"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

terça-feira, dezembro 23, 2008

A causa do tamanho dos seres vivos
http://dn.sapo.pt/2008/12/23/ciencia/a_causa_tamanho_seres_vivos.html
FILOMENA NAVES

Pesquisa. Investigadores dos Estados Unidos compararam os registos fósseis ao longo das eras com os dados geológicos da história do planeta e descobriram que dois episódios de oxigenação da Terra revolucionaram a organização da vida

Dois episódios na história da Terra estão ligados às dimensões dos animais

Dos microorganismo unicelulares invisíveis aos olhos humanos, até à baleia azul, o maior animal da Terra, há tamanhos para todos os gostos. Mas como chegou a vida a uma tal diversidade em 3,5 mil milhões de anos? Cientistas dos EUA fizeram a pergunta e descobriram dois momentos na evolução da Terra que foram decisivos para a diversificação do tamanho nos seres vivos.

Olhando para os registos fósseis ao longo das eras, e comparando-os com a história geológica do planeta, a equipa coordenada por Michal Kowalewski, do Virgínia Tech, verificou que houve duas épocas-chave para a complexificação da vida na Terra e para o surgimento de seres vivos do tamanho XXL, e que eles estavam relacionados com dois episódios de aumento do oxigénio na atmosfera terrestre. A descoberta foi publicada ontem na Proceedings of the National Academy of Sciences.

"Ficámos surpreendidos ao observar que o aumento da dimensão dos seres vivos ocorreu quase todo em dois intervalos de tempo distintos", disse o coordenador da equipa, explicando que aquele padrão básico "se tornou imediatamente visível na comparação dos registos fósseis com os dados geológicos".

Surgida na Terra há 3,5 mil milhões de anos, nos oceanos, a vida foi durante 1,5 mil milhões de anos feita de organismos unicelulares, de tamanhos diminutos. Dessa época só existem, aliás, registos fósseis de bactérias. Foi por essa altura, há dois mil milhões de anos, que surgiram os primeiros organismos complexos. Porquê nesse preciso momento? Porque a própria vida tinha preparado as condições para isso, fabricando oxigénio através do seu metabolismo, e as pequenas células que eram os seres vivos também tinham incorporado no seu interior estruturas funcionais, incluindo um núcleo com o seu material genético.

Nos 200 milhões de anos que se seguiram, os seres vivos começaram a incluir mais do que uma célula e foram-se tornando mais complexos. Há 540 milhões de anos, quando o oxigénio na atmosfera terrestre aumentou de novo de forma abrupta (para de 10% do que é hoje), os organismos sofreram nova complexificação e puderam atingir grandes dimensões. Hoje, o maior de todos é a baleia azul.

Alguém viu os patinhos de borracha da NASA?
http://jornal.publico.clix.pt/
23.12.2008

Se viu um patinho de borracha a dar à costa saiba que pode ser da NASA e que a agência espacial norte-americana gostaria de saber onde ele foi parar.
Não, não é brincadeira. A NASA deitou mesmo ao mar 90 patinhos amarelos em Setembro, fazendo-os passar por baixo dos gelos da Gronelândia, com o objectivo de estudar o fluxo das águas dos glaciares que se estão a derreter. Mas, até agora, os brinquedos que normalmente são colocados em banheiras nunca mais foram vistos, dizia ontem o site da BBC.

"Não soubemos mais deles. Se alguém os encontrar, seria muito importante para nós", disse à televisão britânica o cientista da NASA Alberto Behar, que estuda os canais tubulares que surgem na superfície dos gelos da Gronelândia, a ilha gelada nas imediações do Pólo Norte. Estes canais podem levar para o mar grandes quantidades de água do gelo que se derrete no Verão, ajudando a lubrificar a base destes lençóis de gelo e acelerando o seu derretimento.
Os patinhos foram lançados à água nesses canais - bem como uma sonda, mais sofisticada. Mas também não soube mais nada deste cilindro de plástico, que levava lá dentro um acelerómetro, um aparelho para medir diferenças de pressão, um leitor GPS e uma antena para se ligar a um satélite e transmitir a sua posição. "Provavelmente, ficou presa no gelo", estima Behar.

Três em cada dez pessoas acredita que o seu peso é inferior ao real
http://jornal.publico.clix.pt/
23.12.2008, Alexandra Campos




Três em cada dez pessoas inquiridas num estudo feito por uma empresa de aconselhamento na área da dietética e nutrição acreditam que o seu peso é inferior ao real.
São sobretudo os homens que têm uma percepção equivocada do seu peso, cerca de um terço do total dos entrevistados neste inquérito cujos resultados vão ser hoje divulgados em Lisboa.
Mas também há muitos indivíduos que estão convencidos de que o seu peso é superior ao real. Isso acontece com 10 por cento dos 392 entrevistados pela empresa Natur House (amostra aleatória de pessoas entre os 18 e os 60 anos residentes em Portugal continental).
Considerando apenas aqueles que já fizeram dieta em algum período das suas vidas, a maior parte (60 por cento) prescindiu de acompanhamento médico e repetiu a experiência três vezes, em média. A duração das dietas não é muito prolongada: quase metade não chega a três meses e a maior parte (66 por cento) não ultrapassa os seis meses.
É quando são confrontadas com uma doença que as pessoas mais facilmente optam por uma dieta, seguindo-se a adolescência e, curiosamente, o período após o casamento como as alturas em que o controlo da ingestão alimentar é mais frequente. Antes do casamento, apenas 1,8 por cento dos inquiridos admite ter decidido fazer uma dieta.
Quanto às prováveis causas que originam a obesidade, 84 por cento dos inquiridos identifica a alimentação descuidada como o principal factor, seguindo-se a vida sedentária e a falta de exercício físico.
Quase todos os entrevistados dizem que procuram ter uma alimentação saudável e equilibrada, nomeadamente controlando o consumo de gorduras e optando por comer legumes, sopa e fruta.
Para além dos cuidados alimentares, metade refere que anda a pé mas apenas 0,8 por cento diz que pratica desporto. Tendo em conta o Índice de Massa Corporal (IMC), a maior parte dos inquiridos (53,1%) apresenta excesso de peso e, destes, 8,7 por cento são obesos.
10%
Número de inqueridos que estão convencidos que o seu peso é superior ao real, embora a maioria ache o contrário
10%
Número de inquiridos que estão convencidos que o seu peso é superior ao real, embora a maioria ache o contrário

segunda-feira, dezembro 22, 2008

Invenção de um professor de Física
Óculos a um dólar podem ajudar um bilião de pobres
http://aeiou.expresso.pt/gen.pl?p=stories&op=view&fokey=ex.stories/484504
Pedro Miguel Neves*
16:30 | Segunda-feira, 22 de Dez de 2008



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Universidade de Oxford
Os óculos inventados pelo professor de Física Josh Silver
Um professor de Física britânico inventou um par de óculos que podem mudar o mundo. Josh Silver, de seu nome, conseguiu uma forma simples de corrigir a visão de milhões de pessoas, a baixo custo.

Cerca de 30 mil pares dos seus óculos foram já distribuídos em 15 países, mas o inventor britânico tem objectivos muito mais ambiciosos: pretende testar os seus óculos na Índia, no próximo ano, num milhão de pessoas. A longo prazo, até 2020, Silver gostava que um bilião de pessoas dos países mais pobres pudessem ter acesso ao seu corrector de visão.

Como muitas das grandes ideias, o conceito é bastante simples: cada pessoa pode 'afinar' o seu par de óculos, sem ser necessário recorrer a um especialista. Os óculos inventados por Josh Silver possuem dois tubos circulares cheios de um fluido, e cada um está ligado a uma pequena seringa fixada aos óculos por uma patilha. Baseado no princípio de que, quanto mais espessa uma lente for, mais poderosa se torna, a pessoa apenas necessita de ajustar a quantidade de fluido na membrana, alterando a potência da lente.

Assim que a pessoa sinta que a potência da lente se adequa à sua visão, apenas tem de fechar a membrana e retirar as seringas.

O princípio é tão simples que, mesmo com pouca informação, qualquer pessoa poderá entendê-lo facilmente, garante o cientista. O facto de não serem necessários optometristas para fornecer os óculos poderá ter um enorme impacto nos países do terceiro mundo, onde os especialistas nesta área são escassos: na Grã-Bretanha existe um optometrista para cada 4500 pessoas, enquanto na África subsariana a média é de um para um milhão.

Os óculos que fazem sorrir

O professor de Física estima que as implicações de levar os seus óculos às populações mais pobres são enormes. Durante um teste no terreno, levado a cabo no Gana e financiado pelo governo britânico, Silver conheceu um homem que foi forçado a reformar-se da profissão de alfaiate, devido à sua visão se ter deteriorado com a idade. "Então ele reformou-se. Tinha à volta de 35 anos. Poderia ter trabalhado pelo menos mais 20 anos. Colocámos-lhe os óculos, ele sorriu, colocou a linha na agulha e acelerou a sua máquina de coser. Agora pode trabalhar. Pode ver", conta o cientista ao jornal britânico 'The Guardian'.

Depois de descobrir os óculos de Josh Silver no Google, o Major Kevin White, que pertencia a um programa militar de ajuda humanitária, decidiu distribuí-los um pouco por todo o mundo. "A reacção é universal", conta. "As pessoas colocam os óculos e sorriem. Todas dizem 'Olha, consigo ler aquelas letras pequenas'", acrescenta.

O custo-alvo dos óculos é de apenas um dólar, mas distribuir um bilião de pares, sem qualquer lucro para Silver, não será tarefa fácil. Para isso, o cientista está a tentar envolver alguns governos e a ONU, enquanto trabalha em diferentes designs e outras alterações, como forma de baixar os custos.

"As coisas nunca são simples. Mas se puder, vou resolver este problema. E não vou deixar que ninguém se atravesse no meu caminho", conclui Josh Silver.

sábado, dezembro 20, 2008

O regresso do renegado Confúcio quando os chineses precisaram de se reencontrar
http://jornal.publico.clix.pt/
20.12.2008, Francisca Gorjão Henriques

Ao retirar ao regime a sua base ideológica, com a economia de mercado, Deng precisou de outras formas de legitimar o Governo. A resposta veio de um sábio com mais de 2500 anos

"Uma vez atingido o cimo da montanha, o mundo parece mais pequeno." Será como na frase de Confúcio: 30 anos depois de terem dado início às reformas que tornaram a China uma potência económica, os chineses sentirão hoje que andaram o que havia para andar? O filósofo que foi banido pelo regime comunista regressou, para ajudar o país a reencontrar-
-se consigo mesmo.
Um livro com respostas de Confúcio - um filósofo que morreu há 2560 anos - a questões actuais vendeu mais no ano passado do que o Harry Potter: 4 milhões de exemplares (sem contar com as dezenas de milhar de cópias). E todos os dias, entre 10 mil e 20 mil pessoas visitam o seu túmulo. As escolas de confucionismo multiplicam-se pelo país, sobretudo para responder aos pedidos da nova classe média.
"A economia está a desenvolver-
-se muito depressa, mas as pessoas sentem necessidade de sabedoria e moral", comentou Gu Qing, com livros publicados em cultura chinesa, ao Christian Science Monitor (CSM), num artigo de Julho de 2007. "Agora, que já resolvemos o problema de encher a barriga das pessoas, procura-se alguma coisa que lhes encha a mente."
Kongfuzi viveu na era "das Primaveras e dos Outonos", numa China dividida em reinos e num momento de transição do esclavagismo ao feudalismo, com uma melhoria do nível de vida e a introdução de várias descobertas. "Foi um período de explosão económica, intelectual e demográfica", resumiu à National Geographic (num número especial de Maio dedicado à China) Danielle Elisseeff, da Escola do Louvre.
Nascido em 551 a.C., na província de Lu, Confúcio foi ministro e conselheiro político da corte; teve alunos e discípulos, alguns dos quais escreveram e divulgaram as suas palavras, já depois da sua morte.

