"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

domingo, agosto 30, 2009

Estudo revela que reutilização de instrumentos por chimpanzés pode dar pistas sobre primeiros hominíneosHá cerca de um dia Blotuga
Arqueologia
Estudo revela que reutilização de instrumentos por chimpanzés pode dar pistas sobre primeiros hominíneos
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1398345
30.08.2009 - 11h08 Lusa
Uma investigadora portuguesa que estuda os comportamentos dos chimpanzés em habitat natural considera que a reutilização dos mesmos instrumentos por esses primatas não humanos pode dar pistas sobre as tecnologias usadas pelos primeiros hominíneos.

Num estudo publicado na revista "Animal Cognition", a primatóloga Susana Carvalho afirma que os chimpanzés têm preferências individuais pelas pedras que usam como bigornas e martelos para partir nozes, reutilizando-as sistematicamente, como provam marcas de uso muito evidentes.

"Este novo artigo resultou da continuação do trabalho realizado na Guiné-Conacri sobre a arqueologia de chimpanzés, para tentar perceber quais poderão ser os factores que estão na origem da emergência das tecnologias em humanos e não humanos", disse a investigadora à Lusa.

O interessante, salienta Susana Carvalho, foi "verificar pela primeira vez que os chimpanzés não só utilizam estas ferramentas de pedra diariamente na Guiné, mas também as reutilizam preferencialmente, ou seja, têm preferências individuais pelos seus próprios quebra-nozes".

Provam-no as marcas de uso deixadas nas ferramentas - do mesmo tipo das que se encontram nas escavações arqueológicas e são normalmente associadas à possibilidade de reutilização sistemática das mesmas ferramentas - e "uma espécie de sentimento de posse", já que não deixam os outros indivíduos utilizá-las, sublinhou.

Na perspectiva da investigadora, tratar-se-ia de "um pequeno passo evolutivo que não é visível nos registos arqueológicos, em que a emergência do sentimento de posse das ferramentas e a reutilização dos mesmos pares de ferramentas pode ter originado os primeiros eventos acidentais de produção de outras ferramentas, neste caso as lascas muitas vezes produzidas quando os chimpanzés partem nozes".

Num estudo anterior publicado na revista "Nature", a equipa internacional em que Susana Carvalho trabalha propôs o alargamento da arqueologia ao estudo das ferramentas usadas pelos primatas não humanos e a criação de uma nova disciplina dedicada à evolução nessa área.

Na óptica destes investigadores, essa nova disciplina, a Arqueologia de Primatas, é essencial para conhecer melhor as origens e evolução das tecnologias e da cultura material e a importância do uso das ferramentas na ordem primatas.

Susana Carvalho está a fazer o doutoramento na Universidade de Cambridge (Reino Unido) em Primatologia (arqueologia de chimpanzés), mas mantém a sua ligação ao Centro de Investigação de Antropologia e Saúde do Departamento de Antropologia da Universidade de Coimbra, onde a professora Eugénia Cunha é sua co-orientadora e mentora.

Como trabalho de campo para o doutoramento, acabou de chegar de uma estada de oito meses em Bossou, na República da Guiné, onde estuda a utilização das ferramentas de pedra pelos chimpanzés para partir nozes, comparando-a com as primeiras indústrias de pedra conhecidas dos primeiros hominíneos que viveram no Plio-Pleistoceno (há 2,6 milhões a 1,5 milhões de anos).

A comunidade de chimpanzés de Bossou é única no mundo, porque estes são os únicos que utilizam martelos e bigornas de pedra transportáveis, o que pode mais facilmente originar o desenvolvimento desta tecnologia rudimentar.

sábado, agosto 29, 2009

o dia a dia até aos 100 anos

"Viver até aos 100 anos não é assim tão fácil; o dia-a-dia é muito penoso"
http://jornal.publico.clix.pt/noticia/29-08-2009/viver-ate-aos-100-anos-nao-e-assim-tao--facil-o-diaadia-e-muito-penoso-17676451.htm
Por Michel Temman

No país onde o voto de amanhã deverá trazer uma mudança de regime, há um tipo de empresas que floresce: as agências que procuram emprego para seniores, como a Mystar 60

Em números

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É a dois passos da estação de comboio de Yurakucho e do bairro de negócios renovado de Marunouchi, pulmão económico da capital. Foi aí que a Mystar 60, uma agência de emprego sénior, fundada em 1990 em Osaka, instalou os seus escritórios de Tóquio. As ruas em redor são colmeias de PME (Pequenas e Médias Empresas) especializadas em serviços, tecnologias, telecomunicações, os sectores que interessam à Mystar 60.

"O nosso Japão envelhece, a idade da reforma diminuiu para os 65 anos, mas muitos homens, qualificados ou não, que não conseguem viver com a reforma, querem trabalhar. Nós ajudamo-los a reencontrar um emprego a tempo inteiro ou parcial", explica Shigeo Hirano, de 65 anos, co-fundador da agência.

Um japonês em cinco já tem mais de 65 anos, cerca de 24 milhões de indivíduos. E, em breve, um japonês em quatro (em 127 milhões de habitantes) terá cabelos brancos. Ao ritmo dos nascimentos actuais, 40 por cento da população estará a festejar os 70 anos em 2055 (em 2010 serão 20 por cento). Um pesadelo sociodemográfico, e um declínio que ao mesmo tempo era de esperar, mas que nenhum dos governos do PDL (Partido Liberal Democrata) que se sucedem há quase cinco décadas conseguiu gerir.

"O trabalho é tudo"

O PDL governa há 50 anos, mas todas as sondagens lhe antecipam uma derrota nas eleições legislativas de amanhã, face ao Partido Democrata do Japão, a principal força da oposição.

No país dos 32 mil centenários, onde a esperança de vida - graças aos chás verde e negro disponíveis para todos e a uma alimentação saudável -, se alarga apesar de já ser a maior do mundo (78 anos entre os homens e 85 para as mulheres japonesas), os fundadores da Mystar 60 sabem que têm dias felizes à sua frente.

Num Japão sobre-endividado, as políticas públicas não são suficientes. Abissal, a dívida do Estado nipónico é a mais pesada dos países industrializados (160 por cento do PIB). Os sistemas públicos de reforma - e de saúde - são muito pesados, sem esperança de reforma a médio prazo.

Daí o surgimento dos "centros de emprego" destinados a uma terceira idade desejosa de acumular pensões de reforma e trabalho para arredondar os fins do mês e manter-se activa. "No nosso país, o trabalho é tudo. É uma virtude. Ir para a reforma é visto como um trauma por muitos. Ajudamos estes antigos assalariados a não desaparecer do campo social e a reencontrar uma utilidade", explica o director do recrutamento Mystar 60.

A cada 15 de Setembro - o dia dos idosos no país -, os que têm mais de 70 e 80 anos não relaxam com os netos. Vêm antes trabalhar num escritório ou atrás de uma fila de máquinas.

"Dez meses de recessão fragilizaram os mais idosos", reconhecem na Pasona, uma outra agência de recrutamento da capital japonesa. Ali, admitem, este país não é terno com a sua terceira idade. A situação é complicada, psicologicamente, para os seniores, que não ignoram que o facto de que, ao continuarem a trabalhar, estão a privar de emprego os mais jovens.

Cerca de dois milhões de pessoas entre os 18 e os 30 anos estão sem emprego estável a tempo inteiro, segundo dados oficiais. O país tem, por outro lado, cerca de 500 mil neet, jovens sem emprego nem formação.

Templo regenerador

Sugamo, um bairro popular do noroeste de Tóquio muito tomado pela terceira idade, é um lugar onde todos os dias há multidões de velhas e velhos que vão honrar Buda nas virtudes regeneradoras do templo Kogan-ji. A maior parte das lojas e bancas é de pessoas idosas forçadas a trabalhar e a vender frutas e legumes, chás, tratamentos capilares, complementos de energia...

Os risos e sorrisos escondem um dia a dia feito de desafios.

