"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

domingo, março 30, 2008

Famosos não escapam à epidemia de dengue
http://dn.sapo.pt/2008/03/30/internacional/famosos_escapam_a_epidemia_dengue.html
SÉRGIO BARRETO MOTTA, Rio de Janeiro

Um apresentador e duas actrizes da Globo foram picados pelo mosquito
A epidemia de dengue que assola o Rio de Janeiro e cidades próximas fez mais uma vítima famosa: a actriz Grazi Massafera, da TV Globo, que está no ar como a Florinda, da novela Desejo Proibido. Assessores informam que a actriz - considerada uma musa sexual no Brasil - está melhor e será novamente examinada hoje, devendo receber alta. Também foram atingidos pela dengue outros dois artistas da TV Globo: o apresentador Luciano Huck e a actriz Solange Couto, que interpretou a Dona Jura na novela O Clone, há uns anos.

Não houve vítimas mortais entre os artistas. No entanto, entre a população, os dados oficiais deste ano indicam 54 mortos no estado do Rio de Janeiro, dos quais 34 na capital. E, o que é pior, o próprio ministro da Saúde, José Gomes Temporão, acredita ter havido subnotificação, ou seja, falta de comunicação oficial e, assim, o número de mortos, só este ano, poderia superar as cem pessoas no estado e mais de 60 na capital.

O ministro Temporão - que nasceu em Portugal e emigrou para o Brasil com um ano de idade - está a ser muito criticado, juntamente com o governador do Rio, Sérgio Cabral e o prefeito da capital, César Maia. Os três estão a ser considerados culpados pela crise de dengue que afecta a imagem da cidade e do país em todo o mundo e traz insegurança.

As forças armadas instalaram três hospitais no Rio - um da Marinha, outro de Força Aérea e um terceiro do Exército - mas nenhum deles atenderá directamente ao público - pois isso gera tumulto excessivo. Esses hospitais receberão doentes já diagnosticados e enviados por hospitais municipais e estaduais. No total, 1700 homens das Forças Armadas ajudarão a combater a dengue, principalmente espalhando insecticida em focos de expansão do mosquito Aedes aegypti, como poças, restos de chuva e canteiros mal cuidados.

Enquanto isso, uma juíza acaba de tomar decisão radical. Patrícia Cogliatti de Carvalho, da 35.ª Vara Cível determinou que, face à falta de vagas nos hospitais da rede pública, doentes de dengue deverão ser recebidos na rede particular e a conta deverá ser paga pelo Governo federal, através do Sistema Único de Saúde. Mesmo antes disso, o Ministério da Saúde já havia destinado 210 camas da rede particular para uso por pessoas carentes, sem qualquer custo.

As autoridades estão agora preocupadas com a possibilidade da entrada do vírus da dengue tipo 4 no país (como o que existe na Colômbia ou Venezuela), mas para o qual os brasileiros estão menos imunes, podendo causar uma epidemia pior da que actualmente se vive no Rio.

quinta-feira, março 27, 2008

Jordi Mestre/EIA

Os primeiros europeus viveram na Península Ibérica há mais de um milhão de anos
26.03.2008 - 19h20 Ana Gerschenfeld
Há mais de um milhão de anos, numa gruta na Serra de Atapuerca, no Norte de Espanha, vivia um grupo de homens e mulheres primitivos. Tinham muita comida, pois, naqueles tempos, o clima era bastante ameno e húmido na Península Ibérica, e sabiam fabricar ferramentas de pedra muito simples, que lhes permitiam cortar a carne e os ossos dos animais que caçavam. Tinham provavelmente vindo do Médio Oriente através do Cáucaso, na fronteira entre a Europa e a Ásia.

Juan Luis Arsuaga, co-director do projecto de investigação de Atapuerca, deu o nome de Homo antecessor a esta espécie de homem primitivo – e especula que eles foram os antepassados comuns à nossa espécie (Homo sapiens) e aos Neandertais.

Na Europa, terão dado origem aos Neandertais (ramo que “secou” há 28 mil anos), enquanto em África acabariam por desembocar no homem moderno, que mais tarde sairia do seu “berço” africano e conquistaria o mundo. Um belo relato, que embora seja compatível com os diversos restos fósseis que se conhecem, ainda não foi totalmente confirmado.

Mas o que parece confirmar-se é que esses primeiros homens chegaram até à extremidade ocidental da Europa bastante mais cedo do que se pensava. Até aqui, os achados provenientes de Atapuerca, uma zona em escavação há 30 anos, apontavam para uma primeira instalação humana há cerca de 800 mil anos. Mas agora, a descoberta de novos fósseis obrigou a rever a cronologia.

Hominíneos e hominídeos

O artigo publicado amanhã na revista Nature por Eudald Carbonell, Arsuaga e os seus colegas do Centro Nacional de Pesquisa da Evolução Humana de Burgos e do Instituto Catalão de Paleoecologia Humana e Evolução Social de Tarragona, tem um título tão simples quanto contundente: “O primeiro hominíneo de Europa” (os hominíneos são uma sub-família dos hominídeos). Claro que os investigadores não excluem que, no futuro, a data dessa primeira migração possa ainda vir a recuar mais.

Mas, tanto quanto sabem, o maxilar inferior humano descoberto em 2007 na antiga gruta de Sima del Elefante – e que vai ser apresentado publicamente amanhã, por volta do meio-dia, em Burgos – faz deste local particular de Atapuerca “o mais antigo e o mais precisamente datado registo de ocupação humana na Europa”. Sima del Elefante encontra-se a uns escassos duzentos metros da jazida de Gran Dolina, onde, em 1994, foram descobertos os primeiros fósseis de Homo antecessor (os tais com 800 mil anos de idade).

Três tipos de datação

Os investigadores espanhóis não olharam a meios para confirmar a idade do maxilar. Utilizaram técnicas “baseadas no paleomagnetismo, bioestratigrafia e nuclidos cosmogénicos”, escrevem na Nature.

O estudo do paleomagnetismo permite fazer a datação a partir das variações, ao longo do tempo, do campo magnético terrestre, que fica “registado” nos minerais magnéticos contidos nos sedimentos. A bioestratigrafia permite estudar a fauna enterrada nos sedimentos e fossilizada ao mesmo tempo que os restos humanos (os cientistas analisaram os ossos de pequenos roedores contemporâneos dos homens que ali viveram).

Quanto aos nuclidos cosmogénicos, trata-se de determinar as proporções de diversos elementos radioactivos (alumínio e berílio, neste caso), produzidos em partículas de quartzo que na altura se encontravam perto da superfície por interacção com os raios cósmicos vindos do espaço.

Como esses grãos de quartzo foram a seguir soterrados, deixaram de ser bombardeados pelos raios cósmicos – e a degradação radioactiva dos dois elementos referidos deu-se a partir daí com uma precisão literalmente atómica, constituindo um verdadeiro “cronómetro geológico” (expressão dos autores).

Todas as técnicas de datação são convergentes e colocam a idade do maxilar em um milhão e duzentos mil anos (mais ou menos 160 mil).

A morfologia do maxilar, dizem os investigadores em comunicado, “é primitiva e faz lembrar a de fósseis africanos do Pleistoceno inferior [1,8 milhões a 800 mil anos atrás]”. Mas também apresenta “muitas semelhanças com os maxilares encontrados em Dmanisi” (no Cáucaso, que datam de há 1,7 milhões de anos). Ou seja, tudo indica que, naquela altura, uma nova espécie (Homo antecessor) terá surgido no extremo mais ocidental da Europa.

quarta-feira, março 26, 2008

Hillary Clinton corrige história de aterragem sob fogo inimigo
http://jornal.publico.clix.pt/
26.03.2008, Rita Siza, Washington


A candidata saiu penalizada da tentativa de explorar o seu papel como primeira dama, que a levou à Bósnia em 1996. Onde a esperavam flores em vez de balas


A candidata à nomeação democrata, Hillary Clinton, admitiu ontem ter-se "equivocado" na descrição que fez da sua aterragem numa base militar da Bósnia-Herzegovina em 1996, sob fogo inimigo, e corrigiu o seu relato, garantindo que, apesar de não ter havido tiros, os serviços secretos a tinham alertado para essa possibilidade.
Foi a propósito do recrudescimento da violência no Iraque que Hillary lembrou como não recuara perante o perigo e as dificuldades do desempenho do seu cargo de primeira dama. "Lembro-me de como aterrámos [na Bósnia] sob o fogo dos franco-atiradores. Até era suposto haver uma pequena cerimónia no aeroporto, mas em vez disso tivemos de correr para os automóveis com as cabeças baixas e sair dali o mais rapidamente possível", contou.
A "retractação" da candidata surgiu depois de as televisões norte-americanas terem recuperado os vídeos da chegada da antiga primeira dama ao aeroporto militar de Tuzla: em vez da chuva de tiros que Hillary sugerira ao recordar a experiência, as imagens de arquivo mostravam a actual candidata (e a sua filha Chelsea, então adolescente) a caminhar calmamente pela pista, onde recebeu o cumprimento de crianças, ouviu uma leitura de poemas e foi agraciada com ramos de flores.
Confrontada pela imprensa, Hillary Clinton desculpou-se pelo "lapso", dizendo ter-se "enganado" e explicando que "quando se fala de tantos temas diferentes e quando se dizem milhares de palavras por dia é natural que haja alguns equívocos". "Sou humana e cometo alguns erros. Para algumas pessoas isso parece ser uma grande revelação", desdramatizou.
A campanha de Barack Obama reagiu imediatamente ao caso sublinhando que este foi mais um exemplo da tendência de Hillary Clinton para "exagerar o papel que desempenhou na definição das políticas domésticas e internacionais". O comunicado distribuído pela candidatura de Obama incluia um link às imagens da chegada de Hillary Clinton a Tuzla, que estão disponíveis no YouTube.
Um porta-voz do candidato assinalou as aparentes contradições entre o que Hillary Clinton diz ter feito e os registos desses acontecimentos - numa referência à recente divulgação de mais de onze mil páginas da sua agenda enquanto primeira dama, e que não permitem confirmar o papel que Hillary diz ter desempenhado em casos como a negociação da abertura das fronteiras da Macedónia aos refugiados do Kosovo ou durante o processo de paz da Irlanda do Norte.

Hillary Clinton pediu desculpa aos eleitores e disse ter-se equivocado: "Sou humana e cometo alguns erros", disse

domingo, março 23, 2008

Se abraão vivesse agora

'SE ABRAÃO VIVESSE AGORA TERIA PASSAPORTE IRAQUIANO'
http://dn.sapo.pt/2008/03/23/centrais/se_abraao_vivesse_agora_teria_passap.html

ISABEL LUCAS
Livro. Bruce Feiler viu uma torre cair. Estava à janela do seu apartamento no 16.º andar de Manhathan. Foi a 11 de Setembro de 2001. Quis entender as raízes do ódio inter-religioso, viajou e chegou a uma figura unificadora. 'Abraão, o Pai das Três Religiões' chega agora a Portugal. O DN foi ouvir representantes religiosos
"É possível que Abraão nunca tivesse sequer existido, que seja uma figura mítica, mas é uma figura modelar. Se fosse do nosso tempo teria passaporte iraquiano, tal como a Adão ou Eva e Bush provavelmente não pensou nisso quando declarou guerra ao Islão." As palavras são do padre católico Anselmo Borges e são uma reacção ao modo como "a religião tem sido aproveitado para justificar decisões políticas", esquecendo que têm uma origem comum: Abraão, o fundador do monoteísmo. "A religião devia ser uma coisa óptima mas ao corromper-se dá o péssimo. Os grandes conflitos não surgem por motivos religiosos. São consequência de estratégias políticas, económicas e o religioso aparece como uma legitimação estratégica. Isso é blasfemo, é contradizer a essência do religioso de que Abraão, com a sua entrega, é uma metáfora. A religião tem andado tão mal tratada e podia ser o grande motor de expansão humana..."

As palavras de Anselmo Borges são uma resposta à questão essencial levantada pelo livro de Bruce Feiler e que não é outra senão a de tentar perceber se em Abraão não poderá estar a solução para a os conflitos religiosos que dividem as civilizações.