Socialismo e Confuciolândia
Mao Zedong era um admirador do "Primeiro Imperador", Qin Shi Huangdi (unificador da China), que rejeitou os ensinamentos de Confúcio. Tratou também, depois da Revolução Cultural (1966-76), de o renegar, afirmando-o incompatível com o socialismo.
Os guardas vermelhos chegaram mesmo a instalar-se no mausoléu do sábio, em Qufu (que a National Geo-graphic descreve agora como uma Confuciolândia) e a destruir inúmeros pagodes.
Mao considerava feudais as suas ideias de respeito pelos mais velhos, pela propriedade e a defesa da harmonia social conferida pela hierarquia - princípios que foram assimilados durante mais de dois milénios pela cultura chinesa, a ponto de o confucionismo ser a filosofia do Estado durante todo esse tempo. Mas, para Mao, era um obstáculo às transformações sociais.
E uma das graves ofensas desse período, a par de se ser revisionista ou imperialista, era advogar o confucionismo. "Uma das técnicas do Partido Comunista era classificar altos dirigentes em discordância de confucionistas inveterados. Era uma acusação gravíssima", refere ao PÚBLICO Moisés Silva Fernandes, do Instituto Confúcio da Universidade de Lisboa. Um dos exemplos foi Liu Shaoqi, Presidente da China, afastado em 1968.
Foi Deng Xiaoping que, ao mesmo tempo que introduzia as reformas económicas depois da morte do "Grande Timoneiro", veio "recuperar" o filósofo. Hoje, este processo parece até concluído.
Harmonia, a palavra-chave do confucionismo, foi usada pelo actual Presidente Hu Jintao, quando apresentou o seu slogan de uma "sociedade harmoniosa". O confucionismo faz até parte do currículo da Escola do Comité Central do Partido. Confúcio foi também o nome que o regime deu aos institutos culturais destinados a aprofundar a aprendizagem do chinês no estrangeiro e os contactos entre a China e o resto do mundo (como o da Universidade de Lisboa; há outro na Universidade do Minho).
Há também um debate em torno do que a sua mensagem representa para o PCC: a verdadeira procura de uma harmonia social, ou um instrumento para a classe dominante se manter no poder?

Voltar ao nacionalismo
"Quando regressou [depois das purgas], Deng verificou que o pensamento maoísta estava errado", continua o investigador português. "Viu o Japão com enorme progresso económico, Taiwan transformado, Hong Kong uma importante praça financeira. Deng teve que desmontar toda a linguagem do pensamento de Mao." E, ao fazê-lo, foi necessário encontrar alternativas.
"Retirar a base ideológica ao regime implicou ir buscar outra coisa para lhe dar legitimidade. Encontrou duas soluções: o regresso à filosofia de Confúcio e o nacionalismo."
O sábio é hoje enaltecido nas escolas. "O ensinamento dos seus princípios fundamentais - o indivíduo submete-se ao colectivo, deve-se evitar o conflito e procurar a harmonia, os mais novos devem respeito aos mais velhos, e os princípios não devem ser postos em causa - é favorável à manutenção do statu quo."
Ou seja, o homem que era apresentado por Mao como "o sábio das classes reaccionárias", lembra Silva Fernandes, "é uma figura que está a ser constantemente promovida para criar obediência dos governados em relação aos governantes. A ideologia confucionista dá grande legitimidade ao regime instituído, seja ele qual for".
Numa altura em que os escândalos de corrupção ligados ao Governo e aos poderes locais foram identificados como uma das grandes ameaças, e o fosso entre pobres e ricos está maior do que nunca, suscitando dúvidas sobre a política do Partido Comunista, esta legitimidade é particularmente necessária.

Glorificar o passado
Há quem aponte para ainda um outro objectivo do Governo: glorificar o passado da China. "Através do estudo do confucionismo, as pessoas aperceber-se-ão da glória e brilhantismo da tradição cultural chinesa", defende Zhang Huizhi, presidente da Associação Confucionista Chinesa, ao CSM. "Muita cultura ocidental está a invadir a China neste momento, por isso, desenvolver o confucionismo ajuda as pessoas a ganhar autoconfiança na sua própria cultura."
Ao mesmo tempo que aposta na investigação académica sobre o filósofo, o Governo "está também a incutir os resultados dos estudos nas vidas do cidadão comum", acrescenta Zhang. Mas isto é simplesmente "um regresso à normalidade. Podemos mudar o regime de um país", afirma. "Mas não pudemos mudar as suas fundações culturais."
Um livro com respostas de Confúcio a questões actuais vendeu em 2007 4 milhões de cópias, mais do que Harry Potter

Mark Felt, o misterioso Garganta Funda, morre aos 95 anos
http://jornal.publico.clix.pt/
20.12.2008, Rita Siza, Washington


Foi fundamental na investigação que ajudou a derrubar o Presidente Nixon. Só há três anos divulgou o seu envolvimento


Morreu Mark Felt, o antigo "número dois" do FBI que nos anos 70 foi a fonte confidencial da dupla de repórteres do jornal The Washington Post que expôs o escândalo Watergate, ajudando a derrubar a Administração de Richard Nixon - e tornando-se uma das figuras mais míticas do jornalismo de investigação norte-americano sob a designação Garganta Funda, um nome que, aliás, detestava.
Apesar do carácter romântico e do estatuto que adquiriu por causa da intransigência em manter-se no anonimato, Felt não foi a principal fonte da investigação da conspiração governamental que afundou muitos dos colaboradores mais próximos de Nixon e culminou com a resignação do Presidente.
Mas, como explicaram Bob Woodward e Carl Bernstein, os dois jornalistas do Post que sempre respeitaram o compromisso de não divulgar a sua identidade, foi fundamental na sua investigação, ao orientar o seu trabalho e confirmar informação recolhida junto de centenas de outras fontes. "Era ele que nos encorajava", comentou Bernstein, que só conheceu Felt pessoalmente no ano passado.
Era Woodward, que conhecera Felt casualmente quando não era ainda jornalista, quem se reunia com o director do FBI na clandestinidade, em parques de estacionamento dos subúrbios de Washington, para discutir a investigação. Esses encontros foram depois celebrizados no filme Os Homens do Presidente: Garganta Funda emergia da sombra, na sua habitual gabardina e envolto numa nuvem de fumo de cigarro, instando o jornalista a "seguir o dinheiro" (uma frase que, na realidade, Felt nunca proferiu).
Felt alimentou o segredo sobre o seu papel no caso Watergate durante 30 anos, desmentindo várias vezes - uma das quais, sob juramento perante um Grande Júri - ter qualquer responsabilidade na fuga de informação do FBI para o jornalista do Post. Nixon e os seus conselheiros desconfiavam dele e por cinco vezes o Presidente ordenou o seu despedimento. Os desmentidos de Felt e a sua reputação no interior da agência (era um lealista de Hoover) valeram-lhe a manutenção do seu posto.

A revelação em 2005
Felt ingressou no FBI em 1942, tendo trabalhado em espionagem de guerra (capturou um espião alemão nos Estados Unidos), no departamento que lida com roubos de bancos e ainda nas brigadas internas que velavam pelo respeito do código de conduta do FBI, que defendia vigorosamente.
Em 2005, depois de ter sofrido dois acidentes vasculares e ter sido diagnosticado com demência, Felt instruiu o seu advogado a divulgar o seu envolvimento com a investigação de Woodward e Bernstein. "Aquele a quem chamam Garganta Funda sou eu", escreveu num artigo publicado na revista Vanity Fair. Bob Woodward confirmou a veracidade da revelação e, como era seu desejo, Felt deixou de ser conhecido pelo título de um filme pornográfico.
Apesar de ser celebrado como um homem de princípios e coragem pelo seu papel de denúncia no escândalo Watergate, Mark Felt foi responsável por escutas e buscas ilegais a familiares e associados dos elementos do grupo radical Weather Underground que não tinham qualquer relação com as actividades criminosas daquela organização (foi condenado em 1980 mas recebeu um perdão presidencial).
Nessa altura já estava retirado do FBI e tinha-se mudado para a Califórnia, desiludido por ser preterido por duas vezes consecutivas na promoção a director daquela agência.

Estudo científico desmente mitos relacionados com medicina
Afinal, a cabeça não é a parte do corpo que perde mais calor
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1353568
18.12.2008 - 18h43 PÚBLICO
Uma noite de Inverno com um gorro, um boné ou um chapéu, é uma noite de Inverno mais quente. Mas ninguém perde metade do calor do corpo se tiver a cabeça destapada. Este é um dos vários mitos que foram destruídos na última edição do British Medical Journal, num artigo escrito por Rachel Vreeman e Aaron Carroll da Univesidade do Indiana, em Indianapolis.

A velha teoria que diz que a maioria do calor sai da cabeça nasceu, segundo os investigadores, no exército norte-americano. Um manual escrito nos anos de 1970, recomenda cobrir a cabeça quando está frio já que “40 a 45 por cento do calor corporal” é libertado pela cabeça. Segundo os autores, se isto fosse verdade, teríamos tanto frio sem um chapéu como sem umas calças. “O que não é o caso”, escrevem os autores no artigo, citados pelo jornal Guardian.

O mito nasceu de uma interpretação errada de uma experiência feita no Árctico pelo exército norte-americano na década de 1950. No estudo, os voluntários estavam vestidos com fatos para o frio, e eram expostos a temperaturas muito baixas. Como só tinham a cabeça destapada, a maioria do calor tinha que sair obrigatoriamente pela cabeça.

O que se passa, é que a cara, a cabeça e o peito, são as zonas em que melhor se sente as alterações de temperatura, e parece-nos que quando cobrimos estas zonas, prevenimos melhor a libertação de calor. Na realidade, cobrir uma parte do corpo tem o mesmo efeito do que cobrir outra parte. Segundo os cientistas, se na experiência os voluntários só estivessem com um fato de banho, a cabeça só perderia dez por cento do calor.

Cura para a ressaca é beber menos álcool

“Examinar mitos comuns da medicina relembra-nos para estar atentos às evidências que suportam os nossos conselhos”, diz o artigo. Para além do calor que se liberta a partir da cabeça, caem por terra outros mitos como o que diz que o açúcar torna as crianças hiperactivas, que comer à noite engorda mais e que há receitas que curam as ressacas.

Segundo o artigo, uma dúzia de estudos não consegue relacionar o comportamento das crianças com a ingestão de açúcar. Parece que a crença é um produto da imaginação dos pais. “Quando os pais pensam que as crianças tomaram alguma bebida com açúcar, mesmo que seja sem açúcar, avaliam o comportamento das crianças como sendo mais hiperactivo”, escreve o estudo.

Por outro lado, uma alimentação nocturna não torna ninguém mais gordo. Apesar de um estudo mostrar que as mulheres obesas tendencialmente comem mais à noite, segundo o artigo “as mulheres obesas não se alimentam só à noite, também fazem mais refeições, e ingerir mais calorias faz ganhar peso, a qualquer hora”.

O artigo destaca que a única receita para prevenir uma ressaca é beber menos álcool, já que tanto alimentos como químicos não conseguem curar o mal estar e as dores de cabeça. Os autores referem ainda que durante as férias a taxa de suicídio não aumenta e que a estrela-do-Natal, uma planta com folhas vermelhas, não é tóxica.

segunda-feira, dezembro 15, 2008

Extintos para sempre por acção do homem
http://dn.sapo.pt/2008/12/15/ciencia/extintos_para_sempre_accao_homem.html
MARIA JOÃO PINTO

Biodiversidade. Se nada for feito, mais de metade das espécies, de fauna e flora, conhecidas no mundo desaparecerão nos próximos cem anos. Para a comunidade científica internacional, travar este flagelo exigirá, antes de mais, vontade política

Sexta grande extinção está em marcha

A manter-se o ritmo actual de perda de biodiversidade, mais de metade das espécies de fauna e flora conhecidas extinguir-se-ão nos próximos cem anos. À beira do ponto de não retorno, sucedem-se os alertas da comunidade científica: a sexta grande extinção está em marcha, desta vez por acção exclusiva do homem, e terá de ser ele a travá-la. A boa notícia é que vamos ainda a tempo de o fazer. E com custos verdadeiramente simbólicos.

