A divisão entre cristãos hoje é transversal, não passa pela divisão institucional mas pelo modo de encarar o evangelho e a vida?
Sim, a geometria ecuménica diz-nos que as divisões entre as igrejas já não são coincidentes com as divisões oficiais. Há clivagens mais ou menos fundas que passam pelo interior de cada igreja - e que podem criar situações de católicos e protestantes mais perto uns dos outros do que de outros da sua Igreja - e que não têm que ser vistas como negativas.
Mas é um mau sinal que o cristianismo esteja fraccionado.
Mau sinal é o não reconhecimento do outro. O cristianismo é geneticamente plural. Há quem pense que, no princípio, havia unanimidade e ortodoxia, e que depois apareceu a heresia e a heterodoxia. A pluralidade e o conflito de interpretações estão presentes desde o início. Houve um tempo do anátema recíproco. No século XX, passou-se ao diálogo, com o movimento ecuménico e o Concílio Vaticano II na Igreja Católica. Mas não se pode ficar eternamente no diálogo. O grande desafio é passar do diálogo ao reconhecimento de que a pluralidade é sinónimo de riqueza: não há nenhuma igreja que esgote a verdade. A pluralidade é fecunda, para o reconhecimento do outro.
Mas as fronteiras entre igrejas ainda existem.
Há um esbatimento das fronteiras confessionais, que não deve redundar em perda de identidade.
A Igreja Presbiteriana de Portugal, que comemora 140 anos, está em fusão com a Igreja Metodista. É uma perda de identidade?
Doutrinariamente não há coisas incompatíveis. Acho muito bem que presbiterianos e metodistas se unam. Mas são duas igrejas muito próximas. É muito mais significativo o reconhecimento do outro na sua diferença do que o movimento em que duas igrejas diferentes se unem.
Seria extraordinariamente significativo se os protestantes dissessem à Igreja Católica: "É nas nossas divergências que reconhecemos toda a legitimidade à Igreja Católica para ser aquilo que é." E que a Igreja Católica dissesse o mesmo aos protestantes. Mas estamos muito longe desse reconhecimento. Passou-se da ideologia do regresso - "separaram-se de nós, têm que voltar" - à cedência: é mais importante o que une do que aquilo que divide...
Mas isso deveria ter efeitos: porque não haver professores protestantes na Universidade Católica ou católicos em seminários protestantes?
Sim, isso era uma consequência prática. A ideologia da cedência implica um empobrecimento de cada igreja, às vezes naquilo que cada uma pode ter de mais rico. O ecumenismo ou desperta para a noção de reconhecimento do outro ou está num beco sem saída.

Do fundo do mar até ao osso
http://jornal.publico.clix.pt/
13.07.2009, Andrea Cunha Freitas


O ideal era que fôssemos como os lagartos, os ouriços ou as estrelas-do-mar. Que quando perdêssemos um braço, partíssemos um osso ou víssemos um cancro a devorar-nos um órgão, estes pedaços de nós voltassem a crescer. O INEB não desiste de tentar


