"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

terça-feira, março 31, 2009

Os americanos adoram-nos (agora um bocadinho mais)
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31.03.2009, Rita Siza, Washington


A América nasceu contra a Europa mas cresceu à custa de europeus que cruzaram o Atlântico à procura de uma vida melhor. Hoje, em tempos de crise, volta a olhar para o Velho Continente como o seu aliado natural


Os americanos são universalmente conhecidos pela sua inaptidão (quase) genética para aprender geografia, e pedir a alguém nos Estados Unidos para apontar no mapa a capital de qualquer país da Europa é um exercício que garantidamente acaba em gargalhada. Mas esta incapacidade relativa não ilustra, de forma nenhuma, um deliberado alheamento ou uma consciente rejeição da Europa pelos norte-americanos.
No quotidiano americano, a exposição à cultura europeia é quase nula e não pode ser comparada ao consumo maciço no Velho Continente da música, cinema e séries televisivas dos Estados Unidos. Ainda assim, na capital de Washington, o noticiário da britânica BBC é dos que têm mais audiências; o canal francês TV5 encontra-se no alinhamento do cabo e a estação pública de rádio NPR transmite uma hora por dia produzida pela alemã Deutsche Welle.
As férias de sonho dos americanos são em Paris, a sua comida preferida é pizza e o desporto mais praticado nos liceus é o futebol (soccer). Aqui, a celebração do padroeiro da Irlanda no St. Patrick's Day é uma obsessão nacional. E há mais homens a vestir kilt para cerimónias importantes do que na Escócia.
Ao contrário do que apregoa o preconceito europeu sobre a ignorância americana, o nível de conhecimento que os americanos têm da Europa não é risível, nem os seus comportamentos são de tal maneira diferentes que se tornam incompreensíveis. Por exemplo, de uma maneira geral, "os americanos sabem tanto ou tão pouco sobre a burocracia e o funcionamento da União Europeia quanto os europeus", compara ao P2 John Glenn, director de Política Externa do German Marshall Fund dos Estados Unidos.
Daí que seja natural que considerem os europeus como os seus "aliados naturais": o estudo anual sobre as Tendências Transatlânticas que o German Marshall Fund colige demonstra que a opinião da sociedade americana sobre a Europa se mantém consistentemente positiva e que, ao largo do espectro político dos Estados Unidos, seja manifesto um desejo de que os europeus exerçam a sua liderança no palco internacional.
Outros relatórios, com destaque para os inquéritos do Pew Research Center, demonstram como os americanos têm cada vez mais uma "mentalidade europeia", como descreve o colunista conservador Jonah Goldberg. Segundo as conclusões de sucessivos estudos daquele centro, há uma assinalável convergência nas atitudes e opiniões dos americanos e europeus numa variedade de assuntos, desde o papel do governo ao valor da religião.
"Há uma certa visão liberal que abertamente tenta 'europeizar' a política social americana há décadas. E há uma parte do país que olha para o sistema de saúde europeu, para as regras dos seus sindicatos, as políticas fiscais, o modelo industrial, a política externa ou mesmo os seus costumes e comportamentos sexuais e pensa que aqui, nos Estados Unidos, devíamos ser mais como eles", repara Goldberg.
Nascimento de uma nação
Nem sempre foi assim. Na génese dos Estados Unidos (e na construção da identidade do país) esteve uma profunda rejeição de todas-as-coisas-europeias. Como explicam os historiadores, em 1776, os americanos não declararam a sua independência apenas da Coroa britânica; estabeleceram claramente uma fronteira política contra o modelo monárquico, a tradição aristocrática e as ideias agressivas, bélicas e colonialistas praticadas pelos europeus.
Este novo país, declarou George Washington, o primeiro Presidente dos Estados Unidos, não podia estar mais "afastado e distante das armadilhas, das ambições e rivalidades europeias, dos seus interesses, humores e caprichos". Essa visão da América dos séculos XVII e XVIII como o Novo Mundo, por oposição à "velha ordem", corrupta e decadente, que vigorava na Europa, permanece nos manuais escolares dos alunos dos Estados Unidos até hoje.
Sucessivas ondas de imigração europeia povoaram as grandes cidades americanas um século mais tarde. Quarenta milhões de pessoas atravessaram o Atlântico e tornaram-se cidadãos dos Estados Unidos - e estas novas comunidades, integradas num novo sistema político, não esqueceram as suas tradições. Ainda hoje, muita da informação que os americanos conhecem da Europa tem uma fonte próxima: a sua própria família.
Antes da sociedade mediática, era a literatura que alimentava a sociedade dos Estados Unidos com um sentimento de superioridade moral face aos europeus. Henry James, enamorado pela cultura e história europeias, instalou-se em Inglaterra, mas os seus personagens americanos que fizeram a mesma viagem, em obras como Os Europeus ou Retrato de Uma Senhora, só encontraram desapontamento e infelicidade.
O poderio americano consolidou-se com as duas Guerras Mundiais e a sensação de que só os Estados Unidos conseguiam salvar a Europa de si própria. Ao mesmo tempo, nota John Glenn, "as duas guerras e, mais tarde, a luta comum contra o comunismo marcaram várias gerações de americanos e estabeleceram esta visão de forte aliança entre os Estados Unidos e a Europa". Acrescente-se a isso a dependência económica que os dois blocos estabeleceram durante o século passado: "Os Estados Unidos são o maior parceiro comercial europeu e vice-versa. Em termos de comércio e investimento, os interesses são enormes", refere o mesmo especialista.
Depois da queda do Muro de Berlim, e igualmente da derrota da afirmação da União Europeia como "contrapeso aos Estados Unidos" ou das teorias que diziam que a Europa não precisava da América, o relacionamento entre os dois blocos atlânticos encontrou um novo equilíbrio.
"A visão positiva da Europa pela América não é apenas uma coisa cultural, faz parte da realidade política: os Estados Unidos encaram favoravelmente a ascensão da Europa como líder global. O que não quer dizer", ressalva o especialista do German Marshall Fund, "que os políticos americanos encarem o modelo político europeu como uma inspiração".
"Há demasiados interesses comuns em problemas globais, desde a perspectiva de um Irão nuclear ao ressurgimento da Rússia, a estabilização do Afeganistão, as questões ligadas às alterações climáticas ou ao comércio global...", enumera John Glenn. "No mundo de hoje, é difícil imaginar que a Europa ou os Estados Unidos serão capazes de resolver estes problemas sozinhos", conclui.
Esse é um quadro que parece relativamente estável e quase que imune às mudanças políticas conjunturais (leia-se, à sucessão dos governos, de um e outro lado do oceano). A aliança transatlântica sobreviveu relativamente incólume aos últimos anos de desconfiança, alimentada sobretudo pela reacção europeia à decisão americana de invadir o Iraque.
Obama, o menos europeu
A eleição de Barack Obama para a Casa Branca, e a mudança de tom da sua Administração relativamente a um conjunto de matérias altamente valorizadas pela opinião pública europeia - o encerramento da prisão militar de Guantánamo, o princípio de retirada do Iraque, a defesa da ciência face à religião, as declarações a favor dos direitos dos homossexuais e os compromissos alcançados para o combate às alterações climáticas - é "um princípio prometedor" em termos do fortalecimento da interacção transatlântica.
Curiosamente, assinalava The Economist, Obama até pode ser considerado, na linhagem dos líderes do partido Democrático, como o "menos europeu". Kennedy estudou na London School of Economics, Bill Clinton na Universidade de Oxford e John Kerry não só falava francês como parecia francês, lembrava a revista.
As elites americanas ainda são vincadamente "eurocêntricas", mas o mundo em que cresceu Obama e as pessoas que o rodeiam escapou a essa atracção. Apesar disso, a obamamania tomou conta da Europa e o Presidente dos Estados Unidos goza de uma boa-vontade sem precedentes na sociedade europeia.
"Para já, os europeus têm vindo a responder às iniciativas americanas com um renovado optimismo", observa John Glenn, alertando, contudo, para um excesso de optimismo do outro lado do Atlântico. "Há muitos problemas de resolução difícil e há muito pouco espaço de manobra", alerta.
O que não há, na Administração de Obama, é qualquer resquício do neoconservadorismo eurofóbico que vingou durante a Administração de George W. Bush. Sem a oposição à guerra do Iraque a inflamar os ânimos, deixou de fazer sentido para os americanos distinguir os seus parceiros transatlânticos em diferentes categorias - a retórica da "Velha Europa" e da "Nova Europa", segundo a classificação de Donald Rumsfeld e Paul Wolfowitz, desapareceu do discurso oficial.
O fim dos tabus?
Mas o fantasma dos excessos da Europa, que remonta à fundação do país, continua arreigado no debate público dos Estados Unidos. "A Europa é sempre mencionada, sobretudo pela ala direita conservadora, de forma negativa, como uma personificação de tudo o que está errado com o governo. É, obviamente, uma simplificação retórica e não reflecte os dados dos mais variados estudos, que demonstram as opiniões positivas dos americanos", sublinha.
Perante a actual recessão económica, e a forma como os governos e as populações estão a ser afectados de um e outro lado, os americanos têm olhado com mais interesse para o que se passa na Europa. E alguns tabus começam a cair.
Como disse há dias Charles Murray, do conservador think tank American Enterprise Institute de Washington, "não há nada de sinistro" nos esforços da nova Administração para "emular" o modelo social-democrata europeu. "Obama e os seus conselheiros partilham a visão - que é intelectualmente respeitável - de que os modelos sociais e regulatórios europeus são mais progressistas do que os da América, e defendem reformas no sentido de aproximar o sistema americano ao europeu", notou.
Murray foi mesmo mais longe e desdramatizou os defeitos da organização europeia denunciados pelos conservadores. "Em muitos aspectos, o modelo europeu funciona. Fico sempre encantado quando vou a Estocolmo ou Amesterdão, já para não falar em Roma ou em Paris. As pessoas não parecem estar a lutar e a gemer sob o jugo de um sistema maléfico. Muito pelo contrário, há muitas razões para gostar da vida do dia-a-dia na Europa", considerou.

domingo, março 29, 2009

Mãe há só duas
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29.03.2009, José Vítor Malheiros


Ouvimos durante tantos anos que a figura do pai era basilar na família e que representava um papel que mais ninguém podia representar. José Vítor Malheiros reflecte sobre o que é passar para uma família sem pai no momento em que o Reino Unido vai permitir que as mulheres que recorrem a técnicas de procriação medicamente assistida possam indicar uma mulher como pai


