"E compreendia-a, talvez, de esguelha, mas compreendia-a e essa era a novidade" Molloy, Samuel Beckett

segunda-feira, junho 29, 2009

Cantor poderá ser enterrado em Neverland
Família de Jackson quer funeral planetário
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1389140&idCanal=1428.06.2009 - 21h19 PÚBLICO, Agências

O reverendo Al Sharpton disse hoje que a família de Michael Jackson quer que as cerimónias fúnebres do cantor tenham lugar em simultâneo em vários pontos do globo.

Fontes citadas pela revista especializada Billboard referem que existe uma proposta para que Jackson seja enterrado no rancho de Neverland.

Sharpton, um conhecido pastor e defensor dos direitos cívicos, vai encontrar-se hoje com a família do cantor, que está reunida na mansão da família, em Encino, para preparar o funeral. O reverendo acrescentou que os familiares de Jackson estão descontentes com a cobertura dos media sobre a morte do autor de Thriller, considerando que se tem debruçado excessivamente sobre as acusações de pedofilia e a dependência de medicamentos.

Entretanto, Conrad Murray o médico cardiologista que acompanhou os últimos momentos de vida de Michael Jackson e que lhe terá administrado uma dose de Demerol antes de o cantor morrer na quinta-feira, vítima de paragem cardíaca, reiterou que não é considerado um suspeito, após ter falado pela segunda vez com a polícia de Los Angeles.

Edward Chernoff, o advogado do médico pessoal de Jackson negou mesmo que Murray tenha administrado qualquer analgésico potente ao cantor antes deste morrer. "Não houve Demerol. Não houve OxyContin", disse o advogado, citado pelo Los Angeles Times e considerando totalmente falsas as informações publicadas em primeira mão pelo site TMZ.

O segundo encontro entre Conrad Murray e departamento da polícia de Los Angeles decorreu esta madrugada e os investigadores confirmaram que o clínico não é um suspeito, mas sim “uma testemunha da tragédia”, disse a porta-voz do médico, Miranda Sevcik. A informação foi confirmada por uma fonte policial citada sob anonimato pelo jornal californiano Los Angeles Times.

O diário adianta que a segunda autópsia, pedida na sexta-feira pela família de Jackson, já teria sido realizada por um patologista privado.

O jornal explica que a autópsia independente pode dar informações sobre as causas da morte muito mais depressa do que um exame oficial, uma vez que não têm de seguir uma metodologia para chegar a uma explicação utilizável num tribunal, explicou o médico Michael Baden, um especialista nesta área.

Por outro lado, a ama que durante anos cuidou dos três filhos de Michael Jackson disse ao jornal "Sunday Times" que fazia frequentemente lavagens ao estômago do cantor por causa dos cocktails de drogas que este ingeria.

Grace Rwaramba, de 42 anos, que sábado viajou de Londres para Los Angeles, disse que Jackson tomava oito medicamentos diferentes por dia, incluindo três analgésicos. “Houve uma altura em que as coisas estavam tão mal que não deixava as crianças vê-lo. Comia muito pouco e fazia misturas em excesso”, disse ao jornal.

Rwaramba trabalhou durante dez anos para o músico, primeiro como secretária e depois como ama dos três filhos de Michael Jackson. A ama, que é natural do Ruanda, foi despedida em Dezembro, depois de ter pedido à mãe do cantor, Katherine, e à irmã, Janet, que o convencessem a tratar-se da sua dependência. Rwaramba deverá ser ouvida no âmbito do inquérito à morte de Jackson.

quarta-feira, junho 24, 2009

Kodachrome Kodak decide acabar com os rolos das cores intensas
http://jornal.publico.clix.pt/
24.06.2009




O retrato icónico que Steve McCurry captou da afegã Sharbat Gula, em 1984, parece confirmar a descrição que muitos fizeram das cores das fotografias registadas em rolos Kodachrome - tonalidades "vibrantes, ricas e intensas". A imagem que correu mundo e foi capa da National Geographic passará a fazer parte de um memorial particular, ligado ao suporte com que foi conseguida, já que a Eastman Kodak anunciou anteontem que deixará de produzir este tipo de película, 74 anos após ter sido colocada à venda. Aquele que era o mais antigo rolo a cores do mercado - celebrado também na música pelo dueto Simon & Garfunkel numa canção de 1973 cujo refrão pedia: "Mamã, não me tires o Kodachrome" - tinha um processo de fabrico complexo e uma revelação igualmente complicada (em Portugal nunca houve laboratórios a fazê-lo). Nos últimos anos, o aparecimento de rolos com resultados a nível da cor semelhantes e menos dispendiosos e a massificação do suporte digital fizeram com que as vendas recuassem até menos de um por cento das receitas de filmes da Kodak. As exigências técnicas da revelação dos rolos de diapositivos Kodachrome transformaram-se também num obstáculo, ao ponto de hoje existir apenas um laboratório no mundo (nos EUA) capaz de dar vida a este tipo de imagens. Face a este cenário, a empresa americana não precisou de pedir à mãe de ninguém para acabar com o Kodachrome. Tirou-a do mercado. S.B.G.

A arte de cuidar dos bebés em manual para imigrantes
http://jornal.publico.clix.pt/
24.06.2009




Qual a melhor forma de trocar a fralda do bebé? Como amamentá-lo correctamente? Por que é importante limpar o cordão umbilical? As perguntas podem parecer simples, porém, provavelmente, não são para pais imigrantes. Sejam quais forem as preocupações dos pais e mães, poderão encontrar as respostas no manual Como Cuidar do Seu Bebé, a ser lançado hoje, em Lisboa, em seis línguas.
Escrito pela pediatra Cândida Mendes e pelas enfermeiras Núria Simões, Fernanda Areias e Lúcia Feito Cano, a brochura será disponibilizada gratuitamente em centros de saúde, hospitais e associações de imigrantes de todo o país. A ideia de produzir um manual de saúde materna destinado a estrangeiros surgiu há três anos - ele é bilingue, está escrito em português e é traduzido para o francês, inglês, romeno, russo, chinês e ucraniano -, quando as profissionais e autoras se depararam por diversas vezes com a mesma barreira: a língua. Pudera: segundo os últimos dados estatísticos, 10 por cento da população activa em Portugal são imigrantes, 5 por cento dos quais oriundos de mais de 150 países de todo o mundo.
"Tínhamos grande dificuldade de comunicar com esses pais, pois não falávamos a mesma língua. Tínhamos de acabar com esse obstáculo, porque precisávamos de lhes passar ensinamentos básicos", conta Núria, 28 anos, que vai estar presente no lançamento, no Centro Padre Alves Correia (CEPAC), às 11h.
Para colmatar essa dificuldade linguística, que pode prejudicar o acompanhamento e a aplicação correcta de cuidados de saúde, surge Como Cuidar do Seu Bebé, que ensina quais os cuidados a ter com os recém-nascidos ao nível da desinfecção do cordão umbilical, mudança de fralda, cuidados de higiene, amamentação, cólicas, manobras de desengasgamento e o teste do pezinho.
"O livro é didáctico, acessível a todos os pais, mesmo com baixo nível de escolaridade. Como o formato é A5, pode ser lido pelos pais deitados, na cama", explica Núria Simões, enfermeira da Maternidade Dr. Alfredo da Costa.
São 16 páginas e quatro capítulos de conselhos úteis para todos aqueles que desejam aprender os fundamentos da arte de cuidar de crianças. O CEPAC fica na Rua de Santo Amaro à Estrela, n.º 43, piso 0, código postal 1200-801. Janaína Kalsing

sábado, junho 20, 2009

Celebridade
Paris Hilton: o ícone louro do século XXI
http://dn.sapo.pt/inicio/pessoas/interior.aspx?content_id=1267586
por ANTÓNIO RODRIGUES

Afirma-se como a loira icónica do século XXI, herdeira de Marilyn Monroe e da princesa Diana. Vive rodeada de um circo mediático que a acossa e alimenta, encenando a sua própria existência para os holofotes dos media. Paris Hilton é a fama feito gente num mundo que só existe em versão tablóide como o seu romance com Cristiano Ronaldo

No princípio era o apelido. A herdeira do império Hilton atraía as atenções dos media com as suas extravagâncias, o seu gosto pelas festas, a sua vontade de estar sempre nas bocas do mundo, a disponibilidade para fazer da sua vida uma constante atracção para os jornais, as revistas, a televisão.

A seguir, a persona inventada tomou o lugar no centro do cenário, na parte mais iluminada pelos holofotes, e o apelido, por si só, passou a secundário. Paris deixava de ser atracção por ser herdeira de um dos mais famosos impérios hoteleiros e transformava-se em objecto de atracção noticiosa por ser ela mesma: Paris Hilton.

Da crisálida herdeira irrompeu para o sol dos flashes a borboleta famosa, que é como quem diz, transformou-se Paris Hilton em sinónimo de fama, em luz que se alimenta de si mesma, em ser apaixonado por si próprio e capaz com isso de fazer apaixonar os outros. Já o dizia Camões, "transforma-se o amador na coisa amada, por virtude de tanto imaginar".

Paris fez isso consigo. Transformou-se na celebridade entre as celebridades, num ser que precisa da atenção dos tablóides, da indiscrição dos que lhes estão próximos, da agressividade sem escrúpulos dos paparazzi, do acosso dos anónimos, da protecção dos guarda-costas. Um ser que quando acorda não procura o sol mas o flash da câmara fotográfica mais próxima.

Mesmo continuando a ser a neta de William Barron Hilton - de quem se diz que resolveu doar 97% da sua fortuna de quase 2,3 mil milhões de dólares no final de 2007 por vergonha do comportamento de Paris -, por esta altura a ordem dos factores já foi invertida: é Barron Hilton quem surge identificado como o avô de Paris Hilton. O estatuto de Paris deixou de lhe ser conferido pelo apelido, passando a estatuto em nome próprio.

Paris Whitney Hilton transformou-se em Paris Hilton, um ícone muito parecido com uma das herdeiras do império Hilton - nascida como ela em Nova Iorque a 17 de Fevereiro de 1981 no seio de uma família católica, a mais velha dos quatro filhos de Richard e Kathy Hilton - mas de dimensão excessivamente grande e intensa para se confinar a um nome de hotel, mesmo sendo uma das maiores cadeias de hotéis do mundo.

Aos 28 anos, é já a loura platinada mais conhecida do planeta a seguir a Marilyn Monroe. Ou será antes? No Google.com, ao introduzir apenas Paris, não é a capital francesa quem irrompe primeiro das profundezas do algoritmo mais famoso da história moderna e, sim, Paris Hilton. A cidade- -luz, a capital romântica, o lugar dos sonhos é apenas quarta atrás de Paris Hilton e do seu vídeo e do hotel-casino Paris, em Las Vegas. É caso para dizer que a fantasia ganhou à realidade.

Mais do que uma mulher, Paris Hilton é uma criação: uma celebridade inventada, testada e aprimorada em função da sociedade em que vivemos. Um nome, uma imagem (no Google.com são 53,5 milhões de citações e 7,6 milhões de imagens), linhas de perfumes, extensões de cabelo, jóias, telemóveis, uma colecção de sapatos, outra de roupa, outra de malas de mão, um filme de sexo amador que se transformou em 2004 numa atracção à escala mundial, dois livros (Confessions of a Heiress e Your Heiress Diary), um disco (Paris) e uma carreira como actriz - na maior parte das vezes, interpretando-se a si própria ou com um papel muito próximo do seu.

Tal como aconteceu no The Simply Life, um reality show com Nicole Richie, a filha adoptiva do cantor Lionel Richie. Durante cinco temporadas - primeiro na Fox e nas últimas duas na E! Entertainment Television -, as duas socialites parodiaram as suas imagens, mostrando a incapacidade para os trabalhos mais simples, o seu desajuste em relação à vida dita normal, ao mesmo tempo que facturavam com o estereótipo de loura burra.

"Não existe ninguém no mundo como eu. Acho que em todas as décadas há uma loura icónica - como Marilyn Monroe ou a princesa Diana - e, neste momento, sou eu esse ícone", referiu a própria. "Sou uma empresária, sou uma marca, logo, tudo o que faço é para expandir a minha marca e conseguir uma maior exposição." E são precisas três empresas para gerir a sua carreira e todo o carrossel de produtos baseados na sua imagem: Paris Hilton Enterprises, Bang Bros. e Paris Hilton Entertainment.

