"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

quarta-feira, setembro 30, 2009

Um desenho que mostra como poderia desenvolver-se uma doença destas no tiranossauro

http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1402980





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Antepassado da tricomonose propagava-se devido ao comportamento dos répteis
T. rex pode ter sido vítima do parente de um microrganismo que hoje afecta aves
29.09.2009 - 22h50 PÚBLICO
Foram as mandíbulas que levantaram as suspeitas aos paleontólogos. Os furos que muitos dos fósseis apresentam sugerem que o Tyrannosaurus rex e as suas espécies parentes sofreram de uma doença parecida com a que hoje assola muitas aves.

A tricomonose, que existe nos pombos sem os afectar mas que é grave nas aves de rapinas é causada pela Trichomonas gallinae, uma espécie de protozoário que causa inchaços na parte interior da mandíbula inferior e que acaba por atacar o osso. Alguns das especímenes mais famosas de T. rex encontrados têm exactamente o mesmo tipo de buracos nas mandíbulas.

“Os buracos na mandíbula do tiranossauro ocorrem exactamente no mesmo local das aves que têm tricomonose. A forma dos buracos e a maneira como o osso à volta está, é muito parecido em ambos os animais”, explicou em comunicado Ewan Wolff, paleontólogo da Universidade de Wiscosin-Madison, e um dos autores do artigo publicado hoje na “PLoS One”. O paleontólogo acrescenta que se pensava que estas lacerações eram feitas por mordidas ou devido a infecções bacterianas.

A doença parece ser muito comum nos tiranossauros e pode ter sido mortal. “À medida que o parasite começa a causar uma infecção importante, as lesões ao redor da mandíbula e dentro da garganta acabam por desgastar o osso. Assim que as lesões crescem, o animal tem problemas em engolir comida e acaba por morrer à fome”, disse em comunicado Steve Salisbury, paleontólogo da Universidade de Queensland, que também foi responsável pelo estudo.

Os dinossauros e as aves estão ligados evolutivamente. Não é de estranhar que uma doença tenha evoluído a partir dos grandes répteis para as aves.

Segundo os investigadores, a doença poderá ter sido dispersa através de lutas em que os tiranossauros se mordiam uns aos outros ou devido ao canibalismo, um comportamento defendido em alguns estudos. “Lutar e especificamente morder na cabeça poderia ter sido um mecanismo ideal para espalhar a doença entre tiranossauros”, disse Salisbury.

“Não achamos que seja uma coincidência que um número significativo de tiranossauros adultos mostrem marcas de mordidas na cabeça e sinais da doença parecida com tricomonose”, disse Salisbury, acrescentando que estudos passados mostram que 60 por cento dos indivíduos apresentam mordidas na cara.

“No nosso estudo encontrámos provas de mordidas na cabeça em 30 por cento dos indivíduos com a doença”, disse Wolff. Segundo o investigador este grau de proporção sugere que o comportamento e a doença podem estar relacionados.

“Podemos ver parecenças com o que está a acontecer recentemente com os diabos da Tasmânia, onde um cancro facial debilitante está a ser espalhado pelos animais quando lutam e mordem na cara uns dos outros”, disse Salisbury. “A doença pode acabar por matar o mamífero icónico da Austrália.”

Haraz Ghanbari

Algumas práticas de tortura obrigam os prisioneiros a lidar com as suas fobias, como por exemplo o medo de insectos

http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1403043





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Dissecar a TorturaHá 3 horas Diário Jurídico - Advogados Portugal
É possível falar cientificamente da tortura?
A tortura torna mais difícil recordar o passado e dizer a verdade
30.09.2009 - 09h38 Ana Gerschenfeld
É um exercício desagradável, pois exige que deixemos de lado, temporariamente, a nossa repugnância em sequer considerar que a tortura possa ser uma prática aceitável. Mas por breves instantes, enquanto dura a leitura do texto publicado há pouco mais de uma semana por Shane O'Mara, psicólogo do Trinity College de Dublin, na revista Trends in Cognitive Science, é preciso esquecer que a tortura é ética e moralmente inaceitável, para além de ilegal - e considerar apenas a seguinte questão: será que a tortura serve para arrancar a verdade a uma pessoa?

Mais precisamente, terá a aplicação das chamadas "técnicas avançadas de interrogatório" utilizadas durante a era Bush, na sequência dos atentados de 11 de Setembro de 2001, levado os suspeitos terroristas interrogados a revelar informações certas, supostamente indispensáveis para impedir mais atentados, mais mortos, mais terror?

A resposta de O'Mara é simples: é totalmente errado alegar que a verdade sai da boca dos torturados. Os argumentos nesse sentido não passam de psicologia barata, de neurobiologia de café, e não resistem ao escrutínio científico à luz da neurociência moderna. Porquê? Porque pela sua natureza extrema, tais métodos de interrogatório perturbam profundamente o funcionamento e até danificam fisicamente os centros cerebrais implicados nos processos da memória humana. Ou seja, destroem a capacidade de os torturados se lembrarem do que sabem, dificultando precisamente aquilo que os torcionários pretendem: obrigá-los a revelar os planos secretos de futuros atentados.

Interrogatórios avançados

Em que consistem os "interrogatórios avançados", também designados como "coercivos"? Uma série de memorandos, tornados públicos em Abril passado pelo Departamento da Justiça norte-americano, descreve cruamente e em pormenor as técnicas utilizadas nos interrogatórios de suspeitos de terrorismo durante a administração Bush. Entre os procedimentos mais extremos, o waterboarding, de que tanto se tem falado, consiste em "amarrar firmemente o suspeito a um banco inclinado (...) e a cobrir-lhe a cara com um pano. Despeja-se água em cima do pano de forma controlada (...) de maneira a restringir a entrada de ar durante 20 a 40 segundos (...), o que produz (...) uma impressão de afogamento". Khalid Sheikh Mohammed, considerado o autor do plano dos atentados às Torres Gémeas de Nova Iorque e ao Pentágono, foi submetido 183 vezes a esta forma de tortura no seu primeiro mês de interrogatório; Abu Zubaydah, um outro suspeito referido nos memorandos, 83 vezes.

Há ainda outros métodos, igualmente destinados a criar stress físico e psicológico extremos, tais como fechar o prisioneiro numa caixa de pequenas dimensões, às escuras, durante horas, ou numa caixa maior durante quase um dia. Ou, ainda, explorar as fobias conhecidas dos suspeitos, como no caso de Zubaydah, onde conforme revelam os memorandos se considerou a possibilidade de introduzir insectos na caixa de confinamento, dado o seu medo irracional destes animais. Os suspeitos também foram submetidos ao walling, que consiste em "puxar o detido para a frente e depois atirá-lo, rapidamente e com força, contra uma parede" flexível, provocando um grande estrondo que exacerba ainda mais a sensação de choque e de surpresa.

Contactado por email pelo P2, O'Mara explicou-nos porque é que se interessou pelo assunto: "Quando li os artigos que saíram na imprensa [na altura], tive a nítida impressão de que existia, por detrás [das técnicas utilizadas], um modelo não explicitado da forma como o cérebro responde aos estados geradores de stress extremo, e que pressupõe que esses estados em nada afectam a memória - pelo contrário, até fazem com que o [interrogado] se lembre mais facilmente da informação que possui. Isto levou-me a ler os memorandos para ver qual era o modelo neurocognitivo subjacente ali apresentado e a tentar analisá-lo do ponto de vista da neurobiologia cognitiva." Não foi uma espécie de jogo perverso: "O que tentei fazer no meu artigo", diz-nos ainda O'Mara, "não substitui os argumentos morais e legais; apenas me limitei a testar os pressupostos que estão por detrás" dos métodos de interrogação coerciva.

Stress extremo

O'Mara conclui dessa leitura aprofundada que os torcionários acreditam que, para pôr fim à espiral de stress, ansiedade, desorientação e falta de controlo induzida pelas diversas técnicas coercivas, o suspeito interrogado só pode contar a verdade, toda a verdade e apenas a verdade. Ora, isso vai contra tudo o que sugerem as neurociências, onde existe um vasto corpus de resultados, tanto em humanos (nomeadamente em soldados destacados para operações especiais), como em animais, sobre os efeitos do stress extremo no funcionamento cognitivo. "Os dados científicos sólidos acerca dos efeitos, na memória e nas funções executivas (planificação ou formação de intenções), do stress e da dor repetidos e extremos", escreve o O'Mara, "sugerem que estas técnicas têm provavelmente o efeito oposto daquele que se pretende obter com os interrogatórios coercivos ou "avançados"."

No cérebro humano, o hipocampo (uma estrutura interna) e o córtex pré-frontal (o córtex é a camada exterior do cérebro, onde decorrem os processos mentais mais evoluídos) são essenciais ao normal funcionamento da memória. Ora, o stress provoca a libertação no organismo de hormonas como o cortisol ou a noradrenalina e, justamente, tanto o hipocampo como o córtex pré-frontal, são ricos em receptores destas hormonas. E sabe-se que, quando elas se ligam a esses receptores de forma prolongada (devido, neste caso, à manutenção prolongada do estado de stress extremo induzido pela tortura), "isso põe em causa o normal funcionamento dos neurónios", escreve O'Mara, podendo mesmo acarretar "perda de tecido" nestas estruturas cerebrais. E confirma ainda no email que "há toda uma literatura acerca do stress pós-traumático e sobre a hipercortisolemia [excesso de cortisol no sangue] que mostra que o stress extremo e prolongado ou a exposição crónica às hormonas do stress podem provocar uma redução do volume do hipocampo".

O waterboarding surte os seus efeitos, quanto a ele, através do aumento dos níveis de dióxido de carbono e da diminuição dos níveis de oxigénio no sangue. "Os resultados de imagiologia do cérebro", escreve ainda O'Mara no seu artigo agora publicado, "sugerem que [o excesso de CO2] e a sensação de falta de ar associada fazem aumentar a actividade cerebral de forma generalizada, incluindo nas regiões associadas ao stresse à ansiedade (como a amígdala e o córtex pré-frontal) e também à dor. Estes dados sugerem que o waterboarding(...) tem o potencial de provocar alterações generalizadas do cérebro induzidas pelo stress, especialmente quando utilizado frequente e intensivamente."

Uma outra consequência conhecida das perturbações do lobo frontal (que inclui o córtex pré-frontal) é a criação de falsas memórias. O que significa que, nestas condições, o próprio suspeito pode não só ter dificuldades em lembrar-se do que sabe, mas também pensar que está a revelar informação quando na realidade a sua memória está a enganá-lo, apropriando-se de elementos que lhe poderão ter sido, a dada altura do interrogatório, sugeridos pelos seus torcionários.

Na semana passada, a versão online da revista Science reproduzia as críticas à abordagem de O'Mara emitidas por um psiquiatra especialista do stress traumático e da tortura. "Os argumentos de tipo "a tortura não funciona" ignoram uma importante questão moral", escrevia num email enviado para a redacção daquela revista Metin Basoglu, do King's College de Londres. "O que aconteceria se funcionasse? Seria então justificável utilizá-la em nome da "segurança nacional", por exemplo? Ao participar neste tipo de debate, os cientistas admitem implicitamente a validade moral de uma tal postura. E, de facto, foi essa postura que tornou possível argumentar que a "tortura ligeira" pode ser aceitável em certas condições."