Ichiro Nagata, de 85 anos, está no Maruji, uma loja que vende roupa interior vermelha (sinal de boa sorte). Depois de ter acumulado mil pequenos trabalhos e um emprego estável durante 20 anos, a sua reforma é mínima. "Cem mil ienes por mês [740 euros]. Com isso pago o meu alojamento, as minhas contas, o metro, comida, para isso é suficiente. E depois, sabe, eu como pouco, uma taça de arroz, fruta, um pouco de chá, fazem uma refeição", explica.

O velho homem fundou um clube de amizade e um jornal com conselhos para os que querem viver até aos 100 anos. "Viver até aos 100 anos não é assim tão fácil", suspira. "É preciso poder mas também conseguir, porque o dia-a-dia no Japão, sem meios, é muito penoso. Quando não nos queremos suicidar, é um calvário. É preciso manter o moral!" Exclusivo PÚBLICO/Libération

sexta-feira, agosto 28, 2009

DR

Marte jamais será visto da Terra como tendo o mesmo tamanho da Lua

http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1398017





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E-mails espalham o mito desde 2003
A história fantasiosa das duas luas no céu em Agosto
27.08.2009 - 17h08 PÚBLICO
Em Agosto de 2003, começou a circular um e-mail dizendo que Marte estaria tão perto da Terra que o seu tamanho, visto do nosso planeta, seria igual ao da Lua. Carlos Oliveira, professor de astrobiologia da Universidade de Austin, chama-lhe “a história fantasiosa das duas luas no céu em Agosto”.

A data de 27 de Agosto tem sido referenciada, desde 2003, como o dia em que Marte e Lua parecem ter o mesmo tamanho. Carlos Oliveira, da Universidade de Austin, é pragmático na explicação deste mito. “Alguém em perfeita consciência poderá pensar que no dia 26 Marte estaria pequeno, tal como no dia 28, e subitamente no dia 27 é que se aproximaria rapidamente da Terra tornando-se o tal “monstro” no céu?”. “Não há revoluções no Universo – tudo acontece de forma gradual”, afirma, num artigo publicado no blogue astroPT.

Por outro lado, refere o investigador, “se Marte viesse para tão perto da Terra de modo a ficar tão grande no nosso céu (quanto mais perto, maior o tamanho aparente dos objectos), as forças gravitacionais envolvidas levariam a que a vida humana na Terra se tornasse no mínimo bastante difícil.”

A explicação para o surgimento deste mito relaciona-se directamente com as órbitas dos dois planetas. “Devido às órbitas de Marte e da Terra à volta do Sol, a cada 2 anos e 2 meses (em média é a cada 780 dias), Marte encontra-se novamente mais próximo da Terra – não tão próximo como em 2003, mas no “mesmo lado da órbita” e consequentemente relativamente próximo da Terra”, afirma Carlos Oliveira.

Por isso, alerta o investigador, têm surgido nesta altura do ano, desde 2003, e-mails que divulgam a informação falsa de que Marte estará do tamanho da Lua. O que “é impossível”.

Desejo
Especialistas explicam as leis da atracção
por BRUNO ABREU
http://dn.sapo.pt/inicio/ciencia/interior.aspx?content_id=1346465
Hoje


As mulheres avaliam a atracção de uma face pelas suas características únicas, seja a cor dos olhos, a forma dos lábios ou até do queixo. Estas conclusões foram tiradas com a realização de um estudo na universidade de Penn State, nos EUA. Investigadores querem agora estudar a influência da cultura e também dos ciclos hormonais das mulheres na atracção sexual

É a forma dos lábios, do nariz, ou outra característica específica, que atrai as mulheres sexual- mente. Esta é a conclusão de um estudo de Robert G. Franklin, fi- nalista de Psicologia da Universidade de Penn State, nos Estados Unidos. Em conjunto com o professor assistente do mesmo curso Reginald Adams, Franklin descobriu que as mulheres avaliam a atracção em dois níveis: "Um nível sexual, baseado em características distintas, como o osso do maxilar, o osso malar ou os lábios, e um nível não sexual, baseado na estética global", explica o investigador. O estudo foi publicado no Journal of Experimental Social Psychology.

"No nível sexual mais básico, a atracção representa uma quali- dade que aumenta o potencial reprodutivo, como a fertilidade ou a saúde", diz. Mas na vertente não sexual, a atracção deve ser compreendida num todo, onde o cérebro julga a beleza baseada na so-ma das partes que vê. "Mas até agora este conceito (realizado como duplo processo) ainda não tinha sido testado."

Para avaliar os métodos que as mulheres usam para definir a atracção nos rostos, os psicólogos mostraram fotos a dois grupos de alunas para as avaliarem. Num segundo passo dividiram-nas e pediram o mesmo (ver caixa).

Ao dividir as faces a meio, e interrompendo o processamento facial completo das alunas, os investigadores acreditam que as mulheres dão mais importância a por- menores faciais para determinar a atracção. Eles concluem que esta via sexual entra em acção particularmente quando as participantes viam faces que eram consideradas hipotéticos encontros, mais do que companheiros de laboratório. Foi exactamente isso que o estudo demonstrou. A nível estatístico, dividir as faces a meio fez com que as mulheres se baseassem numa estratégia puramente sexual para processar as caras masculinas. O estudo verifica que estas duas maneiras de avaliar a atracção facial existem e podem ser separadas para as mulheres.

"Não sabemos se a atracção é um efeito cultural ou apenas o nosso cérebro a processar essa informação", admitiu o investigador.

"No futuro planeamos estudar como as diferenças culturais nas nossas participantes têm um papel na avaliação das caras. Também queremos ver como as mudanças hormonais durante a menstruação afectam a maneira como avaliam a atracção nestes dois níveis", termina.

Dois terços dos dadores de órgãos são presos executados
por HUGO COELHO
http://dn.sapo.pt/inicio/globo/interior.aspx?content_id=1346454&seccao=%C1sia
Hoje


Pela lei os condenados deviam assinar declaração a ceder os órgãos, depois de mortos. Mas o sistema é corrupto e as operações são um luxo dos ricos que podem ir ao mercado negro

Na China, os criminosos condenados à pena capital são executados com um tiro na nuca. Quando caem mortos são examinados por médicos que lhes medem o pulso. Depois são levados para dentro de uma ambulância que está perto. Há quem diga que é logo ali que os carniceiros começam a tirar os rins, o fígado e o coração dos cadáveres.

Um chinês apanhado no corredor da morte é na maioria das vezes um homem condenado a tornar-se num dador de órgãos, depois de morto. Segundo o jornal China Daily, os executados fornecem os órgãos para cada dois em cada três transplantes no país.

Sem confirmar os números, o ministro da Saúde adjunto, Huang Jiefu, veio reconhecer o problema e dizer que "os executados não são, definitivamente, um fonte adequada para transplantes".

A revelação, inédita, escandalizou os chineses e surge num momento em que o Governo se prepara para lançar um programa de dadores voluntários para tentar dar resposta à procura de órgãos .

De acordo com o Ministério da Saúde, perto de um milhão e meio de chineses precisa de um transplante, mas são apenas realizadas dez mil cirurgias por ano (menos de 1%).

O problema agravou-se no último ano porque o número de condenações à morte caiu a pique. Mesmo assim, em 2008, segundo a Amnistia Internacional foram executadas 1718 pessoas. O que quer dizer que a China executa mais criminosos do que todo o resto do mundo.

A escassez de órgãos alimentou a corrupção e ajudou a criar um mercado negro gigantesco. Em 2007, o Governo aprovou uma lei que proíbe o comércio de órgãos e doações a não familiares, mas não teve, praticamente, efeito.

As histórias de transplantes ilegais ou de estrangeiros que viajam para a China para fazer essas cirurgias são recorrentes na imprensa chinesa. Organizações de direitos humanos criticaram Pequim pela falta de transparência na doação de órgãos.

Oficialmente, os executados têm de assinar um declaração em como aceitam ceder os órgãos. Mas poucos acreditam que essa regra é respeitada. A percepção é que, para se fazer um transplante, é preciso ser rico.

Qian Jianmin, chefe da equipa de cirurgiões do hospital Huashan, em Xangai, confirmou ao jornal britânico The Times que muitos dos pacientes recebem órgãos de executados. O médico admitiu que o sistema está sujeito a abusos. O programa de voluntários avançará como projecto piloto em dez províncias do país. Ao mesmo tempo será criado um fundo para ajudar as famílias dos dadores.

