"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

sexta-feira, janeiro 30, 2009

Mudança no cérebro torna gafanhotos numa praga
http://dn.sapo.pt/2009/01/30/ciencia/mudanca_cerebro_torna_gafanhotos_num.html
FILOMENA NAVES

Descoberta. Já se sabia que os pacatos insectos se podem transformar em pragas quando há ameaça de fome para a espécie. O que não se sabia é que o processo molecular passa pelo aumento dos níveis de um neurotransmissor no sistema nervoso. Isso abre caminho ao combate do problema
Um pouco de serotonina a mais no sistema nervoso e os pacatos e solitários gafanhotos-migradores e gafanhotos-peregrinos transformam-se em máquinas colectivas de devorar culturas. A descoberta de que os níveis alterados desta substância neurotransmissora desempenham um papel decisivo na mudança radical de comportamento destes insectos é publicada hoje na revista Science.

Embora este novo conhecimento não forneça automaticamente uma solução para combater as pragas em que estes gafanhotos podem transformar-se, os autores da investigação, das universidades de Cambridge e Oxford, no Reino Unido, acreditam que ele pode abrir portas a para o seu futuro desenvolvimento.

Famoso protagonista de uma das sete pragas do Egipto, no Antigo Testamento, o gafanhoto-peregrino transforma-se numa ameaça quando se juntam um mínimo de 500 destes insectos adultos por hectare. Já com o gafanhoto-migrador, que existe na Europa do Sul e em África, isso só acontece quando há dois mil insectos por hectare, de acordo com os peritos da FAO, a organização da ONU para a alimentação e agricultura.

Quando passam de animais solitários a gregários, estes gafanhotos transformam-se e assumem aspectos de tal forma diferentes na cor, na morfologia e no comportamento que os entomologistas (os biólogos que estudam os insectos) pensavam até 1921 que se trava de espécies diferentes.

Na década de 90, os cientistas descobriram que, antes de se tornarem gregários, estes animais têm um comportamento específico: chocam entre si e tocam-se nas patas traseiras. Em laboratório, bastam duas horas de estimulação nessas patas para que os gafanhotos passem de um comportamento solitário a um comportamento de grupo. Eles fazem-no como estratégia de sobrevivência, quando o alimento escasseia e é necessário procura-lo noutro local, mas desconhecia-se que mecanismo molecular está na base deste processo.

A equipa liderada por Michael Anstey, da Universidade de Oxford, descobriu agora que os níveis de serotonina alterados ditam o processo. Sobem durante o período em que os gafanhotos se entrechocam e se tocam. E na fase gregária tornam-se três vezes mais altos. Experiências em que os níveis de serotonina foram aumentados nos gafanhotos mostraram que eles sofrem uma mudança para a sua faceta gregária.|

encontrar solução para todos os problemas do mundo

Klaus Schwab O artista do poder
http://jornal.publico.clix.pt/
30.01.2009, José Vítor Malheiros


É um dos homens mais influentes do mundo e diz que o seu objectivo é ajudar a encontrar a solução para todos os problemas do mundo, da fome ao terrorismo e da guerra às alterações climáticas. É o patrão de Davos


O que o homem faz é basicamente uma lista de convidados. Só que é uma lista de convidados especial, para um encontro especial. Os convidados deste ano são 2500 e o grupo tem a particularidade de incluir, como sempre, 20 ou 30 das pessoas mais poderosas de cada um dos 96 países representados. São banqueiros, chefes de Estado (este ano são 40), empresários de sucesso, ministros das Finanças e de outros comércios, escritores na berra, dirigentes de organizações internacionais, visionários da estratégia, estrelas do entretenimento, filantropos notórios, celebridades várias, chefes religiosos, líderes de ONG, um leque tutti-frutti ma non troppo de políticos, consultores, académicos e jornalistas (a assistir mas também a participar ou a moderar debates).
A reunião chama-se World Economic Forum ou simplesmente Davos (o nome da estância de esqui suíça onde tem lugar desde 1971) e ele, o homem que faz a lista de convidados e que garante que "quando se vai a Davos se pode ter a certeza de encontrar pelo menos metade dos dez ou 20 players de topo da economia, da política e dos negócios de cada país", é Klaus Schwab, um engenheiro mecânico e economista de 70 anos de idade, alemão nascido a cavalo na fronteira suíça, fundador, anfitrião, animador, patrão, dançarino exímio e senhor todo- -poderoso da mais influente das reuniões internacionais, onde são debatidas (se não inventadas) as ideias que hão-de fazer mexer o mundo. Ou, se não o mundo todo, pelo menos uma parte importante do mundo dos negócios, da finança e da política.
Fora
Para ter o direito de entrar em Davos é preciso pagar - além do fee da reunião (um pouco mais de 13.000 euros), há empresas associadas que pagam quase 30.000 euros por ano, o que lhes garante um lugar na reunião anual. Mas não se pense que basta ter dinheiro. O principal papel de Schwab é podar os ramos menos interessantes e muitos são os pretendentes mas poucos os escolhidos. Schwab apenas quer as pessoas que contam, as que vão ter o poder, a imaginação, a riqueza e a oportunidade de moldar o mundo e isso requer um staff dedicado de olheiros, uma rede internacional de contactos que cobre as principais instituições do mundo, rigor na análise, intuição e uma mão impiedosa no momento de desferir a estocada mortal. Todos os anos há umas dezenas de empresas que, como Schwab diz, "deixam de preencher os critérios" para pertencer ao clube e às quais é preciso pedir para sair. Schwab diz que é "uma das tarefas mais duras que lhe compete" mas todos reconhecem que o faz sem contemplações. Davos tem de reunir, em cada momento, ano após ano, la crème de la crème, e as corporações que deixam de ser sinónimo de inovação e de sucesso não têm lugar entre os escolhidos. E é claro que, para além das empresas (três quartos dos participantes são empresários e gestores), há os convidados. Angelina Jolie, Bono, Claudia Schiffer ou Henry Kissinger não pagam bilhete.
Davos não começou como um World Economic Forum mas como o European Management Forum, uma (relativamente) modesta reunião de 400 empresários europeus. O objectivo do seu fundador era então difundir entre eles as inovadoras técnicas de gestão, nascidas nos Estados Unidos, que Schwab, então professor de Economia, ensinava na Universidade de Genebra. E a escolha de Davos (a montanha mágica de Thomas Mann) deveu-se não só à sua beleza natural, infra-estruturas e localização (próximo do aeroporto de Zurique), mas também ao facto de se tratar de uma pequena aldeia, onde os participantes não seriam tentados pelas atracções de uma grande cidade, para não os afastar dos debates. Hoje, seria difícil imaginar um convidado a fugir a uma sessão e há quem esteja disposto a vender um rim para poder beber um copo no famoso piano-bar ao lado de Gordon Brown ou para ouvir o primeiro-ministro da China trocar umas palavras com Putin.
O objectivo mudou: hoje Davos tem a discreta ambição de resolver os problemas do mundo. Que problemas? Todos: da crise financeira ao Médio Oriente, da fome à desertificação, das alterações climáticas ao terrorismo, nenhum objectivo parece demasiado ambicioso para este workaholic e maníaco centralizador, doutorado em Engenharia Mecânica e em Economia, mestre por Harvard, que se sentou pela primeira vez num conselho de administração aos 28 anos e que se orgulha de ainda não sentir o peso dos anos. O objectivo de Schwab é envolver as melhores pessoas do mundo em discussões transdisciplinares sobre os principais problemas do mundo e produzir conhecimento que possa dar origem a programas e iniciativas.
Schwab sublinha sempre porém que o World Economic Forum não visa pôr em prática políticas específicas, mas sim ser uma incubadora de políticas globais, uma plataforma giratória para facilitar encontros e diálogos, em mangas de camisa, sem os constrangimentos das reuniões oficiais. Aqui, toda a gente é encorajada a dizer o que lhe vai na alma e a atirar ideias loucas para cima da mesa, num brainstorming global. O atrevimento é encorajado pelo facto de que o World Economic Forum nunca faz declarações formais finais, não extrai conclusões dos seus debates nem faz recomendações. "Aqui as pessoas sabem que não vão ser manipuladas", explicava Schwab em 1999 numa entrevista à revista Wired. "Não vamos aparecer de repente com uma grande 'Declaração de Davos' que as pessoas não se vão sentir à vontade para subscrever."
O objectivo de Davos é apenas... "melhorar o estado do mundo". Schwab diz que o sucesso de uma reunião se consegue quando cada participante "leva consigo para casa uma ideia que vá ter um impacto considerável no futuro do seu país, fez um contacto que vá ter um impacto considerável no futuro do seu país ou aprendeu alguma coisa que vá ter um impacto considerável nas suas capacidades de liderança".
Pequenos Davos
Schwab nasceu na Alemanha em 1938, nas vésperas da Segunda Guerra Mundial, e diz que a sensação de atravessar a fronteira para a Suíça (o que podia fazer frequentemente, graças à origem suíça dos seus pais) e ter a experiência da guerra e da destruição de um lado e da paz e prosperidade do outro o marcou profundamente. "Bastava atravessar uma linha", conta numa entrevista à CNBC.
A experiência da reconstrução europeia no pós-guerra, por outro lado, revelou-lhe a importância da reconciliação e do diálogo - de que Davos pretende ser um exemplo. Ainda que esse não seja o objectivo da reunião em si, Davos orgulha-se dos contactos aqui havidos entre Frederik de Klerk e Nelson Mandela em 1992, ou entre Shimon Peres e Yasser Arafat em 1994 (que refere como marcos históricos no seu site), assim como de muitos outros passos informais em prol da paz, que terão aberto a porta a negociações relativas a vários conflitos. Schwab tem defendido também que a criação da Organização Mundial do Comércio (e do seu antecessor, o General Agreement on Tariffs and Trade-GATT) se deve à acção do World Economic Forum.
Hoje Davos não é só Davos. Há dezenas de reuniões organizadas pelo World Economic Forum noutros países para discutir questões sectoriais ou regionais que alargam o espectro de acção da organização - e o poder do seu criador. Schwab porém não se vê como um poderoso ele próprio. A maneira como prefere que o vejam é como "um artista" ou "um encenador". Alguém que "escolhe os actores, escolhe o argumento e reúne os espectadores" (Wired). E, tal como um artista, Schwab não se sente obrigado a reformar-se no sentido clássico. "Um artista nunca se reforma. Ao longo da história, os bons artistas continuam a trabalhar até serem incapazes de criar. Eu reformar-me-ei quando já não conseguir fazer o meu trabalho" (CNBC).
Por enquanto, Schwab parece decidido a continuar a pilotar o barco e nos últimos anos inflectiu mesmo o rumo da organização, que passou a privilegiar novas preocupações sociais (e a incluir ONG e activistas) que pareciam distantes das suas motivações há uma década. O cantor Bono (participante regular, ainda que ausente este ano) classificou uma vez Davos como um encontro de "ricaços na neve" e o Forum tem sido objecto de contestação violenta por parte de organizações "antiglobalização" que o vêem apenas como uma organização de ricos empenhada em inventar novas maneiras de enriquecer uns quantos à custa de todos os outros. Schwab contesta as acusações e irrita-se à sugestão de que os seus convidados possam ser parasitas sociais. "Os participantes de Davos não são membros do jet set que passam a vida em leilões da Sotheby's e que por acaso têm imenso dinheiro. São pessoas que construíram alguma coisa", diz.
Apesar da sua forma física - Schwab é um maníaco do fitness e do jogging e até há poucos anos continuava a fazer alpinismo e maratonas de esqui -, a questão da sucessão tem-se colocado de forma crescente nos últimos anos. Schwab pareceu a dada altura disposto a encontrar um sucessor, mas acabou por afugentar os possíveis candidatos. Neste momento, alinha-se como possível herdeira a sua filha Nicole Schwab, 33 anos, dirigente da "organização para a juventude" (menos de 40 anos) do World Economic Forum, os Young Global Leaders.
Apesar da sua influência crescente e da sua reputação - os participantes representam muitos milhões de milhões de dólares de PIB -, Davos tem concorrentes. A Clinton Global Initiative, de Bill Clinton, tem as mesmas ambições de constituir um fórum global para discutir e ajudar a resolver os problemas do mundo e o ex-Presidente americano parece menos empenhado em transformar a organização num empreendimento dinástico do que Schwab. O mesmo Bill Clinton que ontem em Davos foi uma das estrelas da reunião.

a história do cubano que viveu 53 dias num aeroporto da costa rica

A história de José,
o cubano que viveu 53 dias num aeroporto da Costa Rica,
teve um final feliz
http://jornal.publico.clix.pt/
30 de janeiro de 2009