De acordo com o site Forbes.com, a modelo, actriz, empresária ganhou o ano passado oito milhões de dólares com o império que construiu em seu nome. No documentário Paris, not France, estreado o ano passado no Festival de Cinema de Toronto, a realizadora Adria Petty mostra o resultado de um ano a acompanhar Paris Hilton para todo o lado.

Para lá da frivolidade dos tablóides, do louro ofuscante do cabelo, do chihuahua carregado como se fosse um adereço, das camisolas com a sua própria silhueta segurando um chihuahua, Petty filma um universo de trabalho intenso onde se pensa ao pormenor a exposição de Paris Hilton como identidade separada da Paris Hilton de carne e osso. Aliás, é razão para perguntar se ainda existe uma de carne e osso para além do calculismo mediático com que se apresenta.

Petty refere que lhe custou encontrar uma forma de passar para lá da personagem; o treino e a força de vontade transformaram Paris Hilton num ser altamente preparado para o mundo mediático, sem nunca abrir a guarda, sempre atida ao guião preconcebido. E foi por acaso, diz a realizadora, que descobriu a única forma de conseguir penetrar as defesas da celebridade.

Sentada ao volante do carro, mais ou menos protegida do mundo lá fora, Paris Hilton vai deixando escapar maiores intimidades, como se a câmara fosse o seu diário - o que acaba por não ser estranho tendo em atenção a relação próxima que têm mantido ao longo dos anos. Há, porém, nessas imagens algo de Big Brother - do confessionário do programa televisivo da Endemol e não do romance de George Orwell - e, por maior que seja a sinceridade subjacente, o pé fica sempre atrás quanto ao resultado a extrair.

Cintra Wilson, célebre analista da cultura popular nos Estados Unidos (autora da coluna "The Dregulator" no Salon.com), chamou- -lhe "génio warholiano de manipulação dos media". Quanto haverá de "génio warholiano" no alegado romance com Cristiano Ronaldo, precisamente na altura em que o jogador português se transformou na maior transferência de sempre do futebol mundial?

Michelito Lagravere
O menino que matou seis touros num dia
http://dn.sapo.pt/gente/interior.aspx?content_id=1267584
por RUI PEDRO ANTUNESHoje

Desde os quatro anos que Michelito Lagravere leva uma vida de toureiro. Em Janeiro, matou seis touros num dia para entrar no Guinness. Várias associações protestam contra a presença desta criança de 11 anos nas arenas. Michelito veio a Portugal, para actuar no Campo Pequeno, mas a Protecção de Menores não deixou. Fora das praças tem uma vida normal. É bom aluno, gosta do Homem-aranha e de piza

Um menino de 11 anos, com pernas franzinas e meias cor-de-rosa, está no meio de uma arena de capa vermelha e espada em riste. A menos de um metro, um poderoso touro prepara-se para avançar na direcção de Michelito Lagravere. Assim que o animal faz a sua in- vestida, Michelito faz peito firme e disfere um golpe fatal no dorso do touro. O sangue jorra e a criança fica ali de pé, hirta, até o animal cair a seus pés. Assim que o corpo inerte do touro jaz na arena, o público levanta-se como uma mola para aplaudir o pequeno "matador".

Este é uma história que se repete desde que Michel Lagravere tem seis anos. Praças do México, Peru, Guatemala, França e Espanha já vislumbraram a arte do pequeno "fenómeno."

No mundo taurino Michelito é um pequeno herói e uma esperança, mas para as associações de animais é uma criança abusada.

Nas vésperas de visitar o Campo Pequeno, onde foi impedido de actuar pela Comissão de Protecção de Menores, Michelito tenta explicar que esta é uma escolha só dele. Sentado no sofá de um hotel de Lisboa, apagam-se-lhe do rosto as expressões de coragem que mostra na arena. Sorri, balança de forma irrequieta as pernas e faz jogos com as mãos, como qualquer criança da sua idade.

Porém, é com uma lucidez de graúdo que Michelito explica o que lhe vai na alma quando mata um animal na arena. "Não sinto pena porque creio que o touro se criou para isso. Também há outros animais que se matam como os peixes ou os frangos. O touro é uma cultura e há que respeitá-la."

Michelito nasceu em Mérida, no México, mas cedo se percebeu que não era igual às outras crianças. Em vez de agarrar na bola e ir jogar com os amigos, Michelito pegava na capa e treinava no pátio de casa. Segundo o seu pai, "com dois anos Michelito já toureava o cão". Ainda assim, a criança conta que por vezes joga futebol na escola e revela o seu ídolo: "Lionel Messi."

O pai do "menino toureiro" nasceu numa vila do Sul de França, onde ninguém compreende a opção de pôr o filho "sozinho" numa arena com um touro. Por todo o mundo, a carreira de Michelito causa a indignação das associações antitouradas.

O pai alega que esta foi uma escolha que o filho fez aos quatro anos. "A meta dele é ser o número um do mundo, a minha é aquilo que Deus quiser para ele. Estou orgulhoso, mas se amanhã ele quiser seguir outra coisa e largar as touradas, vou apoiá-lo na mesma."

Mas a paixão de Michelito não deve mudar. À pergunta "o que queres ser quando fores grande?", Michelito responde imediatamente: "Toureiro." Na tauromaquia, admira o matador Morente de la Puebla e o seu próprio pai. É com eles que Michelito gostaria de tirar a "alternativa" quando tiver 14 anos. Questionado sobre se idolatra algum toureiro português, o pequeno "matador" diz prontamente: "Claro, o mestre Vitor Mendes."

Tal como o pai, Michelito é religioso e confessa que reza sempre antes de entrar na Praça. Porém, sabe que o apelo aos céus não chega. Apesar do risco, o pequeno toureiro não tem medo dos touros. "Apenas sinto nervosismo antes da corrida, mas assim que o touro entra na arena passa tudo", conta.

E se a religião e o facto de os seus pais estarem sempre presentes na corrida dão alguma protecção a Michelito, este previne-se ainda noutro campo: a superstição.

O pequeno matador revela o ritual que cumpre antes de entrar na arena: "Coloco as meias ao contrário e aperto os botões do casaco de cima para baixo."

Michelito tentou bater o recorde do Guinness da criança que matou mais touros num dia. E conseguiu. A 24 de Janeiro, matou seis touros numa praça de Mérida. Mas o Guinness não aceitou. Enquanto faz uma expressão triste, de criança que perde um jogo, Michelito explica : "Não me deram, porque não podem colocar no livro recordes em que se torturem animais."

Michelito sabe que esta é uma vida de risco. Dias depois de matar seis touros, um animal de mais de 200 quilos passou-lhe por cima do corpo, de 34. O menino ficou bem. Melhor do que um dia em que levou a melhor e o touro caiu-lhe aos pés. Nesse momento, Michelito desfez-se num mar de lágrimas. Nunca disse porquê. As crianças não falam sobre essas coisas.

Novo Museu da Acrópole abre sob polémica
http://aeiou.expresso.pt/novo-museu-da-acropole-abre-sob-polemica=f521883

A inauguração oficial é esta noite mas ontem os jornalistas estrangeiros já puderam visitar o novo espaço museológico. Acompanhados pelo ministro da Cultura grego, o grande tema da visita foi o apelo ao Reino Unido para devolver as peças levadas para Londres há 207 anos.

Alexandra Carita
10:28 Sábado, 20 de Jun de 2009

"Nao podemos celebrar com toda a alegria este magnífico novo museu. Não podemos ilustrar em pleno o alcance artístico criado em Atenas durante o século V, porque quase metade das esculturas do Partenon foram levadas daqui há 207 anos para viver num exílio forçado a quatro mil quilómetros de distância", disse Antonis Samaras, ministro da Cultura grego durante a apresentação do novo Museu da Acrópole aos mais de 300 jornalistas estrangeiros acreditados para o evento.

A polémica tem sido o tom de todas as intervenções públicas do Governo grego ainda mais porque foi criada uma comissão específica para negociar o regresso das peças do maior templo grego. O Vaticano, o Museu de Salinas, em Palermo, o Museu da Universidade de Heidelberg e o Metropolitan de Nova Iorque devolveram a Atenas as pecas que tinham. O apelo ao British Museum, onde se encontram as esculturas, torna-se ainda mais forte agora, uma vez que as autoridades inglesas sempre afirmaram que a Grécia não tinha qualquer espaço com condições de preservação ideais para receber as peças de mármore. "Essa desculpa já não faz sentido", frisa o ministro da Cultura.

Mas à parte da polémica, a festa está instalada em Atenas. O novo museu, com uma área de 23 mil m2 (14 mil de área expositiva), mostra ao público quatro mil peças encontradas na Acrópole e que representam um legado humano que vai desde os tempos pré-históricos, atravessa os períodos Arcaico, Clássico, Helénico e Romano até à Antiguidade (1000 a.C até 700 d.C.).

Foi idealizado pelo arquitecto suíço Bernard Tschumi e situa-se junto à muralha da velha Acrópole exactamente com a mesma orientação que o Partenon. Em vidro, betão e aço, linhas direitas e muito simples contrastam com as monumentais esculturas e colunas de mármore, os frisos dos vários templos e os muitos artefactos de barro e bronze que compunham o dia-a-dia das gentes comuns. Três pisos dedicados a diferentes períodos históricos marcam o percurso museológico, cujo momento mais marcante é representado pela galeria do Partenon, face a face, através das paredes de vidro, com o templo original. O chão, também em vidro, permite ao visitante ver ainda as mais recentes escavações feitas na base do museu, que mostram a estrutura das casas que rodeavam os templos.

A inauguração oficial está marcada para esta noite, às 20h, e contará com a presença do Presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso e inclui uma comitiva de sete primeiros-ministros, e os presidentes do Chipre e da Bulgária.

Os gregos só poderão entrar no museu amanhã, mas desde ontem que permanecem nas imediações do edifício para admirar o que se vai passando. Durante a noite, música e projecções das peças reunidas no interior do museu chamam a atenção da população. De resto, via Internet já foram vendidos 9 mil bilhetes. Os ingressos custam um euro.

sexta-feira, junho 19, 2009

Senado dos Estados Unidos pede perdão pela escravatura e por leis segregacionistas
http://jornal.publico.clix.pt/
19.06.2009, João Manuel Rocha


Resolução é histórica. Texto procura travar pedidos de indemnização de descendentes de escravos


O Senado dos Estados Unidos apresentou ontem formalmente, em nome do povo norte-americano, desculpas pela "escravatura e a segregação racial" dos negros. A resolução simbólica foi aprovada por aclamação, com o acordo da maioria democrata e da oposição republicana sobre os termos do texto.
O texto, patrocinado pelo senador democrata Tom Harkin, foi aprovado na véspera da celebração anual do fim da escravatura nos Estados Unidos, em 1865, e reconhece "a injustiça fundamental, a crueldade, a brutalidade e a desumanidade da escravatura" e das leis segregacionistas. Estas ficaram conhecidas como as "leis Jim Crow" e foram abolidas em 1964 pelo Civil Rights Act, a lei dos direitos cívicos que proíbe a discriminação. As "leis Jim Crow" foram promulgadas, principalmente em estados do Sul, entre 1870 e 1965 e negavam aos negros o voto e outros direitos e davam cobertura legal à sua segregação.
A resolução, semelhante a outra aprovada em Julho do ano passado pela Câmara dos Representantes, deverá ser adoptada por este órgão, cuja composição se alterou com as eleições de Novembro. Semelhante a declarações já adoptadas por diversos estados, a resolução não precisa de ser remetida ao Presidente Barack Obama, o primeiro negro a ser eleito para a chefia do Estado.
O documento ontem aprovado retoma os termos da declaração de independência dos EUA, de 4 de Julho de 1776, e reclama um "novo envolvimento do Congresso no princípio segundo o qual todos os seres são criados iguais e com os direitos inalienáveis à vida, à liberdade e à procura da felicidade", assinala a AFP.
Mas ressalva que a posição dos senadores não pode servir de "suporte a uma queixa contra os Estados Unidos", o que dificulta as intenções de membros da comunidade afro-americana que reclamam indemnizações para os descendentes de escravos, como forma de compensação pelo sofrimento dos seus antepassados.
Os primeiros escravos africanos chegaram em 1619 à então colónia britânica da Virgínia. Só 246 anos depois a escravatura foi abolida.

quinta-feira, junho 18, 2009

Aparências
Michelle Obama passeia 'Bo' de calções
http://dn.sapo.pt/inicio/pessoas/interior.aspx?content_id=1265655
por L.F.R.Hoje

Primeira dama dos Estados Unidos passeou a sua mascote nos jardins da Casa Branca, sem maquilhagem e com um aspecto pouco cuidado.