Analistas ouvidos pela BBC garantiram que o projecto dificilmente terá sucesso por causa do preconceito cultural contra a rem

terça-feira, agosto 25, 2009

Livro está numa sala fechada à chave
“Tintim no Congo” retirado da biblioteca de Brooklyn por ser considerado racista
20.08.2009 - 12h28
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1396957&idCanal=14
Simão Martins

Uma petição dos sócios da biblioteca fez com que segundo livro das aventuras de Tintim fosse relegado para uma secção que não é de livre acesso ao público. A partir de agora, quem quiser consultar “Tintim no Congo”, terá mais dificuldade em fazê-lo do que em relação a “Mein Kampf”, de Adolf Hitler, revela o “The New York Times”.

O sócio da biblioteca que fez a reclamação queixa-se de que “o livro é racialmente ofensivo para as pessoas negras; a representação de negros que parecem macacos é ofensiva; culturalmente, já evoluímos bastante mais para além dessa representação”. Outra justificação apresentada para o perigo conteúdo subliminar das aventuras do jovem repórter foi a de que “o maior problema com Tintim é precisamente a sua cara amável e a sua vertente infantil, que é o que torna os seus conteúdos equívocos mais perigosos”.

O procedimento? Muito simples. Preenche-se um formulário, justifica-se e argumenta-se a origem da reclamação e o livro é retirado do acesso ao público. Para o consultar, é necessário preencher uma ficha e aguardar alguns dias, já que o livro se encontra numa sala fechada à chave.

Segundo o jornal americano, o livro já teve, no entanto, algumas alterações relativamente à sua edição original, de 1931. Nessa edição, refere o espanhol “ABC”, os nativos congoleses falavam uma variante de francês, o patois, “com sérias limitações linguísticas, apresentando-os como pessoas quase sem sofisticação e requinte praticamente impossível". Na versão a cores, editada posteriormente, os nativos já estavam familiarizados com a matemática e falavam mais fluentemente, o que significava uma atenuação das características apresentadas na primeira versão.

Qual é, afinal, o critério para a exclusão?
Num país em que a liberdade de expressão é um dos valores inquebráveis da sociedade, também as questões raciais levantam, frequentemente, discussões deste género. No entanto, “Mein Kampf” ("A Minha Luta", em português), de Hitler, está colocado à disposição do público para leitura. Este livro, considerado a base de toda a acção de Hitler e do nazismo, tenta provar a existência de uma raça superior a todas as outras e, por isso, perfeita (ariana).

Na prática, a queixa deste leitor da biblioteca de Brooklyn fez com que um livro cuja ideologia levou ao extermínio de milhões de judeus seja mais facilmente consultável do que “Tintim no Congo”, de Hergé. Até agora, ninguém apresentou qualquer queixa sobre o livro de Hitler, editado em 1926. A American Library Association afirma, no seu site, que não “podem excluir-se materiais e recursos mesmo que sejam considerados ofensivos para a biblioteca ou para os leitores”. E acrescenta: “a tolerância é insignificante se não houver tolerância perante o que muitos possam considerar detestável”.

Estudo
Pessoas ficam mais felizes à medida que envelhecem
http://dn.sapo.pt/inicio/ciencia/interior.aspx?content_id=1329817&seccao=Sabia que
09 Agosto 2009


Apesar das preocupações com doenças ou rendimentos, velhice tende a ser época dourada.

À medida que mais pessoas vivem até aos cem anos, é tranquilizador saber que a maioria fica mais feliz à medida que envelhece e exerce maior controlo emocional do que os jovens adultos. Esta é pelo menos a conclusão de alguns investigadores que participam na convenção anual da Associação de Psicólogos Americanos.

"A esperança de vida mudou, porque as pessoas mudaram a maneira como vivem", disse Lauren Carstensen. Apesar das preocupações com doenças ou rendimentos, a velhice tende a ser uma época dourada, dizem os especialistas, que descobriram que os idosos sabem aproveitar bem o tempo que lhes resta e aprenderam a evitar situações que os fazem sentir tristes ou com stress.

Outra investigadora, Susan Turk Charles, da Universidade da Califórnia, explicou que, salvo casos de pessoas com doenças relacionadas com a demência, a saúde mental normalmente melhora com a idade. Os idosos "evitam colocar-se em situações em que vão ser infelizes. Também tiveram mais tempo para aprender e compreender as intenções dos outros, o que os ajuda a evitar situações de stress", indicou.

Um dos conselhos é imaginar formas de gozar os anos que aí vêm e pensar em viver bem e de forma saudável até aos cem anos.

Neurologia
Olhos nos olhos para reconhecer um rosto
http://dn.sapo.pt/inicio/ciencia/interior.aspx?content_id=1324368&seccao=Sabia que
por F.N.03 Agosto 2009


O cérebro humano desenvolveu uma estratégia para reconhecer rostos, que se baseia num mínimo de elementos e num máximo de economia e de eficácia. O olhar é um elemento central dessa estratégia. É ali que o cérebro centra toda a sua atenção inicial, porque é esta a imagem que contém menos 'ruído' para o seu objectivo final: identificar de quem se trata.

Primeiro os olhos, e só depois a boca, e a seguir o nariz. Quando se trata de reconhecer o rosto de alguém, é esta a hierarquia estabelecida pelo nosso cérebro para a recolha da informação. Uma especialização, afinal, para captar o máximo de informação possível com um mínimo de elementos. Ou seja, há aí um processo de diferenciação e simultaneamente de economia de meios.

Esta é a conclusão de um estudo publicado por um grupo de investigadores da Universidade de Barcelona na revista PLos Computational Biology que pretendeu verificar, justamente, quais eram os elementos essenciais para o reconhecimento de uma cara.

Muitas questões à volta das estratégias visuais do cérebro, e dos seus circuitos neuronais, são estudadas há anos e já se se sabia, por exemplo, que o cérebro usa em primeiro lugar as chamadas frequências espaciais baixas para fazer o reconhecimento facial. Ou seja, prefere o que na imagem compõe o quadro geral, por oposição às frequências espaciais altas, que representam os detalhes.

Em consequência desta estratégia, quando nos afastamos de uma pessoa (ou quando a sua imagem se afasta de nós), a primeira coisas que perdemos de vista são os detalhes (altas frequências), permanecendo a percepção das generalidades, exactamente através das baixas frequências.

"Para identificar um rosto numa imagem, o cérebro processa a informação sempre com a mesma baixa resolução, ignorando a distância à imagem e até a própria resolução da imagem", explicou o principal autor do estudo, Matthias Keil, notando que, até agora, ninguém conseguido explicar este fenómeno da preferência do cérebro pelas baixas frequências espaciais para reconhecimento de um rosto. "Foi daí que parti", adiantou o investigador.

À chegada, o que o investigador da Universidade de Barcelona conseguiu perceber foi que o cérebro humano extrai a melhor informação (para o reconhecimento de um rosto) de uma imagem de baixa resolução de 30 por 30 pixels, o que mostra que não são exactamente os pormenores que contam.

O investigador testou também as várias "partes" do rosto como elementos de identificação e chegou à conclusão de que são os olhos que ganham aos pontos.

"As imagens dos olhos fornecem ao cérebro os dados com menor índice de 'ruído', o que significa que transmitem a informação de maior confiança para o reconhecimento de um rosto do que as imagens do nariz ou da boca", explicou o investigador. "O cérebro adaptou-se para extrair a informação mais útil de um rosto, de forma a identificá-lo rapidamente". E adaptou-se da forma mais económica e também mais eficaz, o que terá jogado um papel importante em termos evolutivos

segunda-feira, agosto 24, 2009

Livro
Cadernos de Agatha Christie ou mistério dentro do mistério
http://dn.sapo.pt/inicio/artes/interior.aspx?content_id=1343240&seccao=Livros
Ontem

73 cadernos pessoais da escritora foram reunidos num volume, onde muito pouco se revela da sua vida privada


Agatha Christie, escritora cujo nome é sinónimo de mistério, não escrevia apenas as aventuras de Miss Marple ou as investigações do detective Hercule Poirot e nem só de crime e castigo vivia o seu trabalho literário.