Em português torna-se tudo muito mais complicado. Dizemos "pais" para falar do par formado pelo pai e pela mãe. Também dizemos "pais" para falar dos homens que têm filhos. Em espanhol é a mesma coisa, uma confusão. Em francês ou inglês há menos confusões: parents (a mesma grafia nas duas línguas) é o conjunto do pai e da mãe. Quando falamos do papel dos pais, dos direitos dos pais ou das responsabilidades dos pais, em português, ninguém se entende, a menos que de vez em quando se especifique: "Aqui estou a falar de pais-fathers." "Agora estou a falar de pais-parents."
É estranho que não se tenha adoptado um termo mais específico para representar algo tão importante como este par. Mas talvez não seja estranho: há em "pais" uma sub-reptícia reivindicação de poder masculino, como se o pai quisesse chamar a si, para a autoridade paternal, aquilo que é a autoridade parental, o poder dos dois pais. Um reflexo do "cabeça de casal", do "chefe de família".
Mas onde a língua choca violentamente com a realidade é quando, como acontece nos casais de duas mulheres lésbicas que têm filhos - por adopção, inseminação artificial, fertilização in vitro, fruto de uma relação heterossexual de uma delas -, os "pais" são duas mães.
A situação está longe de ser nova. Países como a Espanha, Holanda, Bélgica, Suécia, Noruega, Dinamarca, Canadá ou Reino Unido permitem a adopção de crianças por casais do mesmo sexo, alguns já há vários anos. E, a partir da próxima sexta-feira, o Reino Unido vai passar a permitir que as mulheres que recorrem a técnicas de procriação medicamente assistida (PMA), indiquem como "o outro pai (parent)" indistintamente um homem ou uma mulher. Vários outros países já o permitiam, mas a nova lei britânica, que entra em vigor no país que inventou a fertilização in vitro, vai ser mais um forte argumento de pressão para os que defendem a igualdade de direitos parentais entre casais hetero e homossexuais.
Mas, se há assunto que suscita paixões e argumentos arrebatados, é o dos direitos parentais dos homossexuais, mesmo que individualmente considerados, e - ainda mais - dos casais homossexuais. A prova disso é como, mesmo pessoas (e organizações) que defendem o casamento homossexual, param na fronteira da concessão dos direitos de adopção ou de recurso à PMA a casais do mesmo sexo. Não há muitos assuntos que nos interpelem tanto e sobre os quais receemos tanto decidir, como sociedade. Pelo que significam de alteração de papéis que nos habituámos a ouvir dizer que constituíam as fundações da nossa sociedade (e quem é que quer abanar as fundações da sociedade?) e pelos riscos que não estamos dispostos a fazer correr as nossas crianças. E, se há nos dois extremos "conservadores" e "liberais" com convicções definidas, há também, no meio, imensa gente que, mesmo quando é mais sensível a argumentos de um dos lados, se sente incapaz de tomar uma decisão. É particularmente curioso como muita gente que favorece os direitos dos homossexuais nesta matéria diz mais facilmente "penso que é algo que vai acabar por acontecer" do que avança uma declaração de apoio sem ambiguidades.
É o peso do argumento da "evolução natural" a fazer-se sentir. O receio de brincar a Deus ou aos engenheiros sociais. Mas não empurramos tantas vezes, para a frente ou para o lado, essa evolução natural das coisas e da sociedade?
"A criança fruto da procriação medicamente assistida deve ser encarada como um fim em si mesmo e um dom a acolher, não como um objecto que se reivindica ou um instrumento ao serviço de fins que a ultrapassam", diz Pedro Vaz Patto, juiz e membro da Comissão Nacional Justiça e Paz, organismo laico da Conferência Episcopal Portuguesa. "E o bem dessa criança exige que nasça no contexto o mais possível próximo do que se verifica com a procriação natural. Impõe-se garantir não que ela vá ser criada num qualquer contexto possível, mas naquele contexto que para ela é o melhor. E isso deve ser garantido. Não podemos aceitar experimentalismos sociais, a criança não pode ser objecto de experiências mais ou menos vanguardistas ou correr riscos que poderão ser fatais. Não se trata de ser conservador, trata-se de aplicar um princípio de precaução que neste âmbito se justifica mais do que em qualquer outro."
Apesar do que diz Vaz Patto, este é o argumento conservador por excelência, mas não é por isso que ele deve pesar menos. Pelo contrário, se há domínio onde a prudência, a escolha de soluções conhecidas e a recusa de riscos parece imperativa deve ser este. O argumento conservador parece aqui de grande sensatez.
Só que, quando a lei permite este tipo de soluções, ela não está a ser vanguardista ou experimentalista. A realidade é que há muitas crianças que vivem já e há muitos anos com pais homossexuais - ou com um progenitor biológico e o seu companheiro (ou companheira) ou nasceram já no âmbito de uma relação homossexual. Segundo dados do Gabinete de Recenseamento dos Estados Unidos (US Census Bureau), havia em 2005 nos EUA 270.313 crianças a viver com casais formados por pessoas do mesmo sexo. Vinte por cento dos casais de gays ou lésbicas tinham crianças a seu cargo (menores de 18 anos). E estimava-se que 65.000 crianças adoptadas vivessem com um pai (parent) homossexual. Em 2000, o número de casais do mesmo sexo recenseados nos EUA era superior a 770.000. Surpreendente? Talvez, mas trata-se de dados que muita gente prefere ignorar.
O psiquiatra Afonso de Albuquerque, no seu livro Minorias Eróticas e Agressores Sexuais, no capítulo intitulado "Os homossexuais como pais" refere que - "apesar de a relação homossexual não ser reprodutiva, cerca de 25 % dos homens gay e uma percentagem ainda mais elevada de lésbicas (65 %) têm filhos". Muitos destes são fruto de relações heterossexuais anteriores ou relações ocasionais concomitantes, mas um número crescente destas crianças são fruto de PMA.
O que é que isto quer dizer? Que a lei, mesmo quando parece avançada e mesmo quando é objecto de contestação, não está a fazer engenharia social, mas sim a enquadrar situações que existem no terreno e que até nem são tão raras como se pensa. Isto não significa que elas devam ser aceites por esse facto - há comportamentos que a sociedade reprova e que não vai legalizar apenas pelo facto de serem comuns. Mas significa que um dos argumentos mais vezes avançados contra as leis socialmente mais liberais - o de que vão abrir uma caixa de Pandora com consequências imprevisíveis - não tem muitas vezes razão de ser. A caixa de Pandora, se existe, já foi aberta há muito e ninguém reparou.
Há outra coisa que decorre da abundância de situações deste tipo: houve tempo para realizar estudos e estudos com grupos de dimensão razoável e com um recuo temporal considerável - nomeadamente estudos sobre jovens adultos que cresceram em casas onde os pais eram duas pessoas do mesmo sexo (dois pais, duas mães) e que permitem extrair conclusões sobre o seu desenvolvimento geral e sobre uma das grandes interrogações: estes pais influenciam de alguma forma a identidade e a orientação sexual dos seus filhos?
"Há muitos estudos feitos desde os anos 70, tanto no Reino Unido como nos Estados Unidos, sobre o desenvolvimento das crianças educadas por casais do mesmo sexo", diz-nos Susan Golombok, directora do Centro de Investigação sobre a Família da Universidade de Cambridge e uma das autoridades mundiais em famílias lésbicas. "Nessa altura não se sabia nada sobre isto e estes estudos foram desencadeados por casos judiciais de custódia de crianças em casos de divórcio. Mais tarde, com a difusão do recurso a PMA por parte de casais de lésbicas, houve uma proliferação de estudos. E a verdade é que estas crianças - e estes jovens, porque nós seguimos as crianças até à idade adulta - não apresentam diferenças significativas em relação a quaisquer outras do ponto de vista do bem-estar psicológico, do comportamento, do ponto de vista do desenvolvimento do género, da identidade de género, quer, especificamente, do ponto de vista da sua orientação sexual. Não há mais homossexuais entre os jovens que foram educados por um casal homossexual do que na população em geral."
O que Susan Golombok encontrou nestes jovens, na adolescência, foi uma maior disponibilidade que na população em geral para a experimentação sexual com parceiros do mesmo sexo - "um encontro, uma noite" -, o que parece ser atribuível a um ambiente menos repressivo em relação a essas práticas. Mas a orientação sexual destes jovens não apresenta desvios em relação aos padrões da população geral.
Muitos homossexuais minimizam a questão - "e se houvesse mais homossexuais qual seria o problema?" perguntam -, mas essa é de facto uma das questões candentes. O que parece é que, da mesma maneira que crescer numa família tradicional não faz com que os filhos sejam heterossexuais, ser educado por duas mães lésbicas não faz das crianças homossexuais.
"Uma coisa que é muito curiosa é que, mesmo do ponto de vista dos comportamentos associados ao género", diz Golombok, "como os rapazes brincarem com pistolas e as meninas com bonecas e coisas assim, apesar de algumas das mães lésbicas tentarem contrariar de forma muito activa esses comportamentos típicos do género, não encontrámos diferenças significativas ante a população geral. A atitude das mães não fez diferença. Em geral considera-se que os rapazes precisam de um modelo do pai para seguir e as raparigas do modelo da mãe. A verdade é que não encontramos provas científicas de que um rapaz seja menos masculino quando é educado apenas por uma mãe ou por duas mães lésbicas."
Como se explica isso? Golombok responde cautelosamente: "A verdade é que os pais (parents) não fazem grande diferença em termos do desenvolvimento do género nos filhos. Há muitas outras influências além da família nuclear que são importantes, a escola, a comunidade..."
Será possível? Os pais (parents) não são tão importantes como pensamos e os pais (fathers) têm tão pouca importância que, quando os descartamos por completo (por exemplo, nas famílias lésbicas), não parece acontecer nada de catastrófico aos filhos? O que é que isto diz aos pais-fathers (como eu)?
A verdade é que andámos a ouvir durante tantos anos que o papel do pai era basilar na família e que representávamos um papel que mais ninguém podia representar, que acabámos por acreditar mas... será mesmo assim?
Aprendemos que ao pai cabia o papel severo (e perseverante), administrador de disciplina, e que a mãe era a provedora de carinho. Que o pai preparava com rigor os filhos para o futuro e que a mãe os apoiava com amor no presente. Que o pai tinha a manápula de ferro e a mãe a luva de veludo. Já não será assim?
De facto, parece que já não é - ainda que as referências literárias perdurem. Se algo mudou no último século, foi a família e Freud teria de reescrever boa parte da obra, se ressuscitasse neste século XXI.
O papel social das mulheres mudou drasticamente e com ele o seu papel na família e com ele o papel dos homens e toda a dinâmica familiar e até o pathos. A mulher passiva, dócil e doméstica é hoje activa, assertiva e profissional. E se o papel do homem na família estava intimamente ligado à sua função de provedor do sustento e à sua autoridade natural devido à superioridade masculina... é natural que esse papel também tenha mudado.
"Se para Freud a criança precisa de uma mãe/mulher e de um pai/homem, clínicos posteriores defendem que a criança tem necessidades de sobrevivência, de afecto e lúdicas e de uma ou mais pessoas a quem se ligue. Há imensa investigação a comprovar estas afirmações", diz a psicóloga clínica Margarida Gaspar de Matos. "Quando pensamos em 'desvios' das famílias idealizadas, se quisermos ser analíticos, ficamos sem saber se os potenciais problemas que os filhos possam apresentar não serão devidos ao estatuto 'desviante' dessa família. Quem nos diz que não são consequência da escola, da rua, dos amigos, do regime político, do século ou do país em que nasceram?"
De facto, de um certo ponto de vista - como alguém que passou toda a sua vida numa família, penso que isso me qualifica pelo menos como observador interessado -, as famílias não parecem ter mudado radicalmente, porque continuam a ocupar o seu papel, mas cumprem-no hoje de forma muito diferente do que faziam no passado. E muitos dos modelos de família actuais seriam certamente considerados desviantes e geradores de patologia há um século. Hoje há famílias tradicionais onde o pai cozinha e a mãe trata dos computadores e do carro.
Mas será que daí se pode passar para uma família sem pai? O que pode um pai pensar disso?
É verdade que já há (sempre houve e hoje há mais ainda) famílias sem pais (e crianças criadas apenas pela mãe ou pela avó), mas nenhum pai pode imaginar sair de cena sem experimentar uma profunda sensação de perda - para si e para os seus filhos. Há uma morte simbólica do pai. Imaginar a nossa família sem nós não pode deixar de ser uma experiência de luto e é isso que alguns homens sentem ao imaginar-se excluídos do quadro onde sempre estiveram - e onde por vezes se imaginam ao centro, com a mão na espada e o olhar no horizonte. Mas a questão é que não se trata de expulsar do paraíso doméstico os homens que lá estão. A questão é simplesmente a de imaginar e construir outros universos domésticos onde não há homens. E o mesmo se poderia dizer das mães.
Mas então os pais (fathers) não são importantes?
"Os pais (fathers) são importantes pela mesma razão que as mães são importantes: pelo afecto", responde Golombok. "A qualidade da relação (parenting) é que é importante. O género é secundário."
Mas a quem cabe nesse caso o papel de pai? A pergunta é difícil de responder porque... talvez não haja um papel específico de pai. Quem vai ensinar o filho a pescar, a fazer a barba, a dar o nó da gravata? Quem souber e quem lá estiver. O papel de pai (father) é apenas aquele que eu faço quando sou pai (parent). E, se as famílias vêm em diferentes formatos, os pais também. Há pais que não pescam, se cortam sempre ao fazer a barba e não sabem dar nós de gravata. E, no que diz respeito às coisas realmente importantes, acompanhar, apoiar, incentivar, ouvir, acarinhar, aconselhar, ensinar, alguém duvidará que as mulheres as fazem igualmente bem?
"Diz-se que as crianças precisam de um pai e de uma mãe para ter modelos femininos e masculinos da sociedade, mas esses modelos foram criados por esta mesma sociedade e nada nos diz se são bons para o crescimento harmonioso do criança", diz Margarida Gaspar de Matos. "Não está escrito em lado nenhum, nem há qualquer investigação que permita concluir que a criança que cresça a observar a mãe na cozinha e o pai a ver futebol fique melhor ou pior do que outra que vê a mãe na cozinha e a outra mãe a ver futebol, o pai na cozinha e o outro pai a ver futebol, o pai na cozinha e a mãe a ver futebol ou os dois na cozinha ou os dois a ver futebol ou qualquer outra combinação. Mas o mesmo não se pode dizer da criança que vê o pai a bater na mãe, o pai a espancar os irmãos, a mãe a bater no pai, a mãe a bater na outra mãe..."
Mas há comportamentos de género, apesar de tudo os homens e as mulheres não são iguais. Não é conveniente para uma criança ter um homem na família?
"As pessoas não são criadas apenas pela família próxima", diz Paulo Corte-Real, presidente da Associação ILGA Portugal-Intervenção Lésbica, Gay, Bissexual e Transgénero. "Há a rede familiar alargada, os amigos e amigas, a escola, a sociedade em geral e todos os modelos estão aí representados. Será que podemos dizer que uma criança que é criada só pela mãe não sabe que é um homem?"
Os trabalhos de Golombok têm alimentado alguma controvérsia, mas ela é mais devida às posições pessoais dos vários intervenientes na discussão do que à análise dos dados. Os dados, esses, parecem apontar de forma consistente para a conclusão de que os pais homossexuais - individualmente considerados ou aos pares - não são piores para as crianças que os heterossexuais.
"Aquela visão de sonho da família idealizada: um par heterossexual, duas pessoas jovens, bonitas, saudáveis, cultas, sofisticadas, bem formadas, que adoram os filhos, que nunca perdem a paciência, que nunca se zangam, que nunca se enganam, que nunca erram, que nunca se cansam - os YAVIS, Young, Attractive, Valuable, Inteligente and Sophisticated - não são a maioria das famílias e, se calhar, nem são nenhuma família, face a um olhar mais profundo", diz Margarida Gaspar de Matos. "Não há famílias 'excelentes'. A argumentação à volta da competência pessoal, afectiva, e social de um casal homossexual na educação de um filho parte unicamente de vários preconceitos e estereótipos que não resistem a uma observação mais profunda."
Há outro aspecto já referido de passagem, mas que merece uma atenção mais profunda no caso de crianças filhas de duas mulheres: a pressão social. Mesmo que a sua vida familiar seja cheia de afecto e segurança, estimulante e equilibrada, o olhar dos outros, a censura, a discriminação não podem ser origem de sofrimento para as crianças?
"Penso que o único problema que surge no caso de os pais terem o mesmo sexo é mesmo a pressão social que se exerce sobre os pais e a criança", diz Margarida Gaspar de Matos. "Esse peso da norma e da discriminação não é menosprezável e até pode ser muito invasivo. Só que o problema não está na identidade ou orientação sexual dos cuidadores, mas na energia que a criança tem de despender face a um ambiente hostil e culpabilizador."
A investigação de Susan Golombok também encontrou problemas nesta área.
"Uma família não tradicional pode experimentar mais dificuldades, ser objecto de discriminação", diz a investigadora de Cambridge. "Mas isso depende muito do ambiente onde vive, se vive numa zona rural muito tradicional ou numa grande cidade, por exemplo. A família não vive num vácuo social. Na nossa investigação, uma das coisas que estudávamos era o bullying a que as crianças poderiam ter sido submetidas devido à sua situação familiar. As crianças não relatavam mais episódios de bullying que as outras. Mas quando as interrogámos passados uns anos, relatavam mais casos de provocações dos colegas durante a adolescência a propósito não da orientação sexual das suas mães, mas da sua própria orientação sexual."
A discriminação social, porém, dificilmente pode justificar uma atitude de obstáculo à parentalidade de casais de gays ou lésbicas. Se assim fosse, o mesmo princípio, em nome da protecção dos interessados contra a crítica, poderia ser usado para proibir qualquer situação que pudesse ser objecto de censura social. Estaríamos a somar uma agressão a outra.
Mas essa discriminação social pode estar a desvanecer-se.
"Os mais jovens têm posições mais abertas", diz Rui Nunes, director do Serviço de Bioética e Ética Médica da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e presidente da Associação Portuguesa de Biotética. "A sociedade portuguesa está progressivamente a aceitar o casamento entre pessoas do mesmo sexo e tenho poucas dúvidas de que, depois do casamento, virá a adopção e a PMA. É provável que o curso dos acontecimentos em Portugal seja semelhante ao que aconteceu no Reino Unido. Mas ainda faltam estudos que iluminem de uma forma clara algumas questões, já que o que está em causa são os direitos da criança e temos de aplicar o princípio da precaução. É preciso comprovar os estudos já existentes que parecem apontar que, para o desenvolvimento harmonioso de um ser humano do ponto de vista psicológico, familiar, relacional, não é necessário um casal de duas pessoas de sexo oposto e que é o amor que é fundamental e não o género. Se isso acontecer, não creio que haja fundamento ético para impedir o recurso de casais do mesmo sexo quer à PMA, quer à adopção."
A ILGA também deseja que o casamento, a adopção e a PMA passem a ser acessíveis aos casais gays e lésbicos e está preocupada com o que Paulo Corte-Real considera uma situação de total desprotecção dos pais homossexuais. "Em Portugal não há adopção por casais do mesmo sexo e a PMA exclui mulheres solteiras e casais de lésbicas", diz Corte-Real. "Apenas podem fazer uma inseminação mulheres casadas ou em união de facto com um homem. O que acontece é que muitas portuguesas vão a Espanha para fazer a inseminação artificial."
Uma vez em Portugal, porém, se a mãe biológica consta nos documentos como mãe, o outro elemento do casal não tem existência legal na família e, oficialmente, não tem quaisquer direitos sobre a criança.
Seria fácil aprovar em Portugal uma lei como a que entra em vigor esta semana no Reino Unido? António José Fialho, juiz do Tribunal de Família e Menores do Barreiro, que prefere não se pronunciar sobre a matéria substantiva da lei britânica, diz que do ponto de vista jurídico não seria complicado, ainda que isso obrigasse a uma série de alterações. "A lei portuguesa, no que respeita à filiação, baseia-se num princípio que é a prevalência da verdade biológica. E considera que só há geração de família a partir de um casal formado por duas pessoas de sexos diferentes. O pai biológico é sempre um homem, não pode ser uma mulher. E não pode haver duas mães", diz António José Fialho. "Ora a lei britânica está em conflito com a verdade biológica. Para adoptar algo de semelhante em Portugal seria preciso mudar muitas coisas no Código Civil, relativamente à adopção, à maternidade e à paternidade. Quanto à Constituição, penso que não haveria alterações a fazer, pois possui abertura para acolher todas as soluções. Mas também é verdade que existem já excepções a esse princípio da verdade biológica. É o caso da mulher que se submete a uma inseminação artificial com dador mas declara que o pai da criança que nasce é o marido ou os casos de adopção, onde os pais legais não são os pais biológicos."
Enquanto o debate não se generaliza e os políticos não abordam a questão legislativa, e independentemente da opinião que cada um tenha, é importante lembrarmo-nos de uma coisa: casais de homens gays e de mulheres lésbicas já existem. Homossexuais sós que vivem com um ou mais filhos, biológicos ou não, também. Casais de mulheres ou de homens com um ou mais filhos, filhos biológicos de um deles ou adoptados, também existem. O que se irá discutir um dia é apenas como lhes vamos chamar e se o seu estatuto será assumido com honestidade pelo resto da sociedade, ou se teremos de continuar a encontrar eufemismos para falar da situação familiar destas pessoas que vivem à nossa volta, que são os nossos familiares, os nossos colegas, os nossos amigos, os nossos pais e os nossos filhos.

