"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

domingo, novembro 30, 2008

Daniel Rocha (arquivo)

Shchepinov defende que isótopos pesados podem ser a solução para o avanço
da idade

http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1351592
30 de Novembro de 2008





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Cientista russo pensa que o envelhecimento pode ser combatido tomando água
pesada
Será que existe um elixir da juventude?
28.11.2008 - 19h11 Inês Subtil
Pôr uma colher do líquido “mágico” na boca e engolir. Este é um ritual
diário para o cientista russo Mikhail Shchepinov que, todos os dias, sorve
aquela que considera poder a ser a solução para prolongar a vida humana,
uma colher de água pesada – D2O, em que o “D” da fórmula química
representa o deutério, um isótopo do hidrogénio de massa atómica 2, em vez
de 1. O sabor é ligeiramente adocicado e se um cubo deste líquido fosse
colocado num copo, afundar-se-ia em água normal.

Já lá vão 18 meses desde que o bioquímico russo anunciou pela primeira vez
que tinha descoberto o elixir da juventude, uma maneira de beber (ou
comer) para conseguir ter uma vida mais longa. Segundo noticia a revista
“New Scientist”, Shchepinov começou a interessar-se por esta área há dois
anos através da leitura de artigos científicos sobre as causas do
envelhecimento.

A teoria mais bem aceite pela comunidade científica é a dos radicais
livres, que defende que o corpo humano vai envelhecendo devido a danos
irreversíveis provocados às biomoléculas. Os responsáveis por esta
destruição são os radicais de oxigénio livres, compostos químicos
agressivos que são um produto inevitável resultante do metabolismo das
células.

Os “estragos” vão sendo acumulados ao longo da vida até que chega o ponto
em que os processos bioquímicos básicos do corpo deixam de funcionar.
Estes processos estão associados a doenças ligadas à velhice, incluindo
Parkinson, Alzheimer, cancro, falhas renais crónicas e diabetes.

O corpo humano produz antioxidantes que eliminam os radicais livres antes
que estes possam causar danos. À medida que a idade avança, estes sistemas
defensivos acabam também por ser destruídos e o corpo entra num declínio
inevitável.

”Comer” juventude

Até agora a maioria dos medicamentos para lutar contra o envelhecimento
eram compostos por antioxidantes, como a vitamina C ou beta-caroteno, que
serviam para ajudar estes sistemas de defesa, apesar de não haver
evidências que o resultado fosse positivo.

O bioquímico russo decidiu seguir um caminho diferente. Aproveitando a
investigação que já fazia na área dos efeitos dos isótopos, decidiu
conjugá-los com os conhecimentos que ia adquirindo sobre as causas do
envelhecimento.

O conceito por detrás desta área é o de que a presença de isótopos pesados
numa molécula pode diminuir as reacções químicas com outros compostos.
Isto acontece porque são formadas ligações mais fortes na molécula. No
caso do isótopo de hidrogénio escolhido por Shchepinov, o deutério, as
ligações estabelecidas são 80 vezes mais fortes do que aquelas que são
estabelecidas com hidrogénio normal.

A ideia é usar este efeito para tornar as biomoléculas mais resistentes
aos ataques dos radicais livres. Para isso, o bioquímico defende que
apenas seria necessário colocar deutério ou carbono-13 (outro isótopo
pesado) nas ligações mais vulneráveis.

O deutério e o carbono-13 parecem ser não tóxicos, portanto a sua ingestão
deixa de ser um problema.

Há 18 meses, quando Shchepinov apresentou esta ideia fez questão de frisar
as inúmeras experiências científicas que já provaram que as proteínas, os
ácidos gordos e o ADN podem ser ajudados a resistir a danos provocados
pelos ataques dos radicais livres recorrendo ao efeito dos isótopos.

Carne, ovos e leite enriquecidos

No entanto, algumas experiências indicam que a água pesada não é
completamente segura. Por isso, a ideia de Shchepinov é a de incorporar
isótopos pesados na chamada “iFood”. Este método consistiria em adicionar
à nossa dieta aminoácidos (constituintes das proteínas) essenciais - dos
20 aminoácidos utilizados pelos humanos, dez não podem ser produzidos e
têm que ser ingeridos na forma de alimentos -, cujas ligações já tivessem
sido previamente “fortalecidas”.

Segundo o bioquímico russo esta estratégia é completamente segura, porque
os átomos de deutério ligados ao carbono nos aminoácidos não são
“trocáveis” e portanto não se ligariam à água do corpo. Uma das propostas
seria a produção de carne, ovos ou leite enriquecido com deutério ou
carbono-13, que seriam dados aos animais como alimento. Por enquanto, a
“iFood” continua a ser apenas uma ideia. Até porque, como explica
Shchepinov, citado pela “New Scientist”, “os isótopos são caros”.

Mas uma empresa, a Retrotope, não quis dar-se por vencida e lançou um
programa de investigação para testar a teoria do bioquímico russo.

Uma equipa do Instituto de Biologia do Envelhecimento em Moscovo, Rússia,
realizou experiências com moscas da fruta em que os animais foram
alimentados com diferentes quantidades de água pesada. Apesar das grandes
porções terem provocado a morte da maioria das moscas, aquelas que
receberam pequenas quantidades de água viram a sua expectativa de vida
aumentar 30 por cento.

Um pequena parte do puzzle do envelhecimento

É, contudo, ainda muito cedo para saber se no caso dos humanos o efeito
seria o mesmo. Shchepinov diz que “estes são testes preliminares e tem que
ser reproduzido debaixo de grande leque de condições”: “É possível que o
que estamos a observar nas moscas seja o efeito da restrição calórica (a
única estratégia até hoje provada que aumenta a expectativa de vida em
animais de laboratório), temos que fazer mais experiências”.

Nem toda a gente parece receber esta nova teoria entusiasmado. Alguns
cientistas alertam que os danos causados pelos radicais livres sozinhos
não podem explicar todas as mudanças biológicas que ocorrem durante o
envelhecimento humano. Tom Kirkwood, investigador da Universidade de
Newcastle, no Reino Unido, citado pela “New Scientist”, considera que “a
ideia de Shchepinov é interessante, mas já descobrimos que só faz sentido
pensar no envelhecimento como resultado de múltiplas causas. O mecanismo
por ele sugerido é provavelmente apenas uma pequena parte do puzzle”.

Já Judith Campisi, do Instituto de Investigação do Envelhecimento em
Novato, na Califórnia, é mais optimista: “Tenho ouvido algumas ideias
bastante malucas sobre como podemos viver mais tempo, mas esta (de
Schepinov) intrigou-me realmente”.

O bioquímico russo quer estender esta teoria a várias áreas além do estudo
do combate ao envelhecimento. Um das aplicações possíveis pode ser a
exploração espacial, na protecção dos astronautas contra o efeito dos
raios cósmicos e outras radiações iónicas, cujos efeitos são similares ao
do avanço da idade.

Os bebés é que sabem

A natureza parece já se ter adiantado ao homem no recurso a isótopos
químicos na protecção contra os ataques dos radicais livres. Os bebés e os
ratos nascem com uma quantidade muito maior de carbono-13 nos seus corpos
do que as mães, ao mesmo tempo que as mulheres quando estão grávidas
passam a ter muito menos deste composto. Isto indica que parece haver uma
transferência do isótopo para os fetos. Segundo Shchepinov, o que acontece
é que o feto em crescimento incorpora de forma selectiva o carbono-13 nas
suas proteínas, ADN e outras biomoléculas, para que assim estas se tornem
mais resistentes aos ataques dos radicais livres. O bioquímico russo
reitera que muitas destas proteínas e moléculas de ADN têm que durar
durante toda a vida: “Cada um dos átomos do cérebro de um homem de 100
anos é exactamente o mesmo que ele tinha aos 15 anos".

sexta-feira, novembro 28, 2008

Os cem anos do fundador da antropologia moderna
http://dn.sapo.pt/2008/11/28/artes/os_anos_fundador_antropologia_modern.html

MARIA JOÃO PINTO
Claude Lévi-Strauss. Homenagem em França

Um dos últimos grandes pensadores do século XX faz 100 anos

Testemunha de um século no mais rigoroso significado do termo, Claude Lévi-Strauss celebra hoje cem anos de vida e de um legado determinante para sucessivas gerações de investigadores no domínio das Ciências Sociais e Humanas.

Cem anos cumpridos, ainda hoje "com saúde e lucidez", como referiu esta semana o director do Museu du Quai Branly, principal palco das homenagens que a França lhe preparou, num mundo muito diferente daquele que conheceu: um mundo a que - ele próprio o disse há alguns anos - "já não pertenço".

Considerado o "pai" da antropologia moderna, não foi por ela, porém, que Lévi-Strauss iniciou a sua formação superior: nascido na Bélgica, a 28 de Novembro de 1908, em Bruxelas, filho de judeus franceses que cedo lhe proporcionaram contacto com o mundo das artes, cursou Direito e Filosofia na Sorbonne, em Paris.

Na década de 30, e após vários anos como professor nos colégios de Mont-de-Marsan e Laon, começava a sua aventura na América do Sul, aventura que o levaria a escrever um dos capítulos mais luminosos da investigação em ciências humanas do século XX: docente da Universidade de S. Paulo, no Brasil, Lévi-Strauss criaria então uma imagem perene no imaginário do investigador ocidental - o sonho de, um dia, poder partir em trabalho de campo para lugares longínquos, para melhor os compreender.