Em Outubro, com base em dados da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), a revista Science traduzia essa realidade em números: 25% dos mamíferos, 33% dos anfíbios e 20% das aves encontram-se em risco de extinção. Globalmente, cerca de um milhão e 750 mil espécies foram descritas até hoje, mas esse número deverá ficar bastante aquém da realidade, apontando as estimativas dos especialistas para 15 milhões.

"Há 65 milhões de anos, a queda de um asteróide desencadeou a extinção dos dinossáurios. Hoje, o asteróide é a nossa espécie", afirma o biólogo espanhol Miguel Delibes de Castro. "Eliminamos as restantes espécies, alimentamo-nos delas e arriscamo-nos a aquecer o planeta a tal ponto que nenhuma delas conseguirá aqui viver."

Em declarações ao jornal El Mundo, o investigador salienta que, "ao longo da História da Terra, registaram-se mais de 20 extinções, cinco das quais consideradas de larga escala. A actual tem uma taxa típica de extinção em massa mil vezes mais rápida que as extinções ditas de fundo", processadas "em centenas de milhares ou de milhões de anos".

O aumento da esperança de vida poderá explicar, em parte, por que razão chegámos a este ponto. "Há 30 mil anos, as expectativas de sobrevivência de um caçador-recolector eram idênticas às de qualquer espécie de ave e constantes ao longo da vida, excepção feita aos primeiros meses, em que eram mais baixas", recorda Robert May, professor de Zoologia na Universidade de Oxford, ouvido pelo mesmo jornal. Nos nossos dias, tudo mudou: "Nos anos 50 do século passado, a esperança média de vida do ser humano era de 46 anos; actualmente ronda os 65."

"Pai" do termo biodiversidade, o biólogo Edward O. Wilson sublinha, por seu turno, que a vida na Terra "necessita de uma atenção muito maior: conhecê-la em toda a sua extensão e geri-la de forma sustentável deveria merecer atenção e recursos idênticos aos que foram conferidos ao Projecto Genoma Humano (PGH). Afinal, estamos a falar da Enciclopédia da Vida." Um trabalho dessa envergadura, diz Wilson, exigiria verbas da ordem dos 3900 milhões de euros ao longo de 20 anos, valor "comparável ao do PGH".

Progressivamente, estão a ser dados passos nesse sentido. Também biólogo, Harold Mooney, da Universidade de Stanford, coordena uma rede de profissionais da área que estão a desenvolver esforços no sentido de ver a questão abordada sob a égide das Nações Unidas, "à semelhança do que aconteceu no campo das alterações climáticas". Para que o trágico destino do dodó, erradicado das ilhas Maurícias em pouco mais de 80 anos, no século XVII, não se torne uma profecia. Com jornal El Mundo

Jovens gregos vendem três pedras por um euro
http://dn.sapo.pt/2008/12/15/internacional/jovens_gregos_vendem_tres_pedras_um_.html
PATRÍCIA VIEGAS

Violência. Após uma semana de protestos são muitos os especialistas que tentam compreender a mistura explosiva entre jovens anarquistas, desempregados, mal pagos e, até mesmo, de classe média. Por estes dias, reportou o 'Observer', já se vendem pedras, enquanto a polícia compra gás lacrimogéneo

Gregos falam em "levantamento popular"

"Os jovens, que, normalmente, não se veriam como revolucionários, começaram a armazenar pedras, rochas e pedaços de mármore trazidos de Salónica, Corfu e Creta. Também começaram a vendê-las - três pedras pelo preço de um euro - a outros manifestantes cujos pais tanto vivem na opulência ao estilo de Hollywood como numa situação de carência social, mas que estão unidos pelo desejo comum de as arremessar contra o odioso símbolo da autoridade: a polícia."

O relato é de Helena Smith, correspondente do Observer a viver na Grécia há mais de duas décadas, chamando a atenção para os protagonistas da violência juvenil que ao longo da última semana tem abalado aquele Estado membro da UE. O catalisador da onda de protesto foi a morte de um adolescente de 15 anos, Alexandros Grigoropoulos, às mãos de um agente da polícia grega, no bairro boémio de Exarchia. Mas agora, depois de centenas de detenções, lojas, carros e bancos destruídos, os jovens continuam com o protesto, alguns deles barricados na universidade onde, em 1973, a junta militar matou vários estudantes (mas onde desde então a polícia está proibida de entrar pela Constituição).

"A ira dos jovens está directamente ligada à sua angústia. Têm um sistema educativo do século passado e a educação é totalmente estranha às suas necessidades e às questões que os preocupam", escreveu no jornal Avghi, Alexis Dimaras, historiador na área da educação. "O desemprego nos jovens e a sua dificuldade em entrar no mundo do trabalho juntam-se ao baixo nível dos salários que estagnaram nos últimos anos entre os 700 e os 900 euros", disse, à AFP, Manolis Hadzidakis, analista económico da empresa Pigasos.

Numa sondagem ontem publicada pelo jornal Kathimérini, seis em cada dez gregos interrogados consideraram que o país vive actualmente "um levantamento popular". A maioria, 69%, acredita que o Governo conservador de Costas Caramanlis geriu muito mal a crise. Mesmo assim, o primeiro-ministro já avisou que recusa demitir-se e convocar eleições legislativas antecipadas. O Pasok, há quatro anos na oposição, mas em recuperação nas sondagens, tenta entretanto colher dividendos. "Nós temos um Governo que ignora o grito da sociedade, incapaz de conduzir o país com firmeza à mudança, que tem medo do povo", declarou ontem Georges Papandreou, perante militantes socialistas gregos.

Mas o problema é que há neste momento uma crise de regime. "A angústia tornou-se endémica e os partidos políticos não apresentam nenhuma perspectiva credível", escreveu, no Elefthérotypia, o sociólogo Constantin Tsoukalas. Numa altura em que os protestos estão longe de serem controlados, a polícia mantém-se em alerta, com o stock de gás lacrimogéneo em baixa. O Governo já encomendou mais a Israel.

Troca de adereços quase foi fatal
Actor cortou o pescoço em plena peça de teatro
http://aeiou.expresso.pt/gen.pl?p=stories&op=view&fokey=ex.stories/478294
Em vez do habitual adereço sem lâmina, Daniel Hövels usou uma faca verdadeira e cortou o próprio pescoço enquanto representava um suicídio. A polícia austríaca já está a investigar se foi apenas uma troca de objectos ou se houve tentativa deliberada de homicído.
Paula Cosme Pinto
21:39 | Domingo, 14 de Dez de 2008



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Daniel Hövels acreditava estar a usar a habitual faca sem lâmina
Daniel Hövels não ganhou para o susto quando em plena representação no teatro Burgtheater, em Viena, cortou o próprio pescoço ao interpretar um suicídio. Em vez da habitual faca sem lâmina usada para representações do género, o actor acabou por utilizar uma faca verdadeira.

Acreditando tratar-se de um efeito especial, o público aplaudiu com força quando o actor caiu no palco a jorrar sangue do pescoço. Só quando Hövels foi retirado do palco é que os espectadores perceberam que algo correra mal durante a peça 'Mary Stuart', de Friedrich Schiller.

"Se ele tivesse pressionado com mais força poderia ter acertado numa artéria e provavelmente acabaria mesmo por morrer em cena, esvaído em sangue", explicou ao jornal Osterreich o médico que atendeu o actor. Daniel Hövels, 30 anos, recebeu tratamento imediato e no dia seguinte já estava novamente no palco do Burgtheater.

A polícia austríaca está a investigar o caso e a apurar se houve apenas uma troca de adereços ou se poderá ter sido uma tentativa deliberada de ferir o actor. Até ao momento sabe-se apenas que a faca teria sido comprada numa loja próxima do teatro.

As crianças dos países ricos passam a maior parte do dia longe dos pais
http://jornal.publico.clix.pt/default.asp?url=%2Fmain%2Easp%3Fdt%3D20081215%26page%3D10%26c%3DA
15.12.2008, Fernando Sousa


Portugal cumpre menos de metade dos indicadores de cuidados à infância, mas 25 por cento das crianças até aos três anos estão entregues a infantários


Os países mais ricos não estão a dar a atenção que deviam às crianças, que passam a maior parte do dia confiados a outros, enquanto os pais trabalham, diz o Fundo das Nações Unidas para a Infância e Juventude (UNICEF) num relatório acabado de publicar. Portugal é um deles: no conjunto dos países da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), está entre os menos empenhados.
Num conjunto de dez indicadores de referência relativos a educação e cuidados com a primeira infância, a Suécia é de todos os 25 membros da OCDE estudados o que mais cumpre - tem a cotação máxima. O pior classificado neste quadro comparativo é a Irlanda, com apenas um. Portugal tem quatro, um ponto abaixo da média.
Portugal não está mal na política de prioridade às crianças mais desfavorecidas e na formação do pessoal de serviços que acolhem as crianças menores. Mas falha nos outros seis itens: não tem licença para pais durante um ano e com 50 por cento do ordenado quando nasce um filho, não tem cuidados subvencionados para 25 por cento dos que têm menos de três anos, não cumpre a proporção mínima entre o pessoal e as crianças no pré-escolar, e investe um mínimo de um por cento do Produto Interno Bruto nos serviços prestados à primeira infância. Além disto, estamos mal na taxa de pobreza infantil, que deveria ser abaixo de dez por cento, e na universalidade dos serviços de saúde.
Riscos elevados
A UNICEF estudou duas faixas etárias - dos três aos seis anos e dos zero aos três. Em qualquer delas, a percentagem de crianças que passam o dia fora, ao cuidado de terceiros, é elevadíssima, com tendência para aumentar. É urgente que os Governos invistam mais nos cuidados e educação primários, diz o relatório.
No primeiro dos casos, 80 por cento das crianças frequentam estruturas de acolhimento fora da casa de família. Os países onde o número é de 100 por cento são a França, Itália, Bélgica e Espanha. Portugal vem a seguir à Alemanha e antes da Eslovénia. Pelo contrário, os Estados Unidos, com uma percentagem de 60 por cento, estão abaixo da média dos países da OCDE.
Os números são comparativamente mais baixos no segundo caso, mas ainda assim elevados. Na Dinamarca e na Islândia, a fatia de pais que confiam os filhos do nascimento aos três anos à guarda de instituições chega aos 60 por cento. Os franceses aqui vêm com 30 por cento, seguidos dos alemães, húngaros e italianos com menos de dez por cento. O México tem a mesma pontuação. Já aqui a média norte-americana é de 50 por cento.
Os peritos relacionam todos estes números com a presença cada vez maior das mulheres ao mercado de trabalho. No espaço da OCDE, mais de dois terços trabalham fora de casa. Em França, por exemplo, a sua percentagem alcança 63,9 por cento, enquanto nos homens ela é de 53,7.
A UNICEF, que não se limita a dar números, sublinha que na maioria dos países estudados as mulheres têm hoje muito mais oportunidades de carreira do que há dez anos. Mas as cifras mostram também que, quanto mais pobre é a família, maior é a urgência das mães em regressar o mais depressa possível, depois do parto, aos seus empregos.
E igualmente maiores são os riscos para o crescimento e desenvolvimento dos filhos, entregues tão cedo a cuidados que podem não primar pela qualidade.
Um passo em falso neste sentido pode ter efeitos indesejáveis na aprendizagem das crianças, e se isso é quase certo em relação às suas capacidades cognitivas e linguísticas, vale também para o desenvolvimento psicológico e emocional, diz o relatório. "A atenção e educação de alta qualidade para a primeira infância têm possibilidades enormes de melhoramento do desenvolvimento cognitivo, linguístico, emocional e social", diz Marta Santos Pais, directora do centro de investigação da UNICEF, citada num comunicado de imprensa.