POR Fernando Sousa


Um refugiado cubano que passou quase dois meses a viver no aeroporto de San José, na Costa Rica, conseguiu ontem finalmente entrar no país. Mas foi preciso a intervenção do Governo, porque a própria justiça estava a ponto de o devolver à procedência - Havana.
José Ángel Roque Pérez, de 40 anos, estava por assim dizer em terra de ninguém, depois de ter tropeçado com os serviços de imigração. Comia dos tabuleirinhos da companhia que o tinha trazido, a TACA, e dormia entre duas cadeiras num canto das instalações aeroportuárias enquanto batia o pé e garantia que jamais voltaria a Cuba.
Na quarta-feira, e perante o que já se transformara num escândalo internacional, para mais passado na Costa Rica, um país cheio de pergaminhos de paz e de direitos, comparado com a maioria da América Latina, a ministra da Segurança Pública, Janina del Vecchio, actuou. E agora o fugitivo já tem casa e cama.
A saga de José começou no dia 4 de Dezembro, contou ontem o diário digital nacion.com, de San José. Apanhara em Havana um voo para Quito, Equador, mas ao que parece o que tinha no íntimo era ficar no primeiro aeroporto de escala - a capital costa-riquenha. E foi o que fez.
O problema foi que, ao tentar passar por salvadorenho, o seu sotaque traiu-o - o sotaque castelhano na região muda tanto como a paisagem. Os serviços de imigração travaram-lhe o passo e ele ficou retido num limbo onde só chega o direito internacional.
Assim que os familiares que o esperavam souberam da história, procuraram um advogado. A questão foi levada aos juízes, que se mostraram favoráveis à sua deportação. A família recorreu da decisão, os media fizeram um alvoroço, ele continuou a dizer que não saía. No domingo a provedora de Justiça, Lisbeth Quezada, apresentou um recurso de habeas corpus ao Tribunal Constitucional e anteontem a ministra da Segurança Pública considerou-o refugiado, abrangido pelo artigo 2 da Convenção sobre o Estatuto de Refugiados de 1951. E o calvário de José Pérez acabou.
O Governo deu como provado que o cubano tinha fundados "temores de ser perseguido", como diz a lei, no seu caso por ter recolhido assinaturas, em 1998, para emendas à Constituição cubana, do que as autoridades de Havana não terão gostado. Outras pessoas que tinham andado no mesmo afã estavam a ser perseguidas.
E foi esta a aventura de José Ángel Roque Pérez, técnico de electrónica, que passou 53 dias no aeroporto de San José e agora vai trabalhar como electricista na Costa Rica.

quarta-feira, janeiro 28, 2009

banqueiros e músicos

Com banqueiros e músicos desaparecidos, sobram os políticos
http://jornal.publico.clix.pt/
28.01.2009, Sérgio Aníbal


A crise económica mundial está a mudar o ambiente em Davos. Os grandes banqueiros mundiais, antes tratados como estrelas, arriscam-se agora a ser julgados


Em Davos, nos últimos anos, as surpresas já não eram muitas: as estrelas do cinema e da música defendiam mais ajuda para África e os grandes nomes da finança internacional, também tratados como estrelas, elogiavam os benefícios do liberalismo económico e da globalização. Este ano, nem uma coisa nem outra deverão acontecer.
As estrelas da edição de 2009 do encontro do Fórum Económico Mundial, que hoje se inicia em Davos, vão ser outras e a razão está no clima recessivo mundial e no aparente colapso do modo de funcionamento do sistema financeiro no mundo desenvolvido.
Perante um cenário deste tipo, as estrelas da música e do cinema parecem mais reticentes em surgir ao lado da "nata" dos líderes empresariais mundiais. Bono, uma presença constante nas últimas edições, fica desta vez em casa a preparar um novo álbum dos U2. E os banqueiros, para além de estarem ocupados a evitar a falência das suas instituições, parecem ter pouca vontade de participar num debate em que o tema principal será precisamente o falhanço da sua actividade nos últimos meses. Vikram Pandit, presidente executivo do Citigroup, já anunciou que não estará presente. John Thain, da Merrill Lynch, que estava previsto para várias intervenções, afinal não vai à Suíça, depois de ter sido retirado da chefia do banco de investimento. O Banco Goldman Sachs, conhecido pelas festas concorridas que organiza em Davos, anunciou que irá reduzir substancialmente a sua presença e não organizará qualquer evento particular.
Quem substitui os banqueiros em Davos? Os mesmos que os estão a substituir nos mercados financeiros: os políticos. A organização do encontro já anunciou que a participação de líderes políticos mundiais este ano irá bater um novo recorde, quase duplicando a do ano passado.
Gordon Brown, Vladimir Putin, Jean-Claude Trichet, Angela Merkel, Shimon Peres, Wen Jiabao são, para além dos portugueses Durão Barroso e António Guterres, algumas das figuras de Estado que deverão marcar presença em Davos até ao próximo domingo. As maiores ausências fazem-se sentir do lado da Administração Obama, que, acabada de tomar posse, deverá ser representada apenas pela conselheira Valerie Jarrett.

Mais regulação na agenda
Se os nomes fortes da equipa económica do novo Presidente norte-americano estivessem presentes, esta edição do encontro de Davos poderia tornar-se decisiva para a definição da nova arquitectura financeira internacional, até porque o tema central escolhido pela organização é "Definindo o Mundo Pós-crise".
Ainda assim, o debate nesta matéria promete ser intenso e muito diferente do de anos anteriores.
Há dois anos, ainda sem sinais de crise, não há registo de qualquer tipo de apelo a uma maior regulação. Há um ano, a crise do subprime já tinha rebentado e já se falava da necessidade de mudanças, mas o optimismo numa retoma relativamente rápida era ainda evidente, retraindo os apelos à mudança.
Agora, parece inevitável que uma maioria significativa dos participantes, habitualmente defensores de um sistema económico liberal, aceite a necessidade de mais regulação. Já no que diz respeito aos efeitos da globalização, não se esperam grandes mudanças. Os riscos de um aumento do proteccionismo devido à crise é, aliás, um dos temas marcados para debate.

o autocarro

Deus existe? Em Madrid, isso depende do autocarro
http://jornal.publico.clix.pt/
28.01.2009, Nuno Ribeiro, Madrid




Desde ontem, em oito autocarros de cinco linhas de Madrid, são divulgadas mensagens a favor e contra a existência de Deus. Em seis dos veículos há cartazes de publicidade paga defendendo a existência de Deus, enquanto em outros dois, cujo espaço publicitário foi alugado pela União de Ateus e Livres-Pensadores, a mensagem é a oposta: "Provavelmente Deus não existe. Deixa as preocupações para trás e goza a vida".
Este lema chegou a Madrid após ter "passeado" em autocarros de Barcelona e foi inspirado numa campanha idêntica da British Humanist Association no Reino Unido. Contudo, na capital espanhola, a iniciativa suscitou polémica e motivou respostas.
A primeira surgiu, há semanas, do Centro Cristão da Igreja Evangélica de Fuenlabrada, município nos arredores da capital. O pastor Francisco Rubiales optou por inserir nos autocarros que ligam Fuenlabrada a Madrid a mensagem "Deus existe". "Queremos exercer o nosso direito à liberdade de expressão, não estamos preocupados com os ateus, mas em difundir a nossa mensagem", explicou Rubiales. O pastor da Igreja Evangélica admitiu que "seria positivo para a sociedade espanhola fazer um debate sobre a existência de Deus".
Há escassos dias, a organização católica E-Cristians contratou espaços publicitários em dois autocarros madrilenos, em linhas com origem em zonas centrais da cidade, como as Portas do Sol e a Praça de Callao. "Quando todos te abandonam, Deus fica a teu lado" foi a frase de Gandhi adoptada. Não é uma resposta à campanha ateia, não é uma guerra contra os ateus", explica Josep Miro i Ardívol, presidente da E-Cristians. A escolha de Gandhi "destina-se a que a mensagem não se identifique apenas com uma única confissão".
Por fim, na mesma linha na qual circula a mensagem da União de Ateus e Livre -Pensadores, os tradicionalistas da minúscula Alternativa Espanhola puseram a circular um autocarro com a inscrição "Deus existe, confia nele".
"Como católicos, respeitamos e amamos todos os homens, incluindo os que dizem não acreditar em Deus", respondeu em homília o cardeal de Madrid e presidente da Conferência Episcopal Espanhola. "Não é justo obrigar a quem tem de usar esses espaços [os autocarros] a suportar mensagens que ferem o seu sentimento religioso", sublinhou António Maria Rouco Varela. Um dos incómodos, não disfarçados, da hierarquia eclesiástica é que o autocarro da campanha ateia passa junto à Catedral da Almudena e à sede episcopal.
A campanha do movimento ateu vai chegar a Sevilha, Valência, Saragoça e Bilbau. Afirmando representar cerca de oito milhões de espanhóis, a União de Ateus e Livre - Pensadores reivindica para os não-crentes "os mesmos direitos e liberdades reconhecidos aos outros cidadãos pelo simples facto de manifestarem crenças religiosas".

A chegada a Madrid da campanha do movimento ateu foi antecipada por duas organizações cristãs

Um soutien errado pode fazer mal à saúde
http://jornal.publico.clix.pt/
28.01.2009


Não chegava o tabaco, o álcool... Agora é a vez da roupa. Um estudo britânico lançou o alerta: um mau soutien pode provocar problemas de saúde como lesões nas costas, indigestão
e dores de cabeça. É nestas alturas que uma mulher é mesmo uma vítima da moda