domingo, março 22, 2009

tudo ao mesmo tempo

John Beddington discursa hoje em Westminster
Conselheiro científico do Governo britânico alerta que o mundo se dirige para a “tempestade perfeita” em 2030
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1369935
19.03.2009 - 15h34 PÚBLICO

falta de alimentos
de água
de energia
agitação, conflitos e migrações (em massa)

as pessoas a fugir

uma grande seca ou inundação
uma escalada dos preços

todas estas coisas vão acontecer ao mesmo tempo
à medida que as pessoas tentam escapar

Mulheres bombistas são "carne para canhão"
http://jornal.publico.clix.pt/
22.03.2009, Sofia Lorena


Elas têm motivos próprios e perfis diferentes. Eles decidem deixá-las morrer assim porque que isso resulta. Fazem falta outras heroínas



As mulheres da Al Khansaa estão outra vez encurraladas. Renunciaram à Al-Qaeda há meses - Khansaa era a ala feminina de bombistas suicidas de Duluiyah -, mas o que têm agora também "não é grande vida", escreve a Newsweek na última edição. Proibidas de velar o rosto para serem sempre reconhecidas, são ostracizadas pelos vizinhos. Um dia, quatro saíram à rua ao mesmo tempo e isso chegou para lançar o pânico nas ruas.