O'Mara responde a estas críticas: "Tem havido um certo nível de mal-entendido em torno do meu artigo a este respeito", diz-nos. "O artigo é essencialmente uma análise das justificações pelos leigos do uso de indutores de stress extremo na extracção de informação da memória humana. No entanto, os argumentos morais continuam a ser válidos, tal como a questão legal. A tortura é uma questão legal, moral e ética, não uma questão de neurociências - e é para deixar isso claro que, no meu artigo, utilizo a expressão "extreme stressors"[geradores de stress extremo] e não a palavra tortura. Nestes termos, acho que o que tentei fazer é razoável. No meu artigo, faço aliás notar que existem fortes objecções éticas e legais à tortura. O que pretendia fazer aqui era analisar a psicologia e a neurobiologia dos leigos, que alegam que a tortura é eficaz, para mostrar que os dados científicos contradizem esse ponto de vista popular. Como se aprende em qualquer aula de introdução à psicologia, o stress extremo e prolongado têm efeitos prejudiciais sobre os sistemas cerebrais que sustentam a memória."

terça-feira, setembro 29, 2009

Crânio que era a prova do suicídio de Hitler afinal é de uma mulher, revela ADN

http://jornal.publico.clix.pt/noticia/29-09-2009/cranio-que-era-a-prova-do-suicidio-de-hitler-afinal-e-de-uma-mulher-revela-adn-17914116.htm


O fim de Hitler podia ser contado assim: suicidou-se a tiro numbunker, pondo fim a um dos períodos mais negros da história da humanidade. Mas, segundo uma investigação feita por um cientista de Connecticut (EUA), este fim pode ser tão fantasioso como a morte que Quentin Tarantino ofereceu ao ditador emInglorious Bastards. A descoberta já é um documentário do History Channel.

O que está escrito nas biografias é que, a 30 de Abril de 1945, Adolf Hitler, na altura com 56 anos, suicida-se juntamente com Eva Braun. Toma um comprimido de cianeto e seguidamente dá um tiro a si mesmo. A investigação posterior para comprovar este facto foi feita pela ex-União Soviética, cujas tropas chegaram primeiro aobunker de Hitler.

As únicas provas materiais que existem são um maxilar, um pedaço do crânio com um buraco devido à bala e o sofá onde estão as manchas de sangue do ditador. O crânio, retirado da vala onde o corpo de Hitler foi enterrado, foi apresentado em Moscovo em 2000, e tornou-se a prova derradeira do suicídio.

Mas algo estava errado. "O osso parecia muito fino; o osso dos homens tende a ser mais robusto", disse Nick Bellantoni, responsável pela investigação. "E as suturas onde as placas do crânio se juntam pareciam ser de alguém com menos de 40 anos."

O especialista foi de propósito a Moscovo para retirar amostras de ADN. As análises mostraram que o crânio pertenceria a uma mulher com idade entre os 20 e os 40 anos.

Oficialmente, o KGB desenterrou o corpo, cremou-o e lançou as cinzas a um rio em 1970. Mas o mistério renasceu e há espaço para todo o tipo de teorias, como um final de vida do ditador na América do Sul.

quinta-feira, setembro 24, 2009

A pior tempestade de areia dos últimos 70 anos


http://jornal.publico.clix.pt/noticia/24-09-2009/a-pior-tempestade-de-areia-dos-ultimos-70-anos-17878932.htm


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Sydney (Austrália) acordou laranja como se fosse Marte. A cidade esteve ontem coberta por uma camada de pó como não se via desde a década de 1940. Uma tempestade vinda do deserto, no interior do continente, apanhou a cidade de surpresa durante as primeiras horas da manhã. "É como estar em Marte", disse à BBC News Tanya Ferguson, que vive em Sydney há 6 anos. "Não estive lá, obviamente, mas imagino que é como o céu se parece." Devido à fraca visibilidade, oferryfechou e o aeroporto cancelou os voos, os aviões foram desviados para Melbourne. Na ponte junto à ópera não se via nada a mais de cem metros de distância. À tarde, o céu limpo tinha regressado, mas a meteorologia avisa que o fenómeno pode repetir-se nos próximos dias. O clima tem fustigado a Austrália, com secas e tempestades de granizo em regiões diferentes.

chegar ao antepassado

Cientistas reconstroem história de proteína e mostram que evolução não anda para trásVinda do Devónico
http://jornal.publico.clix.pt/noticia/24-09-2009/cientistas-reconstroem-historia-de-proteina-e-mostram-que-evolucao-nao-anda-para-trasvinda-do-devonico-17878774.htm

Por Nicolau Ferreira

Estudo publicado naNaturetentou reverter as mutações de uma molécula para chegar ao antepassado


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Um estudo publicado hoje naNaturesugere uma resposta a uma das grandes dúvidas da biologia: a evolução não pode ser revertida, não há botão para rebobinar o longo e lento trabalho que transformou por exemplo oaustralopitecus no Homem.

Uma equipa de investigação da Universidade de Oregon chegou a esta conclusão ao seguir a história de uma proteína humana. Perceberam que mesmo que se revertesse as mutações que foram alterando as funções da molécula para o trabalho que ela realiza, ela não readquiria a sua conformação original e seria inútil.

"Os biólogos evolucionistas sempre estiveram fascinados em saber se a evolução pode ou não andar para trás", disse em comunicado Joseph Thornton, último autor do artigo. A questão, segundo o investigador, manteve-se cinzenta porque, por um lado, é difícil saber quais as nossas características ancestrais, por outro lado conhecem-se mal os mecanismos que levaram às mutações.

A equipa de Thornton deu a volta à questão, e utilizou como objecto o receptor de glucocorticóides (RG). Uma proteína que está na membrana de certas células, pronta para se ligar ao cortisol, uma hormona que circula pelo sangue e que regula a resposta ao stress, entre outros fenómenos.

O antepassado desta proteína sofreu no passado sete mutações consecutivas para passar a cumprir as novas funções. Através da informática, engenharia proteica e cristalografia por raio X a equipa conseguiu não só determinar exactamente as mutações que ocorreram como rebobinou os acontecimentos. Primeiro reconstruíram a proteína no exacto momento em que ela ganhou a capacidade para se ligar ao cortisol, depois, passo a passo, reverteram as sete mutações.

"Nós esperávamos obter um recep-?tor promíscuo [capaz de se ligar a vá-?rias moléculas] exactamente igual ao antepassado do RG, mas, em vez disso, obtivemos uma proteína completamente morta e não funcional", explicou o investigador. Aparentemente, logo a seguir às mutações que deram novas funções à proteína, aconteceram uma série de alterações no gene, que, apesar de não terem relevância para a sua função, impossibilitaram o estado ancestral da proteína. Os investigadores foram à procura destas alterações e encontraram cinco mutações que são incompatíveis com a antiga arquitectura da proteína antiga, mas que não tiveram efeito nenhum no funcionamento dela quando apareceram.

"As mutações restritivas da RG pre-?vinem o reverter da evolução", adiantou o cientista. "Isto significa que mesmo que a função antiga [da proteína] volte de repente a ser óptima [mais adaptada], não existe forma de a selecção natural levar a proteína directamente para o estado antigo." Ou seja, é impossível voltar ao passado e quando se dá um passo evolutivo os outros caminhos fecham-se.400


milhões de anos, é o tempo que os investigadores tiveram que andar para trás para encontrarem o antepassado da proteína. A descoberta já tinha sido feita em estudos anteriores da equipa.

Arábia Saudita inaugura um oásis para a ciência e tecnologia
http://jornal.publico.clix.pt/noticia/24-09-2009/arabia-saudita-inaugura-um-oasis-para-a-ciencia-e-tecnologia-17878693.htm

Por Sofia Lorena

Nova universidade, uma das mais bem equipadas do mundo, será a primeira mista no país


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Nasceu das areias do deserto em dois anos e não há limites para as expectativas em seu redor: da nova Universidade de Ciência e Tecnologia Rei Abdullah, a primeira sem segregação de sexos na Arábia Saudita, espera-se que contribua para promover a modernidade no país mais conservador do Médio Oriente, que ajude a transformar o reino num centro científico global e, de caminho, que combata a estagnação de desenvolvimento científico no mundo árabe.

"Verdadeiramente, não há outra universidade no mundo tão bem equipada. A questão, claro, é saber o que será feito com o equipamento e isto está por ver", escreveu no seu blogueCrossroads Arabia John Burgess, ex-diplomata dos Estados Unidos.

Os 1,5 mil milhões de dólares de investimentos em equipamento permitiram comprar, por exemplo, o 14.º computador mais rápido do mundo. Ou instalações de realidade virtual onde será possível visualizar tremores de terra numa escala planetária.

Impressionante também é o fundo de que a KAUST (na sigla inglesa) foi dotada, 6,8 mil milhões de euros. E as parcerias já assinadas, que incluem o MIT, Oxford, Tóquio ou Cambridge. Assim foi possível angariar os mais brilhantes: há professores dos EUA, Canadá, Alemanha e alunos de 61 países. Entre os primeiros 400, só 15 por cento são sauditas - serão mais, garante a universidade, que prometeu formar cientistas locais.

"Uma das motivações para vir é que aqui há tudo aquilo com que eu poderia sonhar", disse à Reuters Kultaransingh Hooghan, investigador de Informática acabado de chegar da Índia ao campus da KAUST.

Mudar o mapa do mundo

E com tudo ao dispor, é possível sonhar, por exemplo, em transformar o maior produtor de petróleo num grande exportador de energia solar. Ou até em descobrir os segredos para fazer crescer trigo em terras irrigadas com água salgada. E assim, a KAUST estaria a "mudar não só a economia da Arábia Saudita mas o mapa do mundo", disse aoFinancial Times o vice-presidente da universidade, Nadhmi al-Nasr.

O rei Abdullah, que ontem a inaugurou, descreve a KAUST como uma nova "casa da sabedoria" para os mundos árabe e muçulmano. Os reformistas que o apoiam acreditam que será o símbolo das mudanças que Abdullah pretende - e que a poderosa liderança religiosa tem combatido e atrasado.

Para os sauditas que ali possam trabalhar ou estudar, o campus de 36 quilómetros, 70 espaços verdes e praia no mar Vermelho, será uma oportunidade para experimentar um ambiente diferente. Mulheres e homens poderão interagir, as mulheres não terão de usar véu nem cobrir o rosto e poderão até guiar - um tabu no país. Não há géneros na KAUST nem "barreiras na ciência", diz Jasmeen Merzaban, professor de Bioquímica.

Os críticos dizem que a nova universidade até pode ser um oásis no reino de Meca e Medina, mas não passará disso mesmo: o "perigo", sublinha o Financial Times, é que "seja vista como mais uma infra-estrutura de fachada, operada por estrangeiros e isolada do resto do mundo, enquanto o sistema permanece imutável". A KAUST será gerida pela Aramco, a empresa nacional de petróleo que funciona num enclave liberal semelhante.

Muitos notam que a prioridade devia ser reformar as escolas primárias e os liceus onde os currículos ainda se centram nos estudos religiosos.