sexta-feira, dezembro 12, 2008

O corpo é de ouro, mas o coração é bahá'i
http://jornal.publico.clix.pt/default.asp?url=%2Fmain2%2Easp%3Fdt%3D20081212%26page%3D5%26c%3DC
12.12.2008


A religião que professa desde os 16 anos pede que seja excelente. Foi influenciado
por João Ganço, o treinador que o ajudou a ser campeão olímpico. Ainda recebe parabéns pela medalha de Pequim, mas o objectivo é saltar mais alto. Uma "mão divina" pode explicar
"um centímetro a mais". Por Margarida Santos Lopes (texto) e Nuno Ferreira Santos (fotos)


Fedross Imani não trouxe o saltério, instrumento de cordas com que o rei David acompanhava os Salmos, mas veio Catherine Fiero com a sua harpa. Ela toca e canta: "We are all waves of one sea/we are all leaves of one tree/we are all flowers of one garden." Os fiéis escutam-na em silêncio, sob o olhar melancólico de 'Abdu'l Bahá, filho de Bahá'u'lláh, o Profeta dos bahá'is, cujo retrato ocupa lugar central numa pequena sala de cortinas azuis e heras cor
de laranja.
É domingo à tarde, e Fedross está particularmente orgulhoso. Não só porque o palestrante da celebração de hoje, no Centro Bahá'i em Lisboa, é o seu filho Navid, mas porque na audiência está Nelson Évora, o atleta que personifica um dos valores máximos desta religião: a excelência.
O atleta medalha de ouro do triplo salto nos Jogos Olímpicos de Pequim é a estrela do dia, ainda que a sede da comunidade ostente no portão de entrada uma outra estrela. Tem nove pontas e representa a "unidade na diversidade" que inspirou "Cathy": o sabeanismo (os sabeus ainda hoje vivem no Iémen, Iraque, Paquistão e Afeganistão), o hinduísmo, o judaísmo, o zoroastrismo, o budismo, o cristianismo, o babismo e o bahá'ismo.
Depois de distribuir beijos, abraços e sorrisos, Nelson Évora sentou-se na segunda fila, entre a mulher e o filho do seu treinador, João Ganço. Navid, professor de artes marciais, dissertou sobre "a influência da educação no carácter do ser humano", e o "menino de ouro" foi várias vezes citado como um bom exemplo. O que se prepara "para atingir a perfeição".
Nelson ouviu-o com atenção e deu o seu testemunho: "O importante é estar sempre em movimento e trabalhar muito, porque a excelência é o lado físico e o lado espiritual." Sentada a pouca distância, a romena Iona Gheorghe lançou um piropo, que fez o atleta soltar o riso e roer ainda mais as unhas, e declarou, com esfuziante alegria: "Eu cheguei aqui há dois anos vinda de um país que foi uma ditadura. Era ortodoxa, mas senti sempre um vazio. Só a fé bahá'i me deixou completa."
Várias cabeças acenaram em concordância. Uma delas, a da harpista Catherine, que a Orquestra Nacional de São Carlos dispensou. "Eu vim de Nova Iorque, e sinto-me feliz desde que há 30 anos aceitei Bahá'u'lláh como mensageiro de Deus", dirá ao P2 a antiga cristã metodista, no final de uma hora de debate de ideias e duas orações. "We are all stars in the sky/ we are all one in God's eye", emociona-se ao recitar o seu livro de cânticos. "We are angels of fire and snow/we see the light and away we go."
A descoberta aos 16 anos
Os fiéis estão num exíguo hall (em breve o edifício será demolido para construir um maior) a partilhar bolinhos, queijos e sumos - lanche com que tradicionalmente terminam os encontros - e já Nelson Évora e João Ganço subiram à biblioteca para contarem como chegaram à "verdade".
"Eu era muito novo, tinha uns nove ou dez anos", revela o jovem, num misto de serenidade e nervosismo. "Costumava frequentar a casa do professor, em Odivelas, para brincar com o filho [David Ganço]. Lembro-me de ir às aulas de crianças sem saber para que serviam, mas depois percebi que o objectivo era transmitir valores. Éramos ensinados a não mentir e tínhamos de passar a teoria à prática. Eu e o David começávamos por mentir e depois víamos o resultado dessa mentira."
Ao contrário do que possa parecer, a "viagem espiritual" de Nelson, 24 anos, filho de uma costa-marfinense e de um cabo-verdiano, não começou na casa do vizinho João Ganço, antigo recordista do salto em altura. "A minha mãe foi sempre a mais religiosa da família", diz. "É católica mas não praticante. Acredita em Deus e sempre me ensinou a acreditar em Deus. Na sua maneira religiosa de estar e ser, deu-me os valores que me ajudarem a tornar-me bahá'i. Ela não seguiu o meu caminho, mas respeita o meu."
O momento decisivo aconteceu aos 16 anos, numa "escola de Verão em Monchique", mais uma vez na companhia do amigo David Ganço. "Eu era jovem, mas os meus ideais, a minha forma de vida, já eram bahá'is. Só faltava declarar-me e assim fiz." Encontrar respostas não é ter certezas, avisa Nelson. "Nada fica definido para o resto da vida. Tudo é questionável. Por exemplo, e só agora falo disto, há pouco tempo, uma amiga morreu de repente, num acidente, e voltaram-me as perguntas. Porquê?"
Perdoar Udowu Phillips
Será que Nelson duvidou da existência de Deus quando o seu pai adoeceu gravemente antes dos Jogos de Pequim? "O meu pai adoeceu por um motivo", afirma, sem precisar. "Quando há um motivo, não há perguntas a fazer. Coloquei mais perguntas, quando a minha amiga morreu, do nada. Ela era uma pessoa que procurava a excelência. E aconteceu-lhe aquilo. Ainda não consigo aceitar a morte."
Para outras adversidades, porém, já encontrou defesas. Quando o britânico Udowu Phillips reagiu muito mal ao segundo lugar (17,62m), o português que já era campeão do mundo desvalorizou os insultos. "A culpa é dele porque fez mal o exercício. Eu entrei em prova, sabia que estava bem. A primeira coisa que fiz, mesmo sabendo o que ele dissera de mim, foi estender-lhe a mão e falar com ele. Não guardo ressentimentos."
Há um episódio que Nelson Évora recorda, na sua primeira competição internacional, o campeonato do mundo 2003/04, em Budapeste, quando no meio do corredor uma atleta se atravessou à sua frente. "Eu tinha apostado tudo naquele salto e não consegui saltar. Desconcentrei-me e isso desmoralizou-me. Podia ter protestado. Não o fiz. Não me arrependo. Essa atitude enriqueceu-me como ser humano e desportivamente."
Nunca fez nada de errado? "Claro que fiz! Às vezes temos de experimentar as coisas más para saber onde os erros nos levam. Nem sempre chegamos lá quando nos dizem 'Não vás por aí'. Se faço mal, peço perdão sem dificuldade. Sei que todos erramos, que tenho defeitos e os outros também."
E quando ganha, o Nelson que saltou 17,67m sente que a fé o ajuda? "Eu e o professor trabalhámos muito, e eu só tinha de estar o mais concentrado possível. O que aconteceu depois, na prova, são coisas que me ultrapassam. Porquê um centímetro a mais ou a menos? Há coisas físicas, é certo, mas aqui atribuo uma mão divina. Para alguns, talvez seja sorte. Eu vejo mais além."
"Quero chegar mais longe, sem dúvida!", frisa Nelson. "Vou ter de estar muito equilibrado a todos os níveis. Se atingir os meus objectivos, e mesmo se não os atingir, essa procura servirá de exemplo de vida, para mim, e para os que acompanharem o meu percurso até lá. As pessoas ainda estão a pensar na medalha olímpica, mas eu, um dia depois, já estava a pensar noutra coisa. Noutra etapa, noutra prova."
A PIDE e Bach
João Ganço insiste no que já antes dissera noutras entrevistas: "Não foi só a fé bahá'i que deu a vitória ao Nelson. Foi um conjunto de factores e um deles foi a fé. Estamos há muito tempo juntos e sentimos o que temos e o que podemos fazer."
Sobre o seu percurso religioso, o treinador desvenda: "Eu era católico, mas tinha muitas dúvidas. Depois do meu casamento [mera formalidade pela igreja], eu e a minha mulher decidimos investigar várias religiões. Fomos ter com tudo o que era seita. Budistas, muçulmanos, o Mr. Moon e até as Testemunhas de Jeová. Era uma necessidade pessoal e espiritual."
"Quando pegava na Bíblia e começava a ler, interrogava-me. Havia coisas que não entendia. Também me questionava sobre a razão de ser de tantas religiões com tantos crentes. Onde estava a verdade? Foi a fé bahá'i que deu resposta às minhas dúvidas. Quando os outros textos religiosos foram revelados, a mentalidade era outra. Precisamos de outras orientações, mais avançadas. A época de Bahá'u'lláh [1817-1892] é a mais recente."
João Ganço demorou cinco anos a tornar-se bahá'i. "Há pessoas que chegaram lá logo pelo coração. Eu precisei de investigar. A minha mulher, os meus filhos e até a minha sogra são bahá'is. Alguns dos meus atletas, não só o Nelson, são bahá'is. Não pressionámos ninguém. Foram sentindo a atmosfera, sentiram-se bem e foram aderindo."
Nelson é o seu orgulho: "O primeiro passo não fui eu que o dei, foram os pais dele, que são católicos e são excelentes. A educação base foi da família. Depois, sentiu a influência bahá'i. Hoje, ele é mais conhecido pelo seu lado humano do que pela medalha. E eu fico contentíssimo, porque, um dia, ele deixará de ser atleta [estuda Marketing e Publicidade] mas continuará a ser uma pessoa."
Orgulho na fé que segue há 50 anos é também o que sente Mário Mota Marques, um dos nove membros eleitos da Assembleia Bahá'i de Lisboa. Sempre foi um "estudioso das religiões", apesar de a sua família não ser religiosa. Começou por ler o Bhagavad Gita, dos hindus. Aos 16 anos, foi conduzido ao centro bahá'i por um amigo que continua a ser agnóstico.
O amigo vive em Nova Iorque e é músico. Sempre se corresponderam. Uma das suas cartas falava de Bach, mas a PIDE, que frequentemente batia à porta de Mário Marques de madrugada (esta religião foi perseguida até ao 25 de Abril de 1974), implicou porque leu bahá'i. "Entravam e vasculhavam tudo", recorda o responsável, que também não se esquece de outra visita da polícia política a uma sala onde crianças tinham actividades lúdicas. "Os agentes chegaram, olharam para o papel de cenário com desenhos coloridos e perguntaram se eram planos para ataques a quartéis."
Os maus tempos passaram. Hoje, a fé bahá'i está reconhecida oficialmente e tem as suas próprias aulas de religião e moral nas escolas públicas, e um programa na RTP2.

quinta-feira, dezembro 11, 2008

Eutanásia na TV incendeia opinião pública britânica
http://dn.sapo.pt/2008/12/11/media/eutanasia_tv_incendeia_opiniao_publi.html
PAULA BRITO
Documentário. A Sky TV vai mostrar os últimos momentos

de um doente terminal, que colocou termo à vida em 2006. "Voyeurismo irresponsável", consideram os defensores da vida, "um trabalho informativo e educativo", defende o canal

Ofcom, que só pode agir depois, diz estar atento

"Estou a morrer. Não faz sentido... tentar negar esse facto." Estas são palavras de Craig Ewert, um norte- -americano de 59 anos que decidiu, em Setembro de 2006, pôr termo à vida por sofrer de uma doença neurológica que o paralisava há anos, no documentário sobre a eutanásia que a britânica Sky Real Lives se prepara agora para exibir.