Claude Lévi-Strauss rompeu, de algum modo, com as teorias evolucionistas do séc. XIX e afirmou que o mito é composto por todas as suas variantes; não podendo, por isso, ser estudado isoladamente. As suas missões em Mato Grosso e na Amazónia, onde viveu com as tribos bororo, nambikwara e tupi-kawahib, lançariam as bases de uma "mensagem de dimensão universal que mudou para sempre a nossa percepção do mundo", como realçou, esta semana, o director-geral da UNESCO, Koichiro Matsuura.

Mais tarde, já nos anos 50, e ao serviço daquele organismo das Nações Unidas, Lévi-Strauss levaria de igual modo essa mensagem universalista, de "respeito pela diversidade e pelo Outro", rumo ao Oriente, pelo trabalho que desenvolveu na e sobre a região de Chittagong, actual Bangladesh.

A sua passagem pelos Estados Unidos, na década de 40, seria marcada, uma vez mais, pela docência - na New School for Social Research, em Nova Iorque - e pelo exercício das funções de conselheiro cultural da Embaixada de França em Washington.

No regresso a França, a sua actividade como investigador e docente intensificou-se, tendo então exercido os cargos de sub-director do Museu do Homem, em 1949, e de director da École Pratique des Hautes Études, entre 1950 e 1974, leccionando, em simultâneo, antropologia social no Collège de France, até 1982, ano da sua jubilação. Um dos últimos grandes pensadores do século XX ainda vivos, e um dos últimos rostos do estruturalismo francês, Lévi-Strauss é, desde 1973, membro da Academia Francesa.

As celebrações do seu 100.º aniversário estão a decorrer, entre outros, na Biblioteca Nacional de França, que ontem inaugurou uma exposição alusiva, com o manuscrito de Tristes Trópicos e cadernos de trabalho de campo como acervo mais emblemático. Várias editoras, com um vasto programa de reedições, têm, ao longo do ano, assinalado igualmente a data.

Entre nós, recorde-se, o Instituto Franco-Português, Embaixada de França e Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa promoveram recentemente o colóquio internacional "Corpo e Signos", nos cem anos de Lévi-Strauss e, também, de Merleau-Ponty (1908-1961).

Com A.M.G. e agências

o filho de sissi não se suicidou

'O FILHO DE SISSI NÃO SE SUICIDOU'
http://dn.sapo.pt/2008/11/28/artes/o_filho_sissi_se_suicidou.html

PAULA MOURATO
Catalina de Habsburgo. A arquiduquesa da Áustria, neta do imperador Carlos I, esteve em Lisboa para apresentar o livro que escreveu sobre a vida da sua tia-avó, a mítica e imperatriz Isabel. Uma obra que revela que o arquiduque Rodolfo foi assassinado em Mayerling e não se suicidou conforme a versão oficial

É difícil ser imparcial quando se escreve um livro sobre uma pessoa da própria família?

É difícil. Foi justamente por ter um problema em entender a imperatriz que utilizei uma terceira pessoa para falar por mim - a condessa húngara - porque queria ser o mais objectiva possível. Esta dama de companhia é uma personagem muito "apaixonada" pela imperatriz, muito próxima dela, muito dedicada e por isso não deixa ver algumas facetas do seu carácter que são muito narcisistas e egocêntricas. Por vezes ela é muito dura com as pessoas à sua volta e a condessa um pouco branda com os seus principais defeitos, pelo amor incondicional que sentia por ela. Foi assim que me escondi atrás de um personagem fictício para poder descreve-la melhor.

Apesar de ser o imperador Francisco José, não foi tão analisado como a sua mulher?

Existem mais livros sobre o imperador Francisco José do que sobre Isabel porque historicamente foi o reinado mais longo da casa de Habsburgo e também o reinado que significou o princípio do fim. Perdeu o império alemão e com ele aconteceu a primeira grande perda não só da Alemanha mas também de Itália. Este imperador é a chave de toda a história da família Habsburgo. Só que é mais atractivo escrever um livro sobre Isabel do que sobre Francisco José. Ela tem um enorme carisma e tornou-se um mito e os mitos não morrem. O seu marido é uma figura mais atractiva para os historiadores mas menos para a história.

O livro começa no Outono de 1889 baseado em cartas que relatavam a tragédia. Porquê uma história sobre o lado negro da sua vida?

Queria desvendar a sua verdadeira personalidade. De uma mulher que foi infeliz logo desde a lua de mel. Ela era aquele tipo de pessoa tão exigente consigo própria que queria controlar o seu corpo e a sua mente e sentia-se muito torturada. Toda a sua vida é uma contínua procura de serenidade e paz que só encontrou a 10 de Setembro quando morreu. Não descrevo as tragédias dela mas sim a sua vida.

O que há de novo neste livro sobre Sissi?

Sissi nunca foi uma alcunha utilizada na casa real ou entre a família. Por isso nunca a uso na obra. Existem muito factores novos. Penso que as pessoas ao lerem este livro finalmente compreendem o que aconteceu em Mayerling. O porquê de Carlota da Bélgica, a mulher de Maximiliano, imperador do México, ter ficado louca? Porque corria o rumor de Catarina Schratt ser amante do imperador Francisco José e porque desapareceu no meio do oceano atlântico o arquiduque João Orth. Qual a verdadeira relação entre Isabel e o conde Gyula Andrássy que tornou o império com "duas cabeças" uma realidade: a Áustria e a Hungria. Nunca ninguém fala desta estranha mas muito terna relação. Foram necessários três anos de pesquisa e tive a sorte de ter os arquivos da família à minha disposição para trazer uma nova luz a esta história.

Acha que a separação da imperatriz Isabel do filho Rodolfo logo à nascença muda o curso da história?

Rodolfo procurava na sua mãe aquilo em que era igual a ela. Rodolf tinha o mesmo carácter, era um homem livre, nunca aceitaria submeter-se ou ser subordinado a ninguém. Compreendia e amava a sua mãe mas não podia conviver com ela, eram demasiado parecidos. Duas pessoas que procuravam a liberdade e com mentes livres, o que era impossível num império tão velho e governado por leis muito antigas. Tudo era muito burocrático e ambos queriam mudar o mundo. Mas não tiveram nenhuma relação e só depois da sua morte é que a imperatriz se dá conta que tinha perdido o filho e que tinha sido um pouco culpada pelo que aconteceu. Mas quando Rodolfo nasceu estava muito doente, muito depressiva e não era capaz de estar a seu lado. Tento dizer no livro que há muitas coisas que se podem explicar na vida porque acontecem muitas desilusões, como é o caso dela que perdeu tantos entes queridos. Também sofreu muito psicologicamente.

Porque foi o Vaticano informado que a morte de Rodolfo foi suicídio? Qual o interesse nessa teoria?

A teoria da suicídio era imprescindível porque a notícia de um assassinato naquela época teria gerado uma guerra civil na Áustria. A situação era tão dramática e tensa que o assassinato do herdeiro seria o fogo da catástrofe. Decidiram em comum acordo fazê-lo passar por um suicídio de amor e para isso transformaram o seu filho numa pessoa perturbada e débil e a imperatriz dispôs-se a manchar o nome do seu filho para proteger o seu povo. Foi impressionante descobrir que com essa decisão o imperador nem poderia dar um funeral cristão ao seu único filho varão. Por isso mandou o famoso telegrama ao Vaticano explicando que foi um assassinato. Encontrei alguma correspondência na Bélgica trocada entre o imperador e o seu irmão porque as famílias mais chegadas sabiam o que tinha acontecido.

Quem foi o assassino?

A minha avó dizia que por trás do assassinato esteve Clemenceau (ministro francês, inimigo declarado dos Habsburgo) mas não há nada de conclusivo sobre isso. As pessoas com quem Rodolfo estava envolvido tentaram convencê-lo a matar o pai e ele recusou. Era contra as ideias políticas do seu pai e queria mudar muitas coisas mas não matar o imperador e morreu para o proteger. Foi o que o Francisco José disse ao meu avô Carlos I.

Isabel casou por amor, ou casou com um homem por quem nutria apenas respeito e admiração?

Casou por amor. Tenho a certeza.

A imperatriz é muito diferente da personagem interpretada pela actriz Romy Schneider. Como a definia?

Além de uma anorexia física tinha também uma anorexia mental. Tentava ser uma imperatriz mas não conseguiu. É estranho mas estava nos genes e ainda hoje aquela família é muito discreta, tímida e adora a simpli- cidade. Era um anjo perseguido por demónios. Tinha tudo mas era como se todas as fadas do mundo se encarregassem dos seus desejos e no final teve todas as desilusões possíveis. A senhora mais admirada do mundo queria uma vida tranquila e tinha medo até de um fotógrafo. Detestava Viena e era odiada porque o povo não a considerava uma boa imperatriz. Basta ver que nos últimos 25 anos da sua vida não foi a uma cerimónia oficial, uma recepção ou um jantar. Quando morreu estiveram menos pessoas no seu funeral do que no funeral do seu filho.

A família da Primeira Grande Guerra

Os Habsburgo. No fim Primeira Guerra Mundial foram depostos com a formação de novos países

O sucessor do imperador Francisco José seria em linha directa o seu filho Rudolfo não morre-se o herdeiro em Mayerling, em 1889. Seguia-se na linha de descendência o irmão, Carlos Luís, que morreu também. Na ordem de sucessão ficou então o sobrinho do imperador, Francisco Fernando assassinado em Sarajevo, em 1914, desencadeando a Primeira Guerra Mundial.