À margem destas obras universalmente famosas, Christie enchia de palavras pequenos cadernos, que agora foram coligidos por Laura Thompson no volume ,Agatha Christie Secret Notebooks, a ser publicado em breve.

Mas o contrário do que se poderia prever, não há neles nada de confessional. Despojados de referências à sua vida íntima ou de deambulações metafísicas os cadernos apenas adensam o mistério vida da escritora. As extensas páginas dos cadernos somente esboços dos livros, esquissos das personagens, essas sim com uma vida interior, através da qual "se pode descobrir mais sobre Agatha Christie do que nos cadernos pessoais", diz Laura Thompson.

A discrição e a aparente simplicidade da escritora, falecida em 1976, são bem conhecidas, e a sua predilecção por manter um certo secretismo à sua volta começou logo no início da sua carreira quando escrevia sob o pseudónimo de Mary Westmacott . Dar entrevistas e expor-se em eventos sociais era algo que detestava.

Contudo, a autora nem sempre conseguiu escapar à exposição social, e em 1926. tornou-se mesmo a protagonista de uma história que poderia ter sido retirada de um dos seus livros: desfeita com a morte recente da mãe e confrontada com o pedido de separação do marido, decidiu simular o seu próprio desaparecimento na esperança que este a fosse resgatar.

Porém, isso não só não aconteceu, como Agatha Christie deu origem a um misterioso caso de polícia, que ficou conhecido como "the 11 day disappearance".

Autora de mais de 90 livros, muitos adaptados ao cinema e à televisão e que são ainda hoje marcos na literatura policial, Agatha Christie foi na vida tão misteriosa como na arte.

hitler escreveu livros

Hitler escreveu e queimou livros, escreveram-se livros sobre Hitler
http://dn.sapo.pt/inicio/artes/interior.aspx?content_id=1343171&seccao=Livros
Ontem


Livros sobre, com, a propósito de Adolf Hitler foram aos milhares - o próprio escreveu uns quantos, sendo Mein Kampf (A Minha Luta) o mais célebre. Provavelmente, bem menos do que aqueles que sob o desígnio de eliminar as teorias de espírito não alemão foram queimadas sob a égide do ditador. As grandes fogueiras consumiam milhares de obras que o nazismo rotulava de lesivas da grande pátria alemã.

Braços no ar, grandes aglomerados de gente, fumo negro saído de páginas brancas, gritos de entusiasmo, um fogo vertiginoso alimentava a marcha ideológica do Nacional-Socialismo de Adolf Hitler. E tudo começou com os jovens de sangue quente, irreverentes, sequiosos.

A 6 de Abril de 1933, a secção de propaganda da Associação de Estudantes Alemães iniciava a grande marcha da "Acção contra o espírito não alemão". Os livros como símbolo de conhecimento surgiram como arma natural desta campanha nacional. "O homem alemão não será só um homem de livros, mas um homem de carácter", atirou Joseph Goebbels num discurso perante estudantes em Berlim. Numa frase, arma e ideologia unidas em euforia.

Com bandas de música, cânticos, um revolutear de vozes crescia sobre as chamas: chegavam a queimar-se aos 35 mil livros por noite - momento em que o efeito das labaredas era mais eficaz, deixava uma marca visual mais funda.

As sessões de queima de livros sucederam-se por todo o território alemão, sempre com as universidades mais vinculadas à acção contra, principalmente, o "pensamento judeu".

No entanto, com a queda do nazismo e o fim da II Guerra Mundial, os aliados acabaram por se deixar contagiar pela febre do fogo contra os livros. Em 1946, foram queimados mais de 30 mil títulos alemães, entre escolares e de ficção.

domingo, agosto 23, 2009

"No dia seguinte só havia silêncio"
http://jornal.publico.clix.pt/noticia/23-08-2009/no-dia-seguinte-so-havia-silencio-17630084.htm
Por Samuel Silva

Trinta antigos moradores regressaram à aldeia submersa pela barragem há 40 anos e assistiram à apresentação do projecto de valorização do local


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João Rodrigues aponta entre as árvores para o que resta do casario da antiga povoação. "Era aqui a famosa aldeia de Vilarinho da Furna". Foi ali que nasceu, há mais de 60 anos, na povoação encravada entre as serras do Gerês e da Amarela. Para trás, na história da aldeia, estão 40 anos de submersão nas águas da barragem que lhe tomou o nome.
O antigo morador vive hoje em Vila Verde e é um dos 30 antigos moradores que quis regressar a Vilarinho para acompanhar a apresentação do projecto NaturParque. Desde 1971 que ninguém aqui mora, depois de preparado o caminho para a subida das água do rio Homem. Mas, em ocasiões como esta, os vilarinhenses aproveitam para regressar às origens.
Especialmente a 8 de Dezembro, dia da padroeira da aldeia, Nossa Senhora da Conceição. Ano após ano, os antigos moradores continuam a aproveitar a data para se encontrarem, lembrando as velhas festas no coração da aldeia. "Íamos de porta em porta chamar os convidados", lembra João Rodrigues. A ementa era composta habitualmente por cabra com batata e arroz de miúdos. Para a sobremesa ficavam as rabanadas, feitas com pão espanhol, quando a fronteira se atravessava ilegalmente.
Os antigos moradores não perderam o contacto entre si, especialmente desde que, em 1985, criaram a associação A Furna, empenhada na preservação da aldeia comunitária. Hoje, para os que sobreviveram a quatro décadas, as memórias da vida na aldeia confundem-se com as do seu fim.
"Vem aí a presa." A frase verbalizava o receio de desaparecimento da aldeia nos anos que antecederam o enchimento da albufeira. A "presa" começou a ser uma realidade cada vez mais próxima, até que, em 1971, foi preciso meter toda a aldeia em carrinhas e tirá-la dali. A diáspora de Vilarinho espalhou-se por vários concelhos do Norte e pela emigração, mas alguns moradores ficaram a viver ali perto, na povoação vizinha de S. João do Campo.
Era lá que vivia José Maria Barreira. Filho de moradores de Vilarinho, lembra-se de ir à aldeia dos pais amiúde. "Tinha lá uma pequena e ia lá muito aos bailes de domingo", recorda. Acompanhou a mudança dos vizinhos e lembra o primeiro amanhecer da aldeia-fantasma: "No dia seguinte só havia silêncio. Houve uma voz que se apagou." Vilarinho da Furna estava logo do outro lado do rio. "Tinham rebanhos de cabras, tinham vacas e porcos, mas de repente deixámos de os ouvir. Era como se nos faltasse qualquer coisa", ilustra José Maria.
As memórias de João Rodrigues são menos dramáticas. Diz ter "amolecido lentamente" a dor da perda das raízes. Explica: "Como fui viver para Campo, vi a barragem encher lentamente. A água não me chegou logo ao pescoço, foi-me afogando lentamente."

Relatório revela que CIA simulou execuções e usou armas em interrogatórios de detidos
http://jornal.publico.clix.pt/noticia/23-08-2009/relatorio-revela-que-cia-simulou-execucoes-e-usou-armas-em-interrogatorios-de-detidos-17630588.htm
Por Ana Fonseca Pereira

Suspeito de ter orquestrado o atentado contra o USS Cole foi sujeito a práticas proibidas pela lei federal dos EUA quando esteve sob custódia dos serviços secretos americanos