Quando Barack Obama, o presidente dos Estados Unidos, tomou posse, a 20 de Janeiro, a indumentária da sua mulher e das suas filhas era analisada ao pormenor, na rádio e na televisão. De então para cá, Michelle Obama, a primeira dama dos Estados Unidos, já apareceu mesmo na capa da revista de moda Vogue e o seu guarda-roupa é comentado (e elogiado) pela imprensa cor-de-rosa. Há dias, porém, não teve tanto cuidado com a sua imagem, quando levou o cão de água português Bo, a mascote da Casa Branca, a passear, e os paparazzi capturaram o instante.

Desde que o seu marido tomou posse como Presidente dos EUA, Michelle Obama ainda não tinha sido fotografada sem maquilhagem e com um aspecto menos cuidado. E, como seria de esperar, a imagem da primeira dama com calções aos quadrados e uma camisola de manga cava laranja, a andar pelos jardins da Casa Branca, já deu a volta ao mundo.

Nos blogues e fóruns da Internet, que normalmente se dedicam a discutir a indumentária da primeira dama norte-americana, esta fotografia tem sido tão analisada como o vestido amarelo que envergou no dia 20 de Janeiro.

Curiosamente, e apesar do aspecto descuidado, os braços de Michelle Obama continuam descobertos nestas fotografias. Convém recordar que, ao longo dos últimos meses, as sucessivas aparições da primeira dama, com vestidos sem mangas, foram tema de debate em talk shows, na CNN, e mesmo em jornais como o Boston Globe, que em Março referiu que os braços de Michelle Obama recebiam tanta atenção como a crise bancária ou a elevada taxa de desemprego. A CNN, por outro lado, notou num artigo publicado no respectivo site que os seus braços eram uma imagem de marca e "serviam de inspiração para algumas mulheres".

terça-feira, junho 16, 2009

Pais e filhos respeitem-se!
http://jornal.publico.clix.pt/default.asp?url=%2Fmain2%2Easp%3Fdt%3D20090616%26page%3D4%26c%3DC
16.06.2009, Autor do texto


Ter segredos é normal. Muitos são os pais que gostariam de saber tudo o que se passa na vida dos filhos adolescentes. É preciso confiança e disponibilidade, diz Javier Urra, autor de um livro que revela o que pais e filhos escondem uns aos outros. Por Bárbara Wong


O que escondem os filhos? Os sentimentos mais íntimos, se namoram, se já iniciaram a sua vida sexual. Mas também as suas acções, as más notas, as asneiras que fazem ou de que são vítimas. Os filhos não são os únicos a ter segredos, os pais também evitam falar alguns problemas. Por um lado, não querem preocupar os mais pequenos. Por outro, não querem fazer má figura. O que ocultam os filhos, o que escondem os pais é o título do novo livro do psicólogo clínico e forense espanhol Javier Urra, autor de outro best-seller, O Pequeno Ditador, que alerta os pais sobre os filhos a quem tudo é permitido.
O texto agora publicado foi feito a partir de uma leitura da realidade portuguesa. O autor pegou em mais de três mil inquéritos para perceber o que pais e filhos escondem. Depois, traçou algumas pistas para os protagonistas poderem ultrapassar esses segredos, num livro que deve ser lido em família, recomenda.
Ter segredos é normal e são essenciais na evolução para a maturidade, escreve o autor; por isso, os pais devem respeitá-los. No entanto, devem criar um ambiente que permita aos adolescentes e jovens confiar-lhes alguns deles. É que nem todos os segredos são bons de ser guardados, como, por exemplo, quando os filhos são vítimas de bullying ou de agressões na escola.
E como conseguir esse ambiente? Para Urra parece haver dois tipos de casas em Portugal: o hotel e o lar. Tal como num hotel, há casas onde cada um dos elementos da família entra e sai, sem dar satisfações ou querer saber do outro. "Preocupam-me os pais a quem pergunto: diga-me três coisas positivas do seu filho e respondem que não sabem", confessa ao P2. O autor recorda o depoimento de um adolescente de 11 anos que dizia que aos pais não interessava se estudara ou se comera na escola; lembra oito rapazes que não confessaram a sua homossexualidade aos progenitores e três raparigas que iam à escola, mas não comiam.
Quanto ao lar, é aquela casa onde todos se conhecem, passam tempo com qualidade, mesmo que seja pouco, conversam sobre tudo. Se o pai falar de um colega de trabalho, talvez o filho partilhe uma história que se tenha passado na escola, sugere. Urra ficou impressionado com o número de filhos que dizem que contam tudo aos pais. "Num lar pode haver conflitos, mas pais e filhos não se tratam como desconhecidos", defende.
Apesar de haver poucos jovens a confessar que escondem problemas de consumo de álcool ou de estupefacientes, Javier Urra está preocupado porque é uma ameaça que os jovens tratam com alguma leviandade, pois consideram que têm tudo sob controlo. "Não se pode dizer a um filho que não beba, e estar com um copo na mão", alerta, o psicólogo. O exemplo dos pais é pois fundamental. Mas há mais: "É preciso levá-los aos bairros pobres de Lisboa, a um hospital com crianças enfermas, passar-lhes a mensagem de que ter saúde e vida é o mais importante."
Não há que ter medo de os chocar. "Os pais podem mimar os filhos, mas não deixá-los fazer o que querem, senão os miúdos ficam neuróticos. Aos filhos faz falta normalidade." Essa passa por ter boas relações e respeitar outros membros da família, como os avós, ou os professores; passa por actividades alternativas à escola, como o desporto ou a música, enumera.
Ao contrário do que acontece em Espanha, onde o autor fez o mesmo inquérito e escreveu um livro semelhante; em Portugal, há adolescentes e jovens mais melancólicos, que reflectem e calam muito. "Os pais devem estar atentos, escutar, captar os silêncios, respeitando."
Os pais devem mostrar disponibilidade: "Se um dia quiseres, eu estou disponível para conversarmos." Há diferenças entre ser pai e ser amigo, sublinha. "Um pai é sempre pai. É um amigo, mas de segunda linha e não o melhor amigo que sai com o filho. É aquele amigo com quem se pode ir ver um nascer do sol e jamais se esquecerá", conclui.

Mais estrelas nos céus do que peixes nos mares
http://dn.sapo.pt/inicio/artes/interior.aspx?content_id=1263533&seccao=Cinema
por EURICO DE BARROSHoje

Se não tomarmos as devidas medidas, os mares ficarão praticamente sem peixe em 2048. O documentário 'The End of the Line', de Rupert Murray, lança o alarme mas também oferece soluções.

O ex-Monty Python Terry Gilliam e as actrizes Greta Scacchi e Emilia Fox posaram nuas segurando um bacalhau; Sting, Elle Macpherson e Stephen Fry fizeram lobby junto do famoso restaurante de peixe londrino Nobu para que este tirasse da ementa um tipo de atum em perigo de extinção; e a cadeia inglesa de sanduíches Prêt à Manger retirou esse mesmo atum do seu menu.

As vedetas despem-se e militam pelo bacalhau e pelo atum, e as empresas de alimentação mudam as ementas. E tudo por causa de um novo documentário que toca a sirene de alarme ambientalista, The End of the Line, realizado pelo britânico Rupert Murray, a partir do livro de Charles Clover, jornalista do The Daily Telegraph especializado em meio ambiente, e narrado pelo actor Ted Danson.

A mensagem de The End of the Line, que levou dois anos a rodar nos mares e em zonas de pesca marítima de todo o mundo, é esta: se o homem continuar a pescar intensivamente nos oceanos, estes ficarão praticamente sem peixe por volta do ano 2048.

Por isso, temos que nos habituar a comer apenas "peixes sustentáveis", a indústria pesqueira tem que perceber que não pode continuar a lançar as redes de forma intensiva, os governos têm que controlar e reduzir as frotas de pesca, e há que fazer reservas marinhas para a criação de espécies de peixes ameaçadas.

Murray e Clover de The End of the Line, têm o cuidado de frisar que o documentário não é "contra" nada nem ninguém: nem a pesca industrial, nem o consumo de peixe, mas sim "por uma atitude responsável para com os oceanos".

Este novo documentário eco-catastrofista vem com a sua própria campanha embutida. O site (www.endoftheline.com) inclui informações sobre a iniciativa global pelas áreas marinhas protegidas e pela pesca responsável, lançada pela produção de The End of the Line , e links para instituições, organizações e projectos científicos ligados ao problema da sobreexploração piscatória dos oceanos.

O próprio realizador dá o exemplo: "Adoro peixe e costumava devorar ostras num restaurante chique londrino (...) Mas agora reduzi o consumo. Só como peixe em ocasiões especiais e apenas compro espécies que estão conformes a padrões de certificação bem determinados".

A receptividade a The End of the Line tem sido tal, que Rupert Murray vai expandir o documentário para uma série em seis partes, exclusiva da plataforma online e de telemóveis Babelgum. Enquanto isso, Murray espera que mais celebridades sejam fotografadas nuas com peixes, e pressionem os restaurantes

o gelo na gronelândia

Descoberta no gelo da Gronelândia
Micróbio congelado pode dar pistas sobre a vida extraterrestre
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1386758&idCanal=13
15.06.2009 - 17h05 PÚBLICO

O "bichinho" chama-se Herminiimonas glaciei ou, simplesmente, H. glaciei . Durante mais de 120 mil anos esteve aprisionado no gelo da Gronelância e segundo os investigadores da equipa norte-americana dirigida por Jennifer Loveland-Curtze servirá de exemplo mostrando que tipo de formas de vida podem existir noutros planetas.

Os investigadores mostraram muita paciência na tarefa de acordar este micróbio para a vida. As amostras do pequeno exemplar - mesmo quando já consideramos as reduzidas dimensões das bactérias - terão sido "internadas" numa incubadora a dois graus celsius durante sete meses. Depois e durante os quatro meses e meio seguintes, a temperatura foi aumentada para cinco graus. Foi nessa altura que as colónias da bactéria foram vistas.

É uma ultramicrobactéria e terá sido este tamanho reduzido que a terá ajudado a sobreviver no gelo. As pequenas dimensões celulares já foram associadas a vantagens na eficiência para a obtenção de nutrientes, protecção de predadores, entre outras defesas.

A maior parte da vida na Terra consiste em microorganismos e, por isso, é possível considerar que este cenário se encontra noutros planetas. A pesquisa de microorganismos que vivem em condições extremas na Terra pode, assim, dar algumas pistas sobre o tipo de formas de vida existentes noutros locais do sistema solar, dizem os investigadores. "Estas condições extremas do frio são as melhores analogias para possíveis habitats extraterrestres", diz Loveland-Curtze, acrescentando que as baixas temperaturas podem conservar as células e os ácidos nucleicos durante milhões de anos. Estudar este micróbio minúsculo pode ajudar a perceber como as células vivem e sobrevivem em temperaturas que podem chegar as 56 graus negativos, como pouco oxigénio, poucos nutrientes, pressões altas e pouco espaço.

H. glaciei não é prejudicial aos humanos e é uma das poucas ultramicrobactéria descritas até à data e será a única proveniente do manto de gelo da Gronelândia. A descoberta foi publicada na actual edição do "International Journal of Systematic and Evolutionary Microbiology".

segunda-feira, junho 15, 2009

Vídeo: As mil e uma noites do sexo conjugal
Desde séries de televisão a livros, há uma nova solução para salvar casamentos adormecidos: embarcar em maratonas sexuais. Todas as noites, sem desculpas. Por vezes durante um ano seguido.
Paula Cosme Pinto
18:13 Sábado, 13 de Jun de 2009

http://aeiou.expresso.pt/video-as-mil-e-uma-noites-do-sexo-conjugal=f518454






Entre biberões e fraldas para mudar, correrias constantes, carreiras competitivas e dificuldades financeiras em tempos de crise, na vida a dois há, repetidamente, um elo mais fraco: a vida sexual. E se um dia, para contrariar a monotonia instalada, a sua companheira lhe fizesse a seguinte proposta: "Querido, o que achas se nos próximos 12 meses fizermos sexo todos os dias?".