Desinventar a bomba para travar a proliferação

http://jornal.publico.clix.pt/noticia/24-09-2009/desinventar-a-bomba-para-travar-a-proliferacao-17877070.htm


Nunca a arma nuclear foi tão discutida desde o auge da guerra fria. Para lançar uma campanha contra a proliferação nuclear, Barack Obama apela ao exemplo das grandes potências e à redução dos arsenais. Para tal, não hesita em colocar no horizonte, mesmo se longínquo, a eliminação da arma atómica. É uma ideia que divide a América. As outras potências, à excepção da Grã-Bretanha, são mais cépticas.Por Jorge Almeida Fernandes


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Barack Obama preside hoje a uma cimeira excepcional. Os chefes de Estado ou de Governo dos países membros do Conselho de Segurança da ONU deverão aprovar uma declaração proposta pelos EUA que visa travar a proliferação nuclear no cenário futurista de um "mundo livre de armas nucleares". A discussão abordará outros pontos fulcrais, como a redução dos arsenais das grandes potências, o controlo dos "outros países nucleares" ou os meios de travar o tráfico de materiais usados nas armas atómicas. Nunca, desde o auge da guerra fria, se discutiu tanto a arma nuclear.

Perante Dmitri Medvedev, Hu Jintao, Nicolas Sarkozy, Gordon Brown e os outros dez líderes, Obama tentará abrir uma nova etapa na diplomacia nuclear para inverter a marcha para a proliferação e criar um quadro político que permita responder aos desafios imediatos - o programa nuclear do Irão e a bomba da Coreia do Norte. E este novo quadro começa precisamente na revalorização da ONU.

Washington tem um prazo curto, Maio de 2010, data da conferência de revisão do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP). Um fracasso suscitará o fantasma de uma corrida ao nuclear, designadamente no Médio Oriente e na Ásia.

Obama está numa posição difícil. Para pressionar Teerão e Pyongyang precisa de Pequim e Moscovo, que se têm mostrado pouco cooperantes no Conselho de Segurança. Decidiu abrir o diálogo com o Irão. Mas a fraude eleitoral iraniana conduziu à "revolução verde", em grande medida estimulada pela viragem americana, mas que resultou num endurecimento do regime. A fraqueza do poder em Teerão dificulta as negociações.

Redução dos arsenaisÉ útil lembrar alguns marcos da manobra política de Obama.

A 5 de Abril, em Praga, foi o discurso sobre um mundo livre de armas nucleares. "A existência de milhares de armas nucleares é o mais perigoso legado da guerra fria. (...) Hoje, a guerra fria desapareceu, mas milhares dessas armas não. Numa singular viragem da História, a ameaça de uma guerra nuclear global foi afastada, mas não o risco de um ataque nuclear. Mais nações adquiriram a arma." Surgiu o mercado negro de materiais nucleares, a tecnologia difundiu-se e "terroristas estão determinados a comprar, construir ou roubar uma [bomba]".

"Não sou ingénuo", preveniu. "O objectivo [da eliminação da arma nuclear] não pode ser alcançado rapidamente - e talvez nem sequer na minha vida."

Na semana passada, lançou a segunda pedra. Cancelou o plano de Bush de instalação do sistema antimísseis na Polónia e República Checa, que tanto irritava Moscovo. Era um dispositivo desacreditado nos meios de defesa e informação americanos. O velho Zbigniew Brzezinski, insuspeito de "apaziguamento" perante a Rússia, definiu-o assim: "Um esquema que não funciona, contra uma ameaça que não existe, em países que não o querem". Um ataque à Europa ou aos EUA está fora no actual horizonte, dados os meios balísticos iranianos.

Washington vai substituir o anterior dispositivo por um novo, protegendo a Europa e, sobretudo, o Médio Oriente de uma eventual ameaça iraniana. Aumentou, assim, a pressão sobre o Irão e afastou um dos pretextos da obstrução de Moscovo. Falhado o plano A, pôs em marcha um plano B.

Por outro lado, esta decisão permite acelerar as negociações de revisão do Tratado de Redução de Armas Estratégicas (START 1, que caduca a 5 de Dezembro) e que estavam há anos no impasse. Além de ser do interesse dos dois países, o corte dos arsenais é um argumento central para desencadear uma corrente internacional de travagem da proliferação nuclear.

No fim da semana, Obama pediu ao Pentágono uma revisão radical da doutrina nuclear americana, rejeitado o último projecto que lhe foi apresentado, por ser demasiado "tímido". Londres apoia-o e Gordon Brown anunciará amanhã, oficialmente, uma redução dos meios nucleares britânicos.

É apenas o princípio dos trabalhos do Presidente. Terá, seguidamente, de vencer a resistência do Senado para obter a ratificação do novo START e do Tratado de Interdição dos Ensaios Nucleares.

Desinventar a bomba?

Obama pretende enquadrar a sua revisão num horizonte de abolição da arma nuclear. Para lá de uma severa redução do arsenal, quer restringir as condições em que os EUA usarão a arma atómica tal como garantir a fiabilidade da dissuasão sem testar ou produzir uma nova geração de ogivas nucleares.

"Um mundo livre de armas nucleares", ainda que num horizonte longínquo, suscita um vivo debate nos EUA. O argumento histórico é o facto de, após Hiroxima e Nagasáqui, a bomba nunca ter sido usada. O terror nuclear evitou uma guerra entre as potências nos últimos 64 anos. O argumento estratégico é dizer que se os rivais se aperceberem de uma redução, quantitativa ou qualitativa, do arsenal americano serão incentivados a aumentar e modernizar os seus, na tentativa de alcançar a paridade.

O "abolicionismo" não se limita a Obama. Reagan foi abolicionista nos seus tempos e discutiu a hipótese com Gorbatchov. Hoje, "realistas" como Henri Kissinger, George Shultz, William Perry e Sam Nunn, antigos responsáveis da política externa ou da defesa, reactualizaram a ideia num projecto da Hoover Institution publicado em 2007 - Um mundo livre de armas nucleares. Que dizem? A arma nuclear foi essencial para manter a segurança internacional durante a guerra fria. Acabada esta, "a doutrina da dissuasão mútua sovieto-americana tornou-se obsoleta". Com a difusão das armas e da tecnologia nucleares, a dissuasão tornou-se cada vez menos efectiva e crescentemente aleatória. Explicam: "Cabe à liderança americana conduzir o mundo para a próxima etapa - em direcção a sólido consenso para inverter a confiança nas armas nucleares, numa contribuição vital para prevenir a sua proliferação em mãos potencialmente perigosas, com o horizonte de as eliminar enquanto ameaça para o mundo".A América pode ser abolicionista porque dispõe de uma incontestada superioridade convencional, anota o especialista francês Bruno Tertrais. Mas o abolicionismo comporta um risco: para os "pequenos", a arma nuclear é um "formidável e tentador instrumento de igualização de poderio". O desaparecimento da arma nuclear - diz - só pode ser encarado após uma profunda transformação das condições de segurança internacionais.

Obama garante, naturalmente, que os EUA conservarão um arsenal "seguro e efectivo" enquanto outros possuírem a arma ou houver a ameaça disso. De outro modo, uma potência rival poderia dominar o mundo. Mais renitentes são a Rússia e a China, em desvantagem tecnológica perante os EUA, ou a França, que não quer repousar no monopólio americano, e a própria Grã-Bretanha, que não deixará à França o exclusivo nuclear europeu, observa um analista da BBC. Entre os "irregulares", o problema é maior e "vital": Índia, Paquistão ou Israel.

A única questão virtualmente consensual é a travagem da proliferação.

quarta-feira, setembro 23, 2009

O pai da psicanálise
O homem que levava os sonhos a sério
por HUGO COELHO

http://dn.sapo.pt/inicio/ciencia/interior.aspx?content_id=1369432


Sigmund Freud morreu na cama drogado e a sonhar dia 23 de Setembro de 1939. Judeu, refugiara-se em Londres do nazismo alemão "para morrer em liberdade" e rendeu-se ao cancro quando viu começar a II Guerra Mundial. Setenta anos depois, o médico que sentava os doentes no divã para lhes ouvir os segredos continua a dar que pensar

No primeiro dia de Setembro de 1939, quando o mundo entrou na II Guerra Mundial, Sigmund Freud estava em Londres às portas da morte. O velho cientista atacado pelo cancro ouviu pela rádio a notícia da invasão nazi da Polónia e o jornalista proclamar o início da "última de todas as guerras". Freud corrigiu, amargo, o erro: "Da minha última guerra." Três semanas depois, a 23 de Setembro - faz hoje 70 anos -, o médico que abriu a janela sobre o inconsciente morreu na cama, drogado e a sonhar.

O pai da psicanálise refugiara-se na capital inglesa um ano e meio antes. Depois da Alemanha de Hitler ter ocupado a Áustria, o judeu, então com 83 anos, deixou para trás o seu célebre consultório em Viena com a mulher, Marta, e a filha preferida, Ana, para "morrer em liberdade".

Freud era um ateu obcecado com morte. Além de acreditar que aquela serviu de pretexto à invenção da religião, ele encarava o fim da vida como missão digna de admiração.

Essa ideia, junto com a de que os seres humanos são dominados pelo desejo sexual, foi uma das que levaram muitos a considerá-lo um louco. Mas isso não era coisa que o pudesse deixar preocupado.

Freud nasceu em 1856 numa família judaica da Morávia e desde cedo sentiu-se um prodígio. Os pais achavam-no melhor que os irmãos e deram-lhe um quarto só para ele. Ele não desapontou. Em 1873, entrou na Universidade de Viena para estudar medicina. Não estava interessado em curar pessoas mas em compreender os mistérios da natureza - curiosidade que o levou às fronteiras da mente.

Freud criou a psicanálise quando já tinha 40 anos. Mas desde muito antes disso começou a levar os sonhos a sério. O austríaco que deitava os doentes no divã para lhes interpretar os desejos mais secretos acreditava que os sonhos - como antes a hipnose - abriam a porta do inconsciente - a parte submersa da mente, na metáfora do icebergue.

Hoje, como no seu tempo, Freud é amado por uns e desprezado por outros. Mas a sua influência é indiscutível, e ele sabia-o. Em 1909 quando desembarcou em Nova Iorque na primeira viagem aos EUA, disse ao colega Carl Jung: "Ele não sabem, mas estão a trazer a peste."

Encontrados cadáveres que podem ser da guerra de Tróia
por LusaOntem

http://dn.sapo.pt/inicio/ciencia/interior.aspx?content_id=1368940

Arqueólogos turcos encontraram os cadáveres de duas pessoas que crêem terem caído na primeira linha defensiva da mítica cidade de Tróia, destruída há mais de 3000 anos, informou hoje a imprensa turca.

Os cadáveres - um homem e uma mulher - foram encontrados a 350 metros de profundidade debaixo do castelo de Tróia, no Oeste da Turquia.

O professor Rustem Aslan, vice-chefe da equipa de arqueólogos, explicou à imprensa tratar-se da primeira vez que encontram cadáveres que pensam datar da guerra de Tróia (entre os séculos XIII e XI a.C.).

"Dentro de poucas semanas saberemos a data exacta da sua morte e as suas idades aproximadas. Aquelas pessoas foram enterradas na parte inferior da linha defensiva", acrescentou.

"Se os nossos cálculos estiverem correctos, podemos afirmar que encontrámos as primeiras vítimas da guerra de Tróia", sublinhou Aslan.

A guerra de Tróia é um dos temas centrais da "Ilíada" e da "Odisseia" de Homero.


CP.

