"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

quinta-feira, dezembro 03, 2009

Investigação
Os custos de ter 'visão cósmica'
http://dn.sapo.pt/inicio/ciencia/interior.aspx?content_id=1437133
por A. C. M.


O espaço é mesmo a 'última fronteira', até em matéria de orçamento. Mas, além da barreira dos euros, e para ir "até onde nunca antes chegou o homem", a Agência Espacial Europeia lançou um projecto para ajudar a resolver muitas das incógnitas ainda em aberto na ciência espacial. Duas ou três das propostas seleccionadas devem ser concretizadas até 2020.


A Agência Espacial Europeia (AEE) lançou a ideia entre a comunidade científica internacional para que os seus membros apresentassem sugestões de investigação ou programas espaciais a serem realizados até 2020, e que podiam ir desde a identificação de novos planetas à determinação dos "elementos negros" que dão forma ao cosmos, com a finalidade de responder a algumas das questões em aberto na ciência espacial. Com uma advertência: os projectos teriam custos controlados.

Intitulada Visão Cósmica, a iniciativa da AEE recebeu várias propostas, das quais foram seleccionadas seis, com a agência a deixar desde logo claro que apenas três ou quatro se irão realizar no quadro temporal previsto.

Entre os projectos aprovados, destacam-se o Euclid, que prevê o lançamento de um telescópio capaz de reconhecer a "matéria negra" e desenvolver a tarefa iniciada pelo telescópio Hubble; outro projecto de exploração espacial, o Plato, pretende investigar a existência de planetas de condições semelhantes à Terra, isto é, reunindo condições que permitam à água permanecer em estado líquido; um terceiro, o Cross-Scale, tem como objectivo recolher plasma em torno da atmosfera terrestre, o que "esclareceria questões fundamentais da física", defende um dos seus responsáveis.

O problema é que, como antecipado, alguns dos projectos ultrapassam a verba média para cada um, 475 milhões de euros, e apenas um se situa claramente abaixo, com um custo de 180 milhões de euros. A BBC online escrevia ontem que apenas dois dos projectos deverão ser concretizados, entre 2017 e 2018, por limitações resultantes do número de voos espaciais possíveis.

Aplaudida pela comunidade científica, Visão Cósmica todavia originou algumas críticas, devido à tendência de os programas da agência sofrerem invariavelmente derrapagem de custo, como sucede com os dois já referidos, cujo valor ultrapassa em 125 milhões o orçamento previsto, ou seja, serão necessários 610 e 600 milhões para cada. O director de Ciência e Robótica da AEE, David Southwood, reconheceu que este é um problema crónico, e que "a indústria espacial e a comunidade científica têm de saber que há limites de custo - é uma questão de responsabilidade".