CSI Gólgota
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21.03.2008, Ana Gerschenfeld
De que morreu Jesus na cruz? De asfixia, de embolia pulmonar, de choque hemorrágico? Quase dois mil anos depois da fatídica sexta-feira que hoje se celebra, não existem certezas. Nem sequer quanto à maneira exacta como Jesus foi crucificado, o que em princípio permitiria determinar a causa da sua morte
A cadeia de televisão britânica BBC desencadeou uma controvérsia esta semana com a difusão no Reino Unido de uma série de quatro episódios, intitulada A Paixão, que relata os últimos dias da vida de Jesus, da chegada a Jerusalém à descoberta do seu túmulo vazio, passando pela Última Ceia, a sua condenação à morte e o seu martírio, que culmina com a sua crucificação no Gólgota. Uma das razões do desagrado evidenciado por alguns sectores da Igreja Anglicana é que, neste telefilme, Jesus é pregado na cruz numa posição quase fetal, que não corresponde àquilo que séculos de iconografia do trágico episódio fundador do cristianismo nos têm mostrado.
Há dois mil anos, os Romanos atingiram níveis de sofisticação infinitamente cruéis para prolongar o sofrimento e a dor dos condenados a esta morte atroz e humilhante. Mas o certo é que não subsistem hoje nenhumas "instruções" sobre como proceder a uma crucificação, escreviam em 2006 Matthew Maslen e Piers Mitchell, investigadores médicos do Imperial College de Londres no Journal of the Royal Society of Medicine. Os pormenores, salientavam, terão variado conforme as regiões, a época, o estatuto social e o crime imputado ao condenado. Existem alguns testemunhos directos, como o do historiador judeu Flávio Josefo ou do filósofo romano Séneca, o Jovem, que confirmam a diversidade das posturas sadicamente inventadas pelos carrascos: de cabeça para cima ou para baixo, com os braços e os pés pregados ou amarrados em variadas posições, por vezes com pregos espetados nos órgãos genitais. Nada a ver com a postura digna em que Jesus costuma ser representado nos quadros e esculturas desde a Idade Média.
Uma coisa que ninguém parece pôr em causa, contudo, é o facto de que o calvário começava sempre, porque a lei assim mandava, por uma flagelação. E foi assim que começou para Jesus e para milhares de vítimas que foram submetidas a esta forma de execução ao longo de vários séculos.
A Paixão segundo o JAMA
Em 1986 - 20 anos antes do artigo de Maslen e Mitchell -, William Edwards, patologista da célebre Mayo Clinic norte-americana, juntamente com um ilustrador médico e um pastor metodista, tinham publicado outro texto, no Journal of the American Medical Association (JAMA) que se tornou uma referência. Nele, relatavam as últimas horas da vida de Jesus tentando perceber a cada passo, com base nos dados históricos e arqueológicos disponíveis, o que Jesus terá tido de suportar e as diversas patologias que o terão afectado devido aos maus tratos que antecederam a crucificação. Objectivo final: determinar as causas da sua morte.
O relato lê-se como um "conto clínico". Resumindo: após a Última Ceia, a celebração da Páscoa judia, Jesus e os seus discípulos deslocaram-se, por volta das nove da noite, ao Monte das Oliveiras. Aí, Jesus, sabendo que iria morrer em breve, sentiu-se extremamente angustiado e o seu suor transformou-se em sangue, segundo os Evangelhos. Um fenómeno que, apesar de muito raro, é conhecido dos médicos: trata-se de uma "hematidrose", escrevem os autores no JAMA, e pode ocorrer em situações de stress emocional extremo.
Pouco depois da meia-noite, Jesus foi preso e, entre a uma e as nove da manhã, foi julgado pelos judeus e pelos romanos e condenado à morte. Durante essas horas não dormiu, não bebeu nem comeu, foi violentamente espancado várias vezes, teve de se deslocar a pé entre os diversos tribunais. Em particular, a flagelação prevista na lei romana tê-lo-á deixado às portas da morte. "Com a dor e a perda de sangue generalizada estavam reunidas as condições para um choque circulatório", escrevem ainda.