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terça-feira, setembro 22, 2009

a sopa dos cães

Animais afectados pela crise têm "sopa dos pobres"
Quem não consegue manter os seus animais pode recorrer ao "banco alimentar" para cães, gatos, hamsters - e até um cavalo

Depois das eleições
Bordéis
Desemprego
http://jornal.publico.clix.pt/noticia/22-09-2009/animais-afectados-pela-crise-tem-sopa-dos-pobres-17863405.htm


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Há cães grandes como um labrador e pequenos como um pekinois . Há pastores-alemães, jack russel ou rafeiros. Os donos, tal como os animais, são todos diferentes: idosos, mulheres jovens, homens, famílias, grupos de punks com meias rasgadas. Uns estão desempregados, outros doentes ou sem abrigo, bastantes reformados: pessoas que, por uma razão ou por outra, ficaram sem o rendimento habitual e recorrem à Tiertafel, uma espécie de sopa dos pobres para os animais.

Na antiga escola de Treptow, uma zona de Berlim Leste bastante periférica, dezenas de pessoas esperam a sua vez com mochilas e sacos para levar ração e biscoitos, e não só para cães e gatos: o banco alimentar tem comida para pássaros, hamsters, porquinhos da Índia... "e agora até temos um cavalo", diz Mike Schäfer, um dos voluntários. Antes de receberem a comida, os donos dos animais tiveram de se registar, mostrando comprovativos de rendimento - pensões de reforma, subsídio de desemprego ou outras prestações sociais. Outra condição é que não tenham acabado de adquirir o animal.

A sopa dos pobres dos animais abriu em Berlim em Outubro de 2008, e há já outras iniciativas em várias cidades alemãs. Em Berlim são ajudados uns 800 donos com cerca de 2125 animais; a nível nacional são oito mil donos.

Cada sábado, cerca de dez voluntários estão na antiga escola para ajudar a distribuir os cerca de 900 quilos de comida que vêm de doações das empresas que produzem comida de animais - "quando vêem que o prazo está quase a acabar e já não podem vender dão-nos", explica Mike Schäfer. Também há muitas doações individuais, em comida, trelas, brinquedos, tudo e mais alguma coisa. Com a crise, muitas pessoas deixam de ter hipótese de tratar os seus animais, e cada vez mais são abandonados. A ideia da Tiertafel é que as pessoas que perderam o rendimento habitual - e passaram a contar só com os 350 euros do subsídio de desemprego - possam manter os seus animais.

Claudia, uma mulher de 50 anos que parece mais jovem sobretudo por causa do cabelo meio rasta - embora discreto, apanhado no alto da cabeça - e que prefere não dizer o apelido, está nesta posição: de um emprego normal passou a receber a ajuda do Estado para desempregados de longa duração - 350 euros, para os desempregados de curta duração o subsídio é bastante maior - e isso não é suficiente. Confessa que alimenta o seu cão com a ração que vai levar daqui e com restos de carne que os supermercados deitam fora, um dia após o fim do prazo.

Tommy Pohle, um engenheiro informático magro de óculos redondos e postura zen, conta que o trabalho que faz já não lhe dá o suficiente para si, a mulher, que entretanto ficou doente, os dois filhos, a cadela e o gato. A Tiertafel faz com que consiga manter os animais bem alimentados. "Temos ajuda do Estado, claro, mas não chega para tudo", sorri, olhando para a cadela. Foi afectado pela crise? "Bem, sem dúvida que há dois anos estava muito melhor."

Veterinário também

"Não tenho emprego e o cão tem de comer", resume Lutz Klimpel, um ou-?tro engenheiro informático de rabo de cavalo grisalho e chapéu de abas, que tenta controlar um pastor-alemão especialmente enérgico. "Ajuda muito, são 20 ou 30 euros por mês que poupo - e sem emprego é preciso poupar em tudo."

Sabine Guthke é mais jovem mas está com o mesmo problema de desemprego já há dois anos. "Antes pintava paredes mas agora não há trabalho por causa da crise", diz. "Não temos muito dinheiro para tratar dos animais" - ela tem um cão e um gato - "assim é muito bom podermos ter a comida". E há ainda um veterinário que vem de vez em quando, uma vantagem preciosa, diz Sabrine: "Mas espero não ter de vir cá sempre. Espero conseguir um trabalho depressa e poder passar a ter dinheiro para tratar deles". Mas Sabine não tem grandes expectativas de que as eleições de domingo tragam alterações. "Vou votar, mas não vai mudar grande coisa". Também o informático Klimpel diz que os partidos estão "cada vez mais iguais", e "a grande coligação vai manter-se e não vai necessariamente fazer grande coisa". Claudia gostava que "as coisas mudassem" e que houvesse uma coligação vermelho-vermelho verde (sociais-democratas, Die Linke, Verdes), a única que iria "atacar os bancos que nos puseram nesta embrulhada".

sábado, setembro 19, 2009

avier Le Roy, o maestro-bailarino vincent cavaroc
Crítica de Dança

Um rei generoso


http://jornal.publico.clix.pt/noticia/19-09-2009/um-rei-generoso-17842170.htm

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Marca centenária de uma ruptura excepcional na história da dança e da música, a Sagração da Primavera composta por Stravinksy para uma coreografia de Nijinsky, tem sido consagrada em ambos os universos artísticos com inúmeras interpretações. Neste panorama a proposta do intérprete-criador Xavier Le Roy inova e surpreende conceptualmente porque destaca a fusão de dança e música num único corpo criando a figura do maestro-bailarino.

A dois metros da plateia, sob uma luz branca incandescente, Le Roy discorre com impecável precisão e concentração uma complexa coreografia que, por um lado, conduz perfeitamente a audição da partitura, fazendo compreender o papel dos instrumentos na intricada variação de ritmos e dinâmicas e, por outro lado, exprime nitidamente sensações de vitalidade, densidade, subtileza e mistério que são qualidades conhecidas da obra obstinada e infernal de Stravinksy.

O bailarino desenvolve um vocabulário abstracto de gestos e movimentos organizados que ampliam o impacto da música no corpo que a dirige: imobiliza-se numa postura para se ver apenas o pequeno oscilar repetido de uma mão; absorve essa oscilação projectando tronco e braços em grandes linhas curvas de um lado para outro; transforma acentos de mão compulsivos (para pontuar pausas e rompantes), em pontapés e murros furiosos ou saltos leves e deleitados. Esta interpretação coreográfica, tão própria e necessária para se afirmar uma posição original do autor no contexto artístico contemporâneo é, no entanto, sempre coerente com a posição de maestro que em momento algum é abandonada.

A dança orquestradora dirige-se ao público de forma inequívoca e, com expressões faciais genuínas de comando, aprovação e cumplicidade, cheio de determinação, humor e entusiasmo, Le Roy convoca cada espectador a fazer parte do ritual. Nesta relação, surgem apontamentos dramatúrgicos que introduzem surpresas e acentuam o domínio do coreógrafo sobre a peça que criou e a sua profundidade. Acrescentando um trabalho minucioso de engenharia sonora, todos os elementos combinam para proporcionar uma sensação de acontecimento autêntico onde a música gravada parece ganhar vida naquele momento.

Uma ilusão possível, curiosa e inebriante que demonstra uma grande generosidade do autor-director cujo papel é, afinal, o de facultar uma fruição intensa da obra prima musical de referência, sublinhar a beleza sublime do encontro de movimento e som no corpo do maestro e, permitir que uma dança de emoções aconteça dentro de cada indivíduo perante a sua actuação. Uma proposta arriscada e bastante vulnerável à reacção do público durante todo o espectáculo (que se deixa ou não convencer) e, à empatia que se possa já ter ou criar ali com a peça do compositor. Termina hoje no Teatro Maria Matos em Lisboa, às 21h30.

Omar Khadr

A última criança-soldado de Guantánamo faz hoje 23 anos
http://jornal.publico.clix.pt/noticia/19-09-2009/a-ultima-criancasoldado-de-guantanamo-faz-hoje-23-anos-17842616.htm

Viveu a infância e o início da adolescência entre o Paquistão, o Canadá e temporadas em campos afegãos onde conheceu Bin Laden e brincou com os filhos dele e do seu "número dois", Ayman al-Zahawiri. Quando o pai lhe disse que era uma honra morrer mártir, respondeu que o seu paraíso seria uma piscina de gelatina. Está preso desde os 15 anos. Por Sofia Lorena


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Quando nasceu, a mãe pensou que era um milagre. Um parto santo, rápido e indolor, um bebé saudável, tranquilo. E ela não esperava por nada assim, fácil, naquela manhã em que devia ter levado o filho de 19 meses para uma cirurgia ao coração num hospital de Toronto e acabou na cama de outro hospital a dar à luz. Aquele não era mais um, tornou-se logo ali o seu favorito. O seu nome seria Omar mas ela ia tratá-lo por Yasser, qualquer coisa como "conforto" ou "alívio".

Ibrahim, o irmão que sobrevivera à operação a 19 de Setembro de 1986, só viveu mais dois anos. Omar foi durante 15 anos o "conforto" da mãe, Maha Elsamnah, dos irmãos mais velhos, Zaynab, Abdurahman e Abdullah, e de Abdul Kareem e Maryam, os mais novos dos filhos Khadr. E foi a alegria dos avós maternos e do pai, Ahmed Said Khadr. "Omar é a nossa mãe e o nosso pai, a nossa irmã e o nosso irmão. Cozinha as nossas refeições e trata da nossa roupa. Às vezes pergunto à vossa mãe, 'Tens a certeza de que ele é nosso? Ele é demasiado bom para ser nosso'", diria um dia Ahmed Said sobre o filho adolescente.

Omar nasceu há exactamente 23 anos e esta é a sétima vez que faz anos em Guantánamo. O aniversário anterior passou-o em Bagram, a prisão dos arredores de Cabul. Entretanto, ganhou centímetros, alguns quilos e barba, mas disso só sabemos pelos desenhos das comissões militares de Guantánamo e pelas descrições de advogados que o representaram e de jornalistas que assistiram a essas audiências. A fotografia mais recente do seu rosto continua a ser aquela que a família distribuiu pelos media, um rapaz de 12 ou 13 anos, cabelo curto e olhos bem abertos, sobrancelhas grossas, buço adolescente.

Os que o conheceram ao longo destes últimos anos, quase um terço da sua vida, viram-no ganhar altura, bigode e barba, mas não sabem dizer se Omar ainda é bom e terno, disponível, o ouvinte perfeito que por saber guardar segredos se tornou no melhor amigo da irmã mais velha, o anjo da guarda da família que cozinhava o prato preferido de quem estivesse triste ou preocupado. Os diferentes advogados que a custo conseguiram autorizações de visita para depois perceberem que quase tão difícil seria aproximarem-se dele, ganhar a sua confiança, temem pelo seu presente e pelo seu futuro.

Dennis Edney, um dos seus advogados canadianos, conheceu-o em 2007, quatro anos depois de ter começado a tentar lutar por ele no Canadá. No fim desse primeiro encontro, disse-lhe: "Tens de ter esperança, Omar. Sem esperança, todos morremos." Omar respondeu que não ia desistir de Edney e acrescentou: "Mas tu vais desistir de mim. Toda a gente desiste."

"Penso que ele está perdido. Não sei se o consigo trazer de volta", lamentou dias mais tarde o advogado em conversa com a jornalista Michelle Shephard, autora do livro Guantanamo's Child.