Tudo começou na manhã de 11 de Setembro. O jornalista norte-americano Bruce Feiler recebeu uma chamada telefónica do irmão e correu à janela do seu apartamento num 16º andar de um prédio em Manhathan e assistiu ao desfazer em cinzas de uma das torres gémeas. "Creio que o 11 de Setembro será visto como uma data decisiva na história das religiões", declarou Feiler numa entrevista após a publicação deste Abraão, O Pai das Três Religiões, obra que originou forte discussão nos Estados Unidos e chega a Portugal com a chancela da Ministério dos Livros.

O livro nasce da tentativa do autor responder às questões que o mundo judaico-cristão, e os americanos em particular, então se colocaram: Qual a razão para tanto ódio? Poderiam as religiões estar a chegar ao fim perante aquele choque civilizacional que pôs em confronto o mundo islâmico com o judaico-cristão? Seria o princípio do fim? Em todas as conversas de rua, debates televisivos, palestras que se seguiram ao choque, Feiler encontrou um nome que se repetia. Abraão, fundador das três religiões monoteístas: Judaísmo, Cristianismo, Islamismo. "Ele é o pai - em muitos casos o pai biológico - de 12 milhões de judeus, dois biliões de cristãos e um bilião de muçulmanos em todo o mundo. E agora, é virtualmente um desconhecido". Feiler quis conhecer esse homem, rumou ao Médio Oriente, e, como ele mesmo disse, tentou responder à questão. "Pode Abraão salvar o mundo?"

A pergunta foi feita a representantes em Portugal das três religiões monoteístas ou abraâmicas, como também são designadas. A saber: o rabino Eliezer di Martino, o padre Anselmo Borges e o Sheikh David Munir. Fundador comum, Abraão e os diversos modos como a sua figura é interpretada, divide ou ainda une as três religiões? "Une", resposta unânime dada ao DN . "Se nós, as três religiões, quebrarmos o preconceito, haverá maior união", declara o representante dos muçulmanos em Portugal. E o preconceito tem a ver mais uma vez com essa figura fundadora, no caso, com a sua descendência. Ele foi pai de dois filhos: Isaac, que nasceu da sua mulher legítima, e Ismael, fruto de uma relação que teve com uma escrava. Foram os profetas que se lhe seguiram, primeiros de muitos até chegar a Jesus. Maomé, o grande profeta do Islão, a seguir a Abraão, foi o único a descender de Ismael.

Seria o início da divisão? "Não deveria ser. Ou já não deve ser, como refere o Sheikh Munir. "No século XXI já não há desculpas para o preconceito." Para este líder espiritual, "tudo depende do modo como cada um faz a leitura da própria religião". Referindo-se ao modo como em todas crenças a "fé tem sido manipulada", Munir justifica desta forma a existência de bombistas suicidas que, como o fizeram tantas outras figuras na história da Humanidade, subvertem a mensagem deixada por Abraão e que não é mais do que o respeito pelo outro e pela vida. "É preciso entender a situação precária em que muitos desses suicidas vivem, conhecer o seu perfil e o modo como são usados por quem quer apenas "criar o terror".

"Quando se aceita o Islão como código de vida, significa aceitar o outro", acrescenta. E se há religião em que Abraão está bem vivo é no Islão, garante este homem que recorre ao Alcorão para traçar o perfil do primeiro de todos os profetas de um Deus único. "Abraão é o vosso pai." Ele é o submisso o que, traduzido à letra, quer dizer nada mais do que muslim (muçulmano, em inglês).

"Não vemos as religiões alheias como erro que precisa de emenda nem sofremos a pressão dos outros povos na procura ao verdadeiro Deus. Não particamos o proselitismo, a conversão, como faz, por exemplo, o Cristianismo", declara, por sua vez, o rabino di Martino, representante espiritual máximo em Portugal do Judaísmo, a mais antiga das três religiões de um só Deus. É ele quem diz: "A divisão religiosa e os conflitos que ela gera não têm que ver com a teologia mas com a aplicação prática dos valores morais. A diferença está nas sociedades que estas três religiões construíram. O Islamismo, por exemplo, não vê a existência do Estado separado da religião e isso explica muita coisa."

E Abraão une? "A figura de Abraão pode aproximar se houver consciência de que foi ele que nos levou ao monoteísmo e que as três religiões deviam pôr de lado as diferenças práticas da teologia na sociedade. Os valores éticos e morais são comum a todas. Eles estão em Abraão."|

"Páscoa era festa da Lua 12 séculos antes de Cristo"
http://dn.sapo.pt/2008/03/23/sociedade/pascoa_festa_lua_seculos_antes_crist.htmlCARLA AGUIAR
Moisés Espírito Santo, ANTROPÓLOGO
O que é a Páscoa?

Desde o século XII antes de Cristo, a Páscoa é uma festa da Primavera, a festa da primeira lua cheia a seguir ao equinócio de dia 21. Mas a Páscoa cristã já vem da Páscoa judaica . É um exemplo de continuidade no calendário festivo. No século XII, o ano começava agora com o equinócio da Primavera, ligado à lua, que era uma divindade neste período no Médio Oriente. Os hebreus pediam aos patrões para festejarem o seu Deus nesse dia. Foi nesse contexto que se deu a fuga dos judeus para a Palestina. Passou a ser a data judaica.

Jesus já festejava a Páscoa e a "última ceia" seria, justamente, a celebração da Páscoa. Como se explica que agora celebremos a Páscoa para assinalar a ressurreição de Cristo?

Explica-se pela ideia de continuidade na celebração. No século V, a Igreja católica estabeleceu que a Páscoa se celebraria sempre no domingo a seguir à Páscoa judaica, uma guerra de igrejas e uma certa xenofobia...

E os rituais?

É preciso ter em conta que era uma festa campestre. Sendo a festa da lua e concebendo-se que era a lua que regulava a natureza, a procriação animal e humana, a lua é o símbolo exacto da renovação da vida. E o renascimento de Jesus Cristo encaixa-se perfeitamente na ideia de renovação da vida. Esta celebração também teve grande prestígio pelo facto de estar ligada à Primavera.

Como aparecem os ovos e os cordeiros?

Sendo uma festa de pastores, estes aproveitavam para tosquiar as ovelhas. Os cordeiros surgem, naturalmente, associados ao sacrifício à lua. Ainda hoje, no Minho, por exemplo, o anho é obrigatório. Já os ovos simbolizam a renovação, a vida, a célula fundamental da existência humana.

Tem havido alterações substanciais ao longo dos tempos na forma como a Páscoa é celebrada?

Não houve alterações muito significativas. Antigamente, e ainda hoje em algumas aldeias do Minho, a Igreja fazia o chamado compasso, levando Cristo na cruz, de porta em porta, para ser beijado pela população. Hoje, esse ritual deixou de ser compatível com as rotinas da nova sociedade, que já não vive em aldeias.

O simbolismo da Páscoa é mais forte que o do Natal?

O Natal é, desde logo, menos antigo. Para além de que Jesus nem sequer nasceu em Dezembro. Foi noutra data e depois houve aí hesitações da Igreja. A Páscoa vem da natureza, tem um cunho mais forte. Para consolidar a fé cristã, a Páscoa é mais forte.

Como é hoje a celebração pelas várias igrejas ?

Hoje a celebração é basicamente ligada à gastronomia, tanto nos católicos como nos protestantes, para quem se trata da festa mais importante do ano.

Árabes fascinados por concurso Poeta dos Milhões
http://jornal.publico.clix.pt/
23.03.2008, Maria João Guimarães


Poesia declamada torna-se "mais popular que o futebol". Parte da cultura árabe de séculos, especialmente
dos beduínos, já chegou
aos toques de telemóvel


As luzes são fluorescentes, o cenário é colorido, há música em alto volume, e a audiência interrompe para aplaudir quando se entusiasma. No final, os concorrentes ouvem um veredicto do júri, e o público que não está presente pode votar por SMS no seu favorito. O vencedor ganha um prémio milionário.
Parece um normal concurso de talentos, mas tem diferenças relativamente a programas como Ídolos: a audiência está separada por sexos (nas imagens no YouTube, só se vê a parte masculina) e o júri não humilha os concorrentes, antes faz uma avaliação que chega a ser pedagógica. Isto para além do tema: os concorrentes não cantam nem dançam, declamam poesia.
O Poeta dos Milhões é um programa de uma estação de televisão de Abu Dhabi que está a ter uma atenção inusitada e um sucesso pelo mundo árabe que tem atraído concorrentes de locais desde o Iémen à Mauritânia.
Todas as terças-feiras, conta um artigo no diário britânico The Times, cerca de 70 milhões de telespectadores por todo o mundo árabe vêem os concorrentes recitar poesia tradicional. Escrevem no estúdio e competem por um prémio de um milhão de dirhams (mais de 176 mil euros).
Quem não viu a emissão ao vivo pode ver vídeos no YouTube (para quem não fala árabe, pode procurar por Million"s Poet). E há também toques de telemóvel com frases ditas pelos concorrentes.
Ressuscitar a poesia nabati
A produtora Nasha alRuwaini explicou ao diário britânico que a ideia surgiu de uma encomenda do príncipe de Abu Dhabi, Mohammad bin Zayed Al Nahyan, para ressuscitar a poesia nabati na televisão.
Este tipo de poesia é diferente da clássica ou erudita; usa um árabe mais coloquial e é tradicionalmente de expressão oral, uma arte nas tribos nómadas beduínas desde o século IV, servindo para elogiar a tribo, fixando a sua história ou para transmitir conselhos ou notícias. Muitos dos concorrentes vêm de tribos beduínas de zonas pobres.
A primeira edição já terminou, a segunda vai a meio. Cerca de sete mil pessoas - incluindo algumas mulheres - candidataram-se à participação no programa na primeira edição. Foram seleccionados 48, que puderam declamar os seus poemas ao vivo. Estes são de tema livre, na primeira parte do programa que tem um total de duas horas. Na segunda parte, há um tema dado pelo júri - já foram propostos tópicos como camelos, café ou o respeito pelos pais.
O júri avalia a qualidade dos poemas tendo em conta vários critérios. Um dos membros do júri, o poeta Salman al Amimi, explica, citado no diário americano Providence Journal: pelo tema, linguagem, mestria, imaginário e pela performance do recitar.
Inicialmente as críticas tiveram a ver com o ambiente em que era dita a poesia - as luzes, o barulho, a cor. "Disseram que isto se parecia com uma discoteca", lembra a produtora.
Agora, há quem critique o programa por algum tribalismo que pode encorajar, e há quem objecte a alguns tópicos - já houve poemas inspirados em divórcios, na guerra no Iraque ("A América vem e faz guerra contra os meus vizinhos e eu perdoo"), ou nos ordenados baixos na Arábia Saudita ("Precisamos de dinheiro, não podemos beber petróleo").
"A poesia é uma grande parte da cultura árabe", explicou a produtora ao jornal americano. "No Golfo, é indispensável a um verdadeiro homem", garante. "Pegámos nessa tradição e misturámo-la com os media modernos. Agora todos pensam: "Uau! A poesia é cool.""
"Este programa tem estado a ter mais audiência do que o futebol. Mais do que o futebol - conseguem imaginar isso?", espantava-se um concorrente de 33 anos da Arábia Saudita, Mahdi al-Wayli, citado pelo Times.
Distinções nacionais
E qualquer distinção é motivo de honra: no Iémen, o concorrente iemenita Abdulrahman Al-Ahdal, que venceu duas "medalhas" no concurso, regressou a Sanaa para receber uma distinção do ministro da Cultura, escreveu o Yemen Times (em inglês).
Abdulrahman Al-Ahdal tentou explicar o segredo do seu sucesso num dado poema, A filha do arabismo. "Combinei dialecto do Golfo, dialecto iemenita e árabe standard. Enquanto o escrevia chorei, e quem o ouviu também. Usei árabe, linguagem do Corão e dos que procuram o paraíso", contou.

sexta-feira, março 21, 2008

CSI Gólgota
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21.03.2008, Ana Gerschenfeld


De que morreu Jesus na cruz? De asfixia, de embolia pulmonar, de choque hemorrágico? Quase dois mil anos depois da fatídica sexta-feira que hoje se celebra, não existem certezas. Nem sequer quanto à maneira exacta como Jesus foi crucificado, o que em princípio permitiria determinar a causa da sua morte