O princípio do fim do grupo foi o suicídio de Sana Alwan, em Setembro. Num checkpoint, um dos guardas reconheceu a voz da sobrinha que a família sabia estar a ter "maus pensamentos". Só morreu Alwan, que vinha de túnica preta e véu. Logo depois, as forças de segurança encontraram a líder da célula, outras nove suspeitas e muitos coletes de explosivos.
Duluiyah, 100 quilómetros a norte de Bagdad, é uma cidade pequena e era fácil seguir o rasto às restantes, que começaram a sentir-se sem saída. Quatro recorreram ao mullah Nadhum al-Jabouri, líder religioso local. "Elas pediram-me para encontrar uma forma de voltarem a pertencer à sociedade. As mais novas não podiam casar dentro da tribo, as mais velhas não podiam ir ao mercado, as de meia-idade não conseguiam trabalho", contou Jabouri à revista norte-americana. Em Novembro, 18 entregaram-se, seguiram-se mais 23.
O investigador Yoran Schweitzer, director do Projecto Terrorismo no Instituto para os Estudos de Segurança Nacional de Israel, diz que nunca se viu um tal recurso a esta arma. Mia Bloom, autora de Dying To Kill, The Allure of Suicide Terror (e a terminar Bombshell: Women and Terror), garante que os Tigres Tamil do Sri Lanka usaram mais mulheres suicidas do que a insurreição iraquiana - entre 1999 e 2005, 35 por cento dos 210 atentados dos tamil foram de mulheres, escreve em Dying To Kill. Mas nunca tantas se fizeram explodir num tão curto período. Em 2007, foram oito, mas em 2008 houve pelo menos 36 a tentar ou conseguir levar a cabo 32 ataques. Em Fevereiro, uma suicida de abbaya (túnica) negra matou 35 peregrinos.
As mulheres que decidem transformar-se em bombistas suicidas - ou que são levadas a fazê-lo - terão diferentes motivos e têm diferentes perfis. Os líderes - homens - que decidem deixá-las morrer como mártires fazem-no porque isso resulta.
O facto de elas terem começado a ser mais usadas quando a segurança apertou, com o reforço americano de 2007 e os milhares de ex-insurrectos árabes sunitas que se puseram ao lado dos Estados Unidos, mostra que ainda são uma segunda escolha.
"Não há uma resposta mágica para o aumento súbito, mas suspeito que a Al-Qaeda e os insurrectos perceberam que elas forneciam uma vantagem operacional. Quando os homens começam a perder, viram-se para outras opções. Para estes, foram as mulheres", disse numa conversa por email Farhana Ali, analista da RAND.
Fatwas à medida
A existência de mulheres dispostas a morrer numa guerra é quase tão antiga como o suicídio como arma. Antes, era mais comum em grupos seculares e nacionalistas. Mas o recurso a "mártires" ou shahidas por grupos islamistas, como o Hamas e até a Al-Qaeda, deixou há muito de ser tabu.
No Iraque, Abu al-Zarqawi (na imagem), líder local da Al-Qaeda, foi o primeiro a dizer que isso era permitido. Já havia mulheres bombistas antes - as primeiras fizeram-se explodir logo em Março de 2003. Mas foi com a Al-Qaeda, e depois de Zarqawi reivindicar como seus os feitos delas, que a táctica se tornou mais frequente.
A necessidade faz o engenho e, neste caso, a doutrina. Estes líderes, que se dizem religiosos, "são muito pragmáticos, afastam-se da ideologia à medida das necessidades", disse Bloom numa entrevista. Emitem uma fatwa (édito religioso) e depois outra. E isso é fundamental "como justificação para exterior e para confortar os que realizam os ataques", nota Schweitzer.
Não em nome do género
Do ponto de vista de quem decide, elas representam uma mais-valia mediática - um atentado com uma mulher suicida consegue sempre mais atenção -, são uma ferramenta útil de recrutamento entre os homens, são mais eficientes por representarem ainda um elemento surpresa e porque, nas sociedades conservadoras, é mais difícil que sejam revistadas.
Em Israel, a partir de certa altura começou a ser quase impossível para os homens solteiros com menos de 40 anos passarem nos controlos da fronteira. No Iraque, há agora mulheres (Filhas do Iraque) nas forças de segurança para se aproximarem das outras mulheres e as revistarem.
Alguns estudiosos têm defendido que as bombas humanas no feminino também querem marcar uma posição "em nome de um género". Mas os analistas ouvidos pelo PÚBLICO discordam. Mia Bloom começou por pensar o mesmo até falar com mulheres que tinham querido ser mártires e falhado. "Elas não olhavam para as suas sociedades como desiguais, essa ideia é mais uma construção do feminismo ocidental", aponta.
Nas sociedades conservadoras e religiosas em que se estranha que as mulheres sejam autorizadas a tornar-se shahidas, nota o investigador israelita, esta é na verdade a "forma mais fácil de elas contribuírem", uma solução que não significa dar-lhes treino nem poder real. Muitas vezes, diz Bloom, são só "munições, carne para canhão". E lembra o caso de duas palestinianas que se ofereceram para um ataque e "mudaram de ideias porque teriam de se vestir como israelitas, com mini-saias e muita maquilhagem e não estavam dispostas a expor-se assim".
Coagidas e pressionadas
O que parece acontecer no Iraque é muitas destas mulheres serem "coagidas", diz Schweitzer, e isso é novo. A "mãe dos crentes", como se auto-denomina Samira Ahmed Jassim, de 50 anos, que foi presa em Janeiro e confessou ter recrutado 80 mulheres, contou que os insurrectos organizavam a violação de algumas mulheres antes de a mandarem recrutá-las.
Também é novo os jihadistas recorrerem a crianças - pelo menos uma rapariga de 14 anos tentou cometer suicídio - ou a mulheres já tratadas num hospital psiquiátrico, como as que se explodiram num mercado de pássaros em Bagdad. E há casos de explosivos accionados por controlo remoto, para impedir desistências.
O que é normal noutros conflitos e aqui se repete é "a pressão social mais ou menos subtil, dizem-lhes 'perdeste o marido, o que é que vais fazer agora'", afirma Bloom.
No Iraque, há muito por fazer para combater este fenómeno. Mia Bloom diz que "há uma cultura que faz das bombistas heroínas e é preciso uma cultura que encontre outras heroínas". Melhorar as condições de vida ajudaria, dizem Bloom e Ali. Bloom gostava também de ver mais líderes religiosos criticarem publicamente estes ataques e dizerem que são contra o islão.
Do Iraque para o mundo?
Está por saber se o terrorismo suicida de mulheres nesta dimensão será repetível noutros conflitos, mas a tendência veio para ficar.
"Vamos ver mais mulheres bombistas noutros sítios, mas estes números só são possíveis com condições muito especiais. E as mulheres não são a primeira prioridade nestas sociedades, ainda há refreamento", sustenta Schweitzer. "Não há acordo entre todos os líderes do movimento salafista jihadista sobre o uso de mulheres. Demoram até ultrapassarem as dúvidas. Quando isso aconteceu no Iraque, o número de mulheres suicidas literalmente explodiu", concorda Bloom.
Para a investigadora e professora da Escola de Relações Internacionais da Universidade de Georgia, nos EUA, o Afeganistão pode ser um bom indicador da queda das últimas resistências entre os jihadistas, mas no país dos taliban e das burqas ainda não há registo de mulheres suicidas. Bloom diz que já só ficará "verdadeiramente surpreendida" quando isso acontecer ali ou na Arábia Saudita.

quarta-feira, março 18, 2009

nove mil livros

Biblioteca Britânica 'perde' 9 mil livros
http://dn.sapo.pt/2009/03/18/artes/biblioteca_britanica_perde_9_livros.html
Património. Títulos valiosos foram extraviados

não se conhece o destino de nove mil livros
de astrologia e alquimia
algumas primeiras edições de teologia não são vistas há mais de cinquenta anos

há volumes valiosos
um exemplar de o retrato de dorian gray, desaparecido desde 1961
há as canzoni de ezra pound, de 1911
uma alice ilustrada, no país das maravilhas

muitos livros desapareceram quando a colecção foi transportada para um edifício moderno

terça-feira, março 17, 2009

O pequeno dinossauro americano
http://dn.sapo.pt/2009/03/17/ciencia/o_pequeno_dinossauro_americano.html
FILOMENA NAVES

Paleontologia. Na América do Norte também havia dinossauros carnívoros de pequena dimensão. Um grupo de cientistas canadianos identificou agora o mais pequeno que se conhece e que viveu ali há 75 milhões de anos. No deserto de Góbi, na Mongólia, um outro achado lança luz sobre outra espécie

Era do tamanho de um gato e tinha unhas e dentes muito afiados

Pesava à volta de dois quilos, tinha o tamanho de um gato actual, comia insectos e pequenas presas da floresta e dos pântanos, viveu há 75 milhões de anos e... era um dinossauro - o mais pequeno até hoje identificado no continente americano. O Hesperonychus elizabethae, como lhe chamaram os paleontólogos canadianos que o estudaram, é hoje apresentado ao mundo, num artigo publicado nos Proccedings of the National Academy of Sciences.

Além de ser o detentor do recorde do dinossauro mais pequeno do continente americano, o Hesperonychus elizabethae, explica a equipa liderada por Nick Longrich, também ajuda a traçar um retrato mais aproximado dos ecossistemas de há 75 milhões de anos, naquela região.

"Esta descoberta vem mostrar como sabemos pouco e levanta também a possibilidade de poderem existir vestígios de dinossauros ainda mais pequenos, que só estão à espera de serem descobertos", admitiu Nick Longrich, da universidade canadiana de Calgary.

Os paleontólogos chamam, a propósito, a atenção para o facto de os pequenos dinossauros terem estado até agora arredados do "filme" que a paleontologia fez daquela época, naquela região. "Os pequenos dinossauros carnívoros pareciam estar completamente ausentes desse ambiente, o que nos parecia bizarro, porque hoje os pequenos carnívoros ultrapassam em muito o número dos grandes", explicou o líder da equipa, citado pelo serviço de ciência Eurekalert.

Esta descoberta tem por isso um maior significado ainda. "Temos agora a prova de que os pequenos carnívoros tinham um papel mais importante no ecossistema do que supúnhamos", adiantou Nick Longrich.

Os autores explicam que a nova espécie de dinossauro, que é também um novo género (engloba um conjunto de espécies), tinha cerca de 50 centímetros de altura e assemelhava-se a uma miniatura do famoso bípede Velociraptor, que Steven Spielberg imortalizou no filme Jurassic Park.

O pequeno dinossauro deslocava-se também sobre duas pernas, tinha unhas afiadas e no segundo dedo de cada pata uma unha maior, com a forma de uma pequena foice. Tinha o corpo e a cabeça delgados e os dentes como lâminas.

Os fósseis desta nova espécie foram encontrados em 1982 em várias zonas da América do Norte, mas ficaram por estudar durante 25 anos. A peça mais importante, um fóssil do pélvis do animal, foi descoberta pela paleontóloga canadiana Elizabeth Nicholls, que faleceu em 2004. O segundo nome do dinossauro foi escolhido em sua homenagem.

segunda-feira, março 16, 2009

conhecer a comida

Kim Jong-Il é um grande apreciador da cozinha italiana
Primeira pizzaria da Coreia do Norte abriu após dez anos de formação de cozinheiros
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1369416
16.03.2009 - 15h04 PÚBLICO, Patrícia Fernandes

o primeiro restaurante reproduz pizzas italianas
muitos dos clientes experimentam já conheciam a comida através da televisão
e de várias publicações

os cozinheiros fazem demonstrações num país comunista do oriente
depois de análises ao sangue e à urina
numa base militar a ensinar oficiais na cozinha
e uma dezena de pessoas que observava em silêncio
(um deles contou as azeitonas,
e a distância entre as azeitonas)

a fome matou dois milhões de pessoas
existem terrenos e edifícios abandonados
a farinha, a manteiga e o queijo são importados

crê-se que o ditador também aprecie conhaque, vinho francês e sopa de barbatana de tubarão

domingo, março 15, 2009

Irlanda resgata animais de galeria de arte
http://dn.sapo.pt/2009/03/15/sociedade/irlanda_resgata_animais_galeria_arte.html
MARIA JOÃO PINTO

A história repete-se: há cerca de dois anos, numa galeria de arte, uma cadela abandonada e doente foi deliberadamente deixada morrer de fome e de sede como parte de uma "instalação plástica" do costa-riquenho Guillermo Vargas Habacuc. Chamava-se Natividad e o seu sofrimento suscitou o repúdio de milhões de pessoas em todo o mundo, gerando uma das maiores e mais expressivas petições da história da Internet: mais de dois milhões de assinaturas.

Desta vez, uma idêntica tentativa de (ab)uso de animais em nome da arte foi travada a tempo, em espaço europeu: na Irlanda, após várias semanas de protestos de associações e de cidadãos, o Drogheda Arts Center retirou finalmente de exposição dois cães abandonados que, desde 25 de Fevereiro, haviam sido confinados a duas jaulas no âmbito da "instalação" If art could save your life (Se a arte pudesse salvar a tua vida, em português).

O autor, Seamus Nolan (n.1978), actualmente a residir e a trabalhar em Dublin, usara argumentos não muito diferentes dos de Guillermo Vargas Habacuc como justificação: as suas "criações plásticas" constituiriam, em seu entender, um "manifesto contra a indiferença e a hipocrisia" e pretenderiam "questionar a noção de objecto" no sistema de valores da sociedade actual.

Provenientes do County Louth Public Dog Pound, o equivalente a um canil municipal, os dois animais - um com quatro anos, outro com cerca de um ano de idade - foram retirados da galeria no passado dia 4 e de imediato encaminhados para famílias de adopção. Seamus Nolan e a instituição que o acolheu pretendiam devolver os animais ao canil para aí serem abatidos uma vez terminada a "exposição".

Segundo a National Animal Rights Association, da Irlanda, esta vitória da sociedade civil irá dar frutos no futuro: o Drogheda Arts Center comprometeu-se a "não aceitar mais animais" na "instalação" em apreço - que continua patente até dia 20, agora com as jaulas vazias - e a ajudar outros a encontrarem novas casas. Nomeadamente os que se encontram no canil de Louth.

Uma petição relativa a este caso, alojada em www.petitiononline.com/justine1/petition.html, relembra, entre o normativo internacional, o articulado do Tratado de Lisboa, no qual expressamente se sublinha que os animais "não são objectos".|

sábado, março 14, 2009

o desaparecimento de certos animais

Relatório da WWF sobre ameaça que pende sobre 11 espécies
E se os animais mais emblemáticos do planeta desaparecessem?
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1369150&idCanal=2100
14.03.2009 - 09h17 Ana Fernandes

Fora de água, são os seres com o andar mais tonto do planeta. Mas o que interessa é que ainda por cá se bamboleiam, nos seus impecáveis fraques, gelo fora. Por enquanto, porque os pinguins são alguns dos animais mais ameaçados pelas alterações climáticas, só ultrapassados pelo mítico urso polar, esse sim condenado a extinguir-se dentro de uns meros 75 anos.