Há com aros, sem aros, com almofadas, sem almofadas, com enchimento, de desporto, com rendas, lisos, os básicos pretos, brancos e cor de carne e todas as cores do arco-íris, e até com apelativos nomes como Miracle ou Magic Up. Todos diferentes, todos soutiens. Ao factor estético junta-se agora uma questão de saúde. Um mau soutien pode prejudicar a saúde, dizem os especialistas. E, como acontece noutros problemas de saúde, temos neste caso uma causa principal: o tamanho. A maioria das mulheres não sabe o tamanho de soutien que usa. Resultado: muitas cometem erros.
Se se pensar um pouco no assunto chega-se à conclusão de que há muitas peças que podem fazer mal. Uns jeans apertados de mais podem fazer mal à circulação sanguínea; uns saltos altos ou uns simples sapatos apertados podem fazer doer os pés; uma camisola de um material sintético pode provocar alergia na pele e por aí fora. A moda pode fazer mal à saúde. Mas, para já, são os soutiens.
Um estudo recente da British Chiropractic Association (BCA) revelou que a grande maioria (83 por cento) das mulheres admite que a aparência é o principal factor a ter em conta, quando compra um soutien e só uma em cada cem considera que o suporte garantido por esta peça de roupa íntima é determinante na escolha.
A pesquisa mostra ainda que 77 por cento das mulheres consultadas e que foram alvo de medições por um profissional nesta área estavam a usar o tamanho errado de soutien. O especialista da BCA, Tim Hutchful, lembra: "Os soutiens são como pontes suspensas, é preciso um soutien bem pensado em termos de engenharia para que os ombros não sejam sobrecarregados e para garantir que o peso é bem distribuído. Soutiens que não sejam do tamanho correcto vão afectar os ombros e o peito e seguramente vão provocar dores nas costas."
Grande volume mamário
A fisiatra Maria João Andrade confirma. "Um mau soutien pode ter implicações na saúde", diz, sublinhando a importância deste apoio em todos os casos e sobretudo quando estamos perante "grandes volumes mamários". "Há mulheres que não escondem um grande volume, mas há também aquelas que se encolhem e que se debruçam sobre si mesmas. O resultado são problemas de postura."
Na prática clínica, Maria João Andrade, docente no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar e chefe do serviço de Fisiatria do Hospital Geral de Santo António (Porto), já viu casos muito diferentes. Desde as alças de soutiens que seguram peso a mais e que rasgam sulcos nos ombros até colunas desviadas pela força de uma postura incorrecta, e muitas dores de costas pelo meio. A especialista admite ainda outro tipo de problemas: um soutien demasiado apertado pode, por exemplo, representar uma excessiva "compressão da caixa torácica e, consequentemente, alterar a dinâmica respiratória" ou causar lesões nos nervos intercostais.
Os soutiens push-up merecem uma referência especial. De acordo com a British School of Osteopathy (BSO), este tipo de suporte pode causar problemas respiratórios e, quando é demasiado pequeno, restringir o movimento de forma a magoar as costelas e o diafragma. Mais: pode mesmo, em casos extremos, contribuir para indigestão e problemas intestinais, ainda segundo a BSO.
Num artigo intitulado O seu soutien está a pô-la doente? o osteopata Jon-Morton Bell nota que se uma mulher está inclinada para a frente devido a um apoio insuficiente do soutien, o músculo trapézio (na região posterior do tronco e do pescoço) pode ficar demasiado esticado e causar dores de cabeça. Mais: "Dado que todas as raízes nervosas surgem da coluna, é normal sofrer distúrbios do estômago e sensação de fadiga." Tudo por causa de um mau soutien.
E como se todos os avisos da medicina e outras artes não chegassem, surge mais um alerta do Oriente sobre as más energias: cuidado com soutiens com aros de metal - porque atravessam os meridianos do corpo podem bloquear a passagem do chi (energia vital nas filosofias orientais) e estagnar a energia.
Mas calma: não há motivo para voltar aos anos 60 e queimar o soutien. Esta peça íntima de vestuário não é por si só má nem sinónimo de problemas de saúde - pode é ser mal escolhida. E eis que surge aqui uma pergunta importante: sabe o tamanho do soutien que usa? A maioria das mulheres não sabe. Gozam com os homens que chegam a uma loja de lingerie de mãos abertas, a segurar objectos invisíveis ou a apontar para as mulheres à volta, mas a verdade é que também não sabem. Maria Costa, 32 anos, resolveu o problema e escreve num papel o número e todos os pormenores do soutien que usa. "Compro sempre no mesmo sítio, já para não ter problemas. E escolho quase sempre o mesmo modelo", diz.
Rosa Rodrigues, 41 anos, tem a mesma estratégia. "Não sei o número que uso, trago uma coisinha na carteira. Quando quero comprar, tenho uma etiqueta com as medidas, para não passar a situação embaraçosa de experimentar e para não perder tempo", diz. Rosa vai, aliás, mais longe e para a filha Mariana, de 12 anos, já impôs a mesma técnica: "A minha filha mais velha também tem uma etiqueta." É que, desabafa, a medida de um soutien não é afinal coisa simples: "Aquilo tem a ver com copas e mais não sei o quê."
Carmo Teixeira, 33 anos, simplifica: "Não faço ideia do tamanho que uso. Vejo a olho ou experimento." Prioridade: "O conforto e nunca daqueles soutiens com almofadas." A questão do número é mais complicada do que parece e, pelos vistos, reconhecida em todo o mundo. Caso contrário por que haveria de existir um "conversor internacional de tamanho de soutiens" (http://www.85b.org/bra_calc.php)?
E para as mulheres que dizem saber o número que usam há duas dicas dos especialistas. Dica número um: o tamanho pode estar errado, tire as medidas certas e certifique-se. Dica número dois: confirme se o tamanho ainda é o mesmo. Não se esqueça de que as leis da gravidade e os excessos que se revelam na nossa pele e corpo também se aplicam ao peito, ou seja, cada caso é um caso mas raramente se mantém o mesmo caso ao longo do tempo. Uma gravidez e uma perda ou aumento de peso são alguns dos factores que têm um repercussão no tamanho do seu soutien. Além disso, o tamanho tem outras variáveis. O país onde compra o soutien ou até a marca podem valer diferenças.
Sinais de alerta
Não vamos propor aqui um guia para escolher um soutien saudável. Até porque uma das dicas mais importantes é mesmo o incontornável "cada caso é um caso". Mas há alguns sinais de alerta para um mau soutien. As alças estão sempre a cair? Os ombros caem para a frente? O peito abana quando anda, a ponto de continuar a abanar quando já parou? Fica com uma circunferência marcada no corpo quando tira o soutien ou há marcas nos ombros? Há sobras de peito a sair pelos lados e empurradas pelos braços? A tira base do soutien fica situada nas suas costas a um nível superior à linha do peito? Tudo isto são sinais de um soutien "pouco saudável".
Há outras peças que são atentados ao bem-estar. Uma calças apertadas podem, refere a fisiatra Maria João Andrade, prejudicar a circulação sanguínea, impedindo o retorno venoso e exercendo uma compressão em zonas chave, como a parte situada atrás dos joelhos e a zona inguinal (nas virilhas). O resultado pode ser uma degradação vascular e o aparecimento de varizes, inchaço e a sensação de peso nas pernas. Já para não falar nos conhecidos danos na fertilidade que o uso frequente de calças bem apertadas pode causar aos homens.
E os sapatos? Uns sapatos bicudos podem representar uma maior probabilidade de desenvolver joanetes. E os saltos altos "alteram a biomecânica", avisa a especialista, explicando que "inclinam o centro de gravidade para a frente e para manter o equilíbrio normalmente acentuam-se as curvaturas como, por exemplo, a lombar". Resultado? Dores nas costas devido ao desequilíbro das forças.
É claro que as mulheres se habituam a esta nova postura, mas, torna Maria João Andrade, também é verdade que algumas, "quando lhes tiramos os saltos altos e as colocamos de pés rasos no chão, quase não sabem andar". Estaremos perante um uso (e abuso) de saltos altos a ponto de provocar lesões nos gémeos e no tendão de Aquiles. "Bastante vulgar", conclui a fisiatra, que adianta que o cenário dos danos causados aplica-se também aos sapatos de cunha ou plataforma - "são mais confortáveis para andar, mas as alterações são idênticas".
A lista não acaba nunca - e vai até acessórios como uma mala (associada a problemas de coluna quando o peso não está bem distribuído) ou um par de óculos escuros (associados a uma maior incidência de cataratas quando não têm protecção para raios UV).

matar de uma vez

Toureiro de onze anos mata seis touros de uma vez
http://aeiou.expresso.pt/toureiro_de_onze_anos_mata_seis_touros_de_uma_vez=f494310

Chama-se Michelito, é mexicano e participa em touradas activamente desde os quatro anos. No último fim-de-semana tentou entrar para o Guiness como o toureiro mais jovem a matar tantos touros num só dia. (Vídeo no fim do texto)
Paula Cosme Pinto, com agências
11:40 Quarta-feira, 28 de Jan de 2009



Michelito começou a tourear aos quatros anos e nunca mais parou
Russel Chan/AP
Michelito Lagravere tem apenas onze anos mas mata touros na arena como se fosse um adulto. No passado fim-de-semana, matou seis animais, em Mérida, e cortou a orelha a outros dois, na tentativa de entrar para o Guiness como o toureiro mais jovem a matar tantos touros no mesmo dia.

A idade de Michelito levou o governador da cidade mexicana a suspender a tourada, alegando que é ilegal menores de dezoito anos participarem em espectáculos públicos de elevado risco. Os pais da criança fizeram um apelo, conseguiram uma autorização judicial e o espectáculo acabou por se realizar, embora os serviços de protecção de menores e diversos grupos de defesa dos animais tenham tentado impedir.

Mais de 3500 pessoas, incluindo crianças, assistiram ao espectáculo na praça de touros de Mérida. No fim, Michelito não escondia o contentamento. "Estou muito feliz por ter alcançado esta vitória". Quanto ao recorde do Guiness, os autores do livro vão ainda analisar o vídeo da tourada e decidir se o pequeno toureiro é ou não detentor da distinção.

Toureiro desde os quatro anos
Filho de um toureiro francês, Michelito pisou pela primeira vez a arena quando tinha apenas quatro anos. Aos seis anos matou o seu primeiro bezerro e desde aí nunca mais parou, tendo já participado em mais de 60 touradas, lê-se no jornal mexicano El Informador.

Embora a presença da criança em touradas seja frequentemente criticada por causa da sua idade, o pai de Michelito argumenta que todas as normas legais são sempre cumpridas e que a vontade de tourear parte do filho.

O jovem toureiro, que é também fã de rock e até pondera no futuro enveredar pela carreira musical, já tem convites para participar em touradas fora do México, nomeadamente no Panamá e em Portugal.

domingo, janeiro 25, 2009

a ilha italiana de lampedusa

Mais de mil imigrantes manifestaram-se na ilha italiana de Lampedusa
http://jornal.publico.clix.pt/
25.01.2009, Jorge Heitor


pessoas procuram refúgio dentro das fronteiras
asilo numa ilha italiana
duzentos quilómetros a sul um pouco a leste da tunísia
dirigiram-se para o centro
do território árido que pertence a áfrica
(na geologia)
e por onde passaram fenícios, gregos, romanos, árabes

chegam à ilha em barcos saídos de áfrica
para tentar a sorte em acampamentos
por vezes chegam a morrer (a tentar)

centenas estão já a dormir
(o vício de se alcançar a europa por lampedusa começou há dez anos)

Gaza, um túnel sem saída
http://jornal.publico.clix.pt/
25.01.2009, Alexandra Lucas Coelho, Gaza


É uma rede comercial subterrânea. Com o bloqueio, a faixa depende deles para tudo. Israel tentou destruí-los e arrasou as casas


A família de Mohammed tem não um, mas dois túneis entre Gaza e o Egipto. Com o bloqueio das fronteiras, no último ano e meio, tem sido assim. Um boom. "Neste momento há 2000 ou 2500 túneis aqui", diz Mohammed, como se estivesse a falar de lojas. E de certa forma está.
Hoje [ontem], primeiro sábado depois do cessar-fogo, é dia de mercado em Rafah, a cidade no Sul de Gaza que faz fronteira com o Egipto, e Mohammed está a vender fogões a petróleo, um bem essencial ao longo da guerra. Durante semanas foi impossível encontrar gás. Ao lado dos fogões de cozinha, as famílias passaram a ter um pequeno fogão a petróleo, onde faziam toda a comida.
Agora, já se vende gás à entrada de Rafah, mas é preciso esperar horas numa fila de rapazes e homens sentados em botijas vazias.
Portanto, Mohammed continua a fazer negócio no mercado central. Tem um monte de pequenos fogões verdes no chão. "Trazemo-los por túneis, como tudo o que aqui está." Cafeteiras eléctricas, televisões, fraldas, queijo de triângulos.
"Antes desta guerra eu trabalhava nos túneis, trazia as coisas para o lado palestiniano, mas agora compro as coisas e vendo aqui." Com ajuda de alguém do outro lado. "Há um parceiro egípcio que põe as coisas no túnel. Não chegamos a andar nas ruas. A maior parte dos túneis vai sair por baixo de casas."
É assim que os túneis de Gaza são túneis sem saída. Os palestinianos arriscam a vida - e vários morrem - a andar de um lado para o outro debaixo da terra, mas não conseguem sair. Seriam repelidos. O Egipto não está interessado em ter refugiados, como se viu durante a guerra.
E por causa dos túneis, Rafah tornou-se o grande mercado da Faixa de Gaza desde que o Hamas tomou o poder, em Junho de 2007. Com Israel a bloquear as fronteiras, toda a zona junto à fronteira egípcia começou a ser escavada. Já havia algumas passagens, utilizadas pelos militantes para trazer armas e munições, mas agora é uma realidade doméstica. Faz parte de cada casa.
"As grandes famílias têm pelo menos um túnel", diz Mohammed, descontraidamente, já rodeado por uma multidão. Até que um velho de grandes barbas abre caminho e o ameaça com a bengala. "Porque estás a contar-lhe tudo isso? Os túneis são coisas nossas!"

Remendar a guerra
Entre o mercado e o muro da fronteira, os passeios de Rafah estão carregados de produtos frescos, acabados de chegar. Microondas, computadores, motas - até vacas são trazidas pelos túneis. O que não veio do Egipto vem da ajuda humanitária. Virando à direita, depois de mais um carro de burro carregado com um saco da ONU, aparece a linha da fronteira, ao fundo.
Esta é a zona de Rafah que mais sofreu durante a guerra. Já havia várias casas derrubadas por Israel, para garantir a vigilância da fronteira. Mas agora são mais as destruídas do que as que continuam em pé. Vêem-se montanhas de entulho fresco e famílias inteiras sentadas nas ruínas, de cabeça baixa, à espera de ajuda.
Já uns metros adiante, em plena Estrada de Filadélfia - o corredor poeirento que separa Gaza do Egipto -, vai uma actividade febril.
Para a direita, montes de terra com tendas brancas a perder de vista. Para a esquerda, mais montes de terra com tendas brancas a perder de vista. Cada tenda é um túnel. Ou seja, toda a linha de fronteira é agora uma linha de túneis. E ouvem-se tractores e escavadoras entre um formigueiro de miúdos e homens. Um estaleiro, a reparar os danos da guerra.
"Tudo isto começou com o bloqueio, se o bloqueio não existisse, não existiam túneis", resume Mustafá, de 28 anos, o dono do túnel mais próximo. É uma cratera de terra, com uma espécie de escada de metal por onde se desce. Agora não se pode descer porque a terra abateu. Uma escavadora anda para trás e para diante, enquanto dezenas assistem, com os pés enfiados na terra mole.
"Foi atingido por um F16", explica Mustafá. "Quarenta metros de túnel desabaram. E não sabemos dos danos do outro lado."
Quem está do outro lado? "Gente que trabalha para nós." O que é que costumam trazer? "O que as pessoas precisarem." A última vez que o túnel funcionou foi uns dias antes da guerra. "Trouxemos roupa interior."
Do outro lado da cratera, um miúdo fuma uma beata em cima de uma velha mesa de bilhar enfiada na terra, como a prancha de uma piscina. Ainda se vê o pano verde, em farrapos.
Mustafá demorou sete meses a construir o seu túnel. Tem 450 metros de comprimento e várias saídas do outro lado, consoante o que ele quer trazer. Ao longo da fronteira há túneis mais curtos e mais compridos. Alguns têm calhas para facilitar o transporte, outros têm a altura de um homem.
Neste é preciso ir a rastejar. "São 60 centímetros de altura e 40 de largura." Como é que se segura a terra lá dentro? "Com suportes de madeira e metal."
Mustafá não faz de conta que não é perigoso. "Já morreram cinco pessoas lá dentro, foram acidentes." Mas quanto a medo, o que tem a dizer é isto: "Deixámos de ter medo."