Celebraram 20 anos de trabalho no final do mês de Junho organizando um fim-de-semana de formação com o título: Engenharia Biomágica. A verdade é que às vezes parece magia o que tornam possível. Às vezes parece que só com magia vão conseguir fazer o que acham possível. Os investigadores do Instituto de Engenharia Biomédica (INEB) foram os primeiros a dedicar-se a esta área em Portugal e têm um lema: engenharia que vive. Foi assim que preencheram defeitos ósseos com cascas de camarão e caranguejo, fizeram próteses com titânio e um simulador de partos. Por exemplo.
No início, que como já dissemos foi há 20 anos, eram pouco mais de uma dezena de pessoas com um interesse em comum. Eram médicos, engenheiros, biólogos, investigadores que se importavam com a engenharia biomédica e que, um dia, se encontraram num congresso sobre o tema, no Porto. E o INEB começou assim sem paredes, cada um no seu departamento e sabendo que, na soma das partes, formavam um todo. Foi o primeiro grupo de investigação a trabalhar na área dos biomateriais em Portugal.
"Cada um dos elementos deste grupo terá a sua história", constata Mário Barbosa, director científico do INEB, no Porto. A versão do cientista premiado pela Sociedade Europeia de Biomateriais - que aplicou os conhecimentos adquiridos como engenheiro na área da metalurgia à medicina - começa com um desafio de um médico que queria melhores próteses para os seus doentes. Confrontado com os casos de rejeição e taxas elevadas de infecções, o médico pedia um material menos agressivo e mais parecido com o corpo humano.
"Percebeu-se que alguns elementos das próteses, como o crómio e o níquel, estavam relacionados com infecções. Embora não fossem considerados causadores da infecção, surgiram como facilitadores. Seis a sete por cento dos implantes ortopédicos têm um problema de infecção associado", lembra Mário Barbosa, que na altura se dedicava à engenharia metalúrgica. Era preciso alterar estes implantes e introduzir novos materiais como o titânio. Foi esta a primeira aventura da equipa do INEB, que hoje se dedica a várias áreas: Biomateriais, Regeneração de Tecidos e Geoepidemiologia e a aplicação de Sinal e Imagem em métodos não invasivos de diagnóstico.
Demasiado vago? Vamos a exemplos. Quando pegamos num dos principais constituintes das cascas de camarão ou do caranguejo (o quitosano) e - depois de um processo de transformação química - o levamos para junto dos ossos para conseguir uma regeneração do tecido, entramos no fascinante mundo dos biomateriais. Mário Barbosa conta que os investigadores do INEB já passaram pela fase da experimentação animal e estão a passar agora a etapa da experimentação clínica. O que se pretende no projecto que decorre com a Universidade de Londres é o preenchimento de defeitos ósseos.
Ao mundo do mar os cientistas também foram buscar - e eis outro exemplo - um derivado das algas, o alginato de sódio, para reparar tecidos ósseos. Num caso de remoção de um tumor do fémur podem resultar danos profundos que uma boa dose de microesferas de alginato revestidas de células ósseas (osteoblastos) pode ajudar a reparar mais rapidamente. "As microesferas estão agora a entrar na fase de experimentação animal. Mais um ano para perceber a toxicidade do material e depois é preciso começar a procurar empresas parceiras para passar à fase clínica", avisa Mário Barbosa.
O lema é, já dissemos, engenharia que vive. "Construir materiais semiartificiais que as células reconhecem e onde 'trabalham'. A ideia é fazer coisas no laboratório que vivam: que sejam capazes de induzir processos de regeneração", explica Mário Barbosa. E, tal como se prova no caso do projecto das cascas de camarão e caranguejo e das minúsculas esferas, os produtos de origem marinha são uma promessa neste campo. "Nós não nos podemos esquecer que viemos do mar e que ainda temos muita coisa em comum ", diz o cientista, defendendo a importância de "ir à origem". "Os peixes são os nossos ancestrais. Em proteínas e sais não somos tão diferentes quanto se possa pensar."
Na área dos biomateriais, os cientistas serão incendiários. "O papel dos cientistas é acender a fogueira. Introduzir o elemento que é a chama capaz de induzir a reacção das células do corpo. Que dão um sinal ao organismo para o processo de regeneração." Hoje, já conseguimos provar que somos capazes de manipular estruturas básicas da matéria orgânica, como o fósforo. Com o conhecimento e as ferramentas que temos já conseguimos produzir um sistema capaz de regenerar partes substanciais do nosso corpo, da cartilagem, da pele, dos nervos. Quem sabe se um dia não conseguiremos coisas mais complexas: fazer crescer de novo um braço perdido. Ficção científica? "Não será no nosso tempo de vida, mas acredito que algum dia pode ser possível", anuncia Mário Barbosa.
O final desta viagem seria sermos capazes de imitar os mecanismos de regeneração que encontramos nas estrelas-do-mar, nos ouriços ou nos lagartos e que a natureza já inventou há milhões de anos. As estruturas e sistemas que usam continuam a ser modelos de estudo. Mário Barbosa confirma: "Estive até recentemente fechado num laboratório em Itália, durante seis meses, a estudar ouriços-do-mar."
"Há estudos em curso que procuram a regeneração no sistema nervoso periférico. Quem sabe um dia conseguimos assistir a uma regeneração da espinal medula, como já se observou em ratos de laboratório?" Uma promessa perigosa de fazer, reconhece o cientista, que lembra os projectos internacionais com corações artificiais que ainda não conseguiram os resultados desejados. Há limites neste jogo de incendiários. "Há experiências complexas que colocam dilemas éticos tremendos quando propomos, por exemplo, que participem num projecto que entrega um órgão artificial prometendo, em troca, um mês de vida." Uma das pessoas que receberam um coração artificial teve mais seis meses de vida. "As pessoas estão dispostas a tentar quase tudo para viver mais cinco ou seis meses." Às vezes, para viver só mais um minuto que seja.
Simulador de partos
Em Janeiro de 2008 foi notícia o simulador de partos desenvolvido por estes cientistas, em colaboração com a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Tratava-se de um software apoiado num modelo matemático. Estávamos perante um manequim de uma mulher grávida que experimentava situações que vão desde a compressão do cordão umbilical (que pode acontecer uma vez em 3600 partos) até complicações mais raras. Uma ferramenta preciosa para treino dos profissionais de saúde que atraiu a atenção da empresa norte-americana Medical Education Technologies, Inc (METI), que se mostrou disposta a produzir e comercializar o simulador em 2009. Estamos na área de aplicação de Sinal e Imagem em métodos não invasivos de diagnóstico. "É impossível desenvolver um dispositivo e acompanhá-lo desde a concepção até à aplicação clínica", diz Mário Barbosa, justificando que, depois de desenvolver um "produto" com parceiros, é tempo de partir para outra aventura. Alguém fica com o negócio de o levar até ao mercado das coisas reais.
Falta a Geoepidemiologia. Uma equipa do INEB divulgou em 2006 os resultados de um trabalho que mostrava que as populações de Trás-os-Montes, Viseu, Ribatejo, Setúbal e Algarve eram as mais sujeitas a complicações da osteoporose. Os investigadores estudaram as fracturas do colo do fémur entre 2000 e 2002 e descobriram diferenças significativas, com algumas regiões a revelar uma incidência cinco vezes superior às áreas menos afectadas (Alto Alentejo, Centro Sul ou Alto Minho). O passo seguinte era pesquisar uma eventual relação entre estes casos e as condições socioeconómicas e, especificamente, com deficiências alimentares e qualidade da água. Os dados destas novas fases do projecto já foram recolhidos e tratados e parecem comprovar uma possível ligação. Falta agora apenas publicar o trabalho para que seja notícia.
O INEB foi e é motivo de notícia. Entre outras distinções contam-se 25 prémios atribuídos aos trabalhos desenvolvidos. Hoje tem 105 investigadores, incluindo os alunos de mestrado integrado. A principal missão "é constituir uma interface entre a universidade, a indústria e os sectores da saúde nas áreas da Engenharia Biomédica". Há 20 anos que cumprem esta missão e que mostram que a engenharia vive.