A cadeia de televisão britânica BBC desencadeou uma controvérsia esta semana com a difusão no Reino Unido de uma série de quatro episódios, intitulada A Paixão, que relata os últimos dias da vida de Jesus, da chegada a Jerusalém à descoberta do seu túmulo vazio, passando pela Última Ceia, a sua condenação à morte e o seu martírio, que culmina com a sua crucificação no Gólgota. Uma das razões do desagrado evidenciado por alguns sectores da Igreja Anglicana é que, neste telefilme, Jesus é pregado na cruz numa posição quase fetal, que não corresponde àquilo que séculos de iconografia do trágico episódio fundador do cristianismo nos têm mostrado.
Há dois mil anos, os Romanos atingiram níveis de sofisticação infinitamente cruéis para prolongar o sofrimento e a dor dos condenados a esta morte atroz e humilhante. Mas o certo é que não subsistem hoje nenhumas "instruções" sobre como proceder a uma crucificação, escreviam em 2006 Matthew Maslen e Piers Mitchell, investigadores médicos do Imperial College de Londres no Journal of the Royal Society of Medicine. Os pormenores, salientavam, terão variado conforme as regiões, a época, o estatuto social e o crime imputado ao condenado. Existem alguns testemunhos directos, como o do historiador judeu Flávio Josefo ou do filósofo romano Séneca, o Jovem, que confirmam a diversidade das posturas sadicamente inventadas pelos carrascos: de cabeça para cima ou para baixo, com os braços e os pés pregados ou amarrados em variadas posições, por vezes com pregos espetados nos órgãos genitais. Nada a ver com a postura digna em que Jesus costuma ser representado nos quadros e esculturas desde a Idade Média.
Uma coisa que ninguém parece pôr em causa, contudo, é o facto de que o calvário começava sempre, porque a lei assim mandava, por uma flagelação. E foi assim que começou para Jesus e para milhares de vítimas que foram submetidas a esta forma de execução ao longo de vários séculos.
A Paixão segundo o JAMA
Em 1986 - 20 anos antes do artigo de Maslen e Mitchell -, William Edwards, patologista da célebre Mayo Clinic norte-americana, juntamente com um ilustrador médico e um pastor metodista, tinham publicado outro texto, no Journal of the American Medical Association (JAMA) que se tornou uma referência. Nele, relatavam as últimas horas da vida de Jesus tentando perceber a cada passo, com base nos dados históricos e arqueológicos disponíveis, o que Jesus terá tido de suportar e as diversas patologias que o terão afectado devido aos maus tratos que antecederam a crucificação. Objectivo final: determinar as causas da sua morte.
O relato lê-se como um "conto clínico". Resumindo: após a Última Ceia, a celebração da Páscoa judia, Jesus e os seus discípulos deslocaram-se, por volta das nove da noite, ao Monte das Oliveiras. Aí, Jesus, sabendo que iria morrer em breve, sentiu-se extremamente angustiado e o seu suor transformou-se em sangue, segundo os Evangelhos. Um fenómeno que, apesar de muito raro, é conhecido dos médicos: trata-se de uma "hematidrose", escrevem os autores no JAMA, e pode ocorrer em situações de stress emocional extremo.
Pouco depois da meia-noite, Jesus foi preso e, entre a uma e as nove da manhã, foi julgado pelos judeus e pelos romanos e condenado à morte. Durante essas horas não dormiu, não bebeu nem comeu, foi violentamente espancado várias vezes, teve de se deslocar a pé entre os diversos tribunais. Em particular, a flagelação prevista na lei romana tê-lo-á deixado às portas da morte. "Com a dor e a perda de sangue generalizada estavam reunidas as condições para um choque circulatório", escrevem ainda.
Seguiu-se o caminho até ao Monte Gólgota, um percurso de poucas centenas de metros, com Jesus, fortemente escoltado, a transportar o patíbulo (a viga horizontal da cruz) amarrado por cima dos ombros (os autores referem que a cruz inteira teria pesado mais de 135 quilos e que o poste horizontal era uma estrutura permanente do Gólgota). Jesus, porém, estava tão fraco que não conseguiu transportar a viga até ao destino, tendo sido substituído por Simão de Cirena por ordem dos romanos.
No local da execução, uma vez os pulsos (e não as mãos) pregados ao patíbulo, Jesus terá sido içado e o patíbulo encaixado no poste vertical, conferindo à estrutura resultante a forma de um T (e não a da habitual cruz latina). A última fase consistiu em pregar os pés de Jesus directamente no poste vertical.
Numa tal posição a respiração torna-se extremamente difícil, explicam ainda os autores: "O principal efeito fisiopatológico da crucificação, para além da dor insuportável, é uma marcada interferência com a respiração normal, em particular a exalação." E concluem que Jesus terá, ao fim de seis horas, morrido principalmente de asfixia, embora com outros factores a precipitarem o desenlace: choque hemorrágico, desidratação, arritmias cardíacas devidas ao stress, deficiência cardíaca aguda com acumulação interna de fluidos. Este último elemento explicaria porque, tendo dado Jesus por morto, o soldado que lhe espetou a lança nas costelas provocou a libertação de líquido e sangue, tal como relatado nos Evangelhos.
O jovem crucificado
Quanto à posição do crucificado, a descrição dos autores do JAMA coincide razoavelmente com a encenação agora produzida pela BBC. Escrevem: "Para conseguir [pregar os pés directamente no poste vertical], a flexão dos joelhos poderá ter sido bastante proeminente e as pernas flectidas poderão ter ficado viradas para o lado." Portanto, quase em posição "fetal". Porque é que concluem que a posição terá sido tão pouco "ortodoxa"? Porque, tal como os produtores da série televisiva, baseiam-se no único achado arqueológico conhecido até hoje de uma crucificação.
Em 1968, perto de Jerusalém, foi acidentalmente descoberta uma sepultura que continha ossadas de um homem entre os 24 e os 28 anos, datadas do primeiro século da era cristã. E um dos ossos encontrados é um fragmento do calcanhar direito do jovem - identificado no túmulo como "Jehohanan, filho de Hagkol" - atravessado lateralmente, da direita para a esquerda - e não da frente para atrás - por um grande prego. Jehohanan foi crucificado, no máximo, umas décadas antes ou a seguir a Jesus.
Os especialistas explicam a rareza do achado argumentando, entre outras coisas, que os pregos eram retirados aos cadáveres após a crucificação - eram considerados amuletos - e que os corpos não eram normalmente enterrados nem devolvidos às famílias, mas atirados em lixeiras para serem devorados por animais vadios - a derradeira humilhação. O caso de Jehohanan é de facto excepcional.
Voltando às possíveis causas de morte de Jesus, há cerca de dez hipóteses alternativas que têm vindo a ser propostas. Há quem afirme, como Benjamin Brenner, do Centro Médico Rambam de Haifa, Israel, num artigo publicado em 2005 no Journal of Thrombosis and Haemostasis, que a responsável foi um embolia pulmonar. E, por incrível que pareça (dada a violência extrema do suplício), há mesmo quem negue, como o médico forense espanhol Miguel Lorente Acosta, autor do livro 42 días: Análisis forense de la crucifixión y la resurrección de Jesucristo, que Jesus tenha morrido na cruz. Apenas terá entrado em coma, a lança do soldado não o terá ferido de morte e, graças aos cuidados dos seus discípulos, terá saído do coma três dias mais tarde. O mistério do túmulo vazio explicado pela medicina.
Reconstituições macabras
Ainda mais surpreendentes nesta procura são as experiências de um outro médico forense, o mediático norte-americano Frederick Zugibe, antigo director do instituto de medicina legal do condado de Rockland, no estado de Nova Iorque. Seguindo e expandindo o trabalho "pioneiro" que o médico francês Pierre Barbet realizara décadas mais cedo pregando cadáveres a uma cruz para estudar os efeitos da crucificação, Zugibe fez experiências de crucificação (que deram origem a um livro em 2005) com voluntários humanos vivos! Em condições extremamente controladas de laboratório, em tudo compatíveis com a ética, Zugibe tentou assim reconstruir o que realmente terá acontecido naquela manhã de sexta-feira do ano 30 ou 32 da nossa era (pensa-se que Jesus terá nascido por volta do ano IV antes da nossa era, tendo morrido aos 33 anos).
A conclusão de Zugibe é que Jesus não pode ter morrido de asfixia, como afirmavam os autores do artigo do JAMA em 1986 (e o próprio Barbet). Isto porque os participantes na sua experiência, essencialmente "crucificados" à maneira dos quadros do Renascimento, não sofreram qualquer dificuldade respiratória. O que vitimou Jesus, conclui Zugibe, foi na realidade um choque hemorrágico.
Algum destes cientistas terá mesmo razão? Ninguém sabe, tanto mais quanto todos eles, sem excepção, partem de pressupostos que são, no mínimo, contestáveis e que põem em causa a qualidade das suas conclusões. É aliás essencialmente isto que Maslen e Mitchell, os dois investigadores do Imperial College, argumentavam no seu artigo do JAMA de 2006.
Um desses pressupostos é que o célebre Sudário de Turim, um pedaço de pano onde se vê a imagem de um homem que parece ter sido crucificado, é autêntico. Ora, até hoje, não há qualquer prova científica de que o Sudário, conservado na Catedral de Turim, em Itália, tenha alguma coisa a ver com Jesus. Antes pelo contrário: é possível que se trate de uma falsificação fabricada na Idade Média. "Grande parte dos argumentos de Zugibe", escrevem Maslen e Mitchell, "baseiam-se em dados vindos do Sudário de Turim. Ora, o Sudário é provavelmente uma falsificação que remonta a uma época entre 1260 e 1390 da nossa era, uma vez que as suas fibras foram datadas por três laboratórios independentes. (...) Não existem, até hoje, provas sólidas que sugiram que o Sudário de Turim possa ser utilizado como parte de um estudo científico imparcial."
Este não é o único senão nas teorias à volta da morte de Cristo. A maior parte dos autores nunca leu os textos originais, apenas traduções em inglês. "A vasta maioria [dos mais de 40 artigos avaliados neste estudo] não refere textos nas línguas originais (...) principalmente grego e latim. No melhor dos casos, há referências ocasionais a alguns documentos da época romana traduzidos em inglês. Mas nenhum dos artigos avalia as traduções, citando artigos anteriores de outros médicos. O resultado é por vezes uma série de citações erradas, muito longe do material original."
Até no que respeita aos restos de Jehohanan - "indubitavelmente um caso de crucificação", dizem Maslen e Mitchell -, tem havido interpretações incorrectas devido a uma análise inicial pouco clara do achado. Ora, segundo uma reavaliação de 1985 pelo arqueólogo Joe Zias e o médico Eliezer Sekeles (publicada no Israel Exploration Journal), os ossos dos braços e dos pulsos do jovem crucificado não apresentam ferimentos que indiquem a utilização de pregos, o que sugere que terão sido amarrados ao patíbulo e não pregados. Mais: os pregos utilizados nos pés eram na realidade muito mais curtos (11,5 cm) do que tinha sido inicialmente afirmado, o que faz, em particular, com que a única posição compatível do corpo de Jehohanan crucificado tenha sido com os pés colocados de cada lado do poste vertical. Nesta posição, Jesus teria morrido asfixiado.
Qual, afinal, terá sido a postura de Jesus na cruz e qual a causa da sua morte? Talvez nunca se venha a saber. Entretanto, como sugeria o semanário britânico Observer no passado domingo, a Paixão de Cristo é uma das "melhores histórias de sempre", para contar e tornar a contar.