A ideia parece tentadora. Afinal, qual é o homem que nunca sonhou em ter um festim sexual todas as noites, sem as habituais desculpas do cansaço ou das dores de cabeça? Por isso mesmo, Brad Muller aceitou prontamente o desafio lançado pela esposa, Charla, como prenda do seu 40º aniversário. Embora sem grandes pormenores mais íntimos, a experiência acabou publicada no livro "365 Nights" ("365 Noites"). A ideia repete-se na televisão, em casa de Lynette e Tom da série "Donas de Casa Desesperadas", e já há outros casais norte-americanos a tentarem a proeza.

É o caso de Annie e Douglas Brown, que publicaram há um ano o livro "Just Do It", onde relatam de forma bem menos discreta a sua maratona sexual de 101 dias. Sem desculpas - nem mesmo por causa de constipações ou viagens de trabalho - o casal cumpriu à regra o acordo estipulado para salvar um casamento mergulhado na monotonia. As suas descrições fazem qualquer leitor sentir-se parte integrante da vida íntima do casal: desde fins-de-semana românticos, brinquedos sexuais para apimentar o clima de sedução e encontros furtivos em pensões baratas, foi o vale tudo para estimular uma vida sexual há muito cinzenta.

Mas enganem-se os que pensam que esta a ideia é um mar de rosas. Numa entrevista a um jornal norte-americano, Douglas Brown confessou que muitas vezes se sentia "a cumprir uma responsabilidade a que não podia falhar, como se fosse uma reunião de trabalho". No caso dos Muller, Charla chega mesmo a dizer que, por volta do décimo mês, "era como uma cruz que tinha de carregar em segredo". Findas as maratonas sexuais auto-impostas, ambos os casais dizem que o saldo foi positivo, mas a vontade de voltar à acção só regressou um bom tempo depois.

Fica a pergunta: Afinal sexo combinado é, ou não é, uma ideia fabulosa? Não. Quem o diz é o sexólogo português Francisco Allen Gomes, que garante: "Não há ninguém cujo imaginário erótico englobe relações sexuais agendadas. Mais do que um disparate, é uma impossibilidade". Até mesmo fisicamente "há limitações", uma vez que "com o avançar da idade é difícil os homens entusiasmarem-se com a perspectiva de sexo todos os dias".

Opinião partilhada por Julio Machado Vaz, que desfaz o mito: "Não é porque estão mais tempo na cama ou no tapete em frente à lareira que os casais passam a entender-se melhor". Resumindo, "mais quantidade não significa mais qualidade" e ambos os especialistas em sexo relembram que a vida conjugal " é cada vez mais difícil devido aos nossos ritmos de vida", instalando-se "verdadeiros desertos" entre marido e mulher.

Um bicho papão chamado rotina

A chegada de um filho marca, em muitos casos, a primeira quebra sexual na vida conjugal. "A mulher passa a ter um estatuto muito mais forte do que o social, o profissional ou o conjugal. Passa a ser primeiro um corpo de mãe e não de amante", explica Allen Gomes, cujos jovens casais que lhe pedem ajuda muitas vezes já nem têm qualquer contacto físico: "Associada à diminuição da actividade sexual, estão também coisas tão simples como os carinhos porque as pessoas têm medo de dar mensagens erradas. Ele quer abraçá-la, mas receia que ela pense que ele quer mais alguma coisa. Ela tem vontade de o beijar, mas não quer dar azo a que as coisas evoluam para algo mais íntimo".

A falta de comunicação é um dos maiores problemas. Por isso mesmo, os dois sexólogos resumem os conselhos não a maratonas sexuais agendadas, mas sim a uma única palavra: dialogar. "Façam-no espontaneamente, por exemplo, no trânsito ou num passeio, sem a ansiedade e os mecanismos de defesa impostos pela expressão: temos de ter uma conversa", propõe Allen Gomes.

Já Júlio Machado Vaz fala da "importância de continuar a namorar" e lembra que na vida conjugal "o erotismo está no romantismo e não no sexo puro e duro". "Felizmente o sexo é muito mais do que o coito. Aquilo que nós deprimentemente chamamos de preliminares é de extrema intimidade. Um beijo apaixonado faz a diferença".

Tal como um dia o cantor Sting descreveu, fazer amor pode durar um dia inteiro, desde a hora em que se dá um beijo de bom dia, a sair para jantar e ir ao cinema, até ao momento em que os dois corpos se encontram, por fim, debaixo dos lençóis. Os dois sexólogos portugueses concordam. E recomendam.

Vogue ataca criadores de roupas "minúsculas"
http://jornal.publico.clix.pt/
15.06.2009, Joana Amaral Cardoso


Nesta história, só a culpa não tem tamanho. A polémica do "tamanho zero" e da magreza excessiva foi reacendida pela directora da Vogue UK


Ela é um dos pesos-pesados da moda. E decidiu enviar uma carta a dezenas de criadores e designers de moda europeus e americanos a queixar-se de uma questão de leveza: eles enviam-lhe roupas "minúsculas" para as produções da sua revista - a Vogue - e isso obriga-a a contratar modelos irrealmente magras. A carta de Alexandra Shulman, directora da Vogue britânica, já fez o seu papel: relançou o debate sobre o chamado "tamanho zero".
Alexandra Shulman pesou bem as suas palavras na carta enviada no final de Maio e que não se destinava ao conhecimento dos media, mas que foi revelada sábado pelo Times. "Chegámos ao ponto em que muitos dos tamanhos das peças de mostruário não servem às modelos-estrela, já estabelecidas [no mercado], de forma confortável", lê-se na carta enviada às casas - Prada, Versace, Yves Saint Laurent, Balenciaga - e aos criadores - Karl Lagerfeld, John Galliano, Stella McCartney, Alexander McQueen - mais conceituados do mundo.
Shulman, juntamente com as directoras das Vogue de Nova Iorque, Paris e Milão, é considerada uma das vozes mais influentes na indústria. Mais de dois anos depois de ter eclodido a discussão sobre o peso dos manequins e modelos nas passerelles, na sequência da morte de duas modelos sul-americanas por subnutrição e da proibição de modelos demasiado magras (o tal "tamanho zero" na tabela americana, que corresponderia a um tamanho 30 na tabela europeia) nas passerelles de Madrid, Nova Iorque e Milão, agora o dedo é apontado aos criadores de moda. Até aqui, o peso da questão estava sobre os manequins.
De acordo com Shulman, as roupas tornaram-se "substancialmente mais pequenas", obrigando revistas como a sua a contratar manequins com "ossos salientes e sem peito ou ancas". Alexandra Shulman diz que já se viu obrigada a "retocar" fotografias para tornar as modelos mais cheias e afirma ter decidido apelar aos designers porque "o feedback dos leitores e a sensação geral no Reino Unido é de que as pessoas não querem ver raparigas tão magras". Ontem, os jornais britânicos espelhavam o apoio à directora da Vogue: a associação que combate os distúrbios alimentares Beat acha "muito encorajador ver a Vogue a tomar uma posição destas"; a ex-modelo e actual vice-directora da Semana de Moda de Londres Erin O'Connor considerou a carta "um grande avanço"; a editora de moda do Telegraph, Hillary Alexander, apoia "totalmente" a iniciativa, que já vem tarde e que deve ter o apoio das outras revistas.
A moda é um negócio
Em revistas como a Vogue, com meses de preparação a anteceder cada produção de moda, as roupas-amostra são recebidas cerca de seis meses antes de chegarem às lojas, sendo exemplares quase únicos e em torno dos quais se tem mesmo que trabalhar. Paulo Gomes, produtor de moda, explicou ao P2 que a questão da diminuição dos tamanhos - "nos últimos anos, mesmo em Portugal, já há alguns criadores que usam o tamanho 34" para as suas peças de amostra - pode dever-se a uma deformação recente do mercado: já antes da crise global, as grandes casas passaram a fazer apenas uma colecção de sample que viaja pelo mundo, quando antes havia pelo menos uma para cada continente.
E como a moda "é um negócio, não tem a ver com anorexias nem nada disso", atenta Paulo Gomes, e dado que na Ásia (um dos mercados mais ricos) os tamanhos são de facto mais pequenos, isso pode explicar o domínio do 34. Na sua experiência, recorda casos em que já lhe chegaram peças, sobretudo casacos mais estruturados, em que os braços e cavas eram estreitos ao ponto de não permitirem braços de modelos mais cheios.
Mas, em termos de bastidores, o produtor de moda português ficou espantado com o teor da carta de Shulman, nesta que é a primeira vez em que uma revista de moda enfrenta os criadores quanto aos tamanhos das roupas. "Parece-me estranho. Se fosse outra revista, como a Marie Claire...", exemplifica. "Mas as directoras da Vogue de Nova Iorque, Paris, Milão têm sempre uma palavra a dizer [sobre as peças] antes da própria apresentação ao público", gozando de um acesso privilegiado aos grandes criadores. Pelo que a selecção das peças para produções de moda sempre lhe pareceu que "pressupõe uma cumplicidade, um consenso".
Os criadores visados pela carta ainda não reagiram publicamente, mas outros designers chamam a atenção para o que consideram ser "o ciclo vicioso" da moda e das suas imagens de magreza/beleza. Dino Alves, criador português, não concorda com as culpas atribuídas por Shulman aos designers. "Os tamanhos que fazemos como protótipos, para os desfiles, são 36, o que me parece ser absolutamente razoável", explica ao P2. São roupas para modelos, assim chamados por alguma razão, aponta: "São modelos estéticos, de beleza". E sim, "há peças que indiscutivelmente assentam melhor em corpos mais magros", admite. Para ele, nem modelos nem criadores são únicos responsáveis pela associação da moda à anorexia e outros distúrbios alimentares: o criador português defende que "se deveria reforçar o acompanhamento e a atenção que a família dá".
O debate está novamente lançado, com o ónus sobre os criadores. Mas nas palavras da supermodelo e empresária Heidi Klum (que veste o 36/38), na moda, num dia está-se in e no outro está-se out. No fim de 2006, Flor, uma das mais requisitadas modelos portuguesas, dizia ao PÚBLICO: "Os manequins são magros, é assim, é o que os estilistas querem, o que as revistas querem, é o padrão de beleza". Ontem, o designer italiano Kinder Aggugini, que trabalhou com John Galliano e Calvin Klein, dizia ao Guardian que "se amanhã todas as revistas, agências de modelos e stylists usassem raparigas maiores, então os criadores também o fariam". Ou seja, como um belo chapéu (ou carapuça), a tendência "tamanho zero" tem culpas que servem a quase todos - modelos, agências, criadores, editores de moda e até celebridades.

suspeita

Suspeita de planeta fora da Via Láctea
http://jornal.publico.clix.pt/
15.06.2009




Foram detectados indícios de um planeta fora da Via Láctea, na galáxia de Andrómeda. Poderá ser um planeta gigante com seis vezes a massa de Júpiter. O trabalho será publicado na revista Monthly Notices of the Royal Astronomical Society e foi feito por cientistas do Instituto nacional de Física de Nuclear (INFN) em Itália e por colaboradores da Suíça, Espanha e Rússia, noticia o site da BBC.
Já foram identificados cerca de 350 planetas na nossa galáxia, a Via Láctea, desde 1995. A novidade agora é a possibilidade de espreitar para outras galáxias, sublinhou Francesco De Paolis, do INFN. "Já temos tecnologia para detectar planetas com a massa de Júpiter noutras galáxias", comentou à BBC. "É excepcional."
A descoberta foi feita usando um método que analisa o efeito produzido pela passagem de corpos espaciais entre um observador e uma estrela distante, com um programa informático específico e usando as observações de Andrómeda feitas pela colaboração Point-Agape.

terça-feira, junho 09, 2009

Popularidade
Britânicos querem encontrar-se com Jesus Cristo e Diana
http://dn.sapo.pt/inicio/globo/interior.aspx?content_id=1257993&seccao=Europa
por A.C.M.Hoje

Se os britânicos pudessem viajar no tempo e encontrar-se com pessoas já mortas, a primeira escolha seria Jesus Cristo, seguindo-se a princesa Diana, falecida em 1997, surgindo em terceiro lugar o dramaturgo William Shakespeare.