Existirão mais de 2000 túneis entre Gaza e o Egipto, dos quais os palestinianos dependem para obter tudo, de fraldas a fogões

a pobreza no cinema

A Índia não gosta de ver a sua pobreza no cinema
http://dn.sapo.pt/2009/01/25/artes/a_india_gosta_ver_a_pobreza_cinema.html
MARIA JOÃO CAETANO

Cinema. Estreou- -se esta semana na Índia 'Quem quer ser bilioná- rio?', do inglês Danny Boyle. Acusado de dar uma imagem má de Bombaim e dos seus bairros de lata, o filme que tem dez nomea- ções para os Osca- res e já ganhou quatro Globos de Ouro, tem causado polémica no país, habituado aos musicais coloridos de Bollywood

'Slumdog Millionaire' estreia-se em Portugal a 5 de Fevereiro

Visto em cópias piratas vendidas nas esquinas de Bombaim, o filme Quem quer ser bilionário? (Slumdog Millionaire) tem provocado nas últimas semanas reacções inflamadas na Índia: escreveu-se em blogues e nos jornais que a película do inglês Danny Boyle mostra de forma quase pornográfica a pobreza do país, que dá uma má imagem da cidade, como se nela só houvesse bairros de lata superpovados e mal-cheirosos.

"A imagem que o filme dá da Índia, de uma nação do terceiro mundo, suja e mal-nutrida, causa dor e desgosto entre os patriotas", escreveu no seu blogue o famoso actor veterano Armitabh Bachchan. Os comentários que se seguiram transformaram Boyle num explorador da miséria para vender bilhetes de cinema. Numa tentativa de calar os protestos, os produtores anunciaram que parte das receitas de bilheteira irão para um fundo de assistência social com o objectivo de melhorar a vida nos bairros pobres de Bombaim. Não foi suficiente. Um grupo de activistas lançou um abaixo-assinado contra o título, afirmando que a expressão slumdog (bairro de lata, favela) é insultuosa. Esta semana, 40 subscritores desse movimento realizaram uma manifestação silenciosa, à porta de casa de Anil Kapoor, uma das estrelas indianas do filme.

Tudo isto não impediu que na noite de quinta-feira, as estrelas de Bollywood, os estúdios de Bombaim que são um dos maiores produtoes de cinema do mundo, se vestissem da gala para a ante-estreia de Slumdog Millionaire. Na passadeira vermelha desfilaram ao lado dos até aqui quase desconhecidos actores que entram no filme. Danny Boyle fez questão de lá estar. E que coincidência: no momento em que apresentava a sua obra à plateia mais exigente recebeu um telefonema de Los Angeles com a informação de que o filme tinha acabado de receber dez nomeações para os Oscares, incluindo os de Melhor Filme e Melhor Realizador. O músico A. R. Rahman tornou-se um herói nacional ao ser primeiro indiano nomeado em três categorias. Uma alegria a juntar aos quatro Globos de Ouro que o filme já ganhou.

Na sexta-feira, Slumdog Millionaire chegou aos cinemas de toda a Índia, na versão inglesa e na hindi. Os especialistas garantem que a maioria das pessoas do campo, que vive mal, não quererá ver mais pobreza nos ecrãs, mas que talvez nas cidades e entre os espectadores mais jovens Slumdog poderá ter algum sucesso. Aguardam-se , por isso, com expectativa os números deste fim-de-semana.

Para já, e talvez sucumbindo ao peso dos Oscares, as críticas que saíram nos jornais parecem mais compreensivas. O The Times of India, por exemplo, escreveu que afinal o filme "nunca teve intenção de ser um documentário" e que esta história de um rapaz pobre que concorre ao "Quem quer ser milionário?" só para agradar à sua amada e acaba com uma fortuna no bolso deve "apenas ser saboreado como um conto de fadas ao estilo da Cinderela".

Quem quer ser bilionário? tem estreia marcada em Portugal para 5 de Fevereiro.

quinta-feira, janeiro 22, 2009

Entrevista Jorge Sequeiros Não se pode sequer sonhar com um futuro sem doenças
http://jornal.publico.clix.pt/default.asp?url=%2Fmain%2Easp%3Fdt%3D20090122%26page%3D10%26c%3DC
22.01.2009, Andrea Cunha Freitas


Gostava de fazer um teste e escolher embriões que não têm genes defeituosos? Quer ter um filho com o mínimo de probabilidades de doenças? Limpar os seus genes de todo o mal, do cancro à depressão? É impossível, é inútil, é ficção científica mal feita, diz o geneticista do IBMC


Há dias a notícia da menina inglesa que nasceu sem uma mutação num gene (o BRCA1) que lhe dava 40 a 60 por cento de probabilidades de vir a sofrer um cancro da mama correu mundo. Não foi a primeira criança a nascer depois de um processo de diagnóstico genético pré-implantação (DGPI), mas abriu a porta para o debate. Evitar uma doença é uma coisa, reduzir as probabilidade de uma doença nos afectar é outra. Uma coisa é o determinismo genético, outra é uma mera susceptibilidade.
Jorge Sequeiros, geneticista, investigador e docente no Instituto de Biologia Molecular e Celular (IBMC) da Universidade do Porto, apresenta um mundo muito mais complicado do que à partida poderíamos pensar. Um mundo sem milagres, muito insucesso, muita espera, muitas dificuldades, muitos custos.
A notícia da menina inglesa remete para um novo território do diagnóstico pré-implantação...
O DGPI é consensual, a nível profissional, para doenças graves. Tudo fica mais complexo no nível dos BRCA [genes que, quando têm mutações, estão associados a um risco de cancro da mama e do ovário] e de outros genes para outros tipos de cancro que são diferentes. São diferentes porque existe a possibilidade de haver algum tratamento - de, havendo um teste genético, se poder fazer um seguimento e uma profilaxia - e porque a penetrância [risco] não é completa, ou seja, ao longo da vida a penetrância para o BRCA1 e o BRCA2 para cancro da mama anda na ordem dos 40 a 60 por cento e para cancro do ovário é ainda mais baixo, não deverá ir além dos 40 por cento.
Mas para o cancro do ovário não há possibilidade de rastreio...
Sim, é verdade, mas o risco também é menor.
É preciso fazer uma distinção clara entre as doenças mendelianas (hereditárias e causadas por mutações num único gene), em que há cem por cento de risco de passarem para um filho, e estes casos?
Se a penetrância for de 40 a 60 por cento, isso quer dizer que 40 a 60 por cento das pessoas que têm o gene mutado nunca o vão manifestar. Isso marca claramente um grupo à parte. E faz com que, ao contrário do que se passa com a aplicação do DGPI para doenças mendelianas, não haja consenso entre os profissionais.
Há até algum receio. Os próprios profissionais questionam-se sobre onde isto vai parar...
Se me vierem falar no argumento do slippery slope [quando um pequeno passo dá origem a uma cadeia de acontecimentos que acabam por ter um grande impacto], acho que isso é intelectualmente desonesto.
Há critérios bem definidos?
É sempre preciso haver uma história familiar carregada dessa doença. Temos de partir sempre de uma indicação médica. Temos de saber o gene que está alterado, qual é a mutação e temos de ter a comprovação a nível molecular num doente. Se for só uma história vaga e não existir um doente, se todos já tiverem morrido, para verificar o gene e a mutação não se pode fazer nada.
Mas acha que é legítimo que uma pessoa que não tem essa história familiar, não tenha nenhuma indicação médica, queira reduzir o risco de cancro da mama?
É um método altamente ineficiente. A indicação clara é só em quem tiver uma história familiar e tiver aquele gene comprovadamente. Numa pessoa que não tenha nem uma coisa nem outra, não tenha história familiar, nem saiba se tem essa mutação não é sequer lícito que faça isso. Não tem qualquer resultado prático fazer um DGPI. Para isso, começava por ela própria. E na altura que começasse a testar todos os genes que seriam necessários e que gostava de não passar à descendência, a criança que queria ter já tinha netos ela própria!
Demora assim tanto?
Existem cerca de cinco mil a seis mil doenças genéticas. As capacidades de diagnóstico estão cada vez mais avançadas, é possível fazer múltiplos testes ao mesmo tempo...
Mas não é exequível fazer tudo...
Não. Neste momento não é possível ser feito. Se fôssemos escolher doenças e pegássemos nas mais raras, mesmo essas ocupariam a vida inteira da pessoa.
E se a pessoa só quiser o caso de um cancro? Do da mama, por exemplo, porque leu a notícia da menina inglesa ou porque tem uma história próxima...
Ou tem uma história familiar ou não tem. Se não tem riscos não tem qualquer indicação. Não faz sentido.
Acha que isso é claro para a maioria das pessoas?
Não. Essa é a primeira confusão que se faz. Nós vivemos uma época de tecnologias cada vez mais sofisticadas...
Todos os dias há notícias sobre genes e muita gente que poderá perguntar: se o conhecimento existe, porque não aplicá-lo já?
Esta facilidade enorme de testarmos cada vez mais genes que são cada vez mais nossos conhecidos aumenta muito a apetência para que isto seja aplicado na prática. Seja por interesses meramente comerciais, que são os principais nesta área, seja por interesses não egoístas, de solidariedade, de boa vontade e até de ingenuidade... Existe muito boa gente, muito bem intencionada, que está a fazê-lo, e está a fazer mal devido a essa ingenuidade.
É preciso muito cuidado, é isso?
As precauções e o rigor que temos relativamente à realização dos testes genéticos devem ser muito ampliados nos casos de DGPI. Porque é um processo extremamente complicado, altamente dispendioso, altamente stressante para os casais.
Para os casais?
Sim, as pessoas pensam que é muito mais fácil seleccionar os embriões do que deixar prosseguir uma gravidez e fazer um diagnóstico pré-natal, e depois evita-se o trauma de interromper a gravidez... Com certeza que é verdade. E para a maior parte dos casais que recorrem ao DGPI a razão é muitas vezes essa. Mas, a maior parte das vezes, quando são confrontados com o que é a realidade de um DGPI, acabam por reverter a sua decisão e verificar que um diagnóstico pré-natal é menos invasivo e psicologicamente menos traumatizante.
Porquê?
Além do teste genético, o DGPI exige uma fertilização medicamente assistida. E nem sequer é uma vulgar FIV [fertilização in vitro], tem de ser uma injecção intracitoplasmática do esperma, porque é indispensável que não haja ali ambiente externo. Quando o embrião tem seis a oito células, por volta dos três dias, é retirada uma ou duas células em que é feito um teste. O mesmo teste que é feito num diagnóstico pré-natal, ou num teste genético de um adulto, mas numa escala mais complexa. As dificuldades do ponto de vista técnico são muito maiores. É um teste numa única célula. Há sempre duas cópias de um gene e muitas vezes só se consegue encontrar uma. É logo uma margem de insegurança tremenda e que não se pode repetir. E é sempre feito doença a doença. Temos diversos casais que estão com doença Machado-Joseph, paramiloidose, Huntington e que estão à espera de fazer DGPI. Alguns estão à espera há anos.
Além desse teste há sempre associado um processo de procriação medicamente assistida (PMA)...
Há ainda toda a questão da PMA; a estimulação hormonal não é uma coisa inócua e é altamente dispendiosa para o casal (mesmo que o tratamento seja feito no sistema público); a colheita dos óvulos, que é um procedimento cirúrgico; o procedimento da fertilização propriamente dita que tem a sua taxa de sucesso que, por muito que digam, não vai acima dos 20-25 por cento.
Há muitas desistências?
Por vezes não assumem que desistem. A maior parte das vezes aparecem a dizer: "Este mês houve um descuido e houve uma gravidez não planeada..."
Quando é que se deve pensar no DGPI?
Na minha experiência há três situações no caso de doenças graves em que o DGPI tem de facto uma indicação clara. Uma é quando os casais, além de doença genética, têm infertilidade, ou seja, vão fazer PMA de qualquer das maneiras. Outra é quando as pessoas com uma doença genética grave já tentaram uma, duas, ou três vezes um diagnóstico pré-natal que correu mal. E a terceira situação é quando estamos perante pessoas com doenças genéticas graves que, por motivos religiosos ou culturais, se recusam a fazer uma interrupção de gravidez mas aceitam fazer uma selecção de embriões.
E se falarmos de DGPI para genes de susceptibilidade?
Impossível. Além de todos os problemas que o DGPI já tem - ser um processo complexo, moroso, psicologicamente difícil - do ponto de vista prático e científico é impossível testar para todas as doenças que existem.
Nem sequer é ficção científica?
É apenas ficção científica. Aliás, não passa de ficção mal feita.
O BRCA1 e o grupo restrito (cinco por cento) de cancros que são monogénicos são o limite?
Sim. Esse é claramente o limite onde as coisas já se começam a tornar indefinidas e não consensuais, mesmo entre os profissionais. Se passarmos para os tais genes de susceptibilidade, é claramente consensual que não deve ser feito e não tem interesse.
Nesse grupo dos cinco por cento está também o cancro do intestino?
De uma maneira geral, todas as doenças comuns da vida adulta - seja cancro, doenças psiquiátricas, Parkinson, Alzheimer, doenças cardiovasculares - vão ter uma percentagem que anda entre os dois e os cinco por cento (nos cancros é de cinco por cento) que são claramente monogénicas mas essas entram na categoria anterior, onde tem de existir uma história familiar, identificar o gene, a mutação, fazer o teste num doente...
Já é um território novo do DGPI.
Mas não vamos sair dele. O limite é esse. As susceptibilidades e a melhoria, a inteligência, a memória, características que são culturalmente muito valorizadas, a escolha do sexo ou da cor do cabelo seriam claramente anti... tudo!
Onde vamos parar então?
Aqui. Acho que não vamos sair daqui. Este aqui (os cinco por cento dos cancros monogénicos com penetrância baixa e medidas de profilaxia) é suficientemente complexo e não consensual, polémico, entre os próprios profissionais. Aqui é o limite, é a fronteira.
Mas quando chegam estas notícias...
Pois... As pessoas começam a pensar que vai ser possível evitar todas as doenças e que mundo maravilhoso seria se o pudéssemos fazer.
O que diz a estas pessoas?
Logo veremos o que o futuro nos traz em termos de desenvolvimentos tecnológicos que permitam testar e prever doenças. Mas, neste momento, evitar todas as doenças é um futuro com que nem sequer se pode sonhar. E é um terreno que está devidamente balizado por reflexões éticas e recomendações profissionais. Uma delas é que a autonomia dos casais é fundamental, mas os profissionais assumem também um dever em relação à criança que vai nascer.
E também tem de existir sempre uma consulta de aconselhamento genético prévio...
Essa é outra das recomendações. Muitas vezes quando explicamos tudo as pessoas nem chegam a avançar para a próxima fase.
Qual é a percentagem de desistências?
Muitas das pessoas que nos vêm procurar, porque leram uma notícia no jornal na maior parte das vezes, depois de receberem a informação objectiva sobre o que é a realidade de um DGPI acabam por preferir um diagnóstico pré-natal.
Mais de metade?
Sim, seguramente. É por isso que a história do slippery slope, do "qualquer dia estamos não sei onde..." não passa de um mito. Há estas barreiras que são muito claras e muito explícitas e que não serão ultrapassadas.
Neste casos ouve-se sempre uma voz a falar de eugenia...
Temos sempre. Quando se metem embriões e selecção de embriões à mistura, a parada sobe muito ao nível das opiniões e os argumentos começam a ser cada vez menos racionais.
Mas num caso de história familiar carregada no campo do BRCA1, como foi o da menina inglesa, acha que é legítimo procurar um DGPI?
Não.
Não?
Não. Porque há ainda uma probabilidade elevadíssima de a pessoa não vir a ter a doença.
A decisão não é mais dos pais?
Não. É também dos profissionais. Parece-me que para uma doença como o cancro da mama ou cancro do ovário, os BRCA, não há justificação suficiente para se fazer um DGPI. Tenho muitas dúvidas.
Acha que não se devia sair do terreno das doenças que seguramente vão ser passadas aos filhos?
Ou muito perto disso. Ou de poder haver alguma coisa a fazer ou não, poder haver algum seguimento, alguma prevenção. De resto parece-me ser difícil de justificar. Quer se esteja a falar de DGPI ou de diagnóstico pré-natal. Ninguém faz um diagnóstico pré-natal para cancro da mama.