O dinheiro traz a felicidade... se o gastarmos nos outros
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21.03.2008, Clara Barata


Estudo na Science avalia impacto da forma como gastamos os rendimentos na satisfação pessoal


O dinheiro pode comprar a felicidade? Os cientistas dizem que sim, mas só se o usarmos para comprar coisas para os outros, para as pessoas de quem gostamos, ou por quem nos interessamos. Se for só para comprar coisas para nós próprios, ter mais dinheiro não nos torna mais felizes.
Esta conclusão que parece uma li-
ção de vida é de investigadores da Uni-
versidade da Columbia Britânica (Canadá) e da Harvard Business School, nos Estados Unidos, e é publicada ho-
je na revista Science. "Queríamos testar a teoria de que a maneira como as pessoas gastam o dinheiro é pelo menos tão importante como quanto dinheiro ganham", explica Elizabeth Dunn, a autora principal do trabalho, citada num comunicado da universidade canadiana.
Outros trabalhos concluíram que o rendimento tem um certo efeito na felicidade, "embora seja surpreendentemente fraco, quando todas as necessidades básicas estão garantidas", escreve a equipa na Science. "Enquanto os rendimentos têm subido de forma drástica nas últimas décadas nos países desenvolvidos, os níveis de felicidade têm-se mantido estáveis." Uma explicação possível é que "as pessoas usem o dinheiro para coisas que lhes dão pouco retorno em termos de felicidade duradoura, como comprar produtos caros".
Por isso, além da curiosidade científica de explicar este fenómeno, a equipa de Dunn interessou-se por encontrar maneiras de aumentar a felicidade de cada um.
Para confirmar ou pôr de lado a sua hipótese, os cientistas fizeram uma série de experiências, partindo de uma "amostra representativa da população americana" de 632 pessoas. Analisaram variáveis como os rendimentos e os hábitos de consumo, bem como os níveis de felicidade que reportavam. A conclusão foi mais ou menos a esperada: os seus gastos pessoais não tinham qualquer relação com a felicidade que sentiam.
Poucas prendas
No entanto, quem relatava ter o hábito de comprar prendas - ou dar dinheiro para obras sociais, aquilo que os cientistas designam como "gastos pró-sociais" - reportava maiores níveis de felicidade. "Gastar dinheiro com os outros pode ser um caminho mais eficaz para a felicidade do que gastá-lo consigo", diz a equipa.
Estes resultados foram confirmados experimentalmente, examinando o que fizeram os funcionários de uma empresa de Boston quando receberam um prémio de produtividade, de valor variável, e também o que faziam os voluntários a quem foi dada uma nota de cinco ou de 20 dólares para gastar até ao fim do dia. "Independentemente de quanto dinheiro receberam, as pessoas que gastaram dinheiro com os outros relataram maior satisfação do que os que o não fizeram", explica Dunn.
Mas o que é verdadeiramente cu-
rioso é que as pessoas que participaram na experiência relataram gastar muito pouco em prendas ou dádivas sociais, apesar de isso as fazer felizes. "Devotam pelo menos mais dez vezes do seu rendimento mensal para gastos pessoais do que para gastos pró--sociais." Por isso, os cientistas fazem uma recomendação: "Pequeníssimas alterações na forma como gastamos o dinheiro - no nosso estudo, bastavam cinco dólares - podem produzir ganhos diários de felicidade que não são triviais".

O que tem a morte de Jesus a ver com não se comer peixe?
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21.03.2008, António Marujo




Uns por convicção, outros por tradição. Muitos católicos optam, hoje, por se abster de comer carne, optando por se alimentar de carne. Em dia de Sexta-Feira Santa, a Igreja Católica recomenda, na sua doutrina tradicional, que os crentes recordem a morte de Jesus também através da alimentação. Mas o que tem o peixe a ver com o facto de Jesus ter morrido?
Num estudo sobre as origens desta tradição, o teólogo Cyrille Vogel (em Eucharisties d"Orient et d"Occident, ed. Cerf, Paris), propõe que o peixe, mais que um substituto da carne, era, entre os primeiros cristãos, um elemento de uma refeição sagrada. Possivelmente, uma tradição herdada do judaísmo, em primeiro lugar, e de outras religiões.
No caso cristão, o peixe como "alimento sagrado" está também fortemente filiado em várias das refeições de Jesus contadas nos evangelhos - e, em especial, nas refeições após a ressurreição, quando Jesus se encontra com os seus companheiros mais próximos. Terá sido na Síria, diz Vogel, que pela primeira vez o peixe como simbólica cristã foi introduzido.
"Olha-se muitas vezes para o cristianismo como religião do sofrimento, do sacrifício e da reparação", diz João Eleutério, padre e professor de Teologia dos Sacramentos na Universidade Católica, referindo-se à proposta tradicional da abstinência. "Mas o ponto de partida devem ser as refeições pascais de Jesus, após a ressurreição. É sobretudo a liberdade de Jesus, na entrega que ele livremente faz de si mesmo, que está em causa, e não um qualquer fatalismo."
Terá sido Tertuliano (180-220 d. C.), um cristão romano que não conhecia o judaísmo, a travestir a tradição e a propor a abstinência de carne como alimento. Já em meados do século V, Eznik de Kolk escreve que, como Jesus comeu peixe depois de ressuscitar, os cristãos devem seguir-lhe o exemplo. O peixe tinha outro simbolismo entre os cristãos: a palavra grega, ichthys, servia de acróstico para Iesus Christus Theos Yctis Soter, ou seja, Jesus Cristo Filho de Deus Salvador.
A evolução histórica e a codificação normativa fizeram o resto e o peixe, em vez da carne, passou a ser a norma para os dias de jejum e abstinência obrigatórios - hoje limitados a Quarta-Feira de Cinzas (primeiro dia da Quaresma, o tempo de preparação da Páscoa) e a Sexta-Feira Santa.
Em dois documentos, de 1982 e 1985, a Conferência Episcopal Portuguesa diz que "a abstinência consiste na escolha de uma alimentação simples e pobre". Mas o texto oscila, depois, recordando que "a sua concretização na disciplina tradicional da Igreja é a abstenção de carne".
O padre Pedro Ferreira, director do Secretariado Nacional de Liturgia, da Igreja Católica, afirma que o espírito deve ser o de se abster de comer "alguma coisa em benefício de outro mais necessitado".
Reconhecendo que falta uma pedagogia mais contemporânea, João Eleutério concorda: "Estamos presos a uma tradição, precisamos de entrar na lógica de que queremos fazer determinado gesto por opção positiva, por oblação, e não como sacrifício no mau sentido."

quinta-feira, março 20, 2008

Diminuição da população afecta o canto da Calhandra Dupont
Cientistas estudam espécie de ave que "canta menos" por estar a desaparecer
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1323104
19.03.2008 - 15h40 PÚBLICO
A Calhandra Dupont, Chersophilus duponti, pequena ave que vive em território espanhol, está a diminuir a variedade do seu canto à medida que desaparece da natureza. Essa é a principal conclusão de uma investigação de um grupo espanhol, publicada hoje na revista "Public Library of Science" (PLoS ONE).

Os machos desta espécie, Chersophilus duponti, cantam para conquistarem as fêmeas e avisarem os outros machos da sua presença. Mas necessitam de machos adultos para aprenderem a fazê-lo.

O estudo foi realizado no Vale do Ébro por um grupo da Estación Biológica de Doñana, de Sevilha. Da Primavera de 2004 até à Primavera de 2007, durante o amanhecer e o anoitecer, eram gravados os cantos dos machos.

“Conseguimos gravar 330 machos, que são os únicos que cantam”, disse Paola Laiolo, principal autora do artigo publicado, ao jornal "El Mundo". As gravações foram feitas em 19 locais diferentes, em que as populações “iam somente de dois indivíduos até mais de 50”, sublinha a bióloga.

A unidade de canto desta ave é formada por doze sequências diferenciadas em frases, cada uma com treze notas. “As fêmeas são atraídas por estes cantos e elegem o seu par de acordo com a complexidade das canções”, diz Laiolo.

Os juvenis desta espécie aprendem as vocalizações com os machos adultos. Fazem isto durante o Verão em apenas 30 dias. No entanto, nos locais onde as populações são compostas por menos indivíduos, os juvenis perdem o reportório de cantos, notas e sequências, por não terem com quem aprender.

A investigação também concluiu que quando os jovens não têm indivíduos da mesma espécie para poderem aprender, começam a imitar outras aves que vivem nos mesmos locais.

Este fenómeno pode ser um novo indicador da biodiversidade e do estado de vulnerabilidade das populações. É uma característica que poderá ser aplicada a outras espécies, principalmente a grupos como as aves cuja presença é muitas vezes confirmada pelo canto.

Na Europa, o Chersophilus duponti já só se encontra disperso na região cantábrica de Espanha. Pensa-se que não existam mais do que 2000 machos reprodutores. A espécie já existiu em Portugal mas o Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal dá-a como Regionalmente Extinta. Os outros locais onde se podem encontrar a espécie são Marrocos, Argélia e Egipto.



comentários 1 a 3 de um total de 3 Escrever comentário

20.03.2008 - 02h42 - ocatarinabelatchingtching, Lisboa
Não só canta menos por estar a desaparecer, como desaparece por cantar menos, pois que se reduzem as hipóteses de um macho atrair uma parceira. E a situação é mesmo má: em Portugal está extinta. De França e Itália, onde chegoua existir, não há boas notícias. E em Espanha, o valor de 2000 individuos se calhar é já optimista. Como se não bastasse, a população que vive no norte de África está mal estudada, nada protegida, e porventura ainda será mais pequena.

terça-feira, março 18, 2008

Cristo crucificado mas numa posição diferente
http://dn.sapo.pt/2008/03/18/ciencia/cristo_crucificado_numa_posicao_dife.htmlUm achado arqueológico sustenta a tese

A representação tradicional de Cristo crucificado é a de um homem pregado na cruz, de braços estendidos e pernas esticadas, a acompanhar o formato da própria cruz. Mas a descoberta de um esqueleto, em Jerusalém, em 1968, de um homem crucificado na mesma época de Jesus pode contar uma história diferente.

Essa é, pelo menos, a tese dos autores do novo docudrama da BBC, The Passion, que a televisão pública britânica está nesta altura a exibir. Não sem o protesto veemente de alguns grupos de cristãos mais tradicionalistas, que não aceitam alternativas à versão oficial da crucificação.

A nova versão da crucificação avançada na série da BBC sugere que a posição a que Jesus foi sujeito na crucificação era algo diferente da que foi perpetuada pelos artistas do renascimento e do barroco.

De joelhos flectidos

Os estudos do esqueleto descoberto em Jerusalém apontam para que os cravos tenham sido cravados nos antebraços, e não nas mãos, e sugerem também que a pequena trave à qual foram pregados os pés se situasse mais acima do que tem sido representado.

Nesta posição, em que os joelhos estavam flectidos, os pés não serviam de apoio e o peso do corpo recaía todo nos músculos peitorais e abdominais, dificultando e entrecortando a respiração, e acabando por causar a morte por asfixia à vítima.

Este foi até hoje o único esqueleto encontrado de uma pessoa crucificada naquela época que sustenta esta tese. Mas a série decidiu adoptá-la e foi Simon Elliot, produtor da série, que definiu esta como sendo a tese da crucificação de Cristo a apresentar.

Mark Goodacre, professor de religião na universidade britânica de Duke e assessor científico da série, concordou, no entanto, com a ideia e, a este propósito, adiantou, em declarações citadas pelo El País, que "os romanos crucificavam as pessoas de várias formas diferentes e este método [retratado na série] era um dos mais utilizados", porque era também "um dos mais eficazes".

A tese, porém, acendeu um rastilho de protestos por parte de várias organizações cristãs no Reino Unido, como a muito conservadora Christian Voice.

Protestos dos conservadores

Esta organização chegou a mover inclusivamente um processo contra a estação pública, em 2005, quando esta exibiu o musical Jerry Springer- The Opera, que aquela organização cristã considerou blasfema. A decisão do tribunal, conhecida recentemente, não deu no entanto razão à Christian Voice. Em relação à tese da crucificação defendida na série agora exibida, esta e outras associações no género acusam a estação pública britânica de "distorcer os factos e de depreciar o significado que encerra a imagem tradicional de Cristo crucificado", de acordo com declarações citadas pelo diário El País.

Com um elenco de actores muito populares no Reino Unido, a série de quatro episódios relata os factos conhecidos e discute os acontecimentos com base nos materiais escritos disponíveis, nos achados arqueológicos e na sua interpretação por parte de teólogos e historiadores britânicos de referência.

UNESCO discute devolução de arte pilhada aos países de origem
http://dn.sapo.pt/2008/03/18/artes/unesco_discute_devolucao_arte_pilhad.html

Debate-se como restituir peças expostas em grandes museus

Conservadores, arqueólogos e juristas debateram ontem em Atenas a questão do regresso aos países de origem dos bens culturais pilhados ou deslocados no decurso da História, hoje expostos nos mais prestigiados museus do mundo.