Um relatório da associação internacional WWF sobre o impacto das alterações climáticas sobre as espécies mais emblemáticas do planeta, que é hoje divulgado, traça um quadro assustador. "Imaginam um mundo sem elefantes na savana africana, onde os orangotangos apenas existem em cativeiro ou em que as imagens de ursos polares em cima de icebergs só persistem em filmes?", pergunta. Pois "este mundo é mais provável do que podem pensar", alerta.

Nas vésperas da Hora do Planeta, uma iniciativa da WWF que irá juntar milhões de cidadãos do mundo, empresas e mil cidades - incluindo Lisboa -, levando-as a apagar as luzes durante uma hora, a 28 de Março, este relatório é mais um argumento da associação para promover a luta global contra as alterações climáticas.

Gelo, calor, seca, chuva

Um argumento de peso. A situação de muitas das espécies mais emblemáticas do mundo - baleias e golfinhos, albatrozes, tartarugas marinhas, ursos polares, elefantes africanos, tigres, orangotangos, corais, cangurus e pinguins - já não era famosa, devido à destruição dos seus habitats e à perseguição que lhes é movida pelos seres humanos. Mas tudo tende a piorar face às mudanças no clima, que lhes rouba o gelo, lhes aquece as águas, os condena a secas ou a grandes chuvadas.

Os números são devastadores: 95 por cento dos corais da Grande Barreira dos Recifes podem ter desaparecido em 2050. Setenta e cinco por cento dos pinguins-de-Adélia na Antárctida deverão ter o mesmo destino e os alvos ursos do Pólo Norte não deverão chegar ao fim do século.

O relatório da WWF compila dados de vários relatórios científicos. O mais citado - a avaliação feita pelo Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas - diz que se a temperatura aumentar entre 1,5 a 2,5 graus até 2050, então 20 a 30 por cento das espécies do planeta correrão grave risco de extinção.

Tudo dependerá do poder de adaptação das espécies, como prova a história do mundo. Mas algumas poderão não conseguir encontrar alternativa: é o caso daqueles que vivem nas zonas polares. Assim como muito irá depender da rapidez das mudanças e na forma como ocorrerão, pois a previsão de como se irá comportar o clima não é uma ciência exacta.

E há ainda aquelas espécies que já se encontravam tão tremendamente ameaçadas, devido a outros factores, como é o caso do tigre ou dos orangotangos, que as alterações climáticas poderão ser a machadada final.

Animal a animal, a WWF dá conta do actual estado de conservação destas 11 espécies, ameaças a que estão sujeitas e propõe o que se pode fazer para tentar salvá-las.

O urso polar, por exemplo, pode perder metade do seu habitat até 2050. Hoje existem entre 20 a 25 mil indivíduos em regime selvagem, a maioria no Canadá. Estes dependem da continuação das suas principais presas, as focas, também elas dependentes da manutenção destas massas geladas. A protecção dos seus habitats é hoje uma questão crucial.

O lindíssimo tigre asiático, hoje reduzido a 4000 indivíduos - entre os quais o tigre de Bengala, que já não passa dos 1400 - tem sofrido golpes atrás de golpes. Em 100 anos, 95 por cento desapareceu, várias subespécies nunca mais foram avistadas. Com a subida do nível do mar, algumas ilhas de Sonda, onde alguns subsistem, podem submergir. E com elas o fabuloso bicho.

As más notícias sucedem-se para cada uma das espécies. Seres únicos, bem adaptados, mas hoje extraordinariamente vulneráveis. Será a despedida?

sexta-feira, março 13, 2009

A ciência do beijo
Um beijo é muito mais que lábios fundidos ou línguas entrelaçadas. Os cientistas acreditam que pode determinar o futuro de uma relação e até combater a depressão. A filematologia explica como.
http://aeiou.expresso.pt/a_ciencia_do_beijo=f501931
Nelson Marques
23:55 Quinta-feira, 12 de Mar de 2009




Lembra-se do primeiro? Olhos nos olhos, mãos suadas, coração acelerado, lábios hesitantes. Tensão e emoção. Num sopro, paraíso ou inferno. Afinal, porque beijamos? Simples: porque queremos. Porque nos rendemos aos afectos e nos deixamos levar pelos impulsos românticos. E, contudo, explicam os cientistas, o fenómeno é muito mais complexo que a simples comunhão de duas bocas, seja no entrelaçar das línguas ou, com menos saliva, na união de dois lábios (ou, para ser mais rigoroso, dois pares de lábios). Por isso criaram a filematologia, a ciência que estuda o beijo e as suas funções.

Como na canção "As Time Goes By", imortalizada em "Casablanca", "a kiss is still a kiss" mas será sempre algo mais que a estrofe em que duas bocas rimam, para usar outra citação famosa. Por detrás de cada gesto escondem-se não só um emaranhado de reacções orgânicas, mas também uma miríade de motivações que nem sempre são óbvias. Beijamos por paixão, mas também por costume, educação, respeito e até por mera formalidade. A própria forma como beijamos varia de acordo com o que queremos expressar.

Segundo o antropólogo inglês Desmond Morris, as origens do beijo estão num instinto bem mais primário: o das mães primatas mastigarem a comida e a passarem às crias através da boca, um costume que sobrevive ainda em algumas tribos do Planeta. O gesto, especula Morris, terá evoluído para uma forma de confortar crianças esfomeadas quando a comida escasseava e, mais tarde, para demonstrar amor e carinho.


Quando duas pessoas se beijam, trocam uma série de informações que, inconcientemente, as ajudam a perceber o grau de comprometimento do outro na relação
Andrew Gombert/Epa
Para outros cientistas, beijar está ligado ao complexo processo de escolha de um parceiro. Quando duas pessoas se beijam, trocam uma série de informações (gustativas, mas também olfactivas, tácteis, visuais e até de postura) que, inconscientemente, as ajudam a perceber o grau de comprometimento do outro na relação. O gesto pode revelar até que ponto se está perante a pessoa ideal para formar família, sendo por isso uma acção fundamental para a sobrevivência das espécies.

A chave deste fenómeno está no olfacto. Beijar activa a libertação de feromonas que, ao serem detectadas, de forma inconsciente, pelas mulheres, as ajudam a escolher os parceiros que terão uma melhor descendência. A explicação está num conjunto de genes ligados a uma parte do sistema imunitário conhecida como complexo maior de histocompatibilidade (CMH), que, através do olfacto, desempenha um papel fundamental na atracção sexual. Aqui funciona a lei de que os opostos se atraem: elas preferem homens com um CMH diferente do seu, uma escolha influenciada pela Natureza: juntar parceiros com diferentes genes do sistema imunológico fortalece as defesas da geração seguinte, melhorando, assim, as hipóteses de sobrevivência da espécie.

Talvez por isso, a ciência tem demonstrado que o primeiro beijo pode ajudar a afastar o que as forças do romantismo uniram. O sucesso de uma relação depende, muitas vezes, desse momento único em que os lábios se tocam pela primeira vez. Segundo um estudo publicado na revista científica "Evolutionary Psychology", 59% dos homens e 66% das mulheres admitiram já ter perdido o interesse por alguém após o primeiro beijo.

A investigação revela outros dados interessantes, que vêm confirmar alguns estereótipos sobre os comportamentos sexuais dos dois géneros: os homens utilizam mais o beijo como um meio para atingir um envolvimento sexual e estão mais predispostos a ter sexo sem beijar, com alguém que considerem beijar mal ou mesmo com alguém por quem não se sintam atraídos. Já as mulheres, intuitivamente, tendem a usar o beijo para avaliar o estado da sua relação e o grau de comprometimento do seu parceiro.

O estudo revelou outro dado curioso: os homens preferem beijos mais molhados e com mais contacto de língua. A opção, percebe-se agora, não é ingénua. A saliva masculina contém grandes quantidades de testosterona que podem afectar a líbido das mulheres. Os cientistas baralham outra hipótese: a dos homens terem uma menor capacidade de detecção química e sensorial, precisando por isso de mais saliva para fazer a sua avaliação da parceira.

Igualmente complexa é a equação anatómica e fisiológica de um beijo. O acto põe em acção diversos músculos, cujo número varia em função da intensidade: um beijo carinhoso mobiliza 17 músculos; um mais apaixonado pode chegar aos 29, segundo a tese de doutoramento em Medicina da francesa Martine Mourier, que dedicou as duzentas páginas do seu trabalho aos efeitos do beijo. Outras revelações: a pressão exercida pode atingir os 12 quilos, os batimentos cardíacos disparam dos 70 para os 150 por minuto e são trocadas pelos menos 250 bactérias. Citando um filósofo dos tempos modernos, Duff McKagan, ex-baixista dos Guns N'Roses, "um beijo pode não ser uma coisa higiénica, mas é a maneira mais saborosa de apanhar um germe".

Por isso, ainda que aparentemente inofensivo, beijar pode ser um veículo privilegiado de transmissão de doenças. A lista inclui desde uma simples constipação à hepatite, tuberculose, mononucleose, herpes labial e, em determinadas situações, doenças sexualmente transmissíveis como a sífilis e a sida (caso existam feridas ou cortes na boca).

Por paradoxal que possa parecer, pode também ter efeitos terapêuticos, por exemplo, no combate à depressão. Segundo um estudo realizado no Reino Unido, beijar estimula o cérebro a libertar endorfinas, substâncias químicas que funcionam como uma espécie de 'opiáceo' natural do organismo, proporcionando sensações de prazer, euforia e bem-estar que ajudam a combater a depressão. Quanto mais excitantes e apaixonados os beijos, maiores os benefícios para a saúde. Além disso, baixa os níveis de cortisol, conhecida como a hormona do stress, e pode até funcionar como uma forma de 'vacinação' natural dos bebés: ao beijar o seu filho recém-nascido, a mãe transmite-lhes, de forma diluída e progressiva, os seus germes, desencadeando as defesas do organismo do bebé.

Indiferentes às dissertações científicas, beijamos, sobretudo, pelo prazer de beijar. Porque é, afinal, disso que se trata: de um prazer magnético em que duas almas se unem. Que importa o resto?

Texto publicado na edição do Expresso de 7 de Março de 2009

"Pode haver evolução em 40 gerações"
http://dn.sapo.pt/2009/03/13/ciencia/pode_haver_evolucao_40_geracoes.html
LUÍS NAVES

Entrevista. Olivia Judson é bióloga com vasto trabalho de divulgação científica. Esteve na Gulbenkian, numa conferência no âmbito das celebrações de Charles Darwin, mas também é conhecida por um 'best-seller', 'Consultório Sexual da Dr.ª Tatiana para Toda a Criação', cujo tema é a incrível diversidade
Desde Charles Darwin, a biologia evolucionária evoluiu. Que diferenças existem?

Há 150 anos, havia muitas coisas que Darwin não sabia: a idade da Terra, a tectónica de placas, a maioria dos fósseis humanos e, mais importante, não sabia nada sobre genética. A estrutura em dupla hélice do ADN só foi descoberta em 1953. E só recentemente olhámos para o genoma de organismos de maneira completa. Isto permitiu perceber como a selecção natural funciona. Se Darwin aparecesse numa máquina do tempo não reconheceria a biologia, mas as suas ideias foram desenvolvidas de forma incrível.

O processo da evolução é lento ou rápido?

Pode ser rápido. Veja por exemplo a resistência aos antibióticos. A penicilina foi descoberta em 1943 e muitas bactérias desenvolveram resistências. A selecção vem de várias direcções e não notamos as diferenças porque são pequenas. Não vemos a selecção natural, mas, quando surgem forças selectivas poderosas, tudo acontece depressa. Sabemos, de experiências em laboratório, que pode haver evolução substancial em 40 gerações.

Qual é a sua opinião sobre a espécie humana. Vai alterar-se rapidamente?

A população humana está a crescer depressa, o que sugere que a selecção natural não será tão forte como costumava ser.

Parece haver grande diversidade nas estratégias de reprodução das espécies. A que se deve esta diversidade?