"Temo que a tua mente esteja a ficar em papa", dissera Muneer Ahmad a Omar meses antes. Ahmad foi um dos advogados americanos de Omar, os primeiros que puderam vê-lo em Guantánamo e que durante dois anos o visitaram todas as vezes que puderam e acabaram sempre essas visitas com um abraço. Esse encontro no Outono de 2006 foi o último - Omar despediu os americanos e agarrou-se à exigência de ter advogados canadianos. Ele é o único ocidental em Guantánamo e o Canadá o único país ocidental que nunca tentou a repatriação de um cidadão seu na base da baía de Cuba. Mas para Omar, Canadá continua a ser sinónimo de salvação.

Era para o Canadá que a mãe voava de cada vez que ia ter um filho, sempre que alguém estava doente ou gravemente ferido, como o pai ficou em 1992 depois de pisar uma mina ou ser atingido por uma bomba num campo de refugiados, não se sabe ao certo. E era no Canadá que Omar tinha o conforto que nunca existiu nas suas casas de Peshawar, Jalalabad, Khost, Logar ou Cabul. Os desenhos animados na televisão. A gelatina Jell-O de que tanto gostava: quando o pai, cada vez mais devoto e radicalizado, ensinou aos filhos que se morressem mártires teriam à sua espera um paraíso feito à medida dos seus gostos, Omar decidiu que o seu seria uma piscina de Jell-O.

De Otava à jihad

Quando Maha Elsamnah conheceu Ahmed Said, num campo de Verão para jovens muçulmanos no lago Erie em 1977, provavelmente contava passar o resto da sua vida no Canadá. Aquele que depressa se tornaria no seu noivo estava a formar-se em Engenharia na Universidade de Otava e foi na capital que o casal iniciou a sua vida. Os dois tinham nascido no Egipto, os dois tinham cidadania canadiana.

Mas a história da família, que acabaria conhecida como "a primeira família terrorista do Canadá" ou "família Al-Qaeda", estava apenas a começar. Nos anos seguintes, o pai seria assaltado por dúvidas crescentes sobre a sua opção profissional e sobre a escolha de viver no Ocidente. O último ano da década de 1970 foi traumático para os muçulmanos um pouco por todo o mundo, com a invasão soviética do Afeganistão a suceder-se à Revolução Islâmica no Irão. E Ahmed Said Khadr convenceu-se de que era a sua missão ajudar os mujahedin que combatiam os comunistas e aligeirar o sofrimento das viúvas e dos órfãos afegãos.

De engenheiro, Khadr passou num ápice a angariador de fundos para as vítimas afegãs, trabalhando em diferentes organizações humanitárias, viajando entre o Paquistão e o Canadá, onde dava entrevistas a alertar para a tragédia afegã e reunia fundos. Em 1985, já a família estava instalada num apartamento de Peshawar por cima da Sociedade do Crescente Vermelho Kuwaitiano. Com água corrente, mas sem electricidade, partilhando a casa de banho com os restantes inquilinos e passando, como eles, por um pátio repleto de moscas e pó para lá chegar. Não era a vida que Maha Elsamnah tinha imaginado, mas tão fervoroso era o marido face à causa que abraçara que ela, aos poucos, foi fazendo sua a causa dele e começou a ajudar em orfanatos, mesmo quando tinha de levar consigo os filhos que ainda amamentava.

Quando Omar nasceu, o novo rumo da família estava traçado. Como os outros, ele nasceu num hospital canadiano, mas o Canadá foi sempre a casa da qual tinha saudades quando estava longe. Mesmo se a ela voltava com frequência, para visitar os avós, permanecendo durante as férias ou até cerca de um ano, quando o pai foi ferido.

Se o futuro dos Khadr não estava ainda definido completamente, depressa ficou. No mesmo ano em que Omar nasceu, o pai conheceu Ayman al-Zawahiri, o "número dois" da Al-Qaeda. A amizade com o egípcio alimentou no patriarca dos Khadr o sonho de um governo islâmico e aproximou-o dos radicais que, em vez de deixarem o Paquistão e o Afeganistão depois da retirada soviética, se reinventaram reclamando para si o direito de atacar países ocidentais e de tentar derrubar os seus aliados "hereges" no Médio Oriente.

Guerra das estrelas

A família Khadr seria uma das que nunca partiram. Como todos na família, Omar terá aprendido a disparar. Mas não há registo de que tenha recebido treino militar nos campos da Al-Qaeda no Afeganistão, ao contrário dos seus dois irmãos mais velhos. Miúdos, Abdurahman e Abdullah não ficaram conhecidos nestes campos por terem especiais apetências militares, mas antes pelo hábito de discutirem e andarem à pancada até apontarem armas um ao outro e alguém intervir para os separar.

Omar também terá visitado alguns dos campos por onde os irmãos foram passando, por insistência do pai. Khalden, Deronta, Khost e até Al-Farouk, o orgulho de Bin Laden. Os rapazes até inventaram alcunhas para os campos: a Najm al-Jihad, ou "estrela da guerra santa", o complexo de Jalalabad onde Osama se instalou quando regressou de vez ao Afeganistão, os Khadr preferiam chamar Guerra das Estrelas.

Talvez porque mesmo nas montanhas ou nos desertos do Afeganistão, os Khadr, todos eles, nunca deixaram de ser conhecidos como os Al-Kanadi, os canadianos que alguns próximos de Osama consideravam demasiado ocidentais para poderem ser confiáveis. E até Ahmed Said, o mesmo que falava aos filhos do orgulho do martírio, só tarde deixou de ler a Omar As Aventuras de Tintin onde o "bom filho", como lhe chamavam os outros irmãos, se inspirava para repetidas imitações do capitão Haddock.

Como "bom filho", Omar assumiu a responsabilidade de tomar conta das mulheres da família quando os acontecimentos no Afeganistão obrigaram os Khadr a separar-se e a fugir repetidas vezes. No 11 de Setembro estavam em Cabul e dali fugiram quando as bombas americanas estavam prestes a começar a cair, três semanas depois. Na confusão, os Khadr perderam Abdurahman, que foi preso e mais tarde viria a colaborar com os EUA. Depois disso, os Khadr continuam em movimento constante, com Omar sempre perto da mãe e das irmãs, por fim refugiadas no Waziristão do Sul, terra paquistanesa junto à fronteira, e as visitas do pai cada vez mais escassas.

Pulseiras e uma granada

"Omar passava quase todo o dia a desenhar ou a fazer pulseiras e colares de contas para a mãe e a irmã pequena [Maryam]. Um dia começou a coser contas às roupas e depressa quase toda a roupa da mãe e da irmã estava adornada com os seus trabalhos. Mas Omar estava cada vez mais agitado e queria viajar com os outros rapazes e homens", descreve Michelle Shephard no seu livro. E no início do Verão de 2002, aos 15 anos, começou a fazê-lo, segundo explicou o pai à mãe desgostosa, para ajudar os seus associados árabes como intérprete, já que ao contrário destes falava pashtun.

Foi curta a experiência do "filho bom" dos Khadr nas viagens dos homens próximos da Al-Qaeda que por aquela altura se aventuravam no Afeganistão.

Omar não vê nenhum dos seus familiares desde o dia 27 de Julho em que acabou com dois buracos no peito, único sobrevivente das bombas que helicópteros Apache, caça A-10 Warthog e dois F-18 largaram sobre o edifício em que um grupo de alegados membros e apoiantes da Al-Qaeda se barricara cercado por dezenas de militares norte-americanos. Com as bombas dos F-18 o edifício por fim cedeu. Mas dos escombros ainda foi lançada uma granada que matou o soldado Christopher Speer. Como único sobrevivente, Omar foi o único acusado.

Em Fevereiro de 2008, numa das audiências pré-julgamento de Omar, um documento citando o testemunho de um militar (identificado como OC-1) que participara nessa operação foi distribuído por engano aos jornalistas. "Ele ouviu gemidos vindos da parte de trás do complexo. O pó subia e começou a desaparecer e então ele viu um homem de frente para ele deitado... Tinha uma AK-47 no chão ao lado dele e estava a mover-se. OC-1 disparou atingindo-o na cabeça e o movimento cessou. O pó voltou trazido pelos novos disparos. E quando voltou a levantar, ele viu um segundo homem sentado de frente para ele, inclinado. Este homem, depois identificado como Khadr, estava a mover-se... OC-1 disparou dois e atingiu Khadr nas costas."

Ou seja, houve dois sobreviventes ao raide aéreo e não é certo que tenha sido Omar a lançar a granada que matou Speer. Certo é que Speer morreu e que a "guerra ao terrorismo" roubou a vida de Omar desde então.

O "bom filho" acabou por pagar o preço mais alto de todos os filhos Khadr. O pai foi entretanto morto por forças paquistanesas num raide que deixou paralisado o irmão mais novo de Omar, Kareem, em Outubro de 2003. Abdullah está preso. Abdurahman vive em liberdade no Canadá, onde também estão a mãe de Omar, o irmão Kareem, a irmã Zaynab e a filha desta.

Ajudem-me, matem-me

Omar está em Guantánamo, onde se sabe que foi sujeito a períodos longos de isolamento, agrilhoado em posições de stress até urinar e o seu corpo ser usado para limpar o chão ou ameaçado de violação. O ano passado, os seus advogados canadianos conseguiram que um juiz ordenasse a divulgação do vídeo de um interrogatório que membros dos serviços secretos do Canadá lhe fizeram em 2003. São as únicas imagens de um interrogatório em Guantánamo conhecidas e as únicas de Omar desde os seus 15 anos, com excepção dos desenhos das audiências. De uniforme cor-de-laranja, Omar chora e geme, mostra as feridas que tem no estômago e nas costas e pede "Ajudem-me", mas também "Matem-me".

Ao mesmo tempo que ordenou a divulgação do vídeo, a justiça canadiana fez o mesmo em relação a outros documentos na posse das autoridades de Otava. Há um relatório em que um dos interrogadores canadianos descreve Omar como um "jovem profundamente destruído" e afirma que "todas as pessoas que estiveram em posições de autoridade sobre ele abusaram da sua confiança" - "pais e avós, os associados no Afeganistão, outros detidos no Campo Delta [um dos vários em que esteve em Guantánamo] e os militares dos EUA".

Nos anos a seguir ao interrogatório dos canadianos, em 2003 e 2004, os dois advogados americanos de Omar administraram-lhe dois testes psicológicos, cujos resultados entregaram aos psicólogos que antes tinham tentado sem resultados levar até Guantánamo. Erin Trupin, que estuda os efeitos da prisão nos adolescentes, concluiu existirem "grandes probabilidades" de que Omar sofresse de "distúrbio mental significativo, incluindo depressão e perturbações de stress pós-traumático" mas possivelmente outros, e considerou que ele tinha sintomas habituais "nas vítimas de tortura e abuso". "O impacto num adolescente que esteve isolado durante dois anos e meio é potencialmente catastrófico para o seu desenvolvimento. Consequências de longo prazo do confinamento continuado são mais pronunciadas para os adolescentes e mais difíceis de remediar, mesmo quando esse confinamento termina."