A conferência constitui uma nova ocasião para Atenas reclamar o regresso do friso oriental do Parténon, exposto no British Museum, que recusa devolvê-lo, apesar de uma campanha grega intensa. Este friso em mármore esculpido e único no mundo fora levado no início do século XIX por Lord Elgin, embaixador britânico junto do Império Otomano.

"Estamos a discutir o regresso aos países de origem das obras culturais de primeira importância para as quais não há direito internacional, nem se pode aplicar claramente, porque estes bens foram recuperados em condições de ocupação ou colonização", diz Françoise Rivière, subdirectora para a Cultura da Unesco.

As obras pilhadas após a aplicação da convenção internacional de 1970 sobre o tráfico de antiguidades (hoje ratificada por 115 países) têm mais a ver com o Direito Penal. O British Museum confrontado com o pedido de restituição, invocou sempre "o universalismo" das suas colecções. Mas é um argumento rejeitado pelo presidente da conferência da Unesco, o grego Georges Anastassopoulos. "Os monumentos contribuem para a criação de uma consciência cultural numa determinada zona geográficas. A noção de acesso universal aos bens culturais expostos em certos museus não implica a noção moral e jurídica de propriedade", considerou.

O que está em causa não é para que todos os países possam começar a reivindicar não importa qual obra, em nome da integridade do seu património cultural, segundo consideram alguns especialistas.

"É preciso que as condições de regresso do objecto sejam boas em termos científicos e de infra-estruturas", revelou Christiane Tytgat, antiga conservadora dos museus reais de Belas Artes da Bélgica.

"Isto é uma caixa de Pandora que temos de abrir com delicadeza", estima Françoise Rivière.

A Grécia escolheu aumentar a pressão sobre o British Museum, porque o novo museu da Acrópole, que acolhe esta conferência que termina hoje, possui uma sala especialmente arranjada para receber o friso do Parténon.

O arquitecto do Holocausto que terá ajudado a salvar 800 judeus
http://dn.sapo.pt/2008/03/18/internacional/o_arquitecto_holocausto_tera_ajudado.html

HELENA TECEDEIRO
Israel foi à Argentina buscar o ex-oficial nazi, que julgou e executou em 1962
O homem que ficou conhecido como o "Arquitecto do Holocausto" afinal pode ter ajudado a salvar centenas de judeus. Segundo o Sunday Times, Adolf Eichmann, o oficial nazi que deportou centenas de milhares de judeus para os campos de concentração, terá protegido o director de um hospital judaico onde 800 judeus - membros da elite e mulheres de alemães não-judeus na maioria - encontraram refúgio em Berlim. Uma surpresa, sobretudo vindo do homem que os israelitas executaram em 1962 após um julgamento que se queria exemplar para todos os que perseguiram e mataram seis milhões de judeus durante a II Guerra Mundial.

A juventude

Desde pequeno, Eichmann aprendeu a obedecer a figuras masculinas. Nascido em Solingen, na Alemanha, em 1906, quando ele era criança a sua família mudou-se para Linz, a cidade austríaca onde nasceu outro Adolf: Hitler. Educado num ambiente religioso, Eichmann perdeu a mãe aos 16 anos. Aluno medíocre, não terminou o liceu e acabou a trabalhar na petrolífera do pai. Mais tarde foi contratado por outra empresa e percorreu a Áustria a vender petróleo, organizar redes de entrega e localizar novos locais para explorar. Esta carreira acabaria por ajudar Eichmann com a sua nova paixão: a política.

Os crimes

Apesar de se ter declarado apolítico no seu julgamento, Eichmann cresceu numa família nacionalista. Como muitos alemães, o seu pai perdeu tudo na I Guerra e teve de recomeçar do zero. Foi ele quem inscreveu o filho na Heimatschutz, associação de extrema-direita que protegia a cultura alemã. A entrada na secção austríaca do Partido Nazi só aconteceu em 1932. Um ano depois, com Hitler a chegar ao poder na Alemanha, Eichmann voltou ao país natal. Destacado para a secção Judaica da Ges-tapo, a secreta nazi, decidiu especializar-se nessa área. Estudou hebraico e familiarizou-se com o sionismo. Encarregue de encontrar a "Solução Final para a Questão Judaica", defendeu o envio dos judeus da Europa para o Médio Oriente e até visitou a Palestina. Responsável pela entrega de autorizações aos judeus que queriam imigrar, era ele quem decidia os que se salvavam e os que eram forçados a ficar, à espera de uma morte certa. Chamado pelos colegas de escola de "pequeno judeu" devido ao cabelo escuro e grande nariz, Eichmann não hesitou em seguir as ordens de Hitler para "exterminar todos os judeus". Foi ele quem garantiu o transporte dos deportados para os campos de concentração, tendo visitado várias vezes Ausch-witz. Em 1944, quando o todo-poderoso chefe das SS, Heinrich Himmler, ordenou o fim das deportações, Eichmann desobedeceu e enviou mais 50 mil judeus para a morte.

A fuga

Após a rendição da Alemanha, em Maio de 1945, Eichmann foi preso. Mas conseguiu fugir. Durante cinco anos, esteve desaparecido, evitando ser julgado em Nuremberga. Vagueou pela Europa, sem contactar a família e em 1950, seguiu a rota de muitos ex-oficiais nazis e partiu para a América Latina. Durante dez anos, viveu na Argentina como Ricardo Clemente. Trabalhou em fábricas e numa empresa de engenharia à qual o presidente Juan Peron - simpatizante nazi - atribuiu inúmeros contratos. Em 1952, a mulher, Veronica, e os quatro filhos, juntaram-se a ele em Buenos Aires.

O castigo

Durante anos, muitos judeus tentaram apanhar os nazis que escaparam a Nuremberga. Foi o caso de Simon Wiesenthal. E terá sido o famoso "caçador de nazis" a receber uma dica de um amigo para a presença de Eichmann na Argentina. Wiesenthal comunicou o facto à Mossad e os serviços secretos israelitas começaram a preparar a missão que iria levar o antigo oficial nazi a Israel para ser julgado. Foram 30 os agentes destacados pelo chefe da Mossad, Isser Harel. E a 11 de Maio de 1960, Eichmann foi capturado à frente de casa, quando voltava do trabalho. Em Israel, o seu julgamento causou emoção, com algumas pessoas a tentarem atacá-lo, apesar do vidro à prova de bala. Eichmann garantiu ter apenas obedecido a ordens, mas não escapou à pena de morte. Os judeus vingavam-se assim do homem que garantira: "Ficarei feliz se morrer a saber que cinco milhões de inimigos do Reich foram executados como animais".

A revelação

Quarenta e seis anos depois da sua execução, Eichmann surge agora como uma figura dúbia. O Sunday Times, citando o diário da secretária do hospital judaico de Berlim, garante que o oficial ajudou a salvar 800 judeus ali refugiados durante a guerra. O director do hospital, Walter Lustig contou com o apoio de Eichmann para escolher os que eram enviados para a morte e os que se salvavam, numa tentativa dos nazis para que a "Solução Final" não fosse conhecida cedo demais. Uma história que só agora veio a público e está a gerar paralelismos com Oskar Schindler, o industrial alemão que ajudou a salvar 1200 judeus e inspirou o filme de Steven Spielberg A Lista de Schindler.

Quantos iraquianos morreram

150 ou 600 mil? Quantos iraquianos morreram?
http://jornal.publico.clix.pt/
18.03.2008, Sofia Lorena


Um dia teremos um número muito aproximado das vítimas da guerra do Iraque. Se os especialistas não desistirem e lá voltarem quando a violência diminuir


92%
das mortes contabilizadas no estudo publicado na Lancet puderam ser confirmadas por certidões de óbito
a Muitos iraquianos morreram já nesta guerra. Facto consensual. Só entre Março de 2003 e Julho de 2006 morreram mais de 600 mil que não teriam morrido se a guerra não tivesse acontecido. Mas também menos que consensual: o número, divulgado em Outubro de 2006 num estudo publicado na revista médica The Lancet, foi descrito como "exagerado" pelo Pentágono e "ridículo" por Bagdad. Por causa dele, Christopher Hitchens, colunista da Vanity Fair, acusou o
editor-chefe da Lancet, Richard Hor-
ton, de ser "um orador da aliança es-
querdista-islamista que forma a coligação britânica Stop the War". "Não é credível", disse o Presidente George W. Bush.
Quem conta os mortos iraquianos? Conta o projecto Iraq Body Count (IBC)
- segundo o seu site morreram até ontem entre 82.199 e 89.710. Conta o Governo iraquiano - em 2006, chegou a proibir o Ministério da Saúde de divulgar mortes mensais às Nações Unidas, mas depois realizou um inquérito com a OMS, segundo o qual morreram 151 mil até 2006. E contou a ORB (Opinion Research Business), um grupo de sondagens britânico, que em Setembro de 2007 divulgou um inquérito (margem de erro de 2,4 por cento) que elevava para um milhão o número de mortos até então.
Os métodos usados para chegar a qualquer um destes números são diferentes e explicam parte das divergências. O IBC só contabiliza mortes confirmadas pela imprensa. "Para além da Bósnia, não encontramos nenhum conflito em que a vigilância passiva [usada pelo IBC] registasse mais de 20 por cento das mortes me-
didas por métodos baseados no con-
junto da população" - ou seja, inquéritos com amostras, responde o estudo da Lancet.
Metodologia provada
A reacção de Londres aos números da Lancet não foi muito diferente da reacção do Presidente Bush. Mas a
BBC encontrou um memorando do
principal conselheiro científico do Ministério da Defesa britânico, sir Roy Anderson, segundo o qual "o estudo emprega métodos tidos como próximos da "melhor prática" nesta área".
A BBC citou outro documento do Ministério dos Negócios Estrangeiros, um e-mail em que um responsável pergunta a respeito do estudo: "Temos mesmo a certeza de que é provável que o estudo esteja certo? É isto que o memorando supõe". A resposta, de outro responsável: "Não aceitamos os números como exactos". E umas linhas abaixo: "Contudo, a metodologia de inquérito usada não pode ser descrita como disparatada, é uma forma experimentada e provada de medir a mortalidade em zonas de conflito".
O estudo da Lancet foi realizado pelo Centro de Resposta a Refugiados e Desastres da Escola de Saúde Pública Bloomberg da Universidade Johns Hopkins. Teve críticas políticas, mas também científicas: uma amostra demasiado pequena e aquilo a que os peritos chamam "preconceito da rua principal", ou tendência para en-
trevistar moradores em ruas residenciais centrais, mais expostas a combates ou carros armadilhados.
Gilbert Burnham, co-director do centro, supervisionou o estudo, treinando os médicos iraquianos que fizeram as entrevistas e acompanhando os resultados. Diz que "há fórmulas para calcular a amostra necessária" e que "a amostra era mais do que ade-
quada". Quando à segunda crítica, explica ao PÚBLICO, "deve-se a uma má interpretação". "A amostra foi cal-
culada a partir de todas as ruas residenciais numa área. Para além disso, quase todas as mortes registadas aconteceram fora de casa."
O epidemiologista sublinha, por exemplo, que o seu estudo foi o úni-
co a pedir certidões de óbito - disponíveis em 92 por cento das mortes contabilizadas. E nota que a maioria das limitações que enfrentaram são factores que mais depressa subestimariam os dados e não os inflacionariam. Por exemplo, "mortes que os sobreviventes preferiram não re-
latar". Ou o habitual "preconceito do
sobrevivente": "o inquérito não conta as mortes em casas que foram completamente destruídas".
Quem entrevista
Entre os diferentes números, a divergência mais difícil de perceber é a que separa o trabalho de Burnham dos 151 mil mortos de outro estudo, publicado em Janeiro deste ano noutra revista médica conceituada, a New England Journal of Medicine, fruto de um inquérito realizado por ministérios iraquianos e pela Organização Mundial de Saúde.
Burnham acredita que os entrevistados se sentiram mais à vontade com os seus entrevistadores, médicos de uma instituição académica, do que com entrevistadores apresentados como funcionários governamentais. Além disso, diz, o estudo OMS--Governo não incluiu na amostra as
áreas mais violentas, onde o da Lan-
cet "contou 30 por cento" das mortes totais.
Talvez nenhum destes dados explique as diferentes estimativas. Certo é que os mortos do Iraque não se podem contar pelos obituários dos jornais. A violência continua a matar todos os dias no Iraque e há muito tempo que os mortos deixaram de ser notícia diária. Esta é a guerra em que, num só dia e num mesmo ataque, foram mortos entre 400 e 600 membros da minoria religiosa yezidi, no maior atentado no mundo desde o 11 de Setembro. E em que isso não fez manchetes.