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A administração norte-americana divulga amanhã um relatório, mantido anos em segredo, com detalhes do programa de interrogatórios da CIA a supostos membros da Al-Qaeda. Antecipando algumas das revelações comprometedoras, a revista Newsweek noticiou que um dos principais suspeitos à guarda da agência foi ameaçado com uma pistola e um berbequim e que os interrogadores chegaram a simular execuções para o forçar a confessar - práticas proibidas pelas leis contra a tortura.
Abd al-Rahim al-Nashiri foi capturado nos Emirados Árabes Unidos no final de 2002 e levado para uma das prisões secretas da CIA. Era acusado de orquestrar o ataque de 1999 contra o navio USS Cole, que matou 17 marinheiros em Áden, e considerado o preso mais valioso sob custódia americana à data da sua captura.
Nos quatro anos que passou à guarda dos serviços secretos - até ser transferido por ordem de George W. Bush para a prisão militar de Guantánamo, onde ainda aguarda julgamento - o saudita foi sujeito a dezenas de interrogatórios. Em 2008, foi o próprio director da agência a revelar que ele fora um dos três detidos sujeitos ao waterboarding (simulação de afogamento) - uma das "técnicas de interrogatório avançadas" autorizadas pelos peritos legais de Bush.
Mas o relatório que Washington se prepara para tornar público mostra que os interrogadores da CIA foram ainda mais longe, usando métodos criticados pela própria hierarquia.
Dois responsáveis que tiveram acesso ao documento contaram à Newsweek que, numa ocasião, Nashiri foi ameaçado com uma arma, dando-lhe a entender que seria morto se não cooperasse. Noutro interrogatório, um berbequim foi colocado junto ao seu corpo e várias vezes ligado. Noutras alturas, foram disparados tiros numa sala contígua, para lhe dar a entender que outros prisioneiros tinham sido executados.
O Washington Post - que confirmou estas informações junto de um actual e de antigo funcionários da agência - recorda que a lei federal proíbe expressamente ameaças de "morte iminente" durante os interrogatórios.
Mas o jornal recorda também que um dos peritos do Departamento de Justiça que avalizou as técnicas de interrogatório concluiu que aquele tipo de ameaças era legal, desde que "não provoque problemas mentais prolongados". A conclusão consta de um memorando escrito quatro meses antes da captura de Nashiri e que foi divulgado este ano por Barack Obama, que proibiu o uso de métodos agressivos de interrogatórios.
Redigido em 2004
O relatório - que o Post define como a "revisão mais abrangente e actual do programa secreto de interrogatórios" - foi redigido em Maio de 2004 pelo inspector-geral da agência, a pedido do então director, George Tenet. Na altura começavam a surgir dúvidas sobre o programa, iniciado pouco depois dos atentados de 2001, e que vigorou até Setembro de 2006.
Mas as conclusões do inspector foram preocupantes. Uma fonte citada pelo Post diz que no relatório "há uma secção inteira dedicada a casos em que os agentes da CIA ou os interrogadores contratados foram além daquilo que tinham sido autorizados a fazer".
Sugere-se ainda que muitas das técnicas "não foram realmente eficazes" na obtenção de informações fiáveis - um argumento usado por antigos agentes que se pronunciaram contra os interrogatórios.
O documento foi enviado ao Departamento de Justiça e aos líderes dos comités de serviços secretos do Congresso, mas, apesar das questões levantadas, foi decidido manter o programa. Seria Bush, em Setembro de 2006, a decidir o seu fim, mas mesmo assim Tenet e os seus sucessores fizeram pressão para que o documento continuasse classificado.
Contudo, em Junho, um juiz federal, a pedido a organização de defesa dos direitos cívicos American Civil Liberties Union, ordenou a publicação do relatório, que está desde então a ser revisto pelo procurador-geral Eric Holder, que poderá omitir partes por questões de segurança nacional.
As novas revelações ameaçam reacender o debate sobre a legalidade e eficácia das "técnicas de interrogatório avançadas", que responsáveis da anterior administração, encabeçados por Dick Cheney, dizem ter sido essenciais para impedir novos atentados em solo americano.

quinta-feira, agosto 20, 2009

Paleontologia
Dinossauros voadores aterravam com um salto
http://dn.sapo.pt/inicio/ciencia/interior.aspx?content_id=1340040
por SUSANA SALVADOROntem


Um conjunto de pegadas descoberto em França mostra como os pterossauros, os dinossauros voadores que viveram há 140 milhões de anos, pousavam. Segundo os paleontólogos, faziam-no de uma forma muito semelhante a algumas aves actuais, pairando para perder velocidade antes de aterrar com as duas patas. Paravam com um pequeno salto final

No meio de centenas de pegadas deixadas por dinossauros e outras criaturas do Jurássico em Crayssac, França, os paleontólogos encontraram marcas inéditas. Tropeçaram na pista de aterragem de um pterossauro, que terá pousado no local há 140 milhões de anos à procura de comida e que agora permite revelar a forma como estes dinossauros voadores aterravam. Curiosamente, descobriram que estas criaturas, que cruzaram os ares 70 milhões de anos antes das actuais aves, pousavam de forma muito parecida com algumas delas. De acordo com os paleontólogos, que publicam as suas descobertas na Proceedings of the Royal Society B, os pterossauros batiam as asas para diminuir a velocidade e parar assim que aterrassem, colocando ambas as patas traseiras ao mesmo tempo, num ângulo elevado. Depois, arrastavam por momentos os dedos antes de dar um pequeno salto final com ambos os "pés" para a frente.

"A impressão alongada das garras e a ausência de um rastro atrás deste conjunto de marcas bem preservadas indicam claramente que o animal estava a aterrar", escreveram os cientistas da Universidade de Berkeley, na Califórnia. "A pequena distância entre a primeira e a segunda marca deixada pelas patas traseiras lembra um pequeno e imediato passo, talvez um salto simultâneo com ambos os pés. Nesta altura, o animal parou e descansou os membros superiores no chão", acrescentaram, citados no The Independent.

"O padrão das marcas exclui a possibilidade de uma aterragem em corrida, como alguns patos ou aves marinhas fazem actualmente, mas apoia a ideia de que grande parte do impulso era travado ainda a voar. Concluímos que, como muitas aves, estes pterossauros usavam as suas asas para parar antes de aterrar", indicaram.

Segundo os peritos, o facto de pairarem antes de aterrar mostra um controlo sofisticado do bater das asas e uma manobrabilidade que não se pensava existir. Os paleontólogos não conseguem dizer que tipo de pterossauro deixou as marcas em França, mas acreditam que não era muito grande, já que as patas traseiras medem cerca de cinco centímetros. Alguns pterossauros chegavam a ter uma envergadura de asas de dez metros e podiam "aterrar" de outra forma.

A descoberta desta pista de aterragem não responde a todas as perguntas. Os peritos têm ainda de perceber como os pterossauros levantavam voo. "Há duas escolhas óbvias: saltar e bater as asas ou correr e bater as asas", disse o principal autor do estudo, Kevin Padian, acrescentando que ambas poderiam coexistir.

Instalação
David Byrne transformou um edifício num instrumento musical
http://dn.sapo.pt/inicio/artes/interior.aspx?content_id=1339934&seccao=M%FAsica
por NUNO GALOPIMOntem


Chama-se 'Playing The Building' e até dia 31 está patente na Roundhouse, em Londres. Literalmente, é uma casa que toca a partir de um teclado central


Ao subirmos as escadas ouvimos logo, ainda à distância, os primeiros sons. Uns são mais tensos e graves. Outros sugerem sopros mais agudos... Sons que na verdade só compreendemos quando finalmente entramos na divisão central da Roundhouse, hoje um complexo que envolve um estúdio de gravação e espaços para espectáculos (de teatro e música) em Camden, no norte de Londres. Estes sons são o resultado prático da instalação Playing The House, criada por David Byrne e que, tal e qual é pedido a quem por ali passa, desafia o visitante a "tocar a casa", como se fosse um instrumento musical.

A instalação foi originalmente criada para um espaço em Estocolmo (numa antiga fábrica, em concreto). Agora em Londres, a mesma ideia liga um órgão, com um teclado, aos elementos que constituem a estrutura da sala que a acolhe durante este mês. Cada conjunto de teclas está ligado a materiais concretos, podendo os dedos gerar sons que, literalmente, fazem "tocar" o edifício. O extremo esquerdo do teclado faz ressoar a estrutura, libertando uma trepidação grave que a envolve. Ao caminharmos para a direita do teclado passamos por uma zona ligada aos canos dos sistema de aquecimento da sala, acabando depois nos pilares em redor.