Há várias coisas que actuam na reprodução. Por exemplo: se os [os animais] estão concentrados num local numa determinada altura do ano, é fácil encontrar parceiro. A diferença de tamanho entre machos e fêmeas permite fazer previsões sobre o sistema reprodutivo da espécie. Machos grandes, cinco vezes maiores do que as fêmeas, como leões-marinhos, então sabemos que lutam uns com os outros. O tamanho conta na luta e o maior macho tem vantagem. Por vezes, as fêmeas são grandes (a bonélia verde é 200 mil vezes maior do que o macho). Isso acontece quando a fêmea não se move muito. A diversidade de formas reprodutivas depende da ecologia e uma das forças é o comportamento das fêmeas. Onde estas são promíscuas, será natural encontrar competição espérmica [entre os machos]. Como numa rifa: quantos mais bilhetes comprar, mais hipóteses terá de vencer. Outro exemplo: um macho gorila é grande, mas os seus testículos são pequenos; nos chimpanzés é o inverso. Nos gorilas, a tendência das fêmeas é para estarem com um macho de cada vez, enquanto nas chimpanzés há registo de fazerem sexo com oito parceiros em 15 minutos.

A nossa espécie é intermédia...

Sim. Não podemos confundir um macho e uma fêmea gorila, enquanto nos humanos em média os machos são maiores, mas isso não é sempre assim.

O que é que as outras espécies nos ensinam sobre os humanos?

Penso que podemos compreender-nos melhor, à medida em que percebemos a influência da genética no comportamento.

Qual é o papel das emoções?

Darwin escreveu três livros centrais e o terceiro, A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais, é o mais radical. Ainda é uma ideia revolucionária pensar que os animais têm emoções, que são poderosas e certamente evoluíram. As emoções talvez sejam antigas e os animais devem sentir alegria ou a fúria. Por outro lado, os humanos são uma espécie invulgarmente boa. Capazes de violência grotesca, mas muito menos violentos do que a maioria das outras espécies. Parece que evoluímos para nos tornarmos menos violentos.

Isso é cultural ou tem raízes na biologia?

Tem raízes na biologia e cultura no topo. Porque uma das coisas em que os humanos são bons é na aprendizagem. As crianças com síndroma de Williams são invulgarmente simpáticas. Pode-se ensinar a uma destas crianças que "não fales com desconhecidos", mas ela não consegue cumprir. Têm menos 20 genes, aparentemente envolvidos no comportamento simpático.

E como se explica a violência da espécie?

A luta de diferentes grupos por recursos foi sem dúvida uma das forças na evolução humana.

Acha possível que a espécie humana se torne menos violenta?

Penso que sim. A questão será como organizar a sociedade para salientar os melhores comportamentos. É pouco habitual [na natureza] o tempo que os humanos gastam a preocupar-se com os da sua espécie.

A estratégia dos humanos parece-lhe adequada à sobrevivência?

Há mitos na forma como a evolução é discutida em público e um deles é o da sobrevivência da espécie. Devemos pensar em termos de sobrevivência de linhagens. No entanto, penso que os humanos podem ser capazes de adaptar a estratégia de sobrevivência, mas teremos de ser rápidos, pois estamos a ter um impacto muito elevado e destrutivo no planeta. Estamos a alterar a atmosfera, pusemos alguma coisa em movimento, que é maior do que nós e que não compreendemos bem. Algo imprevisível e perigoso.|

segunda-feira, março 09, 2009

Números do mundo ao segundo
http://dn.sapo.pt/2009/03/09/media/numeros_mundo_segundo.html
PAULA BRITO
Internet. Criado por uma entidade independente sem fins lucrativos, o Worldometers é um 'site' que reúne informação, actualizada ao segundo, a partir de fontes oficiais e credíveis

Worldometers.info disponibiliza dados em diversas áreas

Às 14.30 de Portugal (quando a redactora iniciou esta prosa) o número de jornais em circulação no mundo este ano era de 95 493 656 - e não parava de mudar, pois estava a ser actualizado a cada segundo (ver depois no fim do texto o número actualizado - às 20.00, hora de fecho desta edição).

Tal como este segmento, outros úteis e até curiosos estão neste momento a ser alvo de contagem em tempo real. Como? Através do site Worldometers - estatísticas em tempo real (http/www.worldometers.info/pt).

Com a tradução para 32 línguas, incluindo a portuguesa, este site, cuja responsabilidade é do Real Time Statistics Project, é gerido por uma "equipa internacional de pesquisadores e voluntários, cujo principal objectivo é produzir e disponibilizar estatísticas globais actualizadas em tempo real para uma audiência no mundo inteiro", lê-se no mesmo site. Como chefe do projecto está o investigador Thomasson.

"As fontes são cuidadosamente seleccionadas de modo a incluir apenas dados produzidos pelas mais reputadas organizações e gabinetes de estatísticas no mundo", adianta.

No caso da população mundial, por exemplo, o número 6 751 959 985 (às 14.35) baseia-se na informação das Nações Unidas e no Census Bureau norte-americano. O documento The World Population Prospect (2006) é a mais recente e fiável informação que estima a evolução da população mundial e por país até 2050 (perto de 9,2 mil milhões de pessoas). Já o número de nascimentos este ano (25 366 725), de nascimentos hoje (192 853), de mortes este ano (11 083 509) ou de mortes hoje (84 263) é obtido pela Worldometers através dos dados do International Program Center, baseados em análises disponíveis sobre população, fertilidade, mortalidade e migração por país ou área do mundo.

Mais bicicletas que carros?

19 881 575 é o número (às 15.30) de bicicletas construídas este ano. E de carros era 9 469 647. Segundo o Worldometers, a produção anual de bicicletas anda nos 108 799 200, valor baseado nos dados do Bicycle Retail and Industry News e Bicycle Market Research Institute cruzados com os de outras entidades. A China, é responsável por 58% deste valor (mais informação no Worldometers).

Quanto aos carros, em 2009 serão 51 971 328, valor estimado pela Worldometers com base na fonte International Organization of Motor Vehicle Manufacturers (OICA).

Mas o Worldometers, além desta informação mais útil, tem também curiosidades, como os gastos em perfumes dos EUA (873 milhões de dólares); bebés nascidos de pais adolescentes este ano (2 873 043). E os jornais às 20.00 eram 95 855 223.

comprar barbies até envelhecer

"Comprar Barbies até ser velhinha"
http://dn.sapo.pt/2009/03/09/sociedade/comprar_barbies_ser_velhinha.html
Aniversário. Boneca, que hoje faz 50 anos, continua a cativar crianças e adultos

As Barbies não são uma paixão apenas de crianças. Em casa de Isabel Albuquerque há 26 bonecas em exposição numa vitrine nas quais só ela toca. Esta portuguesa de 28 anos é uma das muitas coleccionadoras adultas deste fenómeno de vendas, que hoje faz 50 anos.

Isabel começou a coleccionar Barbies aos 19 anos, quando começou a trabalhar. Admite que já gastou cerca de dois mil euros nestas bonecas, apesar de ter algumas que lhe foram oferecidas. Tem 22 Barbies de colecção e as restantes quatro sobreviveram à sua infância.

"A mais especial que tenho é uma que comprei numa loja onde só se vendiam brinquedos de colecção. É a primeira Barbie com vestido de noite e foi a primeira da minha colecção", conta. Mas foi a Barbie na versão Cleópatra, que a fez gastar mais dinheiro. "Comprei-a em Nova Iorque e custou-me por volta de 150 euros."

Isabel tem um carinho especial pela sua colecção. "Não deixo ninguém mexer-lhe. Só eu lhe toco, nem deixo a empregada limpá-las ". Continua a gostar de brincar com Barbies com as suas sobrinhas, referindo esta paixão como uma "ligação à sua infância". Pretende continuar a "comprar Barbies ser velhinha", pois é uma forma de poder "sonhar um bocadinho".

As fãs da Barbie estão espalhadas por todo o mundo, diz a Mattel. Fazem colecções, associam-se em clubes, fora e dentro da Internet, vão a convenções, fazem revistas e newsletters. A produção de Barbies chamadas de colecção começou na década de 80 quando a Mattel criou bonecas em porcelana para um público mais adulto. Nesta altura, para além de "boneca de moda", ela passou a ser também "boneca de arte".

Há edições desenhadas propositadamente para coleccionadores. Isabel, por exemplo, quer seguir a colecção dos países, mas opta muitas vezes investir em Barbies de colecção mais raras. "Quando recebo uma que não estou à espera é a melhor sensação do mundo".

A rival, a boneca Bratz fez tremer as vendas do modelo da Mattel nos EUA e gerou uma batalha jurídica por plágio. A Barbie ganhou.

domingo, março 08, 2009

Missão do telescópio Kepler começa esta noite
Espaço: Um grande olho no céu à espreita de pontinhos azuis
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1367996
06.03.2009 - 09h58 Ana Gerschenfeld

Se tudo correr bem, dentro de horas o novo telescópio espacial Kepler da NASA partirá de cabo Canaveral a bordo de um foguetão. A sua missão: descobrir outros "pontinhos azuis"- ou seja, planetas parecidos com o nosso que orbitem em torno de estrelas parecidas com o nosso Sol.

A anos-luz da Terra, algures na nossa galáxia, a Via Láctea, uma anónima e modesta estrela alberga um pequeno planeta, feito de continentes de pedra, oceanos de água líquida e céus azuis. Tal como a Terra, esse planeta completa uma órbita em torno do seu sol em mais ou menos um ano. Não é nem muito quente nem muito frio: tem a temperatura ideal para o desenvolvimento da vida. Quem sabe, talvez já esteja cheio de vida... O que não daríamos para o ver!

O mais provável é que isso nunca venha a acontecer - mesmo um punhado de anos-luz são milhões de quilómetros a mais para os seres humanos lá chegarem em pessoa. Mas os astrónomos acreditam que é, contudo, possível fazer algo que se aproxima disso: estudar a atmosfera de planetas como este - se é que existem -, determinar se são habitáveis e descobrir eventuais sinais da presença de vida.

É um velho sonho da Humanidade, saber se estamos ou não sozinhos no Universo. O nosso "pontinho azul", como lhe chamava o conhecido astrónomo Carl Sagan, será único, ou haverá muitos outros como ele noutros cantos da Via Láctea e até de outras galáxias? E se houver muitos outros, haverá ou não vida neles? E se houver vida neles, será vida inteligente, consciente, ou apenas vida primitiva?

O telescópio espacial Kepler da NASA, que deverá ser lançado por volta das 4h da próxima madrugada (hora de Lisboa) a partir de cabo Canaveral, na Florida, a bordo de um foguetão Delta2, é a concretização da primeira etapa indispensável na exploração desta nova fronteira. Tem por missão descobrir mais pontinhos azuis. "O Kepler é uma importante pedra angular para percebermos que tipos de planetas se formam à volta de outras estrelas", diz Debra Fischer, "caçadora" de planetas extra-solares da Universidade Estadual de São Francisco, citada num comunicado da NASA. "As suas descobertas (...) vão ser o nosso guia para conseguirmos um dia vislumbrar um pontinho azul como o nosso à volta de outra estrela da nossa galáxia."

Até à data, conhecem-se mais de 300 "exoplanetas", mas nenhum deles parece ser muito semelhante à Terra; costumam ser muito maiores e a maioria são bolas gigantes de gases incandescentes. De facto, nem o telescópio espacial Hubble nem os mais potentes telescópios terrestres seriam capazes de detectar planetas do tamanho da Terra a distâncias tão imponentes. Espera-se que as coisas mudem radicalmente com a chegada do Kepler ao espaço, que, para mais, ao contrário dos outros telescópios, se dedicará em exclusividade à pesquisa de exoplanetas (a sonda Corot, lançada pela Agência Espacial Europeia em 2006, também à procura de planetas extra-solares, é menos potente do que o Kepler e menos adequada à detecção de planetas tipo-Terra).

Olhar fixamente as estrelas

O novo telescópio, baptizado em homenagem a Johannes Kepler (1571-1630), pai da astronomia moderna, pesa uma tonelada e custou 478 milhões de euros. É basicamente composto por uma câmara digital de 95 milhões de pixéis - a mais potente de sempre a ser colocada no espaço - e de um espelho com quase um metro e meio de diâmetro. A abertura do telescópio é quase de um metro.