Realizado pelo vencedor de um Óscar em 1983 John Zaritsky, o documentário Direito a Morrer? mostra os últimos momentos de Craig Ewert, pai de dois filhos, ex-professor universitário que se mudou para o Reino Unido para "escapar dos EUA de Bush", acompanhado pela sua mulher Mary, na controversa clínica suíça Dignitas, em Setembro de 2006.

"Se eu não fizer isto (suicidar-se de forma assistida), a minha opção é, basicamente, sofrer, causar sofrimento à minha família e depois morrer", diz Craig Ewert no programa, no qual, ao lado da mulher com quem viveu 37 anos, Ewert aparece paralisado na clínica suíça, em Zurique, bebendo uma mistura de sedativos e desligando as próprias máquinas. Um serviço que terá custado 3,5 mil euros, diz a imprensa internacional.

Várias entidades contra a eutanásia reagiram de imediato, defendendo que a exibição do documentário é "um voyeurismo irresponsável". Criticando ainda que o programa é uma "tentativa cínica de captar audiências", Peter Saunders, director da Care Not Killing, uma associação de 50 organizações contra a eutanásia, defende que o programa "só vai intensificar a pressão real ou imaginária sentida pelas pessoas que consideram pôr termo às suas vidas por medo de serem um estorvo para as que amam, para quem cuida delas ou para a sociedade".

O próprio primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, foi chamado a pronunciar-se sobre o documentário, dizendo que este "aborda questões muito difíceis". No entanto, defende ser "necessário que nunca haja casos no país em que uma pessoa doente ou velha se sinta pressionada a concordar com a morte assistida".

A directora da Sky Real Lives, Barbara Gibson, defendeu o documentário argumentando que aborda "um assunto que afecta cada vez mais gente", além de se tratar de uma peça "informativa, articulada e um insigth sobre uma decisão que alguns têm de fazer".

Por seu turno, ao jornal Independent, a viúva de Craig Ewert defendeu o documentário, dizendo que o mesmo serve para ajudar as pessoas a "encarar os seus próprios medos" sobre a morte. E, continua, "para Craig, meu marido, permitir que as câmaras filmassem os seus últimos momentos em Zurique foi enfrentar o fim com honestidade".

Frisando que não pode agir antes de qualquer programa ser exibido, o regulador dos media britânico, Ofcom, disse que iria estar atento.

Ewert, na cama, entubado, troca um último beijo com Mary, a quem diz: "Amo-te muito", ao que ela responde: "Tenha uma boa viagem. Veremo-nos em breve."

Se um negro enriquece, pode tornar-se branco
http://jornal.publico.clix.pt/
11.12.2008


Nos EUA, onde a cor da pele condiciona tão fortemente o estatuto social de cada cidadão, a mesma pessoa pode ser considerada negra ou branca conforme as circunstâncias sociais


No romance A Mancha Humana, de Philip Roth, a personagem central, o professor universitário de literatura clássica Coleman Silk, é supostamente branco e judeu: olhando para a sua pele e os seus olhos claros, ninguém jamais desconfiou que assim não fosse. A tal ponto que, na história, começa por ser acusado de racismo por dois estudantes negros devido a uma palavra cujo significado real desconhecia. E uns capítulos mais tarde, para a nossa surpresa, ficamos de repente a saber - no início sem perceber o que se passou - que Silk é na realidade... negro. A dada altura da sua vida, decidiu que ser branco é que lhe iria permitir fazer o que queria com a sua vida. Ser negro nos EUA seria um empecilho para a sua carreira académica - e não só. Por isso, renegou pais e irmãos e fingiu que era algo que não era - para ser livre, reconhecido, respeitado, até amado.
O caso pode parecer descabelado, mas é totalmente plausível - aliás, há quem diga que Roth se inspirou num caso real para construir a sua personagem. Não é difícil imaginar que, em muitos casos, não seja claro se uma pessoa é branca ou negra - há muita gente que poderia passar por uma coisa ou outra sem esforço.
Mas agora, com a eleição de Barack Obama para Presidente, será que as coisas vão mudar? E o próprio Obama, o que é ele? Negro ou branco? Afinal de contas, tem um pai negro queniano e uma mãe branca norte-americana. Será que o seu êxito na vida faz dele um branco, mesmo que a sua pele não seja tão clara como a da personagem de Roth? "O que mais me fascina no caso Obama é que as pessoas façam este tipo de perguntas", diz Aliya Saperstein, socióloga da Universidade do Oregon, num comunicado da instituição. "No passado, ninguém teria colocado a questão nem perguntado como é que devemos falar dele. Não teria havido debate."
Juntamente com Andrew Penner, sociólogo da Universidade da Califórnia, esta cientista andava a estudar há algum tempo a "coloração" conferida às pessoas não apenas pela cor física da sua pele, mas também pelo seu estatuto social e económico. Os resultados do estudo, publicado on-line esta semana pela revista Proceedings of the National Academy of Sciences - "oportunamente", diz Saperstein -, sugerem que a noção de "raça" pode não ser assim tão simples - não se reduz a uns meros traços físicos. Não é um atributo fixo com o qual nascemos, mas algo que está intimamente ligado ao que somos... na sociedade.
"A raça é uma combinação extremamente complexa de factores que incluem sem dúvida coisas como a tonalidade da pele, o tipo de cabelo e a genealogia", diz Saperstein. "Mas também inclui o estatuto social e os nossos próprios estereótipos sobre as pessoas. O nosso estudo sugere que, em parte, a forma como determinamos quem é branco se baseia nos nossos pressupostos sobre o que as pessoas brancas fazem e o que as pessoas negras fazem." Essencialmente, salienta, "definimos as pessoas de sucesso como brancas e as pessoas sem sucesso como negras".
Percepção é variável
No estudo, essa conotação negativa "colada" ao facto de se ser negro é gritante: os norte-americanos que tenham ficado desempregados ou empobrecidos, ou sido condenados a penas de prisão, são mais susceptíveis de ser classificados e identificados como negros por eles próprios e pelos outros! E isso independentemente da maneira como se classificavam ou eram identificados por outros no passado. Mais: essa classificação perdura, no caso da prisão nomeadamente, mesmo depois de a pessoa em causa ter cumprido a pena e ter sido libertada.
Mais precisamente, os investigadores analisaram um inquérito à escala do país - o National Longitudinal Survey of Youth -, que teve início em 1979 e ainda está em curso actualmente. Os 12.686 participantes no inquérito têm sido os mesmos desde o início e têm sido acompanhados, através de entrevistas anuais, durante as últimas duas décadas. A utilidade do estudo provém do facto de que tanto os próprios inquiridos como os seus entrevistadores registaram, por várias vezes, a classificação racial dos inquiridos. Foi essa informação que os dois cientistas escrutinaram agora.
Os voluntários declararam o seu estatuto racial por duas vezes: a primeira em 1979 e a segunda em 2002, quando a classificação oficial utilizada nos EUA foi alterada. Por seu lado, os entrevistadores registaram a raça uma vez por ano entre 1979 e 1998, aquando de cada nova entrevista.
Em 20 por cento dos casos, revelam os autores do estudo, a percepção da raça pelos entrevistadores mudou pelo menos uma vez ao longo desses anos, principalmente entre as pessoas de etnicidade mista. E enquanto 96 por cento dos que tinham inicialmente sido classificados como brancos e não tinham sido presos continuaram a ser classificados da mesma forma, os números descem até aos 90 por cento para aqueles que entretanto cumpriram uma pena de prisão. Quanto à autoclassificação dos inquiridos, 97 por cento dos que se consideravam brancos em 1979 ainda se consideravam brancos em 2002 se a sua condição económica fosse a mesma, ao passo que os números baixaram até aos 93 por cento nos que entretanto ficaram pobres.
Ao mesmo tempo, os participantes que diziam ser negros em 1979 e que mais tarde viriam a ser presos eram mais susceptíveis de tornar a dizer que eram negros da segunda vez (em 2002) do que os que nunca tinham sido presos. "Os que tinham sido presos ficavam mais frequentemente na categoria dos negros, mas os que não tinham sido presos eram capazes de alterar a sua identidade racial", salienta Saperstein.
Para os autores, uma coisa parece clara: a identificação racial, pelos próprios e por outrem, pode variar com as mudanças de posição social, "tal como uma mudança na dieta ou nos níveis de stress", escrevem, "pode alterar a propensão de uma pessoa morrer de doença cardíaca em vez de cancro".
Os estereótipos raciais podem transformar-se em "profecias auto-realizadoras", concluem os dois sociólogos. Assim, embora os negros estejam sobre-representados entre os pobres, os presos e os desempregados, parte dessa sobre-representação provém do facto que as pessoas que são presas, pobres ou desempregadas são vistas e classificadas como negras mais amiúde do que como brancas. Não só a cor da pele condiciona o estatuto social, mas tudo se passa também como se o estatuto social conseguisse escurecer ou clarificar a cor da pele - como se as circunstâncias puramente conjunturais da vida das pessoas pudessem tingir "positiva" ou "negativamente" a sua epiderme, conforme os casos.
Amon Emeka, perito em demografia social da Universidade da Califórnia do Sul, disse ao Washington Post que considera que os resultados evidenciam "o carácter omnipresente da estratificação racial na sociedade", acrescentando que "as associações negativas com a negritude dizem imenso sobre o impacto ainda patente da estratificação racial na sociedade norte-americana".
Robert Carter, psicólogo do Columbia Teachers College de Nova Iorque, citado pelo mesmo diário, não acredita, por seu lado, que os estereótipos sejam capazes de alterar a percepção da raça. "Não é o estatuto social que influi sobre a raça, é a raça que influi sobre o estatuto social. A estratificação baseada na pertença a um grupo racial tem sido uma parte integrante da nossa sociedade desde antes do nascimento dos Estados Unidos. É assim há séculos." Ao que Saperstein responde que, "embora os dados não permitam dizer o que está a acontecer na cabeça dessas pessoas, a história que contam demonstra que existe um preconceito implícito".

quarta-feira, dezembro 10, 2008

Químicos feminizam homens e animais
http://dn.sapo.pt/2008/12/10/ciencia/quimicos_feminizam_homens_e_animais.html

Estudo. Uma instituição britânica recolheu dados que permitem concluir que a libertação de pesticidas e outros químicos na atmosfera está a bloquear a produção de hormonas masculinas em aves, répteis, peixes e até no homem

Estudo mostra que mamíferos estão a produzir mais hormonas femininas

A libertação de químicos na atmosfera e na água está a ter consequências para a masculinidade de homens e animais, diminuindo a produção de hormonas masculinas. Esta é a principal conclusão de um estudo desenvolvido por uma equipa da CHEMTrust, que surge em simultâneo com a proposta, apresentada hoje, pelo Reino Unido em Bruxelas, no sentido de controlar a utilização de pesticidas na Europa.

O relatório da CHEMTrust mostra como a utilização generalizada de químicos está a provocar uma feminização de animais vertebrados, desde mamíferos a peixes, incluindo humanos. No caso dos mamíferos, observam-se alterações nos genitais do género masculino, que estão a produzir tecidos de óvulos, nascem com pénis mais pequenos e testículos com dimensões e características anormais.