Afinal, a Antárctida tem vindo a aquecer a um ritmo comparável ao do resto do mundo
http://jornal.publico.clix.pt/default.asp?url=%2Fmain%2Easp%3Fdt%3D20090122%26page%3D10%26c%3DC
22.01.2009, Ana Gerschenfeld


Há anos que se vem dizendo que apenas uma pequena porção da Antárctida está a aquecer e que o resto está a arrefecer. Um novo estudo põe em causa esta visão



Será este o início do fim da ideia de que a Antárctida é relativamente imune aos efeitos do aquecimento global? É o que sugerem resultados publicados hoje na Nature.

Há anos que os especialistas acreditam que só uma pequena porção da Antárctida - a península na parte ocidental, perto da extremidade austral da América do Sul - está a aquecer, enquanto o resto da Antárctida ocidental, e toda a Antárctida oriental, têm vindo a arrefecer. Mas, no novo estudo, as "metades" ocidental e oriental da Antárctida, separadas pelas Montanhas Transantárcticas, mostram comportamentos opostos e o primeiro bloco está globalmente a aquecer a olhos vistos.
Eric Steig, da Universidade de Washington, e colegas, utilizaram, pela primeira vez, registos meteorológicos de satélites e desenvolveram um modelo matemático que, ao integrar esses dados e os de estações meteorológicas no solo, fornece novas estimativas da evolução das temperaturas. E afirmam que, nos últimos 50 anos, todo o Ocidente da Antárctida, e não apenas a Península, tem estado a reagir da mesma forma que o resto do planeta ao aquecimento global.
Segundo eles, o aquecimento da Antárctida Ocidental é de 0,17 graus por década e ultrapassa largamente o arrefecimento na Antárctida Oriental. Juntando os dois, a tendência é para um aumento de 0,1 graus por década - e o aquecimento do continente gelado comparável à média planetária (estimada em 0,6 graus nos últimos 50 anos).
"Uma das novidades do estudo", disse ontem Stieg em conferência de imprensa telefónica, "foi a utilização de dados de satélites. Muitos cientistas não confiam neles, pois medem a luz infravermelha irradiada pela superfície do gelo, o que pode não ser fiável em dias nublados. Nós mostrámos que a correlação entre os dados dos satélites e as medições feitas no solo é muito boa." A enorme vantagem dos satélites é que cobrem também o interior do continente, ao passo que as estações meteorológicas costumam estar perto das costas antárcticas, onde são mais acessíveis à manutenção, fazendo do interior uma terra incógnita climática.
Façam as contas
Por outro lado, as estações no solo operam desde 1957, enquanto os satélites só fornecem dados há 25 anos. O segredo está na modelização matemática, refere Steig, com alguma ironia, num comunicado da sua universidade: "Em vez de fazer contas à pressa nas costas de um envelope, nós resolvemos um problema matemático; fizemos as interpolações com muito cuidado."
"Estamos sempre a ouvir", salienta o investigador, "que a Antárctida está a arrefecer, mas isso não é verdade. Claro que a realidade é complexa e que a taxa de aquecimento não é igual em todo o lado, mas os dados provam que o continente está globalmente a aquecer."
Uma das razões apontadas para o arrefecimento de partes da Antárctida é o buraco de ozono, que aparece por cima das regiões polares do hemisfério sul na Primavera. Mas Stieg acredita que a situação vai evoluir: "Os esforços para regenerar a camada do ozono vão acabar por surtir efeitos e o buraco poderá desaparecer já em meados deste século. Se isso acontecer, toda a Antárctida poderá começar a aquecer ao mesmo ritmo que o resto do mundo."

Guerra química foi usada no tempo dos romanos
http://dn.sapo.pt/2009/01/22/ciencia/guerra_quimica_usada_tempo_romanos.html
LUÍS NAVES

Arqueologia. Uma pilha de corpos encontrada nas ruínas de Dura-Europos, uma fortaleza romana nas fronteiras orientais do império, sugere que os atacantes persas usaram cristais de enxofre, cuja queima produziu gases tóxicos. A manobra pode ter decidido o destino trágico da cidade

Local foi descoberto por acaso nos anos 30 do século passado

Soldados romanos que morreram num violento combate no terceiro século da era de Cristo podem ter sido vítimas de gases de enxofre, naquele que será o mais antigo exemplo conhecido do uso de armas químicas. O incidente ocorreu na remota cidade de Dura-Europos, por volta do ano 256, na fronteira oriental do Império Romano. Os soldados foram mortos por persas sassânidas, cujo exército tomou e destruiu a fortaleza na margem do Eufrates.

As ruínas de Dura-Europos, na actual Síria, têm sido objecto de cuidadosas escavações. Os arqueólogos descobriram túneis que foram usados durante o cerco da fortaleza e que embora não tenham destruído a muralha, serviram para decidir a fase final do combate. Num dos túneis havia uma barricada, incluindo esqueletos parcialmente queimados de soldados romanos, o que levou uma primeira equipa a sugerir um colapso do túnel, o que não explicava a presença de enxofre no local.

O arqueólogo Simon James, da Universidade de Leicester, avançou entretanto com uma sensacional teoria, apresentada na reunião anual do Instituto Arqueológico Americano. A posição dos corpos e os cristais de enxofre sugeriam que no combate foram produzidos fumos tóxicos.

Segundo Simon James, que estuda Dura há 30 anos, os romanos mortos (ou gravemente feridos) foram deliberadamente amontoados num local onde se encontravam dois túneis escavados por cada um dos exércitos. A certa altura, talvez perante um contra-ataque romano, os persas incendiaram os corpos e deitaram ao fogo cristais de enxofre, o que produziu gases letais. Um dos guerreiros persas não fugiu a tempo.

Embora não haja registos históricos da batalha, que se presume foi travada no ano 256 d.C. (mais ou menos quatro anos) sabe-se que os persas tiveram de combater a guarnição romana rua a rua. Dura-Europos era uma criação grega, na altura com mais de 500 anos. O local não interessou aos persas e foi abandonado. Os habitantes foram chacinados ou deportados.

As ruínas ocupam um espaço vasto e foram encontradas por acaso nos anos 20 do século passado, quando soldados indianos do exército britânico tomaram a posição estratégica e ali escavaram trincheiras.

QUANDO NIXON SE DESCULPOU NA TELEVISÃO
http://dn.sapo.pt/2009/01/22/artes/quando_nixon_desculpou_televisao.html
EURICO DE BARROS

Filme. Chega hoje aos cinemas 'Frost/Nixon', de Ron Howard, adaptação da peça de teatro sobre a longa e célebre entrevista feita em 1977 pelo britânico David Frost ao ex-presidente Richard Nixon, que entrou para a história da televisão

Realizador exigiu ter no filme os dois actores da peça

Em 1977, três anos após Richard Nixon ter abandonado a Casa Branca em desgraça por causa do escândalo Watergate, o apresentador de televisão e jornalista britânico David Frost, conseguiu acesso exclusivo ao ex-presidente dos EUA para uma longa e pormenorizada conversa com este, após uma cerrada negociação com o seu agente, o lendário Irving "Swifty" Lazar, e de ter investido dinheiro seu e de amigos. As estações americanas ainda recusavam o chamado "jornalismo de livro de cheques", e Frost teve que desembolsar 600 mil dólares para chegar à fala com Nixon.

As quatro partes da entrevista, com 90 minutos cada (montados das quase 29 horas de conversa originais), foram para o ar em Maio de 1977 nos EUA e em vários outros países. O trabalho de David Frost foi visto como o substituto televisivo do julgamento a que Richard Nixon não chegou a ser submetido por causa da sua resignação do cargo de Presidente dos EUA.

Segundo Frost, Nixon apresentou, frente às câmaras, "uma desculpa a 99,9 por cento" por tudo o que de ilegal que havia cometido. "Desiludi os meus amigos, desiludi o país, desiludi o nosso sistema de governo", admitiu Richard Nixon no final da conversa, num tardio acto de contrição.

O primeiro segmento dos quatro da entrevista, emitida no âmbito do programa Frost On America, com o título The Nixon Interviews With David Frost, foi visto por 45 milhões de pessoas nos EUA, e por muitos mais nos países que compraram os direitos das emissões. Esta é ainda hoje a entrevista política com as maiores audiências da história da televisão. E seria a derradeira grande aparição televisiva de Nixon antes da sua morte, em 1994.