Edney, o advogado canadiano, prometeu a Omar que quando ele finalmente for libertado o vai levar para o seu retiro junto a um lago no Ocidente do Canadá. E ainda não desistiu dele. Quinta-feira estará num restaurante em Kamloops, na Colúmbia Britânica, para angariar fundos para sua defesa. E a 17 de Novembro vai estar no Supremo Tribunal canadiano para tentar obrigar o Governo de Otava a pedir finalmente a extradição de Omar, que em Guantánamo é não só o último ocidental como o último dos que ali entraram ainda crianças.

segunda-feira, setembro 14, 2009

Este invento tem 130 anos e vai desaparecer
O invento de Thomas Edison durou 130 anos, com algumas modificações. Mas vai agora ser retirado do mercado, para salvar o planeta do aquecimento global. É a despedida de uma tecnologia de sucesso. Por Ricardo Garcia


http://jornal.publico.clix.pt/noticia/14-09-2009/este-invento--tem-130-anos-e-vai-desaparecer-17782545.htm
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Trocar uma lâmpada é como piscar um olho. Nem se dá pelo gesto, de tão banal que se tornou. Agarra-se no bolbo, desenrosca-se a base e já está. Há mais de um século que se faz assim, desde que Thomas Edison popularizou a lâmpada eléctrica, no final do século XIX.

O invento de Edison, no entanto, tem os dias contados. Resistiu ao tempo, mas agora, com o mundo desesperado à procura de soluções para poupar energia, já não serve. Desde o princípio deste mês, os fabricantes já não podem pôr à venda na União Europeia as lâmpadas incandescentes mais potentes, de 100 watts (W), segundo um regulamento comunitário aprovado no ano passado. Em 2011, desaparecem das prateleiras as de 60W e no ano seguinte as de 40W e 25W.

No seu lugar, entram definitivamente as lâmpadas de baixo consumo, fluorescentes, que se enroscam e desenroscam à mesma, mas que funcionam com um princípio diferente do que o que vigorou por mais de um século. É a despedida de uma tecnologia de sucesso.

Arco voltaico

Thomas Edison ficou com a fama, mas não foi este criativo e empreendedor norte-americano, nascido em 1847, quem inventou a lâmpada eléctrica. O inglês Humphry Davy é o autor das experiências pioneiras, na primeira década de 1800, conseguindo produzir um arco luminoso entre duas hastes de carbono ligadas a baterias eléctricas.

Meio século depois, o princípio do arco voltaico foi a base da corrida à invenção de uma lâmpada que pudesse ser utilizada correntemente. O resultado mais bem sucedido foi a "vela eléctrica" de Jablochkoff, criada em 1875 e desde logo adoptada na iluminação pública. Em Portugal, seis delas abrilhantaram a celebração do aniversário de 15 anos do príncipe D. Carlos, na Cidadela de Cascais, em 28 de Setembro de 1878.

A luz eléctrica era algo completamente diferente do que antes havia - a iluminação pública a gás, ténue, poluente e perigosa. Agora, ao invés da combustão, eram outros os princípios que a produziam. "Passou-se da química para a física", afirma o professor Carlos Fiolhais, da Universidade de Coimbra.

Mas a lâmpada de arco voltaico era complexa e exigia potentes baterias para se manter acesa. Não se adequava à iluminação de pequenos espaços. Mais promissora era a lâmpada incandescente, na qual a luz emana de um filamento aquecido pela passagem da corrente eléctrica.

Muitos cientistas e inventores fizeram experiências com a lâmpada incandescente. Mas foram Thomas Edison e o físico-químico inglês Joseph Swan que chegaram, separadamente, a um modelo prático, em 1879. O principal problema era encontrar um filamento que aguentasse elevadas temperaturas por muitas horas, antes de se romper.

Edison e Swan basearam-se primeiro em fibras de carvão obtidas a partir de algodão. Funcionou, mas não era suficiente. Incansável, Edison experimentou de tudo, até fios de barba dos seus colaboradores. Encontrou por fim uma fibra de bambu com a qual criou um filamento de carbono que se aguentava por centenas de horas.

Produzir um dispositivo eficaz foi uma das razões que fizeram o nome de Edison vingar sobre os demais. Mas havia outro, quiçá mais importante. "Edison compreendeu que precisava de ter uma sistema eléctrico", diz a investigadora Maria Paula Diogo, da Universidade Nova de Lisboa e do Centro Interuniversitário da História das Ciências e da Tecnologia, ou seja, não bastava a lâmpada, era preciso também uma fonte de electricidade e uma rede de cabos para transportá-la.

Com o dinheiro da alta finança norte-americana, o inventor pôs logo em prática a sua ideia. Construiu em Nova Iorque a primeira central eléctrica dos Estados Unidos e, a partir de 4 de Setembro de 1882, passou a levar luz a um quarteirão do centro financeiro de Manhattan. No final do ano seguinte, o sistema já tinha 508 clientes e alimentava cerca de 13 mil lâmpadas. Era o início do sucesso ascendente de uma empresa de electricidade entretanto criada por Thomas Edison e que acabaria por se transformar na gigantescca General Electric.

Tecnólogo, não cientista

A inventividade e o espírito empresarial de Thomas Edison foram determinantes para o seu sucesso. Edison nem tinha formação científica. "Era um tecnólogo, não um cientista", afirma o físico Carlos Fiolhais. Chegava aos seus inventos por "engenhoquices", através do método de tentativa e erro. "Hoje isso é quase impossível", diz Fiolhais.

Mas conseguia. Registou mais de mil patentes, de inventos criados por si e pela equipa do seu laboratório ou aperfeiçoados a partir de patentes que comprava a outros inventores.

Foi rápida a aceitação da lâmpada incandescente. Em Lisboa, as lojas da Baixa já tinham luz eléctrica em 1880 - com lâmpadas incandescentes e de arco voltaico. No Teatro S. Carlos, a iluminação a gás deu lugar às novas lâmpadas em 1886.

Mais do que um luxo, a luz eléctrica mexeu com a vida quotidiana. "Passámos a ter um tempo extra", diz Maria Paula Diogo. A noite escura e perigosa deu lugar ao que ficou conhecido como a "noite técnica".

Ao longo de 130 anos, a lâmpada em si não mudou muito, salvo alguns aperfeiçoamentos tecnológicos. O filamento de carbono foi substituído por um de tungsténio, que resiste muito mais ao calor. E, ao invés do vácuo, o interior do bolbo passou a ser preenchido com gases inertes.

Mas no formato, na essência e no princípio de funcionamento, a lâmpada que agora começa a despedir-se do mercado é a mesma que Edison trouxe à luz há mais de um século. E se surgiu para suprir a necessidade de iluminar a noite, o que está a destroná-la é um motivo de ordem completamente diferente.

A lâmpada de Edison tornou-se persona non grata por causa das alterações climáticas. A União Europeia quer reduzir em 20 por cento, até 2020, as suas emissões de gases que aquecem o planeta. Para isto, quer conter em também 20 por cento o aumento do consumo eléctrico.

Este novo dado derrotou a lâmpada tradicional, um dispositivo de baixíssima eficiência. De toda a energia que consome, só cinco por cento é que se transformam em luz. O resto perde-se sobretudo em calor.

Mercado ascendente

A melhor alternativa, no momento, é a lâmpada fluorescente compacta, uma invenção também antiga, mas aperfeiçoada recentemente numa versão compacta. O seu rendimento é de 25 por cento - cinco vezes mais do que o de uma lâmpada tradicional.

Há outras soluções, como a lâmpada de hidrogénio - que não é tão económica - ou as lâmpadas de LED, que aguardam versões comerciais acessíveis. Mas, por ora, é a compacta fluorescente - as chamadas "lâmpadas económicas" ou "de baixo consumo" - que estão a conquistar o mercado.

E rapidamente. No ano passado, venderam-se 10,7 milhões de unidades em Portugal, mais 3,1 milhões do que em 2007, segundo dados da Associação Nacional para o Registo de Equipamentos Eléctricos e Electrónicos.

As incandescentes estão a seguir no sentido contrário. Desceram brutalmente desde 2007, quando as vendas atingiam 26,6 milhões de unidades. Para o ano passado, a Direcção-Geral de Energia e Geologia só possui dados para os dez meses entre Março a Dezembro, que no entanto indicam uma queda vertiginosa: 9,6 milhões de unidades.

A explicação para uma disparidade tão grande pode estar no facto de uma lâmpada fluorescente durar até 15 vezes mais do que uma incandescente. A cada substituição, são várias lâmpadas tradicionais que se deixam de comprar ao longo do ano.

Novos problemas

A lâmpada económica pode vir a ajudar a poupar energia, mas criou um problema que não existia no invento de Edison. No seu interior, existe uma pequena quantidade de mercúrio e as paredes internas dos seus tubos de vidro estão cobertas com pó de fósforo. Quando já não funcionam, não devem ser deitadas no lixo normal. Têm, antes, de ser recicladas, através de um processo complexo e caro.

As duas empresas que gerem a reciclagem de resíduos eléctricos e electrónicos em Portugal - a Amb3E e a ERP-Portugal - estão em campo e já recolhem cerca de 20 por cento das lâmpadas fluorescentes colocadas no mercado. A maior parte são as tubulares, que já há muito se utilizam em grandes espaços e nas cozinhas.

Têm surgido também preocupações sobre os efeitos das novas lâmpadas de baixo consumo sobre pessoas sensíveis a determinados tipos de luz. Duas grandes associações europeias de defesa do consumidor - a BEUC e a ANEC - querem que a Comissão Europeia "assegure que pessoas que necessitam de luz incandescente tenham a possibilidade de as comprar, até que haja alternativas adequadas no mercado", segundo um comunicado divulgado no final de Agosto.

Mas os benefícios da medida de Bruxelas estão-se a sobrepor aos seus potenciais problemas. Cerca de 85 por cento das lâmpadas instaladas nas residências europeias são ineficientes, segundo cálculos da Federação Europeia dos Produtores de Lâmpadas. Bani-las do mercado vai reduzir em 30 por cento a energia gasta na iluminação doméstica, evitando o lançamento de 23 milhões toneladas de dióxido de carbono para a atmosfera por ano - pouco mais de um quarto das emissões anuais de CO2 de Portugal inteiro.

Não há escapatória para a lâmpada de Thomas Edison. Em outros países, como o Canadá e a Austrália, ela também será retirada do mercado nos próximos anos. É o cerco fatal a um invento centenário que fez da noite o dia em cada casa, mudando para sempre a vida da sociedade. Obrigado, Edison.

terça-feira, setembro 08, 2009

Investigação
Chorar fortalece as relações entre as pessoas
http://dn.sapo.pt/inicio/ciencia/interior.aspx?content_id=1355544
Hoje


O acto de chorar resulta de anos de evolução dos seres humanos e, ao contrário do que a leitura estritamente médica defende, as lágrimas podem significar mais do que um sintoma de dor. Gerar a simpatia ou provocar misericórdia são apenas alguns dos objectivos das chamadas lágrimas emocionais que um estudo da Universidade de Telavive agora revela.

Chorar pode servir para provocar simpatia ou pena nos outros. A garantia é de um investigador israelita, que decidiu analisar a evolução do choro. Segundo Oren Hasson, biólogo e investigador na Universidade de Telavive (UTA), as lágrimas são usadas para criar relações entre as pessoas.

O especialista lembra que do ponto de vista médico o choro é apenas sinónimo de dor ou stress. Uma situação que considera redutora. Num estudo, ontem publicado na revista cientifica Science Daily, Oren explica que lágrimas resultam de anos de evolução humana e são, mais do que uma reacção física, uma arma emocional, usada para reforçar as relações humanas.

O biólogo sublinha que o acto de chorar está ligado à evolução do comportamento e adianta que com as lágrimas as pessoas procuram essencialmente provocar simpatia e misericórdia de quem os rodeia, mas também muitos outros sentimentos.