Os Habsburgo foram uma das famílias mais importantes da história da Europa. Rodolfo I subiu ao trono e reinou sobre o Sacro Império Romano-Germânico de 1273 a 1291. Com a morte de Rodolfo I foram afastados pela poderosa casa de Luxemburgo e excluídos dos assuntos do império. Mas sua a extinção permitiu aos Habsburgos recuperar a coroa imperial. Governaram a Hungria e a Boémia de 1526 a 1918. Nápoles, Sicília e Sardenha, o auge do poder sucedeu em 1519 com Carlos I, rei da Espanha e imperador (como Carlos V). Reunia as casas de Áustria, Borgonha, Aragão, Castela e as terras espanholas no Novo Mundo. Foi o rei mais poderoso de seu tempo. Maria Teresa de Bragança entrou para a família por casamento com Carlos Luís, irmão do imperador Francisco José. Zita de Bourbon-Parma esposa do imperador Carlos I, era filha de Maria Antónia de Bragança e neta do rei Miguel I de Portugal. Com o fim da Primeira Guerra Mundial em 1918, os Habsburgos foram depostos com a formação de novos países. Zita, a última imperatriz da Áustria e o marido exilaram-se na Ilha da Madeira, onde Carlos I morreu em 1922.

A imperatiz da Áustria-Hungria que nunca foi Sissi mas Isabel

Mito. Os filmes da trilogia Sissi estão longe de retratar a infelicidade que foi a vida da imperatriz interpretada por Romy Schneider

Na noite de Natal de 1837 nasceu no Palácio de Possenhofen, na Baviera, aquela que se tornaria a mulher mais fascinante da sua época. O seu nome é um mito: Isabel Amélia Eugénia, imperatriz da Áustria e rainha da Hungria, a quem o cinema chamou carinhosamente Sissi. A trilogia de filmes Sissi, dirigida por Ernst Marischka, e a actriz Romy Schneider marcaram várias gerações de espectadores essencialmente na Europa. Num continente que ainda lambia as feridas da II Guerra Mundial, esta ficção imaginou o conto de fadas da princesa simples e revelou-se uma excelente forma de ajudar a cicatrizar o sofrimento. Apesar dos aspectos políticos, o acento tónico da obra de Ernest Marischka incide sobre o romance. E esse é o poder da trilogia erigida numa série de mitos vigentes no imaginário colectivo da sociedade ocidental como o mito do príncipe encantado correspondido pelo mito da princesa perfeita. Só que o perfil da princesa adorável e apaixonada do cinema não corresponde à imperatriz da Áustria. Na verdade Isabel tinha pouco a ver com a Sissi. Por trás da personagem que erradicava luz interpretada por Romy Schneider há uma verdade sombria. A imperatriz foi infeliz no casamento, depressiva, vaidosa, anoréctica e fugia para a Ilha da Madeira mais para escapar à amargura do que à doença dos pulmões. E esse lado mais desolado da sua personalidade está no livro de Catalina de Habsburgo.

500 milhões de anos

Oceanos surgiram 500 milhões de anos mais cedo
http://dn.sapo.pt/2008/11/28/ciencia/oceanos_surgiram_milhoes_anos_mais_c.html

Terra. A história do planeta está a ser rescrita pelos cientistas. Uma equipa da Universidade da Califórnia estudou os minerais mais antigos que se conhecem e propõe que a tectónica de placas, como os oceanos, se formaram logo nos primeiros milhões de anos de existência da Terra

Minerais com 4 mil milhões de anos estudados

No princípio (ou quase no princípio) a Terra não era afinal tão quente como se pensava até agora - pelo menos em nalguns pontos -, a tectónica de placas era já uma realidade e os oceanos também. Isto apenas 500 milhões de anos após a Terra se ter formado, ou seja, há 4 mil milhões de anos.

O novo retrato desse tempo da infância do planeta é avançado por um grupo de investigadores das ciências da Terra da Universidade da Califórnia e foi feito com base na análise de amostras do mineral mais antigo que se conhece: o zircão. Os minerais estudados são oriundos da Austrália e os resultados dessa avaliação, liderada pelo geólogo Mark Harrison, foram publicados na edição de ontem da revista Nature.

A Terra formou-se há 4500 milhões de anos e pensava-se até agora que os oceanos e a movimentação das placas que moldaram (e continuam a moldar) a superfície terrestre só teriam começado mil milhões de anos depois, com a vida a emergir posteriormente nos oceanos há cerca de 3500 a 3200 milhões de anos.

Não é essa, no entanto, a história que contam os minerais de zircão analisados pelos investigadores norte-americanos. De acordo com o artigo publicado na Nature, os minerais de zircão ter-se-ão formado há 4 mil milhões de anos e a uma temperatura aproximada dos 700 graus Celsius, um valor incompatível com um mundo a fervilhar de magma e de fogo.

"Estamos a propor que nos primeiros 500 milhões de anos de existência da Terra já existia actividade tectónica de placas", disse Mark Harrison, que coordenou o estudo, citado pela Science Daily, sublinhando que os seus resultados "são a primeira prova de que isso foi assim".

Para chegar àquela conclusão, os investigadores avaliaram a quantidade de titânio contida nas amostras de zircão australianas, que são as mais antigas que se conhecem.

A medição da proporção do titânio tem uma razão de ser: é que quanto mais titânio existe naquele mineral, mais alta foi a temperatura a que ele se formou. E o que o estudos dos minerais de zircão australianos (que têm pouco mais de 4 mil milhões de anos) mostrou, quanto à proporção de titânio, foi que eles se formaram a cerca de 700 graus Celsius. Essa temperatura, que era "fresca" para aquele momento da História da Terra, como sustenta a equipa, só poderia existir na zona de subducção de placas (onde uma das placas mergulha sob a outra).

"Ao contrário do que diz o mito de uma Terra seca e desolada , sem continentes e com temperaturas infernais nos primeiros milhões de anos de existência, parece que o planeta entrou quase de imediato no regime que hoje tem", disse Harrison, notando que "a tectónica de placas e a vida eram inevitáveis" e que "na primeira idade da Terra já deveria haver oceanos". Isso é, pelo menos, o que dizem os minerais de zircão mais antigos do planeta.

quarta-feira, novembro 26, 2008

Sob hegemonia dinamarquesa há cerca de 300 anos
Gronelândia diz "sim" à autonomia
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1351268&idCanal=11
26.11.2008 - 09h41 AFP
Os habitantes da Gronelândia escolheram, por larga maioria e sem surpresas, um regime de autonomia alargada, abrindo caminho a uma eventual independência daquela ilha estratégica do Árctico, sob hegemonia dinamarquesa há cerca de 300 anos.

De acordo com os resultados oficiais definitivos do referendo organizado ontem, o “sim” conquistou 75,5 por cento dos votos, contra os 23,5 por cento obtidos pelo “não”. Trinta e nove mil eleitores de 80 localidades foram chamados às urnas, a fim de se pronunciarem sobre uma autonomia alargada para a ilha.

“A Gronelândia recebeu um mandato para ir mais longe” no caminho da independência, disse perante as câmaras da televisão da Gronelândia Hans Enoksen, o chefe do governo local, agradecendo aos seus compatriotas o “bom resultado” obtido nas urnas.

Para além do direito à autodeterminação, desde que o país respeite o Direito Internacional, o regime – negociado pelo governo de Nuuk com a Dinamarca – dá à Gronelândia o direito de usar os seus próprios recursos (petróleo, gás, diamantes, urânio, zinco e chumbo).

A língua da Gronelândia passa igualmente a ser a língua oficial do país.

Com 57 mil habitantes (50 mil dos quais são inuits e sete mil são dinamarqueses da Metrópole), a ilha beneficiava, desde 1979 até agora, de um estatuto de autonomia interna.

Em Nuuk, a capital, que alberga um quarto da população, a emoção era visível nas ruas. Fogo-de-artifício coloriu os céus quando foram divulgados os resultados definitivos.

Abrangido em mais de 80 por cento da sua superfície pela calota polar, o território – que alberga 10 por cento das reservas de água doce do Planeta – é igualmente um dos mais ameaçados pelo aquecimento global.

O nome de Benito

Partido dá 1500 euros a quem der o nome de Benito ao filho
http://aeiou.expresso.pt/gen.pl?p=stories&op=view&fokey=ex.stories/462568

A escolha de nomes como Benito ou Rachele para receber a recompensa está a causar discussão por alegada alusão ao líder fascista Mussolini e a sua mulher. O Movimento Sociale-Fiamma Tricolore (MS-FT) nega que esse seja o objectivo da ajuda financeira.
Maria Luiza Rolim*
22:30 | Terça-feira, 25 de Nov de 2008



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DR
Benito Mussolini inspira alegada campanha de incentivo à natalidade
Em Itália, os pais que baptizarem os filhos com os nomes de Benito ou Rachele estão aptos a receberem uma ajuda financeira no valor de 1500 euros.

A recompensa está a ser oferecida pelo Movimento Sociale-Fiamma Tricolore (MS-FT), partido de extrema-direita italiano. Para grande parte dos italianos, trata-se de uma clara alusão ao líder fascista Benito Mussolini e Rachele, a sua mulher.

Curiosamente, o MS-FT nega qualquer conotação, alegando que a escolha dos nomes Benito e Rachele aconteceu porque foram considerados interessantes.

A ideia nasceu, diz o partido, da necessidade de ajudar a combater os baixos índices de natalidade na região. Segundo os autores da iniciativa, o dinheiro servirá para os pais comprarem berços, roupa e comida para os bebés.