Frost/Nixon, o filme de Ron Howard que se estreia hoje em Portugal, baseia-se na peça de teatro com o mesmo título escrita por Peter Morgan, o argumentista de A Rainha, de Stephen Frears, estreada em Londres em 2006. A peça dramatiza o difícil processo de negociação que conduziu à entrevista, bem como as relações entre entrevistador e entrevistado.

O americano Frank Langella e o britânico Michael Sheen interpretaram em palco os dois papéis principais, que repetem no filme de Howard. O realizador disse ao estúdio que não faria Frost/Nixon se os actores não voltassem às respectivas personagens na tela. "Durante dois anos, eles viveram como Frost e Nixon, por isso seria impossível termos outros actores nos papéis senão eles", explicou Ron Howard - que revelou ter votado por Richard Nixon nas eleições de 1972.

Apesar de ter sido um dos grandes derrotados dos Globos de Ouro, Frost/Nixon aparecerá decerto entre os nomeados aos Óscares. Esta semana, David Frost revelou ao The Times que tem um argumento sobre a juventude de Nixon, Young Nixon, escrito pelo falecido Robert Bolt. Que gostaria de ver filmado antes de morrer.

quinta-feira, janeiro 15, 2009

O nosso cão vai transformar-se no nosso gato
http://jornal.publico.clix.pt/
15.01.2009, Ana Gerschenfeld


Ao tradicional desafio
anual do site edge.org -
o "salão" intelectual online -, responderam filósofos, cientistas, escritores, jornalistas, etc. Reflexões que vão do optimismo exagerado ao mais
sombrio pessimismo


Se lhe perguntassem "o que é que vai mudar tudo", o que responderia? As alterações climáticas, a Internet, a cura das maiores doenças humanas, a descoberta de inteligências extraterrestres, os robôs, a expansão da inteligência humana, a colonização do espaço, as fontes de energia inesgotáveis? Esta foi precisamente a pergunta que o site edge.org, publicação e think tank online, cujo objectivo é "promover a reflexão e a discussão de questões intelectuais, filosóficas, artísticas e literárias, e agir em prol da realização social e intelectual da sociedade", colocou, com prazo marcado até à meia-noite de 31 de Dezembro, à sua longa agenda de "sócios" - craques mundiais da ciência, da tecnologia e do pensamento, da arte, do entertainment.
A edição 2009 da tradicional pergunta do ano do edge.org é apresentada nas páginas do site pelo editor e agente literário nova-iorquino John Brockman, nos seguintes termos: "Através da ciência criamos tecnologia e, ao usar as nossas novas ferramentas, recriamo-nos a nós próprios. (...) Estamos cada vez mais perto de redefinir a vida, à beira de criar a própria vida. (...) Craig Venter, pioneiro da genómica, está à beira de criar a primeira forma de vida artificial e já anunciou que tinha conseguido transplantar a informação contida num genoma para dentro de outro. Por outras palavras, o nosso cão transforma-se no nosso gato. (...) Se isto acontecer, vai mudar tudo." Logo a seguir, lança o desafio: "O que é que vai mudar tudo? Que ideias e desenvolvimentos científicos susceptíveis de mudar as regras do jogo espera viver para ver?"
A pergunta teve este ano direito a 151 respostas. Umas mais brilhantes do que outras, umas mais concretas do que outras, umas muito optimistas, outras muito, muito assustadoras - o que não admira, visto o carácter aberto da interrogação. Escolhemos algumas das mais contundentes e descabeladas, das quais apresentamos alguns excertos avulso. Quem quiser ler mais, ou mesmo tudo, vá ao edge.org.

Vencer a morte
Marcelo Gleiser
Filósofo, Dartmouth College

Não existe questão mais fundamental do que a nossa mortalidade. Posso imaginar duas maneiras de vencer a mortalidade. Uma ao nível celular e outra através de uma integração do corpo, da genética, das ciências cognitivas e da cibernética. Pode especular-se que, lá para 2040, uma combinação destes dois mecanismos poderá ter permitido aos cientistas desvendarem os segredos do envelhecimento celular. Não é o elixir da vida com que os alquimistas sonharam, mas a longevidade média poderia passar para 125 anos ou mais. Há uma segunda possibilidade, mais arrojada e provavelmente muito mais difícil de concretizar nos meus próximos 50 anos de vida: combinar a clonagem humana com um mecanismo que permita armazenar todas as nossas memórias numa gigantesca base de dados. Injecta-se ao clone todas essas memórias e voilà! Embora de natureza optimista, duvido muito que isto aconteça.

Mudar a natureza humana
Nicholas Humphrey
Psicólogo, London School of Economics

Imagine que esta pergunta tinha sido colocada aos cidadãos de Roma há dois mil anos. Teriam eles conseguido prever o advento da Internet, dos perfis de ADN, do controlo pela mente, das viagens espaciais? Claro que não. Mas, no fundo, não há nada que tenha mudado tudo até agora. E as vidas desses romanos, apesar das suas privações tecnológicas, eram notavelmente parecidas com as nossas. Se os trouxéssemos para o século XXI, ficariam obviamente espantados pelas realizações científicas. Mas depressa descobririam que sob o embrulho moderno as coisas continuam na mesma. Política, crime, amor, religião, heroísmo.
A coisa que poderia mesmo mudar tudo seria uma alteração radical, geneticamente programada, da natureza humana. Não aconteceu nos tempos históricos e aposto que não vai acontecer em breve. As inovações culturais e técnicas podem certamente alterar a trajectória das vidas individuais. Mas enquanto os seres humanos continuarem a reproduzir-se através do sexo e cada geração voltar à estaca zero, os bebés continuarão a iniciar a vida munidos de um conjunto de disposições hereditárias e de instintos que remontam à idade das trevas tecnológicas. Podemos sonhar com revoluções, mas devemos estar preparados para mais do mesmo.

O advento da telepatia
Freeman Dyson
Físico, Institute of Advanced Studies

Como tenho 85 anos, peço a autorização para mudar a pergunta para: "O que é que vai mudar tudo? Que ideias e desenvolvimentos científicos susceptíveis de mudar as regras do jogo poderão acontecer durante a vida dos seus netos?"
A genética e a biologia molecular vão continuar a dominar nos próximos 50 anos e a seguir será a vez da neurologia. A neurologia vai mudar as regras do jogo da vida humana de forma drástica, mal desenvolvamos ferramentas que nos permitam observar e comandar finalmente as actividades do cérebro humano a partir do exterior. Um único transmissor de microondas, implantado no cérebro, tem suficiente largura de banda para transmitir para o exterior a actividade de um milhão de neurónios. Um sistema de 100 mil transmissores exteriores e de 100 mil receptores internos poderia controlar a actividade dos 100 mil milhões de neurónios do cérebro.
Estas ferramentas tornariam possível a prática da "radiotelepatia", a comunicação directa de sentimentos e pensamentos entre dois cérebros. O antigo mito da telepatia, baseada no sobrenatural, seria substituído por uma forma prosaica de telepatia, baseada em ferramentas físicas.
É fácil perceber que a radiotelepatia seria um poderoso instrumento de mudança social, podendo ser utilizado quer para o bem, quer para o mal. Poderia ser a base de uma compreensão mútua e de uma cooperação pacífica entre os humanos do planeta. Ou a base de uma opressão tirânica e de um ódio reforçado entre comunidades. Uma sociedade ligada por radiotelepatia teria uma experiência de vida totalmente nova.
A primeira regra do jogo, que não deverá ser muito difícil de transpor para uma lei, seria que todos os indivíduos tivessem a garantia de poder desligar a comunicação rádio em qualquer altura, com ou sem razão. Quando a tecnologia da comunicação se torna mais e mais intrusiva, a privacidade deve ser preservada como direito humano fundamental.
Um outro conjunto de oportunidades e responsabilidade surgirá quando a radiotelepatia for possível entre humanos e outras espécies animais. Poderemos então sentir directamente a alegria de voar como uma ave ou de caçar em bando como os lobos, mas também a dor de um veado ferido por caçadores ou de um elefante a morrer de fome. Espero que a partilha dos nossos cérebros com outras criaturas nos torne mais cuidadosos com o nosso planeta.

Ameaça nuclear
Lawrence Krauss
Físico, Arizona State University

É a minha convicção que a ameaça das armas nucleares continua a ser um dos maiores perigos deste século. É notável terem passado mais de 60 anos sem as usarmos, mas o tempo está a esgotar-se. Receio que não consigamos viver impunemente um outro meio século sem pelo menos nos confrontarmos com a necessidade de elaborar um programa global de desarmamento que vá muito para além dos actuais tratados de não-proliferação e de controlo das armas estratégicas. O meu instinto diz-me que, se continuarmos a ignorar a possibilidade de se vir a concretizar neste século um pesadelo capaz de mudar as regras do jogo, estamos apenas a fazer aumentar as hipóteses de isso acontecer.

Terrorismo nuclear
Gerald Holton
Físico e historiador das ciências, Harvard University

A resposta cabe numa frase: o desenvolvimento intencional e hostil - quer por um Estado, um grupo terrorista ou outros indivíduos - de um engenho nuclear.

Guerra nuclear
Max Tegmark
Físico, MIT

Uma guerra nuclear acidental entre duas superpotências, a acontecer, vai obviamente mudar tudo. As alterações climáticas actualmente em debate parecem uma brincadeira ao lado do inverno nuclear e a crise económica não é nada comparada ao que aconteceria em termos do colapso global da agricultura e das infra-estruturas e da fome generalizada, com os sobreviventes a sucumbirem à pilhagem das suas casas por gangs armados esfomeados. Será que isto vai acontecer durante a minha vida? Dou-lhe 30 por cento de probabilidades, o que é mais ou menos equivalente ao meu risco de contrair cancro.

O declínio do texto
Marti Hearst
Informático, University of California

Com a rapidez crescente do registo e distribuição de vídeo e a sua enorme popularidade, acho que é apenas uma questão de tempo até o texto e a palavra escrita se tornarem uma curiosidade confinada aos especialistas (como os advogados) e aos amadores.

O fim do optimismo
Brian Eno
Artista e compositor

O que poderia mudar tudo nem sequer é um pensamento; é um sentimento. Até aqui, o desenvolvimento humano tem sido movido e guiado pelo sentimento de que as coisas poderiam - e iriam provavelmente - melhorar. Mas e se esse sentimento viesse a mudar? E se começássemos a sentir que o longo prazo não existe - ou pelo menos que não há nada a esperar dele? E se, em vez de sentirmos que estamos à beira de um novo continente, selvagem e cheio de promessas e perigos, começássemos a sentir que estamos num barquinho superlotado, em águas hostis, lutando para permanecer a bordo, e dispostos a matar por comida e água? É um pensamento sombrio, mas temos de permanecer alerta. Os sentimentos são mais perigosos que as ideias, porque não se prestam à avaliação racional. Crescem lentamente, de forma subterrânea, e explodem de repente, por todo o lado. Podem espalhar-se depressa e ficar fora de controlo (FOGO!) e, por natureza, tendem a auto-alimentar-se. Se o nosso mundo se tornar a presa deste sentimento particular, tudo o que isso pressupõe poderá em breve tornar-se realidade.

Miniaturização humana

Dominique Gonzalez-Foerster
Artista, Paris

Na sequência da tendência para a nano e miniaturização, em curso em muitas áreas - das tapas às câmaras, passando pela cirurgia, os vegetais, os carros e os computadores... Imaginemos uma decisão global e colectiva para miniaturizar geneticamente as gerações futuras de forma a reduzir as necessidades humanas e aumentar o espaço disponível e os recursos do nosso planeta azul. Seguir-se-ia um estranho período de transição de tipo mundo de Gulliver, com gigantes ainda a viver ao pé das gerações mais pequenas, mas a longo prazo o planeta poderia ter um aspecto muito diferente e a mudança de escala em relação aos animais, às plantas e à paisagem poderia gerar ideias, percepções e representações completamente novas.

A felicidade
Betsy Devine
Jornalista e bloguista norte-americana

Nos próximos cinco anos, os políticos do mundo inteiro vão render-se às teorias económicas destinadas a criar felicidade. Longa vida à economia da felicidade!

Reescrever
o software da vida

J. Craig Venter, especialista do genoma, J. Craig Venter Institute

Numa série de experiências destinadas a perceber melhor o código genético, os meus colegas e eu desenvolvemos maneiras de sintetizar quimicamente o ADN no laboratório. Primeiro, sintetizámos o código genético de um vírus. Quando essa grande molécula artificial foi inserida numa bactéria, a maquinaria celular da bactéria foi não só capaz de ler o código genético sintético, como também de produzir as proteínas codificadas por esse ADN. As proteínas auto-organizaram-se e formaram uma partícula viral que foi a seguir capaz de infectar outras bactérias. Nos últimos anos, também criámos de raiz quimicamente, na íntegra, um cromossoma bacteriano com mais de 582 mil nucleótidos [moléculas de base] - o maior composto químico jamais fabricado pelo homem.
Actualmente, já conseguimos mostrar também que o ADN é sem margem para dúvida o material que contém a informação codificada da vida, ao transformarmos completamente uma espécie noutra, simplesmente mudando o ADN contido numa célula. Inserindo um novo cromossoma na célula e eliminando o cromossoma existente, todas as características da espécie original foram apagadas e substituídas pelo que estava codificado no novo cromossoma. Muito em breve seremos capazes de fazer o mesmo com o cromossoma sintético.
Vamos poder partir da informação genética digitalizada e de quatro frascos de substâncias químicas para escrever novos softwares da vida (...). Vamos mudar não apenas a nossa concepção da vida mas a própria vida.

