As Olimpíadas que não foram
http://dn.sapo.pt/2008/07/04/dnsport/as_olimpiadas_nao_foram.html
LUÍS PEDRO CABRAL
Adiados. Devido à I Guerra Mundial, a competição de 1916 não se realizou. Sobraram, sim, polémicas ligadas aos anteriores, na Suécia. Que chegaram a pôr em causa o próprio Comité Olímpico Internacional e a sua concepção de amadorismo. Situação criada pelas guerras desportivas entre ingleses e americanos
O mundo não estava interessado em questões desportivas
O sucesso dos Jogos Olímpicos de 1912 em Estocolmo revitalizou o espírito olímpico e mostrou ao mundo como organizar uma competição destas dimensões, integrando comitivas dos cinco continentes, globalizando-a, no melhor sentido do termo. O mundo, porém, caminhava inevitavelmente para um dos momentos mais tenebrosos da história da humanidade, na vertigem da eclosão da I Guerra Mundial. Em Julho de 1914, com o assassínio do arquiduque Franz Ferdinand, herdeiro do Império Austro-Húngaro, às mãos da Mão Negra, grupo terrorista nacionalista sérvio, tornou-se imparável a sequência de acontecimentos que culminariam na Grande Guerra. Quatro impérios desmoronaram, mais de nove milhões de pessoas perderam a vida até à paz podre de 1918.
Não estava, portanto, o mundo virado para o desporto, nem com espírito remotamente olímpico para levar por diante os Jogos Olímpicos de 1916, marcados para a cidade de Berlim que, por razões mais que óbvias, seriam anulados. Foi um duro golpe para o Comité Olímpico Internacional, chegando mesmo a colocar em causa a sua continuidade, mesmo em tempos de paz, coisa que ainda não estava à vista no futuro próximo. O próprio barão de Coubertin mostrou-se muito abalado com o que o Mundo estava a fazer ao Mundo e com o que o Mundo estava a fazer aos Jogos Olímpicos, em riscos sérios de extinção neste momento.
Aliás, na ressaca dos Jogos Olímpicos de Estocolmo, muitos heróis, muitas polémicas e pelo menos uma discussão acérrima entre ingleses e americanos, estritamente desportiva, havia de perdurar. É que, os resultados de alguns superatletas americanos nas Olimpíadas da Suécia trouxeram a lume, algo que o barão de Coubertin entendia ser uma questão de princípio e de honra para a manutenção do espírito olímpico, que tinha por base o amadorismo. O mesmo "amadorismo" que a veia aristocrata de Charles Pierre Fredy protegia com unhas e dentes. O "amadorismo" que durante um longo período acabaria por beneficiar os atletas do Leste europeu.
Um ano depois das Olimpíadas de 1912, estalou o escândalo em torno de Jim Thorpe, a quem o rei Gustavo V da Suécia chamou o melhor atleta do planeta, mas a quem acabariam por ser retiradas as medalhas de ouro, conquistadas no decatlo e no pentatlo, alegando que Thorpe tinha jogado futebol americano profissionalmente anos antes destas olimpíadas. Os ingleses aproveitaram imediatamente a deixa para acusar os americanos de ter um sistema semiprofissional dos seus atletas, já que este estava alicerçado no próprio sistema de ensino escolar. Jim Thorpe foi a grande vítima deste braço-de-ferro. Mesmo que mais tarde tenha provado à saciedade as suas qualidade atléticas sem igual. O próprio Comité Olímpico Internacional viu em Jim Thorpe o bode expiatório ideal, para que a mensagem ficasse bem vincada e, sobretudo, para evitar futuros "prevaricadores". A história de Jim Thorpe, como tantas outras à volta da História do olimpismo, estava mal contada. Passaram-se décadas até ter sido reposta a justiça das vitórias deste norte-americano, embora contendo a mais injusta das injustiças para o atleta: Aconteceu a título póstumo.|

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