domingo, julho 12, 2009

a urgência de babilónia

Babilónia tem de ser restaurada com urgência
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12.07.2009, Sofia Lorena

A lendária capital da Suméria recebeu uma base militar norte-americana e foi "seriamente danificada"

Erguer uma base militar na cidade arqueológica da Babilónia é "como estabelecer um campo militar em redor da Grande Pirâmide do Egipto ou à volta de Stonehenge, no Reino Unido", escreveu-se em 2005 num estudo do Museu Britânico. A verdade é que em 2003 e 2004 ali funcionou uma base militar, primeiro norte-americana e depois polaca, e os estragos que ela provocou, diz agora a UNESCO, têm de ser resolvidos com urgência.
"Sem apontar dedos, temos um retrato claro da situação", afirmam os autores do novo relatório, do comité internacional para a salvaguarda da herança cultura iraquiana. "A presença na cidade implicou estabelecer uma zona militar, com fortificações e medidas defensivas que causaram estragos directos e indirectos", explica-se.
Há os tijolos esmagados em nove dos corpos de animais que adornam a Porta de Ishtar, estragos devidos à construção de estacionamentos e depósitos de petróleo, uma estrada que foi aberta até à zona dos templos, materiais arqueológicos retirados do contexto para dar lugar a barreiras de segurança e trincheiras. E estragos que se imaginam mas não se podem confirmar, já que boa parte da cidade está por escavar. "Várias zonas" foram "niveladas e cobertas de areia e gravilha", e nalguns casos ainda "tratadas com químicos", antes de o solo ser compactado por "equipamento pesado", o que "pode ter destruído quaisquer antiguidades no subsolo". "Os efeitos dos químicos nas camadas subterrâneas não são ainda conhecidos".
A Babilónia, ocupada a 21 de Abril de 2003, já tinha sido pilhada: foram roubados e destruídos objectos da biblioteca e dos arquivos da cidade e ainda dos museus com os nomes de dois reis que a governaram, Nabucodonosor (604-562 a.C.), o construtor dos jardins suspensos, uma das sete maravilhas do mundo antigo, e Hammurabi (1792-1750 a.C.), autor do primeiro código de leis do mundo.
Entre os estragos, a prioridade vai para a Porta de Ishtar e para o Caminho Processional, parcialmente esmagado por tanques e helicópteros. Cabe ao Conselho das Antiguidades e do Património Iraquiano "realizar intervenções de urgência: restaurar os templos de Ninmah, de Nabu-sha-Hare, de Ishtar e o muro da cidade interior". Depois, é preciso pensar na "reabertura parcial". E assim, a cidade da antiga Mesopotâmia, "indiscutivelmente um dos mais importantes lugares arqueológicos do mundo", poderá integrar a Lista do Património Mundial da UNESCO.

mcnamara

1916-2009 Robert McNamara Uma outra maneira de dizer Guerra do Vietname
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12.07.2009

Tinha uma energia inesgotável e nas salas de reuniões era um gigante, com uma memória infalível e enorme facilidade para lidar com números (chamaram-lhe "uma máquina IBM com pernas"). Mas a magia com os números tinha um lado negro. Foi acusado de ter manipulando estatísticas e personificou os sucessivos erros de julgamento em que os EUA se enredaram no Sudeste Asiático (chamaram-lhe também "um desastre ambulante"). Robert McNamara foi
o cérebro da Guerra do Vietname. Morreu na última semana, aos 93 anos. Por Stephen Braun