A alegada ajuda está disponível em cinco áreas do sul de Itália.

as câmaras

O amor, segundo Ségolène
http://aeiou.expresso.pt/gen.pl?p=stories&op=view&fokey=ex.stories/454323
16 de novembro de 2008
POR Daniel Ribeiro, enviado a Reims

que os camaradas se perdoem uns aos outros por todas as palavras desagradáveis
e violentas
na coroação de reis os socialistas estão divididos
foi impossível uma síntese
os dirigentes sombrios avisam quen não há acordo
(um deles pai de 4 filhos)
uma solução: ternura e amor no partido
os delegados não gostaram
alguns riam-se, em frente às câmaras
(quando virem que nos amamos, gostarão um pouco de nós)

terça-feira, novembro 25, 2008

Entrevista Alexandre Kalache
http://jornal.publico.clix.pt/default.asp?url=%2Fmain2%2Easp%3Fdt%3D20081125%26page%3D6%26c%3DC
25.11.2008, José Vítor Malheiros


Em 2006 havia 650 milhões de pessoas no mundo com mais de 60 anos: eram 11 por cento da população. Em 2025 serão 1200 milhões. Em 2050 serão dois mil milhões: 22 por cento da população. E a esmagadora maioria vai viver em cidades. A sociedade vai ter de se adaptar para responder às necessidades de uma população mais idosa, mas estes idosos não vão ser como os nossos avós. Mais autónomos, activos e exigentes que os idosos de ontem, eles vão ajudar a moldar o futuro


Poucas pessoas conhecem melhor o fenómeno do envelhecimento da sociedade do que Alexandre Kalache. Director do programa de Envelhecimento da Organização Mundial de Saúde durante 12 anos, este epidemiologista carioca doutorado em Londres, hoje com 63 anos e aposentado da OMS, divide o seu tempo entre o Brasil, a Grã-Bretanha e os Estados Unidos e é consultor da Academia das Ciências de Nova Iorque, da HelpAge International, uma federação de ONG na área do envelhecimento, e está a instalar no Rio de Janeiro o Centro Internacional de Políticas para o Envelhecimento, uma instituição que funcionará junto da Universidade do Rio de Janeiro, financiada com dinheiros públicos e privados. O seu "filhote", como ele diz, é porém o programa de Cidades Amigas do Idoso que veio ontem apresentar na Fundação Gulbenkian, em Lisboa, na conferência Uma Sociedade Madura Num Mundo Global, incluída no Fórum Gulbenkian de Saúde dedicado ao envelhecimento.
Em geral, quando há uma minoria numa sociedade que cresce numericamente isso traduz-se numa aquisição de poder político - com maioria de razão numa democracia. Mas não estamos a ver nas decisões políticas o reflexo dessa influência dos idosos, que devia ser crescente. Ou acha que ela já começa a manifestar-se?
O problema é a mobilização. É mais fácil mobilizar um contingente que trabalha numa fábrica ou que está ligado a um determinado sindicato do que mobilizar uma camada da população como os idosos, que não vivem nem trabalham todos debaixo do mesmo tecto. Mas já existem sinais importantes desse poder crescente - por várias razões, entre as quais a razão numérica.
Pode dar-me um exemplo desses sinais?
Nos EUA há uma associação de pessoas aposentadas, a AARP, que tem 39 milhões de membros, quase quatro vezes a população de Portugal. A associação edita uma revista semanal, que é a revista com maior circulação do mundo. A AARP fornece serviços aos seus sócios, desde turismo a seguros de saúde e de vida, e possui imenso poder político, com uma intensa actividade de lobbying junto da Câmara de Representantes e do Senado. Não é possível eleger um Presidente nos EUA com a oposição da AARP - Obama não teria sido eleito, se tivesse tido a AARP contra ele. Isso não quer dizer que a AARP possa fazer eleger um Presidente, um senador ou um governador. Mas, se se manifestarem abertamente contra, podem impedir uma eleição. O voto destes 39 milhões - ainda que nem todos rezem a mesma cartilha - tem uma influência enorme.
A AARP é criticada por representar os interesses da classe média e não atender suficientemente aos interesses da classe mais desfavorecida e por não ter uma acção política mais determinada, mas há muitas outras organizações, com outros tipos de activismo. Os Grey Panthers, por exemplo, são outra organização muito dinâmica, de muito menor dimensão mas de um enorme activismo, muito mais agressivos. Isto é uma antevisão do que vem aí...
São ambos exemplos dos Estados Unidos... Como é que se pode promover esse empowerment dos idosos de uma forma generalizada?
Não é só nos EUA. Posso falar-lhe do Brasil e da minha geração, onde está a acontecer a mesma coisa. Tem muito a ver com a história das pessoas. Eu fui activista, fui dirigente estudantil... eu não vou envelhecer da mesma maneira que o meu avó ou o meu pai. Em todo o mundo há uma massa de pessoas que foram activistas, que viveram os movimentos cívicos dos anos 60 e posteriores e que vão reinventar o envelhecimento. Por uma questão numérica - porque vamos ser muitos mais - e porque temos um passado de participação política que não nos permite negar a nossa identidade, aquilo que nós somos.
O meu avô tinha pouco mais anos do que eu quando morreu e era um velhinho. Eu não me vejo como um velhinho. Os idosos de hoje e amanhã tiveram mais acesso à informação, adquiriram competências sociais e profissionais, comprometeram-se politicamente, têm de facto mais poder e assumem esse poder. Não estão à espera de ninguém para tomar esse poder. Eu não esperei a ajuda de ninguém. Eu aposentei-me da OMS e reinventei-me como consultor. Não esperei que ninguém me oferecesse esse poder, magnanimamente. É evidente que eu tenho uma experiência de vida privilegiada, mas como eu há uma geração inteira de mais de 60 anos que está já a reinventar-se, sem esperar por ninguém. As pessoas de 50 ou 60 anos e que terão 60 anos em 2025 vão ser muito mais influentes do que eram os idosos no passado, vão exigir mudanças e vão lutar por elas.
Não é essa ainda a situação em Portugal. Não existe nada remotamente semelhante à AARP.
É verdade que a situação é diferente nos países anglo-saxónicos, onde há uma tradição associativa muito forte, mas a situação está a mudar em todo o mundo. Não é um fenómeno local, é global.
Mas a par do aparecimento desses neo-idosos - chamemos-lhes assim - acontece, no extremo oposto, que os valores julgados positivos nas nossas sociedades são valores associados à juventude: a agilidade, a inovação, a rapidez, a produtividade... não a experiência, ou a reflexão, ou a paciência, ou a profundidade. As empresas querem gente nova. Os partidos políticos querem gente nova. É preciso mudar esses valores? Ou podem coexistir com esta nova estrutura etária das nossas sociedades?
Acho que é preciso mudar tudo isso e acho que vai mudar. Precisamos de redefinir a produtividade como a capacidade que as pessoas têm de acrescentar alguma coisa. Tudo isso é um preconceito - aquilo que em inglês se chama ageism e que é difícil traduzir para português - a discriminação contra pessoas por causa da sua idade.
Mas esse tipo de preconceito começa a ser politicamente inadmissível. A luta contra a discriminação pela idade na Europa é ainda mais forte que nos Estados Unidos. A cultura americana é ainda muito reverencial em relação à juventude - ainda que eles já não tenham a idade de reforma obrigatória que ainda continua a predominar na maioria dos países europeus. Há contradições, mas há mudanças importantes já em curso. É uma questão de tempo.
Hoje há, por exemplo, um lobby como a AGE, a Plataforma Europeia das Pessoas de Idade, com sede em Bruxelas, que é um watchdog que observa cada gesto da Comissão Europeia. E quando suspeitam de um gesto de discriminação em relação a uma pessoa por uma questão de idade não se calam, vão falar aos comissários, mobilizam os países-membros... A situação está a mudar.
Nós estamos a lutar em Nova Iorque pela adopção da Convenção dos Direitos das Pessoas Idosas. A Declaração dos Direitos Humanos vai fazer 60 anos no dia 10 de Dezembro, mas é claro que, em 1948, o envelhecimento não era um preocupação - como também não era há 30 anos. Mas está na hora de abrir os olhos e perceber que temos de proteger os direitos específicos dos idosos, o acesso ao trabalho, aos serviços de saúde, a um rendimento mínimo.
Uma das razões da sua presença em Lisboa é a apresentação do programa Cidades Amigas do Idoso, que lançou quando estava na OMS e ao qual continua ligado. O que são as Cidades Amigas do Idoso?
"Cidade Amiga do Idoso" é uma péssima tradução, mas é o que temos. Em inglês soa melhor: Age-friendly Cities. É que a cidade amiga do idoso é amiga de todas as idades.
O programa é uma forma de traduzir na prática a filosofia do envelhecimento activo, levando em conta as duas grandes forças que estão a moldar o mundo: o envelhecimento e a urbanização.
Em 2005 fui convidado para abrir o Congresso Mundial de Gerontologia, no Rio de Janeiro, e pediram-me que lançasse uma ideia que conseguisse mobilizar o interesse dos media. E eu lancei aí a ideia de fazer de Copacabana a cidade amiga do idoso. Fomos ouvir as pessoas de mais de 60 anos para ver o que sugeriam para o bairro que pudesse melhorar a sua qualidade de vida e desenhámos o programa de baixo para cima, dando o poder de decisão às pessoas. Abordámos os temas que afectam a qualidade de vida de qualquer pessoa, mas que são especialmente importantes à medida que se envelhece: transportes, habitação, acesso a serviços de saúde e outros, oportunidades de participação cívica, acesso à informação, oportunidades de trabalho, qualidade dos espaços públicos, etc.
Mas o programa alargou-se a muitas outras cidades...
Copacabana é um tambor: se você bate, o som repercute-se e todo o país ouve. A ideia teve muito impacto.
E no congresso, que tinha uma audiência internacional, as pessoas também se interessaram muito. E aí eu pensei: porquê só Copacabana, porque não um projecto internacional de Age-friendly Cities? E apareceram Xangai, Tóquio, Melbourne, Vancouver, Londres, Nova Iorque, grandes cidades capazes de influenciar os seus países como um todo, Moscovo, Nairobi, Deli... Com base no estudo-piloto de Copacabana tivemos uma reunião com cidades interessadas em participar e assentámos num protocolo. O que acontece é que, depois de ouvir as populações, recolhemos contribuições de peritos de várias áreas e, na fase final, fizemos reuniões com as autoridades locais. Arrancámos com 35 cidades, mas neste momento já são mais de 170. Um dos elementos centrais do programa é um guia da Cidade Amiga do Idoso onde existem checklists que cobrem as várias áreas e que permitem identificar, depois de adaptados localmente com a colaboração de grupos focais de idosos, as áreas onde se pretende intervir.
Lisboa vai aderir?
Espero que sim. Tenho vindo a Lisboa regularmente para discutir essa questão e há pessoas interessadas, mas isso ainda não aconteceu. Tenho tido contactos com o Ministério da Saúde e autoridades locais em Lisboa, Porto, Évora, com vista à criação de uma rede de cidades amigas do idoso em Portugal. A Fundação Gulbenkian também já demonstrou interesse. Não há dificuldades de maior, os materiais estão todos traduzidos - ainda que seja necessário um trabalho de adaptação.
É preciso falar com os idosos de Lisboa, porque eles é que devem dizer o que é que é prioritário e o que é que faz falta incluir. Depois é preciso envolver as autoridades municipais, a iniciativa privada, as ONG, as fundações, o sector académico. No dia 9 de Dezembro temos uma cimeira em Nova Iorque com o mayor, Michael Bloomberg, para discutir a implementação do programa nessa cidade, e estamos a fazer o mesmo no Rio, em Buenos Aires, na Cidade do México, em Nairobi, Istambul. A mesma abordagem pode ser adaptada a um país altamente sofisticado ou a um país pobre.