Estas conclusões resultam de uma sondagem divulgada ontem pelo The Daily Telegraph, que inquiriu três mil britânicos sobre figuras do passado, que gostariam de conhecer, assim como as épocas históricas da Grã-Bretanha que mais gostariam de visitar.

No aspectos das viagens no tempo, a Inglaterra vitoriana, por larga maioria, surge como o "destino" preferido dos inquiridos, encontrando-se em segundo lugar a Grã-Bretanha do pós II-Guerra Mundial.

De regresso às personalidades mais populares entre os britânicos, muitas delas ícones da cultura popular contemporânea, Albert Einstein surge em quarto lugar, logo a seguir ao autor de Romeu e Julieta e Othello; por sua vez, o autor da teoria da relatividade tem a seu lado, em quinto lugar, Marilyn Monroe, a actriz de Os Homens Preferem as Louras e de O Pecado Mora ao Lado.

Além de Einstein, outro nome das ciências e do conhecimento, Leonardo da Vinci, o renascentista italiano - pintor, arquitecto, inventor e matemático - surge em sexto lugar. Imediatamente a seguir, nada mais, nada menos do que "o Rei" Elvis Presley, seria também alguém que os britânicos gostariam de conhecer em pessoa.

Em oitavo lugar, aparece o nome de Roald Dahl, um dos mais famosos escritores de literatura infantil na Grã-Bretanha, além de autor de outras obras, em que se conta ficção e teatro. Filho de pais noruegueses radicados no País de Gales, Dahl, que faleceu em 1990, foi ainda um dos ases da aviação britânica na II Guerra Mundial.

Os britânicos gostariam ainda de conhecer o vocalista da popular banda Queen, Freddie Mercury, falecido em 1991, que surge em nono lugar.

Única personalidade eminentemente política apreciada pelos britânicos é o activista dos direitos da comunidade negra americana, Martin Luther King, assassinado em 1968, a encerrar a lista em décimo lugar.

segunda-feira, junho 08, 2009

Mutações genéticas
História e geografia explicam genética
http://dn.sapo.pt/inicio/ciencia/interior.aspx?content_id=1257213&seccao=Tecnologia
por R.C.Hoje

A selecção natural não explica tudo e pode ter impactos nas alterações genéticas muito mais lentos do que se pensava, dizem agora os cientistas. Um estudo publicado na Science Daily refere que, afinal, a movimentação dos povos entre continentes, e as expansões e contracções demográficas influenciam de modo significativo a forma do genoma humano.

Afinal, a geografia e a história - ou seja, os movimentos humanos dentro e entre continentes ou as expansões e contracções da população - influenciam muito mais as mudanças genéticas humanas do que se pensava. Pelo contrário, e segundo um estudo noticiado ontem no portal Science Daily, a selecção natural afecta a forma do genoma humano de um modo muito mais lento do que até agora os cientistas afirmavam.

Estas conclusões foram publicadas no fim de semana no jornal PLoS Genetics e resultam de um estudo conduzido por uma equipa do Howard Hughes Medical Instiitute, da Universidade de Chicago, da Universidade da Califórnia e da Universidade de Stanford.

Nos últimos anos, os geneticistas conseguiram identificar uma série de genes que ajudaram a espécie humana a adaptar-se a novos ambientes em poucos milhares de anos. Uma escala temporal pequena quando se fala de evolução humana.

Os investigadores descobriram agora que, para a maioria dos genes, a selecção natural necessita de 50 a cem mil anos para espalhar traços favoráveis entre a população humana.

As suas pesquisas concluíram ainda que as variações genéticas tendem a ser distribuídas por todo o mundo em padrões que reflectem movimentos antigos da população e outros aspectos importantes da história desses povos.

Jonathan Pritchard, um dos autores do estudo, afirma que a investigação mostra que a seleção natural não foi suficientemente forte para explicar a adaptação das populações humanas aos ambientes locais.

"Para além da selecção, a história demográfica - a forma como os povos se movimentaram - exerceu um enorme efeito na distribuição das variações", afirmou.

Para determinar até que ponto estas alterações podem ser atribuídas à selecção natural, a equipa de investigadores comparou a distribuição das mutações nas partes do genoma que afectam a regulação das proteínas e nas que não afectam. Isto porque estas últimas são menos afectadas pela selecção natural. Logo, concluiram que as mutações nestas parte do genoma reflectem a história demográfica das populações.

Os investigadores concluiram ainda que muitos sinais de selecção anteriormente identificados podem, afinal, ter sido criados por factores históricos ou demográficos. Quando os cientistas compararam de perto populações próximas, encontraram poucas diferenças genéticas grandes. Se os ambientes das populações individuais tivessem exercido uma pressão selectiva grande, essas diferenças deveriam ser aparentes.

Contudo, as conclusões são cautelosas porque muito ainda se desconhece nesta área. "Não sabemos o suficiente sobre a genética da maioria dos traços humanos para conseguirmos seleccionar todas as variações relevantes", afirma Pritchard. Isto porque, acrescenta, Graham Coop, outro dos autores do estudo, "ainda estamos na infância da tentativa de compreender o que é que os sinais da selecção nos tentam dizer".

sábado, junho 06, 2009

Gary Cooper voltou às ruas de Varsóvia
http://jornal.publico.clix.pt/
06.06.2009


Cartaz do Solidarnósc de apelo ao voto em 1989


Em 1989, na Polónia comunista, o artista gráfico Tomasz Sarnecki, estudante da Academia de Artes, concebeu um revolucionário cartaz para apoiar os candidatos do Solidariedade nas eleições de 4 de Junho. Usou a figura de Gary Cooper no filme O Comboio Apitou Três Vezes (High Moon, 1952), retirou-lhe a pistola da mão direita e em seu lugar colocou um boletim de voto. Vinte anos depois, com a transição de uma economia centralizada para o capitalismo, uma cópia custa agora num mercado de rua 400 zlotys (cerca de 100 euros). Tal como o Solidarnósc, o poster com Gary Cooper tornou-se ícone da luta pela democracia. Podemos vê-lo agora (sem boletim de voto e com a pistola) a cobrir a fachada do Palácio da Cultura da Ciência, edifício que se avista a 30 quilómetros de distância graças aos seus 231 metros de altura. O monumento foi oferecido por Estaline como "presente de amizade" da URSS a Varsóvia, a cidade quase totalmente destruída na Segunda Guerra Mundial. Erguido em apenas três anos (1952-1955), por mais de 3500 trabalhadores trazidos das repúblicas soviéticas, foi concebido para ser a sede do partido comunista. Hoje, alberga escritórios, cinemas, teatros e restaurantes.
No western de Cooper, realizado por Fred Zinnemann e co-protagonizado por Grace Kelly, um xerife solitário (Will Kane) combate quatro vilões, em Hadleyville, no Novo México. O filme foi descrito como "uma alegoria retratando o clima de suspeição e medo da era mccartista" nos EUA. Em Gdansk, o herói foi Lech Walesa e o adversário - um regime apoiado pela URSS - era ainda mais temível, prova Andrzej Wajda em Katyn. M.S.L., Varsóvia

Vítimas de testes nucleares podem processar Londres
http://jornal.publico.clix.pt/
06.06.2009, Autor do texto




Entre 1952 e 1958, em plena Guerra Fria, o Reino Unido realizou testes nucleares nas ilhas de Monte Bello, ao largo da Austrália. Mais de 50 anos depois, é finalmente concedido aos veteranos o direito de processar o Governo por danos causados pela exposição à radiação. São mil os militares que acreditam numa ligação estreita entre os testes nucleares e em problemas de saúde como cancros, doenças de pele e infertilidade, escreveu o jornal britânico The Guardian.
O Ministério da Defesa britânico alegou que os queixosos demoraram demasiado tempo a apresentar a moção e que não conseguirão sustentar o processo em tribunal. "Um primeiro-ministro atrás do outro, durante os últimos 50 anos, disseram que se os militares conseguissem provar que tinham sido expostos à radiação seriam recompensados. Quando o conseguiram fazer, o Ministério disse 'Desculpem, mas levaram muito tempo'. É estarrecedor", disse Neil Sampson, um dos advogados de defesa, citado pelo mesmo jornal. Caso fique provada a implicação da exposição aos testes nucleares nos problemas de saúde dos militares, o Governo poderá ter de pagar compensações no valor de centenas de milhões de euros.
A decisão, deliberada pelo juiz Justice Foskett, rejeitou os argumentos do Ministério de Defesa por considerar que estudos científicos recentes, que envolvem veteranos na Nova Zelândia, sustentam a possibilidade avançada pelos militares e são, por isso, uma prova "central e crucial" num hipotético caso contra o Ministério. Um processo jurídico para estipular as indemnizações levaria anos, pelo que se espera que ambas as partes cheguem a um acordo. "Estou nas nuvens", disse Don James, que serviu no Kiribati durante os testes nucleares efectuados em mar alto. "Nós não tínhamos nenhum kit especial. Disseram-nos apenas para voltar as costas às explosões e tapar os olhos. Podíamos ver os ossos dos dedos", acrescentou.
Além de Montebello, os britânicos realizaram ainda testes nucleares em Maralinga, uma zona desértica da Austrália e expulsaram os aborígenes que lá viviam.
A atitude de Londres parece contrastar, segundo a BBC, com as acções de outros Executivos. Os Estados Unidos, sob o Acto de Compensação por Exposição Nuclear, indemnizaram os seus soldados pelos testes dos anos 60. A França deverá aprovar, até ao final do ano, um projecto-lei para a compensação daqueles que contraíram doenças devido aos testes nucleares realizados entre 1960 e 1996.

"O Japão é a Europa daqui a 200 anos"
O embaixador de Portugal no Japão , João Pedro Zanatti, gosta do Japão e considera que as relações entre os dois paises "são boas".
http://aeiou.expresso.pt/o-japao-e-a-europa-daqui-a-200-anos=f519423
Daniel Ribeiro, no Japão
11:28 Sábado, 6 de Jun de 2009




Vista de uma torre num centro comercial, em Tóquio "O Japão é a Europa daqui a 200 anos, isto é, se tivermos sorte, a Europa será, dentro de 200 anos, o que o Japão é hoje em dia", explica ao Expresso o embaixador de Portugal, João Pedro Zanatti, em funções no país há três anos e meio.

Sobre as relações entre Portugal e o Japão, o diplomata realça sobretudo a qualidade das relações históricas e culturais entre os dois países. Numa entrevista, a que voltaremos noutra altura, considera que as trocas comerciais actuais são insuficientes e "devem ser aprofundadas".

É um lugar comum dizer que, em termos de desenvolvimento - tecnológico e industrial, por exemplo -, o Japão é um país avançadíssimo.

"Os problemas que os estrangeiros sentem para levantar dinheiro nos bancos é porque o sistema japonês já está muito mais avançado e que eles já nem pensam nisso", explica ao Expresso Marta Morais, uma portuguesa que vive num templo soto-shu (budista e zen), em Kannami (região de Shizuoka). Marta, de 33 anos, é casada com o monge Motomitchi, de 34 anos, que dirige o templo, na ausência do pai e mestre, que passa grande parte do tempo no estrangeiro.

O avanço do Japão em relação à Europa constata-se também com facilidade em pequenos detalhes da vida quotidiana dos japoneses.

Nas grandes cidades - onde se cruzam milhões e milhões de pessoas - os transportes são exemplarmente eficazes em termos de organização, conforto e higiene. Os peões circulam com regras nas escadarias e corredores das estações do Metro e dos Comboios - designadamente com sentidos obrigatórios, o que se compreende porque assim evitam-se acidentes e conflitos devido à incrível maré humana que se desloca ao mesmo tempo nos transportes colectivos.

"As pessoas também são bem educadas por necessidade: não falar alto em público ou não comunicar ao telefone nos transportes é mesmo necessário porque, caso contrário, como há tanta gente concentrada, ninguém se entenderia", acrescenta Marta, que vive desde há oito anos no Japão e cuja língua domina, tanto falada como escrita.

"Demasiados idosos"
Nas aldeias e pequenas vilas e cidades - visitei diversas, até agora - vive-se realmente a ecologia (neste aspecto, o Japão está a anos-luz da Europa). É impressionante o grande respeito que existe pela natureza - por vezes, como acontece à volta do templo onde vive Marta, parece que as pessoas fazem parte dela.

