Hollywood terra de louras
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Nunca uma cor de cabelo foi tão posta ao serviço como no cinema - antes e depois do seu maior ícone, Marilyn Monroe. Liso, encaracolado, natural ou platinado, o cabelo loiro continua a estar na moda na meca do cinema.
Rui Henriques Coimbra*
16:25 Sábado, 15 de Ago de 2009
Em Hollywood, quando dizemos loiras, aquilo de que falamos é de mulheres sobre as quais temos expectativas, talvez por ser delas que vem mais luz em forma de diamantes faiscando debaixo de um lustre iluminado. O King Kong, primata que é, nunca, mas nunca se iria apaixonar por uma mulher que não fosse loira. Chamem à moça Fay, Jessica ou Naomi, pouco importa. O importante é só isto: se Hollywood precisa de um petisco inocente meio à deriva neste mundo pintado por piratas e outros malvados peludos, ponham por favor uma loira ao telefone, que estamos a precisar aqui nas filmagens de uma criatura rara, corajosa, frágil mas também forte, gata mas sobretudo anjo. Uma loira salva sempre a situação.
Em Hollywood, ter cabelo loiro é factor relevante apenas quando falamos de actrizes. Ninguém se vai incomodar a falar de loiros, embora do Robert Redford ao Brad Pitt, passando pelos Lord Jim, Lawrence d'Arábia e Peter O'Toole, quase pareça haver nisto substância suficiente para defender que o cabelo loiro, também aqui, merece uma categoria luxuosa à parte na história da caracterização, podendo mesmo passar a ser visto como típico do espírito livre e libertário, raro, incompreendido. Sensibilidade e estoicismo, tudo representado numa cabeça macha de ouro! Ideal para filmes de aventuras e heróis imbatíveis, não acham? Mas não. O loiro masculino, infelizmente, aparece apenas ligado à nobreza de carácter, ou algo assim cerebral, isto quando tal traço não é ignorado de todo. Dá ideia que, quando passa a ser preciso reduzir um ser humano a uma característica exterior, a mulher platinada do cinema é quem fica sempre com o frete. Este aqui é o maquinista benevolente, ali temos o marido angustiado, aquele é o senador corrupto, e tu... olha, toma lá, tu és a loira... Mais uma actriz a caminho do sucesso via departamento das perucas.
Se no ecrã, previsivelmente de repente, aparece uma loira, é também dela que esperamos mais entretenimento. Uma mulher loira é sempre mais inteligente do que aquilo que muita gente esperava, mas outras vezes faz rir, porque, como é típico das bonecas sem miolos, lá está ela outra vez a tentar afogar um peixe. Faz asneiras e faz pedidos sem medir as consequências, como Grace Kelly no "Janela Indiscreta", a menina da alta sociedade que visita o seu fotógrafo sem cheta como quem vai ao jardim ver o tigrezinho de estimação a dormitar só para o acordar e para fazer dele gato-sapato. Para esta loira de ar patrício que lê revistas de moda e nunca livros sérios, a vida não está cheia de perigos que magoam. Está é apinhada de emoções giras como o medo e mesmo o terror, que ela não conhecia e quer sentir, porque se sente ó tão entediada no seu mundo bem vincado de deusa superior.
Nunca uma cor de cabelo foi tão posta ao serviço de tantas ideias. Hitchcock parecia que tinha um fraco por loiras da vertente traiçoeira, dizia ele que por causa da sua inocência aparente. Delas podia vir tudo. Nunca se sabia. Não é que elas fossem todas víboras. Ou inocentes. Ou más. Ou boas. Não é que elas fossem sempre frias, mentirosas ou, simplesmente, de ficção, como a Kim Novak no "Vertigo". Não é que elas fossem isto ou aquilo, mas se o copo de leite fatal tinha de ser servido por alguém, então era uma loira que o trazia na bandeja, ela branca de cabelo branco a servir um copo branco... Dali podia vir tudo. Era uma surpresa do princípio ao fim.
Tal como uma pedra preciosa, a loira de sangue sueco (ou pelo menos herdado depois de uma ida ao cabeleireiro) representa aquilo que não existe em quantidade. Se os olhos caem nela é porque, no ecrã como na vida, ela significa o que não é comum. Selecta e exclusiva, foi transformada em utilidade pela indústria do cinema, onde uma imagem vale milhões. Dizem que o valor começou por necessidade: quando o cinema era apenas a preto e branco, foi preciso distinguir o claro do escuro.
Não havia grande escolha, sobretudo na cor do cabelo. Ou o pêlo da personagem era negro-alcatrão - ver os mauzões nos filmes do Chaplin e todas aquelas barbas cor de carvão - ou era branco obtido com amónia. Naturalmente, as actrizes mais ambiciosas optaram pela variante clara, porque sobressaía. A loira, já de si exuberante por via da raridade, passou a ser a mais notada simplesmente porque irradiava dela mais luz.
O estatuto superior tinha nascido. Mae West e Marilyn Monroe optaram pela tonalidade mais vistosa, o loiro platinado. West nem sequer falava depressa, como todas as outras espertas do cinema. Queria dar-se nas vistas, não ao incómodo. Sabia de mais e tinha vivido de mais. Loira burra é que ela não era.