Seguiu-se o caminho até ao Monte Gólgota, um percurso de poucas centenas de metros, com Jesus, fortemente escoltado, a transportar o patíbulo (a viga horizontal da cruz) amarrado por cima dos ombros (os autores referem que a cruz inteira teria pesado mais de 135 quilos e que o poste horizontal era uma estrutura permanente do Gólgota). Jesus, porém, estava tão fraco que não conseguiu transportar a viga até ao destino, tendo sido substituído por Simão de Cirena por ordem dos romanos.
No local da execução, uma vez os pulsos (e não as mãos) pregados ao patíbulo, Jesus terá sido içado e o patíbulo encaixado no poste vertical, conferindo à estrutura resultante a forma de um T (e não a da habitual cruz latina). A última fase consistiu em pregar os pés de Jesus directamente no poste vertical.
Numa tal posição a respiração torna-se extremamente difícil, explicam ainda os autores: "O principal efeito fisiopatológico da crucificação, para além da dor insuportável, é uma marcada interferência com a respiração normal, em particular a exalação." E concluem que Jesus terá, ao fim de seis horas, morrido principalmente de asfixia, embora com outros factores a precipitarem o desenlace: choque hemorrágico, desidratação, arritmias cardíacas devidas ao stress, deficiência cardíaca aguda com acumulação interna de fluidos. Este último elemento explicaria porque, tendo dado Jesus por morto, o soldado que lhe espetou a lança nas costelas provocou a libertação de líquido e sangue, tal como relatado nos Evangelhos.
O jovem crucificado
Quanto à posição do crucificado, a descrição dos autores do JAMA coincide razoavelmente com a encenação agora produzida pela BBC. Escrevem: "Para conseguir [pregar os pés directamente no poste vertical], a flexão dos joelhos poderá ter sido bastante proeminente e as pernas flectidas poderão ter ficado viradas para o lado." Portanto, quase em posição "fetal". Porque é que concluem que a posição terá sido tão pouco "ortodoxa"? Porque, tal como os produtores da série televisiva, baseiam-se no único achado arqueológico conhecido até hoje de uma crucificação.
Em 1968, perto de Jerusalém, foi acidentalmente descoberta uma sepultura que continha ossadas de um homem entre os 24 e os 28 anos, datadas do primeiro século da era cristã. E um dos ossos encontrados é um fragmento do calcanhar direito do jovem - identificado no túmulo como "Jehohanan, filho de Hagkol" - atravessado lateralmente, da direita para a esquerda - e não da frente para atrás - por um grande prego. Jehohanan foi crucificado, no máximo, umas décadas antes ou a seguir a Jesus.
Os especialistas explicam a rareza do achado argumentando, entre outras coisas, que os pregos eram retirados aos cadáveres após a crucificação - eram considerados amuletos - e que os corpos não eram normalmente enterrados nem devolvidos às famílias, mas atirados em lixeiras para serem devorados por animais vadios - a derradeira humilhação. O caso de Jehohanan é de facto excepcional.
Voltando às possíveis causas de morte de Jesus, há cerca de dez hipóteses alternativas que têm vindo a ser propostas. Há quem afirme, como Benjamin Brenner, do Centro Médico Rambam de Haifa, Israel, num artigo publicado em 2005 no Journal of Thrombosis and Haemostasis, que a responsável foi um embolia pulmonar. E, por incrível que pareça (dada a violência extrema do suplício), há mesmo quem negue, como o médico forense espanhol Miguel Lorente Acosta, autor do livro 42 días: Análisis forense de la crucifixión y la resurrección de Jesucristo, que Jesus tenha morrido na cruz. Apenas terá entrado em coma, a lança do soldado não o terá ferido de morte e, graças aos cuidados dos seus discípulos, terá saído do coma três dias mais tarde. O mistério do túmulo vazio explicado pela medicina.