Em todo o Japão, sobretudo fora das gigantescas cidades, vive-se igualmente de forma nada fanática a espiritualidade. O xintoísmo, o budismo, o zen conduzem a uma tolerância de tal modo natural que um católico ou um islâmico praticante dificilmente pode compreender.

Os japoneses cuidam do espírito, mas igualmente do corpo. Aliás, cuidam das duas coisas ao mesmo tempo porque os banhos permitem não apenas descontrair, mas também meditar. Por todo o lado há termas e massagens a preços verdadeiramente acessíveis. Um banho, sem tempo limitado, numas termas com uma qualidade que, em Portugal, seriam de luxo e inacessíveis à maioria, custa à volta de 500 ienes (quatro euros).

Por todas estas razões - e igualmente devido à qualidade da gastronomia, à base de produtos muito frescos - os japoneses têm uma grande longevidade.

A maioria dos idosos vive com a família mas, nos últimos anos, começaram a surgir problemas de gestão complicados em algumas situações. "Há demasiados idosos, o que coloca dois problemas - um é financeiro, porque é preciso pagar as reformas durante muito tempo; outro é que o Governo ainda não descobriu a forma de lidar com os numerosos idosos cuja família não se pode ocupar deles, os abrigos e asilos não têm grandes condições e os velhos não gostam de lá estar porque o asilo não faz parte da nossa cultura", explica Yuko, de 40 anos, massagista-quinesiterapeuta, residente em Tóquio.

sexta-feira, junho 05, 2009

Era uma vez a maior descoberta de todos os tempos...
http://jornal.publico.clix.pt/
05.06.2009, Nicolau Ferreira


Ida foi anunciado como um "elo perdido" do Homem. Duas semanas depois, muita discussão na comunidade científica já baralhou o que se sabe sobre a descoberta. Resta uma certeza: o fóssil é um achado lindo. Por Nicolau Ferreira


Nem o Google escapou à histeria. Quinta-feira de manhã, o logótipo da empresa tinha-se transformado numa paisagem do Eocénico com o mais recente "elo perdido" da evolução humana estampado no centro. Ida ou Darwinius masillae - para celebrar os 200 anos do nascimento de Charles Darwin -, o fóssil de uma primata com 47 milhões de anos, tinha sido dada a conhecer ao mundo no dia anterior, a 19 de Maio, e veio embrulhada num pacote irresistível, com o laçarote "a oitava maravilha do mundo" ou "a Mona Lisa" de Oslo, à escolha do freguês. Nessa quarta-feira o estudo foi publicado na revista científica online Public Library of Science One (PLoS One), ao mesmo tempo que em muitas redacções do mundo algum jornalista ou editor recebia um comunicado de imprensa intitulado The link.
Poucos órgãos de comunicação sabiam o que estava para acontecer. O comunicado da PLoS One explicava que aquela informação era "para publicação imediata, não há embargo associado a este artigo", por isso os jornais estavam livres para publicar a notícia quando quisessem. Resultado, a descoberta tem 763 ligações no Google Notícias UK e 62 no português. No mesmo dia o fóssil foi apresentado numa exposição em Nova Iorque pelo mayor da cidade. Foi também disponibilizado um site, lançado um livro e a BBC e o Canal História, que seguiram os vários passos da pesquisa do fóssil, tinham documentários televisivos prontos para serem apresentados. Era difícil conseguir mais imediatismo à volta do fóssil, mas a máquina que lançou Ida pôs ainda David Attenborough à frente do esqueleto. "Ela representa a semente de onde vieram a diversidade dos macacos, os macacos antropóides e em última análise todas as pessoas do planeta", disse o famoso comunicador de ciência britânico ao jornal Guardian, que já tinha preparado duas páginas de jornal para contar toda a história.
Perdida no tempo
Ida teve um pontapé de saída explosivo, dirigido com ângulo certo para ser apanhado por todos os meios de comunicação. "A ciência já está muito permeável às técnicas jornalísticas", esclareceu ao P2 Helena Mendonça, jornalista e bolseira da Fundação para a Ciência e Tecnologia, apontando como exemplo a técnica do lead - o primeiro parágrafo com que os artigos no jornalismo arrancam, onde se responde ao quê, quando, como, onde e porquê da notícia - que já é utilizada em todos os comunicados na ciência.
A crítica principal feita aos autores foi a forma como apresentaram Ida ao público, transmitindo a ideia de que as ossadas eram a maior descoberta de sempre de um elo perdido e que iriam revolucionar tudo o que se sabia até aqui sobre a evolução do Homem, o que estava bastante distante da informação patente no artigo científico. Se mais nada fosse dito, e se ninguém estivesse atento, Darwinius masillae ficava na História como nosso antepassado directo com 47 milhões de anos, na altura em que os primatas ainda se estavam a diversificar.
Só por si Ida é impressionante. Está preservada em 95 por cento, raríssimo se olharmos para outros fósseis de primatas da mesma altura que chegam às nossas mãos só com uma mandíbula ou outro osso. A primata teria nove meses quando caiu no lago Messel, que fica na região que hoje é a Alemanha, quando a Terra tinha um clima mais quente, com florestas tropicais a alcançarem a latitude actual do Sul de França e florestas temperadas a tocarem nos pólos, uma verdadeira estufa - foi na época do Eocénico, há 56 a 34 milhões de anos.
O lago Messel manteve a primata preservada em sedimentos finos. Quando em 1983 um coleccionador privado encontrou as ossadas na cova de Messel - que é Património da Humanidade classificada pela UNESCO devido aos inúmeros fósseis desta época que guarda em condições extraordinárias -, não só era possível ver o contorno dos pêlos da primata, alguns até estavam conservados, como a última refeição vegetariana ainda não tinha sido comida pelo tempo.
O fóssil teve uma vida atribulada até 2002. As ossadas foram divididas em duas metades, tendo uma sido restaurada e vendida como se estivesse completa. Em 1991, o Dinosaur Center at Thermopolis, no Wyoming, EUA, adquiriu-a. Mas em 2000, Jens Franzen, primeiro autor do novo artigo sobre Ida, estudou e compreendeu que o restauro era um logro, só com uma pequena parte verdadeira. A outra metade, que era maior, foi adquirida só há dois anos pelo Museu de Oslo, numa bem sucedida aventura de Jorn Hurum, o show man norueguês da paleontologia, grande responsável pela exposição mediática de Ida.
"O meu coração começou a bater muito depressa", disse o investigador do Museu de Oslo aos jornalistas há duas semanas, referindo-se à compra do fóssil. "Eu sabia que o vendedor tinha nas mãos um acontecimento mundial. Não consegui dormir durante duas noites." Há poucos dias, Hurum revelou que adquiriu a segunda parte do fóssil por mais de 500 mil euros. Depois, o paleontólogo contactou vários investigadores para analisar o fóssil.
Mas antes de reunir aquilo que chamou a sua "equipa de sonho", o norueguês apresentou Ida a Anthony Geffen, o director executivo da Atlantic Productions, uma produtora sedeada em Londres. Os dois já estavam envolvidos num programa sobre o Predador X - o fóssil de um réptil e carnívoro aquático do tempo dos dinossauros que Hurum estava a investigar. O monstro foi dado a conhecer em Março, na mesma altura em que o documentário foi exibido pelo Canal História, com a frase-anúncio "Faz o Tyranossaurus rex parecer um cachorrinho".
Geffen ficou imediatamente interessado em Ida. "Na realidade, é raro alguém que faz televisão compreender a importância de um pequeno animal com o tamanho de um gato", explicou o norueguês à revista Seed. Durante dois anos, enquanto a investigação sobre o fóssil prosseguiu, a campanha mediática foi crescendo.
Entre teorias
"É provável que pudesse ter sido publicada uma pesquisa mais detalhada", disse por email ao P2 o paleontólogo Christophe Soligo, referindo-se ao resultado dos dois anos de estudo de Ida. "E pelo menos um dos autores (Phil Gingerich) parece admitir que estiveram sob pressão para coordenar o artigo com os planos de publicidade", referiu o investigador do London College.
O artigo científico publicado na PLoS One foi comparar várias características entre as novas ossadas e os esqueletos de primatas da mesma época. O Darwinius masillae pertence aos adapiformes, um grupo de primatas extinto que se pensa estar mais próximo dos primatas inferiores como os lémures e mais distante dos grupos de primatas superiores que incluem os társios e os verdadeiros símios - macacos dos velho e novo mundo, antropóides e o Homem.
Mas Ida, que não tem mais do que 66 centímetros de comprimento, apresenta características que a afastam dos lémures e aproximam-na dos macacos superiores: não tem uma garra no segundo dedo do pé, nem dentes fundidos, os polegares dos pés são oponíveis e já apresenta o talus, um osso do tornozelo que aparece mais desenvolvido nos humanos. Estas características dão força a uma teoria que defende que os adapiformes estão incluídos no ramo que deu origem aos primatas superiores, levemente sustentada pelo artigo.
"Isto não é uma hipótese nova", explica Christophe Soligo. "Os Cercamoniinae (a subfamília dos adapiformes a que Darwinius pertence) tem sido durante muito tempo um dos grupos dos primatas do Eocénico que se teoriza ter estado na origem da evolução dos antropóides, apesar de esta hipótese se ter tornado menos popular nos últimos anos."
Assumir o espectáculo
Embora haja no meio científico quem considere que o estudo tem lacunas quanto ao número de características que se compararam entre Ida e os outros fósseis, tanto o paleontólogo como Adam Rutherford, jornalista da Nature que escreveu um artigo de opinião a criticar a campanha mediática, defendem que o estudo apresentado na PLoS One é cauteloso.
"Houve coisas ditas sobre Ida que não estavam no artigo, que sofreu peer review [o processo de revisão dos artigos que é feito por outros especialistas na área e é fundamental no processo de produção científica]: quando dito pelos media, isso é mau jornalismo. Quando dito pelos cientistas, isso é perigoso e desrespeita o processo de revisão", explicou ao P2 por email o jornalista, que também edita os podcasts da Nature.
"O que neste caso parece ser paradigmático", aponta por outro lado Helena Mendonça, "é que fez-se o artigo o melhor possível, mas agora para a imprensa vai-se tornar isto numa grande bomba", refere a jornalista, que está a tirar o doutoramento sobre a relação entre o jornalismo e a ciência.
Em resposta a acusações parecidas, Jorn Hurum atenuou o significado do elo perdido. "Nós não estamos a alegar que [a Ida] é o nosso ancestral directo. Isso é de mais. Nós só existimos há poucos milhões de anos e a Ida esteve viva há 47 milhões de anos." Mas o cientista assume o espectáculo, que aliás, já tinha sido utilizado no Predador X, que segundo o paleontólogo é a melhor forma de pôr os miúdos interessados em paleontologia. "Qualquer banda pop ou atleta faz o mesmo tipo de coisas. Nós, na ciência, temos que começar a pensar da mesma forma", disse, citado pela Times Online.
O norueguês defende ainda que o público deve ser o principal crítico da ciência, justificando desta forma a escolha da PLoS para publicar o artigo em detrimento de uma Nature ou Science, mais reputadas, mas com acesso limitado a assinantes ou a quem queira pagar pelo artigo, o que não acontece com a PLoS One que tem os conteúdos disponíveis gratuitamente.
"É difícil porque não há público que possa legitimar uma coisa destas", referiu Helena Mendonça em relação a esta posição do norueguês. "Nem acredito que outros antropólogos cá [em Portugal] possam olhar para o artigo e dizer que 'é verdade' ou 'não' o facto do elo perdido. Quem somos nós para dizer que isto é mau, no máximo poder-se-á dizer 'isto cheira mal'."
Rutherford põe no factor tempo a decisão final sobre o que representa o fóssil Ida. "Com o tempo, vamos compreender o que Ida é na realidade, e isso vai ser feito por cientistas motivados não por horários televisivos ou vendas de livros, mas pela procura do conhecimento, puro e simples", defendeu o jornalista, que apontou os blogues - e não os meios de comunicação tradicionais - como os locais de informação onde "mais uma vez" saíram as melhores notícias sobre o assunto.
"O problema com a apresentação da Ida é que foi demasiado grande em magnitude", desabafou o jornalista. "Algumas das declarações feitas pela equipa foram um absurdo, como compará-la à ida à Lua, à Mona Lisa ou ao Cálice Sagrado. Ela não é nada disso, mas é um fóssil verdadeiramente notável. Pessoalmente, acho que ela não precisa de nenhuma hipérbole, porque é impressionante."