"Os químicos produzidos pelo homem estão claramente a danificar as ferramentas básicas do sexto masculino. Fica agora provado, sem qualquer dúvida, que vários 'modificadores de género' podem actuar em conjunto para produzir efeitos" nos animais e seres humanos, alerta em comunicado Gwynne Lyons, autora do estudo e directora da CHEMTrust, uma instituição britânica sem fins lucrativos.

As consequências para os seres humanos prendem- -se com a sua capacidade reprodutiva. Os químicos em questão incluem alguns utilizados em papel de alumínio e outros usados para embrulhar comida, em cosméticos ou pó-de-talco e até em utensílios eléctricos. Os efeitos passam pela produção acima da média de hormonas femininas, pelo género masculino de peixes, anfíbios, pássaros e répteis. Ou pelo bloqueio da produção de hormonas masculinas ou aceleração da geração de estrogéneo, a hormona feminina.

Para Gwynne Lyons, que já desempenhou funções de aconselhamento no Governo britânico, na área dos efeitos dos químicos na saúde, "os reguladores da União Europeia têm de assegurar que as leis passam a ter em conta este 'efeito misto' no mundo real, senão a reprodução está ameaçada". Uma posição em linha com a iniciativa de controlar o uso de pesticidas avançada pelo Reino Unido, Irlanda e Roménia. - P.F.E.

domingo, dezembro 07, 2008

"Pais procuram promover crianças copiando os ricos"
http://dn.sapo.pt/2008/12/07/centrais/pais_procuram_promover_criancas_copi.html
CÉU NEVES

Escolhas. Os nomes que damos às nossas crianças parecem obedecer mais a uma lógica de moda do que a um sinal de pertença de classe social. Por isso se repetem tanto ao longo das décadas, diz antropólogo. Só que em Portugal existe um "conformismo nominativo" levado a extremos pouco comuns noutros países

"Pais procuram promover crianças copiando os ricos"

João e Maria são nomes que têm resistido a todas as modas. Os papás e as mamãs adoram-nos e os padrinhos subscrevem-nos, ou vice-versa, e há sempre milhares de crianças assim chamadas todos os anos. Sozinhas ou acompanhadas, as Marias só são ultrapassadas pelas Anas na década de 1985/95, sem nunca deixarem de surgir na lista dos dez mais. E o mesmo acontece com os Joões entre 1900 e 1980, com uma excepção nos anos 50. Nesse ano, os Augustos, e outros nomes iniciados por A, os Ruis e os Júlios arredaram-nos do pódio.

Porque será que os portugueses são tão pouco criativos? O sistema de atribuição de nomes não evolui? "Vai evoluindo (lentamente e na base de um passado histórico longo), mas o fenómeno de nomeação nas sociedades europeias está ligado a modas e, por isso, observamos tanta repetitividade nos nomes", responde o antropólogo João de Pina Cabral, co-organizador do livro Nomes: Género, Etnicidade e Família. Só que, em Portugal, "esta propensão para o conformismo nominativo é levado a extremos pouco comuns noutros países". E justifica: "Os pais procuram promover as criança em termos de classe copiando os nomes que os ricos e os famosos dão".

Então e as Vanessas e os Sandros? Não existem em todas as classes! É verdade, mas não estão entre os mais escolhidos. E, depois, parece que os eleitos pelas classes sociais altas acabam por se alargar a todas as classes. E não existem sinais de pertença social na escolha dos nomes dos filhos? "Existem, mas não se distingue dessa forma. Aqui há que distinguir entre nomes próprios e nomes de família", responde Pina Cabral. E explica: "Os nomes próprios, numa altura em que havia uma clara separação entre meios populares/rurais e meios de classe média, assinalavam diferenças de classe, mas isso tem vindo a alterar-se. Devido ao impacto da escolarização e dos mass media, as classes menos protegidas querem dar aos filhos os nomes que têm os filhos dos mais ricos. No que remete para nomes de família, ainda há algumas formas de diferenciação, mas isso também está a mudar muito rapidamente."

Os mass media aceleraram esse contágio, o que faz com que as listas dos dez mais sejam muito idênticas a partir da década de 60, precisamente quando é introduzida a televisão em Portugal. E existe um outro fenómeno: o nome de um familiar (os pais ou padrinhos) que vai passando de geração em geração e que já não está tanto na moda.

Mas há modas e modas, nomes e nomes, e pais que fazem questão de escolher designações completamente fora dos registos habituais. Tão fora desses registos que estão mesmo proibidos. A página do Instituto dos Registos e do Notariado (INR) indica os admitidos e não admitidos até 30 de Junho de 2008 ( http/www.irn.mj.pt/IRN/sections/irn/a_registral/registos-centrais/ /docs-da-nacionalidade/vocabulos-admitidos), uma lista que é actualizada todos os seis meses. É que os "nomes portugueses deve respeitar a onomástica portuguesa, designadamente a que está estabelecida no Vocabulário Onomástico da Academia das Ciências", esclarecem os serviços do IRN. E acrescentam: "Quando surgem dúvidas, é realizada uma consulta a um especialista em linguística. A lista é o resultado dessas consultas Daí que nas listas não constem nomes em relação aos quais não existem dúvidas sobre a admissibilidade." Como João e Maria! |

O homem que descobriu a mulher mais velha do mundo
http://jornal.publico.clix.pt/
07.12.2008, Andreia Sanches


Diz que Portugal é um caso intrigante pelo número de pessoas com "extrema longevidade". Filipe Prista Lucas provou que Maria de Jesus, uma portuguesa de 115 anos, pode ter lugar no Guinness



Aos 31 anos, Filipe Prista Lucas, jurista, tem uma maneira invulgar de ocupar os tempos livres: pedir certidões de baptismo com mais de um século, investigar censos com letra quase ilegível, procurar notícias nos jornais que dão conta de que alguém está a celebrar mais de um século de vida (ou de que alguém morreu com essa idade). Foi ele quem reuniu as provas que levaram a que Maria de Jesus, uma portuguesa de 115 anos, esteja hoje no Guinness World of Records.
A idosa da pequena localidade do Corujo, perto de Tomar, a quem nas redondezas chamam carinhosamente "Ti Velhota", é considerada a pessoa mais velha do mundo. É um "caso" especial para o jurista, que reconhece que este seu hobby tem algo de trabalho de detective. Mas há outros.
Prista Lucas trabalha há anos com o Gerontology Research Group (GRG), uma associação sedeada em Los Angeles, nos Estados Unidos, com a qual colaboram cientistas de diferentes áreas que se interessam pelas questões relacionadas com a longevidade. E integra uma equipa, liderada pelo médico Stephen Coles, que ajuda a alimentar a face mais visível desta associação: um ranking mundial de supercentenários (leia-se pessoas com mais de 110 anos) que está sempre a ser actualizado.
O seu trabalho não se esgota nas conservatórias, nos arquivos das paróquias, nos telefonemas para lares e juntas de freguesia em busca de mais alguma informação sobre uma qualquer pista que leu num artigo de jornal - "só pelo gozo", sem qualquer remuneração, com alguma despesa até. Tem também conhecido pessoalmente muitas pessoas que viveram mais de um século e que têm passado pela lista do GRG. E diz que essa parte é fantástica. "Lembro-me da senhora Clara dos Santos, que morava no Rato (em Lisboa), talvez o caso mais impressionante em termos de lucidez que conheci", começa por contar.
"Quando fui ter com ela - tinha ela 110 anos e meio -, estava no jardim, sentada numa cadeira, a fazer pegas de crochet." Contou o dia do regicídio como se tivesse acontecido na véspera. "Disse-me que estava a trabalhar num atelier de costura quando mataram o rei e que a mãe foi a correr buscá-la porque teve medo que houvesse uma revolução."
Clara da Conceição Lopes dos Santos, nascida em Papízios, Carregal do Sal, a 26 Março de 1894, a "senhora fascinante" que marcou Prista Lucas, tinha 14 anos quando em 1908 o Rei D. Carlos foi assassinado no Terreiro do Paço, em Lisboa. Morreu com 112 anos em Outubro de 2006.
Inventar idades
"Até hoje validei sete supercentenários portugueses e vou a caminho do oitavo", continua Prista Lucas. "Validar" é daquelas palavras que se repetirão ao longo da conversa com o advogado, que trabalha na Autoridade Nacional de Comunicações (Anacom) e que "desde os 11 ou 12 anos" se interessa por genealogia.
Diz que nessa altura, adolescente ainda, teve curiosidade em estudar a família. Por nenhuma razão especial para além desta: "Olho para uma fotografia de um trisavô e vejo que sou parecido com ele. E acho curioso. Tenho um tique particular e descobri que um avô também tinha... Não sei se descobri mais acerca de mim, mas é engraçado saber de onde venho." Uma coisa é certa: não descobriu nenhum antepassado supercentenário.
Não faz árvores genealógicas por encomenda e diz que nunca teve interesse em "investigar" pessoas estranhas. Até um dia, há seis anos: "Comecei a pesquisar na Internet e encontrei a lista do GRG. Uns dias antes, uma senhora tinha feito 112 anos em Portugal e reparei que não estava no ranking. Mandei um mail a dar-lhes essa informação. E responderam: 'Por que é que não nos ajuda a validar esse caso?'"
Depois de alguma insistência do GRG, acabou por pôr-se em campo. E pouco depois Catarina Carreiro, nascida a 9 Janeiro de 1891, tornava-se na primeira portuguesa a entrar no ranking.
"Mal coloquei o nome de Catarina Carreiro na lista recebi um mail de uma jornalista que me disse: 'Conheço uma senhora em Vila Nova de Gaia que é mais velha.' Era a Maria do Couto Maia. Facilmente encontrei essa senhora também." E a lista ficou com duas portuguesas. "Mais ou menos na mesma altura, saiu no jornal que Maria de Jesus tinha feito 110 anos, o que a tornava elegível para entrar."
Para "validar" um supercentenário há que cumprir "a regra dos três documentos" que, sendo emitidos em datas distintas, confirmem a idade da pessoa. "É uma regra internacional que tem de ser adaptada aos registos que existem em cada país. Em Portugal, é muito fácil, porque temos o registo civil desde 1911 e para trás do registo civil temos os registos paroquiais completos até aos séculos XVII ou XVI - nascimentos, casamentos e óbitos."
Nos Estados Unidos, por exemplo, é mais difícil. "Não há registos civis generalizados até ao início do século XX, logo temos de ir aos Censos. A senhora americana que faleceu agora [e que até 26 de Novembro passado era a mais idosa do ranking do GRG], Edna Parker, foi validada com base na sua idade tal como foi registada nos Censos de 1900, 1910 e 1920."
Mas frequentemente as coisas não batem certo. "Era comum as pessoas inventarem idades. Pelas mais diversas razões." Por exemplo, no início do século XX podia não parecer bem que uma mulher se casasse com um homem mais novo. E declarar uma idade diferente da real disfarçava o embaraço.
Em Portugal, Prista Lucas já "investigou" oito pessoas, a que se juntam muitas outras nos Estados Unidos, Reino Unido e Canadá, onde os censos estão online e o advogado pode investigar sentado à frente do computador. Maria de Jesus fez parte do primeiro grupo de supercentenários que validou. "Primeiro contactei com a família a pedir alguns dados pessoais" - essa parte é simples, nunca nenhuma família mostrou desconfiança ou falta de cooperação. "Depois, bastou pedir a certidão de baptismo, de 1893, a certidão de casamento de 1919 - onde se diz de facto que em 1919 Maria de Jesus casou com 26 anos - e o assento de nascimento de uma filha, de 1924, que comprova que naquela data nasceu a filha de Maria de Jesus, que tinha então 31 anos."
Já a visitou algumas vezes e conversa frequentemente com a filha da supercentenária. Numa dessas visitas, o jurista levou a avó a conhecer Maria de Jesus - diz que haver uma lista como a do GRG pode parecer pouco útil, mas para alguém de 95 anos é significativo saber que há quem viva muito mais.
De qualquer modo, sublinha, a utilidade do GRG está longe de se resumir ao ranking no qual o Guinness World of Records está sempre de olhos postos. "O GRG tem uma base de dados de supercentenários que é cada vez mais completa e que disponibiliza para estudos científicos. Se alguém quiser fazer análises de sangue ou exames médicos a um grupo de supercentenários, por exemplo, no âmbito de uma pesquisa, pode dirigir-se à associação." Ainda há dois anos, diz, houve uma instituição do Porto a fazer análises ao sangue de centenários portugueses.
Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE) havia, em 2001, em Portugal, 589 pessoas com cem ou mais anos. O INE não desagrega os dados para cima dessa faixa etária, por isso é impossível saber com rigor quantas pessoas encaixam no conceito de supercentenário.
Prista Lucas conhece três actualmente: Maria de Jesus, 115, a número 1; Augusto Moreira de Oliveira, 112, que vive em Vila Nova de Gaia e está na 29.ª posição no ranking mundial; e António Fernandes de Castro, 110 anos, residente em Barcelos. "O senhor de Barcelos está ainda por validar." Mas se a sua idade for confirmada, como o advogado acredita que irá ser, ocupará a 60.ª posição na lista do GRG na qual estão inscritos, actualmente, 89 nomes (79 mulheres e 10 homens). Será o oitavo supercentenário português validado.
O caso português
"A associação calcula que, em cada momento, existam no mundo entre 300 a 400 supercentenários; portanto o trabalho desta rede cobre cerca de um terço" das pessoas com 110 ou mais anos. Nos EUA, Canadá, Japão e na generalidade dos países da Europa Ocidental faz-se este tipo de levantamento com facilidade e algum rigor. Não se passa da mesma forma noutros locais. No Brasil, por exemplo, há uma mulher que diz ter 128 anos, mas o GRG não tem nenhum colaborador no país que possa tentar confirmá-lo.
Dos 89 mais velhos do ranking, 32 são norte-americanos, 25 japoneses e dois portugueses. Portugal, nota Prista Lucas, é um caso curioso. "De há três ou quatro anos para cá temos sempre duas, três, quatro pessoas na lista - mais do que Espanha, que tem quatro vezes a nossa população. Mas o que causa mais perplexidade neste meio é o facto de haver no país casos de extrema longevidade. Em três anos colocámos duas pessoas na lista das 25 pessoas mais velhas da história."
Prista Lucas não é especialista em gerontologia. Mas avança hipóteses de explicação: "O clima, os hábitos alimentares, a história política e social, nunca fomos palco de nenhum grande conflito."
Maria de Jesus, que tinha 17 anos quando em 1910 a República foi proclamada, 46 quando começou a I Guerra Mundial e 81 quando foi a revolução de Abril, respondeu durante anos a fio às perguntas dos vizinhos e forasteiros curiosos sobre o segredo para viver tanto. Contava que não apreciava carne, que nunca fumou nem bebeu café e que todos os dias, ao pequeno-almoço, come "sopas de pão no leite". Prista Lucas confessa: "Também eu gostava de chegar a supercentenário."
1.ª posição no ranking
Maria de Jesus, nascida no Olival, Ourém, a 10 Setembro
de 1893 - 115 anos