"Os resultados seriam sempre distorcidos porque este é um assunto político"

18.03.2008




O responsável pelo inquérito publicado na Lancet lembra que estudos sobre outros conflitos usam os mesmos métodos e são aceites. É director do Centro de Resposta a Refugiados e Desastres da Escola de Saúde Pública Johns Hopkins.
O que é que explica as diferenças tão grandes entre estudos e balanços dos mortos?
Os números que aparecem na imprensa estrangeira representam os corpos encontrados ou os mortos resultantes de grandes acontecimentos, como carros-
-bomba. Os nossos dados mostram que os assassínios se fizeram a uma escala mais pequena e em grande parte fora de Bagdad, onde a imprensa estrangeira está concentrada. A informação da imprensa é útil para seguir tendências, mas de forma alguma pode ser interpretada como representando o total dos mortos. Qualquer pessoa com experiência de recolha de dados em contextos difíceis compreende isso. Mas os que pretendem minimizar o impacto do conflito agarram-se a estes números mais baixos para reduzirem a devastação causada por esta guerra. E ignoram que contar só os mortos noticiados numa situação de conflito é ignorar a maioria dos mortos.
Esperava que o estudo fosse tão criticado?
Esperávamos críticas e sabíamos que os resultados seriam distorcidos porque este é um assunto político. Mas ficámos surpreendidos porque há resultados de outros conflitos que usam os mesmos métodos e são largamente aceites, às vezes pelos mesmos que agora nos criticaram.
Alguma vez saberemos quantas mortes está esta guerra a provocar?
Essa é a grande pergunta. A resposta é sim, usando os métodos padrão. As famílias raramente esquecem as mortes. A escala das mortes da Segunda Guerra ainda pode ser estimada através de inquéritos. Quando a violência acalmar no Iraque e houver bons recenseamentos disponíveis, vai ser muito mais fácil conseguir uma estimativa adequada das mortes. É muito importante que isso se faça, que não nos fiquemos pelos números incompletos. S.L.

domingo, março 16, 2008

Das instituições ou da espinha dorsal do sistema político americano
http://jornal.publico.clix.pt/
16.03.2008, Diana Soller

Morton Keller (Universidade de Brandeis) pôs de lado a historiografia convencional; escreveu a história dos Estados Unidos observando o projecto político e institucional americano. Esta perspectiva reduz a quase nada a ideia de que os EUA são um país jovem e imaturo: mantém há mais de 200 anos a mesma Constituição (que consagra a separação dos poderes legislativo, executivo e judicial), os mesmos partidos políticos e o mesmo sistema de liberdades e garantias consagrado na Bill of Rights.
No entanto, o estudo das instituições implica também a observação das suas relações com a sociedade (polily), que originam o regime (conjunto de instituições através das quais uma nação toma as suas decisões e os princípios que guiam essas decisões) que dita as regras e constrangimentos da acção política. E quanto a regimes, os EUA conheceram três: (1) o diferencial republicano, que se estendeu do período colonial aos anos 1820; (2) o partidário democrata, compreendido entre os anos 1830 e 1930 e (3) o populista burocrático que vem dos anos 1930 até hoje.
O primeiro caracterizou-se pela criação da estrutura do projecto político na sua forma institucional, que pretendia assegurar a independência, criar as regras e limitações de governo deste novo tipo de nação e assegurar a viabilidade do Estado. Havia entre os governantes - os Pais Fundadores - um consenso que fazia deles um elite coesa, apenas desfeita pelo segundo regime, cuja figura paradigmática é Andrew Jackson, símbolo de um novo político, mais próximo da população. Este segundo regime caracteriza-se pela introdução da autogovernação e pelo domínio dos dois grande partidos que se foram definindo por oposição um ao outro. Já o terceiro regime, lançado por Franklin D. Roosevelt, caracteriza-se pelo reforço do governo federal e a abertura a uma proliferação de outros actores internos - media, grupos de interesse, especialistas, burocratas e juristas - que trazem a função de responder às necessidades de uma população cada vez mais diversificada e exigente. Entre estes três regimes, não houve ruptura, mas sim continuidade e adaptação.
Esta continuidade comporta três lições. A primeira, mais evidente, é que as instituições são a espinha dorsal do Estado. A maior crise americana, a Guerra Civil, diz-nos Keller, não ficou a dever-se às divisões entre o Norte e o Sul que há muito existiam, mas à incapacidade das instituições de criarem soluções e consensos. A sucessão de presidentes fracos, a instabilidade invulgar do Congresso e a fragmentação dos partidos levaram ao desfecho violento de um problema há muito latente. A segunda é que a adaptação das instituições no momento certo pode resgatar um Estado da crise; veja-se a importância do New Deal e da ordem internacional pós-
-1945, consagradas na transição do segundo para o terceiro regime, no curso da política interna e externa norte-americana das últimas décadas.
Finalmente, as instituições são também facilitadoras de determinada política externa. O regime dos Pais Fundadores relacionou-se com uma disputa interna sobre que aliado escolher; o regime jacksoniano reforçou a Doutrina Monroe de isolamento relativamente ao poder europeu; o regime Roosevelt consagrou um papel de liderança americana no mundo, que ainda se mantém. Se Keller tiver razão, e se as instituições são a espinha dorsal dos estados, tendem a sobreviver aos governantes. Assim, se não houver nenhuma crise institucional na América, esta tendência da liderança manter-se-á, independentemente da popularidade Bush ou do próximo inquilino da Casa Branca.

Por que é que ela tinha de estar lá?
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16.03.2008, Maria João Guimarães




Já é comum que um político apanhado num escândalo sexual surja na obrigatória conferência de imprensa acompanhado pela mulher. Mas no caso do antigo governador de Nova Iorque Eliot Spitzer, acusado de pagar milhares de dólares a prostitutas, a presença de Silda Wall Spitzer nas duas conferências de imprensa suscitou reacções inusitadas em toda a imprensa americana e parece ter surtido o efeito oposto ao pretendido, tornando o ex-governador ainda mais antipático aos olhos da opinião pública por ter sujeitado a mulher a tal humilhação.
"Uma vez, apenas uma vez, não adorariam ver o político no palanque a pedir desculpa à família... sozinho? Apenas uma vez, não adorariam que a mulher emitisse o seu próprio comunicado dizendo que o que ele fez foi inaceitável e que o vai deixar?", perguntava Sally Quinn no Washington Post. "Mas em vez disso vemos, uma e outra vez, as faces destas mulheres-vítimas, patéticas e cheias de dor, apoiando os maridos, ao seu lado, deixando-se ser humilhadas em frente ao mundo inteiro."
"Por que enfrentamos este ritual de vergonha pública com a mulher do político ao lado dele, quando ele admite indiscrições sexuais?", questionava o Los Angeles Times.
E, de facto, há um rol de casos. Houve a conferência de imprensa de Larry Craig, apanhado por um agente a fazer sinais numa casa de banho masculina de um aeroporto. "Não sou gay", garantiu o político republicano na conferência de imprensa. Ao lado estava a mulher, embora atrás de uns grandes óculos escuros.
O republicano David Vitter, cujo número de telefone foi encontrado na agenda de uma gerente de uma casa de prostitutas, também exibiu a mulher no palanque. O democrata Kwame Kilpatrick também falou das suspeitas do seu affair com a sua chefe de gabinete com a mulher ao lado.
E, claro, muitos lembram outro caso da esposa que se manteve ao lado do seu homem: Hillary Clinton, embora muitos sublinhem que ela ao menos não esteve ao lado dele, quando ele admitiu finalmente a traição e a relação imprópria com Monica Lewinsky.
Ironia, diz o diário londrino The Times: quando Silda Wall Spitzer decidiu abdicar da sua carreira para apoiar a carreira política do marido, pediu conselhos justamente à mulher de Bill Clinton.
O paralelo Spitzer/Clinton foi aliás explorado até à medula por comediantes desde David Letterman a Jay Leno. "Eliot Spitzer era um superdelegado de Hillary Clinton... E estava na lista de possíveis vice-presidentes. Bem, ela sabe escolhê-los, não?", comentou David Letterman. "Isto significa que Hillary Clinton é agora a segunda mulher mais zangada do estado de Nova Iorque", disse Jay Leno.

O marido em vez da carreira
Mas o que teve este caso de tão diferente para causar tanta revolta com a mulher ao lado do homem? Terá sido porque Silda Spitzer mal conseguia disfarçar o seu estado de devastação? Ou porque ela é uma mulher vista como tendo abdicado da sua carreira pelo marido - e agora acontece-lhe isto?
Silda Wall Spitzer conheceu Eliot Spitzer na Faculdade de Direito de Harvard, onde ambos estudaram. Era considerada uma profissional brilhante e aliás ganhava bem mais do que o marido.
Mas depois do nascimento da terceira filha (o casal tem três, uma com 17, outra com 15 e a mais nova com 13), em 1995, Eliot Spitzer decidiu concorrer a procurador do estado de Nova Iorque e ela acabou por se resignar a ser "a mulher" dele - embora tenha criado uma associação não governamental, Children for Children, a que dedica muito tempo e trabalho.
Um dos casos mais conhecidos de uma mulher que se sujeitou à prova da conferência de imprensa do marido foi Dina Matos McGreevy, que esteve ao lado do marido, o antigo governador de New Jersey (democrata) Jim McGreevy, enquanto este anunciava que era homossexual.
Dina Matos McGreevy escreveu depois um livro, Slient Partner, onde relatou a sua experiência, e foi ouvida por várias televisões e jornais americanos a propósito do "caso Spitzer".
"Apesar de ele me ter causado uma dor enorme, ainda era um homem que eu amei, e os sentimentos não se evaporam", tentou explicar. "E pensei na minha filha, se queria que dali a uns dez ou 15 anos ela me perguntasse porque é que eu não apoiei o pai na altura mais difícil da vida dele."
Um analista político tenta explicar que o manter-se ao lado do marido "é visto como o último dever da esposa". Segundo disse Tobe Berkowitz ao Los Angeles Times, estas mulheres passaram anos a sacrificar-se pelos maridos, e, sujeitas à enorme pressão, podem não ser capazes de tomar outra decisão. Afinal, como parte do casal, se ele perde, ela perde também. Alguns jornais notaram que Silda esteve entre os que mais se opuseram a uma demissão precipitada do marido.
Hillary Clinton ficou ao lado de Bill, mas não esteve presente quando ele admitiu a relação imprópria com Lewinsky

Alemão diz que abateu avião de Saint-Exupéry
http://dn.sapo.pt/2008/03/16/artes/alemao_que_abateu_aviao_saintexupery.html

Ex-piloto Horst Rippert afirma ser o responsável pela morte do escritor

Horst Rippert, um alemão de 88 anos que combateu na Luftwaffe durante a II Guerra Mundial, declarou ao diário francês La Provence (www.laprovence.com) ter sido ele que abateu o avião pilotado pelo escritor francês Antoine de Saint-Exupéry, a 31 de Julho de 1944. O corpo do autor de O Principezinho nunca foi encontrado.

A revelação surge na sequência de um trabalho de investigação levado a cabo pelo jornalista Jacques Pradel e pelo mergulhador Luc Vanrell, que descobriu os restos do Lightning P 38 de Saint-Exupéry, em 2004.

Contactado pelos investigadores franceses, Rippert disse-lhes: "Podem deixar de procurar. Fui eu que abati Saint-Exupéry." Segundo o agora jornalista reformado, após ter sido atingido pelos seus tiros, o avião do escritor francês "despenhou-se no mar. Ninguém saltou, não vi o piloto. Soube dias depois que se tratava de Saint-Exupéry. Esperei sempre, e espero ainda, que não fosse ele. Todos o tínhamos lido na nossa juventude, adorávamos os livros dele. Ele sabia descrever admiravelmente o céu, os pensamentos e os sentimentos dos pilotos. A sua obra suscitou a vocação de muitos de entre nós. Se soubesse que era ele, não tinha atirado. Não sobre ele".