Robert McNamara foi o principal e incansável entusiasta da Guerra do Vietname, o secretário de Estado da Defesa dos Estados Unidos que se deslocou mais de quarenta vezes às zonas de combate em representação de dois presidentes norte-americanos. Determinado, cerebral e belicoso, foi o principal responsável político pelo imenso programa de aumento de forças militares dos EUA no Vietname entre 1964 e 1968 e foi quem habilmente arranjou para a imprensa factos e números a dar força aos argumentos que apoiavam o envio de conselheiros militares e, depois, tropas armadas terrestres numa "guerra limitada" destinada a deter o avanço das forças comunistas do Vietname do Norte e dos guerrilheiros do Vietcong em direcção ao Vietname do Sul.
Mas McNamara, que morreu na segunda-feira passada, aos 93 anos, na sua casa em Washington, após um período de saúde já debilitada, acabou por lamentar o seu papel no Vietname. Manteve as suas dúvidas para si próprio durante quase três décadas, até finalmente as revelar em público.
Em 1995, num livro de memórias, avançou com uma reavaliação cuidadosamente escolhida e detalhada das suas decisões em tempo de guerra. Mais tarde, em 2004, o documentário The Fog of War, premiado com um Óscar, apaziguou alguns dos seus detractores mas enfureceu outros.
McNamara foi presidente da Ford Motor Company e chefiou o Departamento da Defesa dos Estados Unidos durante sete anos, nas Administrações dos democratas John F. Kennedy e Lyndon B. Johnson. No auge da sua influência e durante décadas depois, personificou tanto as promessas iniciais como os sucessivos erros de julgamento em que se enredou a nação norte-americana no conflito do Sudeste Asiático.
Na altura em que McNamara abandonou o gabinete da Defesa em 1968, 535 mil homens tinham sido obrigados ou convencidos a alistar-se e quase 30 mil tinham morrido no conflito que se espalhava. No final de mais de uma década de guerra, tinham morrido mais de 58 mil norte-americanos e três milhões de vietnamitas (do Norte e do Sul). As dúvidas privadas de McNamara foram crescendo à medida que o número de mortes de norte-americanos aumentava, acabando por levar à sua saída do Governo.
Figura dinâmica
Em Washington, McNamara era uma figura dinâmica, a quem os típicos óculos de fina armação metálica e um cabelo cuidadosamente penteado e com risca ao lado davam a aparência de um professor debaixo de tensão. Em boa condição física e com uma energia inesgotável, McNamara conquistou os presidentes Kennedy e Johnson com o seu persistente optimismo, profundas capacidades de organização e gestão e conhecimento das zonas obscuras da burocracia que lhe conferiam destaque e amedrontavam os seus rivais.
Nas salas de reuniões era um gigante, equipado com uma memória infalível e uma facilidade para lidar com números que lhe permitiam dominar conselhos de ministros e audições no Congresso. Logo nos primeiros tempos, o senador republicano Barry Goldwater Jr., espantado, afirmou que ele era "um dos melhores secretários que já houve, uma máquina IBM com pernas". Mais tarde Goldwater alterou a sua opinião, fazendo eco dos generais veteranos que achavam que McNamara era "um desastre ambulante".
Numa famosa reunião de 1961, McNamara absorveu uma complexa apresentação de uma hora sobre limitação nuclear dada por um especialista do RAND Institute, olhou por alto para 54 slides recheados de detalhes, e rapidamente decidiu abandonar a política da Administração Eisenhower de apontar mísseis nucleares às cidades russas - mudou os alvos, que seriam agora as instalações militares soviéticas. Sem qualquer discussão, a sua chamada "doutrina ao correr da pena" iniciou a política de counterforce [em que, numa guerra nuclear, os alvos seriam as instalações militares e industriais, deixando de lado as zonas civis] que iria dominar a estratégia militar dos Estados Unidos durante os quarenta anos que se seguiram, escreveu a biógrafa Deborah Shapley.
Mas a magia de McNamara com os números tinha um lado negro. Os adversários acusaram-no de ter enganado os seus superiores na Presidência e o público norte-americano, manipulando as estatísticas - desde a "contagem de cadáveres" das vítimas em campo de batalha até à minimização das estimativas do poder das tropas inimigas - e apresentando um retrato falsamente optimista das muito sinistras perspectivas futuras da guerra.
"A lealdade de McNamara era para com os seus chefes e não para com a verdade. Ele mentiu-lhes. Pessoas que estavam sob a sua responsabilidade mentiam. Ele fez isso com Kennedy e fez isso com Eisenhower, e só quando foi empalado com o fracasso da guerra é que não soube o que fazer", declara David Halberstan, que denunciou McNamara como um "idiota" no livro The Best and The Brightest, de 1972, um relato sobre os oficiais de altas patentes que pressionaram a favor do envolvimento dos Estados Unidos no Vietname.
Teoria do dominó
McNamara era o arquétipo de uma nova vaga de especialistas em gestão que se destacaram em Washington durante a década de 1960. Rodeou-se de um bando de analistas que ficaram conhecidos como os seus whiz kids [jovens excepcionalmente brilhantes e/ou bem sucedidos], e estes tiveram um papel preponderante na recolha e compilação dos classificados Pentagon Papers, um exaustivo relatório da entrada dos Estados Unidos no Vietname que McNamara secretamente encomendou em 1967.
Inchado de confiança em si próprio, McNamara transformou o Departamento de Defesa num gigantesco feudo militar e civil que assim se mantém até hoje. Mas foi o Vietname que o definiu, desde a sua determinada supervisão dos primeiros contingentes de conselheiros "boinas-verdes" enviados pela Administração para o Vietname do Sul em 1961 até às suas dúvidas privadas que levaram a que Johnson o substituísse como secretário de Estado da Defesa.
Quando o senador Wayne Morse, democrata do estado do Oregon que se opunha à guerra, disse em 1965 que o conflito no Vietname se transformara na "Guerra de McNamara" - uma sarcástica referência à canção McNamara's Band ["A Banda de McNamara"], popularizada por Bing Crosby em 1945 -, o secretário de Estado da Defesa não teve o menor pejo em aceitar a frase como um cumprimento. "Não me importo nada que lhe chamem a 'Guerra de McNamara'", disse a um jornalista. "Na realidade, estou orgulhoso de que me associem a ela."