Colocado em órbita à volta do Sol, seguirá o rasto ao nosso planeta e ficará orientado para uma porção do céu visível do Hemisfério Norte da Terra, na direcção das constelações Cisne e Lira. Ao longo dos pelo menos três anos (pode chegar aos seis) que deverá durar a sua missão, vai realizar um gigantesco "recenseamento planetário", segundo as palavras de Jon Morse, director da divisão de Astrofísica da NASA, olhando fixamente e simultaneamente para mais de 100 mil estrelas nessa região da Via Láctea.

Para detectar exoplanetas, o Kepler utilizará o método dito dos trânsitos, que consiste em detectar pequeníssimas flutuações da radiação, "piscadelas" na luz emitida pelas estrelas, devidas à passagem de um planeta à sua frente. O Kepler é um aguçadíssimo olho no céu, como explica James Fanson, responsável da missão, no mesmo documento da NASA: "Se o Kepler olhasse para a Terra à noite a partir do espaço, seria capaz de detectar a diminuição da luz num alpendre se alguém passasse à frente da lâmpada". O que equivale ainda a ser capaz, para recorrer à imagem usada pelo New York Times, de detectar a variação de luz produzida por uma pulga a rastejar à superfície do farol de um carro. O Kepler fará observações em contínuo, sem desviar o olho dos seus alvos e sem pestanejar, e enviará para a Terra os dados recolhidos uma vez por semana.

Como os planetas que o Kepler procura devem ser parecidos com o nosso e a sua estrela parecida com o nosso Sol, isso significa, em princípio, que esses planetas demoram cerca de um ano a completar uma volta em torno da estrela. Portanto, ao longo da sua missão, o novo telescópio deverá ser capaz de confirmar várias vezes a redução periódica da luminosidade de uma dada estrela de forma a garantir que essa variação se deve à passagem de um planeta e não a algum outro fenómeno. Mas isso também quer dizer que só no fim da missão é que se saberá quantos planetas do tipo da Terra é que o Kepler encontrou.

Contudo, os responsáveis da missão têm uma ideia do número em causa. Pensam que o Kepler deverá detectar centenas de planetas de todo o tipo - muitos deles gigantes quentíssimos - e que, se de facto os pontinhos azuis forem moeda corrente na nossa galáxia, umas dezenas dos exoplanetas descobertos serão parecidas com a Terra e estarão situadas na zona "habitável" do seu respectivo sistema solar.

Umas dezenas pode parecer muito pouco, dado o número de estrelas que o telescópio irá perscrutar. Mas o facto é que, entre aquelas 100 mil estrelas e o seu eventual cortejo de planetas, nem todos se vão alinhar com o Kepler para serem "apanhados" pela objectiva. Estima-se que um tal alinhamento apenas se produza em um por cento dos casos. Muitos planetas como o nosso passarão, portanto, despercebidos, mesmo que existam.

Mas nada garante o desenlace: "Se descobrirmos que a maior parte das estrelas possui planetas como a Terra", diz William Borucki, responsável científico da missão, "isso implica que as condições que sustentam o desenvolvimento da vida poderão ser comuns na nossa galáxia. Mas se encontrarmos poucos ou nenhuns planetas destes, isso indicará que talvez estejamos sozinhos."

Há cem anos que os ratos ajudam a salvar vidas
http://dn.sapo.pt/2009/03/08/sociedade/ha_anos_os_ratos_ajudam_a_salvar_vid.html
SARA GAMITO

Investigação. Graças a estes pequenos animais, o tratamento de doenças deu grandes saltos. Os ratos usados nas experiências permitiram descobrir vacinas, tratamentos contra cancro e medicamentos psiquiátricos

Penicilina, primeiro antibiótico testado em roedores

Já salvaram milhões de vidas. Devemo-lhes o primeiro antibiótico, a quimioterapia usada para combater a leucemia, a vacina que praticamente erradicou a poliomielite do mundo. Comemora-se este ano um século desde que os ratos foram introduzidos nas experiências laboratoriais, permitindo o diagnóstico, a prevenção e o tratamento de várias doenças. Foi também graças à investigação em roedores que cientistas portugueses conseguiram utilizar fragmentos do estômago para reconstruir o esófago do pescoço ou iniciar os testes em humanos para tratar a doença dos pezinhos.

Hoje, nenhuma investigação de saúde escapa à utilização de ratos nas suas experiências. Como confirma Luís Graça, médico e investigador do Instituto de Medicina Molecular (IMM), no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, "os ratos têm sido os protagonistas em quase todas as áreas da biomédica". Aliás, segundo o especialista, "ninguém pensa ou justifica experiências em humanos sem provar nos ratinhos que existem vantagens".

As experiências em ratos estiveram por detrás de muitos prémios Nobel, ao estabelecerem avanços que mudaram a saúde humana, tais como o primeiro antibiótico para a tuberculose, remédios para a tensão arterial, medicamentos para o VIH/sida ou a aplicação da penicilina.

Já em Portugal, João Patrício, cirurgião e um dos fundadores do Laboratório de Experiência Animal dos Hospitais da Universidade de Coimbra, lembra que foi graças aos ratos que se treinaram as primeiras reimplantações de polegares. Com base em experiências realizadas no laboratório, João Patrício conseguiu ainda reconstruir um esófago, usando parte do estômago, e uma uretra, com uma parcela do intestino delgado.

Também Deolinda Lima, directora de biologia celular e molecular do Hospital de S. João, no Porto, faz investigação com ratos desde 1980. Actualmente, a sua equipa está a estudar uma terapêutica à base de botox para curar a hiperplasia (aumento) da próstata. Mesmo com alguns doentes a beneficiar dos primeiros testes, os animais continuam a ser indispensáveis para perceber "se existem efeitos secundários, degenerescência de nervos e quais os mecanismos que estão a funcionar", explica a perita.

Apesar de os primatas terem uma maior semelhança com o homem, não é apenas por uma questão ética que os ratos são os animais mais utilizadas nos laboratórios mundiais. "O rato é um mamífero que se reproduz facilmente em cativeiro, sendo fácil controlar as estripes e é muito resistente a infecções", adianta Deolinda Lima. Por outro lado, "com a sequenciação do genoma humano chegou-se à conclusão de que as semelhanças com o rato são muitíssimas".

Mas foi logo desde 1909 que os ratos se tornaram nas cobaias preferidas dos investigadores. Graças a Clarence Cook Little, um jovem estudante de Medicina da Universidade de Harvard, que conseguiu reproduzir ratos geneticamente idênticos (ver caixa).

Nas faculdades e hospitais portugueses, o uso de ratos em investigação terá começado pouco depois da experiência de Little e está hoje generalizado.

Maria João Saraiva, por exemplo, investigadora do Instituto de Biologia Molecular e Celular, no Porto, dedicou décadas ao estudo da doença dos pezinhos e garante "os ratos foram fundamentais para apontar tratamentos que começam agora a ser testados".

sábado, março 07, 2009

1816, o ano em que não houve Verão
http://dn.sapo.pt/2009/03/07/ciencia/1816_o_em_nao_houve_verao.html
FILOMENA NAVES
Pesquisa. Em 1816 não houve Verão na Europa devido à erupção do Tambora, na Indonésia, no ano anterior. O primeiro estudo sobre esse fenómeno em Portugal e Espanha foi agora publicado

Investigação sobre fenómeno na Península Ibérica

Em Abril de 1815 o vulcão Tambora, na Indonésia, explodiu com extrema violência, lançando na atmosfera milhões de toneladas de gases e materiais, protagonizando a maior erupção vulcânica do último milénio. No ano seguinte, por causa disso, as temperaturas dos meses estivais sofreram um abaixamento abrupto na Europa e na América e, por isso, 1816 ficou conhecido como "o ano que não teve Verão". Na Península Ibérica, sabe-se agora, também foi assim. É isso que mostra o primeiro estudo sobre aquele fenómeno em Portugal e Espanha.

A investigação foi realizada por um grupo de cientistas portugueses e espanhóis e acaba de ser publicado na International Journal of Climatology.

"Sabíamos que esta questão estava bem documentada na Europa e na América, tínhamos indícios de que a Península Ibérica também teria sido afectada pelo ano sem Verão e, por outro lado, tínhamos conhecimento de que havia alguns dados meteorológicos da época, que alguns de nós já tinham recolhido para outros trabalhos. Decidimos juntar tudo e avançar para o estudo", explicou ao DN o climatologista Ricardo Trigo, do Centro de Geofísica de Universidade de Lisboa, e o coordenador da equipa.

A recolha e a análise dos dados levou cerca de um ano, e depois foi preciso, com base nessa informação, fazer a reconstrução do clima desse ano, para perceber até que ponto tinham chegado as anomalias nas temperaturas desse Verão que, afinal, não foi Verão nenhum.

Um dos relatos recolhidos pela equipa é o de um padre e advogado de Braga, José Manuel da Silva Tedim, que registou assim o estranho comportamento da meteorologia nesse Julho já distante: "Tenho 78 anos e nunca vi tanta chuva e tanto frio, nem mesmo em meses de Inverno".

Tal como aconteceu na Europa Ocidental, embora de forma menos acentuada, a produção de cereais caiu e o vinho ressentiu-se na quantidade e qualidade, porque as uvas amadureceram tarde. Na produção da azeitona os resultados também foram maus, de acordo com os relatos da época.

"Mesmo assim, nesse ano, Portugal e Espanha exportaram cereais para os outros países da Europa, onde as consequências na agricultura foram catastróficas e onde houve mesmo fome", conta Ricardo Trigo.

Meticulosos e observadores, alguns médicos registaram a ocorrência de doenças "fora de época" durante esse meses de Verão. No Algarve, por exemplo, "as doenças devidas ao tempo quente e à influência dos gases dos pântanos, como a desinteria e as febres biliosas e intermitentes não surgiram. Ao contrário, as doenças inflamatórias usuais no Inverno, foram frequentes", escreve um dos médicos de então, citado no artigo Iberia in 1816, the year without a summer, do grupo de Ricardo Trigo.

Importante neste trabalho foi também a recuperação de dados meteorológicos recolhidos nesse início do século XIX por alguns estudiosos em quatro pontos da península Ibérica: Lisboa, Cádiz, Madrid e Barcelona.

Esses registos foram fundamentais para a reconstrução do clima nesses anos de 1816 e 1817. Em Portugal, foi um militar e estudioso da meteorologia chamado Marino Miguel Franzini, quem os fez, em Lisboa e Sintra. A geógrafa Maria João Alcoforado, da equipa de Ricardo Trigo, "desenterrou-os" de uma publicação da Academia de Ciências, de 1779.

ATENTADOS QUE MUDARAM A HISTÓRIA


ABEL COELHO DE MORAIS
Violência. Síntese não exaustiva do recurso à violência desde a segunda metade do século XX até à actualidade como instrumento de actuação política e arma para forçar a mudança de regimes ou alcançar a eliminação de adversários. Para alguns, a violência continua a ser a "grande parteira da história"

Quando a morte de governantes marca uma época

O destino marca a hora - a hora em que se desfazem os cálculos e carreiras políticas, o momento em que figuras centrais num país ou numa conjuntura histórica desaparecem pela acção violenta de adversários. Foi assim em Bissau, com o ataque que pôs fim à vida do Presidente Nino Vieira, num ajuste de contas com fiéis do comandante das forças armadas, Tagmé Na Waié.

Este foi o mais recente de uma longa lista de mortes que, após 1945, mudaram a História. A começar com John F. Kennedy que caiu pelos disparos de Lee Oswald, em Dallas a 22 de Novembro de 1963. Kennedy tinha uma visão para a América e um conceito para a Guerra Fria, mas tudo isso foi apagado no momento da sua morte.

Destino alterado de forma radical foi o de Espanha com o atentado à bomba da ETA que vitimou o chefe do Governo, almirante Carrero Blanco, a 20 de Dezembro de 1973, em Madrid. O grupo terrorista basco, sem o desejar, acelerou o caminho para a democracia, concretizado cinco anos mais tarde.