O renascer de África
James J. O'Donnell
Estudos clássicos, Georgetown University

Numa palavra, a resposta é "África". Mas pede uma explicação.
O primeiro continente da espécie humana, o seu berço, tem sido votado, durante demasiado tempo, à doença, à pobreza e por vezes a governos insolitamente maus. Isso não pode durar. A derradeira questão com que a humanidade se defronta no seu desenvolvimento histórico é a de saber se podemos fazer com que toda a família humana, incluindo os mil milhões de África, atinja níveis sustentáveis de saúde e conforto.

O império
do telemóvel

Keith Devlin
Matemático, Stanford

A minha resposta? Temo-la à frente dos olhos. O telemóvel. Antes de morrer, espero ver um na mão de cada adulto e da maioria das crianças do mundo (nem a caneta nem a máquina de escrever beneficiaram, nem de longe, de um tal nível de adopção - nem mesmo o automóvel). Isso põe a conectividade global, um imenso poderio computacional e o acesso a todo o saber do mundo, acumulado ao longo de séculos, ao alcance de todos. Até aqui, o mundo nunca, mas nunca, esteve numa situação como esta. Isto vai mesmo mudar tudo.

Reproduções de jornais do tempo do regime nazi à venda na Alemanha
http://jornal.publico.clix.pt/
15.01.2009




Reproduções de jornais do tempo de Adolf Hitler e do seu regime nazi estão à venda na Alemanha. O objectivo deste projecto financiado por uma editora é fazer a história sair dos livros para a vida real.
Os alemães podem agora fazer uma controversa viagem na História até aos dias da ascensão nazi e ler os jornais que os seus pais e avós compravam durante os 12 anos do Terceiro Reich. Os discursos anti-semitas de Hitler, a forma como eram relatadas as perseguições e o extermínio do povo judeu ou como era contada a guerra contra os aliados podem agora ser lidos à luz do século XXI.
O projecto Zeitungszueugen (Jornais Testemunhos) "deve ser lido por quem nunca leram um livro de história, e valorizar a análise que acompanha a informação" explica Peter McGee, director da Albertas, a editora inglesa que lançou o projecto.
Durante o próximo ano, o Zeitungszueugen vai reunir artigos de jornais das décadas 30 e 40 do século XX, como o Der Angriff (O Ataque) e o Der Kaempfer (O Combatente), porta-voz comunista encerrado pouco depois da chegada ao poder pelos nazis. Os artigos publicados serão acompanhados de análises e comentários de uma equipa de peritos em comunicação e história contemporânea.
Para concretizar o projecto, o editor teve de obter uma autorização especial para a publicação de propaganda nazi, pois na Alemanha é estritamente proibido qualquer forma de glorificação do regime nacional socialista.
"Não sei qual será o impacto do projecto. Hitler pode ter sido derrotado militarmente, mas não foi combatido intelectualmente, mesmo passados 60 anos", alerta o conhecido jornalista judeu-alemão Ralph Giordano. Outro judeu residente em Berlim disse ao jornal britânico The Telegraph que "a acção em Gaza está a levar milhares de pessoas para as ruas a entoar slogans anti-Israel - não é o melhor momento para dar publicidade a Joseph Goebels". L.C.B.
A ideia é dar a conhecer o que leram os contemporâneos de Hitler, mas interpretando-o à luz da análise contemporânea

A abertura do Ano Internacional de Astronomia acontece hoje em Paris
"Não podemos ser os únicos em 100 milhões de estrelas"
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1356195&idCanal=13
15.01.2009 - 10h08 Andrea Cunha Freitas
Esperam-se imagens de galáxias distantes em lugares comuns como uma paragem de autocarro, telescópios montados nas ruas, planetários de portas abertas, olhares para o sol, cabeças viradas para a Lua, muitas conversas sobre estrelas e exposições. Até as forças do Universo vão ajudar e programaram para os céus de 2009 o mais longo eclipse solar a 22 de Julho, uma chuva de estrelas em Novembro e uma vista privilegiada para Júpiter em meados de Outubro.

Entramos hoje, com cerimónia oficial na sede da UNESCO em Paris, no Ano Internacional da Astronomia (AIA 2009), com o lema Descobre o teu Universo, e que assinala os 400 anos da primeira observação astronómica - da Lua - realizada por Galileu. É altura de estar mais perto do céu.

A iniciativa não tornará melhores as muitas missões espaciais em curso. Porém, com o objectivo de "tornar a astronomia acessível a todos e fazer perceber o contributo dessa ciência na nossa cultura e sociedade", a acção da União Astronómica Internacional - que reúne mais de dez mil astrónomos -, apoiada pela UNESCO, prevê milhares de eventos em 135 países e promete, pelo menos, muito mais atenção para esta ciência.

"Não é um ano internacional que vai revolucionar a astronomia, mas tenho a certeza que com esta acção de visibilidade pública vamos lançar sementes que iremos colher mais tarde", nota Pedro Russo, o coordenador internacional do AIA 2009. Talvez até mais investimento para uma área científica muito dispendiosa.

Questões em aberto
Há quatro grandes questões em aberto na astronomia que merecem o consenso e se arrastam há séculos. A saber: Compreendemos os extremos do Universo? Como é que as galáxias se formam e evoluem? Como é que as estrelas e planetas se formam? Como encaixamos nisto tudo?

Pedro Russo acredita que "estamos cada vez mais próximos" das respostas, mas que encontrar provas de vida extraterrestre é o que o entusiasma mais. A Nuno Santos também. O astrofísico do Centro de Astrofísica da Universidade do Porto, que é co-autor da descoberta de vários planetas fora do nosso sistema solar (extra-solares), adivinha um prazo de cerca de cinco anos até à descoberta "de um planeta parecido com a Terra".

Depois é preciso chegar lá para perceber se há vida. Mas, para Nuno Santos, esta aventura faz-se com a convicção de que "não podemos ser os únicos em 100 milhões de estrelas". Por coincidência, porque os planos espaciais se fazem com grande antecedência, em 2009 há missões da Agência Espacial Europeia e da NASA que visam estas áreas (a Hershel, Planck e a Kepler).

Os mistérios da astronomia não se resumem à hipótese de vida extraterrestre, mas não há dúvida que esse é o assunto que mais nos inquieta e fascina, sejamos cientistas ou não. Sim, também queremos saber como tudo começou, gostamos do Big Bang, da ideia de sermos feitos da poeira das estrelas, dos misteriosos buracos negros, dos anéis de Saturno e das descrições gélidas ou tórridas de planetas distantes. É é disso tudo que vamos ouvir falar em 2009.

terça-feira, janeiro 13, 2009

Formigas agressivas com companheiras
http://dn.sapo.pt/2009/01/13/ciencia/formigas_agressivas_companheiras.html
Estudo. Investigadores norte-americanos fizeram experiência com uma substância química num formigueiro

A sociedade das formigas é complexa, mas tudo aquilo parece funcionar bem. Uma das características de um formigueiro é que o grupo das operárias não se reproduz, dedicando o seu tempo a cuidar da descendência da rainha. Há sempre umas quantas, no entanto, que tentam escapar ao destino e produzir descendência, mas em geral sem grande sucesso. A apertada vigilância das suas companheiras de "trabalhos forçados" faz com que estas rapidamente detectem a situação. e se voltem contra elas. Mas como conseguem elas descobrir as prevaricadoras? Investigadores da universidade do estado do Arizona descobriram que as formigas se denunciam a si próprias, porque quando tentam reproduzir-se produzem uma substância química que é imediatamente detectada pelas outras. A descoberta, publicada na revista Current Biology, é a primeira no género, que demonstra este tipo de comunicação entre formigas. Os investigadores testaram a hipótese utilizando aquela mesma substância química (que se sabe estar ligada à fertilidade naqueles insectos) algumas formigas de um formigueiro. E o resultado foi uma resposta agressiva por parte das outras formigas.

Duas moléculas para uma célula feliz
http://dn.sapo.pt/2009/01/13/ciencia/duas_moleculas_para_celula_feliz.htmlFILOMENA NAVES
Biologia. Grupo internacional liderado por investigadora portuguesa descobriu novo papel de uma molécula na célula

Estudo é publicado hoje na revista 'Current Biology'

As células têm que multiplicar-se e dar origens a outras para que os tecidos se regenerem e a vida continue. Mas este é mecanismo delicado, durante o qual podem ocorrer erros que dão origem a doenças, como cancro, ou infertilidade, e há muita coisa que não se sabe sobre os processos moleculares que ali estão envolvidos.

Uma das coisas que não se sabia era como as células fazem contas para escolher o número certo da estrutura celular chamada centrossoma que as células-filhas herdam - quando há mais do que um centrossoma numa célula, existe um problema. Um grupo internacional, liderado pela portuguesa Mónica Bettencourt Dias, do Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC), descobriu agora como o controlo do número de centrossomas na descendência celular é feito. Esse é o papel de uma molécula chamada Slimb, demonstrou a equipa liderada por Mónica Dias, na qual participaram outras três investigadoras do IGC e dois grupos das universidades de Cambridge, no Reino Unido e de Siena, em Itália. A descoberta é publicada hoje na revista Current Biology.

"Descobrimos que esta molécula faz aquele controlo eliminando uma outra chamada SAK, se esta estiver em excesso", explicou ao DN Mónica Dias.

Os resultados publicados hoje surgem na sequência do anterior trabalho desta investigadora que, em 2006, já tinha descoberto, e publicado na revista Science, que a formação dos centrossomas está ligada à SAK. Se não existe esta molécula, não há centrossoma na descendência celular. Se ela existe em excesso, pode haver vários centrossomas.

Quando viram que em alguns casos de células com vários centrossomas não existia a molécula Slimb, a equipa foi verificar se poderia ser esse o problema. Utilizaram moscas da fruta e verificaram que tinham acertado em cheio no palpite.

quinta-feira, janeiro 08, 2009

Estudo conduzido pela Universidade de Oxford
Tetris pode ajudar a minimizar os efeitos do stress pós-traumático
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1355260&idCanal=62
07.01.2009 - 15h41 Susana Almeida Ribeiro
O popular Tetris, que se espalhou como um vírus por computadores e consolas durante as décadas de 1980 e 1990, pode afinal ser mais do que um simples jogo viciante. De acordo com um estudo conduzido pela Universidade de Oxford, o jogo poderá ter aplicações terapêuticas no domínio do stress pós-traumático, ajudando as suas vítimas a ter menos “flashbacks” penosos relacionados com o episódio traumático vivido.

O stress pós-traumático, muitas vezes associado a antigos combatentes de guerra, pode afectar qualquer pessoa que sofra um incidente repentino e chocante, como seja um acidente de automóvel. Uma das principais características do stress pós-traumático é a ocorrência de “flashbacks”, nos quais a vítima volta a reviver, na sua mente, os acontecimentos traumáticos de forma muito real.

O departamento de Psiquiatria da prestigiada universidade britânica realizou um estudo com o auxílio de 40 voluntários saudáveis, aos quais foi mostrado um filme de 12 minutos com cenas traumáticas (envolvendo acidentes, dor e mortes). Depois do filme, ao qual se seguiu uma pausa de 30 minutos, as 40 pessoas foram divididas em dois grupos. Vinte limitaram-se a ficar sentadas e em silêncio. Às pessoas do segundo grupo foi dada a tarefa de jogarem Tetris durante dez minutos. Após a experiência, foi entregue a cada pessoa um diário. Nele deveriam apontar, durante a semana seguinte, a quantidade de vezes que tinham tido “flashbacks” penosos relativamente às imagens traumáticas que tinham visto. Ao analisarem os diários, os cientistas concluíram que as pessoas a quem tinha sido pedido para jogarem Tetris, tinham tido menos “flashbacks” do que as que se tinham limitado a ficar caladas, quietas e em silêncio.

Por outras palavras, as pessoas que estiveram entretidas a alinhar blocos coloridos, não tiveram tempo para visualizar novamente, nas suas mentes, as cenas traumáticas às quais tinham assistido previamente, e isso reflectiu-se durante toda a semana seguinte. Este estudo baseia-se no princípio - que não é inovador - de que a “distracção” pode ajudar à “dessensibilização”.