"Chorar é um comportamento altamente evoluído", defende, em declarações à Science Dail.

O israelita decidiu investigar o choro devido às reacções das pessoas que iam ao seu consultório às consultas de terapia matrimonial (ver caixa).

Percebeu que além de lágrimas de sofrimento, havia muitas de emoção. Lágrimas estas que servem para reforçar e decifrar as relações entre as pessoas: "As lágrimas dão-nos pistas e informação fiável sobre a submissão, necessidades e ligações sociais entre as pessoas. A minha investigação tenta explicar quais são as razões evolutivas para as lágrimas de emoção", refere o investigador da Universidade de Telavive.

O estudo defende que as lágrimas se dividem em três categorias, consoante revelam alegria, tristeza ou sofrimento.

Além disso, é possível, refere o biólogo, identificar a autenticidade e a sinceridade dos choros.

"A minha análise sugere que o olhar enevoado e as lágrimas baixam as defesas e são sinais fiáveis de submissão, como um grito de ajuda, como uma demonstração de ligação mútua e, num grupo, como um sinal de coesão", afirmou Hasson.

Assim, chorar pode trazer benefícios sociais e familiares, uma vez que aproxima as pessoas e pode ajudar a cimentar uma relação de amizade, amorosa ou familiar.

"As lágrimas emocionais são também um sinal de conciliação, uma necessidade de ligação em tempos de sofrimento, e uma validação das relações entre a família, amigos e membros de um grupo", esclarece ainda o investigador.

De facto, chorar é um acto de partilha, em que as pessoas se revelam mais vulneráveis e, por isso, mais facilmente se podem aproximar.

Contudo, é sempre preciso ter atenção ao contexto, alerta o investigador.

Não se pode ignorar a herança cultural de uma sociedade, onde a expressão de emoções pode ser vista como um sinal de fraqueza. Nestes casos, o acto de chorar acaba muitas vezes por ser reprimido.

E há outros casos em que as lágrimas podem não ser a melhor opção, como por exemplo as situações num contexto profissional.

"A eficácia deste comportamento evolutivo depende sempre de quem e com quem se chora esse rio de lágrimas. E provavelmente isso não será eficaz em locais como o de trabalho, onde as emoções devem ser escondidas", conclui o investigador.

Ilha de Páscoa

Chapéu das estátuas significava grandeza
http://jornal.publico.clix.pt/noticia/08-09-2009/chapeu-das-estatuas-significava-grandeza-17746879.htm

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Arqueólogos da Universidade de Manchester (Reino Unido) podem ter descoberto o significado dos chápeus que têm algumas das cerca de mil estátuas da Ilha da Páscoa. Aquela espécie de chapéu representará uma trança ou laço usados por altos chefes que lutaram por prestígio e poder, ao erguer as estátuas. Os chapéus vermelhos de material vulcânico podem ter sido acrescentados posteriormente, como símbolo de grandeza, dizem arqueólogos de Manchester.


Descoberta.
Resolvido o mistério das estátuas da ilha da Páscoa
http://dn.sapo.pt/inicio/ciencia/interior.aspx?content_id=1355571
Hoje


O significado dos chapéus encarnados permaneceu desconhecido durante anos. Dois investigadores britânicos avançam com as respostas.

O significado das estátuas da ilha da Páscoa, no oceano Pacífico, com os seus chapéus encarnados, tem sido um desafio para exploradores, antropólogos e arqueólogos ao longo dos anos. Contudo, uma equipa de investigadores britânicos acredita ter descoberto a chave do enigma.

Colin Richards, da Universidade de Manchester, e Sue Hamilton, da Universidade College London, descobriram na ilha uma estrada que serviria para transportar as rochas encarnadas vulcânicas desde a sua origem até um local, nunca antes estudado, onde a rocha era trabalhada, conta o The International Independent. Aí, encontraram um machado, que terá sido deixado como forma de oferenda, o que para os investigadores, explica o carácter sagrado das estátuas.

Os chapéus das cabeças monolíticas eram um símbolo de prestígio. Na realidade, tratam-se de nós no topo da cabeça usados pela elite dos chefes nativos que se envolviam em lutas de poder. A construção das estátuas reflectia essa competição social, que se reflectia na construção de estátuas cada vez mais altas. Os investigadores julgam que os primeiros chapéus terão sido construídos no ano de 1200 ou 1300, altura em que terá havido um aumento do tamanho das estátuas na ilha da Páscoa.

Um sapo que se pode transformar num príncipe
http://jornal.publico.clix.pt/noticia/08-09-2009/um-sapo-que-se-pode-transformar-num-principe-17746419.htm
Por Ana Gerschenfeld

E se o que até agora foi visto como uma das mais famosas fraudes científicas do início do século XX tivesse sido, na realidade, a descoberta de um fenómeno genético só agora compreendido? Um investigador chileno acaba de fazer ressuscitar seriamente essa hipótese


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A história tem os ingredientes de um thriller. Um biólogo no seu laboratório de Viena, no pós I Guerra Mundial e em plena subida do nazismo. Uma série de experiências de genética animal, cujos resultados são tão espectaculares como incompreensíveis à luz da ciência da época. Uma acusação de fraude e uma denúncia pública na revista Nature seguida, poucas semanas depois, de um suicídio nas montanhas austríacas com uma arma de fogo, que será interpretado como uma admissão de culpa. E, até hoje, um mistério que perdura: nunca se provou que Paul Kammerer (1880-1923), o protagonista da história, fosse efectivamente o autor da fraude.

O trágico fim de Kammerer e o dramático "caso do sapo-parteiro" (até o nome com que o episódio passou à História seria digno de uma investigação à la Sherlock Holmes) têm alimentado especulações ao longo das décadas. Na generalidade, considerou-se que Kammerer não passava de um cientista desonesto, disposto a cozinhar os seus resultados para provar que a teoria lamarckiana da evolução das espécies estava certa. Mas há contudo quem tenha achado, como o conhecido escritor húngaro Arthur Koestler (1905-1983), que Kammerer, um homem de ideias progressistas, foi vítima de uma cabala dos seus inimigos políticos. Num livro intitulado precisamente O Caso do Sapo-Parteiro, publicado já em 1971, Koestler defende que Kammerer tinha na Universidade de Viena inimigos empenhados em provocar a sua queda e que os seus resultados eram fidedignos. O livro é a tal ponto convincente que o próprio Stephen Jay Gould (1942-2000), grande especialista da biologia da evolução da Universidade de Harvard, escreveu na Science pouco depois da sua publicação, em 1972, que a sua leitura o tinha convencido da inocência de Kammerer. Porém, como fazia notar, não era possível ignorar que, mesmo sendo autênticos, os resultados obtidos não confirmavam de maneira alguma a teoria evolutiva favorita de Kammerer (já vamos ver qual era).

Agora, na última edição do Journal of Experimental Zoology Part B: Molecular and Developmental Evolution, Alexander Vargas, do Departamento de Biologia da Universidade do Chile, tornou a ressuscitar o caso, argumentando que não só os resultados de Kammerer eram fidedignos, como poderão ter sido os primeiros na história a pôr em evidência fenómenos ditos "epigenéticos", que apenas recentemente começaram a ser estudados. Vargas escreve: "Alguns aspectos da descrição das experiências de Kammerer com sapos-parteiros apresentam semelhanças notáveis com mecanismos epigenéticos hoje conhecidos e é muito improvável que tenham saído da imaginação de Kammerer." E mais à frente: "Paul Kammerer não seria portanto uma fraude, mas pelo contrário o verdadeiro descobridor da transmissão genética não-mendeliana, epigenética."

Da terra para a água

A maior parte dos sapos acasalam e põem os seus ovos na água. Mas não o sapo-parteiro (Alytes obstetricians), que prefere acasalar em terra firme - e cujos machos transportam os ovos amarrados à volta das suas patas traseiras até ao estádio de girinos, quando são depositados na água.

Kammerer acreditava que a evolução das espécies opera da forma seguinte: durante a vida, os animais adquirem traços físicos que lhes permitem adaptar-se ao meio ambiente e que a seguir são transmitidos à descendência. Trata-se da teoria dita "lamarckiana" da evolução, da "hereditariedade dos traços adquiridos", que hoje se encontra virtualmente descartada em favor da teoria darwinista. Para perceber a diferença radical entre as duas, um exemplo: enquanto, segundo Darwin, as girafas têm o pescoço comprido porque apenas as que têm os pescoços mais longos se conseguem alimentar de folhas de árvore e sobreviver quando as folhas de plantas rasteiras escasseiam (selecção natural), o ponto de vista lamarckiano (baptizado em honra do biólogo francês do século XVII Jean-Baptiste Lamarck) alega que as girafas tinham inicialmente um pescoço curto, mas que o seu pescoço se alongou para conseguirem comer as folhas mais altas e que o pescoço comprido foi depois transmitido às gerações seguintes.

Kammerer queria demonstrar que um traço adquirido ao longo da vida de um animal podia ser transmitido à descendência desse animal. Para isso, submeteu os seus sapos-parteiros a um ambiente seco, quente e árido, onde havia contudo um lago. E os anfíbios, que até aí tinham tido hábitos reprodutivos terrestres, passaram a viver mais na água, a acasalar e a depositar ali directamente os ovos - e os machos abandonaram o seu papel de "parteiros".

Como descreve em pormenor Vargas, apenas alguns ovos sobreviveram a este novo modo de vida (entre 3 e 5 por cento). Mas esses sobreviventes, para além de terem algumas características morfológicas diferentes dos habituais sapos-parteiros, preferiam acasalar na água mesmo em condições ambientais normais (nas quais os seus antecessores não teriam hesitado em ficar em terra) e também não voltavam a tratar dos ovos. Conclusão de Kammerer: um traço induzido pelo meio ambiente tinha passado para a descendência, mesmo que ela nunca tivesse sido exposta ao meio ambiente indutor.

O modo de vida aquático, nas experiências de Kammerer, perpetuava-se durante pelo menos seis gerações de sapos. Ainda mais espectacular, os animais machos começavam na quarta geração (ou mesmo antes) a apresentar umas protuberâncias calosas escuras nas patas e dedos dianteiros ("almofadas nupciais"), comuns durante a época de acasalamento nas espécies de sapos que acasalam na água (mas inexistentes nos sapos-parteiros), e que permitem segurar a fêmea na água, apesar da sua pele escorregadia. As características dos próprios ovos também iam mudando ao longo das gerações (diminuição da quantidade de gema e aumento da cobertura gelatinosa), bem como o tamanho das brânquias dos girinos resultantes.

Numa derradeira experiência, Kammerer cruzou sapos-parteiros "aquáticos" com sapos-parteiros "terrestres" e constatou que cerca de 75 por cento da prole híbrida eram terrestres e 25 por cento aquáticos, tal como o previam as leis da genética mendeliana (as experiências de Georg Mendel, pai da genética, já eram conhecidas naquela altura, embora há pouco tempo).

Kammerer concluiu que algo tinha mudado nos genes dos sapos, alteração que a seguir tinha entrado na linha germinal e sido transmitido aos descendentes. Os genes tinham sido mutados sob a pressão do meio ambiente e a mutação era hereditária.