Mas em 1968, após se ter oposto ao continuar da escalada militar e ter proposto um congelamento na quantidade de tropas, McNamara viu-se afastado por Johnson, e logo depois nomeado presidente do Banco Mundial, cargo que manteve durante 13 anos até se reformar em 1981.
McNamara manteve as suas dúvidas para si próprio durante quase três décadas, mas finalmente veio a público em 1995 com um livro de memórias que metodicamente ia desconstruindo muitas da suas anteriormente acarinhadas presunções e decisões marcantes.
Identificar os erros
No seu livro In Retrospect: The Tragedy and Lessons of Vietnam questionou a chamada "teoria do dominó", que receava que a perda do Vietname do Sul levaria a uma sucessão de conquistas comunistas no resto do Sudeste Asiático. McNamara reconheceu que ele e outros membros da Administração norte-americana tivessem avaliado mal o apoio popular à Frente de Libertação Nacional de Ho Chi Minh e sobrestimado os limites da capacidade militar dos Estados Unidos.
"O meu objectivo não é justificar erros ou apontar culpados, mas identificar os erros que cometemos", escreveu.
Mas a sua linguagem cuidada e o desejo de informar sem admitir culpa não conseguiram equilibrar a formidável influência emocional que a guerra continuava a exercer no espírito norte-americano. Numa curta digressão de conferências, McNamara viu-se confrontado com implacáveis veteranos do Vietname e familiares dos mortos.
Manteve os seus pensamentos privados bem sob controlo, mas a sua face acossada denunciava-os. Parecia "um fantasma de todos os que morreram e foram esmagados por este país em pouco mais de uma geração", escreveu Paul Hendrickson, num devastador retrato de McNamara na terceira-idade.
McNamara aproveitou uma última oportunidade para salvar a sua reputação, sentando-se para uma série de entrevistas filmadas com o realizador Errol Morris que resultaram em The Fog f War.
Quando Morris lhe perguntou por que razão ele não tinha falado publicamente sobre as suas dúvidas enquanto a guerra ainda decorria, McNamara manteve-se firme: "É este tipo de perguntas que me mete em sarilhos", respondeu. "Muita gente não compreendeu a guerra, não me compreendeu. Muita gente pensa que sou um filho-da-mãe."
Robert Strange McNamara nasceu a 9 de Junho de 1916 em São Francisco. Foi aluno de 20 mas também um atleta disciplinado e escuteiro, corria e fazia longas caminhadas. Mais tarde desenvolveu um interesse por montanhismo e escalada, e durante os anos que passou no Governo escalou o Matterhorn, de 4500 metros, nos Alpes suíços.
Após frequentar a Universidade da Califórnia em Berkeley entrou em 1937 para a Graduate School of Business Administration da Universidade de Harvard, onde se mostrou excelente aluno em técnicas de gestão e de contabilidade. Aceitou um lugar de professor em Harvard, onde também se casou com Margaret Craig, uma velha amiga de São Francisco.
Alistou-se como voluntário para a Marinha após o ataque japonês a Pearl Harbor em 1941 mas foi recusado devido a problemas de visão. As suas capacidades para a estatística tornaram-no porém valioso para o esforço de guerra: em 1943 foi-lhe concedida uma comissão temporária como capitão, durante a qual trabalhou para melhorar a precisão dos bombardeiros de longo alcance B29 que lançaram toneladas de bombas incendiárias sobre cidades japonesas.
Após a guerra, McNamara considerou regressar a Harvard, mas quando ele e a mulher foram afectados por um breve surto de poliomielite, aceitou uma oferta mais bem remunerada na Ford Motor Company. Aí, juntou-se a um círculo restrito de jovens assistentes contratados pelo presidente da administração Henry Ford II para darem uma sacudidela na companhia com análises estatísticas, o uso rigoroso de números para perceber tendências e melhorar sistemas.
O grande fiasco de 1958 da Ford, o Edsel, foi lançado sob a sua supervisão, mas McNamara foi lesto a fechar a linha de produção e a limitar as perdas. Subiu rapidamente até às chefias superiores da Ford e em 1960 tornou-se o primeiro presidente da administração da companhia vindo de fora da família Ford.
A sua estadia à frente dos destinos da Ford foi curta. Democrata que se movia nos meios empresariais fortemente republicanos de Detroit, McNamara recebeu a oferta de uma pasta governamental na nova Administração Kennedy: Defesa ou Finanças. McNamara escolheu a Defesa.
O Vietname foi uma sombra logo desde o início. O Presidente cessante, Dwight Einsenhower, avisara Kennedy acerca do Vietname e Kennedy reagiu, ordenando a McNamara e aos seus generais que criassem uma estratégia militar para segurar o corrupto e vacilante regime sul-vietnamita de Ngo Dinh Diem. Ao princípio, delinearam um cauteloso programa de ajuda limitada, enviando 400 "boinas-verdes" para treinar as tropas sul-vietnamitas. Este contingente era a vanguarda de uma força que cresceu até aos 17 mil homens por altura do assassínio de John Kennedy, três semanas após Diem ter sido morto num golpe em Novembro de 1963. Mas nas reuniões a nível interno McNamara pressionava para que a presença dos Estados Unidos fosse aumentada para 200 mil efectivos.
Assassínio de Kennedy
McNamara estava convencido de que "os dominós cairão uns após os outros se perdermos o Vietname", afirmou pesarosamente, olhando em retrospectiva aquando de uma série de entrevistas dadas em Berkeley em 1996. "Essa era certamente a convicção geral nos meios da política externa... Acho que afinal estávamos errados, e eu claramente avaliei mal."
As preocupações com o Vietname foram rapidamente afastadas por uma série de problemas de política externa mais prementes. Um mês antes de as primeiras forças especiais chegarem ao Vietname do Sul, a Administração Kennedy deu autorização para que os exilados cubanos nos Estados Unidos levassem a cabo uma tentativa de derrubar o ditador cubano Fidel Castro. Os rebeldes sofreram um verdadeiro desastre na Baía dos Porcos.
McNamara tinha aconselhado Kennedy a avançar com a invasão secreta, que tinha sido um projecto de Eisenhower. Mais tarde, McNamara disse que esta decisão constituía o seu maior arrependimento, um claro "erro naquela altura".