29.ª posição
Augusto Moreira de Oliveira, nascido em Guetim, Espinho,
a 6 de Outubro de 1896,
residente em Grijó, Vila Nova
de Gaia - 112 anos



60.ª posição*
António Fernandes de Castro, nascido em Durrães, Barcelos,
a 6 de Janeiro de 1898 - 110 anos

a história uma da outra

É urgente que as duas Europas saibam a História uma da outra
http://jornal.publico.clix.pt/
7 de Dezembro de 2008
Clara Barata

quando se fala em holocausto, pensa-se
mas do outro lado da cortina de ferro a história é mal conhecida
pelas populações eslavas
os ucranianos
bielorrussos, polacos
lembram-se mais da fome
(há duas narrativas)

entre a alemanha e a rússia o fuzilamento foi um método para desaparecer
na grande depressão a próxima refeição não estava garantida
o holocausto ainda causa espanto na europa ocidental
quando a guerra oriental correu mal
2,6 milhões de prisioneiros morreram à fome
"é preciso que morram pessoas para alimentar os soldados"
na década de 30 a fome distribuiu terras na ucrânia
onde as pessoas morreram
(3,5 milhões)

os alemães achavam a alemanha demasiado pequena
e na união soviética sentia-se a revolução
que ultrapassava a democracia e o capitalismo
sensação de que a história terminava
e outra começava
com sangue
moralidade (revolucionária)
de trabalhadores e raças
uma conferência moderna alimenta uma aldeia ucraniana no coffee-break
(hoje os regimes não contam calorias)

uma hierarquia: um grupo que vai comer
e os outros
(os outros)
porque foi esquecido o holocausto do leste?
na guerra fria desapareceram alguns dos terrenos das matanças
os campos da fome não são espectaculares
o holocausto compete com outros sofrimentos

as pessoas lembram-se dos assassínos
mas não da morte de 27,5 milhões de soviéticos
que eram judeus
"não compreendem que nós ganhámos a guerra e sofremos mais"
(a investigação sem arquivos russos torna-se difícil)
o terror de estaline é recordado, sim
mas é pessoal

os europeus têm de reconhecer os horrores verdadeiros

quarta-feira, dezembro 03, 2008

acqua alta

Veneza
http://jornal.publico.clix.pt/
03.12.2008


em certas alturas do ano a população é alertada por mensagens
avisam os turistas para pensar duas vezes
e isto se procuram romantismo

a água acima de metro e meio e em todo o lado
não se fala de mortos nem de feridos
com água pela cintura
(os turistas maravilham-se à mesma)

ruelas
gôndolas
esplanadas
três ingredientes: a subida do mar, a chuva
e o vento que empurra a água para cima da cidade
monumentos, lojas e barcos afogados
(debaixo de água)
"quem pensa vir, pense duas vezes"

também inundadas:
várias cidades croatas banhadas pelo mesmo mar
de que não se fala

Entrevista ao director do “Centro de Investigação da University College of London”
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1351908&idCanal=13
John Martin: “Usar células de uma pessoa para recuperar o seu corpo é um conceito muito bonito”
03.12.2008 - 06h30 Romana Borja-Santos
Não somos uma salamandra, pelo menos para já. Mas os cientistas acreditam que no futuro, se danificarmos um órgão, vamos conseguir repará-lo com as células estaminais que estão dentro de nós. Hoje, John Martin, médico especialista em Cardiologia, director do “Centro de Investigação da University College of London” e membro da “British Heart Foundation” tenta que elas regenerem o coração depois de um ataque cardíaco.

Este médico britânico de 65 anos, que passou pela Filosofia, esteve na semana passada em Portugal para entregar o prémio de investigação da empresa Crioestaminal, que preserva sangue do cordão umbilical. Contudo, defende o investimento público em ciência e não acredita que estes bancos privados sejam necessários dentro de uma década: “Se tivesse um filho agora, não preservaria as células do seu cordão umbilical”. Martin considera, ainda, que “o maior desafio para a ciência, nos próximos cem anos, é definir o que é um ser humano”. O que é um embrião? Um agregado de moléculas ou um ser com alma? Mas não tem resposta. Nem a ciência tem.

Apesar de investigar tratamentos baseados em células estaminais e em terapia genética, acredita que o uso de embriões pode ser dispensado. Como agnóstico, aceita a possibilidade de estar errado e que, no futuro, tenhamos de dizer que os embriões não devem ser usados. Além disso, acha que a sua posição promove o debate. Neste momento, John Martin tenta perceber se a injecção de células estaminais no coração depois de um ataque cardíaco pode ajudar a reparar alguma coisa dentro do órgão. É ainda um ensaio clínico, mas o cientista espera ter um tratamento em breve.

Porque ganharam as células estaminais um papel tão central na ciência nos últimos anos?
Todos os seres humanos vêm das células estaminais, que têm a capacidade de formar qualquer órgão. Mas, recentemente, descobrimos que no nosso corpo também temos estas “células-mãe” ou “células-tronco” que circulam como uma força policial, procurando estragos e tentando repará-los. A salamandra ilustra bem este processo. É um pequeno animal que se perder a cauda consegue desenvolver uma nova. Porque é que não podemos fazer isso? Acredito que com o tempo vamos conseguir que o corpo volte atrás e seja capaz de fazer o mesmo que a salamandra.

No University College Hospitals Trust, onde trabalha, estão a desenvolver um ensaio nos doentes que dão entrada com um ataque cardíaco. Em que consiste e quais as suas vantagens?
Se vier ao meu hospital com um ataque cardíaco e estiver de acordo, os meus médicos retirarão células da sua medula óssea e injectá-las-ão no coração para o ajudar a regenerar-se sozinho. A medicina moderna pode tratar um ataque cardíaco fazendo uma angioplastia, mas o problema é que estamos a criar um novo grupo de doentes com uma nova doença, a falha cardíaca, muito comum depois de um ataque. Nós, ao mesmo tempo que desobstruímos os canais nas primeiras cinco horas, injectamos as células da medula.

Quando poderemos contar com esse tratamento em larga escala?
Gostava de vincar que, até ao momento, é apenas um ensaio clínico. Os médicos ainda não devem usar isto como tratamento até provarmos clinicamente que funciona. Se tivermos sucesso poderá ser usado em todos os centros da Europa dentro de cerca de dois anos, quando tivermos analisado os resultados dos cem doentes que integram o ensaio. É um tratamento muito simples e barato porque estamos a usar as células de uma pessoa para recuperar o seu próprio corpo, um conceito muito bonito. O problema deste processo é que a indústria farmacêutica não está envolvida pois não há nenhuma patente destes conceitos.

Porque é que os testes estão a ser feitos com o coração? Não há outras doenças que poderão beneficiar do uso de células estaminais?
Porque o coração é um órgão muito simples e de fácil análise. É uma mera bomba e vamos ver primeiro como é que estas células trabalham no coração. Depois disso acredito que passaremos para o pâncreas, para encontrar soluções para doenças como a diabetes, e para o cérebro, onde as células poderão ajudar no Parkinson.

No futuro, além das células estaminais qual pode ser a solução para muitas doenças?
Acredito que o futuro será uma combinação de tratamentos com células estaminais e com genes, que também investigo. A minha investigação mostrou que a terapia genética poderia resultar com a combinação de um vírus e de um gene que é injectado no corpo. No futuro retiraremos células da medula óssea e antes de as injectarmos no coração poderemos colocar também genes com efeitos positivos neste órgão.

Nos seus estudos, usa sempre células estaminais adultas, mas muitos cientistas defendem o uso de estaminais embrionárias, por serem mais eficazes...
Com as embrionárias, corre-se sempre o risco de haver rejeição, porque não vêm do corpo do doente. Há também o problema de potencialmente poderem formar tumores no corpo onde são implantadas. As adultas já estavam a circular no doente antes de serem injectadas numa nova zona e, por isso, não acarretam perigos. No meu hospital estamos apenas a retirá-las da medula e a concentrá-las no coração e até agora conseguimos demonstrar que não há efeitos secundários. Em todas as experiências clínicas da medicina temos de pensar no rácio risco/benefício. É importante o risco ser explicado ao doente mas acredito que é mesmo pequeno e o benefício enorme. Em tratamentos novos há sempre riscos.