Segundo Horst Rippert, o facto de ter abatido o seu herói levou-o a ocultar a verdade durante todo este tempo, bem como o temor de que ela prejudicasse a sua carreira, que o levou a dirigir a editoria de Desporto do canal televisivo ZDF e a fazer parte da organização dos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972.

Continuam, no entanto, a subsistir dúvidas sobre se Saint-Exupéry terá mesmo sido abatido por um avião inimigo. Há quem persista em insistir na tese de avaria, e até na de suicídio.

O escritor Jules Roy, grande amigo de Saint-Exupéry, investigou longamente a sua morte para o livro Passion et Mort de Saint-Exupéry (1951), e não encontrou referências, nos arquivos da Luftwaffe, a um combate aéreo no sector em que o avião se despenhou, mas apenas à sua queda.

E no número de Março/Abril da revista francesa Nouvelle Revue D'Histoire, o seu director, o historiador e escritor Dominique Venner, insiste na possibilidade de Saint-Exupéry se ter suicidado, por se encontrar seriamente deprimido.- E.B.


Ex-piloto alemão reconhece ter matado Saint-Exupéry

16.03.2008





O aviador
não sabia que quem pilotava
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o Lightning
P38 era o escritor
cuja obra adorara
a Um antigo piloto alemão, Horst Rippert, reconheceu ter sido o autor dos disparos que abateram o avião de Antoine de Saint-Exupéry em 1944 sobre o Mediterrâneo. Não sabia quem pilotava o aparelho.
"Foi só depois que soube que era Saint-Exupéry. Esperava que não ti-
vesse sido ele, porque na nossa juventude todos tínhamos lido os seus livros e adorávamo-lo", declarou ao jornal francês La Provence, que investigou o caso.
O autor do Principezinho, a mais conhecida das suas obras, traduzida para mais de cem idiomas, foi abatido a 31 de Julho de 1944. Descolara na sua base na Córsega para uma missão de reconhecimento a bordo de um avião Lightning P38. Era um piloto experimentado. Não voltou à pista.
O corpo do aviador francês nunca foi encontrado. Em 1998, um pescador achou entre as suas redes uma pulseira que lhe pertenceu. Seis anos depois, os restos do seu avião foram encontrados em frente à costa de Marselha. Mas nunca se esclareceu o caso.
"Podem deixar de o procurar. Fui eu quem abateu Saint-Exupéry", dis-
se o piloto alemão, hoje com 88 anos, quando foi referenciado pelos investigadores do jornal francês.
Horst Rippert estava há duas semanas de serviço no Sul da costa fran-
cesa, quando naquela manhã viu o Lightning e se dirigiu para ele. Perseguiu-o e disparou contra ele vários tiros. Reparou no avião a cair mas não se inteirou do que acontecera ao piloto.

Os amercianos incendeiam as suas casas

Americanos incendeiam casas para pagar hipotecas
http://dn.sapo.pt/2008/03/16/economia/americanos_incendeiam_casas_para_pag.html

VÍTOR MARTINS
Objectivo é conseguir receber os seguros para liquidar dívida à banca

Desesperadas, sem conseguirem pagar as hipotecas, muitas famílias norte-americanas estão a recorrer a medidas extremas - incendeiam as casas, na tentativa de conseguirem cobrar os seguros e, assim, pagarem as dívidas aos bancos. É o lado mais dramático da crise dos créditos imobiliários de alto risco (subprime).

Só na Califórnia, os incêndios provocados pelos próprios proprietários duplicaram em relação ao ano passado e em outras regiões do país, como no Colorado, os números também aumentaram substancialmente, refere a agência Efe. "Não é um fenómeno global e não faz qualquer sentido", contrapõe Marietta Rodríguez, directora financeira do programa hipotecário da NeighborWorks America, uma organização que dá aconselhamento a pessoas que já não conseguem fazer frente aos encargos com os empréstimos.

"Queimar a casa não é solução para nada. Para onde vão morar depois? E só agravam a sua situação financeira - as seguradoras investigam os incêndios e acabam por não pagar as apólices; os donos das casas, pelo contrário, têm de suportar as custas judiciais e continuam sem dinheiro."

Mas, apesar disso, na Internet começam a proliferar blogues de pessoas que, sem saídas para os seus problemas financeiros, pedem conselho sobre a melhor maneira de incendiar as suas casas (enganando as seguradoras) e quais os trâmites a seguir posteriormente.

Num país que se habituou a viver a crédito, a crise do subprime - que nos últimos meses encheu páginas de jornais por causa dos problemas financeiros que criou a muitos bancos, à beira da falência, e da ameaça de lançar a economia dos EUA numa recessão - atinge dimensões alarmantes.

"Recebemos cinco mil chamadas por dia", confessa a NeighborWorks, "na sua maioria de afro-americanos e latinos, em situação desesperada e com medo de perderem as suas casas."

A associação criou já uma linha de atendimento, a Hope Now, que funciona 24 horas por dia. Neste serviço de atendimento trabalham assessores, investidores e especialistas em empréstimos, que procuram encontrar soluções alternativas para quem está em risco de perder a casa por não conseguir pagar a hipoteca.

Uma tarefa que se adivinha gigantesca - há apenas uns dias, o banco de investimento norte-americano Goldman Sachs calculou que, até ao final deste ano, 30% das hipotecas estarão em situação de incumprimento ou já em processo de execução judicial.

Um ano depois sabia-se

Sobreviventes de My Lai perdoam, mas não esquecem
http://dn.sapo.pt/2008/03/16/internacional/sobreviventes_my_perdoam_nao_esquece.html
POR Helena Tecedeiro

os soldados entraram na aldeia com ordens
as ordens eram para matar o que se mexesse
e um ano depois sabia-se do massacre de 504

no centro da aldeia fazem-se preparativos
os monges rezarão
o director do museu, que sobreviveu, perdeu uma mãe e irmãos

mataram os animais e não pouparam ninguém
alguns habitantes fingiram-se de mortos
durante horas

o presidente salvou um dos tenentes da prisão perpétua
e guerra terminou em 1975
com a morte de 58 mil americanos e dois ou quatro milhões de vietnamitas

apesar da ira, hoje as relações são boas

sábado, março 15, 2008

Snuppy
http://jornal.publico.clix.pt/default.asp?url=%2Fmain%2Easp%3Fdt%3D20080314%26page%3D12%26c%3DC
14.03.2008


Dentro de um mês, o primeiro cão clonado do mundo vai fazer três anos. Os seus "pais" esperam agora clonar um pitbull para uma cliente norte-americana


"Snuppy a descansar"; "Snuppy a correr"; "Snuppy a ladrar." Snuppy, simplesmente, a posar para a fotografia durante uma sessão fotográfica que decorreu na quarta-feira na Universidade Nacional de Seul (SNU), na Coreia do Sul.
Snuppy - o nome é uma mistura de SNU e puppy (cachorro em inglês) - é um galgo afegão muito especial: é um gémeo perfeito do seu pai genético e não tem mãe. Snuppy é um clone e nasceu a 24 de Abril de 2005, da orelha de Tei, um outro galgo afegão então com três anos de idade.
Trata-se do primeiro cão clonado do mundo, através da mesma técnica que deu origem à ovelha Dolly. Não é fácil clonar cães. Hwang Woo-suk e os seus colegas da SNU precisaram de implantar mais de mil embriões no útero de 123 cadelas, obtendo somente três gravidezes e, finalmente, um único sucesso. A seguir, elementos da mesma equipa afirmaram ter clonado também uma cadela, mas o facto é que mais ninguém no mundo conseguiu repetir o feito.
A receita da clonagem: pega-se numa célula de um cão adulto e num ovócito de cadela previamente esvaziado dos seus genes; funde-se a célula adulta com o ovócito e estimula-se o conjunto com uma descarga eléctrica, o que desencadeia a formação de um embrião. Implanta-se o embrião no útero de uma cadela que, se tudo correr bem, dará à luz, após cerca de dois meses, um cachorro em tudo idêntico ao doador da célula adulta inicial.
O entusiasmo em torno da clonagem de Snuppy

"Madre Teresa tinha o desejo de ser santa"
http://dn.sapo.pt/2008/03/15/internacional/madre_teresa_tinha_o_desejo_ser_sant.html

JOÃO CÉU E SILVA
A tradução das cartas polémicas permite compreender crises de fé
A canonização de madre Teresa de Calcutá aguarda por um milagre reconhecido para o processo poder prosseguir mas, enquanto não acontece, o padre Brian Kolodiejchuck percorre o mundo a divulgar o livro que coordenou e no qual a futura "santa" comenta as "crises" de fé.

O padre discorda desta interpretação e acusa a revista Time de ter feito uma leitura de Vem, Sê a Minha Luz - Os Escritos Privados da "Santa de Calcutá" que não é correcta e, de passagem por Portugal para promover o volume que reúne parte das cartas escritas pela madre, nega que a freira tenha alguma vez duvidado da existência de Deus. O que aconteceu foi que "teve uma revelação e depois perdeu o contacto". O postulador da "santa" considera que madre Teresa nunca duvidou da existência de Jesus, porque "para isso é necessário duvidar a nível intelectual de Deus e tal não aconteceu. A dado momento sentiu-se desorientada, refere-o numa carta, mas logo a seguir pedia desculpa a Jesus e confessava que não gostava dos seus sentimentos".

Questionado sobre se madre Teresa acreditava em vida que era santa, o padre Kolodiejchuck refere que "ela tinha o desejo de o ser e quando lhe perguntavam como se sentia respondia que não era nada de extraordinário porque a santidade está ao alcance de todos". Acrescenta que madre Teresa "dizia frequentemente que desejava essa graça de Jesus, ser santa, mas também afirmava que queria dar santos à Igreja". Confessa que pensa que a freira "acreditava que iria ser canonizada. As suas cartas mostram os aspectos profundos dessa santidade, e mesmo na Igreja se, ao princípio, achavam que era apenas uma pessoa boa, depois mudaram de opinião".

Quanto às cartas que compõem este livro não perfazerem a totalidade das que escreveu, o padre Brian diz que dariam para mais um livro igual mas que "estão aqui todas as que temos sobre o período da escuridão", ou seja, a parte da sua vida em que "Jesus não lhe enviou qualquer sinal sobre o seu trabalho, facto que lhe provocou imensa dor, pois tinha tido de Cristo a revelação da vocação." Quando chegou à Índia, "escreveu cartas comovedoras, que eram uma ajuda psicológica, tal como aconteceu a Teresa D'Ávila, porque também não revelava a sua experiência, nem falava na vida interior privada e do passado familiar. O foco que pretendia era no seu trabalho".

A particularidade de a madre Teresa se referir sempre a Jesus em vez de a Deus é explicada por ser "cristocêntrica. Jesus é o foco principal e, apesar de não existir explicitação da Santíssima Trindade, ela não a ignora. Está apaixonada por Jesus, a quem se ofereceu desde criança, diz que Jesus é o seu primeiro amor e estará concentrada n'Ele". Esta é, diz, situação muito frequente entre as freiras, "decidir ser esposa de Jesus crucificado".

quarta-feira, março 12, 2008

Vaticano "actualiza" a lista de pecados e adapta-a aos tempos modernos
Polui? É melhor confessar-se
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1322151&idCanal=62
10.03.2008 - 16h28 PÚBLICO, com Reuters
Não poluirás a terra. Serás contra a manipulação genética. Não traficarás droga... Novos tempos, novos pecados. Pelo menos esta é a ideia de um responsável do Vaticano, que indicou este fim-de-semana o que poderia ser uma lista dos novos pecados originados pelos “demónios” dos tempos modernos, com o objectivo de manter os fiéis informados. Não são os pecados originais, mas originalidade não lhes falta.

O arcebispo Gianfranco Girotti referiu-se este fim-de-semana aos males modernos e à área, por vezes obscura, dos pecados e da penitência. Questionado sobre o que seriam os novos pecados da nossa era, o arcebispo disse ao jornal “L´Osservatore Romano” que, neste momento, o maior perigo para a alma humana é o mundo desconhecido da bioética.

“Dentro da bioética há áreas onde devemos denunciar, sem qualquer espécie de dúvida, algumas violações dos direitos fundamentais do ser humano, nomeadamente algumas experiências de manipulação genética, cujo resultado é difícil de prever e controlar”, acrescentou Girotti.