Um ano mais tarde, McNamara teve um papel central no malabarismo político e nuclear da Administração Kennedy durante a crise dos mísseis em Cuba. Os Estados Unidos utilizaram a ameaça de bloqueio e a diplomacia privada para intimidar e convencer o líder soviético Nikita Krutschev a retirar as armas nucleares ofensivas da ilha das Caraíbas. McNamara ficou satisfeito com o seu papel no resultado final, afirmando que a contenda "demonstrou a preparação e disponibilidade das nossas Forças Armadas para enfrentarem uma emergência súbita".
O assassínio de John Kennedy em Dallas a 22 de Novembro de 1963 afectou profundamente McNamara. Este tornara-se íntimo das relações sociais de Kennedy, pelo que Robert, o irmão do Presidente assassinado, pediu ao secretário de Estado da Defesa que o acompanhasse para ir receber o caixão de John quando este chegasse de avião a Washington. A pedido de Robert, foi também McNamara que escolheu o local isolado no Cemitério Nacional de Arlington onde o Presidente foi enterrado.
Numa encruzilhada
O sucessor de Kennedy, Lyndon Johnson, manteve McNamara no Governo, e em breve estava tão impressionado como Kennedy ficara. Em Agosto de 1964, uma série de escaramuças entre vasos de guerra norte-americanos e norte-vietnamitas no golfo de Tonquim deu a McNamara e aos seus generais carta branca para alargar a guerra. O episódio originou um quase unânime voto no Congresso que autorizava Johnson a utilizar tropas terrestres. Anos mais tarde, historiadores continuam a debater se os ataques foram tão graves como se fez crer pelos relatórios - e se justificavam uma tal escalada da guerra.
McNamara insistiu que os ataques norte-vietnamitas eram reais e suficientemente alarmantes para provocar uma reacção violenta. A sua única hesitação, contou anos mais tarde, era a ligação entre as escaramuças e o voto no Congresso. "Não conseguimos levar o Congresso e o povo americano a participar numa ampla e franca discussão e debate acerca dos prós e dos contras", escreveu nas suas memórias.
Mas internamente McNamara liderava a ala mais dura na tentativa de enfraquecer tal debate. Quando o subsecretário de Estado George Ball tentou apresentar a Johnson um memorando que se opunha ao continuar da escalada da guerra, McNamara reagiu rispidamente. Ele "deu a entender que eu tinha sido imprudente ao colocar tais dúvidas por escrito", recordou Ball em 1994. Pior ainda, continuou Ball: McNamara concordou consigo em privado e depois "deu cabo" dele quando se encontraram com Johnson.
Em 1965, quando as forças norte-americanas no Vietname do Sul já ultrapassavam os 150 mil homens, McNamara avisou Johnson, em privado, de que os Estados Unidos tinham chegado a "uma encruzilhada" e tinham que escolher: ou a guerra aumentava, ou se retiravam do Vietname. Mas em público McNamara continuou obstinado e agressivo, lançando uma campanha de bombardeamentos aéreos de cidades e instalações militares e industriais norte-vietnamitas.
Relatório secreto
No Outono de 1966 McNamara, em privado, mostrava já os efeitos da tensão e esforço a que estava submetido. Surgia agora "visivelmente angustiado" quando discutia a guerra, relembra Anthony Lee, então um funcionário júnior do serviço diplomático que mais tarde se tornaria assistente do presidente Bill Clinton para a Segurança Nacional.
Em 1967, sem autorização de Johnson, McNamara ordenou secretamente a uma equipa de analistas um relatório sobre as origens do envolvimento dos Estados Unidos no Vietname. O estudo ocupou três dúzias de investigadores durante 18 meses até estar completo, mas as 7000 páginas permaneceram secretas até 1971, quando o analista Daniel Ellsberg cedeu partes do estudo ao jornal New York Times. Em meados de 1967, quando soube do projecto, Johnson suspeitou de que McNamara planeava utilizar os resultados para ajudar a campanha presidencial do senador Robert Kennedy. Consciente de que os seus dias como secretário de Estado da Defesa estavam a terminar, McNamara começou a fazer alusões ao seu interesse num lugar de topo no Banco Mundial. Depois de meses de silêncio, Johnson subitamente anunciou a nomeação de McNamara para o lugar, e em Março de 1968 McNamara abandonou a Administração norte-americana.
Mesmo depois de se ter demitido do Banco Mundial em 1981, a guerra continuou a persegui-lo. Por fim, em 1995, McNamara finalmente decidiu falar publicamente. Escreveu In Retrospect para examinar os erros que ele e outros oficiais e funcionários de topo tinham cometido e sistematizar para futuros políticos e decisores as lições aprendidas. Mas alguns americanos que continuavam a sofrer das feridas psicológicas da guerra não estavam assim tão dispostos a esquecer e perdoar. Durante uma apresentação na Kennedy School of Government da Universidade de Harvard, em 1995, aquando de uma digressão de conferências, McNamara foi confrontado por John Hurley, um veterano do Vietname que mais tarde seria um dos principais ajudantes na campanha presidencial do senador John Kerry em 2004. "Tenho que lhe dizer, senhor, e não há forma educada de colocar isto, que o seu livro e a sua presença aqui são uma obscenidade", disse Hurley a McNamara.
Quando Hurley pressionou McNamara para explicar por que razão permanecera em silêncio acerca das suas dúvidas durante a guerra, McNamara sugeriu a Hurley que lesse o livro. Quando Hurley o voltou a pressionar, McNamara perdeu o controlo. "Cale-se", gritou, e depois voltou a apresentar um raciocínio que fizera 40 anos antes.
"Ele nunca percebeu, nunca pareceu preocupar-se com os custos humanos de cada ano", disse Hurley mais tarde. "Para ele, o Vietname era apenas uma questão de política, números sem vida para serem geridos."
Foi essencialmente a mesma justificação sem remorsos que McNamara deu, sozinho, em frente às câmaras de filmar em The Fog of War. "Todos nós cometemos erros", explica em certa altura do documentário. "Não conheço nenhum chefe militar, que seja honesto, que diga que nunca cometeu um erro. Há uma frase maravilhosa: 'O nevoeiro da guerra [The fog of war].' O que 'O nevoeiro da guerra' significa é: a guerra é tão complexa que está para além das capacidades do ser humano abarcar todas as variáveis. O nosso discernimento, a nossa compreensão, não são adequados."