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Só com guerras e muita gente é que ficámos "humanos"
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05.06.2009, Nicolau Ferreira


Dois artigos publicados na Science afastam biologia da origem do comportamento humano moderno


Aparentemente não foi a genética que proporcionou por si o comportamento humano moderno. Se não houvesse conflitos entre os grupos de caçadores recolectores e se a população de humanos anatomicamente modernos não aumentasse, seria difícil a manutenção do altruísmo e a aprendizagem de todos os aspectos culturais e simbólicos que nos tornam únicos, adiantam dois artigos publicados hoje na Science.
Fazendo as contas, levou no mínimo 70 mil anos até que pessoas com anatomia igual à nossa começassem a ter um comportamento moderno, "um salto radical na complexidade tecnológica e cultural, que torna a nossa espécie única", explica Adam Powell, autor de um dos artigos. "Isto inclui um comportamento simbólico como a arte abstracta e realista, instrumentos musicais, artefactos de marfim," explicou o investigador da University College London.
Os primeiros testemunhos desse comportamento aparecem na África subsariana há 90 mil anos - no continente de origem da humanidade. Perderam-se na mesma região há 65 mil anos, encontraram-se na Europa há 45 mil - pouco tempo depois de estas populações chegarem cá -, recuperam-se em África há 40 mil anos e foram surgindo pelo Médio Oriente, Ásia e Austrália.
A investigação relaciona este desenvolvimento cultural com a demografia. Os modelos mostram que sem um certo número de pessoas é impossível haver passagem do conhecimento sem a sua degeneração e é difícil que as inovações sejam aproveitadas e se mantenham nas populações. O estudo bate certo com o número de pessoas que se estima terem existido em África, Europa e Médio Oriente quando se deu a mudança cultural.
Por outro lado, Samuel Bowels, da Universidade de Siena em Itália, mostra no segundo artigo a importância dos conflitos entre estas populações para a manutenção genética dos comportamentos de altruísmo.
O altruísmo melhorava a produção e cooperação num grupo, além de proporcionar um número de pessoas prontas para combater. O resultado seria uma população mais capaz, com maior probabilidade de ganhar conflitos e ter mais descendência.

Tio-avô de Obama que ajudou a libertar o cam po de Buchenwald diz que visita do sobrinho é sobre tudo política
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05.06.2009, Maria João Guimarães




A Na Alemanha, Obama vai visitar o campo de trabalho forçado de Ohrdruf, que o seu tio-avô ajudou a libertar. Mas Charles Payne, 84 anos, não o acompanha nesta parte da visita. Talvez seja por, como disse numa entrevista à revista Der Spiegel, a paragem de Obama neste local não ter nada a ver consigo. "Escolheu esta viagem não por minha causa, claro, será por razões políticas."
Ou porque Payne prefere não recordar os "horrores" que viu na Alemanha em Abril de 1945: pessoas só pele e osso a morrer de fome, os cadáveres em pilhas no campo.
Payne deverá é estar presente na nas comemorações do desembarque dos Aliados na Normandia, em 1945. "Não sei se queria passar por isso", disse citado pelo Los Angeles Times. "Este é o aniversário de um evento heróico, e acho que pode ser agradável. Não acho que visitar um campo de concentração possa alguma vez ser agradável."
Charles Payne é irmão da avó de Obama, Madelyn, que morreu dias antes de ver o neto ser eleito o primeiro Presidente negro dos EUA.
A primeira vez que o tio-avô de Obama foi catapultado para o espaço público foi quando, no Memorial Day de 2008, Obama disse que ele tinha ajudado a libertar Auschwitz. "Nunca tínhamos falado desse episódio da guerra", conta Payne.
"A minha irmã e o marido eram ambos grandes contadores de histórias e às vezes inventavam alguns detalhes. Eles falaram-lhe da minha deslocação com a divisão de Infantaria 89 e devem ter confundido alguns detalhes. Claro que se soube imediatamente que eles se tinham enganado, porque há suficientes pessoas na América que sabem que Auschwitz é no Leste e que o campo foi libertado pelo Exército Vermelho."
Só depois desta confusão é que Obama e o tio-avô falaram sobre a sua experiência na libertação de um campo. "Contei-lhe que era em Ohrdruf, que era um subcampo do campo de concentração de Buchenwald. Descrevi um pouco do que tinha visto", conta, ainda na entrevista à Spiegel. Em Buchenwald morreram 56 mil pessoas.
"Já foi há muito tempo e até Barack se enganar eu não tinha pensado em nada disto por muito, muito tempo", disse Payne, agora reformado. "Prefiro não pensar [no que lá se passou]", concluiu.
Payne lembra-se sim de andar pela Europa numa unidade de Infantaria (era daltónico, portanto não o aceitaram na Força Aérea nem na Marinha) e de não saber onde estava. "Nós, os soldados de escalões mais baixos, não podíamos ter mapas ou guias, nada, para que, se fôssemos capturados, não pudéssemos dar informação ao inimigo", recorda. "Detestava isso, porque gosto de andar orientado."

quinta-feira, junho 04, 2009

Polémica em Itália
Este Cristo é ou não é de Miguel Ângelo?
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1384951
04.06.2009 - 09h05 Sérgio C. Andrade

Há uma forte polémica cultural e política em Itália: a pequena escultura de Cristo crucificado, que desde Dezembro tem sido exibida em diferentes cidades do país e vem mobilizando a curiosidade de dezenas de milhares de pessoas, foi ou não esculpida por Miguel Ângelo?

O Governo de Sílvio Berlusconi acredita que sim, e de tal modo que, no final do ano passado, decidiu mesmo comprá-la a um antiquário de Florença, por 3,25 milhões de euros. Sandro Bondi, ministro dos Bens Culturais, justificou a aquisição dizendo tratar-se de "um símbolo de valor universal", que se tornará também "um embaixador da cultura italiana no mundo".

Antes da compra, o Governo pediu a avaliação da peça a vários especialistas em História de Arte e da época do Renascimento, que viriam a confirmar a verosimilhança da atribuição da autoria ao escultor do David. E uma das primeiras figuras a poder admirar a obra em exposição foi mesmo o Papa Bento XVI, alguns dias antes do Natal, no Vaticano.

A peça em causa, representando Cristo no momento do último suspiro, esculpido em madeira de tília policroma, mas já sem a cruz de suporte, e com 41 centímetros de altura, surpreende pela sua perfeição e delicadeza, e também pelo realismo da anatomia humana, como ela começou a ser representada no Renascimento.

"Eu já vi centenas de crucifixos, mas este denota uma manufactura bem superior a todos os outros", disse à imprensa internacional Giancarlo Gentilini, historiador de Florença considerado um dos grandes especialistas italianos em arte do Renascimento, depois de ter realizado o estudo aprofundado da peça.

Com Gentilini fizeram coro vários outros especialistas de renome, como Umberto Baldini, Luciano Bellosi, Massimo Ferretti, Cristina Acidini Luchinat e António Paolucci, este na qualidade de director dos Museus do Vaticano, que defenderam a justeza da atribuição da autoria a Miguel Ângelo (1475-1564). Tratar-se-ia, então, de uma obra da juventude do artista, provavelmente esculpida entre 1492 e 1495.

Confortado com esta unanimidade - e também com a indesmentível beleza da obra -, o Cristo crucificado começou uma digressão por Itália, tendo já passado pela Câmara dos Deputados, em Roma (onde atraiu mais de 30 mil visitantes), por Trapani e Palermo, na Sicília, por Milão e Nápoles, até ao regresso a Florença, onde encontrará poiso definitivo no Museu de Bargello.

Contestação partiu de fora

Mas, subitamente, esta história de sucesso e de veneração transforma-se em polémica artística e política. E é curioso notar que o ruído que passou a ensombrar a digressão deste Cristo partiu de fora de Itália. Num artigo publicado em meados de Abril, o “New York Times” (NYT) dá voz a outros investigadores italianos, também especialistas em arte do Renascimento, que contestam abertamente a atribuição da autoria da pequena escultura a Miguel Ângelo.

Tomaso Montanari, um historiador de Nápoles, e Maurizia Migliorini, professora da Universidade de Génova, formam um novo coro, mas desta vez de oposição. E a polémica foi entretanto reforçada por uma reportagem feita pela BBC, há duas semanas, aquando da exposição do Cristo numa catedral de Nápoles.

A ausência de assinatura e de qualquer documento ou testemunho que sustente aquela atribuição é o principal argumento dos contestatários. E mais: eles vêem nesse processo "uma operação de propaganda" do Governo de Berlusconi e, em especial, do ministro dos Bens Culturais, "para tentar mostrar que este ministério existe", diz Maurizia Migliorini, uma das subscritoras de um comunicado público a denunciar o caso, citada pelo BBC. Os autores do documento falam mesmo de "manipulação política de um tema religioso" com o objectivo de favorecer a imagem do Governo junto da Igreja e do eleitorado católico.

Francesco Caglioti, professor na Universidade de Nápoles e especialista em escultura, diz, por outro lado, que é possível identificar "uma dúzia de artesãos do tempo do Renascimento capazes de fazer um Cristo como este", acrescentando mesmo que ele não valerá mais do que 100 mil euros. E todos contestam que o Ministério da Cultura tenha despendido três milhões de euros numa altura de crise e de redução no orçamento da Cultura, o que tem levado a que o património cultural do país esteja a ser descurado.

De 18 para três milhões

A avaliação da peça é, aliás, um dos pontos da polémica. Se fosse possível confirmar, objectivamente, a autoria da escultura - dizem estes especialistas -, ela valeria dez vezes mais do que os três milhões de euros pagos pelo Governo ao antiquário Giancarlo Gallino, que terá começado por pedir 18 milhões pela peça. O artigo do NYT refere mesmo que o negociante de arte tentara vender a escultura há já uns anos, quando o expôs na Casa Buonarroti (onde viveu e trabalhou Miguel Ângelo), em Florença, mas que, na altura, o director deste museu, Luciano Berti, apesar de ter considerado a peça "muito bela", pôs de parte que ela pudesse ser atribuída ao mestre renascentista, autor dos frescos da Capela Sistina ou da Pietà da Igreja de São Pedro, no Vaticano.

Para responder às críticas e refutar os argumentos apresentados, Cristina Acidini Luchinat garantiu à BBC que continua a defender a atribuição a Miguel Ângelo: "Estou tão segura disso quanto posso estar". Outro dos defensores desta tese nota que é muito natural que o jovem escultor, "para sobreviver", tivesse de fazer pequenos trabalhos como este. "Não podemos associar o nome de Miguel Ângelo apenas às obras-primas."