Uma gota de tinta-da-china

A comunidade internacional dos geneticistas mendelianos não recebeu bem os resultados e estalou a controvérsia. Corria o ano de 1919. Uma proeminente figura de então, William Bateson, questionou mesmo a honestidade de Kammerer, em particular no que respeitava ao aparecimento das almofadas nupciais. "Em resposta", escreve ainda Vargas, "Kammerer iniciou uma tournée, mostrando especímenes dos seus 'sapos aquáticos' a todos os seus colegas que os quisessem examinar." Só que, na sequência dos estragos da guerra, só tinha subsistido um único exemplo que apresentava as ditas calosidades pigmentadas. Mas quando o especialista de anfíbios G. K. Noble, do Museu de História Natural de Nova Iorque, dissecou e analisou quimicamente a amostra de Kammerer, descobriu que... alguém tinha injectado tinta-da-china nas extremidades do animal, para tornar as calosidades mais escuras. Foi Noble que, a 7 de Agosto de 1926, revelou na Nature as suas conclusões, acusando implicitamente Kammerer de fraude. A 23 de Setembro, Kammerer punha fim à vida. A autoria da manipulação nunca foi descoberta.

Quase um século mais tarde, Vargas usa os conhecimentos científicos actuais para fazer uma nova análise do que poderá ter acontecido. Não do ponto de vista da fraude - a presença de tinta-da-china não está em causa - mas do envolvimento de Kammerer. Baseando-se no livro publicado por Kammerer em 1924, intitulado A Hereditariedade dos Traços Adquiridos, o cientista chileno constrói uma nova interpretação dos resultados das experiências com os sapos-parteiros.

Kammerer acreditava que as alterações genéticas por trás das alterações verificadas nos seus sapos tinham passado para as células germinais dos animais e daí para a sua prole. Mas, hoje em dia, sabe-se que existe, para além da genética clássica, uma genética não mendeliana, em que certos mecanismos regulam a actividade (ou expressão) dos genes sem modificar a sequência subjacente da molécula de ADN. E sabe-se que estes mecanismos, ditos "epigenéticos", podem ser transmitidos para a descendência (embora ninguém saiba se têm relevância para a evolução das espécies).

Refazer as experiências

Primeiro, a questão dos calos nupciais: na realidade eles existem, embora raramente, nos sapos-parteiros - e o mais provável, argumenta Vargas, é que alguns dos sapos das experiências de Kammerer tenham sido deste tipo. Ora, como a pressão selectiva da experiência beneficiava, na água, aqueles que possuíam essa característica, na realidade Kammerer não fez senão seleccionar ao longo de várias gerações, tal como um criador de touros selecciona os melhores reprodutores, os machos que tinham calos nupciais. Os calos não nasceram do nada: existiam num estado latente e o seu aparecimento foi induzido pelas condições experimentais, num exemplo clássico de selecção genética.

A seguir, Vargas cita vários exemplos de mecanismos epigenéticos patentes nos resultados de Kammerer e, entre eles, o facto de um gene poder estar activo, se for herdado, por exemplo, do pai, mas inactivo, se vier da mãe, porque as células sexuais masculinas e femininas não se desenvolvem em meios químicos idênticos e isso pode afectar a expressão de certos genes nestas células e produzir diferenças físicas nos descendentes, conforme herdem um dado traço do pai ou da mãe. Esta dependência do sexo do progenitor tinha, aliás, sido notada pelo próprio Kammerer nos seus resultados, que a considerava uma "complicação" incompreensível. Como explica em termos leigos um artigo dedicado ao tema na última edição da Science, "nas experiências de Kammerer, se o pai fosse um sapo 'aquático', 100 por cento da geração seguinte e 75 por cento da outra a seguir também o eram". Mas se o pai tivesse hábitos terrestres, apenas 25 por cento da segunda geração demonstrava hábitos aquáticos. "Isto apenas complicava o cenário para Kammerer", escreve Vargas, "fazendo crescer as suspeitas em torno dos seus dados (...), ao mesmo tempo não contribuindo em nada para corroborar a sua visão lamarckiana."

Para Vargas, há apenas uma maneira de resolver definitivamente o caso do sapo-parteiro. Refazer as experiências de Kammerer e ver se os resultados se confirmam - o que Vargas não duvida irá acontecer. Será que alguém vai aceitar o desafio?

domingo, setembro 06, 2009

Bardot e os "paparazzi"
actriz
00h59m
Foi um dos ícones pop do século XX. E foi por isso uma das personalidades mais fotografadas do Mundo. Uma presa fácil para os paparazzi da época, mais tolerados e mais artísticos que os de hoje.

http://jn.sapo.pt/PaginaInicial/Gente/Interior.aspx?content_id=1353973



Até 3 de Outubro, é possível ver na galeria James Hyman, em Londres, 75 imagens de Brigitte Bardot (http://jameshymangallery.com) da autoria de alguns dos mais famosos fotógrafos de celebridades nos anos 1950 e 1960.

Os fotógrafos paparazzi são actualmente sinónimo de invasão da privacidade mas, em meados do século XX, captaram o charme de estrelas como Brigitte Bardot com imagens que são hoje consideradas obras de arte.

É este o princípio da exposição "Brigitte Bardot e os primeiros paparazzi", na galeria James Hyman, em Londres, onde estão reunidas 75 fotografias que marcam "uma forma diferente de olhar para as celebridades e o início de uma nova cultura", disse o dono da galeria à Lusa. James Hyman defende que fotógrafos como Tazio Secchiaroli e Marcello Geppetti são "pioneiros de uma forma diferente de fotografia", tal como foram os precursores da fotografia do século XIX. Secchiaroli é considerado o primeiro paparazzo e foi imortalizado no filme "La dolce vita", de Frederico Fellini.

Da exposição fazem parte retratos feitos nos bastidores dos filmes, imagens na rua ou na praia e fotografias feitas em séries de estúdio.

Para Hyman, a diferença dos paparazzi daquela época é que "eram próximos e atraídos pelos objectos" e não se resumiam a ter "uma grande lente e a invadir a privacidade das pessoas".

A fotografia da altura, sublinhou, "é mais inocente e mostra o glamour" daquela época.

Exemplo disso, destacou, são as imagens de Bardot recolhidas por Patrick Morin no aeroporto de Roma, em 1961, onde a actriz francesa é rodeada de admiradores e jornalistas.

Morin foi um dos responsáveis pela fotografias de BB em biquíni, em Cannes, que ajudaram a lançar a carreira da protagonista de "E Deus criou a mulher".

Bardot, acima de tudo, "foi uma pioneira e símbolo de nova atitude das mulheres, de liberdade sexual", justifica Hyman.

Por isso, dedicou a exposição à actriz, que completa 75 anos a 28 de Setembro, mas que "ainda parece contemporânea na forma como veste e aparenta".

A exposição, que termina a 3 de Outubro, não é a primeira com imagens de paparazzi.

Em 1997, foram tema de uma exposição na galeria Robert Miller, em Nova Iorque, e estiveram em destaque outra vez em 2008, na Fundação Helmut Newton, em Berlim.

sexta-feira, setembro 04, 2009

Não se preocupem, o interesse das crianças pela nudez é normal
http://jornal.publico.clix.pt/noticia/04-09-2009/nao-se-preocupem-o-interesse--das-criancas-pela-nudez-e-normal-17718619.htm
Por Margaret Shapiro

Novo estudo quer ajudar pediatras e pais a responder a algumas dúvidas. Quais são os comportamentos normais e os que devem causar preocupação


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Os pais não se devem preocupar quando os seus filhos mais novos se tocam, parecem interessar-se pela nudez ou se sentam demasiado perto de outras pessoas, desde que estes comportamentos não ocorram muitas vezes e que as crianças possam ser levadas a pensar em outras coisas, de acordo com um recente estudo da Academia Americana de Pediatria.

Por outro lado, as crianças que de forma evidente reproduzem actos sexuais íntimos, se envolvem em brincadeiras de cariz sexual com outras de idade muito superior ou muito inferior, ou exibem comportamentos muito sexuados, podem necessitar de mais avaliação ou intervenção, de acordo com o estudo publicado esta semana na revista norte-americana Pediatrics.

O relatório completo, que inclui uma tabela de comportamentos "normais, habituais", "menos normais", "pouco habituais" e "raramente normais", está disponível no site da revista (http://aappolicy.appublications.org). Carole Jenny, directora do comité da academia sobre abuso e negligência infantil, que elaborou o documento, afirma que se trata de uma tentativa de ajudar os médicos a responder a questões colocadas por pais e encarregados de educação.

"Existem comportamentos que são claramente normais e existem outros que causam alguma preocupação", diz Carole Jenny. "A questão está em distinguir e ajudar o pediatra a perceber quais os comportamentos que são normais e quais os que necessitam de acompanhamento. Os pediatras têm pedido indicações, e isto é uma tentativa de fornecer algumas indicações."

O relatório centra-se essencialmente em crianças com idades entre os dois e os seis anos.

"Alguns comportamentos que são referidos pelos pais como sendo problemáticos podem ser normais para a criança", avança-se no estudo, e o pediatra pode "tranquilizar" os pais e "acompanhá-los nas respostas apropriadas". Por outro lado, "se os comportamentos sexuais aumentarem, se se tornarem frequentes ou incomodativos, uma avaliação e um tratamento mais aprofundados podem ser necessários".

Por exemplo, o relatório avança que é perfeitamente normal que crianças pequenas se mostrem interessadas em ver irmãos, amigos, ou mesmo adultos despidos. É também normal que crianças destas idades queiram exibir e tocar os seus corpos nus.

De acordo com o estudo, "as crianças em idade pré-escolar são por natureza curiosas e passam por períodos de grande consciência dos ambientes em que se movimentam". "A percepção das diferenças entre os géneros ocorre durante este período e contribui para os olhares curiosos e para os toques nos órgãos genitais de outras crianças. Este comportamento de curiosidade e de procura tende a ocorrer dentro do contexto de outras explorações similares mas de carácter não sexual." Em resultado disto, os pais e encarregados de educação não se devem preocupar com este comportamento, e tanto podem distrair a criança como desencorajá-la.

Por outro lado, crianças que partilham comportamentos sexuais com crianças com uma diferença etária superior a quatro anos (mais velhas ou mais novas), ou que exibem vários comportamentos sexuais todos os dias e que ficam zangadas se forem desviadas desses comportamentos encaixam-se na categoria de "raramente normais" e devem ser examinadas para se perceber o que poderá estar acontecer nas suas casas ou nos outros ambientes das suas vivências.

"Os problemas de comportamento sexual em crianças estão significativamente relacionados com a vida em casas onde existem rupturas devidas a saúde medíocre, actividades criminais ou violência", nota o relatório. "Quanto maior o número de dificuldades na vida diária, maior o número e frequência de comportamentos sexuais observados em crianças."

Entres estes dois extremos, declara Carole Jenny, existe "um razoável leque de comportamentos" que não significam problemas sexuais ou abusos, e a forma como os pais ou encarregados de educação reagem tende a depender das suas atitudes face à vida em geral. "Algumas famílias são muito mais severas com estas coisas. Varia muito de família para família."

O estudo afirma também que "a variedade e frequência de comportamentos sexuais" aumenta nas crianças até aos cinco anos e depois começa a diminuir gradualmente.

No entanto, faz notar que pode acontecer que simplesmente os pais observam mais atentamente os seus filhos até aos cinco anos e que "as crianças mais novas estão menos conscientes das intromissões no espaço pessoal e de como o seu comportamento pode ser considerado como sexual ou impróprio".