Uma sugestão é feita no chão, no centro da sala onde está o teclado: "please play" (por favor, toque). Não há quem não aceite o desafio... Os dedos começam por experimentar as teclas e os sons brotam de espaços à nossa volta. Primeiro, inevitavelmente gerando uma cacofonia sem ordem aparente numa sucessão de ressonâncias, percussões e sopros. Mas uma vez compreendida a relação entre teclado e espaço, "toca-se" finalmente a casa, desenhando percursos de som com evidente expressão física na sala que nos envolve. Um dos visitantes que ali estava naquela manhã desenhou repetidos percursos circulares, pontuando as sucessivas voltas com o ressoar dos graves mais profundos da estrutura. Dir-se-ia um admirador dos primeiros minimalistas...

Playing The Bulding explora de forma informal (e mesmo lúdica) a acústica do espaço e os sons da estrutura do edifício. No catálogo, Byrne explica a instalação como uma forma de "activar as qualidades de produção de som inerentes a todos os materiais". E reconhece a surpresa perante os resultados que gerou tanto em Estocolmo, como em Nova Iorque, onde esteve depois patente. Londres, pelos vistos não está a fugir à regra.

Tags: Artes, música

quarta-feira, agosto 19, 2009

Picasso torna-se um mito só após libertação de Paris
http://dn.sapo.pt/inicio/artes/interior.aspx?content_id=1339227&seccao=Artes Pl%E1sticas
por LusaOntem


Henry Gidel, autor de uma biografia de Picasso agora lançada, afirma que "o mito" do pintor se iniciou no final do Verão de 1944 aquando da libertação de Paris da ocupação nazi.

Segundo o autor de "Pablo Picasso", editada pelas Publicações Europa-América, "foi nessa altura que Picasso se tornou um monstro sagrado".

Até então, segundo o autor, podia passear pelas ruas e cafés de Paris que ninguém o importunaria.

Para o facto terá também contribuído a "ressuscitação" do pintor espanhol, na medida em que proibido de expor durante a ocupação nazi de Paris, refugiado na casa da amante, a imprensa ocidental dava-o como fuzilado pelo III Reich.

Segundo Gidel, Picasso "tornara-se o campeão da liberdade e o arquétipo do resistente", considerando haver "muita ingenuidade e ilusão neste ponto de vista".

Nesta biografia de 386 páginas, o autor descreve a par e passo o percurso do espanhol, "as suas bruscas mudanças de humor", referindo os diferentes encontros com artistas e intelectuais, os casos amorosos, e a sua infância em que "teve uma educação machista" e "tornou-se um paxá".

Pablo Picasso nascido na central Plaza de la Merced de Málaga em 1881 "era um anjo e um demónio" a quem as mulheres que o criaram "o acarinharam e o mimaram e cederam a todos os seus caprichos".

Segundo o biógrafo, "mesmo que isto não explique tudo, ajuda a compreender melhor o seu posterior comportamento para com as mulheres".

Gidel afirma que para as muitas mulheres que teve era "extremamente agradável, [mas] podia tornar-se de repente particularmente odioso" e até "de uma incrível grosseria".

O autor traça o percurso do genial pintor, cioso da sua independência, enquadrando-o nos acontecimentos sócio-políticos. Picasso viveu quase um século, atravessou duas guerras mundiais, por exemplo, tendo morrido em 1973 em Mougins (Sul de França).

Foi sepultado no palacete de Vauvenargues, um momento a que apenas assistiu a sua última companheira, Jacqueline, que "queria aquele morto só para ela", escreve o biógrafo, já que "proibiu a entrada aos filhos".

Ao longo da narrativa, referindo várias fontes, citando até diálogos íntimos, conversas, cartas, artigos, refere-se sempre a Pablo Picasso como "um bom espanhol".

Henry Gidel recorre muitas vezes à nacionalidade espanhola do pintor para explicar a sua complexa personalidade.

"Mas a representação das piores tristezas não impedia o artista de conservar a sua alegria, a vivacidade sorridente e o humor. Essa é uma das espantosas contradições que a alma espanhola manifesta e, nesse aspecto, Pablo é um bom espanhol", escreve o autor.

Henry Gidel, autor de várias biografias, designadamente das de Sarah Bernardt e Jean Cocteu, foi distinguido em 1991 com o Prémio Goncourt da Crítica Literária.

domingo, agosto 16, 2009

Elvis Presley
Aquele Agosto em que o rei morreu
por Rui Pedro AntunesHoje
http://dn.sapo.pt/inicio/artes/interior.aspx?content_id=1336495&seccao=M%FAsica

Há 32 anos, já fora da ribalta, Elvis Presley partiu para o seu descanso mais longo. A meio de Agosto, o 'rei do rock' morria em Graceland, a sua mansão em Memphis. Uma onda de lamentos, similar ao que recentemente aconteceu com Michael Jackson, percorreu o mundo. Portugal foi excepção

O rei morreu", anunciam os jornais. Foi um símbolo musical, marcou a sua época e agora, quando já se encontrava longe das luzes da ribalta, faleceu inesperadamente em sua casa. Nos tempos que antecederam a morte encontrava-se numa fase de decadência musical e era criticado por opções estéticas. De quem estamos a falar? Sem as fotos que acompanham estas páginas, a maioria das pessoas estaria a pensar num nome: Michael Jackson.Porém, as descrições são retiradas da morte de um outro rei, o do rock'n'roll: Elvis Presley.

A 16 de Agosto de 1977, Elvis sucumbia na sua mansão Graceland, em Memphis, alegadamente devido a um problema cardíaco. Ainda hoje há quem duvide da veracidade da sua morte, que foi confirmada logo de seguida pelo hospital local. Uma onda de lamentos nunca antes vista percorreu os Estados Unidos e estendeu-se até a grande parte do mundo ocidental. As linhas telefónicas da cidade onde Elvis vivia ficaram entupidas, as floristas esgotaram o stock e os fãs foram-se concentrando às centenas à porta de sua casa.

"O que aconteceu na altura com o Elvis foi muito similar ao que aconteceu com agora com o Michael Jackson", garante o cantor e compositor Tozé Brito. Portugal foi, no entanto, uma excepção. Mesmo os músicos, como explica Tozé Brito, quase ignoraram o sucedido vendo Elvis apenas "como alguém que tinha sido famoso nos anos 50" e não como uma referência. Apesar de hoje ser uma lenda, "o Elvis na altura tinha sido completamente ultrapassado pela música dos Beatles, os Stones, os Beach Boys e o Simon Garfunkel". Estas sim as verdadeiras referências para os músicos portugueses que como Tozé Brito iniciavam a carreira na década de 70.

Por outro lado, como lembra o compositor português, "ninguém percebia o que se estava a passar com ele antes da morte, também ela estranha". Os contornos que envolvem a sua morte, variam conforme os autores das biografias, porém há factos comuns. Consta, que na noite anterior à sua morte, Elvis foi ao dentista às 23.00, tendo depois regressado a casa. De seguida, terá jogado ténis e tocado piano até ás cinco da madrugada, hora em que foi dormir. Ao acordar terá ido à casa de banho, de onde só saiu já sem vida. As circunstâncias são, no mínimo, estranhas.

Elvis está morto?

Para alguns fãs e amantes da conspiração, a morte de Elvis há 32 anos não passou de um embuste. A expressão "Elvis is not dead"(Elvis não está morto) foi vulgarizada e são vários os filmes de ficção científica em que, perante a presença de extraterrestes, há humanos a apelar: "Devolvam-nos o Elvis". Este último apelo remete para a teoria de que Elvis foi raptado por seres de outro planeta.

Da lenda vieram outros mitos como o facto de Elvis ter fugido por ter sido ameaçado de morte pela máfia ou ter sido visto no dia seguinte à sua morte na Argentina, onde tinha uma mansão. Existem até sociedades, as Elvis Sighting Societies, composta por crentes que se dedicam a recolher "provas" de que o rei do rock'n'roll está vivo.

Porém, a versão oficial - atestada pelo certificado de óbito - coloca esta teoria num nível conspirativo similar aos seguidores do movimento Paul is dead, que acreditam que Paul McCartney terá morrido num acidente em 1966 e que um sósia assumiu a sua identidade.