Reconstituições macabras
Ainda mais surpreendentes nesta procura são as experiências de um outro médico forense, o mediático norte-americano Frederick Zugibe, antigo director do instituto de medicina legal do condado de Rockland, no estado de Nova Iorque. Seguindo e expandindo o trabalho "pioneiro" que o médico francês Pierre Barbet realizara décadas mais cedo pregando cadáveres a uma cruz para estudar os efeitos da crucificação, Zugibe fez experiências de crucificação (que deram origem a um livro em 2005) com voluntários humanos vivos! Em condições extremamente controladas de laboratório, em tudo compatíveis com a ética, Zugibe tentou assim reconstruir o que realmente terá acontecido naquela manhã de sexta-feira do ano 30 ou 32 da nossa era (pensa-se que Jesus terá nascido por volta do ano IV antes da nossa era, tendo morrido aos 33 anos).
A conclusão de Zugibe é que Jesus não pode ter morrido de asfixia, como afirmavam os autores do artigo do JAMA em 1986 (e o próprio Barbet). Isto porque os participantes na sua experiência, essencialmente "crucificados" à maneira dos quadros do Renascimento, não sofreram qualquer dificuldade respiratória. O que vitimou Jesus, conclui Zugibe, foi na realidade um choque hemorrágico.
Algum destes cientistas terá mesmo razão? Ninguém sabe, tanto mais quanto todos eles, sem excepção, partem de pressupostos que são, no mínimo, contestáveis e que põem em causa a qualidade das suas conclusões. É aliás essencialmente isto que Maslen e Mitchell, os dois investigadores do Imperial College, argumentavam no seu artigo do JAMA de 2006.
Um desses pressupostos é que o célebre Sudário de Turim, um pedaço de pano onde se vê a imagem de um homem que parece ter sido crucificado, é autêntico. Ora, até hoje, não há qualquer prova científica de que o Sudário, conservado na Catedral de Turim, em Itália, tenha alguma coisa a ver com Jesus. Antes pelo contrário: é possível que se trate de uma falsificação fabricada na Idade Média. "Grande parte dos argumentos de Zugibe", escrevem Maslen e Mitchell, "baseiam-se em dados vindos do Sudário de Turim. Ora, o Sudário é provavelmente uma falsificação que remonta a uma época entre 1260 e 1390 da nossa era, uma vez que as suas fibras foram datadas por três laboratórios independentes. (...) Não existem, até hoje, provas sólidas que sugiram que o Sudário de Turim possa ser utilizado como parte de um estudo científico imparcial."
Este não é o único senão nas teorias à volta da morte de Cristo. A maior parte dos autores nunca leu os textos originais, apenas traduções em inglês. "A vasta maioria [dos mais de 40 artigos avaliados neste estudo] não refere textos nas línguas originais (...) principalmente grego e latim. No melhor dos casos, há referências ocasionais a alguns documentos da época romana traduzidos em inglês. Mas nenhum dos artigos avalia as traduções, citando artigos anteriores de outros médicos. O resultado é por vezes uma série de citações erradas, muito longe do material original."
Até no que respeita aos restos de Jehohanan - "indubitavelmente um caso de crucificação", dizem Maslen e Mitchell -, tem havido interpretações incorrectas devido a uma análise inicial pouco clara do achado. Ora, segundo uma reavaliação de 1985 pelo arqueólogo Joe Zias e o médico Eliezer Sekeles (publicada no Israel Exploration Journal), os ossos dos braços e dos pulsos do jovem crucificado não apresentam ferimentos que indiquem a utilização de pregos, o que sugere que terão sido amarrados ao patíbulo e não pregados. Mais: os pregos utilizados nos pés eram na realidade muito mais curtos (11,5 cm) do que tinha sido inicialmente afirmado, o que faz, em particular, com que a única posição compatível do corpo de Jehohanan crucificado tenha sido com os pés colocados de cada lado do poste vertical. Nesta posição, Jesus teria morrido asfixiado.
Qual, afinal, terá sido a postura de Jesus na cruz e qual a causa da sua morte? Talvez nunca se venha a saber. Entretanto, como sugeria o semanário britânico Observer no passado domingo, a Paixão de Cristo é uma das "melhores histórias de sempre", para contar e tornar a contar.