Exclusivo PÚBLICO/"Los Angeles Times"

quinta-feira, julho 02, 2009

Prisões são "armazéns" de pobres
http://jornal.publico.clix.pt/
02.07.2009, Ana Cristina Pereira


Professor da Universidade da Califórnia abriu V Conferência Latina de Redução de Riscos


Bernard Madoff, o administrador de uma sociedade de investimento condenado a 150 anos de prisão por um tribunal de Nova Iorque, "é uma excepção". As cadeias americanas estão cheias de pobres, clarificou ontem, no Porto, o sociólogo francês Loïc Wacquant, na abertura da V Conferência Latina de Redução de Riscos.
"Estamos na era pós-industrial", começou por explicar o professor da Universidade da Califórnia. Para trás vai ficando o "Estado de bem-estar social, com uma certa protecção que depende de um trabalho estável, assalariado".
Nas sociedades avançadas, como os EUA ou a França, nos últimos 30 anos, disparou o número de reclusos. Isso "faz parte de uma reestruturação mais alargada relacionada com o desaparecimento (até Setembro último) do Estado económico; a transformação do Estado-providência em Estado disciplinador, que vigia os pobres; o crescimento das polícias, dos tribunais, das prisões".
Para Loïc Wacquant, as prisões convertem-se em "armazéns de pessoas que não conseguem emprego", como toxicodependentes, doentes mentais. Têm "também por função disciplinar a classe trabalhadora reticente face aos novos empregos precários".
Por todo o lado, o sociólogo vê transformar a luta contra o crime num espectáculo moral para reafirmar a autoridade do Estado. Políticas como a tolerância zero não levam a menos crise, avisou. Não geram emprego, educação, apoio social: "Políticas como a tolerância zero conduzem ao estado penal".
O orador descreveu uma figura disforme: um estado com "uma cabeça liberal e um corpo autoritário". "As políticas neoliberais constroem estados liberais, laissez faire, laissez passer, no topo; e punitivos na base, vigilantes, autoritários, quando se trata de lidar com as consequências do laissez faire, laissez passer", defendeu.
Seis em cada dez presos dos EUA são negros e hispânicos, apesar de estes dois grupos juntos representarem apenas 20 por cento da população, exemplificou. Metade não tinha terminado o ensino secundário ao ser detido, apesar de apenas 12 por cento do total dos residentes nos EUA não terem completado esse grau de ensino.