A investigadora responsável pelo estudo, Emily Holmes, e a sua equipa, querem provar que, até certo ponto, o jogo de computador ajuda o cérebro a bloquear as memórias dolorosas. “O que o Tetris faz é competir pelos recursos do cérebro, no que toca a informação sensorial. O que nós sugerimos é que o jogo interfere especificamente na maneira das memórias sensoriais serem arquivadas no período após o trauma e que isso reduz o número de ‘flashbacks’ que são vividos mais tarde”, indica Emily Holmes, citada pela BBC online.

“Este foi o primeiro passo para demonstrarmos que esta poderá ser uma abordagem viável à prevenção da síndrome do stress pós-traumático”, acrescentou Emily Holmes ao “Telegraph”, salientando, porém, que ainda é preciso fazer muita coisa para “adaptar este resultado científico experimental a um potencial tratamento”.

“Não estamos a tentar dizer que as pessoas que sofrem de stress pós-traumático devem jogar Tetris, mas achamos que é muito importante percebermos como é que o cérebro funciona e como é que produz ‘flashbacks’ intrusivos”, disse ainda a especialista à BBC.

Fundamental é que o jogo de Tetris seja introduzido logo após o acontecimento traumático, ou pelo menos num intervalo máximo de seis horas após o episódio.

“Sabemos que há um período até seis horas no qual é possível afectar certo tipo de memórias que são depositadas na mente humana (...) O que ficou aqui demonstrado foi que com voluntários saudáveis, o jogo de Tetris durante essa janela temporal pode ajudar a reduzir os ‘flashbacks’, sem que a pessoa perca a habilidade de ter noção do que se passou”, indicou ao “Telegraph” Catherine Deeprose, co-autora do estudo.

Ouvido pela BBC, o especialista do Aberdeen Centre for Trauma Research David Alexander frisou que é eticamente impossível simular em laboratório um acontecimento tão dramático e catastrófico como os que dão origem ao stress pós-traumático, e ainda menos quando os voluntários já sabem que irão ser submetidos a uma experiência desagradável.

Para além disso, David Alexander salientou ainda que, normalmente, o stress pós-traumático só consegue ser diagnosticado algumas semanas após o incidente, e não apenas algumas horas depois.

Quinze segundos para chegar à caixa de betão
http://dn.sapo.pt/2009/01/08/internacional/quinze_segundos_para_chegar_a_caixa_.html

ELMANO MADAÍL em Sderot e Ashkelon
Serviço Especial JN/DN
Israelitas correm quanto podem para entrar nos abrigos contra os mísseis lançados pelos integristas palestinianos do Hamas quando as sirenes alertam novo ataque

Cerca de 30% das crianças de Sderot sofrem de 'stress' pós-traumático

Inesperado e agudo, o uivo das sirenes sobrepõe-se a qualquer prioridade. Gritam alertas cuja eficácia se demora em 15 segundos apenas, incitando à corrida imediata em busca de protecção. E as pessoas correm. Muito. De tal modo que, num ápice, ficam as ruas vazias de transeuntes e cheias de carros com motores expectantes pelo regresso de quem os deixou assim, à deriva no alcatrão. Porque esse será o curto hiato concedido aos residentes nas cidades israelitas do Sul que debruam a Faixa de Gaza, para encontrar o equipamento urbano mais característico daquelas urbes: os abrigos.

São cubos de betão sem estética, estruturas rudimentares com quatro metros quadrados, na maioria, que se tornaram indispensáveis a um quotidiano exposto, de há oito anos para cá, aos morteiros e aos Qassam - mísseis artesanais do Hamas - que já mataram 24 judeus. Em 2008, foram mais de três mil, que averbaram quatro baixas. Horríveis à vista, mas eficazes nos seus propósitos, tais abrigos acabam por ser, como diz Yaakov Shushan, de Sderot, "muito mais agradáveis do que um caixão". Mesmo que plantados em jardins de infância, ao lado de cada paragem de autocarro, nos recreios de escolas similares a bunkers e nos anexos das casas particulares. Reflexo de um país blindado e em mobilização permanente.

Ontem, suplantando as deflagrações que massacram, há 12 dias e sem qualquer misericórdia, os árabes aprisionados na Faixa de Gaza, as macabras sirenes volveram a Sderot, Ofakim, Netivot e Ashkelon. Aqui, cedo pela manhã, um rocket estilhaçou dois carros e todos os vidros de um prédio na rua Hatayasim, zona habitacional sem interesse militar. Não fez vítimas, como é quase regra, "mas rebenta com os nervos", garante Moshe Skital, inquilino de há 40 anos. As estatísticas do Ministério da Saúde confirmam-no: Cerca de 30% das crianças de Sderot, por exemplo, sofrem de stress pós-traumático.

E terá sido para neutralizar essa ameaça constante que Israel decidiu a operação "Chumbo derretido" em curso na Faixa de Gaza, como explica, na forma crua dos brutos, o coronel do Exército Olivier Rafowicz: "Os terroristas do Hamas conseguiram a 'betonagem' de Israel, forçaram à multiplicação dos abrigos. Só que, como não se pode blindar um país inteiro e fechar toda a gente numa caixa de betão, o Governo de Telavive decidiu tomar uma atitude para eliminar a necessidade de mais abrigos", diz o reservista de 42 anos.

A acção tem apoio da maioria israelita (71%, segundo o Haaretz), que a entende como dissuasora e punitiva. Mesmo que custe a vida aos filhos de uma nação forjada a ferro e fogo, com sete mil reservistas convocados à marcha na primeira fase, e mais dez mil no sábado. E no domingo era ver os conscritos - eles imberbes, elas inseguras -, enchendo os autocarros a caminho da frente, alguns ensaiando a paixão juvenil em beijos que a metralhadora atrapalha.

Foi o caso do varão de Skital: "Está lá, como o pai já esteve, a conduzir tanques contra os terroristas", diz, orgulhoso mas sem notícias do rebento. "Manda sms a dizer que está bem." E é tudo, que o exército não autoriza mais. E, no dia em que o telemóvel não bulir, Skital aceitará o destino com o arrepiante pragmatismo dos veteranos: "Melhor morrer a lutar do que a caminho de um abrigo." Essas caixas de betão que os palestinianos da Faixa de Gaza não tiveram o ensejo de construir.

Gadjets
http://jornal.publico.clix.pt/
08.01.2009


Começa hoje em Las Vegas o Consumer Electronics Show, a maior festa mundial da electrónica de grande consumo. A crise financeira global não permite grandes luxos e as estrelas da edição deverão ser gadgets suficientemente baratos para
não fazer fugir os clientes. Eis uma pequena amostra. Por Ana Gerschenfeld


Minoru3D
É a primeira webcam 3D grande público do mundo. Em japonês, "minoru" significa realidade. É fabricada pela britânica Novo e apresenta certas semelhanças com um robozinho chamado Wall-E. Quando ligada ao PC, abre os seus olhinhos (que são na realidade duas câmaras de vídeo) e mostra-nos ao mundo via Internet - aos nossos amigos, familiares, etc. - em três dimensões, tal como somos realmente. Permite transmitir, através de software como o Skype ou o Windows Live Messenger, AOL Instant Messenger e outros, imagens que, graças a óculos especiais (daqueles com uma lente azul e outra encarnada, cinco incluídos na embalagem), parecem saltar do ecrã do computador. Sem os óculos, funciona como uma webcam normal. Também consegue tirar fotografias - e até captar vídeos em 3D, dizem os seus fabricantes, e colocá-los no YouTube. À venda na Europa por 80 euros.

WowWee Spyball
Mais uma câmara, só que, desta vez, destinada aos espiões amadores. Quer espreitar o que está a acontecer noutras divisões da sua casa sem dar nas vistas? Então precisa desta bola de metal telecomandada, que se desloca sozinha, discreta e silenciosa, e que lhe transmite imagens para um PC via uma ligação sem fios. Quando surge alguma cena interessante - zap! -, a bola transforma-se numa câmara em instantes, diz o fabricante, a multinacional WowWee, retomando a seguir, e com igual rapidez, a sua forma inicial de bola inócua. Mais ainda: podemos continuar a monitorizar os acontecimentos mesmo quando não estamos em casa, via Internet - o que pode servir não tanto para espiar os outros, mas para ter a certeza de que tudo está em ordem em casa. Por enquanto ainda é um protótipo, mas parece que vai estar à venda no próximo Outono, nos EUA, por 149 dólares (pouco mais de 100 euros).

Carregador sem fios
Não está farto de precisar de carregadores para tudo - para o telemóvel, para o leitor de mp3, para o PC portátil - e ainda por cima, desprovidos de qualquer referência explícita, no próprio carregador, ao aparelho que são supostos alimentar, para nos permitir distingui-los uns dos outros? Em viagem, são quilos de transformadores e metros e metros de cabos que nos vemos obrigados a transportar de um lado para outro. Contudo, ao que parece, a empresa norte-americana Powermat conseguiu inventar um dispositivo, parecido com um tapete de rato de computador, onde basta colocar os nossos gadgets electrónicos, sem os ligar a qualquer fio, quando a sua bateria fraqueja. O carregamento faz-se via indução magnética, algo que já existia para as escovas de dentes eléctricas, mas que só agora é eficaz com aparelhos que consomem mais energia. Basta ligar o tapete carregador à corrente e esquecer o resto. Com capacidade para carregar até seis aparelhos em simultâneo, deverá estar nas lojas no Outono, por cerca de 100 dólares (à volta de 70 euros) nos EUA mais o preço dos conectores (dos dispositivos ao tapete), uns 30 dólares cada (22 euros).

Thinkpad W700ds
com dois ecrãs

Um computador portátil com dois ecrãs, um grande e de grande qualidade visual, e um pequeno, algo mais fraco. Fabricado pela chinesa Lenovo, possui um ecrã de 17 polegadas e um outro, do lado direito, e que pode ser recolhido, com 10,6 polegadas. Segundo o fabricante, estudos mostraram que os trabalhadores nas empresas se tornam 60 por cento mais produtivos quando têm dois ecrãs à sua disposição, com o mais pequeno a poder ser utilizado para o email, para visualizar material de apoio online e para as aplicações tipo messenger e o acesso às redes sociais, libertando o grande ecrã para as "coisas sérias". O preço deste computador, que é de 3600 dólares (cerca de 2600 euros), parece destiná-lo de facto a uma utilização empresarial. E o seu peso, que é de 5,5 quilos, a um futuro pouco portátil.

Sistema DJ portátil
Para quem sempre sonhou desenvolver os seus dotes de DJ, ou para quem simplesmente não consegue passar sem misturar músicas, a empresa sueca Tonium inventou o Pacemaker, que afirma ser o primeiro sistema de DJ de bolso. O dispositivo, que deverá estar disponível na Primavera por 550 dólares, possui um disco duro de 60 gigas e permite, diz o fabricante, para além de uma manipulação fácil e intuitiva através de um touchpad multifunções, fazer upload do resultado das misturas para a Web, de forma a poder partilhar com outros as produções musicais. Já agora, é compatível com uma série de manipulações áudio com sofisticados nomes técnicos como line-out, headphone crossfader, bend, pitch, DJ pause, Cue, Loop, Split Loop, EQ, Gain Filters e Audio FX. E com os formatos MP3, AAC, VBR, WMA, WMA lossless, OGG, FLAX e WAV.
Carregador de laptops ecológico

A empresa norte-americana iGo, fabricante de carregadores e adaptadores para portáteis de todo o tipo e feitio, apresenta um carregador "verde", o Green Laptop Charger, para computadores portáteis. A iGo afirma que o seu aparelho elimina a chamada "energia vampira", que é simplesmente a energia eléctrica consumida pelos dispositivos electrónicos, mesmo quando não estão a funcionar. Em particular, os carregadores para portáteis continuam a consumir mesmo em inactividade. Segundo a empresa, o seu carregador ecológico, que possui uma função que o desliga automaticamente quando as baterias do PC estão cheias - ou quando o PC, ligado à corrente, está em off ou em standby -, deve permitir poupar 80 por cento de energia em relação a outros carregadores.

Auricular bluetooth
Parece que é mesmo bom o Zivio Boom, o novo auricular bluetooth da empresa norte-americana Joby. Segundo o site especializado CNET, tem, antes de mais, um belo look futurista. Uma outra originalidade é que o seu microfone se estende como uma antena (e é fino como uma antena), para se aproximar o mais possível da boca do utilizador, fazendo com que seja mais fácil falar - e ser ouvido - sem forçar a voz. Mas o mais importante é a qualidade do som: ao contrário de muitos outros, este auricular bluetooth "permite sermos ouvidos alto e claramente pelos nossos interlocutores, mesmo no meio do trânsito mais ruidoso". A bateria dá para falar 10 horas e para 200 horas em standby.