segunda-feira, novembro 24, 2008

Quinta-feira, 20 de Novembro de 2008
O genoma que veio do frio
http://jornal.publico.clix.pt/
20.11.2008


É um rascunho e ainda não está completo. Mas, pela primeira vez, conseguiu-se determinar
a imensa sequência genética do mamute, parente pré-histórico dos elefantes, hoje extinto. Será possível ressuscitá-los um dia? Por Ana Gershenfeld


Os mamutes-lanudos (Mammuthus primigenius) gostavam imenso do frio. Não admira portanto que alguns deles, quando morreram, tenham ficado presos e muito bem conservados no solo gelado da Sibéria. Mesmo o pêlo que os cobria sobreviveu até aos dias de hoje, durante milhares de anos, no permafrost. E foi graças a isso que Webb Miller e Stephan Schuster, da Universidade Estadual da Pensilvânia, conseguiram agora reconstituir a gigantesca molécula de ADN contida no núcleo das células de mamute - e começar a desvendar os segredos mais íntimos da evolução e da biologia destes mamíferos pré-históricos. É o primeiro genoma de um animal de uma espécie extinta.
Estes investigadores já tinham sequenciado o ADN das mitocôndrias de mamute, as "baterias" das células vivas. Mas enquanto o ADN mitocondrial é uma sequência molecular com apenas 13 milhões de "letras" (ou moléculas de base A, T, G, C), o ADN do núcleo celular, onde se encontra a esmagadora maioria dos genes (que no mamute são cerca de 20 mil) corresponde a uma sequência de ADN com uns quatro mil milhões de letras! Até há pouco, a mera dimensão do objecto impossibilitava a sua leitura.
Só que os avanços das técnicas de sequenciação têm sido espectaculares, tornando-as mais potentes, praticáveis, rápidas e baratas. Ao ponto que já permitiram sequenciar genomas humanos como os do Nobel James Watson. E, de facto, o assalto agora feito ao núcleo das células de mamute revelou-se um sucesso. Por enquanto, o resultado ainda é um rascunho, onde subsistem erros de leitura e faltam bocados (os cientistas estimam estar na posse de uns 80 por cento do genoma), mas isso não impede que a Nature faça na sua edição de hoje as honras ao acontecimento, publicando os novos resultados e mais dois artigos sobre o tema.
Bola de pêlo pré-histórica
Foi há cerca de 1,6 milhões de anos que apareceram os mamutes. Viveram em África, na Europa, na Ásia e na América do Norte, até se mudarem mais para norte, à procura de regiões mais frias, e desaparecerem há dez mil anos. Schuster e os seus colegas utilizaram como material de base, para extrair o ADN, o pêlo de uma múmia de mamute com 20 mil anos e de outra com 60 mil, ambas da Sibéria. O ADN capilar apresenta duas vantagens em relação ao ADN dos ossos, que é o habitualmente disponível nos restos fósseis: resiste melhor às intempéries, "porque o invólucro do pêlo o protege como uma embalagem de plástico biológico", explica um comunicado da universidade; e resiste melhor à contaminação pelo ADN de bactérias ou fungos, algo que pode fazer com que o ADN sequenciado nem sempre pertença ao animal e torna ainda mais árdua a autenticação dos genes.
Para ter uma base de comparação que lhes permitisse colocar o carimbo "mamute", os cientistas recorreram a um ADN de referência: o rascunho já disponível do genoma do elefante africano, um dos parentes próximos - e vivos - do extinto mamute. Mas, mesmo assim, a origem de alguns dos fragmentos é incerta. A sua autenticidade está dependente da sequenciação definitiva do genoma do elefante, a ser concluída por cientistas do MIT e de Harvard. "Só quando estiver completo é que vamos poder fazer uma avaliação final quanto à quantidade de genoma de mamute que conseguimos sequenciar", diz Miller
no comunicado.
Entretanto, os cientistas já conseguiram obter algumas pistas acerca da história deste antigo elefante e dos seus parentes actuais. "Os nossos dados sugerem que divergiram há cerca de seis milhões de anos", salienta Miller. Também concluem que os mamutes deram origem a dois grupos há dois milhões de anos, que formaram duas subpopulações na Sibéria e que apenas uma delas sobreviveu até há dez mil anos (a outra ter-se-á extinto há 45 mil). E mostram ainda que, entre os mamutes e os elefantes modernos, as diferenças genéticas são mais pequenas do que se pensava. "Ao contrário dos humanos e dos chimpanzés, que se separaram mais ou menos na mesma altura e que rapidamente deram origem a espécies diferentes - diz Schuster -, os mamutes e os elefantes evoluíram de forma mais gradual."
Ressuscitar o mamute?
A diversidade genética entre mamutes também era bastante baixa - a tal ponto que os animais poderão ter sido excepcionalmente susceptíveis às doenças e às mudanças climáticas - e aos homens, que os caçavam. Mas doenças e clima, por si só, permitiriam explicar o fim da subpopulação que se extinguiu há 45 mil anos, uma vez que o homem nunca chegou a cruzar-se com ela e a exterminá-la (na altura não habitava a Sibéria), como poderá ter acontecido com a subpopulação que sobreviveu mais tempo. Uma parte do debate em torno da responsabilidade humana no fim do mamute poderá portanto estar resolvida. Os cientistas esperam também descobrir no antigo genoma as características genéticas capazes de dar conta da excepcional resistência dos mamutes ao frio extremo. "Esta é realmente a primeira vez que somos capazes de estudar um animal extinto com o mesmo nível de pormenor com que estudamos os animais do nosso tempo", diz Schuster.
Uma coisa é certa: o trabalho agora publicado mostra que é mesmo possível sequenciar o ADN de espécies extintas. A próxima etapa nesta saga será a da sequenciação da totalidade do genoma do homem de Neandertal, extinto há uns 30 mil anos, que Svante Pääbo, do Instituto Max-Planck de Antropologia Evolutiva em Leipzig, na Alemanha, espera completar num futuro não muito longínquo (em Agosto, a equipa de Pääbo publicou a sequência do ADN mitocondrial daquele homem primitivo). Aí saber-se-á, finalmente, o que nos separa e nos aproxima desse homem pré-histórico.
Claro que a pergunta mais empolgante que surge em muitas cabeças é a seguinte: agora que temos o ADN podemos trazer os mamutes de volta? Seria quase como tornar realidade o parque jurássico de Michael Crichton. Nenhum dos especialistas interrogados por Henry Nicholls, num divertido artigo também publicado na Nature, recusa a ideia de que um dia seja possível ressuscitar o velho elefante lanudo.
Mas fazer um mamute a partir do seu ADN é muito difícil. "Para pôr carne nos ossos do rascunho de genoma", escreve Nicholls, "seria preciso dominar, no mínimo, as seguintes etapas: definir quais vão ser os genes da nossa criatura, sintetizar os cromossomas a partir dessas sequências, colocá-los dentro de um invólucro nuclear adequado; transferir esse núcleo para um ovócito compatível [os de elefante, a escolha mais natural, são extremamente escassos]; e transferir o embrião resultante para um útero que o leve até ao termo". Um caminho pejado de obstáculos que parecem intransponíveis. Sem esquecer que, no fim, vai ser preciso criar vários indivíduos para poderem reproduzir-se, introduzir neles alguma variação genética para não gerar apenas clones - e que, para mais, esses animais não serão mamutes totalmente autênticos, mas antes híbridos de mamute e elefante (no melhor dos casos). Outro problema, talvez tão delicado como todos os anteriores: introduzir os mamutes num habitat adequado sem gerar o caos ecológico.