Brilhatina e "bobo da corte"

Quando Elvis morreu estava longe do seu auge de fama, que havia atingido nos anos 50. Porém, o "rei do rock'n'roll" ou Elvis, the Pelvis, como ficou conhecido devido à sua forma de dançar, foi sem sombra de dúvida um dos maiores ícones da música do século XX. Os especialistas da época diziam que Elvis conseguia atingir notas musicais, a que raramente um cantor popular conseguia chegar.

A sua aventura musical começou em 1953, onde gravou alguns temas num estúdio em Memphis. Porém, foi em 1954, enquanto cantarolava descontraidamente That's All Right, Mama, que Elvis chamou a atenção de Sam Phillis, produtor musical que o lançaria. Este momento é considerado o "grau zero do rock". Estava lançado o rock'n'roll. Seguiram-se anos dourados para Elvis com êxitos como Hound Dog, Love me Tende, All Shook up, Surrender, Burning Love, My Boy ou Moody Blue.

Com passagens pelo exército (o que foi aproveitado comercialmente), êxitos musicais, idas ao programa de Frank Sinatra e a entrada em Hollywood, onde fez filmes como Flaming Star, dirigido por Don Siegel ou Viva Las Vegas, Elvis tornou-se uma figura mundialmente famosa.

"Até a meio da década de 60 aguentou-se na crista da onda, depois não se soube adaptar como Sinatra e Tony Bennett e passou de moda", conta Tozé Brito. Em 1967, Elvis ainda surpreendeu com o gospel How Great Thou Art, premiado com um grammy, mas a partir daí começou a decadência. Nos anos 70, continuou a participar em programas televisivos e a sua importância fez com que chegasse a encontrar-se com Nixon na Casa Branca. Porém, o mundo da música, como explica Tozé Brito, via Elvis como "um símbolo kitsh, tinha 30 quilos a mais e insistia em vestir as mesmas roupas e usar brilhantina. Foi fatal. Passou de estrela a bobo da corte."

Nos anos que antecederam a sua morte, o artista de Memphis ainda daria brilhantes espectáculos, chegando um crítico do New York Times a escrever "Presley melhora cada vez mais a sua voz, atingindo excelentes notas vocais. Ele ainda é o rei nos palcos". Porém, no dia da sua morte, Elvis estava longe da ribalta.

Brigitte Bardot prefere os animais aos seres humanos
http://aeiou.expresso.pt/brigitte-bardot-prefere-os-animais-aos-seres-humanos=f530781

A antiga actriz Brigitte Bardot confessa ao Expresso que é infeliz e que detesta as cidades, os prédios e a vida urbana.

BB nos seus tempos de "sex-symbol"
Sam Lévin/Ministère de la Culture/Médiathèque du Patrimoine
Brigitte Bardot, a actriz que foi um dos maiores ícones eróticos do cinema, hoje com 74 anos e afastada de tudo e todos, não esconde o seu desencanto com o estado do mundo e a civilização.

Em entrevista ao Expresso, à qual respondeu por escrito, pelo seu próprio punho (recusa-se a entrevistas formais e rejeita ser fotografada), e depois pelo telefone, BB, como também ficou conhecida, diz que "a Humanidade está desumanizada e em decadência" e que detesta "as cidades, o betão, os prédios, os elevadores".

"As pessoas empanturram-se, ficam doentes, é horrível. Há demasiados obesos, gordos porcalhões, morreremos por comer em demasia", afirma a antiga sex-symbol

sábado, agosto 15, 2009

Hollywood terra de louras
http://aeiou.expresso.pt/hollywood-terra-de-louras=f530984

Nunca uma cor de cabelo foi tão posta ao serviço como no cinema - antes e depois do seu maior ícone, Marilyn Monroe. Liso, encaracolado, natural ou platinado, o cabelo loiro continua a estar na moda na meca do cinema.

Rui Henriques Coimbra*
16:25 Sábado, 15 de Ago de 2009

Em Hollywood, quando dizemos loiras, aquilo de que falamos é de mulheres sobre as quais temos expectativas, talvez por ser delas que vem mais luz em forma de diamantes faiscando debaixo de um lustre iluminado. O King Kong, primata que é, nunca, mas nunca se iria apaixonar por uma mulher que não fosse loira. Chamem à moça Fay, Jessica ou Naomi, pouco importa. O importante é só isto: se Hollywood precisa de um petisco inocente meio à deriva neste mundo pintado por piratas e outros malvados peludos, ponham por favor uma loira ao telefone, que estamos a precisar aqui nas filmagens de uma criatura rara, corajosa, frágil mas também forte, gata mas sobretudo anjo. Uma loira salva sempre a situação.

Em Hollywood, ter cabelo loiro é factor relevante apenas quando falamos de actrizes. Ninguém se vai incomodar a falar de loiros, embora do Robert Redford ao Brad Pitt, passando pelos Lord Jim, Lawrence d'Arábia e Peter O'Toole, quase pareça haver nisto substância suficiente para defender que o cabelo loiro, também aqui, merece uma categoria luxuosa à parte na história da caracterização, podendo mesmo passar a ser visto como típico do espírito livre e libertário, raro, incompreendido. Sensibilidade e estoicismo, tudo representado numa cabeça macha de ouro! Ideal para filmes de aventuras e heróis imbatíveis, não acham? Mas não. O loiro masculino, infelizmente, aparece apenas ligado à nobreza de carácter, ou algo assim cerebral, isto quando tal traço não é ignorado de todo. Dá ideia que, quando passa a ser preciso reduzir um ser humano a uma característica exterior, a mulher platinada do cinema é quem fica sempre com o frete. Este aqui é o maquinista benevolente, ali temos o marido angustiado, aquele é o senador corrupto, e tu... olha, toma lá, tu és a loira... Mais uma actriz a caminho do sucesso via departamento das perucas.

Se no ecrã, previsivelmente de repente, aparece uma loira, é também dela que esperamos mais entretenimento. Uma mulher loira é sempre mais inteligente do que aquilo que muita gente esperava, mas outras vezes faz rir, porque, como é típico das bonecas sem miolos, lá está ela outra vez a tentar afogar um peixe. Faz asneiras e faz pedidos sem medir as consequências, como Grace Kelly no "Janela Indiscreta", a menina da alta sociedade que visita o seu fotógrafo sem cheta como quem vai ao jardim ver o tigrezinho de estimação a dormitar só para o acordar e para fazer dele gato-sapato. Para esta loira de ar patrício que lê revistas de moda e nunca livros sérios, a vida não está cheia de perigos que magoam. Está é apinhada de emoções giras como o medo e mesmo o terror, que ela não conhecia e quer sentir, porque se sente ó tão entediada no seu mundo bem vincado de deusa superior.

Nunca uma cor de cabelo foi tão posta ao serviço de tantas ideias. Hitchcock parecia que tinha um fraco por loiras da vertente traiçoeira, dizia ele que por causa da sua inocência aparente. Delas podia vir tudo. Nunca se sabia. Não é que elas fossem todas víboras. Ou inocentes. Ou más. Ou boas. Não é que elas fossem sempre frias, mentirosas ou, simplesmente, de ficção, como a Kim Novak no "Vertigo". Não é que elas fossem isto ou aquilo, mas se o copo de leite fatal tinha de ser servido por alguém, então era uma loira que o trazia na bandeja, ela branca de cabelo branco a servir um copo branco... Dali podia vir tudo. Era uma surpresa do princípio ao fim.

Tal como uma pedra preciosa, a loira de sangue sueco (ou pelo menos herdado depois de uma ida ao cabeleireiro) representa aquilo que não existe em quantidade. Se os olhos caem nela é porque, no ecrã como na vida, ela significa o que não é comum. Selecta e exclusiva, foi transformada em utilidade pela indústria do cinema, onde uma imagem vale milhões. Dizem que o valor começou por necessidade: quando o cinema era apenas a preto e branco, foi preciso distinguir o claro do escuro.

Não havia grande escolha, sobretudo na cor do cabelo. Ou o pêlo da personagem era negro-alcatrão - ver os mauzões nos filmes do Chaplin e todas aquelas barbas cor de carvão - ou era branco obtido com amónia. Naturalmente, as actrizes mais ambiciosas optaram pela variante clara, porque sobressaía. A loira, já de si exuberante por via da raridade, passou a ser a mais notada simplesmente porque irradiava dela mais luz.