Analisando esta polémica à distância, o historiador de arte Vítor Serrão - que dela só conhece o que viu e leu na Internet - diz que a reputação científica de figuras como Giancarlo Gentilini e Cristina Acidini Luchinat o levam a aceitar como "credível" a atribuição da autoria do Cristo a Miguel Ângelo. Para além de que considera também a imagem "uma obra-prima" - "tem uma beleza, um rigor anatómico e uma expressão dramática" que rimam bem com a arte daquele mestre. "Olhando a fotografia, não estou a ver que isto possa ter sido feito por alguém que não tivesse a genialidade e o sentido humanista de Miguel Ângelo", acrescenta o professor do Instituto de História de Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, lamentando que não haja polémicas sobre autorias artísticas em Portugal.

terça-feira, junho 02, 2009

Detroit A cidade sem futuro
http://jornal.publico.clix.pt/
02.06.2009, Autor do texto


Parece Nova Orleães no pós-Katrina, mas por aqui não passou nenhum furacão. Fábricas esventradas, casas em ruínas, desemprego,
crime, desespero e vazio. A cidade que já foi dos
"Três Grandes" (General Motors, Ford e Chrysler)
vive uma morte lenta. Por Rita Siza, em Detroit



O centro comercial que ocupa os pisos térreos do quartel-general mundial da General Motors (GM), em Detroit, chama-se "Renaissance" e tem quase todas as lojas fechadas. A ironia e o simbolismo não passam desapercebidos nem aos mais distraídos: o complexo é o exemplo mais acabado do impasse em que vive a empresa e a cidade, ambas perdidas no fracasso do seu rico passado industrial e sem saber como reagir perante a perspectiva de um futuro incerto.
Nos corredores e patamares interiores das torres de aspecto vagamente futurístico há um constante movimento, mas não há barulho, não se sente vida. Os elevadores e escadas rolantes debitam pessoas que logo desaparecem de vista: para onde foram e como se sumiram tão depressa?
"Há quanto tempo se fala de renascimento... Andam a prometer-nos desde sempre que as coisas vão ficar melhores, mas eu só me lembro de tudo sempre a piorar", lamenta Clyde Allen, enquanto conduz o seu Oldsmobile pela deserta baixa de Detroit. À direita e à esquerda vai apontando para os esqueletos dos arranha-céus que, nas décadas de 20 e 30, rivalizavam com os que cresciam ao mesmo tempo em Nova Iorque.
O triangular Lafayette Building, um rebuscado edifício Arte Nova, está ao abandono. A dois quarteirões, o prédio antes ocupado pelo Detroit Free Press, um dos diários da cidade, está entaipado e coberto de graffiti. O neogótico Metropolitan Building, que foi dos maiores centros de joalharia do país, continua à espera que avance um projecto de reconversão em lofts de luxo. Está fechado desde os anos 80.
Mesmo os arranha-céus que ainda estão funcionais exibem uma decrepitude tal que mais parecem abandonados. O Ford Building tem um anúncio de aluguer em todas as janelas do rés-do-chão - aliás, parece não haver uma única construção na Baixa da cidade que não esteja para vender ou arrendar. As montras estão todas vazias: quase não há comércio, com a excepção de uns poucos balcões de comida rápida.
Avançando em direcção à periferia, para a Milha 8 [celebrizada pelo rapper Eminem no filme 8 Mile], ou mais ainda até à Milha 14, a paisagem é cada vez mais desoladora. O antigo estádio dos Tigers, a equipa de basebol da cidade, é um imenso lote vazio onde sobrou um quarto de bancada. Nos bairros residenciais, as casas estão escondidas por sebes de ervas daninhas. Há automóveis largados, queimados, nos passeios.
As ruas assustam no seu misto de vandalismo e negligência. As moradias que vão sendo abandonadas são imediatamente esventradas, primeiro vão as louças sanitárias e os equipamentos eléctricos, depois são as tubagens e canalizações, finalmente as caixilharias e os painéis de madeira. As fachadas enchem-se de tinta, ou então tornam-se negras, como pedaços de carvão.
Quarteirão atrás de quarteirão, circulando pela Chene Street, o cenário torna-se ainda mais desconfortável pela sua ridícula semelhança com um outro lugar de tragédia: parece que estamos no desfavorecido Lower 9th Ward de Nova Orleães depois do Katrina, com a única diferença de que aqui não passou nenhum furacão.
Mas nenhum outro edifício simboliza de forma mais autêntica a glória e decadência de Detroit como o Michigan Central Depot, a espectacular central ferroviária de estilo neoclássico que definha, solitária, entre dois ramais de auto-estrada.
Nos seus 18 andares não há uma única janela envidraçada. Fechada desde 1988, a antiga estação já esteve para ser reconvertida em casino, quartel de polícia e uma câmara de comércio internacional - nenhum desses projectos passou do papel. Em tempos, o abandono do edifício serviu de metáfora ao triunfo do automóvel sobre qualquer outro tipo de transporte colectivo. Hoje, é o ícone da "detroitificação", um novo termo da linguagem do urbanismo, que serve para descrever o declínio constante de uma região outrora próspera.
À espera
Como o resto de Detroit (e, para o caso, todo o estado do Michigan), o futuro do edifício está suspenso do Plano de Recuperação e Reinvestimento Económico lançado pela Administração Obama para estimular a economia e ultrapassar a recessão dos EUA. O financiamento estatal é o remédio que buscam tanto aqueles que querem salvar o edifício como os que defendem a sua demolição, mas nenhuma decisão foi ainda tomada sobre o destino da antiga estação. Como o Central Depot, também a cidade está à espera.
"Até pode ser que as coisas venham mesmo a melhorar, mas quem pode ficar à espera mais dez ou quinze anos para ver isso acontecer?", questiona-se Clyde Allen, que aos 46 anos de idade nunca viveu noutro lugar. "Os que têm filhos pequenos estão a ir, porque as escolas são uma porcaria. As ruas estão cheias de criminosos. As casas estão vazias. Na minha rua, em menos de um mês três moradias foram desocupadas. É só uma questão de tempo até que alguém lhes pegue fogo", diz. "Essa é a verdade. Por isso, a ideia de ir embora daqui passa-me frequentemente pela cabeça", confessa.
"Esta é uma cidade que para ser funcional exige dois milhões de pessoas, mas a população agora deve andar bem abaixo dos 800 mil", notou ao P2 Shawn Kwa, um artista gráfico que trocou Detroit por Chicago há mais de quatro anos e não tem planos para voltar. "Detroit tem todos os inconvenientes das grandes cidades mas nenhuma das vantagens. Viver aqui era muito difícil", lembra.
Ele e os amigos, todos ligados ao movimento da música techno (além da famosa Motown, Detroit foi o berço e sede deste género musical), recebiam constantes ameaças dos vizinhos, que não gostavam de ter uma casa ocupada por brancos num bairro predominantemente negro. Certo dia encontraram uma granada à porta de casa e perceberam que tinha chegado o momento de mudar.
"Antes disso, uma das nossas diversões era ver as casas a arder. Não havia um mês em que não ardesse pelo menos uma, às vezes mais. As pessoas saíam para a rua e ficavam a assistir ao incêndio, até não sobrar nada, só madeira queimada", conta.
Shawn e os amigos com quem partilhava a casa tinham-se decidido por aquele bairro da zona leste da cidade por causa do trabalho de Tyree Guyton, um excêntrico artista responsável pelo Heidelberg Project, uma gigantesca instalação urbana que se estende por toda a rua com o mesmo nome. Aí estão esculturas feitas com antigos aspiradores, carros de supermercado, partes de automóveis, bancos de jardim - são enfeitados com bolas coloridas, sapatos desirmanados, antigos telefones, uma imensidão de bonecos de peluche...
"Os vizinhos não gostam disto, acham que é um monte de lixo", explica Shawn, que estava em Detroit para um festival de música electrónica e levara a sua amiga Joyce a conhecer o projecto. "É junk-art", explicava, mas mais do que isso, dizia, "é um retrato perfeito desta cidade: um lugar abandonado, sujo, gasto, inútil", descreve. "Eu acho que este projecto é espectacular", aprecia.
Esta galeria aberta atrai milhares de pessoas ao bairro McDougall-Hunt (cerca de 275 mil visitantes por ano segundo o site oficial www.heidelberg.org), que percorrem o espaço com um sentimento divertido de espanto e uma sensação difusa de desconsolo, como Joyce. As instalações de Tyree não deixam de surpreender e provocar - como a decrepitude das casas e dos rostos daqueles que também vivem na mesma rua. Nas suas casas também há lixo à porta, só não está organizado por cores.
William Power, a mulher e os filhos vão usando as casas abandonadas de Detroit como abrigo. "Vivemos um pouco por toda a cidade", explicou ao P2, que deu com ele na Tri-Centennial Village, uma área de intervenção de 16 quarteirões da Habitat for Humanity, uma organização não-governamental de inspiração cristã, dedicada à reabilitação de áreas residenciais.
Como confessou Power, agora prefere ficar por aqui: desde que a organização se instalou na parte oeste da cidade e começou a trabalhar, o bairro está muito melhor. "Agora há mais pessoas a chegar do que a ir embora. Quando fechou a fábrica da GM na Michigan Avenue, o bairro ficou quase vazio. Mas agora temos gente nova, mães solteiras com filhos", notou, apontando o passeio cheio de crianças a correr.
A "casa de um dólar"
No selecto bairro histórico Boston-Edison, unanimemente considerado como o melhor sítio para viver em Detroit, as casas remontam ao início do século XX e estão razoavelmente bem tratadas. Do lote, destaca-se a residência em estilo revival renascentista italiano construída por Henry Ford em 1908. A sua actual proprietária, Marilyn Mitchel, tem um evidente orgulho na sua casa e na indústria que está na sua génese. "Não consigo imaginar este pais sem indústria automóvel, é ridículo", desabafa ao P2.
Outras coisas que Marilyn acha ridículas: a falta de polícia, que incentiva ao roubo e vandalismo, a irresponsabilidade das pessoas que continuam a insistir em guiar grandes SUV, a inexistência de visão e de liderança na sua cidade, a ganância das grandes corporações que nunca se adaptaram à evolução dos tempos... "As coisas estão muito más. Sinceramente, não esperávamos que o melt-down fosse tão grave", diz.
A sua zona rica da cidade não escapa à "detroitificação" nem sobrevive imune às atribulações mais recentes da economia americana. Marilyn e o marido formaram uma associação com outros moradores para tentar salvar do esquecimento e declínio algumas das construções mais emblemáticas do seu bairro. Em colaboração com outras organizações não-governamentais, gerem um projecto para adquirir e reabilitar 50 casas. Não conseguiram, contudo, resgatar a última casa do seu quarteirão, a última a ser fechada e com uma tabuleta a indicar que a hipoteca foi executada pelo banco. "Não acredito que a vendam tão cedo", lamenta Marilyn.
E a dois minutos deste relativo oásis, é outra vez a desolação. Na esquina das ruas Traverse e Murat, no número 8111, o P2 encontrou a (agora) famosa "casa de um dólar": uma moradia de três quartos que em 2006 valia 65 mil dólares e um ano mais tarde foi vendida pelo inimaginável preço de um dólar e ainda permanece entaipada, no mais completo abandono. Um dólar é o preço de uma pizza, ou de uma lavagem do carro na bomba de gasolina da Milha 14.
"Já não há esperança para essa casa, ninguém nunca mais vai pegar nisso", grita desde o outro lado do passeio Rob McKenzie, que está a pintar de vermelho os quatro degraus da escadaria que leva à porta da casa vizinha. Este foi o bairro onde nasceu e cresceu - a casa que está a ajeitar é onde vive a sua mãe, que, ao contrário dos filhos, se recusa a deixá-la: "É aqui a igreja dela, o supermercado... Ela já não se quer dar ao trabalho de conhecer um bairro novo", explica o filho.
Os filhos fartam-se de insistir. O panorama à volta é desolador. Em frente à "casa de um dólar" está outra moradia abandonada. "Dois dias depois de a família sair, a vedação metálica já tinha sido toda arrancada", diz Rob. As outras duas casas, imediatamente contíguas, também estão vazias. E ao lado ficam dois lotes onde cresceu um mato de ervas daninhas - há já muito tempo que as antigas construções foram demolidas sem que outras novas viessem tomar o seu lugar.
"Nos anos 60 este bairro era lindo", diz Rob, que antes avisara para a necessidade de manter a conversa curta e ir embora do bairro antes de anoitecer. Quando os McKenzie se instalaram, eram a única família negra no seu quarteirão. Actualmente não resta um único residente branco: saíram todos com os motins raciais.
Com o progressivo emagrecimento e encerramento das fábricas de automóveis, o bairro foi perdendo população e riqueza. Mas McKenzie não culpa a crise da indústria automóvel pelo estado a que chegou o seu antigo bairro e a sua antiga cidade. "Uma coisa destas não acontece de um dia para o outro. Não é a falência da GM que é responsável por esta situação. Isto está em decadência há décadas. Há vinte anos este bairro já era mau. Agora é muito pior. Quando muito, a falência dos fabricantes de carros é a última acha da fogueira que está a consumir Detroit lentamente", considera.
A implosão imobiliária de Detroit está bem patente nos crus números coligidos pela Michigan Association of Realtors: no primeiro trimestre de 2008, o preço médio de uma moradia na cidade era de 37 mil dólares. Este ano, o valor desceu para nove mil dólares, uma queda de 75 por cento que coloca o preço médio do square foot (a área standard para os americanos) na casa dos 20 dólares.
Como ironiza Clyde Allen, a situação chegou a um ponto em que "fica mais barato comprar uma casa do que um carro". "E, como sabemos, os carros também já não valem muito", repara.