Vaticano 'perdoa' John Lennon 42 anos depois
http://dn.sapo.pt/2008/11/24/artes/vaticano_perdoa_john_lennon_anos_dep.html

Itália. Fim do caso 'Beatles são mais populares que Jesus Cristo'
Em 1966, no auge da beatlemania, John Lennon disse a um jornal britânico a famosa frase: "Os Beatles são mais populares do que Jesus Cristo", acrescentando que não sabia qual iria morrer primeiro, se o cristianismo, se o rock. Estas afirmações - sobretudo a primeira - foram muito comentadas e criticadíssimas à época, nomeadamente pelo Vaticano, mas também nos EUA.

Mais de 40 anos depois, a Santa Sé decidiu "perdoar" Lennon através de um artigo no seu órgão oficial, o diário L'Osservatore Romano.

Na peça, publicada para assinalar os 40 anos do histórico Álbum Branco dos Beatles, e que elogia a banda e John Lennon, lê-se que o desabafo do músico foi uma forma de "exibicionismo, de gabarolice por parte de um jovem músico inglês pertencente às classes trabalhadoras, que havia crescido na era de Elvis Presley e do rock and roll, e alcançado um sucesso inesperado".

O artigo de meia página, ilustrado, diz ainda que os Beatles conseguiram "uma única e estranha alquimia de sons e palavras" e que demonstraram uma extraordinária capacidade de sobrevivência. Quanto ao Álbum Branco, é elogiado por ser "uma antologia musical mágica".

Segundo o correspondente da BBC em Roma, David Wiley, este artigo é fruto de o L'Osservatore Romano ter um novo director, que começou a dar mais atenção o mundo do entretenimento nas suas páginas, bem como a assuntos de política internacional, para além da cobertura das actividades diárias do Papa e da publicação de discursos seus.

Na mesma página do artigo em que John Lennon é "perdoado", e os Beatles e o seu Álbum Branco são referidos em termos extremamente elogiosos, o L'Osservatore Romano publica ainda uma outra matéria, esta sobre cinema.

Na peça intitulada O Crepúsculo dos Deuses, o jornal lamenta que a "idade de ouro" de Hollywood seja só uma recordação, acrescentando que o misterioso fascínio do star system desses dias foi substituído pelo culto das pseudocelebridades. De acordo com o citado jornalista, o Papa Bento XVI permite que o órgão da Santa Sé "reflicta a realidade exterior de uma maneira que seria impensável nos dias do Papa Paulo VI, em pleno auge dos Beatles".|- E.B., com agências

Vaticano 'perdoa' John Lennon 42 anos depois
http://dn.sapo.pt/2008/11/24/artes/vaticano_perdoa_john_lennon_anos_dep.html

Itália. Fim do caso 'Beatles são mais populares que Jesus Cristo'
Em 1966, no auge da beatlemania, John Lennon disse a um jornal britânico a famosa frase: "Os Beatles são mais populares do que Jesus Cristo", acrescentando que não sabia qual iria morrer primeiro, se o cristianismo, se o rock. Estas afirmações - sobretudo a primeira - foram muito comentadas e criticadíssimas à época, nomeadamente pelo Vaticano, mas também nos EUA.

Mais de 40 anos depois, a Santa Sé decidiu "perdoar" Lennon através de um artigo no seu órgão oficial, o diário L'Osservatore Romano.

Na peça, publicada para assinalar os 40 anos do histórico Álbum Branco dos Beatles, e que elogia a banda e John Lennon, lê-se que o desabafo do músico foi uma forma de "exibicionismo, de gabarolice por parte de um jovem músico inglês pertencente às classes trabalhadoras, que havia crescido na era de Elvis Presley e do rock and roll, e alcançado um sucesso inesperado".

O artigo de meia página, ilustrado, diz ainda que os Beatles conseguiram "uma única e estranha alquimia de sons e palavras" e que demonstraram uma extraordinária capacidade de sobrevivência. Quanto ao Álbum Branco, é elogiado por ser "uma antologia musical mágica".

Segundo o correspondente da BBC em Roma, David Wiley, este artigo é fruto de o L'Osservatore Romano ter um novo director, que começou a dar mais atenção o mundo do entretenimento nas suas páginas, bem como a assuntos de política internacional, para além da cobertura das actividades diárias do Papa e da publicação de discursos seus.

Na mesma página do artigo em que John Lennon é "perdoado", e os Beatles e o seu Álbum Branco são referidos em termos extremamente elogiosos, o L'Osservatore Romano publica ainda uma outra matéria, esta sobre cinema.

Na peça intitulada O Crepúsculo dos Deuses, o jornal lamenta que a "idade de ouro" de Hollywood seja só uma recordação, acrescentando que o misterioso fascínio do star system desses dias foi substituído pelo culto das pseudocelebridades. De acordo com o citado jornalista, o Papa Bento XVI permite que o órgão da Santa Sé "reflicta a realidade exterior de uma maneira que seria impensável nos dias do Papa Paulo VI, em pleno auge dos Beatles".|- E.B., com agências

quarta-feira, novembro 19, 2008

“Mais explícita” que “Lolita”
Filho de Nabokov vai publicar novela inacabada do pai
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1350522&idCanal=14
19.11.2008 - 13h49 Lusa
O filho de Vladimir Nabokov planeia publicar em 2009 a última novela inacabada de seu pai, “The original of Laura”, isto apesar de o escritor ter pedido para que fosse queimada, informa a BBC.

Dmitri Nabokov, 73 anos, contudo, não cumprirá a palavra dada pela família, porque decidiu publicar a novela, que caracteriza como “mais explícita” do que “Lolita” – a obra por que o escritor é mais popular e que foi passada para cinema no final dos anos 1990, com Dominique Swain, Jeremy Irons e Melanie Griffith.

No seu leito de morte, em 1977, o escritor fez a sua mulher prometer que queimaria as 138 páginas já escritas da novela, mas esta, ao invés de cumprir o desejo do marido, guardou-a num cofre suíço. Com a sua morte, a questão passou para as mãos de Dmitri.

Depois de ter insinuado em conversas que teria mesmo queimado a novela, agora o filho do escritor expressou o seu desejo de, finalmente, ver publicada a obra inacabada – que considera “um dos mais importantes livros” do seu pai.

Acontecimento literário de 2009?

“Não se põe título a um livro que se quer destruir. Ele teria reagido de forma mais sóbria e menos dramática se não estivesse frente a frente com a morte. Estou certo que o seu desejo não seria destruí-la mas acabá-la”, afirmou.

Ainda segundo Dmitri Nabokov, “The original of Laura” tem um conteúdo mais sexual e explícito que “Lolita” e, talvez por isso, imagina que o lançamento da obra inacabada será o acontecimento literário de 2009.

A história gira em torno de um académico tentado pela ideia de suicídio após o naufrágio do seu casamento com uma mulher promíscua e infiel.

segunda-feira, novembro 17, 2008

Aranhas voltam ao espaço 35 anos depois
http://dn.sapo.pt/2008/11/17/ciencia/aranhas_voltam_espaco_anos_depois.html
JOÃO MOÇO
Espaço. Desde 1973 que não se transportavam aranhas para o espaço. Na passada sexta-feira, dois exemplares desta espécie viajaram no vaivém 'Endeavour' até à Estação Espacial Internacional, acompanhadas por uma tripulação de sete astronautas, onde ficarão durante três meses

Foram escolhidas duas aranhas de um leque de 30

Não é, de todo, a primeira vez que um animal chega ao espaço. Por lá já passaram macacos, cães, moscas, gatos e sapos. E também aranhas, numa missão em 1973. No entanto, essa missão não correu muito bem para as duas aranhas transportadas para o espaço, chamadas Anita e Arabella, que morreram a bordo da estação espacial Skylab de desidratação

Foram então depositadas grandes esperanças nas duas novas aranhas que foram transportadas para o espaço na passada sexta-feira.

Os dois aracnídeos foram acompanhados por uma tripulação de sete astronautas, que partiram a bordo do vaivém espacial Endeavour a partir de Cape Canaveral, no estado norte-americano da Florida.

O destino do vaivém é a Estação Espacial Internacional. As aranhas permanecerão na estação durante três meses, onde vão dar a volta à Terra mais de mil vezes, a uma velocidade que ronda os 28 mil quilómetros por hora.

Todavia, as duas aranhas não foram escolhidas ao acaso. Tal como acontece com os astronautas, houve um processo rigoroso de selecção para escolher quais os exemplares que teriam mais capacidades para levar a sua missão espacial até ao fim. Estas duas aranhas foram escolhidas de um leque de trinta, em experiências que incluíram lançamentos simulados.

E depois da escolha procederam-se aos treinos rigorosos da NASA, para que os dois aracnídeos sejam bem-sucedidos.

Enquanto estiverem no espaço, as aranhas poderão ser vistas pela Internet por milhares de crianças, uma vez que esta missão faz parte de um projecto destinado a ensinar as crianças sobre a microgravidade, mas também a incentivá-las quanto aos diferentes aspectos da ciência espacial e tecnologia.

Os dois animais estão instalados num habitat criado pela BioServe, um centro de pesquisa espacial criado pela NASA na Universidade do Colorado. Aí as aranhas irão construir as suas teias, onde poderão instalar-se e caçar as suas presas. Esta missão tem também como objectivo avaliar o modo como as aranhas constroem as suas teias e caçam comida num espaço com microgravidade. Além disso, será avaliada a força das suas teias na órbita espacial. Todavia, esta missão não se destina somente às aranhas. Acompanhadas por sete tripulantes, estes irão aumentar as capacidades de logística da Estação Espacial Internacional, uma vez que actualmente só existe espaço para três astronautas. Além da logística, será instalado um novo sistema de canalização que irá permitir reciclar urina em água potável, de forma a tornar os astronautas menos dependentes de bens vindos da Terra.