Independentemente dos resultados há também a questão ética do uso de embriões...
Muitas pessoas, particularmente de países católicos, acreditam que não é ético usar estaminais embrionárias. Recentemente tivemos o exemplo de que é possível recorrer a estaminais adultas com sucesso. É isto que tento fazer. Nas adultas não vejo qualquer problema. Nas embrionárias há um problema ético de fundamento sobre o que é um ser humano e eu não sei a resposta. Estudei filosofia e sou professor de medicina e continuo sem saber a resposta. O maior desafio para a ciência nos próximos cem anos é definir o que é um ser humano. É uma simples máquina de moléculas ou um ser com alma? Por isso é preciso promover a discussão entre investigadores, médicos, filósofos, advogados, sociólogos... E não estamos a ter essa discussão. especialmente entre filósofos e cientistas que falam uma linguagem diferente. Temos de os por juntos para que possam falar.

Mas pode dizer-se que umas são mais eficientes que outras? Em que zonas do nosso corpo temos alternativas às embrionárias?
É uma questão científica. As células estaminais adultas estão já a ser testadas e as outras não serão durante pelo menos dez anos. Mas, teoricamente, as adultas servem e por isso não há necessidade de usar embrionárias. É provável que em todas as partes do corpo existam células estaminais residentes à espera de reparar determinado órgão. Pode ser o início de uma pequena revolução da medicina.

Mas há muitos embriões de casais que recorreram a tratamentos de fertilidade e que se não forem doados à ciência seriam de qualquer forma incinerados...
Aristóteles, que falou sobre o princípio da certeza, disse que só a matemática pode ser absolutamente certa. Na filosofia e na política só podemos atingir um nível de certeza se aceitarmos a possibilidade de o oposto estar certo. Porém, em termos de acção, decidimo-nos nesta ou naquela direcção. Acredito que se tivermos embriões que já não podem ser usados podemos investigá-los. Mas eu sou agnóstico e também aceito a possibilidade de estar errado. Pode ser que, depois de definirmos o que é um ser humano, então no futuro tenhamos de dizer que nem estes devemos usar. Decidi que não tomo uma posição absoluta pois isso pára o debate.

Em Portugal há cada vez mais pessoas a preservaram as células do cordão umbilical dos seus filhos, o que pode custar mais de 1000 euros. É uma necessidade real ou um mero negócio para empresas privadas?
Penso que teremos de esperar. Os princípios acabaram de ser lançados. Se tivesse um filho agora não preservaria as células do seu cordão umbilical porque não sei em que estado estarão dentro de dez anos e, nessa altura, estou confiante que já saberemos como manipular as próprias células adultas. Ainda assim, penso que é muito importante que qualquer pessoa que tenha um bebé doe o cordão mas apenas para investigação. Os bancos privados de células estaminais acabam por não ter muita razão de existir pois penso que todo este trabalho deve ser feito pelas universidades.

No Reino Unido há um apertado controlo sobre a investigação. Isso ajuda a evitar abusos?
Temos a combinação de leis muito liberais sobre o uso de células estaminais embrionárias e ao mesmo tempo um controlo muito grande sobre a sua aplicação. Funciona mas sinto que estamos demasiado regulados, pois é muito difícil conseguir uma autorização para iniciar uma investigação. A minha não usa células embrionárias e mesmo assim demorou um ano e tive de preencher um monte de folhas que empilhadas ultrapassariam o meio metro.

Nos Estados Unidos os oito anos com o Presidente George W. Bush foram muito restritivos, em especial na área das estaminais. Acredita que com o Presidente eleito Barack Obama a ciência no país poderá dar um salto?
A Europa está muito à frente dos Estados Unidos nesta área, o que em muito se deve à política restritiva de Bush na investigação de células estaminais. Acredito que Obama será mais liberal e que haverá um renascimento. O problema com Bush é que o seu Governo não percebeu a diferença entre as células embrionárias e as adultas e as agências públicas dificultaram a atribuição de fundos.

Que imagem tem dos cientistas portugueses, em especial na sua área?
Apesar de Portugal ser um país pequeno tem o potencial de contribuir para a ciência porque o que importa em primeiro lugar é a qualidade das ideias e não apenas a tecnologia, e os portugueses sempre tiveram boas ideias ao longo da história.

A solução, em especial para os países mais pequenos, pode ser a cooperação internacional?
Para mim o mais importante é que os países europeus trabalhem juntos em projectos da Comissão Europeia. Como é que se cria uma ideia de qualidade? Acredito que é pondo a trabalhar juntas num projecto diferentes pessoas, línguas e culturas. Mas os países nórdicos europeus são sem dúvida os que lideram a ciência biológica.

Num contexto de crise financeira internacional é muito difícil que os Estados justifiquem investimentos avultados em ciência...
A ciência é a base da sociedade moderna. Há duas coisas que tornam a Europa criativa: a filosofia europeia dos últimos milhares de anos e a ciência europeia dos últimos 200 anos. As pessoas têm de se lembrar que temos electricidade e motores de carros por causa da ciência... Depois de um pequeno investimento conseguimos um grande benefício. Na minha área, das doenças cardiovasculares, as patologias custam na União Europeia 300 mil milhões de euros por ano, apenas em custos directos. Um investimento muito pequeno em investigação pode fazer uma enorme diferença para o bolo económico. Defendo que Portugal deve continuar a fazer investigação por três razões: primeiro, poderão contribuir com uma ideia nobre. Segundo, devem perceber a ciência que é feita fora para poder comunicar aos Governos em que áreas se deve apostar. Por último, se houver um problema específico português para resolver, como o derramamento de petróleo em Espanha, é preciso ter cientistas capazes de o resolver.

Defende o investimento público ou privado na ciência?
Público, definitivamente. A grande indústria farmacêutica falhou. A Pfizer, por exemplo, gastou milhões e milhões de dólares em projectos nos últimos dois anos e não retirou nada daí. Transformaram-se numa grande máquina ineficiente. Penso que se pode estabelecer uma analogia com o que aconteceu aos nossos bancos durante os últimos seis meses, que deixaram de conseguir cumprir a sua função social. Por último – esta é uma ideia muito radical – penso que os governos deveriam tratar as farmacêuticas como os bancos, tendo alguma influência directamente nas suas funções sociais, promovendo-as. Nenhuma indústria tem apenas uma função capitalista, tem também uma função social. Acredito que a função social se tornou tão má que de qualquer forma devia ser promovida pelo Governo.

Qual passa então a ser o papel dos privados?
A tradução, o muito bom “marketing”, a muito boa organização e a facilidade com que entendem os ensaios clínicos. Mas eles não são bons a descobrir novas ideias. As novas ideias devem vir das universidades. Em 2020 a Europa só terá as suas ideias para vender porque tudo o resto será feito na China, na Índia e no Brasil. Neste momento não estamos a investir nas nossas universidades. Acredito que rejeitando as grandes farmacêuticas teremos mais ideias. Mas tudo isto requer alguma engenharia financeira por parte do Governo. As grandes farmacêuticas estão cheias de dinheiro. E penso que é o momento certo para o Governo se envolver em controlá-las e em redistribuir o seu dinheiro para uma função social apropriada. Isto pode parecer muito socialista, socialismo fundamentalista. Tenho medo que o poder económico das grandes farmacêuticas acabe por controlar as universidades, em especial quando há contratos de investigação. Sou completamente contra isso. A independência intelectual deve ser garantida, sem haver domínio de uma instituição sobre a outra. Gostaria de deixar uma mensagem ao Governo português: é muito importante investirem nas universidades.

segunda-feira, dezembro 01, 2008

TEMAS
http://jornal.publico.clix.pt/
01.12.2008




Termina o pequeno-almoço nos hotéis de cinco estrelas. Em carros de alta cilindrada, os convidados são levados através de uma cidade com tecto de chumbo até um hotel dourado.
Na sala da conferência de imprensa, comenta-se o cancelamento das festas de apresentação em cada país. Os jornais são categóricos: a Pirelli está a atravessar um processo de reestruturação que envolve despedimentos. Um desempregado dificilmente entende o marketing milionário, mas sabe que o cachet para dez dias de uma modelo lhe paga o ordenado de um ano inteiro.
As modelos estão atrasadas. Os jornalistas esperam.
Grande burburinho. Elas chegam, finalmente. Desfilam seguras, os corpos esguios, através da sala. Os fotógrafos e operadores de câmara atropelam-se. Elas sentam-se, baixam o olhar oblíquo e fitam a câmara. Olhos grandes e azuis que enfeitiçam. São modelos em trabalho.
- Por favor, sentem-se que vai começar a apresentação.
Ninguém ouve a anfitriã anafada. Os disparos sucedem-se. Os seguranças começam o trabalho e empurram os jornalistas. Um finge cair e dá com a câmara na cabeça do segurança quadrado.
- Por favor, sentem-se. Temos mesmo de começar!
Três minutos de desespero e as pessoas começam a obedecer.
No centro do palco, fala o director-geral da Pirelli. Está nervoso. "Estivemos para cancelar a edição deste ano. Foi um ano muito difícil, muitas pessoas estão a sofrer..." Hesita, mas continua: "... no final, entendemos que a mensagem de alerta e de esperança do calendário era fundamental e devia ser transmitida. Esta é uma edição especial, diferente de todas as outras." Conclui com confiança.
- Senhoras e senhoras, o fotógrafo: Peter Beard.
O americano decidiu imortalizar as sete modelos conhecidas internacionalmente no Botswana. Peter Beard viveu três anos no Quénia e é considerado um dos maiores intérpretes do mistério e charme de África. Fala com voz grossa. "Neste trabalho, quero que os elefantes sejam entendidos como uma metáfora da raça humana e África como uma metáfora de um mundo destruído que deve recuperar a harmonia."
Fala do ambiente, do homem, apresenta argumentos, diz que se ofereceu para fazer o trabalho de graça. No fim, solta uma gargalhada. "Gostava mesmo era de ver o making off."
- Senhoras e senhoras, o Calendário Pirelli 2009.
As luzes apagam-se. Começam os tambores. Na parede ao fundo, surge um enorme globo a rodar.
Montagem rápida de elefantes, búfalos e gazelas a correr por planícies acastanhadas.
De repente, verde e azul no ecrã. Estamos num oásis aquático. No delta do rio Okavango.
Duas modelos estão com água até aos joelhos. Uma loura e outra morena. Atrás delas, correm dois elefantes que fazem uma nuvem de pó. "Tive medo. Não sabia o que podia acontecer." A loura cai.
Click. A primeira foto está feita.
A viagem continua.
Num charco, um elefante arranca as extensões de cabelo a uma modelo.
"Foi a primeira vez que toquei na pele de um elefante."
Uma rapariga chora e contorce-se quando o fotógrafo lhe coloca um enorme insecto sobre o rosto.
"Foi o melhor trabalho que já fiz."
Completamente nua, uma modelo brasileira deita-se sobre um elefante em movimento. "Tivemos a possibilidade de passar uma mensagem mais profunda do que costumamos fazer."
Três jovens seguram o cadáver de uma águia e esboçam um esgar de nojo.
"Foi mais profundo e bonito do que estava à espera."
Num instante é de madrugada. Estamos no deserto do Calaári.
Beard grita. "Rápido, rápido. Não temos muito tempo!"
Uma modelo trepa uma árvore gigante e sem folhas. Atrás dela outra, e depois outra. São sete modelos, nenhuma africana. Um jornalista italiano comenta. "Na Pirelli não há efeito Obama."
As modelos estão no cimo da árvore.
Silêncio.
Em câmara lenta, contorcem os seus corpos leitosos. Vão-se confundindo com os troncos da árvore.
Click.
De um momento para o outro, acontece poesia. Homem e natureza, outra vez um só.
Terminou a apresentação.
Peter Beard: "Tudo o que vimos foi real: as raparigas, a paisagem, a mensagem... a mensagem é real."
As pessoas dispersam. No interior das viaturas negras, os convidados voltam aos seus ninhos de ouro.
De África para a sala de imprensa, daí para as ruas de Berlim e para o interior dos hotéis luxuosos. Um mundo dentro de um mundo dentro de outro. Uma matrioska à escala da vida.
Logo à noite, há jantar de gala para 700 pessoas.