O estatuto superior tinha nascido. Mae West e Marilyn Monroe optaram pela tonalidade mais vistosa, o loiro platinado. West nem sequer falava depressa, como todas as outras espertas do cinema. Queria dar-se nas vistas, não ao incómodo. Sabia de mais e tinha vivido de mais. Loira burra é que ela não era.

Uma longa lista de loiras. Ainda hoje, a loira parece ter uma vida mais fascinante do que a morena. Não é só a Michelle Pfeiffer, sem dúvida metida numa vida fascinante que nunca ocorreria à Madeleine Stowe. É também a Gwyneth Paltrow, obviamente um poço de sofisticação comparado com a, por exemplo, Julia Roberts, que é muito mais mãe-natureza. Também no cinema, a loira parece mais versátil. Só mesmo quem nunca viu tramas de suspense pôde pensar que, no "Instinto Básico", a Jeanne Tripplehorn era a suspeita principal. Expliquem-me como, se ela nem sequer tinha a cor de cabelo adequada.

Mesmo sem contar com a Angelica Houston no "The Grifters", com a Rita Hayworth no "Dama de Xangai", com a Barbara Stanwick no "Double Indemnity" ou com a Uma Thurman no "Kill Bill", o cinema tem uma lista longa de loiras imprescindíveis. A Daryl Hannah e o Rutger Hauer, do "Blade Runner", não podiam ser senão loiros, sendo ela uma boneca robótica e ele uma criatura sublime, literalmente do outro mundo. A mesma lógica vai para metade das meninas bondosas da Disney. Sem elas não havia história. Porque a cor do cabelo já nos revela tanto quando combinada com a roupa e com a dicção, torna-se desnecessário perder tempo a explicar quem é aquela gente, que relação tem entre si, o que é que devemos pensar deles e tudo o resto que ocupa demasiado tempo no espaço atravancado de um filme.

Que interessante reparar como a cor do cabelo ficou associada ao conhecimento. Talvez porque ter cabelo russo é coisa comum a muitos bebés que nem sequer nasceram na bacia do Báltico, loiro passou a ser a cor da infância. Quanto mais loira, mais jovem. É o caso da Judy Holliday no "Born Yesterday", bom título para uma comédia cheia de inocência em que a loira, afinal, não nasceu nada ontem (dupla negativa!). Tal como a Elle Woods do "Legally Blonde" ou a Melanie Griffith do "Working Girl", a Judy Holliday, afinal, sabe umas coisas. No início é a cabeça-de-alho-chocho que o namorado gangster humilha publicamente (pudera, se a god damn gal não sabe sequer a diferença entre península e penicilina), mas adivinhem quem é que se revela toda rápida nas deduções quando chega o momento da verdade...

Por vezes, até seria aceitável presumir que o cabelo loiro tem superpoderes. Pelo menos é essa a única explicação plausível para a escolha estranhíssima que Marlon Brando fez no "Super-Homem". Nos filmes de ficção científica, as crianças malditas têm sempre cabelo loiro, sobretudo quando estão quase a ser comidas pelo monstro que vive dentro da televisão. Nos filmes do James Bond, as loiras parece que são especialistas em nadar de biquini com martinis na mão ao mesmo tempo que acoplam minas submarinas no casco de iates ancorados em Portofino.

E Brigitte Bardot, como se sabe, pôs ponto final à hipocrisia dos anos 50 quando, no "E Deus Criou a Mulher", irrompeu pelos bons costumes adentro envolta numa cabeleira loira (ver entrevista a Brigitte Bardot nas páginas seguintes). A cena do mambo não seria a mesma se ela não tivesse enlouquecido o amante com a sua juba dourada luxuriante.

No "Vertigo", a hipnose é idêntica. James Stewart encontra-se tão enamorado de uma visão que vai, ele mesmo, à drogaria comprar tinta para que a Kim Novak volte a ser a loira metalizada dos seus sonhos, prova de que até os detectives da polícia mais bonacheirões alimentam fantasias Clairol. Aquela mulher (como aliás todas as outras, da Janet Leigh do "Psycho" à Eva Marie Saint do "North by Northwest" e incluindo a Tippi Hedren de "Os Pássaros") não seria absolutamente beijável se não fosse absolutamente loira. Glaciar sim. Fria não.

Marlene Dietrich emprestou toda a sua loirice ao amigo Josef von Sternberg. No "Blonde Venus", o regalo deriva da coloratura capilar. Até o gorila, quando tira a máscara, esconde lá dentro uma mulher ariana. E não vale a pena fingir que está a delirar no meio desta orgia loira quando Frau Dietrich começa a cantar o 'Hot Voodoo' depois de adornar a cabeça com uma cabeleira afro de carapinha loura. Loiros ubber alles! É isto que encanta.

Dá vontade de começar a sentir que a magia vem toda da loira, embora nem sempre queiramos dela a mesma coisa, o que não fica mal porque a moça adora mudar de forma de cada vez que aparece. Santa ou terrorista emocional, parece que se adapta bem aos dois extremos. Não se importa que seja vista como baby, mesmo que por vezes o tom seja sujo ou sexual. Num e noutro lado, a mulher sente-se em casa e, com a eficiência do costume, já passou uma laca pelo cabelo e está toda apresentável.

Expressões faciais também se perdem na tradução
http://dn.sapo.pt/inicio/ciencia/interior.aspx?content_id=1335737
por PATRÍCIA JESUSHoje



Distinguir uma expressão facial de medo de uma de surpresa, ou uma cara de nojo de uma de ira, é mais complicado para os asiáticos do que para os ocidentais, argumenta um estudo da Universidade de Glasgow. Os investigadores contestam a noção de que as expressões faciais são universais e explicam porquê num artigo publicado esta semana.


A alegria, a tristeza e o medo são sentimentos universais, mas a forma como se reflectem na nossa cara, e como nós os percebemos nas expressão dos outros, não. Pelo menos segundo investigadores da Universidade de Glasgow, na Escócia. Um estudo publicado esta semana contesta a noção de que as expressões faciais são universais e defende que a maneira como as interpretamos é condicionada pela nossa cultura.

Segundo esta investigação, publicada na revista Current Biology, uma cara de nojo não é vista da mesma forma por um ocidental e por um asiático, por exemplo. Os asiáticos, em maior grau do que os ocidentais, tendem a ver nojo numa cara que realmente mostra ira. Ou surpresa numa expressão de medo.

E a diferença não está na expressão em si, mas na forma como olhamos. Rachael Jack, co-autora do estudo, explica que os indivíduos de diferentes culturas tendem a observar partes distintas da cara para interpretar uma expressão: os asiáticos concentram-se sobretudo nos olhos do interlocutor, enquanto os ocidentais olham para o conjunto da cara, incluindo a boca.

Assim, as pessoas da Ásia oriental têm maior dificuldade em distinguir expressões, dizem os investigadores, porque "a região dos olhos é mais ambígua" e dá informação mais confusa.

A experiência consistiu em mostrar a 13 ocidentais e a 13 asiáticos imagens de rostos com expressões faciais que indicavam: felicidade, tristeza, surpresa, medo, nojo, ira ou uma indiferença ou neutralidade. Monitorizando o movimento dos olhos dos participantes foi possível determinar para onde é que eles olhavam, o que permitiu analisar as diferenças entre os membros de um grupo e do outro. E concluir que enquanto os ocidentais tentam abarcar toda a cara, os asiáticos se concentram nos olhos. O estudo sugere ainda que estas diferença são um reflexo de outra característica cultural: os asiáticos usam mais os olhos para comunicar emoções.

Curiosamente, um programa de computador em que foi inserida a informação recolhida pelos olhos dos participantes asiáticos também não conseguiu distinguir entre o nojo e a ira, nem entre o medo e a surpresa. O que leva os investigadores a afirmar que esta não é a melhor estratégia.

Por outro lado, Rachael Jack considera que, quando têm dúvidas, os asiáticos tendem a escolher a emoção socialmente mais confortável - "surpresa, em vez de medo, por exemplo" - e que isso realça as diferenças culturais no que toca à "aceitação social das emoções" . Ou seja, as expressão faciais também precisam de tradução.