Quanto à presença de aranhas na estação, os astronautas mostraram-se bastante contentes com a presença de outros seres que não humanos. "Os astronautas não estão com medos das aranhas, eles vêem-nas como amigas", referiu Carla Goulart, da BioServe Space Technologies.

terça-feira, novembro 11, 2008

As Maldivas já procuram um novo território para viver em caso de naufrágio
11.11.2008
http://ecosfera.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1349597&idCanal=92
Sofia Cerqueira

O primeiro Presidente eleito democraticamente nas Maldivas, Mohamed Nasheed, inaugurou o seu mandato com uma medida inovadora. O país vai criar um fundo de poupança para comprar novas terras onde a população possa viver, caso o nível das águas acabe por engolir o paradisíaco arquipélago, anunciou ontem Nasheed ao diário "The Guardian".

O "seguro de vida" dos maldivanos, como lhe chamou Nasheed, irá ser pago com uma parte das receitas do turismo, a principal fonte de rendimentos do país.

Se as previsões mais pessimistas se cumprirem, os 300 mil habitantes poderão ter de abandonar definitivamente o seu território. É que as 1192 ilhas que compõem o arquipélago das Maldivas não estão a mais do que 2,4 metros acima do nível do mar e a maioria do território habitado está apenas a um metro de altitude. A capital, Malé, está a 90 centímetros do nível do mar e, só aqui, vivem 100 mil pessoas.

O Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas da ONU estima que o nível das águas suba até 59 centímetros até 2100. Mas outros estudos, como o relatório de 2006 do Instituto de Potsdam para a Investigação do Impacto Climático, apontam para uma subida até 1,40 metros, o que ditaria o fim das Maldivas.

A proposta de Nasheed já foi discutida com alguns países, que se mostraram "receptivos", segundo conta o novo Presidente ao Guardian. O Sri Lanka e a Índia são os destinos mais prováveis, devido às semelhanças culturais, mas o Norte da Austrália também é uma possibilidade. Nasheed explica que ninguém quer deixar as Maldivas, mas que pretende assegurar os direitos das próximas gerações, que poderão não resistir às consequências do aquecimento global.

Refugiados ambientais

O problema estende-se a outras 47 ilhas, apelidadas pelas Nações Unidas de SIDS (Small Islands Developping States). Na Papua-Nova Guiné, existe desde 2005 um plano de evacuação para uma ilha vizinha. As ilhas Marshall não têm capacidade financeira para proteger o depósito de lixo nuclear que os Estados Unidos criaram no país e que agora poderá ficar submerso. Na ilha de Bhola, no Bangladesh, 500 mil habitantes deslocaram-se para o interior quando a ilha foi inundada, em 1995, tornando-se talvez os primeiros refugiados ambientais do mundo. Um estatuto que irá proliferar, segundo as previsões.

Ilhas Salomão, Vanuatu, Nova Caledónia ou Fiji são alguns dos territórios ameaçados com a subida das águas.

Outro é o Tuvalu, símbolo das vítimas do clima. O pequeno arquipélago de 11 mil habitantes poderá ser o primeiro país a desaparecer do planeta. Periodicamente, marés vivas de cerca de três metros de amplitude submergem parte do território, incluindo a pista do aeroporto. As constantes inundações comprometem também a incipiente agricultura do país, devido à salinização das terras.

A falta de água doce, a pesca excessiva e a poluição dos navios são outros problemas que também afectam estas ilhas, para além dos furacões e maremotos. "Nós não precisamos de novas investigações científicas sobre o fenómeno da subida das águas, nós já o vivemos", dizia já em 2005 o primeiro-ministro do Tuvalu, Saufatu Sopo'aga. A Nova Zelândia recebe 17 imigrantes deste país por ano e já se estudam propostas para uma deslocação em massa da população.

Os SIDS tentam apelar às nações desenvolvidas para uma redução das emissões de gases de estufa, a única forma de abrandar a subida das águas que é inevitável no futuro próximo. Na quinta-feira, reuniram-se em Singapura, para unificar as posições que tomarão em Dezembro, na cimeira sobre alterações climáticas da Polónia. Pedem que a crise financeira não relegue para segundo plano o futuro destes países, em risco de desaparecer do mapa.

segunda-feira, novembro 10, 2008

Boxe
Um grande combate... entre anões
Gold Coast (Austrália) vai ser o palco de um combate inédito na história do boxe, que coloca frente a frente dois pugilistas anões: 'Gigante' contra o 'Cabeça de Martelo'.

http://aeiou.expresso.pt/gen.pl?p=stories&op=view&fokey=ex.stories/446043




Os pugilistas «Cabeça de Martelo» (à esquerda) e «Gigante»
A velha máxima de que os homens não se medem aos palmos será levada à risca em Gold Coast, na Austrália, o cenário de uma luta de boxe histórica: o primeiro combate entre anões, com direito a título. Intitulado 'O Grande Combate', vai realizar-se já no próximo dia 14, pondo frente a frente os lutadores Nazih 'Cabeça de Martelo' Kheir e Jamie 'Gigante' Fallon.

Como prova de que o combate é um assunto sério, a equipa de promotores anunciou que este é o primeiro passo para a possível criação de uma organização mundial de boxe para pessoas de estatura reduzida, com sede na Austrália. E sobre esta luta, deixam claro: ambos os pugilistas foram treinados por respeitados técnicos do meio do pugilismo.

Sobre os lutadores também já há perfis disponíveis com as mais diversas informações. Nazih 'Cabeça de Martelo' tem 23 anos, é o mais alto dos dois pugilistas, com 1,28m de altura e 47kg de peso. Casado e pai de duas crianças, Jamie 'O Gigante' tem 1,07m e 35kg.

Para dar maior credibilidade ao evento, o combate vai ter como árbitro o ex-lutador húngaro Joe Bugner, que actualmente vive na Austrália.

O promotor da sessão, Jamie Mayer, explica ainda que assim "muitas pessoas verão, finalmente, como eles são capazes de lutar", apelando a que os pugilistas anões tenham direitos iguais.

Quanto aos lutadores, o entusiasmo é comum. 'Gigante" deixa claro: "Trabalhámos no duro para isto e esperamos usar esta oportunidade para atrair outros praticantes". Muito confiante, 'Cabeça de Martelo' assegura: "Vou dar cabo dele no 3.º assalto".

domingo, novembro 09, 2008

A Rússia a seus pés
http://jornal.publico.clix.pt/
09.11.2008


Vladimir Putin tem a aura de líder, o culto de personalidade e os corações dos russos.
O país que quer voltar a ser um império acredita que precisa de um imperador.
Irá São Petersburgo chamar-se Putinburgo? Por Dulce Furtado