Uma longa lista de loiras. Ainda hoje, a loira parece ter uma vida mais fascinante do que a morena. Não é só a Michelle Pfeiffer, sem dúvida metida numa vida fascinante que nunca ocorreria à Madeleine Stowe. É também a Gwyneth Paltrow, obviamente um poço de sofisticação comparado com a, por exemplo, Julia Roberts, que é muito mais mãe-natureza. Também no cinema, a loira parece mais versátil. Só mesmo quem nunca viu tramas de suspense pôde pensar que, no "Instinto Básico", a Jeanne Tripplehorn era a suspeita principal. Expliquem-me como, se ela nem sequer tinha a cor de cabelo adequada.
Mesmo sem contar com a Angelica Houston no "The Grifters", com a Rita Hayworth no "Dama de Xangai", com a Barbara Stanwick no "Double Indemnity" ou com a Uma Thurman no "Kill Bill", o cinema tem uma lista longa de loiras imprescindíveis. A Daryl Hannah e o Rutger Hauer, do "Blade Runner", não podiam ser senão loiros, sendo ela uma boneca robótica e ele uma criatura sublime, literalmente do outro mundo. A mesma lógica vai para metade das meninas bondosas da Disney. Sem elas não havia história. Porque a cor do cabelo já nos revela tanto quando combinada com a roupa e com a dicção, torna-se desnecessário perder tempo a explicar quem é aquela gente, que relação tem entre si, o que é que devemos pensar deles e tudo o resto que ocupa demasiado tempo no espaço atravancado de um filme.
Que interessante reparar como a cor do cabelo ficou associada ao conhecimento. Talvez porque ter cabelo russo é coisa comum a muitos bebés que nem sequer nasceram na bacia do Báltico, loiro passou a ser a cor da infância. Quanto mais loira, mais jovem. É o caso da Judy Holliday no "Born Yesterday", bom título para uma comédia cheia de inocência em que a loira, afinal, não nasceu nada ontem (dupla negativa!). Tal como a Elle Woods do "Legally Blonde" ou a Melanie Griffith do "Working Girl", a Judy Holliday, afinal, sabe umas coisas. No início é a cabeça-de-alho-chocho que o namorado gangster humilha publicamente (pudera, se a god damn gal não sabe sequer a diferença entre península e penicilina), mas adivinhem quem é que se revela toda rápida nas deduções quando chega o momento da verdade...
Por vezes, até seria aceitável presumir que o cabelo loiro tem superpoderes. Pelo menos é essa a única explicação plausível para a escolha estranhíssima que Marlon Brando fez no "Super-Homem". Nos filmes de ficção científica, as crianças malditas têm sempre cabelo loiro, sobretudo quando estão quase a ser comidas pelo monstro que vive dentro da televisão. Nos filmes do James Bond, as loiras parece que são especialistas em nadar de biquini com martinis na mão ao mesmo tempo que acoplam minas submarinas no casco de iates ancorados em Portofino.
E Brigitte Bardot, como se sabe, pôs ponto final à hipocrisia dos anos 50 quando, no "E Deus Criou a Mulher", irrompeu pelos bons costumes adentro envolta numa cabeleira loira (ver entrevista a Brigitte Bardot nas páginas seguintes). A cena do mambo não seria a mesma se ela não tivesse enlouquecido o amante com a sua juba dourada luxuriante.
No "Vertigo", a hipnose é idêntica. James Stewart encontra-se tão enamorado de uma visão que vai, ele mesmo, à drogaria comprar tinta para que a Kim Novak volte a ser a loira metalizada dos seus sonhos, prova de que até os detectives da polícia mais bonacheirões alimentam fantasias Clairol. Aquela mulher (como aliás todas as outras, da Janet Leigh do "Psycho" à Eva Marie Saint do "North by Northwest" e incluindo a Tippi Hedren de "Os Pássaros") não seria absolutamente beijável se não fosse absolutamente loira. Glaciar sim. Fria não.
Marlene Dietrich emprestou toda a sua loirice ao amigo Josef von Sternberg. No "Blonde Venus", o regalo deriva da coloratura capilar. Até o gorila, quando tira a máscara, esconde lá dentro uma mulher ariana. E não vale a pena fingir que está a delirar no meio desta orgia loira quando Frau Dietrich começa a cantar o 'Hot Voodoo' depois de adornar a cabeça com uma cabeleira afro de carapinha loura. Loiros ubber alles! É isto que encanta.
Dá vontade de começar a sentir que a magia vem toda da loira, embora nem sempre queiramos dela a mesma coisa, o que não fica mal porque a moça adora mudar de forma de cada vez que aparece. Santa ou terrorista emocional, parece que se adapta bem aos dois extremos. Não se importa que seja vista como baby, mesmo que por vezes o tom seja sujo ou sexual. Num e noutro lado, a mulher sente-se em casa e, com a eficiência do costume, já passou uma laca pelo cabelo e está toda apresentável.