O Vaticano opõe-se às investigações que recorram a células estaminais e que envolvam a destruição de embriões, pois teme as prospecções que tenham como objectivo a clonagem humana.

Um Vaticano verde
Mas o Vaticano tem também aspirações mais verdes. Girotti apelou a uma maior consciência ambiental e colocou na lista de pecados as ofensas ecológicas. Estas recomendações vêm no seguimento do discurso do Papa Bento XVI, que tem apelado para a protecção ambiental, considerando que as alterações climáticas se tornaram extremamente importantes para a Humanidade.

E para provar que o Vaticano quer reduzir a sua pegada ecológica, os seus edifícios contam agora com painéis fotovoltaicos para a produção de electricidade. Recentemente, foi também anfitrião de uma conferência científica para discutir as ramificações do aquecimento global e das alterações climáticas, para as quais em muito contribui o uso humano de combustíveis fósseis.

Girotti, um dos responsáveis pelos assuntos de “penitência apostólica” e de consciência dentro do Vaticano, acrescentou à lista o tráfico e o consumo de drogas e as injustiças sociais e económicas. No entanto, frisou que o aborto e a pedofilia continuam a ser preocupações centrais para a igreja.

O arcebispo aproveitou a oportunidade para relembrar que faltar à tradicional confissão católica continua, apesar da sua longevidade, a ser um acto condenado pela instituição. Para se apoiar nas estatísticas, porque afinal a igreja também tem "rankings", a Universidade Católica de Milão estima que cerca de 60 por cento dos fiéis italianos deixaram de se confessar, dispensando a absolvição dos seus pecados em nome de Deus. De acordo com o mesmo estudo, 30 por cento dos católicos do país não sente necessidade de contar as falhas a um padre e 20 por cento sente-se pouco à vontade a falar dos seus pecados com outras pessoas.

Com uma crescente preocupação com as questões ambientais sobra uma pergunta: será que a eleição de um novo Papa vai ser anunciada com fumo branco?

Já há formigas no fim do mundo
http://jornal.publico.clix.pt/
12.03.2008, Nuno Amaral


Em Ushuaia, Terra do Fogo, os efeitos do aquecimento global sentem-se primeiro. Os glaciares já não são o que eram, as temperaturas atingem máximos inéditos na cidade.
A visão dos insectos que até há poucos anos fugiam da temperatura deste extremo do hemisfério sul prova que as coisas estão a mudar



O tom grave parece demasiado solene para a frase que se solta: "Já há formigas em Ushuaia." Ricardo Uribe olha fixamente para o horizonte, contrai os músculos da cara e põe as mãos em riste em sinal de catástrofe anunciada. Depois sorri, diz que os "senhores do mundo" têm de pensar nisto. Até porque "isto" não é uma analogia com objectivo fútil. "É urgente que se saiba, já temos formigas no fim do mundo." O rodapé do sound-byte poderia ser: Fevereiro de 2008, o alerta ecológico de um antropólogo, Ushuaia, Terra do Fogo, Argentina, fim do mundo.

Buenos Aires está a 3100 quilómetros, a Antárctida a 1000. Os efeitos das alterações climáticas mesmo ali ao lado, quando não dentro de casa, através da inédita visão dos insectos que até há poucos anos fugiam da temperatura deste extremo do hemisfério sul. Captado o contexto, o tom e o conteúdo do discurso ganham sintonia. E Uribe, o antropólogo, avisa que essa é só uma parte da história, apenas um primeiro sinal. "Basta olhar para os glaciares para se perceber o resto." O resto já foi exposto ao mundo em forma de prognóstico pelo Painel Intergovernamental sobre a Mudança Climática (IPCC na sigla em inglês): até 2100 a temperatura média anual no mundo pode aumentar entre quatro e quase seis graus.
Ushuaia está encafuada entre o braço de mar do Canal Beagle e uma imensidão de montanhas. Ali bem perto começa, ou acaba - no fim do mundo as duas leituras são sempre aceitáveis -, a cordilheira dos Andes. Há muitas máquinas fotográficas, algumas estupefacções. De qualquer parte da cidade consegue ver-se a ponta branca do Glaciar Martial. Carla Fulgenzi diz que aqui o cliché "a tradição já não é o que era" faz sentido. "Há uns anos, mesmo nestes meses de Verão, o glaciar estava coberto por um enorme manto de neve gelada, agora vê-se apenas um pedaço." A jornalista e activista de direitos humanos largou Buenos Aires há 20 anos. Fartou-se do bulício. E que melhor lugar para recomeçar do que o fim do mundo? "Ou o início", prefere. "No fim começa-se sempre." Agora diz-se ambientalista militante, tem o discurso arrumado e parece estar à espera de perguntas. "Uma notícia do fim do mundo?", repete. "As consequências do aquecimento global atingem proporções preocupantes." Garante que essa é a manchete do momento e que há-de repetir-se por vários anos. "Por norma o Verão em Ushuaia tem temperaturas que oscilam entre os 10 e os 15 graus. Este ano tivemos 30."
Antárctida a 15 graus
Ushuaia tem o mar como boca de cena. Quase 65 mil habitantes, um sem-número de turistas. Pela frente, no outro lado do canal Beagle, a ilha Navarina, território chileno onde existe um pequeno povoado, tão pequeno que não rivaliza com o estatuto de "cidade do fim do mundo" reivindicado pelo extremo da Argentina. Para sul, só a Antárctida. Carla Fulgenzi brinca, diz que "por enquanto" a descrição pode ser essa. "Espero que daqui a 20 ou 40 anos ainda possamos descrever Ushuaia com essas pinceladas geográficas, isto pode mudar tudo." Como autodidacta, sabe que o nível da água do mar pode subir. Expõe com orgulho que lê muito sobre o assunto. Sabe que os pólos serão as primeiras regiões a ser afectadas pelas alterações climáticas. Sabe que, entre 2002 e 2005, a NASA observou que a Antárctida perdeu entre 72 e 232 quilómetros cúbicos de gelo por ano. Os sinais detectados por Ricardo Uribe voltam a ecoar: "Veja o absurdo, recentemente a Antárctida registou 15 graus positivos, isto é uma aberração."
Bem no centro de Ushuaia funciona o Centro Austral de Investigação Científica. Dali partem investigadores para a Antárctida e para a cordilheira dos Andes. Rodolfo Iturraspe, coordenador do grupo de Neve e Gelo, ligado à UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura), frisa que "a preocupação com as alterações climáticas" absorve a atenção dos 25 académicos que ali trabalham. "Desde 1900, o Glaciar Martial perdeu 60 por cento de área", diz, "mas o mais grave é que o desgaste se intensificou muito rapidamente nos últimos anos, a velocidade tem sido surpreendente." O pior, lamenta, é que já nada poderá ser reposto. Os glaciares já não retomam as dimensões habituais, nem ali, nem em Perito Moreno, no Chile. "Agora temos de tentar preservar a todo o custo o que ainda resiste e tentar travar, de todas as formas, o progresso do aquecimento global." Ainda assim, o investigador tenta sossegar os mais aflitos, aconselhando as pessoas a adaptarem-se às mudanças e a deixarem "definitivamente" de brincar com o planeta. E ensaia um sorriso apaziguador. "No Pólo Norte, com o degelo completo previsto para dentro de 50 anos, podem surgir novas rotas comerciais; no Sul mudarão as correntes, o que trará modificações nas cadeias alimentares."
Várias organizações de Ushuaia associaram-se ao mote lançado pelas Nações Unidas, que declararam 2008 o Ano Internacional da Terra. Carlos Ortiense dirige a agência Glaciar Turismo e implementou um conceito pedagógico nas excursões que organiza. A cada turista é fornecido um pequeno conjunto de imagens para que possa constatar as diferenças entre o "antes" e o "agora", sendo o degelo o factor de disparidade. "Quando subimos às montanhas, especialmente no Verão, queremos que pessoas vejam como isto está a mudar, como estamos a dar cabo do mundo."
Penalizar quem destrói
Perto do porto, num dos cartões postais de Ushuaia, um grupo de quatro pessoas aponta para cima, para o Glaciar Martial. Wilson Costa vive em Washington. É brasileiro e achou que tinha chegado a altura de trazer a família ao fim do mundo. Já não podia adiar a viagem, temeu que fosse tarde demais. "Vim mostrar os glaciares aos meus filhos enquanto ainda cá estão", diz. Wilson Costa saiu do Brasil há 18 anos e pratica esqui há dez: "O pior é que está a ficar tudo igual, desde os Alpes, aos Himalaias, ao Alasca." Elogia os alertas da ONU e a acção de várias ONG. Mas diz que isso não basta, que a espécie humana só reage perante penalizações. "Ou se penaliza de facto quem polui, quem destrói a camada de ozono, ou então isto nunca mais pára."
Ali bem perto do porto, onde atracam grande parte dos cruzeiros que vão ou vêm da Antárctida, há um pequeno grupo de teatro. Los Interventivos, lê-se numa placa afixada num portão de garagem. Ao lado, um pequeno cartaz anuncia que a 14 de Março estreia a peça Olvidate. "É uma maneira de alertarmos consciências, de dizermos às pessoas para esquecerem [olvidarem] o que isto já foi, a paisagem está a mudar, ainda que lentamente", diz Luiz Alonso, actor. O encenador não está.
Nas escolas da cidade, a disciplina de Ciências da Natureza aborda temáticas de preservação do meio ambiente. Carla Fulgenzi detectou-o ao ajudar o filho de 11 anos a fazer os trabalhos de casa. "Que pelo menos essa geração corrija os erros que a minha fez em termos de respeito pela Terra." Depois a ambientalista irrita-se, a voz fica tensa. "Isto está como viu, e sabe o que é notícia nos jornais locais? Não são os 30 graus em Ushuaia, é a chegada ao porto de um cruzeiro gay."

terça-feira, março 04, 2008

Elas pensam no abstracto... ... Eles têm imagens e sons
http://dn.sapo.pt/2008/03/04/ciencia/elas_pensam_abstracto__eles_imagens_.html
FILOMENA NAVES

Já se sabia que as competências linguísticas de rapazes e raparigas não são exactamente iguais: as raparigas mostram em geral mais aptidões a este nível. Mas não havia qualquer prova de uma base biológica para esta realidade. Uma experiência realizada por investigadores dos Estados Unidos e de Israel, com rapazes e raparigas entre os nove e e os 15 anos, veio agora demonstrar que isso é mesmo assim. E apresentam pela primeira vez prova disso.

"Os nossos resultados sugerem que o processamento da linguagem é mais sensorial nos rapazes e mais abstracto nas raparigas, o que pode ter implicações importantes no ensino dos jovens, e funcionar como um argumento de peso a favor dos que defendem turmas separadas de rapazes e raparigas nestas idades", adiantou Douglas Burman, da universidade Northwestern (EUA) e um dos autores do estudo, que é publicado na edição de Março da revista Neuropsychologia.

A equipa estudou a actividade cerebral de 31 rapazes e 31 raparigas utilizando ressonância magnética funcional (para visualizar a actividade cerebral in vivo) enquanto os jovens desenvolviam tarefas de ortografia e de escrita. As palavras eram apresentadas por estímulo auditivo (eram ditas), ou visual (por escrito) e apenas sob uma forma de cada vez, nunca as duas juntas.

Utilizando métodos estatísticos, os investigadores verificaram as diferenças associadas à idade, sexo, tipo de raciocínio linguístico e desempenho verbal e descobriram que as raparigas mostravam ter uma maior activação nas áreas cerebrais da linguagem do que os rapazes durante as tarefas. E, sobretudo, as áreas cerebrais activadas nas raparigas estavam associadas com o pensamento abstracto.

Com os rapazes, no entanto, as coisas não se passaram assim e o seu desempenho linguístico mostrou estar mais ligado à activação das áreas sensoriais da visão ou da audição, consoante as palavras eram apresentadas por escrito ou ouvidas.

A explicação para isto não é clara. Uma possibilidade, dizem os investigadores, é que o processamento sensorial nos rapazes retém a informação, o que torna mais lenta a chegada do estímulo às áreas da linguagem. Outra hipótese é que nos rapazes sejam criadas associações visuais ou auditivas, de forma que a simples audição ou visualização das palavras evoque os seus significados. Não é ainda claro no entanto, se estas diferenças permanecem na idade adulta. Isso será certamente tema para outros estudos. |