Passaram seis meses desde que Vladimir Putin deixou a presidência da Federação Russa, dando ao protegido Dmitri Medvedev a formalidade institucional de primeira figura de Estado. Mas da forma à prática vai larga distância. E continua a ser Putin, com a aura de quem reergueu o poderio militar e económico da Rússia, que mantém as mãos no leme moscovita.
É nos corações de quase todos os russos, e por todas as razões, o líder de facto da Rússia moderna. Como José Estaline e, antes, o fundador da União Soviética, Vladimir Lenine, o ex-Presidente e agora primeiro-ministro russo goza de enorme culto de personalidade, construído para, e em muito por, ele - numa zelosa e permanente mise en scène que o apresenta com imagem imperial.
A sua fotografia está presente em todos os edifícios governamentais e escolas e serviços públicos; consta que ainda não pendurou na parede do seu novo gabinete, na Casa Branca russa (sede do Governo), a fotografia de Medvedev. O seu nome é marca de vodkas e enlatados de peixe, dois produtos de elevadíssimo consumo no país. Tem clubes juvenis de fãs e corre desde o ano passado uma petição online para que a sua cidade natal, São Petersburgo, mude de nome para Putinburgo.
Simultaneamente, como outros líderes russos antes dele - desde os czares a Lenine e a Estaline - o culto de Putin baseia-se na ideia de que ele é um homem do povo. É uma premissa de modéstia testada e acarinhada pelos spin doctors do Kremlin: o líder é "um como nós".
Por isso foi permitido conhecer-lhe a infância pobre e austera num apartamento comunitário, por cujas escadarias corriam ratos conforme Putin descreveu numa entrevista em 2000. Amiúde é possível vislumbrar-lhe a fé ortodoxa, abraçada pela esmagadora maioria dos russos: Putin a acender velas em frente de ícones religiosos e a fazer o sinal da cruz, muito embora não existam registos credíveis de participar nos sacramentos. Quando a revista Time o questionou se acredita em Deus, respondeu: "Há coisas em que acredito que não devem, pela minha posição, ser para consumo generalizado porque tal pareceria um striptease político".
Embora seja sempre generoso com os jornalistas para uma boa foto em pose imperial, Putin não aceita intromissão na vida privada. E os media, controlados pelo Estado, aquiescem. Mantêm respeitosa distância das filhas - Maria, de 23 anos, e Iekateriana, de 22 - e a mulher, Liudmila, permanece em recato. Rumores sobre a vida amorosa do líder são implacavelmente castigados com despedimentos de jornalistas e ameaças de encerramento de jornais.
Dos seus hábitos e rotinas pessoais pouco se sabe além da paixão pelo desporto, num país que endeusa os seus campeões olímpicos. Putin tem orgulho na boa forma física que possui aos 56 anos e não se coíbe de o mostrar. Em particular no judo, modalidade em que é cinturão negro e sobre a qual lançou um vídeo didáctico, pelo início de Outubro, no qual faz demonstrações - parece ser ele sempre a sair-se melhor no tapete.
Um tigre de presente
Não é muito comum Putin chamar os jornalistas a visitá-lo na luxuosa residência oficial que ocupa há mais de oito anos no distrito rural de Novo-Ogariovo, nas imediações de Moscovo. Mas fê-lo, sem revelar a razão, na noite de 9 de Outubro, dois dias após o seu aniversário.
A julgar pela reacção de surpresa que mostraram perante as câmaras, nenhum suspeitou que Putin lhes iria apresentar, enlevado, o presente que mais apreciou: uma cria de dois meses do raríssimo tigre siberiano, de que apenas uns 400 espécimes vivem em liberdade. Da mesma espécie da fêmea adulta que, em Agosto, Putin terá impedido de atacar uma equipa de filmagens na Reserva Natural de Ussuriski, disparando sobre ela um dardo tranquilizador.
Ficou por dizer quem lhe ofereceu o animal, mas a imprensa russa apontou como mais provável origem o zoo privado do Presidente da Tchetchénia, Ramzan Kadirov, que pelo início da década olhava Putin à distância de uma trincheira inimiga.
Uma semana antes, Kadirov prestara homenagem ao antigo rival de guerra dando o seu nome à principal rua de Grozni: a Avenida da Vitória, deixada em escombros nas duas guerras secessionistas travadas entre tchetchenos e russos, a segunda numa operação militar lançada por Putin a 26 de Agosto de 1999, então primeiro-ministro do Presidente Boris Ieltsin.
"[Putin] disse que não pode nem deve pressionar ninguém. Mas preferia que isto não acontecesse", asseverou Dmitri Peskov, porta-voz do primeiro-ministro, sugerindo que a modéstia do líder não se enquadrava bem com ruas com o seu nome. Nenhum comentário de distanciação foi feito, porém, em relação à pequena cria de tigre siberiano. Nalguns casos, Putin preferirá que nem se saiba que o "escudo do chefe inimigo" lhe foi deposto aos pés.
Tem manifestado clara preferência pela aclamação dos votos, mesmo nas expressões mais incríveis como a dos resultados das legislativas de Dezembro de 2007 na Tchetchénia. O sufrágio teve ali uma taxa de participação de 99 por cento, e 99 por cento dos votos foram para o partido Rússia Unida, cuja lista era encabeçada por Putin.
Um jornalista britânico confrontou-o com tais números, na última grande conferência anual que deu como chefe de Estado, em Fevereiro: eram credíveis? O líder preferiu que a resposta fosse dada por um jornalista de Grozni presente na sala. "São números absolutamente realistas", asseverou o tchetcheno, terminando a frase com uma obsequiosa cortesia da cabeça.
"Putin observava com uma expressão que tinha parte de satisfação e parte de enfado, o próprio rosto do poder que não responde perante ninguém", descrevia a revista Esquire em Setembro, numa edição dedicada às mais influentes figuras mundiais do século XXI. Em Dezembro de 2007, a Time elegera Putin Personalidade do Ano.
E agora algo diferente
Vladimir Putin, impedido pela Constituição de cumprir um terceiro mandato presidencial consecutivo, pode voltar à chefia de Estado já no próximo ano - logo após uma saída de cena de Dmitri Medvedev, tão graciosa quanto o mentor lhe quiser conceder.
Disse o ex-tenente do KGB, e depois chefe dos sucedâneos Serviços Federais de Segurança, que não pretendia promover uma revisão constitucional para afastar aquele obstáculo e perpetuar-se no poder. Habilmente, não é esse o impedimento que agora está prestes a ser derrubado. E nem sequer é Putin a tomar a iniciativa, mas sim o sucessor que escolheu há 11 meses: foi Medvedev quem propôs o alargamento dos mandatos presidenciais na Rússia de quatro para seis anos, no primeiro discurso anual de Estado, quarta-feira perante a Assembleia Federal.
"Medvedev pode demitir-se já no início do próximo ano, justificando-se com a alteração do enquadramento constitucional, o que conduzirá a eleições presidenciais antecipadas ainda em 2009", admitia no dia seguinte fonte do Kremlin citada, mas não identificada, pelo diário russo Vedomosti. Apressou-se o Kremlin a explicar que a extensão de mandato presidencial não é para já, que não se aplicará ao que Medvedev começou a cumprir em Maio. Não, seis anos na presidência é para depois.
Mesmo que Putin não se importe de ficar no segundo plano institucional por mais três anos - enquanto Medvedev se tenta desembaraçar de uma brutal crise financeira global e põe em marcha reformas sociais impopulares - nada o obriga realmente a ficar a ver o protegido no cadeirão do Kremlin outros seis anos.
No terreno de guerra
Vladimir Putin continua hoje a ser o mais popular líder político do país, com uma taxa de aprovação de 83 por cento (em Outubro). É ele - orgulhoso portador da identidade eslava, homem dinâmico, seguro, capaz de responder de cabeça erguida a toda e qualquer ameaça à Rússia, interna ou externa, real ou imaginária - que os russos mais querem ver a protagonizar os noticiários.
São rituais eximiamente encenados na rotina das transmissões televisivas: Putin a reunir com subordinados no Kremlin e na Casa Branca, amiúde acompanhado por Koni, a sua cadela Labrador Retriever preta, ou a supervisionar pessoalmente os preparativos para os Jogos Olímpicos de Inverno de 2014 nas paisagens invernosas de Sotchi, ou ainda a receber outros líderes políticos na dacha de Novo-Ogariovo.
Durante a guerra de cinco dias de Agosto passado na Geórgia, o primeiro a ser mostrado com os pés no terreno e as mãos na massa foi Putin, que voou de imediato de Pequim para a frente de combate. Medvedev permaneceu em Moscovo.
Esta imagem de herói de acção é um contraste brutal com a que mais frequentemente foi vista ao antecessor de Putin no Kremlin, Boris Ieltsin: um homem envelhecido, doente e quase sempre bêbado. A mística de Putin visa dar "substância visual" à história recente da Rússia que agora fala de olhos nos olhos com as maiores potências do mundo, depois do colapso financeiro e da humilhação sofrida no palco internacional na década de 1990, fruto do falhanço do projecto democrático de Mikhail Gorbachov, de Ieltsin e dos liberais russos.
"Desde que Putin chegou ao poder que há esta sensação de ele querer cumprir uma missão messiânica para tornar a Rússia grande", avalia a analista política russa Natalia Gevorkian. A ideia é partilhada pelo investigador Emil Dabagian, da Academia Russa de Ciências, que sublinhou ao diário Moscow Times a "linha muito fina, por vezes invisível, que separa o populismo do autoritarismo": "Quando um líder está no poder durante muito tempo, começa a acreditar que tem uma missão messiânica de governação. Encorajado por aduladores que o rodeiam, esforça-se para se elevar acima de tudo e tornar-se no árbitro supremo".
Messias de tronco nu
Alicerçado nos ganhos obtidos com a expansão do sector energético, Putin retomou as grandiosas paradas na Praça Vermelha e a produção de armamento, dando renovada força ao músculo militar do país. Mais. Ele é o protagonista desse fortalecimento, sendo fotografado e filmado em uniforme militar, a pilotar jactos de combate, junto a tanques armados ou aos comandos de submarinos.
Os russos aplaudem, gostam de um líder forte - um terço são até favoráveis a regimes autoritários. Em Agosto de 2007, fotografias do musculado líder, a pescar de tronco nu, a caçar e a andar a cavalo por trilhos das montanhas siberianas de Tuva fizeram as delícias do prime time.
As imagens encheram páginas do tablóide russo Komsomolskaia Pravda sob um título que sugeria "Sê como Putin". Segundo o jornal, o site do diário foi prontamente inundado por comentários de mulheres a elogiarem o "torso vigoroso" de Putin.
Comentando aquelas fotografias na rádio Eco de Moscovo - rara voz independente que permanece na Rússia - a politóloga Ievgenia Albats afirmou que eram pouco apropriadas para um Presidente. De imediato a estação foi inundada por telefonemas e emails de protesto de ouvintes, maioritariamente mulheres.
Inevitavelmente, os "kremlinologistas" procuraram destrinçar a mensagem política inerente às imagens. Alguns, como Ievgenia Albats, leram ali uma operação para aumentar a força de atracção de Putin junto dos eleitores, num sinal de que não estava ainda disposto a largar o poder, mesmo que abandonasse o Kremlin. Outros, como Stanislav Belkovski, director do think tank moscovita Instituto de Estratégia Nacional, viram nas fotografias um esforço para mostrar que "Putin sabe relaxar" e que estava a "preparar-se para se afastar da cena política".
Os meses seguintes dariam razão a Albats e resposta às ansiedades da esmagadora maioria dos russos que consideram Putin insubstituível na liderança da Rússia. A prazo poderá até assumir um estatuto quase mitológico de "pai da nação" - como antes dele os czares foram chamados "paizinhos", representantes de Deus Pai na Terra.
É esse, de resto, o propósito de um movimento cívico que juntou mais de 30 milhões de aderentes em apenas um ano: dar a Putin o cargo institucional de "líder nacional", acima do sistema político estabelecido, incluindo primeiro-ministro e Presidente eleitos, e, para mais, liberto dos constrangimentos constitucionais de mandato.
A ideia é partilhada pelo Rússia Unida, que detém maioria constitucional no Parlamento. O coordenador de política nacional do partido, Abdul-Khakim Sultigov, instou à criação de um Conselho Cívico da Nação para aprovar um Pacto de Unidade Civil que "formalize a instituição de líder nacional como elemento de base da nova configuração de governação". Para não restarem dúvidas de interpretação, Sultigov estabeleceu paralelo com a Assembleia da Nação que, em 1613, elegeu Mikhail Romanov czar.