Outra mudança de regime - também a curto prazo - iria suceder com o desaparecimento brutal do rei Birendra, do Nepal. A 1 de Junho de 2001, em Catmandu, o monarca era assassinado com mais oito membros da família real pelo príncipe herdeiro Dipendra.

Aquele não concordou com os planos de casamento que os pais lhe prepararam. Entrou armado, e alcoolizado, no salão do palácio onde decorria a refeição familiar e disparou em todas as direcções. O sucedido levou ao poder Gyanendra, o irmão do falecido rei. Gyanendra apostou numa estratégia de tudo ou nada no combate à guerrilha maoísta e na concentração de poderes na sua pessoa. Acabou derrotado politicamente e forçado a abdicar.

País fronteiriço com o Nepal, a Índia, cuja política foi hegemonizada pela família Nehru (que adoptou o nome de Gandhi) e lhe deu vários chefes do Governo. Como Indira Gandhi, assassinada a 31 de Outubro de 1984 por dois guarda-costas sikhs, em retaliação pelo ataque do exército indiano à Templo Dourada, o mais importante para esta denominação religiosa.

Também de retaliação se tratou no Egipto, onde o Presidente Anwar al Sadat foi assassinado durante uma parada militar no Cairo, a 6 de Outubro de 1981. Abatido por militares islamitas, a morte de Sadat tem sido atribuída aos acordos de Camp David de 1978, com Israel, ou ao facto de ter acolhido o xá destronado da Pérsia. Significativamente, só um Chefe de Estado árabe esteve presente no funeral e só dois dos 24 Estados da Liga Árabe enviaram representantes ao funeral.

Por um outro acordo de paz, o de Oslo em 1993, irá morrer o chefe do Governo israelita Yitzhak Rabin, a 4 de Novembro de 1995, assassinado por um opositor radical à coexistência israelo-palestiniana.
http://dn.sapo.pt/2009/03/07/internacional/atentados_mudaram_a_historia.html
Fim de ciclo

Na Europa, duas mortes vão assinalar o fim de duas épocas. Na Suécia, o assassínio de Olof Palme evidencia que o regime quase perfeito da social-democracia e um líder político que vivia como um cidadão comum, não estão incólumes ao terrorismo. Palme foi assassinado à saída de um cinema com a mulher a 28 de Fevereiro de 1986.

Na Roménia, um Nicolae Ceaucescu envelhecido e crescentemente divorciado da realidade vai enfrentar uma vaga de protestos que, em menos de 24 horas, o afastou do poder. Ele e a mulher serão expeditamente julgados e executados a 25 de Dezembro de 1989. Também na Roménia, o regime do socialismo real não tinha futuro.

Quanto ao futuro na Guiné-Bissau, será que o desaparecimento dos dois adversários irredutíveis irá marcar um novo - e diferente - capítulo na história do país?

sexta-feira, março 06, 2009

óculos, relógio, tigela

Leilão polémico com final feliz
Óculos, um relógio, uma tigela: Gandhi não tinha muito, mas multimilionário indiano pagou quase dois milhões por eles
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1367982&idCanal=11
06.03.2009 - 08h58 Dulce Furtado, com agências

Uma meia dúzia de objectos que pertenciam ao líder independentista da India Mahatma Gandhi foram ontem à noite vendidos num leilão em Nova Iorque a um magnata indiano – o qual já deixou claro que pretende doar todos aqueles parcos bens ao país, para que todos os possam ver.

Pagou pelos pertences do venerado asceta 1,8 milhões de dólares: os característicos óculos redondos de armação de metal, umas sandálias de cabedal usadas, um relógio de bolso Zenith oferecido por Indira Gandhi e a tigela e prato de metal com que Gandhi comeu a última refeição.

“Tenho a certeza que todos os indianos ficarão satisfeitos por estes objectos de Gandhi regressarem a casa”, notou às agências noticiosas o licitador do multimilionário, Tony Bedi, que acompanhou o leilão na nova-iorquina leiloeira Antiquorum Auctioneers.

Questionado se as parcas possessões de Gandhi valiam todo aquele dinheiro que o dono do grupo UB (linhas aéreas, cervejeiras), Vijay Mallya, se disponibilizara a pagar, o intermediário foi claro: “até acho que valem seis milhões”. A casa leiloeira estimara que o lote poderia alcançar os 200 mil a 300 mil dólares, mas em poucos minutos apenas após o seu lançamento já as licitações alcançavam o meio milhão. Não muito mais tardaram a chegar ao lance vencedor de Mallya.

Esta venda foi ferozmente contestada pela Índia desde o primeiro momento, com várias manifestações de protesto nas ruas e até críticas bem duras e pressões para impedir o leilão por parte do Governo de Nova Deli. A venda dos pertences de Gandhi, considerados por muitos indianos como parte integrante da herança nacional do país, foi vista como indo contra a filosofia de um homem que recusara as posses materiais e levava um estilo de vida profundamente asceta.

Devido a essa reacção de condenação, o até agora proprietário dos objectos – o pacifista James Otis – chegou a tentar, in extremis, retirar os objectos do leilão, fazendo mesmo disso um anúncio público e amplamente mediatizado. Mas a venda acabou por avançar e o advogado de Otis disse ontem que o seu cliente a aceitava, por estar convicto de que Vijay Mallya vai entregar os pertences de Gandhi à Índia.

cavalos domésticos

5500 anos de cavalos domésticos
http://dn.sapo.pt/2009/03/06/ciencia/5500_anos_cavalos_domesticos.html
FILOMENA NAVES

Estudo. A criação de cavalos a partir de animais domesticados começou há 5500 anos, cerca de mil anos antes do que se pensava até agora. É o que escreve hoje uma equipa de investigadores na revista 'Science', que foi analisar a cultura bopai dos povos das estepes, que hoje são do Cazaquistão

Utilização destes animais mudou a sociedade humana

Foi há cerca de 5500 anos que os povos das estepes do Cazaquistão - a cultura bopai - começaram a domesticar cavalos. Esta prática - que não serviu apenas como forma de transporte, mas também para alimentação, incluindo a utilização do leite - foi documentada por uma equipa internacional de investigadores, que recorreu a novas técnicas de análise para chegar a esta conclusão.

Com este estudo, publicado hoje na Science, os cientistas demonstram que a domesticação de cavalos se iniciou um milénio mais cedo do que se pensava. Originária daquela região para lá dos Urais, esta prática só dois mil anos depois começou a ser praticada na Europa.

"Sabe-se que a domesticação de cavalos teve um impacto social e económico importante, ao impulsionar as comunicações e transportes, a produção alimentar e a própria guerra", explicou o líder da equipa, Alan Outram, da universidade britânica de Exeter. O facto de os dados indicarem que a domesticação de cavalos se iniciou mil anos antes do que até agora se supunha, "é significativo", disse Outram. "Isso altera a forma como olhamos para a o desenvolvimento destas sociedades", adiantou.

Os cientistas analisaram ossos de cavalos da época e encontraram marcas de arreios, o que sugere que naquela altura os animais já eram utilizados como montada. O estudo mostrou também que esses cavalos se assemelhavam aos animais domesticados da Idade do Bronze, mas eram diferentes das espécies selvagens, o que indica que os seres humanos já estavam a seleccionar cavalos e a cruzá-los. A análise de resíduos de gordura nos recipientes de barro da época revelou, por outro lado, que ali era recolhido o leite das éguas.

quarta-feira, março 04, 2009

Fóssil de peixe revela origem do sexo penetrante
Peixe com 365 milhões de anos encontrado na Austrália é prova mais antiga do sexo penetrante.

http://aeiou.expresso.pt/fossil_de_peixe_revela_origem_do_sexo_penetrante=f500935
Virgílio Azevedo
10:22 Quarta-feira, 4 de Mar de 2009


Imagem de um peixe da espécie dos Placodermes
Um estudo feito sobre o fóssil de um peixe com 365 milhões de anos encontrado na Austrália, mostra que o sexo penetrante começou mais cedo do que se pensava.

O peixe, já extinto há milhões de anos, é um exemplar da espécie Incisoscutum ritchiei, pertencente ao grupo dos placodermes (peixes com o corpo coberto por placas ósseas) e, segundo um artigo publicado na revista científica britânica "Nature", "praticava o sexo penetrante para se reproduzir de uma forma semelhante aos modernos tubarões".

Zerina Johanson, curadora do Museu de História Natural de Londres e uma das investigadoras da equipa que fez esta descoberta, afirmou à BBC que o peixe agora estudado "é uma das mais antigas evidências de reprodução interna" entre os vertebrados, através da fertilização de ovos com esperma.

O Incisoscutum continha um embrião com cinco centímetros de comprimento e mostra que a fertilização avançada e o desenvolvimento de embriões dentro da fêmea era mais comum nos primeiros peixes do que os cientistas pensavam até agora.

Antes do sexo penetrante ou cópula, a fertilização dos ovos dos peixes pelo esperma era feita fora do corpo da fêmea.

As evidências de biologia reprodutiva são extremamente raras nos fósseis de animais encontrados até agora, mas já em Maio de 2008 uma equipa de cientistas do Museu Victoria, da Austrália, tinha revelado que um fóssil de um peixe da mesma época, descoberto na região oeste do país, tinha um embrião ainda preso ao seu corpo pelo cordão umbilical.

John Long, líder dessa equipa, afirmou na altura que o peixe, também do grupo dos placodermes, era "o primeiro fóssil do género encontrado em todo o mundo e abre uma nova frente de investigação da biologia do desenvolvimento entre uma classe completa de organismos já extintos".

Antes destas descobertas, a evidência mais antiga do sexo penetrante tinha sido encontrada em fósseis de répteis da Era Mesozóica, isto é, um período da história da Terra que começou há 248 milhões de anos e acabou há 65 milhões.


Palavras-chave sexo penetrante, peixe, fóssil, Austrália, descoberta

Um cérebro com 300 milhões de anos
http://dn.sapo.pt/2009/03/04/ciencia/um_cerebro_300_milhoes_anos.html
SUSANA SALVADOR

Fóssil. Dentro do crânio fossilizado de um antepassado das raias e tubarões foi encontrado um minúsculo cérebro, o mais velho alguma vez descoberto. "Agora podemos começar à procura de outros", disse um dos cientistas do projecto

Crânios costumam chegar espalmados aos nossos dias

Os cientistas estavam a usar a luz sincrotrónica para analisar um dos poucos crânios completos de um peixe iniopterygian, um antepassado com 300 milhões de anos dos tubarões e das raias, quando se depararam com algo estranho. Mais testes revelaram um pequeno cérebro fossilizado, o mais velho alguma vez encontrado.

"Durante muitos anos, os paleontólogos usaram a forma da cavidade do crânio para pesquisar a morfologia do cérebro, porque o tecido mole não estava disponível", indicou o principal autor da descoberta, Alan Pradel, do Museu Nacional de História Natural francês. "Os tecidos moles fossilizaram no passado, mas são normalmente músculo ou órgãos como os rins", afirmou por seu lado John Maisey, do museu homólogo norte- -americano, em Nova Iorque. "Os cérebros fossilizados são pouco comuns e este é, de longe, o mais velho exemplo conhecido", acrescentou.

O cérebro do peixe, descoberto no estado norte-americano de Kansas, terá fossilizado "graças à presença de bactérias que cobriram o cérebro antes do início da decomposição", indicou Alan Pradel no artigo na revista Proceedings of the National Academy of Sciences. Normalmente, os fósseis do crânio deste animal chegam aos nossos dias espalmados, o que impede estudos pormenorizados.

Os exames com a luz sincrotrónica, no laboratório europeu em Grenoble (França), permitiram recolher informações detalhadas sobre a estrutura do cérebro. "É possível ver o cerebelo, a espinal medula, os lobos ópticos e os nervos", indicam os cientistas, que fizeram uma reconstrução a três dimensões do crânio.

O peixe, que não media mais de 50 centímetros de comprimento, tinha um cérebro simétrico de 1,5 por sete milímetros. "Agora, que sabemos que os cérebros se podem preservar dentro de fósseis tão antigos, podemos começar a procurar outros", afirmou Maisey, abrindo caminho ao estudo do desenvolvimento do cérebro em animais vertebrados.