Estrutura celular do hadrossauro ficou conservada
Múmia de dinossauro revela que pele do réptil era igual à das aves e dos crocodilos
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1389776&idCanal=13
01.07.2009 - 19h21 PÚBLICO

Até agora, o que se conhecia da pele dos dinossauros começava nas pequenas escamas descobertas perto de ossos fossilizados e terminava em teorias. Mas a descoberta de uma múmia de um hadrossauro com pouco mais de 65 milhões de anos permitiu aproximar os cientistas aos factos: a pele dos répteis é parecida com a dos crocodilos e a das aves.

“Isto é a experiência mais próxima que se pode ter de tocar num dinossauro extinto”, disse em comunicado o paleontólogo Phillip Manning, da Universidade de Manchester, em Inglaterra, um dos autores do artigo publicado hoje na revista “Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences”.

A múmia pertence a uma das espécies de hadrossauros, os famosos dinossauros com a boca em forma de bico de pato. O fóssil foi descoberto nos Estados Unidos, na formação rochosa sedimentar de Hell Creek, uma cadeia montanhosa rica em fósseis que atravessa os estados de Dacota – que deu o nome ao exemplar – e Montana.

As razões que levaram dakota a cair num leito de um rio, há mais de 65 milhões de anos – pouco antes da extinção em massa dos maiores répteis que caminharam na Terra – são desconhecidas. Mas as circunstâncias permitiram que os sedimentos envolvessem rapidamente o animal criando uma espécie de cimento. O corpo acabou por estar muito pouco tempo em contacto com o oxigénio, impedindo a degradação.

A estrutura celular que ficou está impecavelmente conservada. “Estamos a olhar para produtos alterados que eram originalmente proteínas do animal que ficaram aprisionados na pele mineralizada”, explicou o investigador à BBC News.

A pele de dakota é igual às aves e aos crocodilos, os descendentes actuais dos dinossauros, e está dividida em duas camadas: a epiderme, mais à superfície, e a derme. Apesar de a estrutura ser o que se esperava, Manning apelidou o achado de “ciência limpa”. “Se se tem uma hipótese e não se pode testar, continuará a ser uma hipótese. Agora temos um dinossauro excepcionalmente conservado que permite pela primeira vez pôr a hipótese e respondê-la”, disse.

Pele às riscas

O dinossauro tinha cerca de 7,5 metros. Através dos ossos da pélvis e do peito, os investigadores presumem que a múmia pertença a uma das espécies do género Edmontosaurus, um dos maiores tipos de hadrossauros. O tamanho da secção de pele encontrada foi considerável, abrangendo a região da cauda, membros inferiores e parte dos membros posteriores.

A investigação permitiu concluir que apesar de não se ter descoberto a cor da pele, confirma-se que o hadrossauro apresentava riscas, como estudos anteriores previam. A análise complexa, baseada em microscopia, espectroscopia por infravermelhos, utilização de raio-x, garantiu a autenticidade da pele e permitiu tirar ilações que vão desde a forma como as proteínas se degradam com o passar do tempo até à ecologia da espécie.

Os investigadores notaram que a pele que se situa nos flancos – entre a cauda e as ancas – é mais fina do que no resto do corpo, e que poderia ser, segundo Manning, o “calcanhar de Aquiles” do hadrossauro. Aliás, fósseis que se encontraram deste tipo de réptil mostravam marcas de dentadas nesta região. “Ao conhecer-se a distribuição das estruturas da pele de uma presa, pode-se compreender algo sobre a interacção entre o predador e a presa, o que ajuda a explicar alguns dos fósseis de hadrossauros que apresentam estas marcas de dentadas”, disse Phillip Manning.

A pele também ajudou aos investigadores medirem com mais segurança a massa muscular do réptil, “o que pode ajudar a calcular a energia muscular e a sua velocidade e força”, explicou Manning. De acordo com as estimativas deste estudo o hadrossauro batia os 45 quilómetros por hora.

A análise de dakota ainda não está terminada, garante o investigador, que não omite o prazer que a investigação lhe tem dado. “Enquanto a maioria de nós tem que trabalhar com frases dissonantes e ocasionalmente com palavras partidas ao meio para reconstruir um registo fóssil, aqui temos todo um capítulo onde é possível percorrer as páginas ao nosso ritmo”, concluiu.

quarta-feira, julho 01, 2009

Grandes obras da literatura lidas às escondidas
http://dn.sapo.pt/inicio/artes/interior.aspx?content_id=1282074&seccao=Cinema
Ontem


A escritora e professora iraniana Azar Nafisi, filha de um ex-presidente da Câmara de Teerão, ensinava Literatura na Universidade de Teerão, de onde foi expulsa em 1981, por se recusar a usar um véu. Entre 1995 e 1997, e após mais uma experiência no ensino universitário, que deixaria em 1987, Nafisi organizou em sua casa aulas de Literatura clandestinas, nas quais se encontrava com um punhado das suas melhores alunas, para discutirem algumas das grandes obras da literatura ocidental (incluindo Lolita, de Vladimir Nabokov), num ambiente de descontracção e diálogo. Editado em Portugal pela Gótica, Ler Lolita em Teerão é uma memória dessa experiência, um elogio da paixão pelos livros e pela literatura sob uma teocracia repressiva, e uma crónica da vida de Nafisi, educada secularmente, até deixar o seu páis e se fixar nos EUA em 1997.